26/12/14

Adeste fideles


Uma das músicas de Natal mais conhecidas no mundo, é, certamente, portuguesa.
Quanto ao seu autor, pode resumir-se assim o assunto:
"The author and Composer was King John IV of Portugal in 1645.
Erroneous and subsequently, it was spread as being composed by other authors.
Of course, these authors, having been born after the oldest manuscript of this work, can not be considered true authors, nor is there any expert who now defend it. This manuscript comes from the Royal Library of the Ducal Palace of Vila Viçosa (Portugal).
By the way, it was known in the english royal court at the time, as the "Portuguese Hymn" (Aida Magalhães).
"A autoria da melodia, jamais será conhecida com certeza. Mas não há dúvida de sua origem portuguesa."(J.J. Peralta).
Há vários milhares de versões, para todos os gostos, mas o original é nosso, e não de um tal John Wade.

16/12/14

Dias mágicos

Há dias especiais na nossa vida. Um deles é o dia de Natal que celebra o nascimento de Cristo. Na realidade, o nascimento de Cristo foi em data desconhecida, mas a decisão corresponde ao solstício de Inverno dado que essa é a ligação entre a renovação da natureza com a renovação simbólica que Cristo veio trazer.



O Natal como celebração festiva anual é para todos mas, especialmente para as crianças, é um acontecimento mágico em que todos os actos têm um significado simbólico: os presentes são como os presentes dos Reis Magos, as luzes da árvore de natal, a iluminação das ruas, a chama do madeiro, são o símbolo do Sol da nova vida; a mesa farta, pelo menos mais do que é habitual e a reunião familiar transmitem à criança as duas coisas fundamentais para o seu desenvolvimento: a alimentação e a segurança física e afectiva. A criança tem assegurado a protecção da família que lhe permite a vida e não ser abandonada.(Bruno Bettelheim)
No Natal e nos dias festivos a criança torna-se centro das atenções de toda a família e comunidade.
A criança acredita nas figuras concretas do Natal, como o Pai Natal ou o Menino Jesus. Naturalmente, há-de chegar o tempo em que a criança percebe que não existem essas figuras concretas a oferecerem presentes, embora possa continuar a fingir que acredita. 
O pensamento mágico domina a criança durante os primeiros anos de vida. Entre os 2 e os 7 anos, para este tipo de pensamento, nada é impossível, podem existir centenas de pais natais, pode descer pela chaminé sem se queimar, ou pode transportar tantos presentes ou ainda que saiba exactamente qual o presente para cada criança...

Claro que as épocas festivas se tornaram também épocas em que há o perigo de reduzir tudo aos bens materiais e ao consumo.
Há quem veja apenas este lado negativo e assuma a atitude paternalista de indicar ou orientar os outros de como deve fazer. Consumistas são sempre os outros. 
Focamo-nos nesta abstracção de que estes dias só servem para consumir.
Obviamente cada pessoa sabe como se deve orientar nas compras, nos dias festivos ou noutras circunstâncias, e, quando não sabe, estamos perante outro problema.
Todos sabemos que não é principalmente o preço do presente que interessa mas o seu valor simbólico. Lembro-me da felicidade que sentíamos quando na manhã do dia de Natal íamos ver os presentes que os pais, pessoas normalmente pobres, podiam dar aos filhos e de que ninguém fazia questão com o valor das prendas.
É o valor emocional que tem importância. Estes objectos são símbolos de felicidade que atenuam a nossa ansiedade, insegurança e que podem dar-nos confiança para enfrentarmos o futuro.
É também por isso que os pais guardam "aquelas coisas" que os filhos oferecem quando vêm do jardim de infância e com todo o carinho do mundo nos dizem: “ fui eu que fiz para ti”. 
Ou como os namorados que oferecem objectos insignificantes um ao outro.
É por isso que guardamos pedras de variadas formas e cores que os filhos nos oferecem em dias especiais quando frequentam o jardim de infância e que, para mim, são as minhas pedras preciosas.

Desejo a todos um bom Natal, com muitos presentes, caros ou baratos, pouco importa, desde que oferecidos com o coração. 
  

10/12/14

Direitos do homem


Faz hoje 66 anos que foi aprovada a Declaração Universal dos Direitos do Homem.
Em 10 de Dezembro de 1948, depois da segunda guerra mundial que causou um sofrimento terrível e que tão mal tratou os direitos do homem, a Declaração foi adoptada e proclamada pela Assembleia Geral das Nações Unidas (Resolução 217A (III) de 10 de Dezembro de 1948).
O dia 10 de Dezembro foi proclamado, em 1950, pela Organização das Nações Unidas, "Dia Internacional dos Direitos Humanos", com o objectivo de alertar os governantes de todo o mundo para o cumprimento da Declaração Universal e assegurar a aplicação dos seus princípios. 
A Declaração Universal dos Direitos do Homem, considera,essencialmente, que:
- a dignidade inerente a todos os membros da família humana e os seus direitos iguais e inalienáveis constitui o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo;
- o desconhecimento e o desprezo dos direitos do homem conduziram a actos de barbárie que revoltam a consciência da Humanidade
- é essencial a protecção dos direitos do homem através de um regime de direito, para que o homem não seja compelido, em supremo recurso, à revolta contra a tirania e a opressão;
- é essencial encorajar o desenvolvimento de relações amistosas entre as nações.

Uma das dificuldades de aplicação é o relativismo cultural, ou seja, a ideia de que todas as acções são correctas ou incorrectas consoante a cultura e, por isso, que violar qualquer dos direitos consagrados na Declaração é eticamente permissível desde que seja permissível numa dada cultura
Para o relativismo cultural a Declaração dos Direitos do Homem, não exprime princípios éticos universais
Ora acontece que o relativismo cultural é incompatível com os direitos humanos universais, entre outras razões, porque há uma grande diferença entre respeitar costumes e tradições que que não têm relevância ética, como por exemplo, comportamentos sociais (casamento, vestuário...)  ou comportamentos sexuais, e respeitar costumes que têm relevância ética, como a escravatura, a discriminação das mulheres ou a violação de crianças. 

Os direitos humanos vão sendo cumpridos e também desrespeitados um pouco por todo o lado.
Não apenas em países com ditaduras e regimes totalitários mas também em países democráticos como o nosso.
Os direitos humanos não são cumpridos quando, em Portugal, se conta pelo número de 40 os homicídios domésticos 
Os direitos humanos não são cumpridos quando voltamos à barbárie, com a morte de pessoas inocentes em nome de fundamentalismos religiosos ou culturais.
Os direitos humanos não são cumpridos quando, nas prisões, se pratica a tortura de presos, mesmo quando um país é atacado de forma bárbara.

Portugal tem particular responsabilidade por ter sido eleito, em Outubro deste ano, para o Conselho de Direitos Humanos da ONU, para o biénio 2015/2017, com um número recorde de votos.
Na sua candidatura (road map de Lisboa), Portugal defendia o carácter individual, universal, inalienável e interdependente dos direitos humanos. Ou seja, era recusada uma abordagem relativista de ordem cultural e geográfica na aplicação dos direitos humanos.
Era então desejável que se começasse pela nossa própria casa a cultivar esses princípios consagrados na Declaração Universal dos Direitos do Homem.

02/12/14

Entardecer

Castelo Branco, 17H24


ENTARDECER
                                                          
                                        O anoitecer enverga lentamente as vestes
                                        que um renque de velhas árvores lhe sustém;
                                        tu olhas: e de ti separam-se as terras,
                                        uma que sobe ao céu e outra que se despenha;  
                                        e deixa-te, a ti que a nenhuma pertences,
                                        nem tão escuro como a casa silenciosa
                                        nem tão seguro evocando a eternidade
                                        como a que todas as noites se torna astro e ascende -  
                                       e deixam-te (indizível de desenredar)
                                       a tua vida inquieta, imensa e amadurecendo,
                                       para que, ora confinada, ora compreensiva,
                                       em ti se torne ora pedra ora estrela.

Rainer Maria Rilke, O Livro das imagens, Relógio d'Água
 (Trad. de M. João  Costa Pereira)

Ética, moral e justiça

 

A ética é a ciência dos princípios da moral. A moral designa a aplicação desses princípios nos actos particulares da vida.
A moral é a ciência do bem e da acção humana.
“Hoje em dia a moral apresenta-se mais particularmente como uma teoria das relações com outrem uma filosofia da “comunicação” (M. Buber, E. Levinas): é na relação imediata com o rosto do outro que o homem faz originariamente a experiência dos valores morais (por exemplo, captar o olhar do outro é compreender que não o podemos constranger)”. (Larousse)

A ética e a moral andam juntas em toda a nossa vida. E é pela interacção das duas que podemos pautar os nossos comportamentos. A interacção entre a ética e a moral podem originar conflitos e por isso é necessário optar pela melhor decisão.
Um dos conflitos diz respeito ao relativismo cultural. O conceito de moral varia de acordo com as culturas e o período sócio-histórico? Então até onde pode ser aceitável o relativismo cultural? Há aspectos culturais que são aceitáveis mas “podemos aceitar estes aspectos sem aceitar toda a teoria" (J. Rachels) do relativismo cultural.
Por outro lado, o juízo moral depende do desenvolvimento do ser humano não sendo a mesma coisa para uma criança, adolescente ou adulto.
Acontece que muitos adultos têm juízo moral infantil. Não vão além do “bom rapaz, da boa rapariga”. Ou do “porreiro, pá”.
Recentemente foi notícia o facto de alguns trabalhadores da Câmara da Póvoa de Varzim, terem encontrado uns milhares de euros no lixo*, dinheiro que devolveram ao respectivo dono. O que devia ser um comportamento moral normal, foi notícia repetida em vários canais de televisão e em vários noticiários, o que pode querer dizer que não é o habitual no nosso comportamento.

Uma das áreas mais sensíveis é a da política. Haverá ética na política e nos negócios, e em particular nos negócios do estado?
Somos levados a pensar que em regra não é o que acontece. Se fosse assim, como se compreenderiam, em tantos locais do mundo, políticos metidos em negócios que revertem para beneficio próprio? Para que serviriam os offshores se houvesse ética na política e nos negócios?
Os gestores e os líderes políticos, devem ser os primeiros a agirem segundo princípios éticos. Mas todos os dias, pelas situações noticiadas, concluímos que não existe ética na política ou pelo menos em grandes sectores da política.
Todavia, não se pode aceitar uma política sem ética.
É, por isso, que a justiça, justa e independente, é indispensável para aplicar a legalidade, de forma ética, de acordo com os direitos universais do ser humano.
Política e negócios dizem respeito ao ser humano, à ética e à moral. Não deixa de ser caricato separar o comportamento ético dos dirigentes dos respectivos partidos como se isso não fosse relevante para a situação actual, principalmente quando se continua a defender os mesmos princípios, não houve um corte com o passado, ou dito de outra forma, não fizeram o luto de um tempo mentiroso e de uma actividade politica errada, que acabou por desembocar no falhanço político, à beira da bancarrota, com consequências para as pessoas: desemprego, incumprimento dos seus compromissos, as suas vidas alteradas e as expectativas frustradas.
Como dizia Sá Carneiro, a política sem risco é uma chatice e sem ética é uma vergonha.
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* Corrigido (18-12-2014)
Nos tempos que correm, é caso de admiração social e política.

26/11/14

Hortiterapia

Ego vs Eco: rethinking our place in the world  F&O Forgotten Nobility

Sem darmos por isso ou tendo plena consciência do que está a mudar no mundo e na nossa vida, constatamos que a realidade do nosso tempo é de que apesar de as pessoas ficaram com mais tempo livre - 5 horas mais do que há 30 anos, termos menos filhos, a aposentação chegar mais cedo ou ter uma duração maior, vivemos com mais stress e o tempo que nos resta , o tempo livre,  é gasto frente à televisão, nas redes socais, nos transportes nas grandes cidades…

Por outro lado, os comportamentos das pessoas nos países desenvolvidos têm levado ao consumismo, poluição, esgotamento dos recursos, recessão económica, abandono do mundo rural, crises, corrupção ao mais alto nível, offshores, bancos falidos, défices e dívida sempre a aumentar.


De facto, confrontamo-nos com:
- o esgotamento dos recursos energéticos como o petróleo, gás, urânio, carvão e a escassez de muitos outros recursos minerais.
- a degradação ambiental: diminuição da biodiversidade, poluição, deterioração da saúde das populações .
- mudança de estilo de vida: transporte, tratamento de resíduos, alimentos (obesidade nos países desenvolvidos, a desnutrição em países pobres).

Foi aqui que chegamos com o desenvolvimento descontrolado. Foi aqui que nos trouxe quer o capitalismo quer o socialismo.
Por isso, cada vez mais, as pessoas aderem à ideia de que a riqueza interior é o mais importante da nossa vida.
Ao contrário dos que falam em crescimento, sem saberem como é que isso vai acontecer, há uma diversidade de caminhos que já estão a ser postos em prática e que convergem no mesmo sentido, tais como o decrescimento", "criativos culturais", "consumactores", "simplicidade voluntária", "redução"("downshifting")...
Estes caminhos procuram uma vida com mais realização e felicidade, são resposta ao stress, excesso de trabalho e falta de qualidade de vida. 
Estes caminhos optam por sair da correria das grandes cidades, pelo trabalho a tempo parcial, por horários de trabalho flexíveis, pela redução de compras desnecessárias e por uma vida mais simples. 

Estas alternativas são compatíveis com a hortiterapia.
Para além de contribuirmos para a redução da desertificação, podemos valorizar os terrenos que estão abandonados, contribuindo para uma consciência ecológica, e, talvez, algum rendimento. 
Segundo Philippe Lahille alguns benefícios da horticultura e hortiterapia (em baixo, os benefícios segundo Mélanie Massonnet) são:
- Reencontrar o contacto com a natureza
- Respeitar o tempo da meteorologia e do relógio
- Aceitar o fracasso e aceitar as dádivas da natureza
- Despertar e encantar as crianças :
- Fazer actividade física ao ar livre
- Anti-stress
- Recriar o seu paraíso na terra
- Aprender os nomes de plantas e animais
- Partilhar o saber fazer,
- Antecipar um futuro ecológico e sustentável

Interessa-me cada vez mais a horticultura como hobby e como terapia.
São inegáveis as vantagens da hortiterapia para o bem estar e para manter a forma: «Um individuo pode queimar tantas calorias em 45 minutos como em 30 minutos de aeróbica" (Denis Richard).  Esta actividade no ginásio verde (green gym), três vezes por semana, para manter a forma. 
Mas tem também indicações terapêuticas para : depressão, dor de cabeça e outras doenças graves.
A opção pela hortiterapia é fácil, barata, faz bem à saúde e à natureza.

Aspectos da saúde beneficiados
Capacidades desenvolvidas ou estimuladas pela hortiterapia
Saúde física
Contacto com a natureza
Diminuição do stress
Diminuição da fadiga mental
Aceleração da velocidade de recuperação
Exercício físico
Diminuição do risco de certas doenças
Diminuição da ansiedade
Diminuição do estado depressivo
Vitalidade, endurance,
Força física
Coordenação global e fina, equilíbrio
Saúde psicológica
Percepção do tempo e das estações
Sentido da vida
Autoestima, autoconfiança autorespeito e autoaceitação
Realização, orgulho
Estabilidade emocional, alteação dos sentimentos negativos
Sentimento de tranquilidade, de alegria, de autonomia
Relaxação, reflexão
Diminuição do stress
Saúde social
Coesão social, enriquecimento da rede social, amizade
Desenvolvimento de capacidades sociais e de comunicação
Cooperação pelo trabalho
Diminuição do sentimento de solidão
Saúde intelectual
Aprendizagem de novos conhecimentos
Capacidade de observação, de concentração
Curiosidade,
Criatividade imaginação
Empregabilidade

Les grandes lignes del’hortithérapie, Mélanie Massonnet

18/11/14

"Mulheres de guerra"




Uma reportagem de Victor Bandarra e Ricardo Ferreira, com edição de imagem de Miguel Freitas, Repórter TVI: «Mulheres de Guerra» merece referência positiva.
Felizmente, há, de vez e quando, quem chame a atenção para a realidade do stress pós-traumático de guerra. Os ex-militares não podem ser considerados "tara perdida". Há responsabilidade da sociedade em relação aos ex-militares da guerra do ultramar (e também em relação aos que têm participado em missões humanitárias).
As mulheres e filhos destes homens não estiveram na guerra mas vivem a guerra por dentro, durante toda a vida. Como seria sem estes cuidadores?    

Felizmente, a associação APOIAR presta apoio gratuito a vítimas de stress de guerra e disponibiliza apoio jurídico, clínico, médico e social aos ex-combatentes e seus familiares.

Escrevi "danos centrais" sobre este problema. Insisto: o mínimo que se podia fazer por estas pessoas seria não só a gratuitidade dos serviços de saúde, em especial de saúde mental, mas também de terapias medicamentosas e psicológicas.

13/11/14

Muros


Em 1961, Berlim passou a estar dividida por um muro, que de algum modo representava uma divisão mundial que ficou conhecida como Guerra Fria.

Há 25 anos (9 de Novembro de 1989) o muro foi derrubado. A barreira de betão que dividiu Berlim, a Alemanha, a Europa e o mundo durante quase 30 anos caiu, aparentemente com alguma surpresa e facilidade.
No entanto, muitos contribuíram para que isso acontecesse: Gorbatchov, Lech Walesa, Reagan (“Senhor Gorbatchov, derrube este muro”), e sobretudo os que perderam a vida devido a essa divisão. Estima-se que 136 pessoas tenham perdido a vida a tentar passar para a República Federal Alemã (RFA). 
As comemorações dos 25 anos da queda do muro mostram que não há alternativa à liberdade dos cidadãos mesmo que nem tudo tenha sido positivo, como dizem os saudosistas que podem agora manifestar-se livremente. (Observador)

Mas há outros muros físicos e culturais que continuam a existir no nosso mundo, na nossa sociedade.
São os muros que não queremos, nas palavras dos Pink Floyd,  porque não necessitamos de uma educação de obediência cega, que humilha as crianças, não precisamos de controle mental, não somos apenas um tijolo no muro.

As sociedades através da escola podem propor modelos diferentes de cultura: a cultura muro ou a cultura rede (Bruno Munari).
A cultura muro é a acumulação de noções, apenas pode aumentar pela junção de novos tijolos. Esta cultura considera o processo de aprendizagem como a sedimentação de camadas sucessivas de saberes, que se empilham uns sobre os outros, lenta e progressivamente. 
O muro é apenas construído de baixo para cima. Há apenas uma única maneira de aceder ao saber. Cada noção deve ser bem distinta das outras, cada disciplina bem separada das outras. O muro não é susceptível de mudança.
Mas há a cultura rede que significa tecer o maior número possível de relações entre noções. Uma rede é uma transformação permanente.
Não há uma única maneira de aceder ao saber. Uma rede pode ser construída a partir de um ponto qualquer. Aprender significa modificar e transformar continuamente as conexões entre noções, sejam novas ou já conhecidas. Para facilitar a construção da rede importa multiplicar os pontos de vista. Uma rede não está nunca construída, mas necessita de modificações e cuidados constantes... 
Já Pascal escrevia que era preferível “uma cabeça bem feita a uma cabeça bem cheia”.

Por ocasião do 25º aniversário da queda do Muro de Berlim, o Papa Francisco pediu a construção de pontes e não de muros. Disse ainda que "a queda do Muro chegou de forma imprevista, mas foi possível graças ao longo e difícil compromisso de todas as pessoas que lutaram, rezaram e sofreram .
E´necessarrio que "se desenvolva cada vez mais a cultura do encontro, susceptível de fazer cair todos os muros que ainda dividem o mundo, e para que nunca mais os inocentes sejam perseguidos ou, às vezes, mortos por suas crenças e religiões".
"Precisamos de pontes, não de muros". 

12/11/14

"O homem que assobia a mulher que passa"


Tudo é comunicação. A vida é comunicação. Independentemente da minha vontade, eu comunico ainda que não queira, mesmo que esteja em silêncio ou que me afaste das pessoas e viva no deserto. 
Há formas de comunicação que nos podem parecer estranhas porque elas dependem da cultura de cada povo. Há formas de comunicação que podem ser insultuosas, dependendo do contexto.
Dois terços da nossa comunicação é não verbal e apenas após o primeiro ano de vida estamos em condições de comunicar verbalmente.
Uma forma de comunicação não verbal que merece a concordância de uns e a discordância de outros é o comportamento de “assobiar a mulher que passa"
Como em toda a comunicação, há uma fonte do comportamento comunicacional, a mulher que passa, em que, sem falar, comunica, como no poema de Almada Negreiros. 
       Aquela que tem a forma do faz calar,
       Aquela que fala co’o andar,
       Aquela que sabe mentir,
       Aquela cujo olhar dá ilusão
       E que tem na voz o timbre dos repuxos;
                     J. de Almada Negreiros, Poesias
O assobio apreciativo muitas vezes é acompanhado de outros piropos ou de outras expressões, que entram no campo do assédio moral. 
Parece, no entanto, que este assunto merece uma análise mais detalhada. O que motiva um individuo a assobiar uma mulher?
A comunicação é um processo básico da vida. Torna-se indispensável ao estabelecimento de relações sócio-afectivas. Mas nem por isso é fácil expressarmos as nossas emoções. 
Como expressão da nossa organização psicológica, a comunicação, é, certamente, uma questão da personalidade do indivíduo.
Sabemos que o assobio admirativo dificilmente tem resultado. Então por que continua a verificar-se este comportamento ?
Há vários paradigmas psicológicos dos processos intrapsíquicos e relacionais que podem ajudar a compreender este comportamento.
Os paradigmas dos processos intrapsíquicos remetem-nos para a organização interna do psiquismo. A personalidade é constituída pelas instâncias (ego, id, superego) e põem em jogo desejos, motivações, outras necessidades do individuo.
Torna-se imperiosa a necessidade de comunicar. Há processos inconscientes na comunicação que foram socializados pelo super-ego e pelo princípio da realidade que impedem que esta comunicação seja simplesmente uma pulsão sexual primitiva.
A analise transaccional permite-nos analisar os estratagemas, jogos e motivações escondidas.
Provavelmente este individuo acredita que é uma maneira de se evidenciar perante outros e que o torna na vedeta do grupo. 
Este padrão comportamental tem origem na infância. Começa por ser a maneira de se evidenciar perante a família e os irmãos onde o jogo comunicacional tinha esse beneficio.
É também uma forma de relação sistémica, um comportamento que normalmente acontece em grupo, sendo necessário entender os aspectos do contexto, do enquadramento do grupo a que se pertence, da forma como é entendida a mulher nesse grupo e onde há trocas comunicacionais prévias, em relação às quais há aceitação por parte do grupo.
Podemos compreender o sentido deste comportamento a partir da nossa própria experiência, do contexto das normas sociais em que o assobio define uma situação de ambivalência de comunicação sexualizada mas simultaneamente lúdica e sem consequências a esse nível.
Mais uma vez o processo de socialização na escola e na família é decisivo para a comunicação sócio-afectiva, sexualizada e equilibrada, entre homens e mulheres. 

06/11/14

Ousar falar


Le cercle psy, nº 3 , hors-série,  dá voz às pessoas que sofrem de alguma difculdade a nível da sua personalidade. Sobre o assédio moral, um extracto do livro De la rage dans mom cartable, remete-nos para o testemunho de Noémya.


Noémya foi vítima de assédio moral durante toda a sua escolaridade. Viveu quatro longos anos de sofrimento, onde intimidação, insultos, agressões e rejeição foram o seu quotidiano, na indiferença geral do pessoal docente, acrescentando a cada dia um pouco mais de raiva na sua mochila ... Isto foi seguido por dez longos anos de depressão e fracassos profissionais, as consequências directas do fenómeno do assédio. Com espírito de luta, Noémya escapou graças à escrita, conseguindo colocar em palavras os seus problemas .... 
Durante três anos, ela fez da luta contra o assédio moral a sua luta pessoal. 

"Diz-se que há palavras que matam. Palavras que destroem do interior. A diferença com as agressões é que as palavras ficam...

...Para as vítimas de assédio escolar não há geralmente paragem. Todos os locais se tornam ansiogénicos. As salas de aula. O pátio do recreio. A cantina. O autocarro. A perseguição é permanente."


Para os que sofrem com esta situação,  mais importante  do que "guardar na mochila" todas estas agressões é ousar falar.

Respeito


Respeito é a atitude que consiste em não prejudicar o outro nem fisicamente através da violência, nem moralmente através do juízo (Larousse)
É esta atitude, respeito, que faz falta na nossa sociedade:  respeito por si próprio, pelos outros.
Mas o que falta em respeito sobra em assédio moral.
O assédio pode acontecer em vários aspectos e várias etapas da nossa vida.
No mundo do trabalho, leva ao constrangimento da pessoa, afecta a sua dignidade, criando-lhe um ambiente hostil e humilhante (mobbing).
O assédio pode assumir carácter sexual sob forma verbal, não verbal ou física.
O assédio é mais comum em relações hierárquicas autoritárias e assimétricas, isto é, da chefia em relação ao subordinado, em que o fracasso do subordinado é fabricado, um falso fracasso, com o objectivo de o destruir moralmente. Entre nós uma forma frequente deste  assédio é "por o trabalhador na prateleira”
O assédio é frequente na escola, normalmente falamos de bullying.
Hoje, o assédio é particularmente pernicioso nas redes sociais. A internet tornou-se um local preferido para a perseguição (cyberstalking). Tem a vantagem de funcionar no anonimato e na cobardia.
Há vários estudos sobre uso da internet para o assédio. Num deles, (Universidade East Carolina) nos Estados Unidos, perguntaram a 804 estudantes se já tinham usado as tecnologias de informação e comunicação para controlar os seus parceiros. Metade respondeu que sim, ao menos uma vez. 
A pesquisa também mostra que as mulheres são mais propensas ao abuso. Uma em cada quatro das entrevistadas afirmou que violava o e-mail de seus parceiros em comparação  apenas 6% dos homens.
O que leva uma pessoa a assediar alguém, chegando ao ponto de a prejudicar no trabalho, na escola  ou na sua vida ?
Há três tipos de personalidades reprováveis: personalidade maligna, personalidade narcísica e a personalidade paranóica (Piñuel, referido por Varela, P., Ansiosa-mente, pag.135)
Eventualmente pessoas comuns, como o caso de alguns adolescentes, podem manifestar episódios de perseguidores. Há um limite ténue entre a curiosidade sobre uma pessoa e o começo do assédio.
Como, no espaço  público, é difícil saber quando, para comportamentos que vão do piropo apreciativo ou ofensivo  à perseguição (stalking) e agressão física, se atingiu o limite.
Neste caso a vítima é quase exclusivamente feminina.
O piropo é, supostamente, uma expressão ou frase dirigida a alguém, geralmente para demonstrar apreciação física. 
Há quem ache que é uma questão cultural mas também discorde e ache que “não existe lado “positivo” no piropo” (Soledad Cutuli) 
Recentemente uma instituição sem fins lucrativos, a Hollaback realizou a seguinte experiência:
Uma actriz (Shoshana B. Roberts) andou durante dez horas em silêncio pelas ruas de Nova Iorque. Durante essas dez horas ouviu 100 comentários, desde piropos mais ou menos inócuos a outros mal educados, até ser acompanhada durante vários minutos.
A Hollaback refere que há entre 70 e 99% de mulheres que passa por uma experiência de assédio na rua, em determinada fase da sua vida.
O assédio sexual no espaço púbico, mesmo quando assume a forma de piropo, é sempre um comportamento injustificável mas obviamente que há uma grande diferença entre piropo e perseguição (stalking ou cyberstalking).
Aquilo que falta é que haja mais respeito nas relações entre seres humanos, no trabalho ou na rua. A educação pode dar uma ajuda.


03/11/14

DDT




"São mais contas, as outras duas que o Económico hoje destaca: as que se começam a fazer sobre a promessa do novo PS de repor na íntegra, em 2016, os salários cortados no Estado (que merecem um alerta de Manuel Caldeira Cabral e uma crítica de Paulo Trigo Pereira no Público de domingo); e as que o ministro Poiares Maduro faz a António Costa, ainda sobre as contas que este retira dos quadros do Orçamento sobre a aplicação de fundos comunitários em 2015 ("A questão já não é de números mas de seriedade e credibilidade", acusa o ministro).
O posicionamento do novo líder socialista neste início de mandato merece uma nota crítica do diretor do Económico no editorial de hoje ("O pé esquerdo de Costa") e uma violenta crítica de Camilo Lourenço no Negócios ("fica claro qual vai ser o posicionamento do PS nos próximos meses: prometer tudo e mais alguma coisa. Mesmo aquilo que não pode cumprir"). O Governo não sai incólume em nenhum dos dois artigos." (Observador, Newsletters -360º, David Dinis, 3-11-2014)


Por aqui podemos começar a imaginar o que se vai seguir. O sr. DDT (dá dinheiro a todos) está a chegar. Não aprendemos facilmente estas contracurvas da política e dos políticos, mas quando a esmola é grande até o santo desconfia. Era necessário um momento de verdade porque este povo é mais do que santo.



30/10/14

Nada existiu ainda


1. "Se aos quatro canais generalistas se juntarem os canais de informação portugueses no cabo (RTP Informação, SIC Notícias e TVI24), é possível assistir a 69 horas de comentário político por semana. O equivalente a quase três dias completos em frente à televisão. Marcelo Rebelo de Sousa, José Sócrates e Marques Mendes são alguns dos rostos mais conhecidos de uma lista de, pelo menos, 97 comentadores com presença semanal na televisão portuguesa. Destes, 60 são, ou já foram, políticos."
"O império dos comentadores onde quem manda são os políticos", Filipa Dias Mendes e Pedro Nunes Rodrigues, Público, 12/05/2013

2. Há um tipo de políticos comentadores e de comentadores políticos que passam a vida a arrasar, normalmente o governo na sua totalidade, um ou outro ministro ou serviço, conforme se vão pondo a jeito ou se adivinha a fragilidade. O mesmo acontece à oposição (veja-se o desventurado Seguro).
São os arrasadores.
Claro que andam todos a arrasar-se uns ao outros. Mas aqueles a que acho mais piada são os arrasadores do seu próprio partido quer estejam no governo quer estejam na oposição. 
No que actualmente acontece, não há praticamente uma medida, um item do orçamento que mereça uma nota positiva. O pessimismo é a sua visão do mundo dos outros. Porque a sua visão do mundo próprio, segundo as suas ilusões, é a melhor possível.  
Alguns arrasadores: um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete...

3. Vale a pena pensar com K. Popper, novamente:
"Kreuzer: Esta refutação impressionante de um optimismo ingénuo é motivo para o pessimismo?
Popper: Não. Pelo contrário. Pelo contrário, constitui um desafio para que, o homem veja as possibilidades e aproveite as oportunidades. É isso. Não é motivo algum para pessimismo. É precisamente no pessimismo que eu vejo o maior risco, ou seja na tentativa permanente de dizer aos jovens que vivem num mundo cruel. Considero este o mais grave perigo do nosso tempo, mais grave ainda do que a bomba atómica. O sugerir-se às pessoas que vivem num mundo ruim, num mundo hipócrita e não sei que mais. Nós vivemos, numa perspectiva histórica (esta é a minha opinião), no melhor dos mundos que jamais houve. Naturalmente que é um mundo cruel, uma vez que há um mundo melhor e porque a vida nos estimula a buscar um mundo melhor. E temos que prosseguir essa procura de um mundo melhor. Isto não significa, porém, que o nosso mundo seja mau. Na realidade, o mundo não só é belo como os jovens têm hoje a possibilidade de verem este mundo maravilhoso. E de um modo antes nunca possível. E isto é extraordinariamente importante.
Lorenz: Tal como um médico, é-se muitas vezes forçado a advertir. O que não significa que se seja pessimista. Quando se considera todas as hipóteses de doença e se alerta para elas, tal não significa que se seja pessimista. Eu sou tido por um pessimista da cultura. De facto, se o fosse, dedicava-me apenas aos meus peixes e aos meus gansos e não me preocupava com os problemas da humanidade. Um dos principais perigos, como sublinhou com toda a razão Karl Popper, é o esvaziamento de sentido do mundo para os jovens. E a perda de sentido que Viktor Frankl vê também e contra a qual, muito justamente, luta. Interrogo-me constantemente sobre como fazer-lhe frente e a melhor forma que conheço é o dar a conhecer aos jovens a beleza da natureza. Um indivíduo que conheça a beleza de um bosque na primavera, a beleza das flores, a magnífica complexidade de uma qualquer espécie animal, nunca poderá duvidar do sentido do Universo. A possibilidade de uma evolução superior, insuspeitada e nunca antes atingida está tão em aberto quanto a possibilidade de a humanidade evoluir no sentido de uma comunidade de térmitas da pior espécie.
Kreuzer: Nada existiu ainda.
Lorenz: Nada existiu ainda, e tudo é possível!
Kreuzer: Muito obrigado a ambos."
(O futuro está aberto, pg.41-42)

4. "Nada existiu ainda" e, por isso, contra os arrasadores pessimistas, vale a pena prosseguir na procura de um mundo melhor, talvez, se deixarmos entrar o optimismo no nosso coração.


Violências familiares


Temos sido confrontados, ultimamente, com notícias que nos deixam angustiados devido a casos de extrema violência doméstica. Periodicamente, parece haver um aumento de situações letais deste tipo de violência. 
Também as páginas negras das revistas cor de rosa mostram que o glamour nem sempre é o que parece.
Na realidade, conheço melhor a violência familiar do ponto de vista das crianças que chegam à consultas de psicologia ou porque já estão a ser acompanhadas pelos tribunais e comissões de protecção ou porque as famílias estão a viver essas situações.
São crianças expostas a modelos de violência com frequência e que às vezes são igualmente vitimas quando tentam defender o progenitor agredido.
Outras vezes o sofrimento é mais invisível: Sofrem porque os pais não se entendem, se agridem verbal ou fisicamente de forma sistemática.
Há algumas falsas ideias que é importante termos em conta.
Há a falsa ideia de que se pode ser um bom pai mesmo sendo um marido violento. “Só me bate a mim, não toca com um dedo nos filhos…”
Outra ideia errada é pensar, quando as crianças são pequenas, que ainda não entendem o que se passa.
Acontece que estas violências começam desde muito cedo. Em 40% dos casos a violência inicia-se logo na gravidez ou logo a seguir ao nascimento.
Observam-se reacções de agressividade ou de medo em crianças desde os 8 ou 9 meses que é uma altura em que áreas especializadas do cérebro são mais sensíveis a indicadores de ameaça psicológica.
Alem disso a violência psicológica é igualmente importante se desqualificam a vítima ou se a vítima é ameaçada de maus tratos corporais graves. A criança pode assumir como real essa ameaça.(Entrevista de Jean-François Marmion a Karen Sadlier, Le cercle Psy)

A violência doméstica envolve os vários elementos da família mas ela é principalmente uma violência de género. Em 2013, em 82% dos casos de violência doméstica, o autor do crime era do sexo masculino.(APAV)

Nas violências familiares não é fácil de entender porque as vitimas tem tanta dificuldade a denunciar e ou deixar o cônjuge violento.
Em parte, talvez porque as vítimas sempre esperam que o agressor possa mudar por elas ou pelos filhos.
Apesar das convenções internacionais e da legislação existentes, o atavismo cultural e o fanatismo religioso continua a ter grande importância em muitos países. Em alguma culturas, as mulheres continuam a ser propriedade dos maridos, os filhos propriedades dos pais...
Mas entre nós há quem ainda não compreenda que as pessoas não são propriedade de outras pessoas. Nem o casamento as torna proprietários de alguém.
Um dos aspectos de maior conflito tem sido a subtracção de menores (Artigo 249.º do CC). Muita violência tem a ver com a desregulação do poder parental porque consideramos que somos proprietários dos nossos filhos.

 Kalil Gibran, nascido no Líbano, já dizia

Vossos filhos não são vossos filhos.           
São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.           
Vêm através de vós, mas não de vós.           
E embora vivam convosco, não vos pertencem.           
Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos,           
Porque eles têm seus próprios pensamentos.           
Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;           
Pois suas almas moram na mansão do amanhã,           
Que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.           
Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós,           
Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados.           
Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas.           
O arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a sua força          
Para que suas flechas se projectem, rápidas e para longe.           
Que vosso encurvamento na mão do arqueiro seja vossa alegria:           
Pois assim como ele ama a flecha que voa,           
Ama também o arco que permanece estável. 


28/10/14

Progressos na educação


A euforia em volta da demissão do ministro de educação Nuno Crato, como se pode verificar um pouco em todos os media, é bem a imagem de uma campanha que obedece a critérios da  mera luta política. Como parece que Passos Coelho vai cumprir a legislatura, a estratégia para fazer mais alguns estragos costuma ser tentar  fragilizar mais ainda a situação da educação "limpando" o que popularmente está mais a jeito.
Nuno Crato pode  sair amanhã do ministério por vontade própria ou  do primeiro ministro. Que importa?  Haverá sempre ministros que saem e outros que entram. Ainda não houve falta de candidatos.
Mas por que há-de sair Crato ?
Porque Crato é o bode expiatório de  todo o mal que tem acontecido e, em especial, tem acontecido à educação.
Crato devia pedir  desculpa porque houve um erro que não foi dele. Pediu. E mais: prometeu a reparação do erro cometido. Mas isso já não interessa.

O que esteve errado então? A aplicação de critérios/subcritérios que tinham sido aprovados. Que nunca foram aceites pelos sindicatos e professores.
Como já disse, o que que ficou claro é que apenas aceitam a lista de graduação única. E não há esperança de que outros critérios possam entrar na selecção dos candidatos a professor. Não há esperança de mudança.

Várias críticas foram aqui feitas, obviamente. As falhas vieram da continuidade das medidas do governo anterior, como o fecho de escolas rurais e de pequena dimensão, mega-agrupamentos, continuação da burocracia...
Mesmo assim, muito foi substituído ou terminado: a parque escolar, as aulas de substituição,  o estatuto do aluno, os professores titulares, a avaliação de desempenho, o autoritarismo, a destruição da imagem dos "professores que não trabalham", as novas oportunidades... por Nuno Crato. Tudo foi esquecido.

Uma avaliação crítica, equilibrada e justa encontra-se em Marlene Carriço - três anos de Crato: orgulho de quê? (Observador).
"Com Nuno Crato aumentaram de 21 para 212 o número de escolas com contrato de autonomia, foi dada uma maior liberdade na definição do tempo de cada unidade letiva e da carga horária anual de cada disciplina, cumprindo os limites mínimos, e assegurando que disciplinas como o Português e a Matemática ficassem reforçadas, foram também atribuídos mais créditos horários às escolas que tiveram melhores resultados escolares e que mais reduziram o abandono escolar para poderem utilizar como bem entendam, no apoio aos alunos."
alunos

Provavelmente não há que ter "grande orgulho" como quer Passos Coelho. Mas pedir a demissão do governo e dos ministros faz parte da lógica de partidos que não aceitam esta politica, nem outra, desde que a considerem "de direita".
O pretexto de não se ser capaz de harmonizar escalas com pontuações diferentes ultrapassa a racionalidade. E o que tem Crato que ver com isso ?  Mas o problema não é esse mas o que já escrevi noutro local.

Não deixa de ser interessante verificar que no mesmo dia em que M. F. Mónica chama "burro" ao ministro Crato, um relatório da OCDE vem dizer que é necessário reduzir o número de professores.


Tal como diz: "Reduce grade repetition by investing in alternative ways of supporting those with learning difficulties", coisa de que a (dita) esquerda nem quer ouvir falar. 
E esta é uma medida muito positiva de Crato.

Será que o relatório tem alguma importância ?

Já tínhamos visto este filme. Claro que tinha que acontecer um incidente como o da colocação de professores no tempo de Santana Lopes/Maria do Carmo Seabra. A informática não explica tudo.

25/10/14

Gosto e inteligência


Sermos mais ou menos inteligentes faz com que façamos determinadas escolhas musicais, literárias, etc.  e não outras? Ou essas escolhas  podem significar mais inteligência ou bom gosto? 

A "informação mostrada num gráfico é baseada na comparação dos resultados dos exames de acesso à universidade, nos Estados Unidos, com os gostos dos alunos.
Um estudo realizado nos Estados Unidos diz que quem ouve artistas como Beyoncé, T.I. ou Jay-Z ou géneros musicais como reggaeton, jazz ou pop é menos inteligente do que quem ouve Beethoven, Radiohead, Sufjan Stevens ou Bob Dylan. 
O critério utilizado no estudo, levado a cabo por Virgil Griffith no site Musicthatmakesyoudumb, foi a comparação das notas dos exames de acesso à universidade (SAT)* nos Estados Unidos com os gostos dos estudantes (informação retirada dos perfis do Facebook)."
Os resultados estão no Blitz ou no Musicthatmakesyoudumb.

A mesma metodologia foi usada com os gostos de livros. Veja os resultados em Booksthatmakeyoudumb.

A ser verdade, seria apenas para o grupo etário/de escolaridade estudado. 
Tem que se partir do princípio que os resultados do SAT acompanham os dos testes de inteligência. Para além de todos os problemas ligados à avaliação da inteligência.
Por outro lado, os bons resultados na prova não querem dizer que se tenha bons gostos musicais ou literários, o que é uma coisa discutível. Só faltava que não fosse !
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* O SAT (Scholastic Aptitude Test ou Scholastic Assessment Test) é um exame educacional padronizado nos Estados Unidos aplicado a estudantes do ensino médio, que serve de critério para admissão nas universidades norte-americanas.


22/10/14

Tudo gente inteligente

A gente já desconfiava de que quando Deus distribuiu a inteligência pelos seres humanos, fez os de esquerda mais inteligentes que os de direita.

É também essa a conclusão a que chegou um controverso estudo realizado por académicos da Universidade Brock, em Ontário, no Canadá, que "afirma que pessoas com opiniões políticas de esquerda tendem a ser mais inteligentes do que aquelas com visões de mundo de direita."
Political ideology"Analyses of large representative samples, from both the United States and the United Kingdom, confirm this prediction. In both countries, more intelligent children are more likely to grow up to be liberals than less intelligent children. For example, among the American sample, those who identify themselves as “very liberal” in early adulthood have a mean childhood IQ of 106.4, whereas those who identify themselves as “very conservative” in early adulthood have a mean childhood IQ of 94.8.
Even though past studies show that women are more liberal than men, and blacks are more liberal than whites, the effect of childhood intelligence on adult political ideology is twice as large as the effect of either sex or race. So it appears that, as the Hypothesis predicts, more intelligent individuals are more likely to espouse the value of liberalism than less intelligent individuals, possibly because liberalism is evolutionarily novel and conservatism is evolutionarily familiar." (Psychology TodaySatoshi Kanazawa ).

A tradução de esquerda e direita parece não corresponder a liberais e conservadores como é dito no texto acima.
Em todo o caso, para quem tenha dúvidas sobre estas conclusões o melhor é pensar que nos tempos que correm, direita e esquerda são mais ou menos farinha do mesmo saco. Veja-se por exemplo os ministros e todos os que estiveram no poder nos governos de Salazar e Caetano e agora são todos uns grandes democratas, alguns ministros...
Veja-se os que passam do ps para o psd e vice-versa, do cds para o ps e do bloco para o livre e do pcp para o psd e para o ps. São pessoas que sempre estiveram com a verdade e razão no último partido que escolheram. É sinal de que os que mudaram para partidos de esquerda são mesmo muito inteligentes . Os que foram em sentido contrário, deixaram de ser.

Para quem acredita que isto é assim pode sempre contar com a ajuda da representação social que existe (para não falar de preconceito). Na crónica de Mário Soares (A crise e Portugal, DN), na tal esquerda, só há gente inteligente, menos o sr. Hollande, coitado, que já não conta no contexto da esquerda, uma vez que a França passou a ser "a França do primeiro-ministro Renzi".

17/10/14

Autonomia das escolas

Ontem, assisti ao debate sobre educação no canal Parlamento. Agora ficou claro. A (dita) esquerda parlamentar quer uma lista única.
Os sindicatos (1, 2) pretendem, igualmente, uma lista nacional única de ordenação dos candidatos ao concurso de docentes, baseada apenas na graduação profissional.
Autonomia das escolas? Nem pensar.
Subcritérios em que contem outros factores? Nem pensar. Depois de acabado o curso, os professores que trabalham nas escolas são todos iguais. Nem pensar em estabelecer outros critérios que não seja unicamente a graduação profissional.
É verdade que a complexidade dos subcritérios e até a possível ilegalidade de alguns não podia ser ignorada e por isso, tinha que ser corrigida. Mas isso é diferente de não se admitir qualquer outro critério, e, principalmente, que não se possa valorizar quem se interessa pelo trabalho da escola e quem se está nas tintas.

Em O futuro está aberto, Karl Popper, escreve: "Melhorar a escola: libertarmo-nos dos professores infelizes".
"...Como é que se pode realmente reformar o ensino? Enquanto reflectia sobre as minhas próprias experiências como jovem professor em escolas más, cheguei à conclusão que o mais importante era criar nas escolas a possibilidade de os maus professores abandonarem o ensino ...Verifiquei que só os indivíduos com uma certa vocação - não se trata propriamente de uma aptidão intelectual, e sim de um relacionamento íntimo com as crianças - podem ser bons professores. E muitíssimos professores ficam, por assim dizer, "apanhados" pela escola, são infelizes lá e não conseguem mais de lá sair. Apresentei uma proposta muito simples: há que criar como que uma ponte para que essas pessoas, que não são piores que as outras, possam sair donde estão; e para o seu lugar irão outros indivíduos jovens, que são em parte professores natos. Enquanto muitos professores forem professores amargos, tornam as crianças também amargas e infelizes. Permanecem na escola até à reforma e respiram de alívio quando recebem uma pensão. Enquanto houver nas escolas professores amargos, e há-os em grande número, que por razões compreensíveis aterrorizam as crianças, e também porque são intimidados pelos seus superiores, pelos inspectores por exemplo, enquanto assim for o ensino não poderá ser melhorado."

Creio que Popper se refere a outro tempo e outro país. É por isso exagerada a semelhança com os anos mais recentes no nosso país.  Mas pela minha experiência de vinte e quatro anos de psicólogo escolar, vi muitos professores (a grande maioria) felizes e altamente motivados na sua profissão. Mas também vi estes de que fala Popper.
    
Em "O enigma da colocação central de professores", J. Carlos Espada, interroga se  "Não seria altura de perguntar por que motivo devem os professores ser colocados centralmente pelo Ministério da Educação? Não seria altura de olhar para outros sistemas de ensino público e observar como funcionam?"