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22/05/26

Prestação de contas



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"Este documento, de prestação de contas e motor de políticas públicas para a infância, reflete o trabalho consistente, exigente e silencioso de todos os profissionais que, diariamente asseguram a proteção das crianças e a promoção dos seus direitos."
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"O ano de 2025 foi um marco histórico do Sistema de Proteção de Crianças e Jovens em Perigo (mais um) uma vez que neste ano, finalmente, todas as comunidades passam a beneficiar da existência da CPCJ nos seus territórios. São, assim, 315 CPCJ que, num contexto social marcado por desafios complexos e em constante transformação, revelam uma notável capacidade de resposta, demonstrando a preponderância da articulação interinstitucional, pluridisciplinar e a importância das decisões terem como azimute o superior interesse da criança." Ana Isabel Valente, Presidente da CNPDPCJ.





24/04/25

Um caminho a continuar



Francisco veio de longe para ficar perto. Ficar perto dos mais vulneráveis. E este é um dos papéis que o Papa Francisco assumiu e que mais me tocou neste tempo que durou o seu pontificado.
Encontramos, certamente, diferenças com outros que o antecederam mas também continuidade. É o que acontece em relação à violência sexual contra crianças, jovens e pessoas vulneráveis. Se Bento XVI já tinha objectivado o papel da Igreja na eliminação deste grave problema da Igreja e da sociedade (Luz do mundo – O Papa, a Igreja e os Sinais dos Tempos – Uma conversa com Peter Seewald), foi Francisco que convocou a Cimeira no Vaticano sobre a protecção dos menores na Igreja (21 a 24-2-2019).
Também as Comissões diocesanas de prevenção e protecção de menores e pessoas vulneráveis foram criadas na sequência da publicação, pelo Papa Francisco, em 9-5-2019, da Carta Apostólica “Vos estis lux mundi” (“Vós sois a luz do mundo”) sobre a violência sexual no seio da igreja Católica. 

A Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) decidiu criar a Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica em Portugal, na Assembleia Plenária de novembro de 2021. A Comissão Independente apresentou em 13-2-2023, o Relatório da investigação efectuada. 


Em 5-2-2022, as Comissões Diocesanas, reunidas em Fátima, tomaram a decisão de criar a Equipa de Coordenação Nacional (ECN), integrando representantes das províncias eclesiásticas de Braga, de Lisboa e de Évora.

A CEP, na Assembleia Plenária de 25-28 de Abril de 2023, criou o Grupo VITA, apresentando-se como um organismo “isento e autónomo que visa acolher, escutar, acompanhar e prevenir as situações de violência sexual de crianças, jovens e adultos vulneráveis no contexto da Igreja Católica em Portugal, numa lógica de intervenção sistémica”. Entrou em funcionamento em 22-5-2023 e tem vindo a apresentar Relatórios de Actividades semestralmente.

 

Tendo em vista uniformizar procedimentos e garantir a adequada articulação entre VITA, ECN, Comissões diocesanas, Procuradoria-Geral da República, assim como  a actuação no apoio psicológico, psiquiátrico e espiritual das vítimas e agressores, em 16-11-2023, a CEP aprovou o “Guia de Boas Práticas” para o tratamento de casos de abuso sexual de menores e adultos vulneráveis, no contexto da Igreja Católica.

 

Em 25-7-2024, a CEP divulgou o Regulamento para atribuição de compensações financeiras às vítimas de abusos sexuais, que prevê a criação de duas comissões, a Comissão de instrução e a Comissão de fixação da compensação. Estão em curso estes procedimentos.

A CEP, na Assembleia Plenária de Novembro, aprovou uma Adenda com algumas clarificações ao processo das compensações financeiras, e também o alargamento do prazo de apresentação dos pedidos até 31-3-2025.


Em todo o país têm vindo a ser tomadas medidas de prevenção primária, tais como Ações de Formação para os diversos Agentes pastorais e a criação de mapas de risco e de códigos de conduta nos diversos sectores de intervenção da Igreja.


Esta breve nota histórica sobre a prevenção e protecção de menores e adultos vulneráveis no seio da Igreja Católica releva, no contexto atual de funcionamento das Comissões Diocesanas, a necessidade de articulação e cooperação entre as várias entidades com responsabilidades nesta área: as Comissões diocesanas, o Grupo VITA, a ECN, a CEP e as Dioceses.

Manifesta também o caminho percorrido e a percorrer na prestação de um serviço que deve dar confiança, segurança e cuidado a todas as vítimas de abuso dentro da Igreja. Pode ainda ser sugestivo daquilo que é necessário fazer na sociedade.

 

 




Rádio Castelo Branco







12/02/25

A cultura portuguesa - Os melhores dos melhores


O processo de desenvolvimento humano, independentemente da nossa vontade, depende também de determinantes culturais e cada um de nós é o resultado do ambiente cultural onde se processou a sua socialização.
Numa comunidade, o processo de socialização, ou de aprendizagem das normas socio-culturais, necessita de adequada socialização dos seus membros, que tenha como resultado a integração da maior parte deles na sociedade. Ou, caso contrário,  haverá o desvio e a anomia.
Trata-se de um processo circular e dinâmico no qual a cultura que recebemos através dos agentes sociais como a família, escola, igreja, empresa, grupo de pertença, etc. levam a criar em cada um de nós motivações, forças e atitudes, autoestima e resiliência, sentimento de segurança ou de abandono, que farão parte da personalidade e que por sua vez vão constituir a base em que se fará a futura socialização dos jovens.

Continuo a ter uma percepção muito positiva do mandato do Presidente Marcelo, contra a opinião generalizada do contrário. Nesse sentido, concordo que: "Nós somos bons, muito bons. Somos os melhores dos melhores". 
O papel que cabe a um Presidente sobre a  autoestima e a (re)motivação dos cidadãos é inestimável para o bem-estar de cada um e para a cultura da comunidade. 
Somos os melhores por aquilo que fazemos, pelos resultados que obtemos, e também pela capacidade crítica dos defeitos e do que, podendo, não fazemos. 

 

Crítica feita sobretudo de humor. Rir das nossas virtudes e defeitos é um bom princípio para sabermos situar-nos no mundo em que vivemos, e não nos tornarmos insuportáveis para os que nos estão próximos...

Ser melhor significa também que se pode ser crítico com total liberdade, sem medo de ser incomodado pelos censores estatais ou informais ou pelos agentes do cancelamento...

Algumas das nossas “elites” não têm esta capacidade. Como, p.ex.,  o despautério de uma esquerda globalista que diz os maiores disparates, sem se rir, da cultura portuguesa.


Felizmente, temos outras vanguardas em que só os melhores têm esta capacidade crítica. De Gil Vicente a Eça de Queirós, de Eduardo Lourenço a Miguel Esteves Cardoso. 

Um Alípio Abranhos do séc. XX pode passar pela Câmara Municipal, Governo ou Parlamento. Temos vindo a divertir-nos com episódios dos passantes por esses sítios de poder sem qualquer noção do sentido de estado ou do ridículo... 

 

As “Aventuras” de Miguel Esteves Cardoso – (1ª parte - As minhas aventuras na República Portuguesa", Independente Demente) mostram como os portugueses têm humor suficiente para se verem ao espelho e serem capazes de sorrir de si próprios e em especial dos políticos que os governam. 

Por exemplo, a “Aventura do sofrer” (p. 42): “Em Portugal  sofre-se muito. Eu sofri muito. Tu já sofreste muito. Só  Deus sabe o que ele já sofreu. De  resto, sofre-se muito neste país. O  próprio país sofre. Sofre só por si com ponto final. E sofre coisas exteriores a si. Sofre  de dúvidas. Sofre quedas. De  escadotes. De  cabelos. Sofre alterações. Sofre cataclismo. Sofre  de sucessivas. Sofre  de chofre. 

Esta afirmação sofre de contra-argumentação.”...

 

 

Até para a semana.

 

 

Rádio Castelo Branco



 



09/10/24

A comunicação social e os abusos


Perante a crise dos abusos sexuais na Igreja, a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) tem respondido assertivamente ao problema, de várias formas. 

Em Portugal, o estudo desta realidade foi entregue  a uma Comissão Independente que concluiu pela existência dos abusos, ao longo de mais de 70 anos, e pela necessidade de agir em várias áreas, como consta do Relatório final elaborado.

A realidade descrita é suficientemente dolorosa para, tout court, se aceitar as conclusões do Relatório.

No entanto, não questionando essa  verdade, certamente que se podem colocar problemas metodológicos e em consequência questionar  algumas conclusões a que a Comissão Independente chegou. (1)

Perante a necessidade de dar continuidade às sinalizações, verificou-se a impossibilidade de identificar muitos casos por falta de dados, tal como de vir a poder efectuar compensações financeiras, sem ter de obrigar a novo processo ainda que com o risco de revitimização.

 

Na sequência da Carta Apostólica Vos estis lux mundi do Papa Francisco, foram criadas as Comissões Diocesanas para proteção de crianças e jovens e pessoas vulneráveis que respondem localmente pela prevenção e protecção das vítimas de abusos.

 

Foi também criado o Grupo VITA que não só continuou  a atender vítimas, a nível nacional, como se tem empenhado na realização de acções de prevenção primária como formação e elaboração de instrumentos de trabalho pedagógicos para a prevenção.

O Grupo VITA criou ainda uma bolsa de psicólogos e psiquiatras, de  todo o país, que têm atendido as vítimas que necessitam de apoio psicológico. Como Bento XVI referiu, "o importante é, primeiro, olhar pelas vítimas e fazer tudo para as ajudar e acompanhar enquanto saram”.

 

A comunicação social informa, investiga e divulga mas também manipula e é manipulada de acordo com interesses mais ou menos expressos ou mais ou menos ocultos.

Seja como for, na complexidade do mundo global, uma grande parte da  luta pela liberdade e liberdade de expressão passa pelo trabalho dos jornalistas e dos media, que não têm trabalho fácil e estão sujeitos a perseguições arriscando a própria vida. (Committee to Protect Journalists)

Por isso, o papel da Comunicação Social é fundamental na investigação de eventuais casos de violência sexual nas instituições da Igreja mas também da sociedade, famílias, escolas, desporto... Por isso mesmo, deve investigar e informar com imparcialidade. 


Bento XVI, em entrevista a Peter Seewald, Luz do mundo - O Papa, a Igreja e os Sinais dos tempos, disse o seguinte sobre o papel da comunicação social: "Não foi possível deixar de reparar que subjacente a este esclarecimento por parte da imprensa, estavam não só a vontade pura de obter a verdade, mas também uma alegria em comprometer e em desacreditar o mais possível a Igreja. Independentemente disso, tem, porém, de ficar sempre claro que, sendo verdade, devemos estar agradecidos por cada  esclarecimento. A verdade, associada ao amor correctamente entendido, é o valor número um. E, por fim, os meios de comunicação social não teriam podido falar como falaram, se na própria Igreja não houvesse o mal. Só porque o mal estava na Igreja é que os outros puderam utilizá-lo contra ela."




Até para a semana.

 

 

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Felícia Cabrita entrevistou várias personalidades (Euclides Dâmaso, Jónatas Machado, Mário Mendes, José Cardoso da Costa) sobre o assunto - "Já não estamos no tempo da Inquisição", Jornal I, 18-3-2023;

23/06/24

“Acredito porque é absurdo”

Tudo não passaria de uma questão fútil e sem sentido, que não me levaria a escrever uma linha sobre o assunto, não fosse o quererem envolver as pessoas numa aceitação tácita de todos os disparates que querem promover. “O que é que isso te incomoda? Cada um faz o que quer, cada um é como quer"; "A ideologia de género é de tal modo absurda que não vale a pena gastar um segundo a falar do assunto"... É verdade que essa é a atitude de muita gente tolerante e tudo isso pode estar bem assim... 

O problema é quando fazem propaganda nas escolas impondo, de forma obrigatória, esta ideologia, contra os direitos das crianças e contra a vontade dos pais. De facto, há milhares de assinaturas de pais de alunos que não querem ver aprovada esta legislação. Falam de “Abuso e perigo”: pais não querem alunos a escolher nome, género e WC.”

Como já vimos, a ideologia de género usa uma linguagem de frases feitas e é feita de irracionalidade. Por isso, interessa-lhes retirar a família, os pais, muitos professores, do assunto, e levar a “mensagem” à escola. Chegar à escola é o objectivo de qualquer propaganda. E as escolas têm vindo a ser inundadas de propaganda quer interesse ou não aos alunos, ou seja, semear o seu pensamento absurdo nas mentes infantis, ainda não suficientemente desenvolvidas, ainda sem capacidade crítica para contestarem essas falsidades.

Mas se é o próprio que deve saber e decidir quem é, não precisa da ajuda dos pais ou dos professores para isso, porque será que precisa destes “formadores” e de sessões de esclarecimento nas escolas? É que, como toda a gente sabe, assim asseguram que não há outras interferências dos pais ou dos professores, e até podem denunciar quem se oponha... Sabem bem que o caminho é envolver-se cada vez mais nos meandros da burocracia do estado, levando a incluir nos currículos esta matéria sem sentido. No meio da igualdade de género, lá vem a ideologia de género. Ora a primeira é para defender e a segunda para contestar.

António Damásio veio reiterar, em “O erro de Descartes”, que nós somos uma unidade corpo-mente e que um não existe sem a outra.
Pois não senhor, agora temos que aceitar que afinal o corpo pode ser separado da mente. Sendo homem, pode-se ser mulher, se se quiser, e vice-versa. Para quem nega a biologia, é interessante ter que aceitar a biologia para o conseguir, através dos bloqueadores da puberdade e de tratamentos hormonais.

Felizmente, cada dia que passa temos mais provas sobre um dos maiores absurdos do nosso tempo: a ideologia de género. Como refere J.-F. Braunstein (A Religião Woke), estes fanáticos não acreditam apesar de ser absurdo, acreditam porque é absurdo. (p. 21) E quem defende posições contrárias à ideologia de género está sujeito a ser censurado, desprestigiado, prejudicado...*

Quero, finalmente, dizer que este assunto devia ser assumido por todos os partidos. E todos os partidos deviam lutar pelos direitos das crianças, inclusive que as deixem viver em paz a sua infância. 
E, se fosse assim, nunca a legislação que foi aprovada no Parlamento, poderia ter lugar numa democracia, livre e racional.

Desejo umas boas férias a todos os pais que me ouvem. E, juntamente com os filhos, aproveitem viver este tempo de maior presença afectiva, depois de um ano de intenso trabalho.
Boas férias!


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* Alguma literatura que tem vindo a ser publicada. Embora não haja tradução em português, pode-se conhecer do que tratam através das sinopses, vídeos, artigos, que estão disponíveis na internet :
- Dora Moutot e Marguerite Stern, Transmania - Enquête sur les dérives de l' idéologie transgenre, (2024); 
- Abigail Shrier, Irreversible Damage - Teenage Girls and the Transgender Craze, (2021);
- Miriam Grossman, Lost in Trans Nation - A Child psiquiatrist's Guide Out of the Madness, (2023);
- Miriam Grossman, You are teaching my Child What? - A Phisician expose the Lies About Sex Education and How They Harm Your Child, (2009);
- Caroline Eliacheff e Celine Masson, La Fabrique de L' Enfant transgenre - Comment protégé les miners d'un scandal sanitaire, (2022);
- Maria Keffler, Detrans, & Detox - Getting Your Child Out of the Gender Cult, (2021)
- Mary Margaret Olohan, True Stories of Escaping the Gender Ideology Cult, (2024)




Rádio Castelo Branco



02/06/24

Activas, proactivas, hiperactivas


A grande maioria das crianças são activas e nascem com competências motoras, cognitivas e emocionais que lhes permitem um desenvolvimento saudável. Esta é a constatação de psicólogos, educadores e pais na relação com as crianças. E sabemos que cada criança procura responder à interação com os adultos e com o meio, explorando tudo o que está à sua volta, primeiro o seu corpo e o da mãe e a pouco e pouco vai explorando tudo o que consegue tocar.

Todos os pais têm experiência do que acontece quando os filhos começam a andar e o que acontece às tomada eléctricas, às gavetas das mesas, às tralhas da casa de banho, em que a curiosidade e a proactividade fazem parte dos comportamentos da criança... enquanto está acordada.
Essa actividade e proactividade são fundamentais para o desenvolvimento da criança. Aliás sabemos que quando estão muito sossegadas é porque se passa alguma coisa.
Segundo Bion há três emoções fundamentais: Amor, ódio e epistemofilia. A criança, e os adultos, querem conhecer o que se passa no ambiente à sua volta.

Acontece que em confronto com as exigências da sociedade, em especial da escola, muitas crianças têm dificuldade em controlar alguns comportamentos motores e não estão facilmente adaptadas às condições e ao currículo que é suposto elas terem na escola. (1)
Acontece até que alguns comportamentos ultrapassam os limites das relações saudáveis com os colegas e com os professores.
Conhecemos casos de violência que não era suposto existirem na escola actual que se supõe ser mais evoluída do que a escola do passado.

De facto, nem sempre assim foi, e, antes, a autoridade e o poder do professor faziam com que as crianças fossem mais controladas. Claro que muito deste controle era um controlo exterior.
Com a "escola para todos", começaram a aparecer mais casos de comportamentos disruptivos.
Alguns podem configurar doenças, embora seja discutível como se chega a alguns diagnósticos como no caso das perturbações psicológicas. (2)
Bem sei que temos critérios para classificação dessas doenças referidos pelo Manual de diagnóstico e estatística de perturbações mentais – DSM - que já vai na 5ª edição. 

A perturbação de hiperactividade com défice de atenção (PHDA) afecta cerca de 5% a 15% das crianças. 
Na Carolina do Norte foram diagnosticados 14% dos rapazes enquanto na Califórnia os casos ficaram nos 7%. (C. Gonzalez, Crescer Juntos, p.144)
Entretanto, muitos especialistas acreditam que a perturbação de hiperactividade é sobrediagnosticada, em grande parte porque os critérios são aplicados de forma imprecisa. 
Ora acontece que muitos destes critérios são avaliados em questionários, como a Escala de Conners, e respondidos por pais e por professores, o que revela um elevado grau de subjectividade nas respostas que são dadas.

Também não é de espantar que a idade da criança seja um factor a considerar. Quanto mais nova a criança mais instabilidade apresenta, ou seja, quanto mais maturação neurológica menos hiperactividade.

Ora se concordarmos que se trata de uma doença, só em casos verdadeiramente excepcionais devia haver medicação. (3) 
Há muito a fazer antes disso: Se as crianças tiverem mais actividade começarão a apresentar menos hiperactividade.

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(1) "... há crianças muito calmas e há crianças muitíssimo irrequietas, difíceis de controlar. Alguns estudos sugerem que uma em cada dez crianças é muito difícil de educar, por irrequietude, mas apenas uma em trinta virá, no futuro, a apresentar hiperactividade." («Crianças pré escolares "supra activas"» Centro Distrital de Desenvolvimento da Criança, Hospital Amato Lusitano)

(2) Sobre «O conceito de "doença" (C. González, Crescer Juntos, p. 145 a p. 151). «O campo da psiquiatria é particularmente propenso ao surgimento de doenças »; «... a hiperactividade é precisamente uma das doenças "inventadas" (ou pelo menos enormemente exageradas)...»

(3) Há opiniões que consideram que a medicação é a primeira opção (idem, p.154). Porém, desde há  muito, se defende o contrário.  Eduardo Sá: "As crianças excessivamente medicadas estão em perigo e deviam ser protegidas pelas comissões (de proteção de crianças e jovens) tal como as outras". (Jornal do Fundão, 12-6-2008)


08/05/24

A ideologia de género

 


A ideologia de género está subjacente à irracionalidade que tem vindo a atingir a vida das pessoas que, de uma forma perturbadora, são afectadas no seu pensamento, na tolerância e respeito que também lhes são devidos. É elementar que haja liberdade para pensar aquilo que são os pontos de vista baseados na ciência e na racionalidade. E que sejam respeitados também os direitos dos pais na educação dos filhos.


Ainda a onda da irracionalidade da ideologia de género não tinha chegado ao ponto em que está na Assembleia da República, já Miriam Grossman psiquiatra de crianças, jovens e adultos, em 2009, tinha começado a alertar os pais para o que estava a ser ensinado na escola sobre educação sexual, no livro: “Você está a ensinar ao meu filho o quê?”

Esta racionalidade, inserida na contestação à teoria/ideologia  de género é também necessária para que os pais possam argumentar contra frases feitas que são autênticas falsidades.

Contra a expressão “nascer num corpo errado”, Miriam Grossman diz que "nenhuma criança nasce no corpo errado". Para ela, "toda a criança nasce no corpo certo". 

Outra falsidade é dizerem que os outros “só têm que respeitar”. Como?

Jean-François Braunstein em A religião woke dedica um capítulo à ideologia de género: "Uma religião contra a realidade - a teoria de género". 

É uma análise da realidade em confronto com a ilusão.
“Poder-se-ia evidentemente dizer que esta entrada num mundo imaginário não incomoda ninguém, mas traz consigo uma série de consequências. “Antes de mais, porque existe um risco, para alguns dos que mergulham nesta ficção, de ficarem presos nela...
Em seguida, porque se está a pedir que cada um de nós, individualmente, e como membros da sociedade participe neste mundo imaginário.
Por fim, ... alguns destes transgéneros são militantes e proselitistas que, não se contentando em eles próprios mudarem de género ou de sexo, se propõem a converter crianças e adolescentes.”

"Esta desrealização do sexo e do corpo, o facto de a aparência física já não contar absolutamente nada para os defensores da teoria de género, manifesta-se em particular em torno da questão dos "pronomes"... A questão do género é assim tão sensível porque conduz, não apenas a uma negação afirmada, descomplexada e conquistadora da realidade, mas também à vontade de que esta ilusão seja partilhada" (p. 85)
Para as crianças, “é uma coação insuportável obrigá-las a ver uma coisa, neste caso um homem, e a dizer que é outra coisa, isto é, uma mulher ou um “não-binário”. Esta obrigação é radicalmente destruidora do testemunho dos sentidos: pressupõe que o real não existe e que existem apenas consciências separadas de qualquer ancoragem física.”
"É isto que não é aceitável impor às nossas crianças e é aqui que a seita dos wokes melhor mostra a sua intenção de destruir o mundo pela raiz." (p. 88)

Outra falsidade que se repete tantas vezes que acaba por ser aprendida e imitada na legislação é "o sexo atribuído à nascença". 
Atribuído à nascença? Nem é atribuído nem é à nascença. “Como se o sexo da criança não pudesse ser determinado antes do nascimento, na ecografia ou mediante uma simples colheita de sangue e um teste genético.” (p. 90)


Até para a semana.

 


 


Rádio Castelo Branco

 






12/04/24

Traumas e resiliência



Com demasiada frequência, vivemos hoje situações traumáticas como acidentes, violações sexuais, actos criminosos, desastres naturais e catástrofes (incêndios, inundações, sismos, furacões), morte violenta de um familiar/amigo, doença grave/internamento hospitalar... Situações como a pandemia e situações de guerra na Ucrânia, Gaza, etc... são situações traumáticas em que populações inteiras estão sujeitas a trauma.
Perante estas violências podemos sentir choque, ameaça, stress, insegurança, humilhação, vergonha, anulação...
Ou seja, dependendo de cada pessoa, estamos, mais uns do que outros, sujeitos a traumas. As consequências do trauma dependem da reacção de cada pessoa e da sua resiliência.

1. Trauma e situações traumáticas 
Segundo a revista digital Psychology today “Trauma significa literalmente ferida, choque ou lesão. Trauma psicológico é a experiência de sofrimento emocional de uma pessoa resultante de um evento que supera a capacidade de digeri-lo emocionalmente. 
O evento precipitante pode ser uma ocorrência única ou uma série de ocorrências percebidas como gravemente prejudiciais ou potencialmente fatais para si mesmo ou para seus entes queridos.“
De facto, trauma corresponde a um registo, físico e mental, às feridas físicas e psicológicas.

2. Subjectividade
Um indivíduo pode passar por essas situações traumáticas, sem, necessariamente, ficar traumatizado. Os traumas não possuem origem no evento traumático em si. Mas Têm originam a partir da resposta psíquica e do sistema nervoso para o acontecimento negativo, tanto no momento em que ocorreu, como na sequência do acontecimento.
O que é ou não traumático é subjectivo e pessoal. Podemos ter experiências semelhantes às de outras pessoas, mas vivê-las e sermos afectados por elas de forma muito diferente. 
Segundo Sofia Teixeira do Observador ("O que é um trauma? Oito perguntas para entender o choque e o stress pós-traumático ", de 13-8-2023), depois de um evento traumático podem acontecer três coisas: 
- A maioria das pessoas, depois de um período de tempo (horas, dias ou semanas) acaba por superar estas experiências sem ficar com sintomas ou sequelas relevantes;
- Outro grupo de pessoas recupera mas não fica com a situação completamente resolvida. Ao longo da vida, em períodos de maior instabilidade emocional, voltam a ter alguns sintomas de sofrimento psicológico, apesar de não terem critérios para um diagnóstico de perturbação mental;
- Por fim, entre 5% a 8% dos atingidos desenvolve doenças mentais na consequência da exposição ao evento traumático. 
Algumas das perturbações que podem ocorrer são a depressão, o luto prolongado, os comportamentos aditivos, os sintomas psicóticos. E uma doença mental em particular: Perturbação de Stress Pós-Traumático (PSPT).

Mas também pode acontecer que haja crescimento pós-traumático, ou seja, pode-se desenvolver um processo em que, depois da vivência de um trauma, a pessoa dá um novo sentido à sua vida. Estas pessoas sentem-se mais maduras, com mais ferramentas para enfrentar a vida, dão menos importância a contrariedades pequenas, mudam as prioridades e, não raras vezes, fazem mudanças positivas, atribuindo essas alterações à experiência intensa e ao sofrimento por que passaram.


Até para a semana.



Rádio Castelo Branco


07/04/24

Em defesa dos direitos da criança


"O que há assim de tão admirável e exemplar na chamada transexualidade para que se pretenda a sua proliferação pelo mundo ocidental e o seu ensino nas escolas portuguesas? Este episódio conta com o testemunho ímpar da jurista Teresa de Melo Ribeiro. Imprescindível." Joana Amaral Dias

23/02/24

Eleições, internet e mentiras


A mentira parece estar na ordem do dia. Daí a necessidade de polígrafos e de programas de fact-checking, em que "caiu" a comunicação social que após uma qualquer informação, vem imediatamente repor a sua verdade à sua audiência... 
Ninguém confia em ninguém. E o que é mais estranho ainda, é que nem sequer podemos confiar em nós porque mentimos a nós próprios e é sempre mais difícil aceitar a verdade quando nos envolve a nós ou a pessoas da nossa família.
Gostamos até de ser enganados pelos mágicos que nos deixam estupefactos quando tiram o coelho da cartola.

Contamos mentiras o tempo todo. Um estudo de 2002 realizado pelo psicólogo Robert Feldman, descobriu que 60% das pessoas mentiram pelo menos uma vez durante uma conversa de 10 minutos, contando em média duas a três mentiras. 

A tendência para mentir está profundamente enraizada na nossa história evolutiva, como acontece com outros primatas.

As crianças adquirem esse comportamento de prever o pensamento da outra pessoa entre as idades de dois e cinco anos, e isso é visto como um marco no desenvolvimento cognitivo (teoria da mente).

 

Muitas mentiras são triviais e cordiais. As mentiras do quotidiano ou pelo menos as falsidades fazem parte da conversa consumatória que todos usamos e das quais não vem grande mal ao mundo por causa disso, desde mentiras gentis (“estás mais magra!” ou “estás com óptimo aspecto!" ou  "tens um cabelo bonito”) a algumas mentiras que fazem parte das nossas rotinas e na sua maioria são de autoprotecção e inconsequentes (“estou a caminho”, “estou quase a chegar”, “havia um acidente  na estrada”)...

 

Mas há mentiras  sinistras, como acusar falsamente alguém de um crime ou mentir aos investidores, que podem ter consequências devastadoras. 

Acontece também, por exemplo, com a mentira manipuladora na violência doméstica (gaslight). 

 Acontece com golpistas e trafulhas da Internet: com o “Olá mãe, olá pai “ ou que vasculham as contas dos outros ou os roubos de identidade...
A mentira às vezes envolve um currículo inteiro em que se inventam factos que nunca aconteceram ou que não aconteceram com aquela pessoa.

Outras vezes é a omissão de dados e factos nos documentos que se apresentam nas instâncias que controlam e regulam o funcionamento dos políticos nas democracias.


Num tempo como este de eleições nas democracias (1) podemos estar cientes de que circulam (propaganda) todo o tipo de mentiras.
A começar nas promessas enganosas que praticamente todos os candidatos fazem.
E de desmentidos. Aquilo que não era possível fazer antes, passa miraculosamente a fazer parte das obras realizáveis. Não importa onde se vai buscar o dinheiro. A “finite pie” parece ser infinita e tudo é realizável ou passa a ser. Quanto maiores as promessas maior a entropia das explicações.

Mas... o ser humano reage fortemente à desonestidade. A desonestidade coloca o cérebro em estado de alerta intensificado, e esse stress aumenta com a magnitude da mentira. (2)
Por isso, a prazo, a mentira nunca compensa....


Até para a semana.
 

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(1) Já que nas ditaduras  a mentira é a verdade.


(2) Mentir provoca alterações psicofisiológicas: na respiração, nos batimentos cardíacos, começar a suar, a boca fica seca e a voz pode alterar. Alguns desses efeitos são registados no clássico teste do detector de mentiras (polígrafo, máquina da verdade). Ainda assim, pode haver quem minta ao detector de mentiras.





Rádio Castelo Branco





08/11/23

O que é uma mulher




1. O jornalista Matt Walsh entrevistou pessoas por todo o mundo, para saber o que é uma mulher e o resultado pode ser visto no Youtube, no Documentário crítico sobre o género. O que é ser uma mulher? 

A entrevista também conta com  a opinião de Miriam Grossman, psiquiatra, e Jordan Peterson, psicólogo, que se atêm à realidade e desmontam opiniões e práticas discutíveis... 

Há quem ache que uma mulher é quem se identifica com uma mulher mas não sabe o que é essa pessoa com quem se identifica.

Matt Walsh vai para casa conforme J. Peterson lhe recomenda e pergunta à sua mulher: o que é uma mulher? A resposta: É um humano adulto fêmea.


2. Nunca me interessou o concurso das misses e não era agora que isso me ia interessar. Mas não deixa de ser curioso ser  um dos temas de momento.

Miguel Sousa Tavares com José Alberto Carvalho estão a ser trucidados nas redes sociais sobre a posição que tomaram no comentário semanal.

Também Joana Amaral Dias foi chamada de transfóbica  e até se põe em dúvida a sua formação académica ... 

O que é que está errado no que disse JAD? O que é uma mulher ? O concurso das misses é a  eleição de uma mulher? Ou de alguém que se identifica com uma mulher? Ou as duas coisas? Então digam à gente que é assim.


3. Aprendi na universidade que o ser humano era bio- psico-social, e, fora da universidade, que também era cultural e espiritual. É isto que nos faz como somos, ou dito de outro modo, são os genes e os memes. J. L. Pio Abreu explica isso em quem nos faz como somos. 

Estes são os factores que moldam a nossa personalidade. Para compreendermos uma pessoa temos que levar em conta todos eles. O que não é fácil.

Negar a biologia não me parece que tenha sentido se nos colocarmos numa posição racional. Cada um pode pensar que é aquilo que entende. Não será por isso que a realidade deixa de ser o que é, nem a genética se altera por grande que seja a minha vontade de ser outra coisa mesmo que seja outra coisa socialmente aceite.

O que não é aceitável é que haja vantagens ou desvantagens, visíveis ou invisíveis, à partida,  de alguém, seja em que situação for, para quem disputa um concurso ou um lugar ou um emprego.


4. Leio A Religião Woke, de Jean-François Braunstein, e fico estarrecido. Se o problema teve origem nas universidades ele hoje está por todo o lado. E  isso diz respeito a cada um de nós. Temos o direito de não concordarmos com o wokismo e o dever de dizer não. Nas famílias e nas escolas.

5. O senhor ministro da educação (João Costa, XXIII Governo Constitucional) acha que as crianças não são propriedade dos pais e que o estado lhes dá a educação que entender. Está enganado.

Há muito que aprendi com Khalil Gibran que os “Teus filhos não são teus filhos”. Mas se não são propriedade dos pais muito menos  são propriedade do estado. 

E o que também sei é que os filhos são da responsabilidade dos pais, pelo menos até aos 18 anos. E essa capacidade e responsabilidade o sr. ministro da educação não lhes pode tirar.

 

Até para a semana.

 



Rádio Castelo Branco






20/09/23

Erros que os professores não cometem com os seus filhos


Deixem-me fazer uma breve nota sobre a minha participação neste programa de “Opinão” da Rádio Castelo Branco (RACAB). Em 2007, iniciei esta rubrica de colaboração. Há, portanto, 16 anos. Vamos continuar a falar de psicologia, de pedagogia ou simplesmente de assuntos do quotidiano vistos numa perspectiva psicológica ou educativa ...

No mês de Setembro é o regresso à escola. É nesta altura que muitas questões se colocam sobre os papéis da família, dos professores e dos alunos e sobre o relacionamento entre família e escola. 
“Os pais e os professores lutam pelo mesmo sonho: tornar seus filhos e alunos felizes, saudáveis e sábios. Mas jamais estiveram tão perdidos na árdua tarefa de educar.” (Augusto Cury, Pais brilhantes, Professores fascinantes)
O pais e os professores... Provavelmente, porque também se preocupam cada vez mais com a educação dos filhos e alunos e também porque a colaboração entre a escola e a família se afigura cada vez mais como uma necessidade para melhorar os resultados do desenvolvimento e aprendizagens dos alunos. *

Foram perguntar a alguns professores que também têm filhos alunos que erros não cometeriam com os próprios filhos depois de terem trabalhado como professores.** Se em casa de ferreiro espeto de pau, como diz o ditado, será que podemos ver a sua opinião como uma referência para melhorar esse relacionamento? Estou em crer que sim.

1. A superprotecção e desresponsabilização da criança
Não ser um pai ou uma mãe helicóptero pairando sobre os filhos à espera de intervir sempre que sentirem necessidade. “É claro que, quando as crianças são pequenas, precisam de mais envolvimento dos pais, mas o objetivo é que os pais – e os professores – atribuam cada vez mais responsabilidades aos alunos à medida que vão crescendo”.

2. Opor-se sistematicamente ao professor
Trata-se aqui de um problema de modelagem. Podemos ter uma opinião desfavorável de um professor ou até estarmos zangados com um professor, mas o seu filho nunca deveria saber exatamente como a mãe ou o pai se sente nem envolver o filho na questão. 
Se desrespeitar um professor, é provável que seu filho o imite. 
Infelizmente sabemos como este comportamento é frequente nas nossas escolas.

3. Não se envolver e não apoiar os filhos
Ao contrário do que fazem os pais helicóptero, é importante responsabilizar as crianças, fazê-las ganhar autonomia e confiar nos professores. No entanto, continua a ser essencial o forte apoio dos pais, ou seja, não perder o interesse, não relaxar, se surgirem dificuldades nas aprendizagens tentar entender como fazê-las melhorar.

4. Fazer promessas vazias e falsas
Conhecemos a alegria e o entusiasmo de alguns dos alunos ao falar sobre um evento especial prometido por seus pais mas também sabemos da decepção quando não cumprem as promessas. Este comportamento repetido leva à desconfiança dos pais e ao descrédito nas suas promessas.

5. Outro erro é os filhos não acompanharem a família quando os pais têm alguns dias de férias, a menos que de todo seja impossível. Estes dias de faltas à escola são recuperáveis... e a experiência e o tempo com a família são muito mais importantes.

Até para a semana. 


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* E é ainda por isso que não faz sentido continuar a haver quem ache que a família educa e a escola ensina. Como tenho escrito, há muitas áreas do currículo em que deve haver colaboração, ou seja, em que há aspectos específicos da responsabilidade dos pais ou dos professores mas também aspectos comuns: o que se pode fazer em casa é completar o que faz a escola e, noutros casos, a escola complementa o que se faz na família.


 
 
Rádio Castelo Branco


 

28/07/23

Os sonhos dos jovens



 

Acontece por estes dias a Jornada Mundial da Juventude (JMJ), não só em Lisboa mas por todo o país mesmo nas aldeias mais recônditas. 

Conforme refere a Organização da Jornada, a “Jornada Mundial da Juventude (JMJ) é um encontro dos jovens de todo o mundo com o Papa. É, simultaneamente, uma peregrinação, uma festa da juventude, uma expressão da Igreja universal e um momento forte de evangelização do mundo juvenil. Apresenta-se como um convite a uma geração determinada em construir um mundo mais justo e solidário. Com uma identidade claramente católica, é aberta a todos, quer estejam mais próximos ou mais distantes da Igreja.”


Há 37 anos (1986) realizou-se a primeira JMJ. Os adultos de hoje foram os jovens dessa Jornada. Entretanto, aconteceram grandes mudanças principalmente a nível da comunicação. Para o pior e para o melhor. Será que motivação idêntica caracteriza os jovens dessa altura e os de hoje? O que é ser jovem em 2023? O que mudou e se mantem nos sonhos dos jovens? 

Como nesse tempo, os jovens estão perante opções de vida fundamentais, hoje ainda mais difíceis de tomar do que antes. As armadilhas em que tropeçam são muitas e oscilam entre as falinhas mansas de que a felicidade está ao virar da esquina e as profecias climáticas, culpando tudo e todos e negando-lhes o futuro, entre o facilitismo na educação em que deixa de haver exame a matemática num curso de ciências e a ideologia de género dizendo-lhes que eles podem ser aquilo que quiserem, e a incultura woke que lhes proíbe as suas raízes culturais e pratica o cancelamento, a higienização, a censura, a proibição de livros e o proselitismo.


Não sabemos muito bem o que é a juventude e o que são os jovens. A “juventude” é segundo a ONU uma categoria fluida e mutável. Ser jovem pode variar muito em todo o mundo. O critério etário não é preciso, se "jovens" são pessoas entre 15 e 24 anos, por outro lado também define criança até aos 18 anos. Por vezes considera-se a juventude até aos 29/30 anos... 

Segundo a ONU os jovens manifestam a imaginação, a criatividade e a energia que são vitais para o desenvolvimento contínuo das sociedades. 


Seja como for, aquilo que continua a ser importante, antes e agora, é que os jovens sejam capazes de atingir estádios de desenvolvimento cognitivo e moral (estádio das operações formais e estádio pós-convencional) que lhes permitam ter capacidade para determinar o certo e o errado, com base em parâmetros sociais democraticamente pré-estabelecidos, compreender que as leis são como contratos sociais e não imposições rígidas e imutáveis feitas seja por quem for, políticos, influencers, gurus, wokistas, e ainda ter a capacidade de resistir à arregimentação e às investidas do proselitismo.

Se a JMJ contribuir para o desenvolvimento da autonomia dos jovens de forma a permitir que emocional e racionalmente se tornem pessoas dirigidas por princípios éticos universais, a JMJ terá valido a pena. Os sonhos dos jovens serão realizados se esta sólida formação moral estiver nos seus objectivos.

 

 



21/04/23

Abril - mês da prevenção dos maus-tratos





Abril é o mês da prevenção dos maus-tratos na infância. Em 1989, uma mulher norte americana, Bonnie Finney, amarrou uma fita azul na antena do carro, em homenagem ao seu neto, vítima mortal de maus-tratos infligidos pela mãe e pelo namorado.
O azul, que simboliza a cor das lesões, servir-lhe-ia como uma imagem constante na sua luta na proteção das crianças contra os maus-tratos.
Esta campanha, que começou como uma homenagem desta avó aos netos, generalizou-se e, ficou como memória daquelas crianças que morreram ou são vítimas de maus-tratos e também como forma de apoiar as famílias e fortalecer as comunidades, nos esforços necessários para prevenir os maus-tratos á infância.

Entre nós, a iniciativa da criação das comissões de protecção das crianças e jovens foi das medidas mais positivas e bonitas que se fizeram. 
A articulação entre os vários serviços dedicados à protecção das crianças daí resultante, foi uma espécie de ovo de Colombo em que estes serviços começaram a trabalhar em cooperação e articulação para, assim, responderem melhor às necessidades das crianças.
No entanto, os resultados referidos no Relatório da Atividade da Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção de Crianças e Jovens, de 2021, são ainda fonte de muita preocupação.
73241 processos de promoção e protecção, (31143 transitados de 2020 e 42098 iniciados em 2021, destes são novos 33937 e reabertos 8161); Foram comunicadas  45132 situações de perigo, ou seja :
Em primeiro lugar, a violência doméstica (ofensa física neste contexto e a exposição a violência doméstica, representando esta última, 97% do total de situações de perigo comunicadas nesta categoria. 
Segue-se a negligência (exposição a comportamentos que possam comprometer o bem-estar e desenvolvimento da criança (23%) e a falta de supervisão e acompanhamento familiar (22,7%). )
Vêm a seguir, os comportamentos de perigo na infância e juventude - Comportamentos graves antissociais ou/e de indisciplina, com 34%, e o Direito à Educação - de que se destaca o absentismo escolar, com 68%. ).
Seguem-se  o mau-trato físico, mau-trato psicológico, abuso sexual, abandono, e exploração infantil.

Infelizmente, estes números têm vindo a manter-se de ano para ano. O que pode significar várias coisas: maior informação sobre as situações de perigo, mais visibilidade, mais possibilidade em denunciar e sinalizar... mas também a dificuldade de mudar os comportamentos das pessoas e da sociedade.

Sendo esta a perspectiva dos maus tratos onde muito há a fazer, outro tanto está por fazer quanto ao direito ao afecto.
Como diz o slogan da Comissão Nacional: “Serei o que me deres…que seja amor”, de facto, o afecto é um direito fundamental e, se é necessário fazermos a compreensão dos maus-tratos, sem dúvida de enorme importância é a compreensão dos bons-tratos, isto é, aquilo de que uma criança necessita para o seu desenvolvimento.
A Lei  nº 147/99, de 1 de Setembro, que revê o Decreto-Lei n.º 189/91, de 17 de Maio, refere que "está em perigo a criança que não recebe os cuidados ou a afeição adequados à sua idade e situação pessoal" (artº 3º, nº2, c)). Isto é, não é apenas o direito a não ser maltratada mas o direito à não omissão de afecto.

Até para a semana.



Rádio Castelo Branco