21/06/17

Dor e esperança



A dor chama-se fogo. A dor chama-se estrada nacional 236. A dor pode chamar-se todo o horror que a morte provoca no corpo e na alma das pessoas. As que partem e as que ficam. As que assistem à dor dos outros, as que estão longe na geografia mas perto no coração.
A dor chama-se um filho que fica sem pais, pais que ficam sem filhos. Ou quando não fica ninguém.
A dor, por estes dias, chama-se fogo. Sábado, 17 de Junho, em Castelo Banco, tarde de muito calor com trovoada. À noite, Rui Veloso, voltava a velhos temas “Sei de uma camponesa”, do “ar de rock”, a evocação do mundo rural e urbano… Ao mesmo tempo, quem podia saber?, que esse mundo rural passava por uma experiência traumática, ardia a estrada nacional 236, levando no fogo 47 vidas.
Manhã de choque, de espanto e surpresa, para um país. Famílias desencontradas ou destruídas, aldeias reduzidas a cinza.
Tivera lugar um acontecimento «atípico», com enorme impacto, para a qual construímos explicações para a sua ocorrência depois de o facto ter lugar, um cisne negro (N. Taleb) acontecia sem que alguém tivesse previsto, sem que alguém pudesse reagir a tempo.

Estamos por isso a construir as explicações.
Quem são os responsáveis? São as forças da natureza às quais ninguém consegue opor-se ou a incúria dos homens que nunca espera o pior? Ou a certeza do homem imprevidente que não quer saber da incerteza, do homem maldoso ou do homem doente, do homem da política, do homem especulador dos negócios ?
Talvez, por isso, não haja responsáveis: das informações, da coordenação, do planeamento, da estratégia, operacionais, legisladores …

Que fazer com os que sobreviveram ? A dor é uma experiência subjectiva mas é também uma experiência universal. As culturas, as filosofias e as religiões vêem a dor à sua maneira e podem suavizar o sofrimento indescritível de algumas pessoas mas nunca são suficientes para compreendermos "porquê?"
Tantas informações, debates, explicações, justificações… também não chegam porque a dor da gente não vem nos jornais nem nos telejornais.
A reparação psicológica e a reconstrução material das casas, dos campos, dos animais… vai levar muito tempo. O luto ainda mal começou. Provavelmente, serão lutos muito longos que ficarão na memória por muitos muitos anos, aonde as lembranças voltarão com frequência, não deixarão dormir, não darão sossego, não deixarão ver claro, não deixarão ver a justiça.
Haverá casos de perturbação pós-stress traumático, um problema de ansiedade que surge, quando uma pessoa foi exposta a um acontecimento que constituiu um trauma psicológico, como uma ameaça à sua segurança ou à sua vida, em que terá sentido medo, desespero, falta de ajuda ou horror intenso.

A dor faz parte da vida humana, existe e é inevitável, mas o sofrimento pode ser diminuído e evitado. Os cuidados de saúde física e mental deviam ser garantidos a estas pessoas que estão em sofrimento. Só assim poderá ser feito o luto.
Erguer das cinzas faz parte desse processo: Muitos lutaram, ficaram com a dor e com as marcas para a vida toda e continuam a viver
Onde ficou o silêncio terá lugar o canto das aves, do vento, onde havia cansaço e desânimo terá lugar a esperança.
Erguer das cinzas devia ser uma prioridade, desta vez, feita de maneira diferente dos últimos 40 anos: aprender com a experiência, e aprender, sobretudo, aquilo e com aquilo que não sabemos, para que novos acontecimentos improváveis não voltem a acontecer de forma tão devastadora.

O mito do progresso



Notícias recentes deram conta do incêndio de grande dimensão  que deflagrou na madrugada de 14 de Junho, num edifício, em Londres, uma torre residencial com mais de 20 andares, com vários dezenas de mortes e feridos.
O progresso que aparentemente se encontra nas grandes cidades (megalópoles), traz consigo problemas para os quais não há soluções, não são aplicadas soluções já conhecidas ou não são previstas, por negligência, por  economicismo, etc. A segurança, p.ex., é muitas vezes a questão mais importante mas a que sofre mais com este tipo de atitudes.
Desde há muito que a ideia de progresso é discutida e, aparentemente, para algumas das situações consideradas de progresso, não foram criadas soluções para situações críticas como acontece em acidentes deste tipo, ou da energia nuclear ou do controle de organismos geneticamente modificados...
"O progresso é um mito renovado por um aparato ideológico interessado em convencer que a história tem destino certo e glorioso."  (Gilberto Dupas)

Anselmo Borges em artigo que chama de “Uma sociedade ameaçada” escreve que "a actual sociedade europeia de que fazemos parte tem, na expressão do filósofo E. Husserl, uma nova "forma de vida", isto é, um horizonte novo de vivência, sentido e autocompreensão, a partir de três princípios fundamentais.
Trata-se de uma sociedade à qual foi possibilitado imenso bem-estar, derivando daí novas possibilidades de auto-realização e também um feroz individualismo, que apenas reivindica direitos ignorando deveres.
Por outro lado, as novas tecnologias têm um impacto decisivo nas sociedades, e não só no plano socioeconómico: mudam as mentalidades. Por exemplo, estar ligado à rede, navegando, afecta a vivência de si e do mundo. A concepção de espaço é outra, muda sobretudo a vivência do tempo.
…Paradoxalmente, a ligação global produz solidões penosas. Há um sentimento de quase omnipotência, seguindo-se daí que tudo o que é tecnicamente possível se deve realizar, sem perguntas de outro foro, ético, humanista. A satisfação imediata e o facilitismo são outras características de uma sociedade líquida 1 e mole, cujo deus é o dinheiro.
Desta forma de vida faz parte ainda a crítica religiosa, no sentido de um laicismo agressivo."

As questões ditas fracturantes parecem estar confi(n)adas ao lado dos autoproclamados  progressistas, sendo que o lado do progresso é feudo da dita esquerda e todos os outros são vistos como anti-progressistas, contra a evolução, retrógrados e reaccionários.
A propaganda das grandes realizações socialistas era marcada pelo progresso em todas as áreas da vida, os planos quinquenais traziam o grande desenvolvimento económico, desporto e lazer para todos, igualdade para todos...
Alguns partidos políticos, autoconsiderando-se progressistas, constituiram a Aliança progressista. para a direcção da qual, recentemente, António Costa foi eleito.

A. Borges dá alguns exemplos deste progressismo actual, entre nós:  a gestação de substituição, vulgarmente conhecida por barrigas de aluguer;  a eutanásia; o animal "... que não é coisa mas não é pessoa” 2; a dificuldade de  convivência com o esforço e com a avaliação (como terminar com os exames).

Ora aquilo que acontece é que estamos assistindo a grandes convulsões sociais e políticas, mais ou menos generalizadas: guerras, fome, injustiça, vagas de refugiados, emigração descontrolada,  que provam que não há grande progresso quando os direitos humanos são afrontados de forma tão elementar. 
Há questões que sempre devemos analisar perante aquilo que nos querem vender como progresso: "a quem o progresso serve, quais são os riscos e custos de natureza social, ambiental e de sobrevivência da espécie e que catástrofes futuras ele pode gerar."(G. Dupas)

Em Admirável mundo novo, 1946, Aldous Huxley coloca em epígrafe uma frase de Nicolas Berdiaeff: "As utopias são realizáveis. A vida vai em direcção às utopias. E talvez um século novo comece, um século em que os intelectuais e a classe culta sonharão com os meios de evitar as utopias e de voltar a uma sociedade não utópica, menos “perfeita” mas mais livre".

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1 Segundo Bauman, "modernidade líquida".
2 "Repensar o conceito de "pessoa". De acordo com o PAN, que cita estudos científicos, os animais também são dotados de consciência, mas não têm o direito de ser considerados como pessoas. O PAN defende, por isso, o reconhecimento no Código Civil de um eventual terceiro tipo de pessoa, para além da pessoa singular e da pessoa colectiva já existente. 


Dia Europeu da Música

Eurico Carrapatoso - O meu Poemário Infantil - Nr.1

  1º dia de Verão - 21de Junho

12/06/17

Zé Povinho faz 142 anos

"Surgiu pela primeira vez na 5ª edição do periódico "A Lanterna Mágica", a 12 de Junho de 1875, na charge intitulada "Calendário Portuguez", alusiva aos impostos, onde se representa o então Ministro da Fazenda, Serpa Pimentel, a sacar ao Zé Povinho uma esmola de três tostões para Santo António de Lisboa (representado por Fontes Pereira de Melo) com o "menino" (D. Luís I) ao colo, tendo ao lado o comandante da Guarda Municipal, de chicote na mão, presente para prevenir uma eventual resistência." (Wikipédia)

Qualquer semelhança com a actualidade política nacional é mera coincidência !

05/06/17

Ambiente e saúde


Durante esta semana, a 5 de Junho, passa mais uma comemoração do dia mundial do ambiente. Como acontece com as comemorações de outros dias mundiais, desde o seu início, em 1974, o Dia Mundial do Ambiente tem servido para "sensibilizar, consciencializar, chamar a atenção, assinalar que existe um problema por resolver, um assunto importante e pendente na sociedade para que através dessa sensibilização os governos e os estados actuem e tomem medidas ou para que os cidadãos assim o exijam aos seus representantes" (ONU)
Passados 43 anos desde o início do dia mundial do ambiente podemos dizer que os progressos não foram grandes. Por exemplo, a semana passada falámos do problema ambiental relacionado com o Tejo, devido à poluição e à central nuclear de Almaraz, e do significado ecológico e cultural para as populações que vivem ou não na sua proximidade.
Não será por isso que as coisas deixam de ser o que são ou que o aquecimento global deixará de se verificar se nada for feito. Também aqui tem que haver alternativas e o importante é procurar chegar a acordo com todas as partes, realizar estudos aprofundados sobre as suas causas e sobre o que cada estado deve fazer e deve suportar para melhorar o estado do ambiente. Porque  o ambiente é assunto que diz directamente respeito à vida e à saúde das pessoas e não pode deixar de ser um problema actual e para as próximas gerações.
Uma grande e boa surpresa foi a publicação (2015) da Carta encíclica Laudato si, do Papa Francisco, sobre o ambiente e o cuidado da “casa comum”.
A questão inicial é "que tipo de mundo queremos deixar a quem vai suceder-nos, às crianças que estão a crescer ?"
No fundo é uma questão geral sobre o sentido da vida e sobre os valores que a fundamentam: « Para que viemos a esta vida? Para que trabalhamos e lutamos? Que necessidade tem de nós esta terra?»
Francisco refere vários aspectos da actual crise ecológica: As mudanças climáticas, o acesso à água potável, a preservação da biodiversidade, a dívida ecológica.

Foi também uma boa  surpresa o livro de Manuel Pinto Coelho, Chegar novo a velho (2015) pela ligação que estabelece entre saúde ambiental e saúde individual, física e mental. Pinto Coelho  cita Francisco: “ a violência presente nos nossos corações está também reflectida nos sintomas da doença evidente no solo, na água, no ar e em todas as formas de vida” (p 154)
Nesta matéria, “a exposição ambiental às toxinas e metais pesados na nossa sociedade está a tornar-se uma condição clínica cada vez mais significativa nos dias que correm”.
Metais pesados como chumbo, mercúrio, arsénio, níquel, cádmio, alumínio e muitos outros, ou toxinas presentes praticamente em todo o lado: centrais eléctricas, automóveis, diesel, metalúrgicas e fundições, agricultura, esgotos, produtos de cosmética… constituem graves perigos para a saúde.

Francisco sabe que não é fácil reformular hábitos e comportamentos mas a «mudança nos estilos de vida», das pessoas, governos e  empresas, é o caminho.
Como em tantas outras situações, a educação e a formação são instrumentos centrais para essa mudança se concretizar.
Há esperança de que  cada um de nós comece por mudar a sua relação com o ambiente, nas pequenas coisas, como evitar o desperdício de água, luz ou alimentos.
Como diz Francisco: «nem tudo está perdido, porque os seres humanos, capazes de tocar o fundo da degradação, podem também superar-se, voltar a escolher o bem e regenerar-se ».

01/06/17

Dia Mundial da Criança


J. - 2;8(25)


Princípio 6º
Toda a criança deve crescer num ambiente de amor, segurança e compreensão. As crianças devem ser criadas sob o cuidado dos pais, e as mais pequenas jamais deverão separar-se da mãe, a menos que seja necessário (para bem da criança). O governo e a sociedade têm a obrigação de fornecer cuidados especiais para as crianças que não têm família nem dinheiro para viver decentemente.

31/05/17

Tejo, meu doce Tejo



Realizou-se, esta semana, a cimeira ibérica em que os governos de Portugal e de Espanha discutiram assuntos comuns e de grande importância, suponho eu, para os dois países.
A cooperação transfronteiriça parece ter sido   o grande assunto (pelo menos da agenda formal) nesta cimeira ibérica. O objectivo para esta cooperação transfronteiriça seria a transformação da interioridade em centralidade. É óbvio que faz todo o sentido e o tema não é novo. Quem vive, por exemplo, em Castelo Branco, sabe que nos deslocamos a Madrid tão facilmente como a Lisboa.
Mas a notícia é preocupante quando refere que “A central nuclear de Almaraz, que motivou uma manifestação com a participação d' «Os Verdes» e do BE, ficou de fora da agenda da cimeira por, concluiu hoje António Costa, ser uma questão discutida no passado e ter ficado «bem resolvida».

Na verdade, não ficará bem resolvida,  enquanto  for adiado o “prazo de validade “ da Central de Almaraz e enquanto existir.
Independentemente de manifestações e de partidos que às vezes apenas servem para  tirar partido destas situações aproveitando-se dos sentimentos, preocupações e medos das populações, depois de Chernobyl e Fukushima, em Lisboa ou em Madrid, apercebem-se certamente de que este é o assunto mais importante a ser resolvido.* A centralidade da interioridade é importante depois de resolvido  um perigo potencialmente mortal que a central de Almaraz significa  para as pessoas e para o ambiente.
O Tejo faz parte da  nossa memória e da nossa cultura que só pode ser uma cultura de vida: de Camões à poesia popular cantada num fado. O Tejo de Almeida Garrett, de Pessoa, de Camões, de Alves Redol,  Gedeão, de Sophia, de Manuel da Fonseca,  dos Madredeus, de Frederico de Brito, de Amália…
"Pelo Tejo vai-se para o Mundo" (Alberto Caeiro),  e fomos para o mundo  interpelados pelo velho do Restelo:
"Ó gloria de mandar ó vã cobiça
 desta vaidade a que chamamos fama"
É o Tejo das ninfas a quem Camões pede inspiração para escrever Os Lusíadas :
“E vós, Tágides minhas, pois criado
Tendes em mi um novo engenho ardente …"
O Tejo espelho, do poema da Memória, de António Gedeão
"Havia no meu tempo um rio chamado Tejo
que se estendia ao Sol na linha do horizonte.
Ia de ponta a ponta, e aos seus olhos parecia
exactamente um espelho
porque, do que sabia,
só um espelho com isso se parecia.”
O Tejo de Manuel da Fonseca:
 “ Tejo que levas as águas
Correndo de par em par
Lava a cidade de mágoas
Leva as mágoas para o mar.” 
O Tejo cantado pelos  Madredeus
"Tejo, meu doce Tejo, corres assim;
corres há milénios sem te arrepender,
és a casa de água onde há poucos anos eu escolhi nascer.”

É este Tejo, inspirador, e tão maltratado pelas poluições de toda a espécie,  ao longo dos anos, e ao longo do seu percurso de 875 quilómetros, que na nossa memória se  revela em todo o seu esplendor.
É este Tejo que, em nome do descontrolado  progresso económico, colocam em  risco de sofrer a pior ameaça ambiental: a  ameaça radioactiva.
Será isto uma questão “bem resolvida” ? “Ó glória de mandar , ó vã cobiça”!
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* "O ministro do Ambiente afirmou hoje que a decisão espanhola de prolongar por dois anos o prazo para uma decisão sobre o funcionamento das centrais nucleares dará tempo a Portugal e Espanha para discutir compromissos sobre ambiente e energia." (Notícias ao minuto, 31-5-2017, Lusa)

27/05/17

Hoje apetece-me ouvir...

Immanuel Immanuel

Cairo - 26-5-2017






"COPTA(S). Grupo religioso do Egipto [entre 6 e 8 milhões]. 
Os Coptas, que vivem em geral nos centros urbanos e estão representados em todos os escalões da sociedade e em todos os ofícios, possuem uma identidade, indissoluvelmente egípcia e cristã. A sua igreja tem a chefiá-la um papa, assistido por um santo sínodo. Também existe um conselho comunitário (majlis ad-Milli) e um conselho de leigos. 
A língua copta, que já somente é usada na liturgia, representa o último estádio de evolução do egípcio faraónico, associado a numerosas palavras gregas. Utiliza um alfabeto grego adaptado. 
HISTÓRIA. A Igreja copta, que teria sido fundada em Alexandria por S. Marcos designa-se a si mesma por «Igreja dos Mártires». O seu calendário («a era dos Mártires» principia em 284, data da subida ao trono de Diocleciano: os cristãos do Egipto sofreram da parte dos imperadores umas duríssimas perseguições, que favoreceram o surto do eremitismo e do monaquismo."... (pag.110)



24/05/17

"Normidável" ou "normopata"

Experiência de Asch

A psicologia social experimental permite conhecer mais profundamente o funcionamento mental das pessoas enquanto sujeitas a pressões do grupo a que pertencem.
Os  indivíduos ou grupos  tornam-se conformistas para evitar o conflito entre  opiniões diferentes (a da maioria e a do indivíduo ou grupo minoritário) e a rejeição pela maioria. (Solomon Asch) 1
O conformismo 2 pode resultar de vários factores como a falta  de informação, pressão da norma, atractividade do grupo maioritário, ou, ainda, do evitamento de sanções que são aplicadas aos desviantes ou inconformistas. Neste caso, de inconformismo, o indivíduo ou o grupo reage à submissão, não se conformando a crenças ou comportamentos do grupo.
A norma é "um conjunto de valores, regras, tradições e padrões  partilhados por um grupo social que regem as relações entre os seus membros" (Maxime Morsa, «Normidabe!!!» et si la norme nous voulait du bien?, le cercle psy,nº 23, p.80-83). Mas também pode acontecer que  não nos identificamos com aquelas regras, valores, tradições e padrões  do grupo.  É nisto que consiste este aspecto paradoxal da norma.
É importante ser aceite pelo seu grupo de pertença e não se pode ir contra as normas que ele defende. As normas são muito importantes no grupo de pares e ser excluído do grupo é, psicologicamente e fisicamente, desagradável.(M.Morsa)
Quando somos crianças e alunos uma das piores coisas que nos pode acontecer  é sermos excluídos do jogo do grupo. Muitas queixas aos professores e aos pais  acontecem porque "os meninos não querem brincar comigo...” ou, o que pode ser uma forma de bulling, quando os colegas combinam nunca passar a bola a um determinado aluno, excluindo-o dessa forma do grupo, quando é sempre o último a ser escolhido para a equipa, ou, quando muito, é, sistematicamente, obrigado a ficar a baliza.

É fundamental para o indivíduo ter um quadro de referência  e incluir o  grupo de pertença. Sem a norma viveríamos numa incerteza total e permanente o que tornaria a existência muito desconfortável. Imaginemos viver num mundo onde não se faça ideia do  que se considera como bem ou mal, aceitável ou não, valorizado ou não ... Não se pode começar tudo de novo todos os dias, a   norma tem um efeito informativo que nos permite agir. Felizmente ela é dinâmica e varia no tempo e no espaço, o que  significa que ela pode mudar  quando é infundada,  faz parte da construção da realidade e nós próprios participamos na sua construção. (M.Morsa)
Podemos estar então perante normas divergentes conforme o grupo social a que se pertence e dentro do próprio grupo social. 3
A normas são o quadro de referência para o individuo e grupo, e esse é o lado positivo, mas podem também levar ao conformismo que tem a força  negativa de avaliação e discriminação dos outros, ou de  normopatia, que leva a formas de pensar e de agir rígidas que não deixam a pessoa mudar mesmo perante a evidência da realidade e da verdade como acontecia com a experiência referida.
"A normopatia  diz respeito à ausência de subjetividade para reagir perante o que acontece à sua volta, numa atitude extrema de conformismo". M. Fontes, Knoow 4
Quando a norma é vivida desta forma, provavelmente, apenas traz sofrimento ao próprio e aos outros, como está a acontecer com a submissão a grupos de vários tipos, como grupos autoritários e terroristas.

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1 Para Asch, o conformismo corresponde a seguidismo, ou seja, o sujeito conserva a sua própria opinião mas assume publicamente a opinião da maioria.
Para Serge Moscovici o conformismo distingue-se do seguidismo, que é a vontade de parecer conforme à norma, o que constitui uma modificação aparente e superficial dos comportamentos, sem mudança real da convicção interna. (Wikipedia - Conformidade)
2 A quase uma terça parte das perguntas os sujeitos deram a resposta errada (32%).
3 As redes sociais são bem o exemplo de grupos de pertença onde cada um defende as normas do respectivo grupo social. Os estudos também indicam que temos tendência a sobrestimar o número de pessoas que estão de acordo com as nossas opiniões nas redes sociais. (M. Morsa)
4 Pierre Weil  refere o termo “normose”.

Bibliografia
Quão poderosa é a tendência para a conformidade social? Solomon Asch (1907-1996), O livro da psicologia, Marcador, p. 224-227
Maxime Morsa, «Normidabe!!!» et si la norme nous voulait du bien?, le cercle psy,nº 23, p.80-83

18/05/17

Atavismos culturais de esquerda


No último fim de semana, em especial no dia 13 de Maio, vários acontecimentos, como a visita do papa a Fátima, a vitória de Salvador Sobral no festival da Eurovisão, o tetracampeonato do Benfica, trouxeram à nossa vida colectiva algum colorido emocional e social, vivido genuinamente pelas pessoas em manifestações diversas, mas também aproveitado pelos políticos, principalmente candidatos a próximas eleições.
Embora os públicos destes eventos não sejam os mesmos, ainda que haja sobreposição em algumas situações, como acontece com portistas e sportinguistas que não tiveram um grande dia de felicidade, podemos dizer que a autoestima melhorou.
A coincidência destes sucessos nestas actividades relembram que há determinadas áreas da nossa vida colectiva que alguns insistem em ver como negativas.
Sou do tempo em que para criticar o regime político se cantava: “Paradas e procissões/Fátima, fados e bola/São as estas as distracções/De um povo que pede esmola” .
O jargão dos três “f”, “Fátima, fado e futebol”, tem hoje menos acrimónia e uma valoração diferente (o fado foi considerado património imaterial da humanidade). Já se percebeu que este país é muito mais do que estas “distracções” e também se percebeu, que não são as características nem as capacidade genuínas de um povo responsáveis pela sua sobrevivência com esmolas, ou resgates financeiros, mas a falta de capacidade para se auto-organizar, auto-governar e o desprezo pelos valores morais e espirituais. Basta olhar para o mundo para se perceber o que faz e quem faz a miséria dos nações. Por isso, era tempo de nos livramos de atavismos culturais de esquerda e de todos os atavismos.
O importante era que as vitórias fossem uma aprendizagem para relevar o que são características positivas de um povo: a espiritualidade, a música, o desporto...
Talvez tenha sido na área da música que surgiu o mais inesperado: Uma música que resultou da criatividade de Luísa Sobral, arranjos de um músico vindo do jazz, Luís Figueiredo, e de uma interpretação limpa e simples onde o que releva é mesmo a música.
Não basta que haja uma melhoria da autoestima. Na realidade, as consequências desta vitória poderiam ser importantes se houvesse uma aposta na música de forma mais sedimentada, um projecto nacional que tornasse a música obrigatória em todos os anos de escolaridade do ensino básico e uma maior possibilidade de escolha no secundário.
Sabemos que a música tem grande importância no desenvolvimento do ser humano, em especial no desenvolvimento infantil. Temos informações suficientes para não podermos ignorar que:
- estudar música melhora as funções executivas do cérebro, responsáveis por capacidades como memória, controle da atenção, organização e planeamento do futuro. (Pesquisa da Universidadede Vermont, Estados Unidos)
- o contacto com a música, ainda que apenas como ouvinte, tem um grande impacto no desenvolvimento humano e prepara o cérebro para executar diferentes tipos de funções. (Elvira Souza Lima)
Por tudo isto, viva Fátima, viva o futebol, viva o fado e a música! Quando nos libertarmos dos atavimos de direita e de esquerda restará a cultura e todos os sucessos que conseguirmos obter serão vividos com felicidade, como fio condutor da nossa vida.