28/12/15

Troicas informais


Não sei o que é mais humilhante, se as troicas formais que são chamadas pelos governos quando já não têm outra solução porque estão na falência, se as troicas informais que, de vez em quando, aparecem por aí a dar palpites sobre o governo, sobre o país, sobre os portugueses.
Ora é o sr. Piketty que acha que a dívida vai ser reestruturada.

(5-1-16)
N. N. Taleb refere (O Cisne Negro - O Impacto do Altamente Improvável) os dez princípios para uma sociedade robusta face ao Cisne Negro (pag. 459-462).
O décimo princípio tem a acutilância necessária para partir estas certezas que referi acima. 

"10. Faça uma omeleta com os ovos partidos. 
Finalmente, a crise de 2008 não foi um problema passível de ser resolvido com remendos de ocasião, tal qual não se consegue remendar una casco podre de um barco. Precisamos de reconstruir o novo casco com material novo (e mais forte); teremos de refazer o sistema antes que ele o faça sozinho. Passemos voluntariamente para uma economia robusta, ajudando aquilo que precisa de ser partido a partir-se sozinho, convertendo a dívida em equidade, marginalizando as escolas de economia e gestão, acabando com o Nobel da Economia, banindo as aquisições por endividamento (leveraged buyouts), metendo os banqueiros onde eles devem estar, recuperando os bónus concedidos àqueles que nos puseram aqui (reclamando a restituição dos fundos pagos a, por exemplo, Robert Rubin ou aos banksters cuja riqueza foi paga com os impostos de professores primários) e ensinando as pessoas a navegar num mundo com menos certezas. 
Então veremos uma vida económica mais parecida com o nosso meio-ambiente biológico: empresas mais pequenas, uma ecologia mais rica, ausência de alavancagem especulativa - um mundo em que são os empresários, não os banqueiros, que assumem os riscos e um mundo em que nascem e morrem empresas todos os dias sem que isso seja motivo de notícia." 

27/12/15

Construir

Boa notícia. As antigas instalações da Metalúrgica vão ser adquiridas pela Câmara  e, finalmente,  vão ser demolidas.
Este é um dos locais mais degradados do centro de Castelo Branco, inseguro, principalmente para aqueles que o frequentam ou frequentaram. São locais assim que dão ao espaço urbano das cidades uma sensação de decadência e de abandono desoladores.
Não faz sentido que com  a criação de novos parques industriais, com a deslocalização de empresas dentro ou para fora do pais, com o fim das empresas, restem estes estruturas fantasmagóricas e completamente desqualificadas.
Quando têm interesse histórico e cultural, devem ser preservadas em boas condições. Quando não é o caso, demolir é (começar a) construir.
Há sempre a esperança de que alguma coisa possa ser preservada, como, por exemplo, as duas fotos de baixo mostram, e que o espaço possa ser ocupado por estruturas que beneficiem os cidadãos, já que foram eles que o pagaram.






26/12/15

As minhas serigrafias: José Pádua

José Pádua - Natal


Técnica: Serigrafia; 
Suporte: Papel Fabriano D5 GF 210g; Dimensão da Mancha: 45x36,5 cm; Dimensão do Suporte: 70x50 cm; N.º de cores: 23; 
Data: 1997; 
Nº de Exemplar 121/200

José Pádua, nasceu na cidade da Beira, Moçambique, em 1934, residindo em Lisboa desde 1977. Foi eleito Artista Plástico de 1966 pelo jornal A Tribuna de Moçambique, pelo trabalho que desenvolvia enquanto pintor, decorador, ilustrador e gravador...

22/12/15

Solstício de Inverno


Fim do Outono

Desde há algum tempo vejo
como tudo se transforma.
Algo se ergue e age
e mata e faz sofrer.

De cada vez que os vejo
os jardins não são os mesmos;
do amarelo ao dourado,
a lenta queda:
que longo se me tornou o caminho!

Agora ando pelos espaços vazios
e olho entre as alamedas.
Quase até aos mares distantes
consigo ver o pesado
céu grave e hostil.

Rainer Maria Rilke, O livro das imagens, Relógio d'Água

17/12/15

"Compreender o românico"

Apresentação do livro "Compreender o românico", hoje, às 14H30, na Biblioteca Municipal de Castelo Branco.  Na mesa e na plateia, tantos amigos!
Um texto pedagógico -  um Glossário - sobre  o românico em Portugal. Quando se junta o trabalho pedagógico de um professor, Joaquim Moreira e de um aluno, Ricardo Coelho, com o apoio de Paulo e Rita Moreira, a obra surge. Tudo isto no terreno propícío da escola, ETEPA. 
Parabéns!

16/12/15

Laços familiares


Nesta época do Natal sentimos com mais emoção os laços familiares e a ligação aos outros. Pela presença e pela ausência. 
Provavelmente, este vai ser um Natal não muito diferente dos anteriores porque as mudanças sociais e culturais não se fazem rapidamente.
Porém, começamos a encontrar caminhos mais adequados para fortalecer os laços familiares que nos permitam tomar conta das crianças e dos velhos com dignidade. A compreensão de alguns fenómenos a que chamamos crise da família são, só por si, um bom começo.
Alguns  focos da crise:
1. Perante a crise económica, as justificações para ter ou não ter filhos e para cuidar ou não dos mais velhos,  costumam ser as de que não há condições económicas para isso.
Convém notar que a família estava em crise antes do início da crise económica de 2008. Esta é apenas mais uma crise, certamente relevante para a vida das famílias e  que as afecta de uma maneira ou outra. Mas a crise familiar é principalmente crise de valores como a lealdade e o compromisso. A lealdade no interior da família, as ligações com os filhos e dos filhos com os pais, ou seja, as forças de carácter (lealdade, amor) que permitem que não haja abandonos dos filhos ou dos pais. 
2. É necessário conjugar trabalho e carreira com compromissos familiares. O trabalho é fundamental, seja no emprego ou voluntariado, e tem toda a importância na relação com os outros mas também na autoestima e saúde mental. No entanto, não se pode esquecer a valorização dos compromissos e é necessário repensar as prioridades. 
Os modelos, estatutos e papéis familiares podem ser alterados. Ter uma carreira é tão importante para o homem como para a mulher e, por isso, a flexibilidade laboral poderá ser uma solução fundamental para facilitar a vida das famílias.
Decidir ter ou não ter filhos também tem a ver com a possibilidade de conciliar o trabalho com a educação dos filhos.
O compromisso entre liberdade individual e os laços com a família devem ser equilibrados, caso contrário, se quisermos absoluta liberdade individual, em algum momento da vida, alguém vai ficar abandonado. 
O que ainda acontece, em famílias com mais ou menos recursos é que as mães têm a responsabilidade da educação dos filhos, e, muitas vezes, ficam sós com os filhos.
3. Outro ponto fulcral da crise familiar tem a ver com os mais velhos. Muitos velhos são sujeitos a maus tratos e abandono, nos lares disfuncionais ou nas famílias disfuncionais.
Sabemos que que muitas famílias abandonam os seus familiares mais velhos nos hospitais. Os picos dos abandonos ocorrem nos períodos de férias, quando as famílias fazem férias no país ou no estrangeiro, o que quer dizer que não é apenas um problema económico mas que a prioridade não é cuidar dos velhos.
Perante a crise actual, as ajudas dos Estado são importantes quer através da Segurança Social, da Educação ou da Saúde mas é indispensável que os pais e os filhos e outros familiares assumam as suas responsabilidades  para com os mais frágeis da família, os mais novos e ou os mais velhos.

Boas festas para todos !

14/12/15

Liberdade sempre

Guillermo Fariñas Hernández é um activista, psicólogo e jornalista independente cubano. Em 2006, ganhou o Prémio Ciberlibertad, dos Repórteres sem Fronteiras. Em 2010, foi vencedor do Prémio Sakharov para a liberdade de pensamento.


“Na minha qualidade de membro da Comissão dos Direitos Humanos do Parlamento Europeu, não posso deixar de lamentar o facto de o Governo português e a presidência da Assembleia da República se terem recusado receber e dialogar com tão eminente personalidade. Nada justifica tão insólito comportamento”, defende Francisco Assis.

Também aqui: Portugal, Cuba e as consequências das ideias.

A liberdade só interessa quando faz parte dos seus interesses! Como citava Miguel Morgado, na AR no debate do programa do governo-golpada: "Os meus princípios são estes mas, se os senhores não gostarem, eu tenho outros". (Groucho Marx)

É altura de voltar a Celia Cruz: Todo aquél que piense /Que esto nunca va a cambiar/Tiene que saber que no es así/ Que al mal tiempo, buena cara/Y todo cambia.


09/12/15

Sobriedade

Há várias sugestões na comunicação social, nos livros de auto-ajuda… para se conseguir a felicidade e o bem estar. Porém, a nossa vida é baseada em características morais que lhe dão sentido, valores universais que não cabem em receitas apressadas.

Seligman* estudou os princípios que são comuns em todo o mundo (ubíquos), e resumiu-os em seis virtudes e vinte e quatro forças.
A temperança, também traduzida por moderação, é uma dessas virtudes. E dela fazem parte as forças de autocontrolo, prudência, discrição e cautela, humildade e modéstia.
A temperança é a virtude que protege dos excessos, refere-se à expressão apropriada e moderada dos apetites e vontades. Uma pessoa temperada não suprime as suas vontades, mas espera por oportunidades para as satisfazer de modo que não recaia qualquer mal sobre ela ou sobre os outros.(Seligman)
O autocontrolo permite controlar os nossos desejos, necessidades e impulsos quando é apropriado que o façamos. Não é suficiente saber o que está correcto mas também colocar esse conhecimento em acção. Sabemos, por ex, da importância de fazer dieta para o nosso bem estar, no entanto, temos muitas dificuldades em manter essa dieta. 
Outra força de carácter é a humildade e modéstia. As pessoas humildes e modestas não procuram ser o centro das atenções, reconhecem erros e imperfeições. têm um estilo de comportamento discreto e humildade para não se sentirem o centro do universo. 
A terceira força é a prudência, discrição e cautela, isto é, devemos dizer ou fazer aquilo de que não nos possamos vir a arrepender mais tarde. A pessoa prudente vê mais longe e resiste mais aos objectivos de curto prazo.
A primeira vítima da falta de temperança é a própria liberdade. (Sêneca)Portanto, temperança é sinónimo de moderação e sobriedade, de discrição no comportamento, de discrição na forma de demonstrar os sentimentos, de equilíbrio.

Os comportamentos dos governantes e os nossos próprios comportamentos sociais e políticos têm vindo a ignorar estas forças de carácter.
A chamada esquerda não quer ouvir falar de temperança, de sobriedade e, de todo, de austeridade. Toma a austeridade como sendo a origem de todos os problemas da sociedade.
Ninguém, dentro do seu juízo, deseja a austeridade pela austeridade. Mas ela faz sentido quando é uma forma de sobriedade e de modéstia. 
A austeridade é uma forma de moderar consumos supérfluos, imprudentes, ostentatórios e anti-ecológicos que põem em risco o futuro pessoal, familiar e colectivo.
Vivemos num tempo em que o crescimento deve ser enquadrado num contexto ecológico e isso diz respeito a todas as políticas da dita esquerda e da dita direita.

Foi isso que o ex-presidente do Uruguai, José Mujica **, da dita esquerda, percebeu quando decidiu viver de forma modesta e sóbria. Vem, aliás, defendendo a sobriedade para a sociedade, isto é aprender a viver com o que é necessário, o que é justo, sem supérfluo, para salvaguardar um futuro sustentável.
Para quem não quer ouvir falar de austeridade e para os simpáticos crescimentistas da (dita) esquerda instalada em Atenas ou em Lisboa, talvez, a palavra sobriedade possa ser aceitável. A realidade não tem estes problemas semânticos.

________________________
* Martin Seligman, Felicidade autêntica, os princípios da psicologia positiva, Pergaminho; A vida que floresce, estrelapolar.
**"José Mujica, foi presidente do Uruguai de 2010 a 2015. Ex-guerrilheiro dos Tupamaros, entre os anos 60-70, foi preso como refém pela ditadura entre 1973 e 1985. Ele prega uma filosofia de vida em torno da sobriedade: aprender a viver com o que é necessário e o que é justo".
Embora longe da sua visão e prática social e política, não deixo de ver uma curiosa maneira de nos contar a sua experiência de vida que o fez compreender que algo tem que mudar nos tempos que correm. Não deixa de ser interessante falar em sobriedade, contra os "simpáticos crescimentistas" das várias políticas (ditas) de esquerda .
Mujica não fala de austeridade mas percebeu muito bem como não se fazem omeletes: não é certamente com mais e mais crescimento de todos os países que querem crescer e vender...

03/12/15

Todos diferentes...


                                                                               ...Todos iguais

02/12/15

Inteligência ecológica

Está a decorrer em Paris a cimeira do Clima que junta cerca de 190 países, com o objectivo de estabelecer compromissos que levem a estabilizar a emissão de gases com efeito estufa.
Este tipo de cimeiras começou em 1992, no Rio de Janeiro, ano em que foi finalizado o texto da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC). 
Esta Convenção foi assinada e ratificada por mais de 175 países.
Em 1997, foi elaborado o Protocolo de Quioto com o objectivo de regulamentar a Convenção Climática e, assim, determinar metas específicas de redução de emissões dos principais gases causadores do efeito estufa. O Protocolo de Quioto só entrou em vigor em 16 de Fevereiro de 2005.
E o que que é que cada um de nós tem a ver com isso? Tudo, não apenas no sentido das alterações climáticas* mas no sentido de que a globalização também deve ser ecológica: o ar que respiramos não tem fronteiras, a poluição dos oceanos tem implicações na vida de todos os países, os produtos que consumimos são fabricados nas mais diversas partes do mundo com materiais e em condições que quase nunca respeitam a ecologia.
Tudo isto nos faz viver num mundo de insegurança e de ansiedade. Não são apenas as várias guerras, terrorismo, criminalidade, que geram essa insegurança, mas também a incerteza sobre os produtos de consumo, para a alimentação, para a saúde….
Um produto pode ter consequências adversas a três níveis, interdependentes (Goleman): Ao nível da geosfera (que incluí o solo, ar, água e clima); da biosfera (os nossos corpos e os das outras espécies assim como toda a flora terrestre) e ao nível da sociosfera (que incluí questões sociais tais como as condições de trabalho).
Felizmente, uma nova realidade está a acontecer: o poder está a passar das empresas produtoras e vendedoras para os consumidores e são estes que podem fazer a mudança.
O que mudaria nas empresas fabricantes de refrigerantes, cosmética ou vestuário se todos nós, sem excepção deixássemos de comprar os seus produtos? Há vários motivos que podem justificar essa atitude, como a exploração do trabalho infantil, a poluição da atmosfera ou a utilização de substâncias perigosas para a saúde.
É necessário, para consumidores e produtores, tornar absolutamente claro o impacto ecológico dos produtos que consumimos diariamente ("transparência radical", Goleman).
Desta forma, numa sociedade onde todos somos, inevitavelmente, consumidores poderemos travar flagelos como os desastres ambientais, a exploração de mão de obra ou a propagação de doenças incapacitantes ou mortais.
É por isso fundamental que cada consumidor tenha uma inteligência ecológica que permita travar a indiferença, o desinteresse, a ignorância ou má fé dos fabricantes dos produtos de consumo.
A inteligência ecológica permite anular ou pelo menos reduzir as ameaças e os danos para nós próprios, para a nossa saúde, para o ambiente e para o planeta. 
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* Nem todos seguem os argumentos do IPCC, como por exemplo: Argumentos contra a teoria do aquecimento global,  Aquecimento global: uma visão crítica.

01/12/15

Enfrentar a ansiedade

Muitas pessoas que me ouvem aprenderam a enfrentar as suas dificuldades de ansiedade por si próprias. No entanto, devemos recorrer a ajuda especializada quando não entendemos o que se passa connosco, ou seja, quando o nível de ansiedade é de tal forma grave que perturba a nossa vida.
É possível, com o apoio de estratégias psicológicas cognitivas*, lidar com a ansiedade de forma mais adaptada:
1. Interpretar correctamente os acontecimentos.  A pessoa ansiosa utiliza quatro monólogos* (as cismas do ansioso):
- Monólogo do preocupado: que enfrenta sempre qualquer coisa da forma pior possível, a pergunta que faz sistematicamente é “e se?” Sendo a resposta sempre o perigoso, o adverso, o fracasso.
Esta pergunta tem que ser afastada. Na realidade quantas vezes nos aconteceu o pior ? O que ajuda na minha saúde ficar a imaginar problemas ?
Preocupar-me com algo que me pode influenciar, que diminui o meu desconforto ou melhora a situação ou o meu estado, pode ser útil. .. Mas preocupar-me com algo que não se pode influenciar, que aumenta ainda mais o desconforto e mal estar, é desperdício de energia. (M. Lucas)
- Monólogo do crítico - que se critica negativamente em relação a tudo o que faz. É necessário mudar de uma auto-avaliação negativa para outra positiva. Afinal sou capaz de fazer coisas bem feitas.
- Monólogo da vitima: acreditar que os problemas não têm solução, ou a priori não ter confiança em si mesmo, pensar que não tenho capacidade para que isto mude. Sabemos, no entanto, que a mudança é possível mesmo que com progressos mais lentos.
- Monólogo do perfeccionista: sente-se na obrigação de fazer sempre mais e melhor, é intolerável com os seus defeitos, comete o erro de pensar que a sua avaliação depende dos outros, do êxito social, do dinheiro … quando o que devia pensar é que há uma vida para desfrutar, podemos errar e aprender com o erro…

2. Acabar com os pensamentos ilógicos. As pessoas que sofrem de ansiedade “fabricam estímulos ambíguos que a partir de pensamentos distorcidos, ilógicos e irreais … constituem o prisma através do qual vêem os outros, o mundo e eles mesmos”. Alguns pensamentos ilógicos:
- ver a realidade habitual como terrível, insuperável, catastrófica;
- sobrestimar uma característica ou um facto negativo;
- e generalizar ou pensar em algo negativo que aconteceu uma vez, vai acontecer sistematicamente.
Outra forma ilógica é a filtragem : ignorar ou menosprezar o positivo de nós próprios e pôr em primeiro plano apenas o negativo;
O raciocínio emocional, sentimentos e emoções, levam-nos também a avaliar as coisas de modo ilógico;
E, finalmente,  o sentido de obrigação excessivo: ter que ser sempre excelente, competente… A vida é feita de obrigações que devemos cumprir; o sentido do dever, no entanto, não deve fazer-nos infelizes.

Há  programas que ajudam a libertar do stress e da ansiedade como o Plano de Atenção Plena (mindfulness): consiste em exercícios diários de 10 a 20 minutos destinados a perceber o que estamos a pensar a cada momento e o efeito que esses pensamentos têm no nosso bem-estar. Podemos tentar libertar-nos dos pensamentos que atrapalham a nossa vida.

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* Pilar Varela refere Edmund Bourne.
* Alguns sites com interesse:
Feliz Mente - Educação e sensibilização para a saúde mental
Miguel Lucas - Como lidar com a ansiedade?
Ansiedade generalizada -Tratamentos
Oficina de Psicologia - Ansiedade generalizada

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Um comentário às vezes é melhor, mais justo e mais objectivo, do que a opinião do(a) jornalista.

"Cavaco Silva nunca foi um homem simpático e de criar empatias. Os media (na sua maioria) e os chamados "intelectuais" sempre embirraram com ele. Isto devia ter-lhe sido fatal na carreira!
No entanto, Cavaco é, sem dúvida, o político mais bem sucedido no Portugal pós-25 de Abril. Muito mais do que M. Soares que, embora possa personalizar mais a opção da democracia e da Europa, é muito menos relevante nos actos concretos da organização e do desenvolvimento do país.
Votei nas primeiras eleições, de 1975, para a Assembleia Constituinte, pelo que tenho já idade para analisar, com equilíbrio, os trajectos e as evoluções das diversas personagens. 
Cavaco ganhou em 1985 (em minoria) e em 1987 e 1991 (com maioria absoluta) porque os eleitores queriam estabilidade, desenvolvimento e "menos revolução". Cavaco correspondia a essa necessidade. Era esfíngico, vertical, de poucas falas, transmitia a ideia de saber o que queria e... de saber mandar.
Os 10 anos de maioria absoluta foram, indiscutivelmente, os anos do desenvolvimento e das infraestruturas (a política do betão, recordam-se?). Recordo que, nessa época, havia muita gente sem electricidade, sem água canalizada, sem saneamento básico e esgotos, sem estradas alcatroadas. Não havia uma autoestrada entre Lisboa e o Porto, quanto mais uma que ligasse o Minho ao Algarve...
Aproveitando os fundos da então CEE, Portugal pareceu, durante alguns anos um grande estaleiro. Foram os anos de maior crescimento consecutivo do PIB. Cavaco deu o subsídio de férias e de Natal aos reformados (ainda não tinham, nem com o Prec!), subiu os salários mínimos e da função pública, mandou construir o Alqueva e a Ponte Vasco da Gama. Foi ele que introduziu o IRS e o IVA. Chegou, também a Auto-Europa.
Foi uma política de investimento público maciço e de modernização, pois era isso que o país necessitava. Não havia comparação possível entre o Portugal de 1985 e o de 1995! Cavaco saiu com o país financeiramente equilibrado e com uma dívida pública abaixo do 60%.
O problema foi que, os governos seguintes (nomeadamente o de A. Guterres) quiseram fazer exactamente a mesma política (do betão... e do juro baixo!) e, em vez de apostarem noutro modelo de desenvolvimento - exportações, por exemplo), levaram-nos "suavemente" até à bancarrota de Sócrates em 2011.
A eleição de Cavaco a PR, em 2006, foi quase uma inevitabilidade pois não havia nenhum "peso-pesado" para lhe disputar a eleição. Os seus dois mandatos de PR, se é que se pode comparar, foram claramente inferiores aos de 1º ministro (cargo que lhe encaixava no seu estilo).
Um primeiro mandato sem grandes problemas, no seu estilo institucional (Sócrates tinha maioria absoluta) e um segundo cheio de crises que, em boa verdade, não foram por ele provocadas, e que todos conhecemos bem: Sócrates minoritário, Troika, 4 anos de maioria absoluta de Passos Coelho, governo minoritário de Costa... que perdeu as eleições..
Cavaco, no entanto, e mesmo a contragosto, deu posse a Costa. Não andou, como Mário Soares, 4 anos a perseguir o 1º ministro (Cavaco!), nem a derrubar um governo com maioria parlamentar de Santana, como Sampaio (maioria parlamentar como agora, é muito curioso...!) para deixar Sócrates no poder.
Conclusão: tirando factos laterais (come bolo-rei com a boca cheia, diz que ganha pouco, etc), nada há de grande mal na actuação de Cavaco como PR. 
Cumpriu perfeitamente o seu papel... não percebo a sanha e o ódio a que o votam!"

30/11/15

Hoje apetece-me ouvir: rorate coeli de super

Heinrich Schütz (1585-1672) 
Mari Orbaeck, soprano, Susanne Ryden, soprano, Ulrich Messthaler, baixo, dir René Jacobs

"Tal como um raio x ..."

Também vão acabar com as provas aferidas no 4º ano? As razões que têm defendido para acabar com os exames servem, igualmente, para as provas aferidas. A primeira razão é que ser da (dita) esquerda significa ser contra as avaliações, e isso é uma questão de "progresso". Depois há razões de peso. Uma delas é esta de Costa: “Tal como um raio x não cura um doente também um exame não faz a aprendizagem dos alunos”.

Como já escrevi,  deve haver exames nos finais de ciclo mas também é igualmente importante que para além dos exames se modifiquem as condições escolares e pedagógicas de forma a poderem ser superados os consequentes constrangimentos daí resultantes.
Os exames são necessários, independentemente da discussão sobre o peso e a forma de realização. É sempre possível fazer melhor.
Aquilo que se devia discutir e solucionar são os resultados dos exames uma vez que devem ser conjugados com o cumprimento da escolaridade obrigatória, ou seja, que soluções devem ser propostas para os alunos com insucesso.
Por outro lado, a avaliação, exames ou provas aferidas são indispensáveis para a avaliação do sistema educativo, para regulação do sistema, para avaliação dos erros de ensino e de aprendizagem, para avaliação das dificuldades dos alunos ...
Se o processo de avaliação, exames ou provas de aferição, serve apenas para se saber quem passa e quem chumba, como também aqui disse, chumbar é estúpido se não houver maneira de resolver este assunto. Um processo tão complexo e caro não pode terminar nos resultados. O problema não é a avaliação é a retenção. É preciso dar resposta aos alunos que ficam retidos.
Tão perniciosa para a sociedade é a existência de exames sem ter soluções para as consequências (retenções) como o facilitismo demagógico que Costa/Catarina/Jerónimo estão a fazer. Dois erros educativos que se pagam caro.

Este é apenas o primeiro passo:
Cerca de 100 mil alunos do 4º ano já não terão de realizar em 2016 as provas finais de Português e Matemática, depois de a maioria de esquerda ter aprovado ontem no Parlamento o fim destes exames, introduzidos em 2012/2013 por Nuno Crato. As provas estavam agendadas para 24 e 26 de maio e pesavam 30% na avaliação dos alunos, que agora passa a depender em exclusivo da nota obtida na escola. PS, PCP, BE, PEV e PAN aprovaram os projetos de lei apresentados por BE e PCP, enquanto PSD e CDS-PP votaram contra.
O que vem já a seguir é ainda melhor:
Ou seja, pior era impossível.

Mas pior é mesmo possível.

Foi quase com as lágrimas nos olhos que li a  bonita e glamorosa frase:  António Costa diz que é preciso "reacender a paixão pela educação".
O objectivo seria, talvez, reviver o passado. Um passado de "imensa festa" que deixou  quatro anos de amargos de boca. Mas para os responsáveis pelo bailout isso não interessa nada. Eles querem regressar ao regabofe.
O que na realidade se passou foi isto e ainda bem que foi reorganizado um serviço educativo que era mais uma despesa desnecessária. Assim, "a rede de 120 CQEP tem um custo estimado de oito milhões de euros anuais, estimativas que se contrapõem a gastos de 110 milhões de euros anuais em 2011 com o financiamento da rede de CNO, quando estavam instaladas 422 destas unidades."

Para além dos custos, era bem melhor,  como escrevi noutro sítio, que fossem criadas "oportunidades hoje" e não "novas oportunidades amanhã". Mas já percebemos que pretende voltar a uma ideia e uma prática de falsa igualdade e de falso progresso:
"Outro ponto marcante da sua intervenção foi “a garantia da igualdade no ensino” – um ponto em que fez duras críticas ao atual Governo. “Recusaremos liminarmente a ideia de antecipar para o Básico as diferenciações vocacionais, porque, sobretudo numa idade precoce, representa prolongar na sociedade de forma duradoura fraturas sociais. Custa-me que 40 anos depois do 25 de Abril de 1974 se tente voltar ao período anterior à reforma de 1973. Esse é um retrocesso que não podemos aceitar e que temos de fazer uma muralha, uma linha vermelha sobre a qual não é possível transigir”, frisou o secretário-geral do PS." (Observador, 24-3-2015).
É por isto que as reformas da educação não passam de reformas-fogacho. Não passam de paixões. Desde Veiga Simão que andamos nisto.

26/11/15

SPO - Psicologia escolar

Consultez le sommaire du magazine Qui sont (vraiment) les psychologues ?O que é um psicólogo escolar? Segundo a NASP os psicólogos escolares ajudam as crianças e jovens a ter sucesso académico, social, comportamental e emocional. Eles colaboram com educadores, pais e outros profissionais para criar ambientes seguros, saudáveis ​​e de suporte de aprendizagem que fortaleçam as ligações entre casa, escola e comunidade para todos os alunos.

O texto de Lisa Friedmann (le cercle psy) sobre "como trabalham os psicólogos escolares?", em França, podia servir também como uma boa informação sobre como trabalham os psicólogos escolares em Portugal. 

No que diz respeito aos fins dos serviços de psicologia e orientação estamos mais ou menos de acordo quanto às semelhanças entre o que se passa em outros países e o que se passou e passa entre nós. Ser psicólogo em contexto escolar era, em 2001, como se pode verificar na revista Psychologica *. Nessa avaliação colocavam-se alguns dos problemas que ainda se mantêm. A avaliação positiva, as expectativas optimistas e as condições, parece-me que não se alteraram muito desde então. O problema das condições de trabalho é recorrente. Mesmo assim esta é uma profissão fascinante. E o mais importante é o trabalho que tem sido feito no terreno, no trabalho concreto com os alunos, escola e família.
Um estudo recente, feito por Sofia Mendes**, vem actualizar esta visão sobre os psicológos escolares em Portugal.

Como se pode melhorar? O que está a fazer falta na psicologia escolar, em Portugal ? Alguns aspectos, principalmente a nível dos meios, podem e devem ser melhorados na prática dos SPO, com a vantagem de que alguns não necessitam de recursos financeiros.

1. Estabelecer uma rede de SPO suficiente e coerente em todo o país. Para isso, há necessidade de reorganização dos SPO de forma a que se convertam em serviços que respondam às necessidades de cuidados psicológicos que, obedecendo a um rácio definido, possam constituir a rede básica de apoio psicológico a que os alunos devem poder aceder.
Esta rede básica seria complementada, conforme as necessidades pontuais, e apenas para estas, com psicólogos contratados.
Haveria, assim, uma rede de SPO coerente em que os alunos de todas as escolas estariam em situação de equidade.

2. Esta rede de SPO implica terminar com as situações, outros tipos de respostas, criadas dentro ou fora do sistema educativo, por IPSS ou associações que dependem igualmente de dinheiros públicos, e são muitas vezes uma maneira indirecta de gastar o dinheiro dos contribuintes mas sem passar pelo crivo das exigências da função pública, que são com frequência sobrepostas, descoordenadas, à margem dos SPO. Assim, seria necessário definir os campos de actuação de cada subsistema, público ou privado, para evitar sobreposição e desperdício de recursos humanos e financeiros que é o que tem acontecido até agora.

3. Coordenação dos vários serviços de psicologia. Embora os pais tenham sempre direito a uma segunda opinião ou outras opiniões e seja importante respeitar a vontade dos pais que desejam ter outras opiniões, não faz sentido que os alunos sejam sujeitos a avaliações e acompanhamentos psicológicos cumulativos, em diversos serviços públicos e muitas vezes em consultas psicológicas privadas. Mas o que acontece é que chegam relatórios de vários serviços do estado e privados nem sempre com diagnósticos e/ou propostas de intervenção consensuais.
Como é óbvio,  no sector educativo, o SPO, em conjunto com os Serviços Especializados de Apoio Educativo e o Conselho de Turma,  face a estas situações, deve ter sempre a última palavra, tendo em conta, necessariamente, os vários relatórios que vêm de outras instituições.
A menos que sejam criadas equipas multidisciplinares interdepartamentais que funcionem baseadas em regras de articulação entre serviços, com encaminhamentos desburocratizados para o serviço mais indicado, seja da saúde seja da educação.

4. Os serviços de psicologia escolar podiam ficar integrados na estrutura orgânica dos Municípios mas com gestão técnica do Ministério de Educação.
Há vantagens importantes como a articulação com os serviços sociais da Câmara Municipal que seria benéfica dado o conhecimento que esta já tem das famílias, do RSI, CPCJ, das situações habitacionais, já está envolvida na acção social escolar dos jardins de infância e primeiro ciclo...
Muitos psicólogos foram integrados nos quadros das Câmaras Municipais. Se não houve vantagens para o o psicólogo ou para o SPO também não houve inconvenientes porque essa integração foi meramente a nível de gestão dos recursos humanos e nesse sentido nada adianta ou atrasa que os psicólogos dependam tecnicamente do ME e administrativamente da Câmara Municipal. A importância resulta do facto de a sua integração orgânica poder facilitar a articulação e a constituição de um serviço que  pudesse dar origem a uma equipa multidisciplinar (psicólogo, tec. serviço social, terapeutas,...), embora a responsabilidade técnica fosse do ME.

5. A reorganização dos serviços devia ser feita de forma a que a sua distribuição pelas escolas pudesse atingir um número idêntico de alunos por psicólogo;  que não houvesse furos na rede de forma a deixar  a descoberto muitos alunos e às vezes os que mais precisam e organizar equipas que pudessem integrar os novos psicólogos, apoiar os que têm experiência, supervisão, avaliação, formação, carreira, etc.

6. O recrutamento e selecção teria de ser sempre realizado pelas escolas/agrupamentos de acordo com o que está estabelecido para concursos públicos.

7. O local de atendimento dos alunos seria nas respectivas escolas, em gabinetes devidamente equipados para efectuarem esse trabalho, como aliás já acontece nas diversas escolas dos actuais agrupamentos, embora deficitários no que se refere ao equipamento.

8. Criar uma rede informática do sistema em duas áreas: gestão dos casos e instrumentos de trabalho. O processo mais vantajoso estaria na utilização de plataformas já existentes do tipo "programa alunos", em que haveria a possibilidade de consultar e recolher a informação familiar e educativa que já consta nessa plataforma, embora o ficheiro de alunos com apoio no SPO fosse de acesso exclusivo dos SPO. Isto é, já existe uma plataforma no sistema educativo, tratava-se apenas de alargá-la aos SPO.
Em segundo lugar dispor de um um conjunto de Instrumentos de trabalho actualizados e informatizados, com possibilidade de aferição desses instrumentos de trabalho automaticamente criando, assim, normas para as escolas portuguesas, que seria muito importante para a consulta psicológica e, particularmente, a nível da orientação escolar e profissional (OEP).
Não seria necessário nada de semelhante ao que existe na Saúde.

9. Esta proposta daria a possibilidade da criação de equipas de trabalho com vários psicólogos, como, aliás, sempre estiveram previstas, desde a criação dos SPO, e permitiria a existência de coordenação do serviço e de supervisão administrativa e técnica.
A passagem da informação, de conhecimento adquirido não estaria sujeita a "começar, anualmente, tudo de novo".
Esse acervo de conhecimento ao longo dos muitos anos de existência dos SPO teria, assim, continuidade, não se perderia de ano para ano com novas contratações e a passagem à reforma dos profissionais não seria o apagamento de um saber e saber fazer de tantos anos de dedicação.

10. Uma politica de gestão dos SPO e dos psicólogos feita a olho e com horários de  meio tempo ou seja lá o que for não faz sentido.
São, certamente, necessários mais psicólogos para se atingir o rácio de 1:1000. Haveria mais qualidade do serviço se o rácio baixasse ainda mais, porque, acima de tudo, haveria melhor qualidade de resposta aos alunos.

11. O estabelecimento de protocolos, inexistentes até agora, sobre a avaliação psicológica e critérios para o estabelecimento de diagnósticos, como é o caso da PHDA e dislexia, por exemplo, o que permitiria, se continuar a ser usada  a CIF, o perfil de funcionalidade do roteiro de avaliação, de contrário fica margem para cada um fazer o que entende... com prejuízo para os alunos, famílias e articulação dos serviços interdepartamentais e, pior ainda, em caso de mudança de estabelecimento de ensino ...

12. Quanto à contratação de psicólogos clínicos ou de outras áreas, sempre defendi que não deve haver exclusão. No entanto, para além dos parâmetros concursais previstos para a admissão de psicólogos no sistema educativo, deveria ser exigido ou estágio da OPP na área da educação,  ou, pelo menos, um período de adaptação à função a desempenhar nas escolas.

13. O que falta é uma verdadeira reforma em que sejam ouvidas as organizações dos profissionais, OPP e Sindicatos, mas também e, em primeiro lugar, os profissionais dos SPO.

Para a Psicologia Escolar, o protocolo assinado entre a OPP e o MEC, pode ser um instrumento de trabalho interessante para melhorar a qualidade destes serviços. Espero que os novos inquilinos da 5 de Outubro não o remetam para o caixote do lixo.
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* Lígia Maria Leitão,Maria Paula Paixão, José Tomás da Silva, José Pacheco Miguel , "Ser psicólogo em contexto escolar: Os serviços de psicologia e orientação (SPO's) na Região Centro", Psychologica, 2001, 26, 27-53.
** Mendes, S. A., Abreu-Lima, I., & Almeida, L. S. (2013). Psicólogos escolares em Portugal: Contributo para a sua caracterização profissional,  Psicologia, Educação e Cultura, 17(1). 190-208.

SPO - Psicologia escolar

O Ministério da Educação e Ciência (MEC) vai gastar cerca de 30 milhões de euros, provenientes de fundos comunitários, “na contratação, formação e aquisição de materiais no âmbito do trabalho dos psicólogos em contexto escolar”, adiantou hoje a tutela. 
...
O trabalho dos psicólogos nas escolas passará também a ter supervisão, referiu Pedro Cunha. 
...
Neste momento estão a ser dados os primeiros passos para a criação de uma plataforma que registe as intervenções realizadas ao longo do acompanhamento do aluno, à semelhança do que acontece no Serviço Nacional de Saúde. 

De acordo com dados da Ordem dos Psicólogos, existem atualmente cerca de 775 psicólogos para um milhão e duzentos mil alunos, havendo casos em que há apenas um psicólogo para 2.000 alunos.
...
O objetivo, é, até 2020, “atingir o objetivo de um psicólogo por cada 1.100 alunos”... 

25/11/15

Urgência de Eros

Adenauer, depois da 2ª guerra mundial, interrogou a sua consciência sobre o que tinha acontecido para que a guerra tivesse existido.
Havia sinais visíveis do que ia acontecer: a proibição de manifestações culturais, musicais, da correspondência indesejada.
Apesar do contexto de crise na Europa, as memórias da carnificina da guerra de 14-18 ainda eram recentes. Seria possível uma nova guerra porque os homens não aprendem? O que faz com que os homens embarquem numa nova aventura mortífera?
Este é o problema: Existe alguma forma de livrar a humanidade da ameaça de guerra? É do conhecimento geral que, com o progresso da ciência de nossos dias, esse tema adquiriu significação de assunto de vida ou morte para a civilização, tal como a conhecemos; não obstante, apesar de todo o empenho demonstrado, todas as tentativas de solucioná-lo terminaram em lamentável fracasso.
Foi por isso que, em 1932, em plena crise económica e política, Einstein, pacifista empenhado, sob a égide do Comité Permanente para a Literatura e as Artes da Liga das Nações, propôs a Freud a troca de correspondência, pública, sobre o problema da paz.
Daqui
Nesta troca de correspondência que se chamou “Porquê a guerra?” Einstein qualifica a sua preocupação como a questão mais importante para a civilização e interroga Freud sobre o que pode levar os homens a afastarem-se da guerra quando se sabia que não havia um organismo internacional poderoso que pudesse fazer com que as nações se submetessem às decisões legislativas e judiciárias em nome da paz e do bem comum.
Quais são os factores psicológicos de peso que paralisam tais esforços a favor da paz ?
Freud recusa que a psicanálise possa caucionar as considerações sobre o bem e o mal inscritos no inconsciente. Há um dualismo pulsional: pulsão de vida e pulsão de morte mas seria desajustado conotar moralmente estas pulsões. Uma é tão indispensável quanto a outra e os fenómenos da vida têm acções conjugadas das duas.
Freud acha que não faz sentido querer suprimir as tendências agressivas dos homens.
Mas pode-se lutar contra a agressividade humana pelo reforço de Eros, tudo o que leva às ligações entre os homens não pode ser senão conta a guerra.
Tudo o que desenvolva estes importantes traços comuns convoca sentimentos partilhados, isto é, identificações. A psicanálise recomenda o reforço das ligações pulsionais pelo amor e pelas identificações.
Para Freud, a guerra é uma regressão, um regresso à violência das origens e uma destruição da aptidão profunda do homem pela civilização.
A cultura é certamente destruída pela guerra mas ela é também o baluarte que promove o desenvolvimento do ser humano  e que trabalha contra a guerra.

A publicação do texto foi proibida pelos nazis. Martin, o filho mais velho de Freud, vai ocupar-se da sua difusão clandestina na Áustria.
A 1 de Setembro de 1939 as tropas alemãs invadiam a Polónia.

No tempo presente, com sinais tão preocupantes, vale a pena ter presente a correspondência entre Einstein e Freud. Não só em relação à violência entre as nações mas à volência que está dentro de cada um de nós.

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Brigitte Bergmann, "Freud et Einstein: Pourquoi la guerre?", Le cercle psy, nº 16, 2015, pag. 94-95.

17/11/15

"Les fleurs et les bougies, c'est pour nous protéger"

Como explicar às crianças a guerra, o terrorismo, a morte? Como explicar às crianças aquilo que nem os adultos compreendem muito bem?  As notícias sobre os assassinatos de Paris inundam os media e as pessoas dificilmente as podem esquecer. Interrogamo-nos sobre o que leva estes radicais a cometer estes crimes, e sobre o que está a acontecer na nossa sociedade, no nosso mundo.
Estátua da liberdade - Paris 
Além da guerra em si mesma, há também uma guerra psicológica que é vivida todos os dias pelos sobreviventes e por todas as pessoas que de uma maneira ou outra viveram aqueles acontecimentos. 
Mais tarde ou mais cedo vão acabar por surgir perguntas feitas pelas crianças.
Os diálogos com as crianças devem ter em conta a idade e o seu desenvolvimento cognitivo, social e moral. Obviamente que a comunicação deve ser ajustada a esse desenvolvimento.
Há que ter em conta que as crianças por aprendizagem e por modelagem aprendem as emoções dos pais, a ansiedade dos pais e elas próprias acabam por ficar ansiosas se sentirem ansiedade à sua volta.
Como em outra situação qualquer, a criança vai ficar com medo se nós, através da nossa comunicação, lhes incutirmos esse medo, seja ele qual for: da guerra, do terror, ou de coisas do quotidiano: o medo da escola, dos exames…
Face a tantas notícias, os nossos comentários em família ou com outras pessoas estão carregados emocionalmente, tal como acontece com as conversas dos amigos ou dos colegas na escola, por isso elas estão despertas para aquilo que se passa à sua volta, principalmente quando atinge este tipo de gravidade.
Deve-se deixar que as crianças falem das suas dúvidas e interrogações, deve-se deixar que as crianças exprimam o que sentem sobre a sua ansiedade, o seu sofrimento ou o sofrimento dos outros através de várias formas de expressão como o desenho e a pintura…
Não adianta explicar pormenores sobre o que aconteceu. A criança, geralmente, fica satisfeita com a resposta que lhe dermos.
Não vale a pena usar palavras difíceis, termos complicados ou com muitos números, mesmo que a criança já esteja no período operatório.
Tal como nós, a criança precisa de se sentir segura, tem de perceber que alguém lhe dá segurança e amor e este é o melhor remédio para não ficar ansiosa. 
"Les fleurs et les bougies, c'est pour nous protéger" 
Há perguntas mais difíceis de responder quando se coloca a questão do “porque é que as pessoas fazem isto ? “ Porque nos remete para a questão do bem e do mal. Não sei se há um "eixo do mal" mas todas as pessoas são influenciadas por causas familiares, psicológicas, sociais, políticas e religiosas, e apenas algumas têm estas práticas. Há também diferenças psicológicas que geram diferentes comportamentos: Para umas, as emoções como a bondade e o perdão fazem parte do seu comportamento e outras cheias de ódio, querem impor as suas ideias através da violência. Por outro lado, sabemos que a mente do terrorista suicida, foi sujeita a técnicas sofisticadas de condicionamento para doutrinar e executar actos de violência e terror, matando pessoas, ainda que  totalmente inocentes. E isto é uma realidade de que  é necessário proteger os cidadãos  e que também não deve ser ignorada nem escondida.
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13/11/15

Hoje apetece-me ouvir

Os Músicos do Tejo - Sinfonia da ópera "La Spinalba" de Francisco António de Almeida 


Os Músicos do Tejo - In queste lacrime, Arsindo specchiasti (Il Trionfo d'Amore) de Francisco António de Almeida; Sandra Medeiros, soprano.

Os Músicos do Tejo


10/11/15

Acordo(s) de mínimos


Mas um Mínimo chamado Kevin tem um plano e, juntamente com o rebelde Stuart e o adorável Bob, aventuram-se pelo mundo à procura de um novo e malvado chefe para seguirem...

Pensamento negativo

Não me enganei. Quero mesmo falar do pensamento negativo. Habitualmente, falamos de pensamento positivo e, nas nossas conversas, principalmente quando estamos mais frágeis, ouvimos muitas vezes como incentivo “vá lá,  pensamento positivo!”.
Associamos normalmente pensamento positivo com optimismo e alegria e pensamento negativo com pessimismo e tristeza. Pensamento negativo é também confundido com maus pensamentos.
No entanto, não é bem assim. A psicologia positiva não é a mesma coisa que optimismo ou pensamento positivo, embora sejam aspectos fundamentais. O optimismo é um dos traços que provoca maior bem-estar nas pessoas, fazendo parte dos pilares da psicologia positiva (Seligman).
Seligman veio alertar e demonstrar, através da investigação científica, que é fundamental estudar e conhecer as forças e virtudes humanas que contribuem para as pessoas serem felizes.
Durante muitos anos a psicologia centrou-se nos aspectos da doença mental, e recentemente a psicologia do bem-estar veio centrar a psicologia, ciência do comportamento, no funcionamento optimista do ser humano, nas forças e virtudes do indivíduo e nas áreas fundamentais do bem-estar (emoção positiva, envolvimento, significado, realização pessoal, relações positivas).
No entanto, o pensamento negativo também é importante para a modificação cognitiva.
Os benefícios do pensamento negativo têm sido estudados e sabe-se que “algumas cognições focalizadas sobre a interpretação negativa dos acontecimentos pode ter um valor adaptativo”. 
Um exemplo disso é o que chamamos “condução defensiva”, que não é outra coisa que uma condução que depende do pensamento negativo.
Se vemos um carro a baixa velocidade à nossa frente que não faz um sinal que devia fazer, podemos pensar que se trata de alguém que não conhece o local ou que esta com algum problema pessoal. Mas também posso pensar que os condutores tem obrigação de saber circular sem dificuldade e que está tudo bem…
Numa pessoa ansiosa sempre que um pensamento negativo é identificado, o terapeuta não tem “como fim apenas a sua substituição por um pensamento positivo mas antes procurar investigar se esse pensamento negativo tem justificação e como ele pode ser modulado ou contrabalançado por interpretações mais positivas ou neutras”.
É assim necessário procurar um equilíbrio entre pensamentos negativos e positivos resultante do nosso diálogo interno que pode ser positivo, de conflito, negativo e anormalmente positivo. 
É positivo quando do nosso diálogo interno temos mais pensamentos positivos do que negativos. É o funcionamento normal do nosso pensamento.
Há conflito quando nos confrontamos com metade de pensamentos positivos e metade de pensamentos negativos. Ainda nos podemos conservar adaptados mas, certamente, com alguma ansiedade.
Negativo, quando temos mais pensamentos negativos do que positivos. Estamos num estado de ansiedade e depressivo severo, comprometendo a nossa integração no meio em que vivemos.
Finalmente, o pensamento é anormalmente positivo em situações patológicas como nos estados maníacos das perturbações obsessivo-compulsivas (poc). A alegria e euforia são patológicas.
Os pensamentos negativos têm importância face a um mundo que não é, propriamente, um mar de rosas e onde, facilmente, apenas se podem considerar felizes, como diz o povo, “os patetas alegres” ou “os contentinhos da silva”.
Dito isto, também sabemos que a melhor atitude mental é ter sempre uma visão positiva da realidade dos factos da nossa vida.

09/11/15

Fantásticas desatenções da infância

Miguel Araújo  - Capitão fantástico

Da estação-Mãe para, mais tarde, a estação-Patrícia: "Ele há qualquer coisa nos olhos de Patrícia que não me deixa dormir"

Miguel Araújo - Canção do ciclo preparatório

e lembro-me da desatenção de 

Page d’écriture
Deux et deux quatre
quatre et quarte huit
huit et huit font seize…
Répétez ! dit le maître
Deux et deux quatre
quatre et quatre huit
huit et huit font seize.
Mais voilà l’oiseau lyre
qui passe dans le ciel
l’enfant le voit
l’enfant l’entend
l’enfant l’appelle
Sauve-moi
joue avec moi
oiseau !
Alors l’oiseau descend
et joue avec l’enfant
Deux et deux quatre…
Répétez ! dit le maître
et l’enfant joue
l’oiseau joue avec lui…
Quatre et quatre huit
huit et huit font seize
et seize et seize qu’est-ce qu’ils font ?
Ils ne font rien seize et seize
et surtout pas trente-deux
de toute façon
ils s’en vont.
Et l’enfant a caché l’oiseau
dans son pupitre
et tous les enfants
entendent sa chanson
et tous les enfants
entendent la musique
et huit et huit à leur tour s’en vont
et quatre et quatre et deux et deux
à leur tour fichent le camp
et un et un ne font ni une ni deux
un à un s’en vont également.
Et l’oiseau lyre joue
et l’enfant chante
et le professeur crie :
Quand vous aurez fini de faire le pitre
Mais tous les autres enfants
écoutent la musique
et les murs de la classe
s’écroulent tranquillement
Et les vitres redeviennent sable
l’encre redevient eau
les pupitres redeviennent arbres
la craie redevient falaise
le port-plume redevient oiseau.

Jacques Prévert - Paroles
in Alberto Carneiro, Elvira Leite e Manuela Malpique, O espaço pedagógico, 2 Corpo/Espaço/Comunicação



Yves Montand - Page d´écriture

08/11/15

Fim de tarde com Brahms



8 de Nov., Cine-Teatro Avenida, Castelo Branco - Concerto pela Orquestra Filarmonia das Beiras, dirigida pelo maestro Ernst Schelle.
Terceiro programa do Ciclo Caixa Brahms - 2014/2016 - Integral das Sinfonias e dos Concertos, que conta com o apoio da Caixa Geral de Depósitos.
Programa:
- Concerto para Violino e Orquestra, em Ré maior, Op.77, com a interpretação do violinista André Fonseca.
- Sinfonia nº1 em Dó menor, Op. 68.
Não deixa de ser impressionante que, conforme o próprio declarou, a sinfonia tenha levado a escrever vinte e um anos, de 1855 a 1876.

04/11/15

Malabarismo político

Completa-se o primeiro mês pós-eleitoral. Costa ainda não se demitiu. Em vez disso, tem-se sujeitado a mostrar o que tem de pior e o pior que tem um político.
Ao fim de tanto tempo ainda não conseguiu concretizar o(s) acordo(s) que vai (vão) mudar o país e acabar com a austeridade. A responsabilidade disso é do Presidente da República que andou a perder tempo com a nomeação de um governo que resultou de uma maioria relativa que, por acaso, até ganhou as eleições!
Capriche, à vontade, nesse tal acordo (ou acordos) que não perde pela demora.

P.S.: A gente lê e não acredita. Os outros são sempre responsáveis pelo que eles estão a fazer ao país. O rapaz da bom atómica vem dizer que "foi a deriva do PSD que fez aproximar o PS da esquerda". 

P.S. 2 (9-11-15): "Há acordo no que há acordo, e não há acordo onde não há acordo". A lapalissada do acordo. É de ir às lágrimas.

P.S. 3 (9-11-15): A primeira gigantesca desculpa: as gigantescas pressões. "Vamos ter, certamente, gigantescas pressões da Europa da austeridade; vamos ter, certamente, gigantescas pressões dos grandes grupos financeiros internacionais, que têm lucrado tanto com a venda do nosso país ao desbarato; vamos ter gigantescas pressões do sistema financeiro e dos grandes grupos económicos que têm gostado tanto da destruição das condições do trabalho e da vida em Portugal", disse Catarina Martins..." Esqueceu-se de falar das gigantescas pressões que virão da troica externa Catarina/Jerónimo/Verdes e da troica interna Costa/César/Centeno. 

P.S. 4 (10-11-15): Diz a comunicação social (rtp, tvi, sic) que, em segredo (à porta fechada), sem a presença de qualquer órgão de comunicação social,  individualmente, à hora de almoço, numa sala qualquer de S. Bento, foram assinados três acordos. Estes acordos-golpada dos perdedores das eleições de 4 de Outubro são a tradução da ambição pessoal de Costa. A democracia levou o primeiro corte. 

P.S. 5 (13-11-15): Em 2009, era assim: “os portugueses conquistaram um direito a que não podem nem devem renunciar: o direito a que os governos não sejam formados pelos jogos partidários, mas que resultem da vontade expressa, maioritária, clara e inequívoca de todos os portugueses”                    




P.S. 6 (24-11-15): Depois de 51 dias, a maior parte deles de grande indefinição política, hoje ficou a saber-se que o próximo primeiro-ministro será António Costa. O líder do PS foi esta manhã a Belém, encontrar-se com Cavaco Silva (ontem já lá tinha estado) e pouco depois o Presidente da República revelava que o tinha indigitado PM, com a incumbência de formar governo.
Já se conhece o elenco governativo. Como disse Sobrinho Simões, voltou a alegria ao país!

P. S. 7 (26-11-15): 53 dias depois das eleições legislativas, o governo-golpada acaba de tomar posse. Declarou César: Vem aí um "país novo"!

Moral da história: A fonte deixou de ser luminosa. "O tempo é de ficar do outro lado. Por todo o lado e bem à vista."


29/10/15

"O poder e o seu simulacro"

"Diga-se desde já que se trata de uma questão em que é particularmente posta em causa a função desempenhada pelos intelectuais no desenvolvimento do estalinismo. Porquê mais especificamente os intelectuais ? Porque a sua função se define exactamente, quanto ao essencial, a partir de uma função de linguagem. Nesta precisa circunstância, segundo modalidades particulares. Numa longa nota colocada em apêndice à obra de Dominique Desanti *, Les staliniens, Jean Toussaint Desanti ** sublinha que aquilo que  «o Partido» dá aos intelectuais que dele são membros e que nele desempenham a sua função (escrever artigos, fazer conferências, participar em debates ideológicos,etc.) é um «simulacro de poder». Um simulacro, porque do poder real, de decisão e de acção, habitualmente o intelectual, «o falador» não dispõe mais do que um qualquer militante de base, e ainda menos que as massas do exterior; é a organização, a orga, segundo um dos termos do léxico estalinista. (Pergunta chave, inclusive no mais irrisório e minoritário grupúsculo de extrema esquerda: estás organizado? Nada de mais deplorável, como é sabido que ser um «não organizado»...) Habitualmente, na prática política estaliniana, a «orga» fala pouco, e só para publicar as suas directivas; e também as análises, que as instâncias dirigentes são levadas a tornar públicas, são apresentadas num estilo de «directiva». Ora, este aparelho, que como todo o aparelho é um órgão de poder, de autoridade (e não me ponho aqui a questão da legitimidade ou ilegitimidade desse poder: limito-me a constatar uma situação de facto), não conseguiria subsistir como tal, simultaneamente na vida interna do grupo social que dirige (o «partido» no seu conjunto) e nas tentativas de exercer um impacto sobre toda a sociedade que também aspira a dirigir - não conseguiria portanto funcionar como tal, sem a ajuda específica do discurso que apoia (com os seus comentários, as suas glosas, as suas justificações, etc.) as suas decisões. É no desenvolvimento deste discurso que substancialmente se situa, na minha opinião, o essencial do simulacro de que fala Desanti. Como todo o discurso, de facto, este reveste uma função de vínculo social, o que comporta, neste caso, que ele realize simbolicamente e imaginariamente aquele âmbito de reconhecimento recíproco em que cada sujeito-membro vem a gozar de uma unidade não contraditória, de uma identidade tranquilizadora e consoladora que Desanti denomina. também, bastante ajustadamente, um «consenso». E, de facto, há consenso, proporcionado pelo discurso em que a comunidade em questão encontra meio de falar-se e de reconhecer-se na sua palavra (que desorientação para muitos de «nós», por exemplo, quando, em Maio-Junho de 1968, não tínhamos podido encontrar o nosso «Huma» [«l'Humanité»] quotidiano: a situação não nos oferecia nada em que reconhecer-nos, as coisas não caminhavam conforme o previsto); e também, e é este o outro inevitável aspecto do discurso como «vínculo social», proporcionado pelo interdito de que este discurso é, como sempre, literalmente o «modo de ser». Donde o autêntico pânico subjetivo que pode manifestar-se perante toda a ameaça, de separação (a exclusão, ou simplesmente «o já não estar de acordo com as posições do Partido», etc.) e, de uma maneira geral, perante toda a ameaça de ruptura e desagregação do consenso-interdito (um «um» que se dividisse em «dois» é aqui impensável, inimaginável, a «palavra de ordem» é, isso sim: cuidemos da unidade do Partido «como da pupila dos nossos olhos»!) em que se funda aquela virtude cardeal mais que qualquer outra que se chama, em linguagem estalinista, «a devoção e a fidelidade ao Partido». Virtude das virtudes: morrer depois de ter dado prova da sua «fiel devoção ao Partido», mesmo quando havia todas as razões para dele duvidar; ou seja: ter lá permanecido igualmente e morrer sem dizer nada. Parabéns, «orga»!"

(Jean-Louis Houdebine, «Ter um Estaline na Língua», Sexualidade e Poder, Dir. de Armando Verdiglione, 1976, trad.port.1978)
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1956 marque un tournant fort dans sa vie. Après la répression du soulèvement de Budapest et la découverte précoce du Rapport Khrouchtchev au XXe congrès du Parti communiste d'Union soviétique, elle quitte le Parti communiste français, tandis que Jean-Toussaint y reste jusqu’en 1962. Quittant la presse communiste, elle doit réorienter sa carrière de journaliste, mais reste fidèle à son engagement à gauche.

** Jean-Toussaint Desanti a enseigné la philosophie aux écoles normales supérieures de la rue d'Ulm et de Saint-Cloud ainsi qu'à la Sorbonne. Il a eu pour élèves Michel Foucault et Louis Althusser, dont il a fortement influencé l'engagement politique. Il est proche de Jacques Lacan. Il a dirigé notamment la thèse de Doctorat d'État de Jacques Derrida (1980) et celle de Souleymane Bachir Diagne.