20/10/17

Orçamento «tira do "lete" e põe no "caféi"» - parte 3

Como nos dois orçamentos anteriores já toda a gente percebeu a esperteza da coisa. Tira-se de um lado e põe-se no outro, dá-se com uma mão para tirar com a outra. Tira-se dos mesmos de sempre,  daqueles onde pensam que ainda há qualquer coisa para tirar.
Entretanto, vai-se anunciando aumentos de pensões, descongelamento de carreiras na função pública,  vinculação de professores, a baixa de impostos *, etc. que vão ser pagos com a substituição por impostos indirectos em determinados produtos, combustíveis, recibos verdes...
 
O governo minoritário de Costa, assim nos vai iludindo. Costa vive de tacticismos. Não tem qualquer estratégia política.** Ganhou o silêncio ou passividade dos sindicatos, partidos e associações dominadas pelas ditas esquerdas unidas, incluindo as que sofrem de doença infantil, em troca "esqueceu" qualquer tipo de reforma estrutural que pudesse ajudar a melhorar e consolidar o futuro. Dito de outro modo, "quem não tem uma estratégia vai fazer parte da estratégia de alguém". (Toffler)
Não veio o diabo de que falava Passos Coelho (quer dizer, excluindo esse "pormenor" da dívida) mas, inesperadamente, veio o inferno dos incêndios, que pôs a nu a verdadeira natureza (crueza) deste governo,  as fragilidades de que falou o Presidente Marcelo e o desprezo pelos mais frágeis quando com um orçamento travestido de reversões e cativações,  sentem bem as dificuldades em todos os sectores, como na Saúde, por ex. ...
 
 ________________________
* "Nos últimos dias gerou-se a ideia de que a proposta de OE2018 baixará os impostos. Trata-se, a meu ver, de uma ideia falsa. E é falsa porque na realidade os impostos vão aumentar. Aumentam em termos nominais e aumentam também em termos reais.
Analisemos, primeiro, o incremento nominal. Ora, segundo consta da página 199 da proposta de OE2018, o aumento dos impostos indirectos equivalerá a 1098 milhões de euros em 2018 (+4,6% face a 2017) e compara com uma redução de 225 milhões de euros nos impostos directos (-1,2% face a 2017). Há, portanto, um aumento líquido de 873 milhões de euros na receita fiscal do Estado.
Em cima destes 873 milhões, teremos ainda outros impostos de diferentes níveis da administração pública que vão elevar a variação positiva da receita fiscal para 1184 milhões (+2,4% face a 2017, conforme p.32).
Passemos agora ao incremento real, para observar o seguinte: não obstante o rácio da carga fiscal (aqui entendido como receitas fiscais mais contribuições fiscais em percentagem do PIB) baixar de 37,9% para 37,7% do PIB, a verdade é que a receita corrente aumenta de 42,7% para 42,8% do PIB (p.32) e, tão ou mais importante ainda, a receita estrutural aumenta de 43,0% para 43,6% do PIB (p.31). Moral da história, a receita aumenta, quer em termos nominais, avaliada em euros de 2018, quer em termos reais, avaliada enquanto receita corrente e estrutural em percentagem do PIB de 2018."
...
Pedro Arroja, "A falsa ideia de que baixam os impostos", Eco.


** A menos que seja esta: "A estratégia do actual governo é a de conseguir um círculo virtuoso de crescimento, emprego, moderada consolidação orçamental, descida de juros, descida do peso da dívida. Na fase de transição, em que ainda estamos, onde é necessário requalificar os serviços públicos e aumentar o investimento, a redução do peso do Estado, deverá ser moderada, e devida, não a cortes de despesa, mas a um crescimento pouco abaixo do crescimento do PIB. Temos defendido que até terminar o período de consolidação orçamental, não há margem para reduções significativas de impostos."
Paulo Trigo Pereira: "OE2018: a estratégia, os compromissos e… os incêndios".

18/10/17

Taxas e taxinhas: TMPC

"Faço minha esta pergunta
FACE A ESTAS DECLARAÇÕES DO SECRETÁRIO DE ESTADO
“Têm de ser as próprias comunidades a ser pro-activas e não ficarmos todos à espera que apareçam os bombeiros e os aviões para resolverem os problemas. Temos de nos auto-proteger – é fundamental.”
Acabou-se a Taxa Municipal de Protecção Civil?" Helena Matos,18 Outubro, 2017
 
Recebi, hoje, a respectiva. Também "faço minha esta pergunta".



"Parece-me que a única resposta possível a este desafio é óbvia: temos que nos autoproteger, sim, mas destes políticos que nos desertam e nos deixam cada vez mais sozinhos nas nossas aflições." Laurinda  Alves, "Autoproteja-se o senhor!", Observador.


17/10/17

Mogli

Fim-de-semana. Boa altura para estar com os netos e fazer o programa deles. Brinquedos, livros infantis, brincadeiras, parque infantil, cd's e dvd's, músicas e estórias que vamos vendo n vezes. E é garantida a diversão também para os adultos. Desta vez é a história de Mogli que também contei aos meus filhos, em livro e cassete*. Agora em dvd ganha diferente interesse, digo eu. Uma das músicas mais divertidas é de Louis Prima, o tal de "Sing, sing,sing", "Eu quero ser como tu".



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* Mogli, Clássicos Disney, Difusão Cultural. Adaptação do texto de António Avelar de Pinho.

12/10/17

Hoje apetece-me ouvir: The Ray Conniff Singers

The Ray Conniff Singers - Somebody Loves Me
You're the cream in my coffee - Letra e música Ray Henderson, Lew Brown, Buddy DeSylva
Ray Conniff - 6/11/1916-12/10/2002


 You’re the cream in my coffee,
You’re the salt in my stew;
You will always be my necessity--
I’d be lost without you.

You’re the starch in my collar,
You’re the lace in my shoe;
You will always be my necessity--
I’d be lost without you.

Most men tell love tails,
And each phrase dovetails.
You’ve heard each known way,
This way is my own way.

You’re the sail of my love boat,
You’re the captain and crew;
You will always be my necessity--
I’d be lost without you.

You give life savor,
Bring out its flavor;
So this is clear, dear,
You’re my worcestershire, dear.

You’re the sail of my love boat,
You’re the captain and crew;
You will always be my necessity--
I’d be lost without you.

Circulatura do quadrado


Na quadratura do círculo, perdão, de 29-3-2012,  às tantas, o tema era Sócrates.
A. Costa ( presidente da CM de Lisboa): " o passado não interessa" (isto é, falar de Sócrates).
Pacheco Pereira: " e você (Costa) tem um pequeno problema: foi o seu braço direito".

Ontem, Sócrates foi acusado pelo MP.

08/10/17

Mãe e filhos


1. É importante falar, escrever e fazer a divulgação da relevância  para o desenvolvimento da relação da mãe com os filhos. Esta interacção privilegiada, a vinculação 1, coloca em relevo o importante papel que a mãe assume nesse desenvolvimento.  É um comportamento inato dos primatas e em particular dos humanos.
"Embora o conhecimento esteja longe de ser definitivo 2, a investigação permitiu já concluir que os laços que se estabelecem entre mãe e filho constituem o primeiro modelo de relacionamento humano do bebé, potenciando uma sensação  de segurança e de autoestima positiva. Além de que a resposta dos pais aos sinais do bebé também pode influenciar o desenvolvimento social e cognitivo do bebé. Não há, contudo, uma fórmula mágica: é uma experiência pessoal e complexa que não pode ser forçada." (p. 16)
Este processo de vinculação começa muito antes do parto e continua depois do nascimento. De facto, "quando o parto acontece, já se pode dizer que os dois se conhecem, sendo reconhecido que a ligação afetiva que se estabelece durante a gestação é um dos processos mais importantes desses nove meses. É verdade que essa intimidade é sensível a um conjunto de variáveis, nomeadamente a idade da mãe, o apoio familiar e social recebido, o contexto da própria gravidez. Mas também é verdade que, após o nascimento é fundamental consolidar os laços que se começaram a gerar durante a gestação." (p.15)

Há situações, em que por diversas circunstâncias (falecimento, separação forçada pela guerra, acidentes, doença...) a mãe não está presente, e a vinculação é feita a pessoas de referência da criança... Mas esta é uma situação inultrapassável e não há outra resposta mais adequada para o desenvolvimento adequado e seguro da criança.
A adopção surge também como uma dessas possibilidades em que o superior interesse da criança passa por este tipo de resposta, sendo preferível  à institucionalização, p ex..


A partir dos anos 50 do século passado, a psicologia passou a dispor de um conjunto de dados resultante da investigação animal e humana que fundamentaram com segurança este processo de interacção.
Há alguns anos, R. Zazzo recolheu em livro a opinião de vários especialistas sobre  a vinculação. A mudança conceptual que vinha trazer em relação à necessidade primária que a vinculação representava, mostrava uma perspectiva diferente da  relação mãe-filho.  Ficava em questão quer o conceito da psicanálise enquanto defensora de que essa vinculação era secundária em relação à necessidade primária de alimentação, como o do behaviourismo que seria secundária em relação ao reforço.


Para Bowlby (O vínculo mai-filho e a saúde mental, Galiza editora) "a vinculação não é exclusiva da nossa espécie já que existe igualmente tal como o demonstraram outros autores (como Harlow, Hinde e Lorenz) na primeira infância de muitos mamíferos e algumas aves." (p.13)
A teoria da vinculação (apego) é um modo de conceptualizar a tendência dos seres humanos a estabelecerem fortes vínculos afectivos com outros seres particulares e de explicar as múltiplas formas de aflição emocional e transtorno da personalidade que compreendem a ansiedade, a ira a depressão e o desapego emocional a que dão lugar a separação e a perda não desejadas" (p. 27)
O DSM caracteriza a Perturbação reactiva de vinculação da primeira infância e início da segunda infância. (No Brasil, "Transtorno de apego").

2. A gestação de substituição, aprovada em conselho de ministros, (Decreto Regulamentar n.º 6/2017- DR n.º 146/2017, Série I, de 2017-07-31) 3 certamente tem muito a ver com o que se disse antes  e os senhores deputados devem ter ponderado o assunto, seriamente. De facto, a mãe é indispensável para o desenvolvimento da criança. Por isso, para este efeito há necessidade
"d) De uma declaração de psiquiatra ou psicólogo favorável à celebração do contrato de gestação de substituição".
 Apesar do risco, parece compreensivo que haja situações excepcionais em que a gestação de substituição tenha  lugar.

Por outro lado, há cláusulas que não se sabe como vão ser resolvidas, na prática, e como vai ser feito o seu controlo, como:
"k) A gratuitidade do negócio jurídico e a ausência de qualquer tipo de imposição, pagamento ou doação por parte do casal beneficiário a favor da gestante de substituição por causa da gestação da criança, para além do valor correspondente às despesas decorrentes do acompanhamento de saúde efetivamente prestado, incluindo em transportes".

3. Seja como for, o DR estipula as condições da gestação de substituição. Fora destas situações e fora dos limites impostos, trata-se de um negócio que nunca deixará de ser outra coisa senão a compra e venda de crianças.

4. O caso Cristiano Ronaldo, como escreve H. Raposo ou Isabel Stilwell, tendo em conta os direitos da criança a ter uma família não cabe nesta situação porque a legislação portuguesa não o permitiria. Mas a moral também não.  
Podemos ser fãs de Ronaldo, apreciar as suas atitudes e comportamentos nas diversas  situações desportivas, reconhecer a sua caridade ou filantropia para com os outros, nomeadamente as atitudes relativamente a crianças com dificuldades de saúde ou outra ordem, acompanhá-lo até ao fim do mundo, porém, o nosso caminho tem, necessariamente, que acabar aqui. Como Saramago, "até aqui cheguei", mas não daqui em diante.4

5. Do ponto de vista psicológico, qualquer situação deste tipo, configura uma situação de risco de vinculação. Ou seja, uma situação de risco em relação aos direitos da criança.

___________________
1. Maria Rita Silva, «Mãe e filhos: uma relação única», PH, nº 15, Maio-Junho 2017.

2. Discute-se a questão da vinculação e critica-se que "La relation mère-enfant devient le seul objet de l’évaluation, elle est donc réalisée indépendamment de la relation paternelle (ici les absents n’ont pas toujours tort), de l’environnement familial élargi et du contexte culturel, économique et social dans lequel l’enfant a évolué." Le cercle psy
" Surtout diverses enquêtes, dont celles qui ont servi de base à la notion de résilience, montrent que bon nombre d’individus mal partis déjouent tous les pronostics. Inversement, d’autres tournent mal alors qu’ils ont bénéficié d’un soutien parental sans faille. L’attachement sécure est un atout, pas une baguette magique. Ni sans doute un ingrédient indispensable." J.- F. Marmion, Le cercle psy

3. A designação  "barrigas de aluguer" mostra bem que a natureza deste negócio não se coaduna com a letra ou o espírito do normativo  (Decreto Regulamentar n.º 6/2017DR).

4. Mesmo com a militância política de Saramago é necessário reconhecer-lhe a grandeza moral de condenar o regime cubano. De facto, quando "O governo cubano executou na sexta-feira passada três homens sumariamente condenados por assaltar uma balsa com o propósito de fugir para os EUA" , Saramago escreveu: "Até aqui cheguei. De agora em diante, Cuba seguirá seu caminho, e eu fico onde estou. Discordar é um direito que se encontra e se encontrará inscrito com tinta invisível em todas as declarações de direitos humanos passadas, presentes e futuras. Discordar é um ato irrenunciável de consciência." 16 de Abril de 2003, Folha de S. Paulo.

29/09/17

Obrar

Depois de várias tentativas eleitorais em que nos prometeram mudanças, "agora é que é", ou  como na colocação do "maior mastro do mundo" (Deolinda), os programas eleitorais continuam a ser lindos e megalómanos mas, na realidade, as prioridades da actividade municipal continuam a ser:
Obrar.  De norte a sul. Vira o país em estaleiro e  ninguém tem descanso com o barulho dos martelos pneumáticos e retroescavadoras, incluindo trabalho aos sábados, trabalho até mais tarde, para que a 1 de Outubro tudo pareça pronto a inaugurar; o que não se fez em quatro anos, ou mesmo em oito, faz-se agora da noite para o dia; com dinheiro ou sem ele, o importante é apresentar obra que se veja porque sem obra autarca fica invisível. É uma espécie de absolvição para todas as "irregularidades": "corrupto  mas com obra feita".
Praça das Flores, Lisboa
Vangloriar-se. Revêem-se na obra feita, publicitada em cartazes que inundam avenidas e rotundas. Concorrem para oferecerem mais obras e serviços gratuitos, livros, infantários, casas ... a gratuitidade em todo o lado.
Gostam de dar o nome a ruas, estádios de futebol, bibliotecas... e sonham ser comendadores.
Enquanto assim for, situação e oposição, os que saem e os que entram,  estão bem uns para os outros e, sem dúvida, que: "El postito portugués/Solo es grandito en pequenez".
Denunciar. É este o tempo preferido para denunciar os que estiveram antes ou querem ficar agora,  surgem denúncias ligadas a "irregularidades": "revelações" sobre os  escândalos maiores, mais pequenos, indícios...
"Sacrificar-se". Pelos outros. No entanto, não quiseram que a  lei da limitação de mandatos os libertasse desse pesado sacrifício. Afinal, foi esclarecido, a lei só se referia à mesma autarquia e, passado um ano de nojo, poderiam voltar a sacrificar-se, e foi o que aconteceu este ano com alguns veteranos das autarquias que estão dispostos a ficar até caírem da tripeça. Três mandatos de sacrifício a somar a outros três, para terminarem não como comendadores mas como santos.
Falir e taxar.  É o que acontece a alguns municípios, porque tudo vai continuar na mesma. Sabemos, no entanto, quanto custa a gratuitidade a quem paga  impostos: IRS (9% dos cidadãos paga 70% deste imposto), IMI, Taxas e taxinhas...
Desleixar.  Falta de passadeiras, falta de locais nos passeios para passagem de cadeiras de rodas, carrinhos de bebé, pessoas com dificuldades de mobilidade...
Quinta das Conchas, Lisboa
A mistura de irresponsabilidade município/munícipes. Nojento é como se pode descrever o estado de algumas ruas, lixo por todo lado, restos de obras, pedras que saltaram do sítio, papeleiras estragadas e insuficientes, parques infantis inseguros, árvores cortadas sem serem repostas, troncos das árvores e jardins desleixados que servem de lixeira/estrumeira aos cães dos munícipes que gostam de animais, mas também gostam de deixar os dejectos na rua deles e dos outros, que gostam tanto de animais que os abandonam, porque só os abandona quem os tem, e vagueiam pela cidade.
Garantir. O futuro dos familiares e amigos fica assegurado. Tudo boa gente, tudo gente que se vai sacrificar para liderar as autarquias e ficar a obrar para a comunidade, se bem que obrem mais para os próprios e respectivos familiares e amigos.
Votar? "A esperança é a última a morrer"?
_______________________________
Sobre o assunto acabei de ler "Tu és a revolução", de Clara F. Alves, "Pluma caprichosa", A revista do Expresso, nº 2344, de 29/9/2017.

21/09/17

As minhas serigrafias: Artur José

Artur José - Composição


Técnica: Serigrafia
Suporte: Papel Fabriano D5 GF 210g; Dimensão da Mancha: 41,6x34 cm; Dimensão do Suporte: 70x50 cm
N.º de cores: 20
Data: 1994
Nº de Exemplar: 29/200

"Nasceu em Lisboa no ano de 1931 e morreu na mesma cidade em 2010. Nas artes-plásticas, destacou-se principalmente pelo seu trabalho como ceramista. Como reconhecimento do seu trabalho a sua obra foi diversas vezes distinguida: Prémio “Sebastião de Almeida”; Prémio Casa da Imprensa, em Cerâmica; 1ª. Medalha “VIII Salão da Primavera”, “X Salão da Primavera”, “XI Salão de Outono” e no “XV Salão da Primavera” (J.T.C.S.); 2º. Prémio em Cerâmica na “II Exposição Antoniana” (J.T.C.S.); 2º. Prémio de Salão (1º. em Cerâmica) no “XI Salão de Primavera” e “X Salão de Outono” (J:T:C:S:); 1º Prémio no “III Salão Motivos da Costa do Sol” (Casino do Estoril). Realizou diversas exposições individuais em Portugal e no estrangeiro e, participou em várias colectivas, destacando-se em países como o Brasil, o Japão, Angola e França. Está representado em colecções de museus na Suíça e nos E.U.A e na “Casa de Portugal” em Estocolmo; faz parte de colecções particulares em países tão diferentes como a Alemanha, o Brasil, a Suécia ou a Nigéria. Em Portugal o seu trabalho encontra-se no Museu do Azulejo e na Caixa Geral de Depósitos, entre outras instituições e colecções."



05/09/17

10 anos de "Educar em Diálogo"

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10 anos de "Educar em diálogo". O objectivo inicial foi o de trazer algumas ideias sobre  a educação que na altura passava por caminhos controversos e autoritários, com uma ministra da educação, Maria de Lurdes Rodrigues, que tinha dos professores a ideia de que eram o fracasso do sistema educativo e que era preciso ensinar-lhes as boas maneiras para serem professores. Muitos projectos eram os do regime "socrático": novas oportunidades, "magalhães", parque escolar, avaliação de desempenho altamente burocratizada, a divisão entre professores e professores titulares, a escola a tempo inteiro (AEC), as alterações do DL 3/2008 e as escolas de referência, a CIF, o número mágico de 1,8% de crianças com NEE, com a exclusão de muitas do apoio da educação especial, o encerramento de escolas rurais e de pequena dimensão... (A crise na educação)
O que mais chocava era a atitude arrogante do poder, em particular  num sector onde o diálogo,  como método,  devia ser o caminho para tomar decisões e  melhorar a educação.

10/08/17

Confiança básica

 ...
"Olha-me. Nunca me irei embora; mesmo quando já cá não estiver, basta-te abrir pernas e braços, pôr o peito para cima e fechar os olhos, dessa vez fecha os olhos, para me veres onde estou: aí dentro. Quando essa cabeça quiser pensar em nada, que serei eu dentro de ti, fecha os olhos. Nós os dois aqui, um ao lado do outro, a boiar no mar calmo de olhos postos no céu imenso.

A extraordinária relação pai-filho que nasce nas pequenas coisas da vida, da aprendizagem do quotidiano, da confiança básica (E. Erikson), do amor profundo entre dois seres. Muito gratificante. 
Obrigado AAA. 
Partilhei no facebook.

09/08/17

Vinho, mulheres e canções


Valsa "vinho, mulheres e canções"
Orquestra Sinfónica da Rádio de Hamburgo - Dir. de Gudolff Rendel

Talvez aqui.
 


O título da valsa de Johan Strauss só por si, e para os dias que vão correndo, é um tratado do politicamente incorrecto, talvez, até um insulto, para os fracturantes de pacotilha.
É muito mais do que versar sobre a vida desregrada, a que Jeroen Dijsselbloem se referia, como o caminho a evitar, é o encantamento da vida - o principio do prazer.
Embora Dijsselbloem seja do norte disse o que se pode aplicar a todos os povos de todas as geografias, como a ele próprio.  O azar dele foi tê-lo feito de forma focada nos europeus do sul quando isso também é coisa dos europeus do norte, como aqui se vê.
Também já não era o tempo próprio para isso. Quer dizer, foi aqui que nos trouxe o retrocesso em que estamos.

Por estes dias de embandeirar em arco, aliás o nosso querido presidente Marcelo já começou a travar tanta exuberância, principalmente depois das desgraças dos incêndios e de  Tancos, o país que todos procuram pelo sol, pela comida, pela simpatia das pessoas, afinal também tem defeitos. Nada que surpreenda o que refere, no Labirinto da saudade, Eduardo Lourenço: "somos um povo de pobres com mentalidade de ricos". Como as críticas são "de casa", podem dizer o que pensam e o que entendem sobre  a choldra ignóbil, apropriada ao "estado a que chegámos".
Mas não fomos sempre assim ? Podemos voltar ao passado, por altura dos descobrimentos, quando se criticava aqueles que comiam pão-de-ló com sardinha  assada. Mas isso eram outros tempos?

Resta-nos a verdadeira paixão pela música, autêntica evolução no campo da igualdade de direitos. 
Como referia E. Cintra Torres a propósito de "Duetos imprevistos".  "A arte aprende-se. Os compositores, diz-nos Duetos, não são apenas homens do seu tempo: têm as paixões do momento e de sempre. Tal como eles, os dois apresentadores estão sempre à mesa comendo e bebendo (como Bruckner), falando das apaixonadas e do seu papel na música (Liszt, o Strauss das valsas), e procurando também assim recriar o seu amor pela música, religiosa, popular ou o que seja. No écrã, recriam-se pulsões dos compositores: vinho, mulheres e canções (Wein, Weib und Gesang: é o título de uma valsa de Strauss)."

04/08/17

Todo o Mundo e Ninguém

 

Todo o Mundo e Ninguém, entremez do Auto da Lusitânia, escrito por Gil Vicente em  1531, e representado pela primeira vez em 1532, está mais actual do que nunca, não só pela estória da utilização da música dos 1111 num dos temas do álbum “4:44”, de Jay-Z, mas porque, passados 500 anos, podia ter sido escrito um dia destes, se ainda houvesse homens como Gil Vicente.

Nesse sentido interroga-se A. Barreto: "Que é feito dos homens livres do meu país? Estão assim tão dependentes da simpatia partidária, dos empregos públicos, das notícias administradas gota a gota, dos financiamentos, dos subsídios, das bolsas de estudo e das autorizações que preferem calar-se? Que é feito dos autarcas livres do meu país? Onde estarão eles no dia e na hora do desastre? Talvez à porta do partido quando as populações pedirem socorro e conforto." (A. Barreto, Jacarandá)

Gil Vicente conhecia bem os vícios do seu tempo. Dinato e Belzebu, encarregues de relatar a Lúcifer tudo o que se passa (ver Auto da Lusitânia), escutam o diálogo entre Todo o Mundo e Ninguém.
Um rico mercador, chamado "Todo o Mundo" e um homem pobre cujo nome é "Ninguém", encontram-se e põem-se a conversar sobre o que desejam neste mundo. Em torno desta conversa, dois demónios (Belzebu e Dinato) tecem comentários espirituosos, fazem trocadilhos, procurando evidenciar temas ligados à verdade, à cobiça, à vaidade, à virtude e à honra dos homens.

Ninguém:
Que andas tu aí buscando

Todo o Mundo:
Mil cousas ando a buscar:
delas não posso achar,
porém ando porfiando
por quão bom é porfiar.

Ninguém:
como hás o nome, cavaleiro?

Todo o Mundo.:
Eu hei nome Todo o Mundo,
e meu tempo todo inteiro
sempre é buscar dinheiro,
e sempre nisto me fundo.

Ninguém:
Eu hei Ninguém,
e busco a consciência.

Belzebu:
Esta é boa experiência:
Dinato, escreve isto bem.

Dinato:
Que escreverei, companheiro?

Belzebu:
Que Ninguém busca consciência,
e Todo o Mundo dinheiro.
...



25/07/17

Liberdade de escolha na escola estatal !



"Polícia foi chamada ao Liceu Pedro Nunes para acalmar pais revoltados com matrículas
O problema com as matrículas volta a repetir-se este ano e levou até a polícia a intervir, esta segunda-feira, na Escola Secundária Pedro Nunes, em Lisboa. Pais protestam contra moradas falsas." (Marlene Carriço, Observador, 25/7/2017)

"Afinal, a liberdade de escolha da escola existe
O debate já não é se deve ou não haver escolha. Ela existe nas escolas públicas, mas de forma ilegítima e só para alguns. A questão é se se a quer alargar a todos, a começar pelos mais desfavorecidos." (Alexandre Homem Cristo, Observador, 24/7/2017)


O ME pode continuar a ignorar tudo isto, a fechar escolas contratadas, a nem sequer regular, como deve ser, as matrículas nas escolas estatais, a que haja escolas "fim de linha". A realidade vai desmentindo todos os dias a hipocrisia socialista da  "igualdade de oportunidades" para todos. 
Os pais só têm que se defender destas utopias, ingenuidades e hipocrisias. E fazem bem que procuram a melhor educação ("waiting for superman") para os filhos nas escolas estatais, cooperativas, IPSS ou privadas.



19/07/17

O meu lindo país azul

 
Alfredo Keil (1850-1907)
O meu lindo país azul
Luís Pipa, piano


Esta é uma questão de todos, devia, por isso, ser tratada por todos, sem censuras ("lei da rolha") de qualquer tipo.  
Não tinha passado muito tempo, ainda ardia a floresta com "a informação devidamente organizada e estruturada", e já uma "Comissão" recomendava à Porto Editora para "apagar" a venda de cadernos de actividades para meninos e meninas. 

O meu lindo país azul... não pode ter essa tonalidade de azul. *
________________
*  Revisto em 31/8/2017

17/07/17

Hoje apetece-me ouvir: Billie Holiday

Billie Holiday - 7-4-191517-7-1959



A frase da mãe God bless the child that’s got his own, foi o ponto de partida para a canção. No entanto, o que está subjacente é a parábola dos talentos que é necessário desenvolver, sob pena  de "... a todo o que tem, dar-se-lhe-á, e terá em abundância; mas ao que não tem, até aquilo que tem ser-lhe-á tirado” (Mateus 29)
Também é verdade que o dinheiro manda, os fortes, os amigos ricos ganham, os fracos desvanecem e bolsos vazios não chegam a lado nenhum... 
Faz-me lembrar qualquer coisa deste país...

04/07/17

03/07/17

Hoje apetece-me ouvir: Les choristes

Les choristes (Os coristas) - Vois sur tom chemin
Filme * de Christophe Barratier, 2004; Música de Bruno Coulais


Vois sur ton chemin/ Vê no teu caminho
Gamins oubliés égarés/ Crianças  esquecidas perdidas
Donne leur la main/ Dá-lhes a mão
Pour les mener/ Para os conduzir
Vers d'autres lendemains/ A outros amanhãs
...


* Passou há alguns dias na RTP1

28/06/17

Para um sistema de saúde


A saúde em Portugal tem melhorado. No entanto, não deixa de continuar a manifestar fragilidades e sintomas preocupantes por falta de respostas eficazes às necessidades da população.
Foi apresentado, a 28 de Junho, o relatório do Observatório Português dos Sistemas de Saúde (OPSS), que  tem por base dados relativos a 2014 e 2015. (RTP, 28 Junho,  2017)
O relatório, que faz a avaliação geral do funcionamento do Serviço Nacional de Saúde (SNS),  tem um título sugestivo: “Viver em tempos incertos: sustentabilidade e equidade na saúde”. Partir do princípio da incerteza  pode ter grande vantagem para a prevenção.
Algumas conclusões do relatório não são novas e vêm sendo repetidas há bastante tempo, sem que haja melhorias. Assim:
- Para se manterem saudáveis, os portugueses gastam muito mais que a maioria dos europeus.  
- Agravamento de desigualdades no acesso à saúde; apesar das melhorias substanciais no estado de saúde da população portuguesa, "as desigualdades de género, geográficas/territoriais e socioeconómicas persistem".
- Mantêm-se as barreiras socioeconómicas no acesso a medicamentos e a consultas de especialidade, sobretudo em saúde oral e mental.  A “carência de serviços” estatais nestas duas especialidades é o principal motivo para esta falta de equidade.
 - Embora o consumo excessivo de antibióticos tenha decrescido entre 2004 e 2014, continua a ser elevado. 
- E, também já sabíamos, há “desilusão e descontentamento” crescentes dos profissionais de saúde.
  

Há alguns meses, outro  relatório, "Revisão do sistema de saúde", do Observatório europeu de políticas e sistemas de saúde, (Health System Review, HIT (Health Systems in Transition,  European Observatory on Health Systems and Policies), alertava para conclusões muito interessantes e importantes. (RelatórioInformação: Marta F. Reis, Sol ,28 de Abril.).

Um sistema deve integrar todas as políticas sectoriais. Ora segundo o relatório,  “falta saúde em todas as políticas,  “ministros não falam uns com os outros”, ou seja, não há coordenação interministerial (pelo menos) nesta área;  “… continua também a faltar o “cimento”: “o que outros países conseguiram fazer foi dar corpo à ideia de que a saúde deve estar presente em todas as políticas. Ambiente, Educação, Justiça, Agricultura devem ser cúmplices na promoção da saúde”.

A segunda conclusão é particularmente sensível, dado o envelhecimento da população. Os maus resultados do país no chamado envelhecimento saudável são um “falhanço coletivo”. Os portugueses são dos europeus que vivem menos tempo saudáveis depois dos 65 anos de idade.   (Jorge Simões, ex-presidente da Entidade Reguladora da Saúde e coordenador do estudo, Comissariado pelo Observatório Europeu de Sistemas e Políticas de Saúde.)
Em 2014, os europeus contavam viver em média 8,6 anos de vida saudável depois dos 65 anos, tanto os homens como as mulheres. Em Portugal, o número de anos saudáveis depois dos 65 anos não vai além dos 5,6 anos no caso das mulheres e de 6,9 anos nos homens.(Eurostat)

O que falta, antes de mais, talvez seja, sem novidade nenhuma, maior investimento na promoção  e na prevenção da saúde, incluindo os outros sectores do estado,  de forma a que possamos ter, por ex.,  alimentação saudável, actividade física e, em geral, bem-estar (Seligman). 
Não há uma rede de cuidados continuados suficiente, assim como de cuidados paliativos.
O serviço nacional  de saúde é apenas uma parte  do sistema nacional de saúde. Enquanto não for criado um sistema que respeite as regras do sistema, dificilmente haverá melhorias significativas na saúde dos portugueses.

Desejo a todos umas férias com saúde. Até  Setembro.

21/06/17

Dor e esperança



A dor chama-se fogo. A dor chama-se estrada nacional 236. A dor pode chamar-se todo o horror que a morte provoca no corpo e na alma das pessoas. As que partem e as que ficam. As que assistem à dor dos outros, as que estão longe na geografia mas perto no coração.
A dor chama-se um filho que fica sem pais, pais que ficam sem filhos. Ou quando não fica ninguém.
A dor, por estes dias, chama-se fogo. Sábado, 17 de Junho, em Castelo Banco, tarde de muito calor com trovoada. À noite, Rui Veloso, voltava a velhos temas “Sei de uma camponesa”, do “ar de rock”, a evocação do mundo rural e urbano… Ao mesmo tempo, quem podia saber?, que esse mundo rural passava por uma experiência traumática, ardia a estrada nacional 236, levando no fogo 47 vidas.
Manhã de choque, de espanto e surpresa, para um país. Famílias desencontradas ou destruídas, aldeias reduzidas a cinza.
Tivera lugar um acontecimento «atípico», com enorme impacto, para a qual construímos explicações para a sua ocorrência depois de o facto ter lugar, um cisne negro (N. Taleb) acontecia sem que alguém tivesse previsto, sem que alguém pudesse reagir a tempo.

Estamos por isso a construir as explicações.
Quem são os responsáveis? São as forças da natureza às quais ninguém consegue opor-se ou a incúria dos homens que nunca espera o pior? Ou a certeza do homem imprevidente que não quer saber da incerteza, do homem maldoso ou do homem doente, do homem da política, do homem especulador dos negócios ?
Talvez, por isso, não haja responsáveis: das informações, da coordenação, do planeamento, da estratégia, operacionais, legisladores …

Que fazer com os que sobreviveram ? A dor é uma experiência subjectiva mas é também uma experiência universal. As culturas, as filosofias e as religiões vêem a dor à sua maneira e podem suavizar o sofrimento indescritível de algumas pessoas mas nunca são suficientes para compreendermos "porquê?"
Tantas informações, debates, explicações, justificações… também não chegam porque a dor da gente não vem nos jornais nem nos telejornais.
A reparação psicológica e a reconstrução material das casas, dos campos, dos animais… vai levar muito tempo. O luto ainda mal começou. Provavelmente, serão lutos muito longos que ficarão na memória por muitos muitos anos, aonde as lembranças voltarão com frequência, não deixarão dormir, não darão sossego, não deixarão ver claro, não deixarão ver a justiça.
Haverá casos de perturbação pós-stress traumático, um problema de ansiedade que surge, quando uma pessoa foi exposta a um acontecimento que constituiu um trauma psicológico, como uma ameaça à sua segurança ou à sua vida, em que terá sentido medo, desespero, falta de ajuda ou horror intenso.

A dor faz parte da vida humana, existe e é inevitável, mas o sofrimento pode ser diminuído e evitado. Os cuidados de saúde física e mental deviam ser garantidos a estas pessoas que estão em sofrimento. Só assim poderá ser feito o luto.
Erguer das cinzas faz parte desse processo: Muitos lutaram, ficaram com a dor e com as marcas para a vida toda e continuam a viver
Onde ficou o silêncio terá lugar o canto das aves, do vento, onde havia cansaço e desânimo terá lugar a esperança.
Erguer das cinzas devia ser uma prioridade, desta vez, feita de maneira diferente dos últimos 40 anos: aprender com a experiência, e aprender, sobretudo, aquilo e com aquilo que não sabemos, para que novos acontecimentos improváveis não voltem a acontecer de forma tão devastadora.