31/12/09

Paz: a obediência voluntária

Desde 1968 que se celebra o dia mundial da paz no dia 1 de Janeiro. Celebramos geralmente o que não temos. Mas temos boas intenções. E é necessário “dar uma hipótese à paz”.
Continuamos a celebrar a paz porque, no tempo presente, há muita gente interessada na guerra.
Os acontecimentos belicistas e anti-democráticos em todo o mundo, mostram aquilo que se repete permanentemente.
A manutenção no poder dos regimes, sejam eles quais forem, de esquerda, de direita, religiosos ou ateus, parece repetir-se utilizando sempre a mesma forma de se fazer obedecer: a força.
Da antiguidade, um bom exemplo vem da Pérsia, actual Irão. O que aprendemos depois de Ciro ? O que há de novo que não esteja já na educação de Ciro ? [1]
Xenofonte, escreve o seguinte diálogo entre Ciro e Cambises, pai de Ciro e rei da Pérsia, sobre a obediência voluntária e sobre a obediência forçada.
“— Não há dúvida, o meio de fazer aceitar essa doutrina (da obediência) é honrar e fazer honrar o homem dócil e castigar rigorosamente o rebelde.
— A obediência à força pode obter-se por esses meios, meu filho. Mas o que se pretende é a obediência voluntária. De modo geral, os homens obedecem sempre de boa vontade àqueles que de qualquer modo se mostram prontos a atender aos seus interesses, conhecendo as suas necessidades bem ou ainda melhor que eles próprios…
…se os homens chegam a desconfiar que da obediência lhes vem macaca, não há castigos nem promessas que os tragam ao relho. Ninguém se deixa tentar por uma receita que se sabe ser funesta ou falaciosa”. (pag. 99).
Sempre foi assim: o poder instalado, pensa que é através da obediência forçada que consegue povos submissos.
Se no tempo de Ciro isso não acontecia, muito menos agora. Proíbem a net, há telemóveis, proíbem os telemóveis há sempre um filme, uma fotografia, uma testemunha, alguém que escapa… há sempre alguém que diz não ao poder da força.
Vivemos no tempo das mil e uma guerras.
Mas tal como na história das mil e uma noites, a história é interminável talvez porque assim nos parece que podemos sobreviver.
E nós havemos de contar a história, mesmo que seja apenas uma forma dilatória, como para Xerazade, porque enquanto há vida há esperança de que os humanos percebam que devem dar uma hipótese à paz.
Talvez que por força de se contar a história, como nas mil e uma noites, o rei tirano desista de atormentar o povo.
Mas atenção! O rei tirano pode estar escondido dentro de cada um de nós. E é por nós que a pacificação deve começar.
Um bom ano, com muita paz!

[1] Tradução de Aquilino Ribeiro, (1952), O Príncipe Perfeito, de Xenofonte, Lisboa: Livraria Bertrand, que tem um interessante prefácio ,“ao pio leitor”, sobre a educação.



24/12/09

«Porque é que que as pessoas gostam (ou não) da história do Menino Jesus»


O Natal remete-nos para a infância e para as memórias da infância.
Faz parte do nosso inconsciente colectivo vivido principalmente no seio da família ou das pessoas mais próximas da nossa família
Contra uma ideia que corre de que as pessoas são consumistas e, normalmente, quando fazemos esta afirmação ela é também uma atribuição porque consumistas são os outros, eu defendo que no Natal faz sentido que se consuma mais do que é habitual, obviamente dentro das possibilidades de cada um.
A essência do Natal passa pelos seus símbolos e o Natal está carregado de simbologia.
O símbolo é um processo mental que representa uma realidade externa por uma imagem.
O Natal é representado por vários símbolos, de que destaco, neste contexto de festa e felicidade: os presentes, a árvore de Natal e a culinária.
Não é possível pensar o Pai Natal ou o Menino Jesus sem pensar nos presentes.
E esta é a única maneira de compreender a situação de festa para as crianças.
Um presente é uma recompensa pelo bom comportamento da criança. Mas ela sabe que o Pai Natal não espera qualquer sentimento de gratidão ao contrário do que acontece com as outras pessoas.
Na árvore de Natal, é também o maravilhoso que está presente. A criança sabe que se trata de uma árvore real mas nenhuma árvore é semelhante àquela. A árvore que vê todos os dias no jardim de repente transforma-se numa árvore vinda do país das maravilhas.
A culinária: O jantar, a ceia de Natal, tem uma dupla componente de abundância e de comida e de reunião familiar em espírito de alegria e felicidade.
Sabemos que o medo das privações físicas e emocionais é algo que de forma inconsciente, corresponde às maiores ansiedades do homem.
A fome é a forma básica do abandono físico e a morte, e também, do abandono emocional.
A criança pequena não compreende a morte e não tem medo da sua morte, mas tem medo da morte dos pais, porque isso corresponde a um abandono permanente.
Um mesa farta combate a ansiedade da criança, tranquiliza-a, porque para além dos pais há muitos outros parentes que o podem cuidar.
O Natal é, assim, o tempo de recordações de felicidade.
João dos Santos fala-nos da recordação encobridora: “Um acontecimento cristalizado num bonito quadro. A árvore de Natal é prenhe de frutos radiosos, apetecíveis e em geral intocáveis, porque apenas celebram um nascimento e anunciam os presentes”
A ideia de recordação encobridora remonta às memórias esquecidas, que se originaram com o objectivo de deslocar ou substituir uma lembrança dolorosa por outra mais tolerável e feliz.
É esse o quadro captado pelos poetas, cheio de nostalgia de uma infância feliz ou talvez não, como nos relata Fernando Pessoa.


Natal

Natal…na província neva
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados

Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
Estou só e sonho saudade

E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei !

Fernando Pessoa (Cancioneiro)



(Bettelheim, B. (1994), Bons Pais - o sucesso na educação dos filhos, 2ª Ed. Venda Nova: Bertrand Editora ; Piaget, J. (1975), A formação do símbolo na criança, 2ª Ed, Rio de Janeiro: Zahar Editores; Santos, J. «Porque é que as pessoas gostam (ou não) da história do Menino Jesus», Jornal da Educação).

16/12/09

O Zé perpétuo


A lei nº 46/2005, limitou os mandatos dos autarcas a três mandatos .
O diploma foi apresentado pelo PS e foi aprovado por uma maioria de dois terços, em Julho de 2005 pelo Parlamento. O PCP foi o único partido que votou contra, O CDS/PP e o Partido Ecologista «Os Verdes» abstiveram-se.
O presidente da República de então, Jorge Sampaio, promulgou a lei em Agosto de 2005, tendo a mesma entrado em vigor a 1 de Janeiro de 2006.
As consequências práticas vão ter efeito nas eleições autárquicas de 2013, isto é, os presidentes de Câmara Municipal e da Junta de Freguesia só podem ser eleitos para três mandatos consecutivos, «salvo se no momento da entrada em vigor da presente lei tiverem cumprido ou estiverem a cumprir, pelo menos, o terceiro mandato consecutivo», pelo que poderão ser eleitos para mais um mandato.
Foi o que aconteceu nas eleições deste ano.
Na prática significa que são 12 anos de permanência no poder autárquico, em 2013, com a excepção referida.
Poderíamos pensar e esperar que a transição se faria com alguma turbulência mesmo que com a indicação dos delfins para preencherem os lugares.
Para alguns politólogos os aparelhos políticos irão «antecipar» a saída de cena de diversos candidatos autárquicas nas eleições de 2013. «O poder a nível autárquico aponta muitas vezes para mecanismos de sucessão dos presidentes, e as forças políticas procurarão encontrar novos candidatos próximos daqueles que sairão do poder».[1]
Por outro lado, o sistema político português está «muito envelhecido», motivo pelo qual diversos presidentes da Câmara, «verdadeiros caciques locais», contestam a aplicação do diploma que restringe o número de mandatos. [2]
O jornal “Sol” desta semana traz uma notícia que, a concretizar-se, mostra bem o país que alguns querem: os autarcas movimentam-se contra a limitação dos mandatos, insurgindo-se contra a lei e propondo um referendo.
Eu já desconfiava e comentava com os amigos: vais ver se não alteram a lei antes das eleições de 2013...
Bem dito, bem feito… Aí estão eles a caminho da manutenção no poder para sempre. Para sempre ou até caírem da tripeça.
Na cidade onde estudava, antes do 25 de Abril, no tempo do fascismo, ou da outra senhora, o sr. presidente da câmara era conhecido pelo "Zé perpétuo".
Mas isso era antes do 25 de Abril.
Agora, que vivemos em democracia, estamos cansados de ouvir dizer que já não há empregos para sempre. Isto é verdade para qualquer mortal, excepto para os autarcas, a confirmar-se que conseguem alterar a lei, que esses, sim, vão ter emprego para sempre.

[1] António Costa Pinto(Lusa/Sol)[2] José Adelino Maltez (Lusa/Sol)

11/12/09

NEE - 1,8%

(L. Capucha - Encontro temático Educação Especial - Escola Inclusiva e Educação Especial, DGIDC - 7 /Junho/2008)

Luís de Miranda Correia (Revista "2 Pontos", n.º 10, Outubro 2009, p. 41 - ver Incluso) refere os erros do anterior ME no que diz respeito à Educação Especial.
1º erro: O ME afirma que o número de alunos com NEE é de 1,8% da população estundantil total. Por pura ignorância ou, quem sabe, por razões economicistas, desconsiderou a maioria desses alunos. Este é um facto irrefutável, embora só se possa comprovar quando o ME resolver fazer estudos de prevalência fidedignos ou os encomende às universidades.

Já fizemos várias referências a esse aspecto. Vejamos como o ME respondia (Ver http://www.min-edu.pt/outerFrame.jsp?link=http%3A//www.dgidc.min-edu.pt/)

Questão 15
Para que fins deve ser tida em conta a taxa 1,8% de prevalência das necessidades educativas especiais de carácter permanente?
Resposta 15
O valor de 1,8% para a taxa de prevalência não resulta de uma verificação empírica, mas de uma projecção de variáveis destinada a construir uma referência cientificamente sustentada da proporção esperada de alunos, relativamente à população escolar na faixa etária que abrange o pré-escolar e os ensinos básico e secundário, que apresenta necessidades educativas especiais de carácter permanente requerendo, por isso, apoios especializados previstos no DL 3/2008.
O valor 1,8% a utilizar para efeitos de organização do sistema não se refere à incidência do fenómeno. Neste sentido, a utilização deste valor de referência verifica-se em “situações tipo”, e não em situações de concentração de alunos, como acontece nos casos de escolas de referência ou com unidades especializadas. Por outro lado, não é a taxa em si mesma, mas a adopção dos procedimentos de diagnóstico que estão disponíveis, que realmente importa. Por outras palavras, não se pretende usar aquele valor como nenhuma espécie de “tecto”, sendo dever do sistema olhar os alunos caso a caso. O valor de referência apenas deverá permitir análises mais finas quando as prevalências se afastem desse valor.
A elegibilidade para medidas de educação especial pressupõe, sempre, um processo de índole pedagógica e não estatística, assente numa avaliação rigorosa do perfil de funcionalidade do aluno que permita identificar as respostas educativas que melhor se adequam às necessidades educativas especiais evidenciadas.

Afinal, o processo é de índole pedagógica ou estatística ?




09/12/09

Verdade

Aquecimento global ? Hoje ouvi outra versão na RTP, finalmente. Não sei se foi a primeira vez que isso aconteceu. Mas cada dia se torna mais audível o silêncio de outras opiniões.
Ver, p.ex. , aqui, aqui ou aqui.
A opinião plural também dá um bom ambiente.

02/12/09

Shakira e o jardim de infância


Durante a cimeira ibero-americana, a cantora Shakira apelou aos países ibero-americanos para que dêem atenção aos cerca de 35 milhões de crianças na América Latina que não recebem qualquer tipo de educação escolar. E deixou o apelo à mobilização de todos para que se garanta a educação das crianças na América Latina antes dos seis anos.
Toda a infância, e em particular as idades dos 0 aos 6 anos, é considerada um período crítico para o desenvolvimento.
O currículo do jardim de infância [1] tem como pano de fundo a actividade da criança que proporciona a experiência física da natureza, do meio que a rodeia e que ela vai explorar no maior número possível de situações. Quando começa a linguagem e os porquês, aprende o nome das coisas, o que elas são e depois compreende a origem dessas coisas.
No dia 27 de Agosto foi promulgada a Lei nº 85 /2009, da Assembleia da República.
Esta lei contempla a universalização da educação pré-escolar aos 5 anos de idade, a partir do ano lectivo 2010/2011.
Por outro lado, a escolaridade básica será prolongada até aos 18 anos ou até final do ensino secundário, ou seja, a educação, no nosso país, abrangerá as idades entre os 5 e os 18 anos.
Parece-me que não há ninguém que discorde destas medidas. Desde há muito que se preconizavam e também temos defendido o alargamento da educação no jardim de infância a partir dos 3 anos de idade.
Se queremos que a criança se desenvolva pessoal e socialmente;
Se queremos promover a igualdade de oportunidades;
O desenvolvimento da expressão e comunicação;
O desenvolvimento da curiosidade e o pensamento crítico;
Fazer o despiste de deficiências e perturbações comportamentais;
Prevenir futuras dificuldades nas aprendizagens;
Então, a melhor forma de o conseguirmos é fazer com que todas as crianças frequentem o jardim infância.
É, por isso, que o jardim de infância é uma necessidade e deveria ser um direito para todas as crianças.
A medida peca por atrasada e por ser muito limitada dado que, conforme o próprio parecer do Conselho Nacional de Educação (CNE) refere, “na maioria dos países da UE a preocupação com a oferta de educação de infância tem vindo a recuar na idade reconhecendo-se, hoje, quer a partir de estudos neurológicos e psicológicos, quer de natureza sociológica, a importância do desenvolvimento infantil a partir dos zero anos”.
“Revela -se uma tendência generalizada para uma total cobertura da faixa etária dos 3 aos 6 anos de idade, procurando que todas as crianças tenham, pelo menos, dois anos de experiência pré -escolar antes da entrada na escolaridade obrigatória.
Por outro lado, deve haver “alargamento progressivo dos serviços destinados às crianças dos 0 aos 3 anos de idade, de acordo com as necessidades das famílias que trabalham, aliado à promoção de mais amplas licenças de maternidade e paternidade e, simultaneamente, à garantia da qualidade educativa das estruturas de atendimento”.
Esta medida é, portanto, muito positiva. Tal como o apelo de Shakira esta é, também, outra música para os nossos ouvidos.

[1] Hohmann, M., Barret, B. e Weikart, D. (1992), A criança em acção, 3ªEd., Lisboa: Fundação Kalouste Gulbenkian.

25/11/09

Danos centrais


Conhecemos o que são os chamados danos colaterais quando falamos de guerras, quando falamos de catástrofes, ou quando falamos de processos em tribunal… No entanto, não é frequente falar-se dos danos centrais.
Esses danos, de alguma forma, mesmo não esperados, quando acontecem parece que eram expectáveis e não são tão importantes como os colaterais.
Mas não nos podemos esquecer que são vidas humanas que estão em jogo.
Os portugueses estiveram envolvidos em três guerras em África.
Todos sabemos o que aconteceu.
Sabemos que entre mortos e feridos alguém escapou.
Porém, alguns dos que escaparam, escaparam mal. Ou na altura da guerra ou mais tarde continuam a viver esse doloroso traumatismo.
Eu vi partir alguns soldados do meu pelotão. Foram evacuados devido a uma completa desadaptação à situação de guerra.
De facto, muitos militares que estiveram no teatro de guerra sofrem de «stress» pós- traumático.
E acontece que, nós por cá, não queremos saber. Não queremos ver o que se passou e continua a acontecer debaixo dos nossos olhos
Despertamos da letargia quando uma reportagem na comunicação social nos alerta para isso…
Em França discute-se, neste momento, o que é ser francês. E em Portugal, o que é ser português ?
Será que isso não é importante em Portugal ?
Queremos ou não forças armadas ? E, se queremos, não nos incomodamos com os danos centrais ?
Tratamos mal as pessoas que deram o seu melhor por este país …
Os danos centrais estão aí e são visíveis. Se há ex-militares que conseguiram adaptar-se e têm uma vida confortável há outros que nunca mais conseguiram encontrar o equilíbrio e que nunca mais se integraram na vida social e familiar.
Há alguns ex-militares sem-abrigo que continuam a viver, a sobreviver, como se estivessem no mato.
Há outros que todos os dias têm insónia e que não conseguem ter sossego.
Os cheiros, os sons, os rebentamentos, os gritos, a espera pela evacuação e a vida dos camaradas a terminar sem nada se poder fazer rebenta nas suas cabeças e nas memórias que não se consegue apagar.
Tratamos mal estas pessoas. Foi-lhes atribuída uma pensão extraordinária quase insignificante. Porém, alguns viram essa pensão reduzida este ano.
Alguns lutam para terem direito apenas a cuidados de saúde e, principalmente, a cuidados de saúde mental.
É uma luta que dura há mais de trinta anos.
Mas pode ser que haja alguém que se lembre do sofrimento das pessoas que foram militares, mais de três décadas depois de ter terminado a guerra.
Em 21 de Novembro, o secretário de Estado de Defesa Nacional e dos Assuntos do Mar, revelou que o Ministério da Defesa está a preparar a revisão da Lei dos Antigos Combatentes e assinou um protocolo entre o Governo e associações de ex-combatentes que visa tornar céleres os processos por «stress» de guerra.
O protocolo, abrange 140 mil ex-combatentes com problemas psicológicos, dos quais 40 mil sofrem de «stress» pós-traumático…
Nunca é tarde para fazer bem, para fazer o bem… e repor a justiça aos que sofreram os danos centrais de uma guerra que o país lhes impôs.


Niassa fundeado ao largo de Bissau (1973)

18/11/09

Reformas do sistema educativo

Que mudança, que reformas ?
Mudam-se os tempos, mudam-se os ministros, com algumas, poucas, novidades. Mas novidades não quer dizer mudança, em todos os casos.
Do mal que foi feito, restarão mágoas, tempos instáveis, carreiras perturbadas e interrompidas antes do seu termo natural e previsível.
As reformas ou são para as pessoas ou não são reformas nem mudança.
Ao contrário do que alguns pensam, a luta pela educação, pelo direito à educação é de sempre.
Ganhando sempre novidades. Mesmo que disfarçadas de muito progressismo, igualitarismo e do fim da necessidade de lutar por ela.
Milton Schwebel, em 1968, em Who can be educated ?, já lá tinha chegado: "o recurso a bodes expiatórios é a saída para alguns em tempo de crise: «a culpa é dos professores»". Atribuir ao professor a falha da educação, que podia chegar ao ponto de contar para a sua avaliação, tansformando-o em burocrata atascado em papelada e tarefas administrativas, era (espero que seja passado) o modelo de professor que se pretendia.
Este comportamento "ocorre em resultado da interacção e identificação com aqueles que nas escolas, defendem tais valores e crenças, e em resultado do desejo de segurança, status e aprovação que os que exercem o controle estão em posição de conceder ou retirar. Os professores correspondem às expectativas dos que manejam o poder".
Não, "a novidade" é que já naquela altura tudo isto levou à desistência de se poder confiar nas próprias capacidades dos professores para educar os alunos.
E depois de tantas reformas, contra-reformas, ou nenhuma reforma, nada chega a sedimentar, nada chega a ser avaliado.
De repente, fica tudo sem efeito e é substituído por modelos que alguns iluminados "descobriram" e por "novos" projectos de peritos nacionais ou estrangeiros que propõem formas de organização ou modelos que devem ser adoptados...
E lá voltamos às novidades em tudo diferentes da esperança.
Cada ministro, sua reforma, ou seja, mais uma reforma avulsa, porque sim, sem sentido e mais uma oportunidade perdida.
E lá voltamos às novidades em tudo diferentes da esperança.
As necessidades de que fala Schwebel mantêm-se hoje. Têm a ver com o dinheiro investido, os dirigentes do sistema, as lideranças educativas, a qualidade do ensino, a formação dos professores, o sistema de avaliação dos alunos, o conceito ampliado de escola, isto é, as relações escola comunidade e pais mais interessados.
Esperamos que desta vez a mudança ganhe novas qualidades.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidade.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem se algum houve as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

Camões

14/11/09

A lei dos homens e a lei da justiça

BONNE JUSTICE


C'est la chaude loi des hommes
Du raisin ils font du vin
Du charbon ils font du feu
Des baisers ils font des hommes

C'est la douce loi des hommes
Se garder intact malgré
Les guerres et la misère
Malgré les dangers de mort

C'est la douce loi des hommes
De changer l'eau en lumière
Le rêve en réalité
Et les ennemis en frères

Une loi vieille et nouvelle
Qui va se perfectionnant
Du fond du coeur de l'enfant
Jusqu'à la raison suprême
PAUL ELUARD
(Poèmes)


Boa justiça
É a quente lei dos homens / Fazem das uvas o vinho / Do carvão fazem
o fogo / Dos beijos fazem os homens / É a doce lei dos homens / Conservarem-se
apesar / Das guerras e da miséria / E dos perigos de morte. / / É a doce lei dos
homens / Transformar a água em luz / O sonho em realidade / Inimigos em
irmãos. / / Uma lei já velha e nova / Que se torna mais perfeita / Do coração da
criança / Até à razão suprema.
(Maccio, C. (1977), Animação de grupos, Lisboa: Moraes Editores)

20/09/09

Verdade

"O tempo das verdades plurais acabou. Vivemos no tempo da mentira universal. Nunca se mentiu tanto".
José Saramago, 19/4/2008, Tabu, nº158 18 Set 2009

"Nunca se mente tanto como em véspera de eleições, durante a guerra e depois da caça".
Otto Bismark (estadista alemão 1815-1898), Público, 19/9/2009

06/09/09

Verdade

Sobre o fecho do Jornal Nacional de Sexta dizem: Não houve censura, foi tudo um acto de gestão .
Sem dúvida. É a mais pura das verdades. Os portugueses estão todos em idade de creche, Portugal é o Jardim da Celeste e vivemos todos no mundo da abelha Maia: "Maia voa sem parar, no teu mundo sem maldade..."

Como diz Francisco José Viegas (A Origem das espécies, Domingo, 06.09.09) -" Outros tempos, mas a mensagem está lá.
Mário Soares percebeu à distância o que se estava a tramar. Por isso, ele que não achou que fosse censura o facto de Hugo Chávez ter encerrado uma estação de televisão na Venezuela, também acha que o silenciamento do ‘Jornal Nacional’ da TVI é um mero acto de gestão interna. Ou seja: desdramatizou o assunto porque sabe que é matéria sensível. Se Soares estivesse na política activa, Sócrates já tinha sido dizimado – porque a oportunidade é de ouro e um velho e experiente democrata sabe sempre onde dói mais. Com Soares em boa forma, o ‘caso TVI’ transformava-se em ‘caso República’. Aprendizes, é o que é."

04/09/09

Verdade

É verdade. Fecharam o Jornal Nacional de Sexta-Feira (TVI).
É verdade.


"Dói-me a boca de silêncio
e vou gritar
- nesta noite de lua mole
a dobrar-se nos telhados
inertes de bafio...
...
Gritar, ouviram ?
Gritar esta alegria de não sentir ainda terra na boca.
Gritar esta Labareda enfim fora dos olhos!"

José Gomes Ferreira, Poeta militante

28/08/09

As listas

  
Junho de 1871.
“Lentamente a lista da maioria vai-se formando em Lisboa: os pretendentes são numerosos, intriga-se, pede-se, alcançam-se cartas, mente-se, lisonjeia-se, adula-se. Os amigos íntimos agitam-se em volta do ministro, como um bando de pardais em torno de um saco de espigas. Um tem um primo que casou; outro sabe de um folhetinista que tem talento e a língua fácil; outro quer um cunhado; outro tinha um homem a que deve uns centos de mil reis, mas dispensa a candidatura para esse ladrão se o ministro fizer esse ladrão recebedor de comarca. Depois os círculos não são prometidos fixamente: os candidatos são mudados como figuras de um jogo de xadrez. A um a que se prometeu o círculo A, dá-se o governo civil de B – como indemnização. Tira-se a C a candidatura prometida porque se descobre que C é um traidor, pertence à oposição. Mas dá-se a E que foi quem denunciou C. Às vezes é um influente pelo círculo X, que, em paga da sua influência, pede que seu genro venha pelo círculo Z, onde é proprietário.
- Mas o círculo Z está prometido a Fulano, que é um professor distinto, um publicista. Seu genro tem pelo menos algum curso ?
- Meu genro não tem curso nenhum - mas eu tenho influência. O jornal da localidade já provou que ele era um animal – meu genro espancou a direcção. “

Eça de Queiroz, Ramalho Ortigão, (2004), As Farpas – Crónica mensal da política, das letras e dos costumes, PRINCIPIA, Publicações Universitárias e Científicas, pag. 58.

24/08/09

Que mil Santana Lopes floresçam...

Para uma Lisboa com Sentido, continua a fazer sentido o que o Prof. Amaral Dias escreveu:
“A nosso ver, os protagonistas, sendo raros, não deixarão de ser exemplares. Santana Lopes é indiscutivelmente um deles. Mas, sobretudo, pelo seu carácter antifóbico, visível na capacidade para o risco, o que o torna mais apto às decisões criativas e inovadoras. Essa capacidade numa Lisboa sempre sequiosa de ser como o mar ali vizinho, sempre igual e sempre diferente, desde que balizada, poderá oferecer para os mais chocantes problemas (toxicodependência, Sida, violência social, políticas para os sem-abrigo, etc.) soluções verdadeiramente desburocratizadas, inovadoras e criativas, com o mesmo afinco para o que poderão parecer problemas menos chocantes, nomeadamente culturalizar, no sentido verdadeiramente popular, a cidade. A subjacência de Eros, que faz a filigrana do seu discurso, deve ofuscar sadiamente o cinzentismo que faz a política nacional, da qual utilizei deliberadamente na primeira parte do texto, o que pode parecer paradoxal mas não é, um dos mais inteligentes políticos portugueses da actualidade.
Mas o que o Portugal de hoje precisa é que «mil Santana Lopes vindos de todos os quadrantes floresçam» para que a diferença mil vezes floresça.”[1]

[1] “Ó Lopes empresta o lápis…” in Carlos Amaral Dias (2003), Um psicanalista no Expresso do Ocidente, Temas e Debates – Actividades Editoriais, Lda , pags 198-200.

11/08/09

Camisola 9


Toda a nossa vida é comunicação. Sabemos que não é fácil comunicar mas também sabemos que não é possível não comunicar.
Porque quando não comunicamos através da linguagem verbal, comunicamos através da linguagem corporal sendo o nosso corpo a manifestar os sintomas do que está bem ou mal connosco, ou comunicamos através do silêncio ou através dos sinais e dos sintomas que manifestamos. A comunicação é tudo o que ocorre entre as pessoas, em suma, nas transacções entre as pessoas.
A transacção é a unidade de acção social, que envolve um estímulo e uma resposta.
É como comunicamos uns com os outros, é o relacionamento interpessoal.
Mas as transacções são influenciadas pelos papéis que desempenhamos no teatro da vida, como refere Shakespeare:
"O mundo é um palco
e todos os homens e mulheres apenas actores;
Eles têm as suas saídas e entradas
Cada homem no seu tempo representa muitos papéis
" .
Sem querermos ou sem sabermos, estamos, através da comunicação, a transmitir scripts ou guiões aos nossos filhos.
Neste palco que é a vida cada um de nós tem um guião psicológico, um roteiro de telenovela, ou um argumento teatral.
O drama da vida começa ao nascer.
As instruções do guião são programadas dentro da criança por meio das transacções com as figuras parentais.
À medida que crescemos, aprendemos a desempenhar papéis: Heróis ou heroínas, vítimas ou justiceiros. E procuramos que outros façam os outros papéis do guião.
Há guiões para os indivíduos, para as famílias e para os países.
Cada indivíduo tem o seu próprio guião que por seu lado tem elementos do guião cultural e familiar.
O guião cultural é responsável pela exploração económica, pelas guerras civis, pelos suicídios, homicídios, superpopulação, alteração do equilíbrio ecológico.
Há ainda guiões subculturais que têm a ver com o local geográfico, antecedentes étnicos, crenças religiosas, sexo, educação, idades…
Todos os dias na comunicação social assistimos, infelizmente em muitos casos, à concretização destes guiões culturais e subculturais.
Os guiões familiares, por seu lado, perpetuam os guiões culturais: O filho que é a ovelha negra da família, viver de subsídios, pais que não cuidam dos filhos e filhos que não cuidam dos pais.
Ou, pelo contrário, o filho que é o camisola 9 do Real Madrid.
Este guião individual é, relativamente ao êxito, o de um vencedor.
Dado que assume riscos, certamente calculados, se compromete a atingir as metas a que se propõe.
Socialmente os vencedores são pessoas firmes nas suas decisões, confiáveis, lutam pelos seus objectivos com tenacidade.
"Cumpri o meu sonho de menino", isto é, cumpri o guião de vencedor.
A camisola 9 é um guião que alguns gostam de mostrar, publicamente, porque se identificam com esse guião. Porém, não é o seu próprio guião.
Poucas pessoas são totalmente vencedoras ou perdedoras sendo que a maioria dos indivíduos triunfa em alguns aspectos e perde em outros.
Mas em grande parte ser vencedor depende da comunicação, das transacções, que na nossa infância tivemos com os nossos pais. Se o guião for de vencedor então podemos cumprir o nosso sonho de meninos.

01/08/09

Mentir, mentir, mentir…

Ao longo da nossa vida temos encontrado pessoas que mentem.
Algumas mentem por algum constrangimento ou medo.
Algumas não o fazem com grande frequência e também não prejudicam ninguém.
Muitas vezes acontece com familiares e amigos e também aí não temos grandes problemas.
Mas às vezes, encontramos pessoas que mentem constantemente. Pessoas que mentem de forma compulsiva e não têm uma razão aparente para fazê-lo, são conhecidas como mentirosos patológicos.
Será que para se ser político tem que se ser mentiroso ? Um político que fale verdade poderá alguma vez ganhar eleições ?
Não somos nós que gostamos que nos enganem ? E votamos exactamente em quem nos engana ?
Às vezes por detrás de qualquer mentira, há uma intensa necessidade de ser aceite e amado. Veja-se o caso da mentira amorosa em que se promete tudo ao amado ou à amada só porque se tem necessidade de afecto.
Chegamos mesmo a enganar o espelho e fazemos uma plástica para que, não aprovando o que vemos, nos possamos sentir admirados.
Mas muitos mentirosos, patológicos, não ficam contentes apenas em dizer mentiras. Eles vão um pouco mais além. Transformam as suas vidas numa mentira.
Chega a haver situações, em que o indivíduo adopta uma identidade completamente diferente daquela que realmente possui.
Um terço dos mentirosos patológicos adopta identidades falsas, mentem sobre a idade, mentem sobre a sua profissão, sobre os seus familiares fingindo que descendem de famílias importantes.
Os mentirosos patológicos são as pessoas mais atraentes que podemos conhecer.
São especialistas no engano e na fraude e não demonstram emoções ou ficam perturbados quando mentem.
Mas quais são as origens da mentira ? O que leva as pessoas a mentir ?
Tudo começa na nossa infância. Pode acontecer que essas pessoas ficaram com receio de serem abandonadas pelos pais, muitas vezes instáveis.
Podem ser pessoas que passaram por situações de abuso em que foram envergonhadas e submetidas a vexames muito grandes.
Muitas delas, começaram a mentir como forma de se protegerem das ameaças e da culpa.
Por outro lado, a mentira é aprendida. E se é aprendida, é aprendida com alguém. Desde logo, esse tipo de mentirosos nasce e cresce em famílias onde são vítimas de uma infinidade de decepções, mentiras e fraudes.
A modelagem a que ficam sujeitos vai modificar os seus comportamentos. Para lidar com a realidade dura da sua vida, começaram a utilizar um mundo mágico de fantasias, ou seja, um mundo de negações.
Outros mentirosos cresceram com uma auto-imagem miserável e a mentira é uma forma de fortalecerem a sua auto-imagem contando histórias grandiosas que servem como compensação para as suas dificuldades.
E temos muitas vezes, na criança, o mitómano, e nos adultos, o impostor que se faz passar por quem não é e por aquilo que nunca foi.
A mentira é um comportamento autodestrutivo porque, ao mentir, o sujeito nega-se a enfrentar as suas dificuldades e assim, vai perpetuá-las.
Além disso, a verdade vem sempre ao de cima, mesmo que isso leve muito tempo a acontecer.
Mas acontece. Pelo menos vai ser verdade para o próprio mentiroso.

28/07/09

Antes oportunidades agora que novas oportunidades depois

No final do ano lectivo, surgem várias opiniões sobre os resultados da avaliação.
Este foi um ano difícil pelas condições que foram criadas às escolas e ainda bem que algumas mudanças não foram concretizadas. Mesmo assim, estamos com muita vontade de ir de férias.
A ideia de que fazer reformas é muito bom e positivo, não é de todo verdadeira.
É necessário fazer reformas que sejam aplicáveis e que melhorem, de uma maneira geral, a vida das pessoas e, neste caso, a vida das escolas, dos alunos e das famílias.
Mas o final do ano implica tomar decisões importantes para a vida dos alunos.
Não podemos confundir querer com poder. Embora também digamos que querer é poder, há limites para essa sugestão, seja auto-sugestão ou hetero-sugestão.
A ideia de que todos podem concluir o ensino básico ou o secundário é muito generosa mas sabemos que não é assim. Principalmente se pensarmos que se conclui o básico ou secundário cumprindo, pelo menos, os objectivos gerais do 3º ciclo ou do secundário.
Devia ser claro o que é uma coisa e outra. A sociedade devia saber o que resulta de determinados regimes educativos e que as consequências são diferentes.
Frequentar a escolaridade obrigatória é uma coisa, concluir com aproveitamento o 9º ano é outra bem diferente.
O conselho de turma deve analisar a situação dos alunos que se encontrem numa situação de retenção ou retenção repetida, no sentido de decidir se mais uma retenção será uma medida ajustada àquele aluno.Será que o aluno quer e não pode ou pode e não quer?
Muitas vezes usamos caracterizações que não explicam grande coisa: não estudam, não se interessam, tem problemas de memória, tem problemas de atenção, é hiperactivo, é preguiçoso, não anda com boas companhias…
Há muitos alunos que chegam ao SPO ou ao Gabinete de Psicologia com essa classificação: têm capacidades mas não as aproveitam.
Esta conclusão pode ser falsa.
Há pais que não querem ver a realidade e, por isso, negam as dificuldades e problemas de aprendizagem dos filhos, culpam a escola, os professores e técnicos da escola de não serem capazes de os ensinar ou educar.
Há alunos que têm capacidades cognitivas mas não têm as restantes ferramentas indispensáveis para aceder ao saber. Ou seja, apresentam dificuldades de leitura ou escrita.“Existe uma relação fortíssima entre a compreensão leitora e o sucesso escolar. O que acontece é que, frequentemente, os alunos, apesar de terem capacidades, não conseguem extrair o significado daquilo que estão a ler. Em muitos casos até descodificam textos muito facilmente, mas na verdade não sabem ler porque apesar de dominarem a técnica da descodificação não dominam a da compreensão”. [1]
Esta questão coloca-se com alguma acuidade em alunos que chegam ao 7.º ano de escolaridade e que não dominam a leitura.
O aluno pode querer ultrapassar as suas dificuldades, mas não saber ler é uma barreira de tal forma limitativa que o vai desmotivar e desinteressar das actividades académicas.E, penosamente, vai arrastar-se pelo 3º ciclo com insucesso, instabilidade e problemas de comportamento, deixando de estudar logo que possa.
Apesar de já haver algumas respostas alternativas, são ainda escassas e muitas vezes reservadas a alunos com determinadas características cognitivas e comportamentais, não correspondendo a uma correcta orientação escolar que tem em conta os interesses e as competências do aluno.
É necessário dar oportunidades, agora, a estes alunos e não oferecer-lhes novas oportunidades daqui a cinco ou dez anos.

[1] Adriana Campos (2009-05-27), Educare.pt - Ver aqui .

08/07/09

Uma pessoa é o sol, o mar, o pai e a mãe

1. Pedi a uma criança para fazer um desenho de uma pessoa. Perguntei-lhe o que tinha desenhado; respondeu que era “o sol, o mar, o pai e a mãe”.
Percebi, desta forma, o que era uma pessoa e o que era mais importante para a criança.
No princípio, era a água e o fogo. O mar e o sol. O líquido indispensável à vida. O fogo, a experiência fascinante que se perde no tempo e que ainda hoje continua a ser uma experiência infantil.
Importante é procurarmos na água o nascimento de um ser que parte para a grande caminhada da vida levando sempre as memórias da infância. Como Eugénio de Andrade em CANÇÃO INFANTIL:

Era um amieiro.
Depois uma azenha.
E junto um ribeiro.

Tudo tão parado.
Que devia fazer?
Meti tudo no bolso
para os não perder

E também procurar no fogo aquilo que quebra o gelo. O fogo do diálogo. Que começa por ser o diálogo corporal e que se prolonga no diálogo musical.
Mozart, Brahms, Tchaikovsky, tão próximos de uma canção de embalar, que é a mais bonita canção de amor entre dois seres: mãe -filho.
A música está no corpo do bebé que é o seu primeiro instrumento; está nos primeiros esforços que faz para galrear e balbuciar. Ela é ritmo antes de ser melodia. E como se sabe, para um bebé a primeira melodia é a voz da mãe, voz doce que se confunde com a voz mais dura do pai ... e ambos cantando-lhe o seu amor.
A criança não precisa de compreender as palavras para se sentir calma e feliz.
Antes da invenção dos instrumentos, os efeitos do canto vocal foram explorados pelo homem para fins precisos: o acalmar das crianças agitadas é o mais espalhado pelo mundo.
A canção de embalar acompanha a voz com movimentos da cabeça ou das mãos … estímulos visuais, que sincronizados com o canto, contribuem para a indução da calma, e são ainda reforçados pelo balanço do berço, que assim aumenta o efeito hipnótico do canto dirigindo-se ao sistema somestésico da criança.
2. Depois uma pessoa é o pai e a mãe, a família. A autoridade dos pais como modelo e como responsabilidade.
A autoridade dos pais baseia-se na vida e no trabalho dos pais, a sua personalidade de cidadãos, o seu comportamento.
O trabalho paterno deve consistir em saber como vive, de que se interessa, do que gosta e o que quer o seu filho. Quais são os seus amigos, com quem joga, o que lê e como assimila o que lê. Qual a sua atitude face à escola, aos professores, quais são as suas dificuldades, como é o seu comportamento nas aulas.
A ajuda dos pais não deve ser inoportuna, enjoativa e fastidiosa mas deve ser responsável. É necessário que a criança às vezes resolva os seus problemas sozinha e que se habitue a ultrapassar dificuldades e resolver questões complicadas.
As férias de Verão podem ser um tempo para esta experiência educativa pois têm todos estes ingredientes : o mar, o sol, o pai e a mãe.

04/07/09

Professores salvadores


Foi publicado, em Abril de 2009, o livro de Daniel Pennac “Mágoas da escola”[1]
É um livro que relata a história de um mau aluno mas que acaba por se tornar professor.
É um livro que recomendo, se me permitem, a todos os pais e professores e que não sendo um tratado de pedagogia é sobre o essencial da pedagogia.
“Mágoas da escola” fala dos maus alunos, aqueles alunos em que ninguém acredita, que não vão ser nada nem ninguém na vida. São os alunos sem futuro.
Não é um livro sobre a escola como refere o autor, mas um livro”sobre cábulas, sobre a dor de não aprender”.(pag 22)
Revejo todos os anos que tenho dedicado ao trabalho com muitas destas crianças.
Revejo o sonho deste cábula:
“Tenho um sonho….
Estou sentado de pijama, na berma da minha cama. Grandes algarismos de plástico, como aqueles com que brincam as crianças muito pequenas, estão espalhados pelo tapete, à minha frente. Tenho de “ordenar aquele algarismos”.
É o enunciado. A operação parece-me fácil, estou feliz. Debruço-me e estendo os braços para os algarismos. Apercebo-me de que as minhas mãos desapareceram. Não há mãos dentro do pijama. As minhas mangas estão vazias. Não é o desaparecimento das mãos que me aterroriza, é não poder alcançar os algarismos para os ordenar. O que seria capaz de fazer.”
Já falámos do final do ano lectivo e dos problemas que vêm com a avaliação.
Os interventores da escola continuam a não compreender esta coisa tão simples que é haver alunos que não são capazes de adequar o seu trabalho às necessidades do currículo.
Os tratados de pedagogia esquecem-se muitas vezes apenas deste pormenor.
E depois, concordo, temos a atribuição da constituição de bandos aos fenómenos dos subúrbios, às questões económicas, às questões sociais, ao desemprego, aos excluídos, à economia paralela e aos tráficos de toda a ordem…
Mas esquecemo-nos da única coisa sobre a qual podemos agir: “a solidão e a vergonha do aluno que não compreende, perdido num mundo em que todos os outros compreendem”.
Mas é preciso mudar também as expectativas dos pais, que confrontados com o filho que tem dificuldades, às vezes, são os primeiros a discriminá-lo.
Pennac fala dos professores salvadores e dos professores que dão estes alunos como casos perdidos.
“Os professores que me salvaram - e que fizeram de mim um professor - não tinham recebido nenhuma formação para esse fim. Não se preocuparam com as origens da minha incapacidade escolar. Não perderam tempo a procurar as causas nem tampouco a ralhar comigo. Eram adultos confrontados com adolescentes em perigo Pensaram que era urgente. Mergulharam de cabeça. Não me apanharam. Mergulharam de novo, dia após dia, mais e mais…acabaram por me pescar. E muitos outros como eu repescaram-nos literalmente. Devemos-lhes a vida” ( pag. 36).
_______________________________
[1] Pennac, Daniel (2009), Mágoas da escola, Porto: Porto Editora

17/06/09

Arqueologia ideológica


“Em que direcção se põe o sol ? “
Uma criança pouco informada ou com dificuldades de desenvolvimento poderá responder – põe-se do lado direito. Outro aluno com as mesmas características poderá responder – põe-se do lado esquerdo.
Facilmente podemos perceber que ambas as respostas podem estar certas e ambas as respostas podem estar erradas. Em termos de avaliação final terão que estar ambas erradas.
Então o que se passa ?
A criança não é capaz de raciocinar em termos de orientação, isto é, a criança não dispõe de estruturas cognitivas que lhe permitem compreender que a sua posição é relativa. Isto é, o sol pode pôr-se de qualquer lado: da esquerda ou da direita dependendo do local em que se encontra.
Então a resposta não pode ser essa.
Na nossa vida passamos o tempo a falar de esquerda e de direita.
As duas posições políticas tal como as posições geográficas podem estar certas e as duas podem estar erradas. Depende do ponto de vista.
Para me orientar preciso da bússola ou de sinais que me dêem a certeza do lugar onde estou. Mas é também necessário ter estruturas cognitivas que permitam compreender os pontos cardeais.
Esta é a falácia da política: esquerda é positivo, pensar bem, social, democrática, tudo o que faz é bem feito, tudo o que faz é para bem e em nome do povo.
Um golpe de estado de esquerda? Bem… enfim… é em nome do povo… quer dizer….
Uma ideia interessante da campanha eleitoral de 2002, para além da ideia do cherne, foi Durão Barroso vir falar de arqueologia ideológica a propósito destes conceitos.
Se tinha dúvidas praticamente desvaneceram-se após o 11 de Setembro e por tudo o que se passou desde então.
Poderá existir um “arquipélago de sangue”, de Noam Chomsky, mas isso não impede que o “arquipélago de Gulag” tenha sido menos violento.
A arqueologia ideológica continua aí. Durão Barroso tinha razão.
E alguns especialistas em esburacar ainda mais a sociedade, sem nada de novo apresentarem, de forma criativa, que possa tornar o preço do pão menos caro e as pessoas um pouco mais felizes, insistem em ficar calados perante os desvarios dos amigos ditos de esquerda ou de direita.
Os direitos humanos não são de esquerda nem de direita, ou seja, dos partidos que estão à esquerda ou estão à direita. As questões civilizacionais não são dos que se sentam à esquerda ou à direita…
Como nas questões geográficas das crianças, temos que ter outro referencial que não sejam os clichés estafados de bom e de mau pelo facto de se sentarem à esquerda ou à direita. Em última análise são apenas isso: sentam-se à esquerda ou à direita.
Mas o referencial deverá ser que estão certos ou errados conforme defendam ou não os direitos humanos, conforme defendam ou não princípios axiológicos e civilizacionais.
Se o sol quando nasce é para todos bem podem tapá-lo com uma peneira que não é por isso que os que se sentam à esquerda são mais iluminados do que os que se sentam à direita. A não ser que tenham os pontos cardeais da liberdade, da democracia, da justiça e da paz.

11/06/09

Orientação escolar e profissional


Um dos problemas que se coloca a muitos alunos nessa fase do ano lectivo diz respeito ao que irão fazer no próximo ano lectivo.
Para os que estão a terminar o 9º ano. Com o final da escolaridade básica coloca-se uma questão fundamental: Continuar a estudar ou ingressar no mundo do trabalho.
Para a maioria dos alunos a escolha preferida será a continuação dos estudos. Mas estudar o quê e onde ?
Como se sabe hoje temos várias escolas que podem certificar os alunos a nível do ensino secundário: As escolas do ensino secundário, as escolas profissionais, as escolas do ensino artístico, os centros de formação, os centros de formação do sector de actividade…
As escolas do ensino secundário têm também outro tipo de respostas que não apenas as dos cursos científico-humanísticos e tecnológicos.
Estes caminhos são muitas vezes esquecidos pelos alunos e pais, quando permitem ou querem que os filhos ingressem imediatamente na vida activa sem antes terem acesso à formação profissional.
Isto tem implicações na qualificação profissional dos trabalhadores e engrossa o contingente da mão-de-obra pouco qualificada.
Há, no entanto, alunos que não completam o 9º ano.
Para eles coloca-se também o problema da orientação quando devido a sua idade, ao seu comportamento ou às suas dificuldades de aprendizagem já não estão bem na escola e a escola já nada lhes diz e passam do desinteresse ao absentismo e muitas vezes ao abandono.
O insucesso repetido é assim muitas vezes a base da desmotivação que leva ao cominho mais fácil: o abandono.
Há alunos que deixam de ir à escola no dia em que completam os 15 anos. Nem sequer deixam terminar o ano lectivo que é o correcto para cumprir a legislação em vigor, prejudicando-se muitas vezes a si próprios, porque se foi viver com a namorada, porque se engravidou, por muitas razões, certamente compreensíveis mas pouco racionais.
No meio de tudo isto florescem orientações pouco científicas e pouco pedagógicas.
As crianças e adolescentes com problemas escolares deviam ter diagnósticos correctos mas para elas muitas vezes começa aí outro calvário.
São enviadas ao médico para serem vistas pela falta de memória ou de atenção, outras vezes vão aos xamanes da região, ou são caracterizadas com diagnósticos mais modernos como hiperactividade ou são consideradas espíritos especiais e caracterizadas como indigo ou cristal.
O que é preciso é encontrar uma justificação…
É por isso que há necessidade de equipas multidisciplinares que possam compreender e orientar estas situações. Estas equipas devem colaborar estreitamente com a escola e, principalmente, com a estrutura de decisão que é o conselho escolar ou o conselho de turma. É necessário, no entanto, dar mais competências organizacionais a umas e a outro.
Os recursos que temos são escassos mas é possível serem mais bem rentabilizados. Assim como a coordenação das respostas, a articulação dos serviços e dos apoios educativos e sociais.

04/06/09

CIF - Dificuldades de aplicação

1. Os critérios para a integração ou exclusão das NEE de alunos com deficiência mental e dificuldades de aprendizagem têm dado origem a dificuldades na elegibilidade dos alunos com NEE.
Estas dificuldades vêm provar a existência de vários problemas de aplicação da CIF. Tenho visto grandes discrepâncias no entendimento relativo à aplicação da CIF. Há de tudo, desde quem não tenha em conta as exclusões, dando origem a listagens intermináveis de capítulos, esquecendo o “core” a estabelecer para um perfil de funcionalidade, como refere Simeonson, até às interpretações mais ou menos “a olho” no que se refere principalmente ao primeiro qualificador…
Relativamente às funções do corpo – funções intelectuais, são evidentes várias interpretações relativamente ao primeiro qualificador. Veja-se, por exemplo, aqui, uma dessas interpretações, da qual discordo.
2. Tentando estabelecer algum consenso sobre este assunto, em meu entender, devem ser considerados os critérios psicométricos que definem a deficiência mental [1] de acordo com a Classificação da Deficiência Mental da OMS, DSM IV [2] e WISC – III [3] , referidos no Quadro seguinte:


Para um aluno ser considerado portador de NEE de tipo cognitivo (deficiência mental) a classificação deverá ser: Deficiência mental (ligeira, moderada, grave e profunda) – muito inferior [4].
Em meu entender é suficiente que este score seja apenas numa das escalas da WISC – III (Escala verbal, Escala de realização ou Escala completa).
No entanto, a tomada a decisão do Conselho de Turma deve ainda ter em conta critérios de tipo adaptativo, educativo e de personalidade.
Os alunos considerados com deficiência mental são abrangido pelo DL 3/2008 pelas medidas educativas previstas nas alíneas b) ou e), que se excluem mutuamente, e podem ser acumuladas com outras medidas quando necessário.
3. Os alunos que não se enquadrem nestes critérios (deficiência mental) e o nível cognitivo se situe a nível médio inferior e inferior (QI entre 80 e 90; 70 e 80), devem ser considerados no âmbito das dificuldades de aprendizagem, tendo em conta as situações seguintes:
No primeiro caso, se as dificuldades de aprendizagem forem consideradas graves (alexias, dislexias), o aluno deverá ser considerado nas NEE no domínio comunicação, linguagem e fala.
As medidas educativas a aplicar são, principalmente, as abrangidas pela alínea a), devendo ser ponderado se o aluno deve ser também apoiado por professor de EE (alínea d) do nº 2 do artº 17).
Considero dificuldades de aprendizagem graves, nos alunos do 1º ciclo, quando se verificar um atraso de dois anos na aprendizagem da leitura e escrita, isto é, quando o aluno não tiver adquirido, de forma consistente, o 1º e 2º nível da leitura e escrita, devendo ser considerado como elegível para o apoio da educação especial.
Quanto aos outros casos, quando se verificar que, na avaliação de prova de despiste da dislexia específica, o aluno ultrapassar 75% de erros[5] , deve também ser considerado elegível para a Educação Especial no domínio da comunicação, linguagem e fala.
No segundo caso, envolvendo perturbações disruptivas do comportamento e de défice de atenção (perturbação de hiperactividade com défice de atenção, perturbação de comportamento e perturbação de oposição), devidamente avaliadas por instrumento adequado e que se enquadrem nos critérios estabelecidos no DSM IV, deverão também ser considerados no domínio emocional/personalidade e elegíveis para a Educação Especial.
Além disso, o aluno deverá manifestar, cumulativamente, dificuldades de aprendizagem, ainda que não apresentem a gravidade descrita na primeira situação.

[1] No caso de se tratar de crianças até aos 6 anos de idade, deverá ser avaliado o seu desenvolvimento através de instrumentos adequados, como por exemplo: WPPSI - R ou Escala de Desenvolvimento de Griffiths, tendo em conta quer o respectivo QI ou QD.
[2] American Psychiatric Association - DSM IV – Climepsi Editores, 1996
[3] Wechsler, D. - WISC III – Escala de Inteligência de Wechsler para crianças III – Manual – CEGOC, 2003
[4] A classificação de Lou Brown: com QI inferior a 51 era, em 1987, deficiência intelectual severa (severe intelectual disabilities), e em 1995, deficiência intelectual acentuada (significant disabilities). Estes alunos devem ser objecto de um currículo funcional.

[5] Prova de avaliação da dislexia específica, por exemplo, PEDE, de Condemarin e Blomquist



29/05/09

A verdade da mentira

    
Grande parte da nossa vida anda à volta desta questão: a verdade da mentira.
Saber quem nos engana e quem nos quer enganar é hoje quase uma tarefa de sobrevivência.
A mentira faz parte do desenvolvimento da criança, a mentira infantil ou seja a mentira depende do desenvolvimento da criança.
Assim sendo, podem as crianças dizer a verdade, podem ser testemunhas num processo judicial ?
Colocar esta dúvida é, em si, já algum progresso porque nem sempre foi assim, isto é, a questão nem sequer se punha.
Houve tempos em que pura e simplesmente o testemunho da criança não tinha qualquer valor.
Hoje sabemos que os adultos não mentem menos do que as crianças. Com uma diferença: é que a mentira dos adultos costuma ser mais perigosa.
Na escala de inteligência WISC, uma das perguntas de avaliação da compreensão da criança e dos adolescentes é a seguinte: porque se deve manter uma promessa feita? Normalmente, só os alunos mais velhos são capazes de responder.
Mas é difícil saber porque devemos cumprir uma promessa feita.
Honrar a palavra é uma das respostas possíveis.
Mas é exactamente aqui que nós temos sido enganados.
Estamos em campanha eleitoral e nestas como em outras campanhas anteriores temos então pessoas importantes que são aquelas pessoas que nos pedem para votarmos nelas que nos prometem muitas coisas. Basicamente, que tudo vai ser melhor.
Porque se deve então manter uma promessa feita ?
Outra questão é: porque é que há deputados na assembleia da república ?
Poucos alunos respondem a este item da compreensão; não fazem a menor ideia do que é isso.
A formação cívica fica assim cada vez mais no plano teórico. Por outro lado, a modelagem que se faz só pode ser negativa.
Em geral, os deputados, os políticos que nos governam são modelos errados.
É por isso que a credibilidade das instituições políticas anda pelas ruas da amargura.
Mudam de partido conforme as probabilidades de ser eleito e o que é mais interessante, ou melhor, preocupante, é que é sempre melhor aquele partido onde actualmente se encontram. Os partidos para essas pessoas são instrumentais e os fins, que é manterem-se no poder, justificam os meios.
A ideia de que só não mudam os burros é verdadeira mas também se requer alguma coerência. Não se pode defender, hoje, a estatização e, amanhã, defender a concorrência e o mercado, e isto tudo com a maior das canduras.
Será também por isso que as crianças não aprendem por que é que se deve manter uma promessa.
Eu próprio também não sei o que posso dizer. Talvez esteja como as crianças. Fico-me pelo fazer como Frei Tomás, faz o que ele diz mas não faças o que ele faz ou talvez seja melhor ficar calado e não ter resposta para as perguntas: porque devemos manter uma promessa feita ou porque temos deputados na assembleia da república.
A verdade da mentira é hoje tarefa de reflexão dos cidadãos: a reprise está novamente em movimento e, sendo assim, só acredita na mentira quem gosta de ser enganado.
     

26/05/09

Preparar a reforma

Uma das consequências da gestão de recursos humanos da actual politica e em particular do Ministério da Educação foi ter atirado para a reforma muitos professores que ainda estavam capazes de poderem dar o seu contributo na educação da juventude deste país.
Um dos cartazes da manifestação dos 100 mil que vieram para a rua gritar que mais me chocou foi aquele que dizia: “não nos tratem como lixo”.
Precisamos de trabalhar com competência, de dormir, de não termos insónia, de não entrarmos em depressão, de sermos felizes, de termos bom humor, em casa, junto dos filhos e de irmos para a reforma descansados. Precisamos, se possível, que nos deixem morrer em paz.
Entretanto, muitos estão a abandonar ou estão, decididamente, a procurar a reforma de uma forma abrupta e uma mudança de vida de forma radical.
Mas será que esta mudança está a ser feita da melhor maneira?
Não deveria haver alguma forma de preparação para a reforma de modo a não mudar de uma forma radical de uma situação para outra?
Não será angelical, nestes tempos difíceis, sugerir esta coisa sofisticada de preparação para a reforma?
Quando nos reformamos não é a vida que se acaba mas, dizem, o início de uma nova vida, às vezes para melhor outras vezes para pior...
A preparação para a reforma deverá ter em conta que se deve pensar nesta mudança e na adaptação das pessoas a esta nova fase da vida. Assim, será possível, com tempo, encontrar novos caminhos, estudar alternativas e sonhar com essa nova vida.
A preparação para a reforma incide muitas vezes apenas no aspecto financeiro e preparar a reforma tem a ver com segurança financeira, económica e com seguros de saúde…
Mesmo a este nível, segundo um estudo da Fidelity Internacional, os portugueses e os franceses são os europeus mais atrasados na preparação da reforma. De acordo com os dados divulgados nesta análise, dos 57% portugueses inquiridos que ainda não começou a preparar a reforma, 31% conta ainda fazê-lo, enquanto 26% não pensa começar a tratar disso.[1]
Mas os aspectos psicológicos e sociais e, de uma maneira geral, os aspectos do desenvolvimento devem igualmente ser relevantes.
Como sabemos há aprendizagem e desenvolvimento ao longo de toda a vida.
Erikson definiu estádios de desenvolvimento para toda a vida. Assim, a partir dos 30 anos de idade, é uma fase de afirmação pessoal no mundo do trabalho e da família. A vertente negativa leva o indivíduo à estagnação nos compromissos sociais, à falta de relações exteriores, à centralização em si próprio.
A partir dos sessenta anos é o estádio da integração e compreensão do passado vivido. È preciso saber como não cair no desespero.
O preconceito em relação à velhice deve ser desconstruído. Para isso, a actividade, a utilização das nossas capacidades devem ser postas ao serviço da luta contra a exclusão, o afastamento a solidão…
Para quem passou toda a sua vida profissional a integrar os jovens não seria descabido que os jovens, principalmente aqueles que nos governam, não excluíssem os seus maiores da vida activa cedo de mais e sem qualquer preparação.

[1] Contudo, mais de um terço dos portugueses (36%) já começou a preparar a reforma, valor que representa uma subida de 11 pontos percentuais face a 2006.
O mesmo estudo revela que 42% da população afirma estar informado sobre a preparação da reforma, quando em 2006 o valor era apenas de 36%.
O estudo sobre a preparação para a reforma foi realizado para a Fidelity pela consultora TNS na Suíça, Holanda, Alemanha, Áustria, Suécia, França, Itália e Portugal, entre Novembro e Dezembro de 2007, e foram entrevistadas 4104 pessoas entre a população activa com mais de 18 anos.

24/05/09

Talentos e cifrões

Numa das crónicas recentes falámos da necessidade de responsabilização de todos os que estão na educação, a propósito de um abaixo assinado em que se pediam penalizações para as famílias dos alunos com comportamentos problemáticos.
Com a mesma força com que condenámos os alunos e as famílias dos alunos que usam a violência contra outros alunos e professores temos de o fazer com os professores e outros profissionais que também eles podem ter comportamentos desajustados.
Um professor não tem que ser uma pessoa virtuosa mas há-os que realmente são tudo o que não queremos para educar os nossos filhos. E no estado actual da nossa cultura democrática e educativa, não podemos pensar que tudo funciona bem, mas há alguns padrões de comportamento, atitudes, métodos pedagógicos e níveis de desenvolvimento moral que devem ser exigidos.
O caso da professora de história que dá “lições” de sexualidade numa escola de Espinho, é a prova de que a formação académica não ensina o essencial para educar crianças e adolescentes.
Situações deste tipo alertam para que não basta legislar para que haja educação sexual e formação cívica na escola.
Os interventores na escola designadamente os pais e encarregados de educação têm que andar atentos ao que se passa na escola.
A escola estatal ou privada tem que estar sob o escrutínio democrático dos pais e dos outros interventores da comunidade que, aliás, estão representados no conselho geral e em outros órgãos de gestão da escola.
É necessário preocuparmo-nos com a qualidade do ensino com o sucesso e a qualidade do sucesso.
À conta de querermos levar o ensino a todos os alunos não podemos esquecer que cada um deve ser capaz de desenvolver as suas capacidades.
Na bênção das pastas dos finalistas que estiveram no Campo Grande em Lisboa, foi lida a parábola dos talentos. Parece-me que esta parábola faz sentido para cristãos e não cristãos.
Para que servirá termos capacidades se elas ficam por desenvolver. Atirar capacidades para o lixo é aquilo que estamos a fazer com alguns alunos. Porque o sistema é facilitista (não sei se posso dizer…), porque o sistema relevando medidas mais vistosas continua a não se preocupar com os problemas centrais da educação.
Basta de encenações com alunos verdadeiros ou falsos, basta de se servirem da escola para a propaganda partidária, basta de resultados estatísticos para inglês ver...
Podemos encontrar homens como procurava o cínico Diógenes que não sejam subservientes ao poder seja ele qual for ?
Confunde-se delação com não suportar imposições ou pressões ilegítimas vindas do poder, confunde-se recusa de obediência ao chefe com falta de carácter.
Por isso Diógenes não encontrava um homem.
E milhares de anos depois, a luz clara da justiça e da dignidade continua a ter dificuldade em romper o nevoeiro. Onde estão os homens no caso casa pia, no caso freeport, no caso conegil, no caso apito dourado, no caso bpn, no caso bpp, etc?
Porém, tudo isto é efémero e o que vai ficar é o que formos capazes de construir, cada um ao nível dos talentos que desenvolveu, porque é tão importante o trabalho do homem que limpa a minha rua como a do médico que me assiste no hospital desde que o faça com dignidade, com mais talento e com menos cifrões.

14/05/09

O cyberbullying e os adolescentes

               
É uma evidência que os adolescentes utilizam as novas tecnologias da informação, principalmente o telemóvel.
Mas será que os adolescentes também utilizam as novas tecnologias para praticar cyberbullying ?
O cyberbullying consiste, entre outros aspectos, em utilizar o e-mail e o telemóvel para enviar mensagens ofensivas e intimidar os colegas.
Os pais passaram a ter mais uma preocupação com os filhos embora muitas vezes não tenham consciência disso, porque também nestes casos e nesta idade os pais não são as pessoas mais requisitadas para os adolescentes contarem os seus problemas…
Num estudo recente [1] com alunos do básico e secundário com vista a determinar se utilizam o telemóvel e o e-mail para intimidar e em que medida o fazem, foi posto em evidência que os alunos do básico e secundário utilizam as tecnologias da informação (telemóvel, e-mail, etc.) para praticar cyberbullying.
Esta prática ocorre, mais frequentemente, no sexo feminino: 45% admite já ter enviado mensagens ofensivas; enquanto que, para o sexo masculino, é de 35%, ao contrário do bullying que é, mais frequente, no sexo masculino.
Os sentimentos envolvidos na prática de cyberbullying são a raiva, sendo mais relevante, no sexo feminino, 38% refere sentir raiva no envio de mensagens ofensivas, enquanto que para o sexo masculino, é de 16%.
O desprezo, a alegria e a tristeza são também sentimentos, muito presentes, na prática de cyberbullying.
O telemóvel é o meio mais utilizado (variando entre 74% e 85%) para praticar cyberbullying.
O envio de mensagens é feito, quase sempre, individualmente, com percentagens, em média, a rondar os 70%.
As raparigas são as principais vítimas do cyberbullying, apenas 33% referiu que nunca recebeu qualquer mensagem ofensiva.
A raiva e a indiferença são os sentimentos dominantes em quem é vítima de cyberbullying.
Os amigos são os melhores confidentes para quem sofre de cyberbullying independentemente do género ou nível de escolaridade mas é o sexo masculino que mais confia nos amigos (87%); apenas 4% admite informar os Pais/Encarregados de Educação, enquanto que para o sexo feminino 29% admite contar aos Pais/Encarregados de Educação.
Pode-se concluir, assim, que a maioria das vítimas de cyberbullying não informa nem procura os adultos (Li, 2005); os pais, raramente, tomam conhecimento e os professores nunca são informados.
Os problemas de cyberbullying têm aumentado, drasticamente, nos últimos tempos, sem dúvida, devido à massificação das novas tecnologias.
Não devemos nem podemos ficar indiferentes à forma como as novas tecnologias são utilizadas, uma vez que a sua utilização indevida tem consequências negativas para o desenvolvimento social dos adolescentes e perturba o clima relacional na escola, na turma e nos grupos sociais em que estão inseridos.

[1] Beirão, Maria do Céu & Martins, Maria José D. - Cyberbullying e emoções na adolescência - Escola Secundária Mouzinho da Silveira & Escola Superior de Educação de Portalegre.
                            

Escola sem tempo inteiro

Por vezes a escola concretiza actividades que levam a sair da escola como acontece numa actividade do tipo jogo de pista, foto paper, etc. Pode ser uma manhã sem aulas mas uma manhã onde se fazem importantes aprendizagens. Uma actividade extracurricular que envolve para além dos alunos, a comunidade escolar, e se desenrola no espaço urbano.
Um contacto directo com a história e com a cultura da cidade é talvez mais importante do que ter ficado na escola. Fazem-se aprendizagens e revelam-se défices dos alunos do ponto de vista da interacção social e cultural.
Claro que estas actividades levantam muitos problemas pedagógicos e de organização.
Carl Honoré, escreveu um livro que ainda não tem tradução em português mas que podemos traduzir por “Sob pressão” [1]. Refere que durante gerações, crescer foi uma tarefa fácil: íamos à escola umas horas por dia, praticávamos desporto e tínhamos alguma ligação a um clube ou a uma instituição cultural ou religiosa, e o resto do tempo brincávamos ou sonhávamos acordados.
Não sou tão pessimista como Carl Honoré que diz que o nosso enfoque moderno da infância é um fracasso: os nossos filhos estão mais obesos, míopes, mais deprimidos e mais medicados do que qualquer geração anterior.
Mas é fácil concordar que " temos que desligar todos os aparelhos e dizer às criança que saiam para brincar”.
De facto as nossas associações desportivas e culturais deviam estar cheias de crianças e jovens a participarem em actividades próprias para a sua idade.
Não só para virem a ser grandes campeões, participantes nos jogos olímpicos e nem sequer para os desviarem dos caminhos errados …mas para terem um vida saudável e positiva e aprenderem a cultura do seu e dos outros povos.
“Sob pressão”, tem a ver com a cultura que criámos, uma cultura do perfeccionismo. Esperamos que tudo seja perfeito: os nossos clientes, os nossos corpos, as nossas férias, a nossa lua de mel, os nossos filhos…
Hoje estamos acelerando o desenvolvimento das nossas crianças: academicamente, expondo-as aos meios de comunicação adultos; vendo-as como consumidores; carregando-as com rotinas desnecessárias.
Mas, por outro lado, estamos a infantilizá-las superprotegendo-as e nunca lhes dizendo 'não'.
Para Honoré, a multitarefa é um mito. As crianças de hoje contam com uma grande quantidade de conhecimentos tecnológicos úteis mas não é verdade que o cérebro humano esteja preparado para esta multiplicidade de tarefas, numa sequência de diferentes actividades durante o dia.
A alternância das tarefas redunda num uso muito ineficiente do tempo e da energia do cérebro.
Ser mãe ou pai é uma viagem; é o descobrimento, por tentativa e erro, do tipo de pais que somos ou queremos ser. Não se trata de começar com uma ideia fixa do pai perfeito e fazer tudo o que esteja à altura desse ideal. Temos que ter tempo, espaço e liberdade para explorar o mundo com as crianças.
As duas tarefas mais difíceis da educação são saber ligar-se quando os filhos são pequenos e depois saber desligar-se quando precisam de trilhar os caminhos da autonomia.
Ao contrário do que alguns possam pensar nunca como hoje foi tão difícil ser criança, tão difícil educar uma criança e o melhor caminho educativo não é mantê-las sob pressão.

[1] Entrevista de Horacio Bilbao, de Clarin.com a Carl Honoré.

28/04/09

Educar crianças para serem felizes

O trabalho tem uma função social de grande importância nas nossas vidas.
No entanto, o trabalho também nos põe doentes. Já vai longe o tempo em que Maria Velho da Costa escreveu Português, trabalhador, doente mental. Mas o quotidiano mostra que continua a ser assim.
Se o emprego não dá só por si felicidade, também sabemos que há correlação negativa entre desemprego e felicidade. Isto é, quem está desempregado também não é feliz por causa disso.
Por outro lado, pessoas infelizes não são bons funcionários e, por isso, estão mais frequentemente desempregados. As pessoas felizes estão mais interessadas no seu trabalho e por isso têm menos hipóteses de serem despedidas.
Uma notícia curiosa dos últimos dias pode fazer reflectir sobre o assunto: Dois namorados estão em tribunal depois de terem ganho o euromilhões devido ao desentendimento resultante de terem ficado ricos.
Então o que é que pode fazer as pessoas felizes?
Eu podia ser mais feliz se fosse mais rico, se fosse magro, casado ou divorciado, empregado ou reformado?
As investigações do psicólogo Martin Seligman, vieram dar resposta a algumas dessas questões.
É evidente que uma situação financeira confortável ajuda. Mas é um erro pensar que, quanto mais dinheiro, mais satisfação. Especialmente se, para consegui-lo, se sacrificam outros aspectos.
A riqueza tem uma correlação muito baixa com o nível de felicidade. Os ricos são, em geral, só um pouco mais felizes do que os pobres. Nos Estados Unidos, enquanto o rendimento aumentou 16% nos últimos trinta anos, o número de indivíduos que se consideram muito felizes caiu de 36% para 29%.
Segundo Daniel Gilbert, o melhor prognóstico para a felicidade são as relações humanas e quanto tempo uma pessoa passa com a família e os amigos. Isso é mais importante do que dinheiro e até a saúde.
A felicidade momentânea pode existir e ser aumentada por meio de artifícios como um chocolate, um bom filme, uma roupa nova, um ramo de flores, uma viagem.
Quanto à beleza física certamente traz vantagens adicionais. Mas o facto é que a boa aparência exerce um efeito muito pequeno sobre a felicidade. Marilyn Monroe era bela e profundamente infeliz.
Até à década de 60, acreditava-se que a felicidade estava associada à juventude e também a um bom nível de instrução. Essa ideia foi negada pela experiência. Velhos que tiveram uma boa vida dificilmente encontram motivos para serem infelizes e pessoas menos cultas podem achar a felicidade dentro dos seus interesses culturais e das suas possibilidades.
É possível ensinar as pessoas a serem felizes.
Os pais podem desenvolver as características positivas dos seus filhos e não apenas corrigir as características negativas. A educação pode, assim, ser uma tarefa agradável apesar das dificuldades que sempre acontecem no percurso do desenvolvimento. Este registo afectivo é certamente um seguro para o futuro da criança tornando-a responsável, equilibrada e feliz.
Mas para ensinar as crianças a serem felizes é necessário que os adultos sejam também eles acarinhados.

Educar crianças para serem felizes

Um estudo britânico de 2006 revela que as crianças mais felizes dos 29 Estados europeus vivem na Holanda e nos países escandinavos. Portugal está no 21º lugar da lista. [1]
A informação recolhida diz respeito a crianças e jovens com menos de 19 anos, tendo em conta 43 critérios, como mortalidade infantil, obesidade, recursos materiais - pobreza e habitação.
Os sete critérios principais foram: Saúde, Bem-estar, Relações interpessoais, Recursos materiais, Comportamentos de risco, Educação e Habitação e Ambiente.
O 21º lugar de Portugal resulta de maus resultados em quatro das sete categorias principais: Saúde, Bem-estar, Recursos materiais e Educação
Podemos identificar a infelicidade por uma série de sinais de alarme que devem ser detectados precocemente, de forma a que as situações de risco não se transformem em situações de perigo e, finalmente, de forma a evitar que se transformem em tragédias.
A violência na escola traduz-se numa grande diversidade de comportamentos anti-sociais que podem ser desencadeados quer pelos alunos quer por outros elementos da comunidade escolar.,
O trabalho dos professores e técnicos deve centrar-se na prevenção destes comportamentos anti-sociais.
Embora não seja fácil avaliar quando uma situação disruptiva leva a uma situação de grande violência, podemos, no entanto, considerar que existem alguns factores de risco tais como, os hereditários, acontecimentos "desencadeadores" e problemas psicopatológicos.
É por isso importante procurar a intervenção quando algumas atitudes e comportamentos são verdadeiramente excessivos, isto é, quando ultrapassam aquilo que é característico do período de desenvolvimento em que a criança ou adolescente se encontra.
Comportamentos tais como: o isolamento no quarto de forma permanente, comunicação praticamente inexistente, grupo de amigos estranho, conversa desadequada e bizarra, exigências desproporcionadas, pouca resistência à frustração...
São comportamentos que evidenciam alguma perturbação.
É preciso estar alerta e em ligação permanente com a escola: em primeiro lugar o director de turma e depois a equipa de técnicos da escola ou de outros serviços.
Nem todas as escolas têm recursos suficientes para dar conta das diversas situações problemáticas, na medida em que não existem psicólogos suficientes para despistar situações de risco e intervir atempadamente.
Mas o que nos falta é organização: é necessário articular as respostas existentes nos diversos sectores institucionais: saúde, hospitais e centros de saúde, serviços de psicologia e orientação (SPO) da educação, serviços de juventude, serviços de formação e emprego, serviços de segurança social e reinserção social…
Assim, talvez, os serviços pudessem trabalhar de uma forma mais eficaz, evitando que duplicação de avaliações e de intervenções, com o prejuízo que daí resulta para os pais, com as listas de espera, com as consultas muito espaçadas e sem a intervenção atempada que as crianças e adolescentes necessitam.

[1] O estudo é da responsabilidade da Universidade de York e os dados foram compilados em 2006 para o Child Poverty Action Group (CPAG - uma organização britânica que combate a pobreza infantil).

Educar crianças para serem felizes

Tenho andado a digerir a conferência que o prof Eduardo Sá fez na Primeira conferência internacional de psicologia e educação da Universidade da Beira Interior (UBI), em 26 de Março.
O tema era aliciante e sugestivo: “como educar crianças para serem felizes”
Afirmou que “a escola é a invenção mais bonita da humanidade. O ensino mais prolongado é a verdadeira revolução tranquila”.
Eduardo Sá, refere os seguintes aspectos para que as crianças possam ser felizes:
- Mais colo
- Quanto baste de autoridade
- O mais possível de autonomia
- Agressividade
- Estatuto do professor.
Então algumas consequências são óbvias
- Ao contrário do que ouvimos, de vez em quando, às teorias do regresso à palmatória, as crianças devem ser mais amadas.
Mas se as crianças precisam de colo, são os pais que dele precisam, em primeiro lugar. É preciso ter em conta a relação amorosa dos pais para que possam amar os seus filhos.
Quando se fala dos pais ou é para lhes atribuir mais responsabilização, como se, a que têm, já não fosse suficiente, ou para os colocar contra os professores como fez a Confederação das Associações de Pais (CONFAP), recentemente, ao escolher um dos lados do conflito com o Ministério da Educação.
Além disso as crianças devem brincar mais.
As brincadeiras não podem ser apenas uma actividade de fim de semana.
Aulas de 90 minutos com 10 minutos para brincar são um absurdo.
As crianças portuguesas têm o mais alto nível de sedentarismo.
- Quanto baste de autoridade
As leis devem ser para todos, quer se trate de maiorias ou de minorias.
Determinados comportamentos só são tolerados porque as leis não são eficazes.
Mas não se pode confundir autoridade com autoritarismo.
Democracia não é despotismo
Admiração por um professor é diferente de ter medo do professor.
- Quanto à autonomia, não se deve fazer o que as crianças são capazes de fazer. As crianças se são capazes de brincar com a Play-station também são capazes de fazer os TPC.
Dar erros é aprender. Ter uma negativa não é nenhum drama.
Estamos a criar crianças imuno-deprimidas em relação à dor: “não dêem erros, tenham sempre boas notas”.
- A agressividade faz bem à saúde. É um anti-depressivo e um ansiolítico.
Mas não deve ser confundida com violência.
Os pais devem estar presentes na escola. Pais e professores não podem andar zangados.
- O estatuto do professor deve ter em conta que o professor é uma pessoa que pode ser fundamental na vida da criança. O Director de Turma é uma espécie de tutor, não deveria dar aulas para além da sua turma.
Não há regras para a felicidade. Refundar a ideia de escola na base de que a felicidade é uma comunhão entre as pessoas pode ser fundamental para educar crianças para serem felizes.