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07/04/24

Em defesa dos direitos da criança


"O que há assim de tão admirável e exemplar na chamada transexualidade para que se pretenda a sua proliferação pelo mundo ocidental e o seu ensino nas escolas portuguesas? Este episódio conta com o testemunho ímpar da jurista Teresa de Melo Ribeiro. Imprescindível." Joana Amaral Dias

01/06/23

Educação e Paz




Como acontece desde 1950, hoje, dia 1 de Junho, comemora-se mais um Dia Mundial da Criança. É o reconhecimento de que todas as crianças têm direito a afecto, amor e compreensão, alimentação adequada, cuidados médicos, educação, proteção contra todas as formas de exploração e a crescer num clima de Paz.

Nas últimas décadas, tem havido uma crescente valorização e protecção da infância por organizações internacionais e nacionais.
No entanto, nada disto acontece em muitos locais do planeta. Parece mesmo que, globalmente, recuamos na questão destes direitos e, pelo contrário, assistimos à violência contra as crianças a que ninguém parece ligar: já não nos indigna a fome, não nos indigna a guerra, não nos indigna os maus tratos e abusos, não nos indigna que haja crianças desaparecidas e traficadas...

Criança e guerra são incompatíveis. Como já aqui escrevi, bastavam as crianças mortas na Ucrânia para fazer parar a guerra. Bastava que fossem respeitados os lugares sagrados da educação. Mas, ao contrário, parece mesmo que há intencionalidade na destruição selectiva de escolas, maternidades e hospitais.

Entre as duas guerras mundiais, nos anos 30, Maria Montessori discursava nos fora internacionais sobre a Educação e a Paz. E dizia: “É singular que não exista uma ciência da paz.”
"A história da humanidade ensina-nos que a chamada “paz” é a adaptação forçada dos vencidos a um domínio tornado estável, a perda de tudo o que amaram, o fim dos frutos do seu trabalho e das suas conquistas. O povo vencido é obrigado a dar, como se fosse ele o único culpado e o merecedor de castigo, só porque foi vencido, enquanto o vencedor arvora direitos sobre o povo que foi vítima do desastre. A tal situação, apesar de significar o fim da guerra com as armas, não pode chamar-se paz. Pelo contrário o verdadeiro flagelo moral nasce desta acomodação." (p. 14)
A paz dos mortos, a paz das ruínas e da devastação não é paz... 

Assistimos hoje a guerras em que as tecnologias mais avançadas que o homem inventou estão ao serviço dos contendores ao mesmo tempo que os objectivos são os mais violentos de que alguma vez o homem foi capaz. Nada se poupa, nada se protege. Pelo contrário, é necessário causar o maior número de danos para instaurar o medo ... 
Diz-nos Montessori: “O homem domina a natureza... mas não conseguiu dominar as suas próprias energias interiores...”

Na base de tudo está a educação que deve preparar os homens para a paz.
Montessori propõe-nos um método para educar: As crianças devem ser livres de se desenvolverem e aprenderem ao seu próprio ritmo, num ambiente estimulante e de compreensão, organizado, apropriado ao seu desenvolvimento.
Que podemos esperar do ambiente em que estão a ser educadas as crianças do futuro ? Fogem da escola para o abrigo, enquanto as bombas caem não se sabe bem onde, apesar de quem faz a guerra dizer que são de elevada precisão.
“O homem psiquicamente saudável é hoje um ser raro...”


Até para a semana.



Rádio Castelo Branco


23/11/22

O reflexo de liberdade



 

Os seres humanos vivem condicionados por comportamentos inatos e por comportamentos aprendidos.
Como sabemos, a investigação de Pavlov (1849-1936), com cães, ficou conhecida como uma forma de aprendizagem - o condicionamento clássico.
Pavlov observou que os cães salivavam perante um estímulo incondicionado, a carne, isto é, provocava uma resposta incondicionada.
Quando associou uma estímulo sensorial neutro, o som de uma campainha, que não provocava qualquer resposta, com um estímulo incondicionado (a carne, que provocava a resposta incondicionada da salivação), verificou que, após algumas associações, o som da campainha se tornou num estímulo condicionado, pois à sua presença, os cães reagiam com a salivação, agora resposta condicionada.
O condicionamento clássico é um tipo de aprendizagem em que um organismo aprende a transferir uma resposta natural perante um estímulo, para outro estímulo inicialmente neutro, que depois se transforma em condicionado. Este processo dá-se através da associação entre os dois estímulos (incondicionado e neutro).
Sabemos bem as consequências desta descoberta para a nossa vida.

Pavlov verificou também, já na parte final da sua vida, tanto no homem como no animal a existência de dois importantes reflexos inatos: o reflexo de finalidade e o reflexo de liberdade.
O reflexo de finalidade verifica-se quando somos atraídos por certos estímulos que se tornam importantes na nossa vida, somos atraídos por fenómenos novos, novas experiências mesmo que aparentemente sem qualquer utilidade... que se traduzem em equilíbrio do nosso organismo, nos acalmam e por isso, desejamos repetir.
Para Pavlov a vida deixava de ser atraente desde que não tivesse finalidade.

“O reflexo da liberdade, diz Pavlov, é uma reacção geral dos animais. É um dos reflexos inatos mais importantes. Sem ele, o menor obstáculo encontrado pelo animal bastaria para modificar completamente a sua vida.
A existência deste reflexo de liberdade tinha-lhe sido demonstrada por um cão, que, mal fosse colocado nas condições de trabalho experimental, apresentava uma salivação espontânea, contínua, que o tornava "inutilizável"."
Pavlov descobriu então que “o cão não suportava qualquer entrave quer dizer que se mantinha calmo e sem salivação apenas em liberdade total: podia-se mesmo nestas condições condicioná-lo eficazmente." *

Perante este reflexo de liberdade existirá também um 'reflexo de servidão' inato ?
"Pavlov respondia pela afirmativa, declarando que este reflexo protegia o fraco contra o forte, isto é, que um gesto de submissão tinha por resultado fazer cessar um gesto de agressão (o cachorro, apontava ele como exemplo, deita-se de costas perante um canzarrão). Pavlov pensava que este reflexo podia existir no homem, e tentou defini-lo ... como  'reflexo de escravidão'." *
"Pavlov deplorava que o 'reflexo de escravidão' se manifestasse tão frequentemente na Rússia 'sob os aspectos mais variados'. Ele pedia que se tomasse consciência desse facto a fim de melhor lutar no sentido da sua anulação, porque o reflexo de escravidão provocava por sua vez a inibição do reflexo de finalidade: A servidão fez do servo um ser passivo, sem qualquer desejo, sendo as suas aspirações, as mais legítimas, continuamente entravadas pelas vontades e os caprichos dos senhores." *


Até para a semana

 

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* H. Cuny, (1976), Pavlov, Círculo de Leitores, (Capítulo quarto, 1 - Condicionamento e evolução do Homem), pags. 103 - 113.

 

 

 




16/07/22

Pais com autoridade 3

1. Makarenko descreve vários tipos de autoridade parental que devem ser evitados. Mas então em que deve consistir a verdadeira autoridade dos pais numa família? *
Esta autoridade baseia-se, em primeiro lugar, na condição de cidadania, de pai e de ajuda, e em segundo lugar, na responsabilidade.
Podemos dizer que o principal fundamento da autoridade dos pais, não pode ser senão a vida e o trabalho dos pais, a sua personalidade de cidadãos, a sua conduta.
Quando as crianças vão crescendo interessam-se sempre por saber onde os pais trabalham, qual a sua posição social. Devem saber de que vivem, em que se interessam, qual o seu ambiente. A profissão dos pais deve parecer aos olhos da criança uma coisa séria e digna de respeito...
O trabalho paterno deve consistir em saber como vive, de que se interessa, do que gosta e o que quer o seu filho. Quais são os seus amigos, com quem joga, o que lê e como assimila o que lê. Qual a sua atitude face à escola, aos professores, quais são as suas dificuldades, como é o seu comportamento nas aulas.
Isto não significa que seja necessário fazer interrogatórios permanentes ao seu filho ou fazer espionagem mesquinha e inoportuna. É necessário que o seu filho fale destes assuntos. Diremos que é necessário o diálogo entre os elementos da família.
Este conhecimento leva à necessidade de ajuda. Na vida de qualquer criança é necessária esta ajuda para saber como se comportar. Esta ajuda não será provavelmente pedida pelo seu filho mas é necessário ir ao seu encontro.
Esta ajuda pode ter a forma de um conselho directo, uma brincadeira, uma orientação directiva, uma ordem. Se se conhece a vida do filho então é possível saber como será a melhor maneira de agir. Pode ser através de um jogo, travando conhecimento com os companheiros do seu filho, falando com os professores, ou com os outros filhos quando existem.
A ajuda dos pais não deve ser inoportuna, enjoativa e fastidiosa. É necessário que a criança às vezes resolva os seus problemas sozinha e que se habitue a ultrapassar dificuldades e resolver questões complicadas. Mas não se pode deixar cair a criança nas dificuldades, no desespero. É necessário que ela saiba que pode contar com a sua vigilância, com a sua atenção e com a sua confiança nas suas forças... Mas o seu filho saberá ao mesmo tempo que se exige qualquer coisa dele, isto é, ele tem que assumir responsabilidades.
A responsabilidade constitui assim o segundo traço essencial da autoridade dos pais, porque respondem pelos filhos face à sociedade e,  por outro lado, essa responsabilidade é também exigida aos filhos.

Para além das formas de autoridade errónea analisadas, M. refere ainda outras: a autoridade alegre, jovial, autoridade erudita, autoridade "bom rapaz"... Mas acontece que os pais não se preocupam em adquirir qualquer espécie de autoridade; vivem de qualquer maneira... Um dia punem o filho por um aspecto sem importância, no dia seguinte fazem-lhe uma declaração amorosa, a seguir punem de novo...
Pode também acontecer que o pai opte por um tipo de autoridade e a mãe por outro. Os filhos neste caso devem ser diplomatas e aprender a andar com rodeios entre o papá e a mamã. Acontece, enfim, simplesmente que os pais não têm qualquer atenção aos filhos e apenas pensam na sua tranquilidade.

2. Quando Makarenko escreveu O livro dos pais - Artigos sobre a educação, dirigia-se à família soviética e a uma sociedade totalitária. Podemos questionar qual a diferença em relação a outras famílias e sociedades de outros países mais democráticas, conservadoras, liberais...
Makarenko procurava chamar a atenção dos pais e da sociedade para os problemas da educação de crianças e jovens na sociedade que integrava com os problemas originados nas vicissitudes de Outubro de 1917 com o cortejo de crianças e jovens sem família, marginais, desorientados e abandonados.
O pedagogo socialista e conselheiro parental que escreve sobre a família soviética escrevia também sobre outra família qualquer, burguesa e capitalista, com as mesmas preocupações de educação dos filhos, seres humanos desenvolvidos, cultos, integrados, críticos, moralmente competentes... 

3. Não há Olimpos pedagógicos. Nem o de Rousseau, nem o de Gorki, nem o de Makarenko, nem o de Rogers ou de Skinner ou de todos os outros que conhecemos da pedagogia e da psicopedagogia mesmo daqueles que nem sequer eram "dados" na faculdade.
Insistir mais na educação baseada no colectivo ou no indivíduo é certamente discutível mas de certeza que não podemos dispensar nem uma nem a outra. Inscrevo o contributo pedagógico de Makarenko nesta perspectiva: Recompensas ou castigos devem ser vistos num contexto de motivação intrínseca. O papel do professor é fundamental e insubstituível na aprendizagem e na relação pedagógica. A educação com base na espontaneidade rousseauniana não é de todo o caminho a seguir mas também não pode ser uma camisa de forças onde o aluno seja manipulado como um autómato da aprendizagem.

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* Anton Makarenko, Oeuvres en trois volumes, Le livre des parents - Articles sur l'éducation - III, Ed. du Progrès, Moscou (“O livro dos pais - Artigos sobre a educação”). No capítulo  "Sobre autoridade dos pais" (p. 369-378) descreve vários tipos de autoridade parental e coloca a questão sobre a verdadeira autoridade dos pais e como se organiza.
 


18/04/22

Propaganda - fazer o mal e a caramunha



Qualquer regime político, ditadura ou democracia, usa a persuasão e propaganda no âmbito da luta política com vista a alcançar determinados objectivos.

Para Andrea Devoto, persuasão e propaganda “são duas técnicas de mobilização ideológica dos indivíduos e das massas, típicas do mundo moderno muito embora no passado se possa citar exemplos da sua utilização.” (A tirania psicológica, pag. 293)

Hoje em dia, é muito vasto o conjunto de meios à disposição dos políticos no campo da persuasão e propaganda... Sou do tempo d’ “A verdade é só uma, rádio Moscovo não fala verdade!”  ou de quando ouvíamos a BBC para sabermos as últimas notícias, mas em que a propaganda estava incluída quer num caso quer no outro... Desde então os media tiveram uma evolução sem precedentes o que permitiu mais informação mas também mais propaganda e manipulação. Hoje, o acesso à realidade é ainda mais difícil como o provam as fake news, as deepfake,  os cancelamentos (woke), a necessidade de “polígrafos”... em que tudo aquilo que não seja “politicamente correcto” é censurado e as pessoas são destituídas dos seus cargos e  prejudicadas nas suas carreiras... Ou seja, os media, controlados pelo estado ou não, influenciam ou até controlam o nosso pensamento e a  nossa vida. *


No entanto, existe uma grande diferença entre regimes totalitários e os variados regimes democráticos. Esta diferença nota-se principalmente na maneira como se ocupam dos simples cidadãos, para os regimes totalitários o individuo não tem qualquer relevo, ao contrário do que acontece nos regimes democráticos. (A. Devoto, referindo Antonio Miotto, pag. 294.) Para os regimes totalitários o indivíduo desaparece para se sujeitar e uniformizar ao grupo conforme o grupo e o estado desejam.


A propaganda tem efeito nos processos conscientes e inconscientes do indivíduo. Usa técnicas psicológicas de condicionamento do comportamento (Pavlov, Whatson, Skinner) explora as técnicas de comunicação, estuda as motivações, utiliza a percepção subliminar, etc..

Tudo isto funciona no contexto em que o condicionamento social transforma o ser humano alterando a sua personalidade.** É por isso tão importante o apelo à juventude e à participação nas organizações juvenis... O processo de socialização, a aprendizagem do indivíduo a viver em sociedade e a adaptação às normas do grupo e da comunidade em que vive, de algum modo condiciona socialmente o indivíduo. 

Assim condicionados, podemos perguntar até que ponto o ser humano é ou não livre nas suas atitudes e nos seus comportamentos, nas suas escolhas e decisões... 


Então, podemos concluir que estamos sujeitos à propaganda de um ou de outro lado do conflito. Como sabemos até que ponto estamos ou nao a ser manipulados pela acção psicológica? Não sabemos.

Porém, sabemos que a propaganda para ser eficaz não deve ser exagerada. Putin faz o mal e a caramunha: faz o que está à vista de todos, invade a Ucrânia,  e depois queixa-se de ser vítima do regime ucraniano. Queixa-se de que não tinha outro remédio senão invadir a Ucrânia e, como tem “nobres” sentimentos, vai salvar os ucranianos desse demónio (o regime ucraniano). Como no modelo de Karpman é vítima-agressor-salvador. E este é um agressor particularmente violento e arrasador que já se adivinhava pelo comportamento anterior noutros “salvamentos”.

 


Até para a semana com muita paz.

 


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** Svetlana Aleksievitch, O fim do homem soviético - Um tempo de desencanto, 2012 (trad. portuguesa de 2015) 




 

 


16/02/20

Ciúme e violência doméstica


https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/1/1e/%282%29_Cycle_of_abuse%2C_power_%26_control_issues_in_domestic_abuse_situations.gif



O ciúme é uma das causas que está na origem da violência doméstica. Agride-se, violenta-se e mata-se, por causa do ciúme, sendo a vítima principalmente a mulher, como as estatísticas comprovam.
Para a Associação de Apoio à Vítima (APAV), a violência doméstica abarca comportamentos utilizados num relacionamento, por uma das partes, sobretudo para controlar a outra.
Assim, a violência doméstica abrange:
- os actos criminais enquadráveis na legislação (art. 152º, Código Penal, Decreto-Lei n.º 48/95): maus tratos físicos; maus tratos psíquicos; ameaça; coacção; injúrias; difamação e crimes sexuais (sentido estrito).
- outros crimes em contacto doméstico: violação de domicílio ou perturbação da vida privada; devassa da vida privada (imagens; conversas telefónicas; emails; revelar segredos e factos privados; etc. violação de correspondência ou de telecomunicações; violência sexual; subtracção de menor; violação da obrigação de alimentos; homicídio: tentado/consumado; dano; furto e roubo), em sentido lato).
O ciúme é um sinal de que algo não está a correr bem na relação do casal. Em muitos casos pode explicar a a violência doméstica e o feminicidio. Porém, há muitas outras causas que explicam estes comportamentos.
Continua a haver, no contexto social em que vivemos, o sentimento de que uma pessoa, normalmente a mulher, é propriedade de outra pessoa, em geral o homem, e tem contado com alguma passividade por parte da sociedade.

Assim sendo, a pessoa ciumenta controla a vítima do seu ciúme até ao limite preferindo a sua eliminação a vê-la com outra pessoa: "perdido por cem perdido por mil".

Para Freud, "O ciúme é um daqueles estados emocionais, como o luto, que podem ser descritos como normais. Se alguém parece não possuí-lo, justifica-se a inferência de que ele experimentou severa repressão e, consequentemente, desempenha um papel ainda maior em sua vida mental inconsciente. Os exemplos de ciúme anormalmente intenso encontrados no trabalho analítico revelam-se como constituídos de três camadas. As três camadas ou graus do ciúme podem ser descritas como ciúme (1) competitivo ou normal, (2) projetado, e (3) delirante.
Não há muito a dizer, do ponto de vista analítico, sobre o ciúme normal. É fácil perceber que essencialmente se compõe de pesar, do sofrimento causado pelo pensamento de perder o objeto amado, e da ferida narcísica, na medida em que esta é distinguível da outra ferida; ademais, também de sentimentos de inimizade contra o rival bem-sucedido, e de maior ou menor quantidade de autocrítica, que procura responsabilizar por sua perda o próprio ego do sujeito. Embora possamos chamá-lo de normal, esse ciúme não é, em absoluto, completamente racional, isto é, derivado da situação real, proporcionado às circunstâncias reais e sob o controle completo do ego consciente; isso por achar-se profundamente enraizado no inconsciente, ser uma continuação das primeiras manifestações da vida emocional da criança e originar-se do complexo de Édipo ou de irmão-e-irmã do primeiro período sexual... 
O ciúme da segunda camada, o ciúme projetado, deriva-se, tanto nos homens quanto nas mulheres, de sua própria infidelidade concreta na vida real ou de impulsos no sentido dela que sucumbiram à repressão...
... A posição é pior com referência ao ciúme pertencente à terceira camada, o tipo delirante verdadeiro. Este também tem sua origem em impulsos reprimidos no sentido da infidelidade, mas o objeto, nesses casos, é do mesmo sexo do sujeito. O ciúme delirante é o sobrante de um homossexualismo que cumpriu seu curso e corretamente toma sua posição entre as formas clássicas da paranóia. Como tentativa de defesa contra um forte impulso homossexual indevido, ele pode, no homem, ser descrito pela fórmula: ‘Eu não o amo; é ela que o ama!’ Num caso delirante deve-se estar preparado para encontrar ciúmes pertinentes a todas as três camadas, nunca apenas à terceira." (S. Freud, Alguns mecanismos neuróticos no ciúme, na paranóia e no homossexualismo, 1922)

O ciúme difere da inveja na medida em que envolve mais do que duas pessoas: o medo da perda por parte do sujeito activo do ciúme, a pessoa de quem se sente ciúmes e a terceira pessoa que é o motivo dos ciúmes.

Nos casos de ciúme patológico, verifica-se uma permanente desconfiança e um estado de tensão, angústia e insegurança pelo medo de ser traído, conduzindo a um constante controle das ações do parceiro, mesmo que este não tenha dado razões para tal. As reacções são desproporcionais e podem mesmo ser agressivas do ponto de vista físico e psicológico, gerando sofrimento para ambas as partes.

Como fenómeno psicológico complexo, o ciúme manifesta-se em todas as classes sociais, idades e regiões. O ciúme é também um comportamento complexo porque envolve um largo conjunto de emoções, pensamentos, reacções físicas e comportamentais.
O sofrimento da pessoa que tem ciúmes envolve toda a sua personalidade: as emoções tornam-se tóxicas, os pensamentos obsessivos, de desconfiança, e de ressentimento, as reacções físicas ficam dependentes da angústia e ansiedade e os comportamentos desajustados, agressivos e violentos.

Nesta situação, (se acha que os seus relacionamentos estão nesta situação) procurar ajuda especializada é o melhor caminho para o equilíbrio psicológico e para acabar com o seu sofrimento psicológico e o de outras pessoas.







11/12/19

Carlos Amaral Dias



Carlos Amaral Dias, psicanalista, de 73 anos, faleceu a 3 de Dezembro, em circunstâncias ainda não totalmente explicadas pelo SNS/INEM.

Tive a sorte de ser seu aluno. E é essa a ligação de aluno-professor que tenho com ele. Uma ligação-admiração que seria continuada com os seus livros, e com as suas participações e intervenções na comunicação social.
Como já disse noutra altura, foi devido ao trabalho dos meus professores que sou quem sou. E como dizia a grande poetisa brasileira Cecília Meireles:
"Há pessoas que nos falam e nem as escutamos,
há pessoas que nos ferem e nem cicatrizes deixam
mas há pessoas que simplesmente aparecem em nossa vida
e nos marcam para sempre". 
Carlos Amaral Dias foi uma dessas pessoas que nos marcam para sempre.

Leio ou consulto com frequência algum dos livros que publicou. Amaral Dias não é de leitura fácil mas creio que era assim que ele queria. Nada pode ser fácil quando se trata da complexidade do ser humano.
Recordo as aulas de Psicanálise, do curso de Psicologia da Universidade de Coimbra, que leccionava no Centro de estudos e profilaxia da droga da mesma cidade.
Sempre impecavelmente vestido, fato e gravata, relógio de bolso, cigarro na mão... Entre o método expositivo e dialógico, as ideias fluíam de forma atractiva o que me levava a querer ouvir/saber sempre mais.
Embora com alguns conhecimentos na área do desenvolvimento psicossexual de Freud, a cadeira de psicanálise permitiu-me conhecer algumas vertentes do seu pensamento psicanalítico que passavam, necessariamente, por Freud, Melanie Klein, Bion…
Era um professor diferente do que era praticado na Faculdade de Psicologia da Universidade de Coimbra onde o formalismo de alguns professores doutores chocava um pouco com a informalidade, talvez excessiva, que trazia das minhas aulas do ISPA.
Depois continuei a acompanhar o seu pensamento nos livros que escrevia, cerca de duas dezenas,* e em  textos e entrevistas que resultaram das suas intervenções na comunicação social.

Um dos seus mais pequenos livros, A bondade e o perdão - ensaio psicanalítico sobre algumas qualidades do bom objecto interno, é, afinal, o grande livro que, desculpem o paternalismo, todos devíamos ler e meditar.
É de A Bondade e o perdão este extraordinário excerto (ponto 15):
"À violência que quotidianamente é gerada no nosso tempo, e que não pode ser somente denunciada mas essencialmente compreendida como gerada pelas angústias primitivas e pela pulsão de morte existente em cada um de nós, deve o homem não tanto opor, mas propor alternativas criadoras e por isso bondosas de habitar a Terra.
Uma das maiores consequências da prática da psicanálise é precisamente esta, ou seja, a compreensão dia a dia, sessão após sessão, da esterilidade da vingança e da estupidez própria da raiva. Diariamente nos confrontamos, nos nossos actos, nos nossos gestos, nas nossas relações, e nos nossos sonhos, com a obtusão mental derivada quase sempre da destruição interna que Thanatos inflige às partes boas e criadoras do self. Esse é o peso que nos empurra para a doença e para a dor. A bondade e o perdão, farão provavelmente parte das asas que nos esperam quando finalmente conseguirmos ser livres.”

Ele, certamente nas asas da bondade e do perdão, passou a ser definitivamente livre. Amaral Dias é uma referência obrigatória no campo da psicologia. Tenho, no trabalho e na vida, recorrido varias vezes à ajuda do seu pensamento. Só lhe posso estar grato.

_______________________________________
*Bibliografia (incompleta)
O Inferno somos nós - conversas sobre crianças e adolescentes,
Já posso imaginar que faço, com João Sousa Monteiro,
Um psicanalista no expresso do Ocidente,
Freud para além de Freud (Vol 1 e vol 2), 

Espaço e relação terapêutica, com prefácio de Jean Bergeret
Teoria das transformações,
Carne e lugar,
Modelos de interpretação em psicanálise,
(A)Re-pensar - Colectânea psicanalítica,
A psicanálise em tempo de mudança - Contribuições teóricas a partir de Bion,
com Manuela Fleming
Volto já - ensaios sobre o real,
Costurando as linhas da psicopatologia borderland (estados -limite), 

O negativo ou o retorno a Freud,
Tabela para uma nebulosa - Desenvolvimentos a partir de Wilfred R. Bion,
Bion hoje,
com A. Muniz de Rezende e David E. Zimerman
A bondade e o perdão - ensaio psicanalítico sobre algumas qualidades do bom objecto interno.



https://www.mixcloud.com/RACAB/cr%C3%B3nica-de-opini%C3%A3o-de-carlos-teixeira-12-12-2019/