30/05/14

As relações adulto criança - sincronia anacrónica

A SIC notícias  transmitiu (22-5-2014)  um documentário sobre as crianças talibés. Impressionante. Se estamos no séc. XXI é porque andamos equivocados.



Carl Honoré tem razão quando diz “nunca foi tão difícil ser criança”. 
Quando nós, por cá, andamos preocupados com a "criança tirana", e é de preocupar, temos que pensar que a dimensão  do fenómeno, que não sei qual é, está longe da vida de escravatura que, nos dias de hoje  muitas crianças em vários lugares do mundo, ainda continuam a ter.
A coexistência destes modos de educação é, sem dúvida, chocante e é necessário ouvir estas crianças que protestam (notícia de 2008).

As relações adulto criança - de Freud a Bowlby


No sec. XIX, o papel da mãe ganha cada vez mais importância, cada vez com mais responsabilidade na educação e na transmissão dos valores morais. A imagem do pai perde prestígio e autoridade passando esta a ser assegurada por outras figuras: o mestre escola, o juiz de menores, a assistente social, o educador, o psiquiatra.
A ideia da criança como um mal, como negação do homem começa a alterar-se a partir da Idade Média....mas só mudará completamente no final do sec. XIX, com a visão de Freud: “ a criança pai do homem”.
A mãe passa a ter objectivos, é a figura central da família: o recém-nascido e a preocupação maternal primária (Winicott).
Emerge o valor simbólico do pai “é pela palavra e não pelo contacto físico que os pais se fazem amar e respeitar pelos filhos” (Françoise Dolto).
File:Amormaterno.png
Anchise Picchi - The mother

No sec. XX, a amamentação decaiu progressivamente na Europa, generalizando-se o biberão e afastando-se a mãe do bebé.
As rotinas nos hospitais e maternidades, proporcionam pouco tempo de contactos entre mãe e recém-nascido.
O bebé ficava deitado várias hora durante o dia criando limitações à comunicação visual e é em regra alimentado com intervalos regulares durante o dia, a temperatura infantil é garantida por meios artificiais de calor.
Isto significa que a estimulação social é num número cada vez mais significativo de casos, repartida por outras pessoas em vários locais, nomeadamente: amas, creches, infantários.
Nos últimos 50 anos do sec. XX surgem um conjunto de investigações que mostram a importância da vinculação e o amor.
“... É precisamente a contingência deste amor, ou ainda a sua fragilidade bio-psico-social que implica a nossa responsabilidade de intervenção” [1]
A partir dos anos 60 surge aquilo que a condição masculina tinha pelo menos historicamente recusado - o amor paternal.
Os papéis sociais de marido e mulher alteraram-se e identificam-se cada vez mais.
Recomenda-se a amamentação sistemática e precoce....

Modos de relações pais filhos - evolução das investigações no sec. XX
(baseado em DeMause e L. Kanner)
Modos
Época
Evolução da investigação e respostas






Socializante
1900-1910

Instrução
Psicometria - trabalhos de Binet
Freud- tendências dinâmicas em Psiquiatria
Beers- movimentos de higiene mental
1910-1920
Criação de organismos comunitários
São abertos os primeiros centros de  reeducação para delinquentes
Lares para crianças
Escolas especiais
1920-1930
Acção sobre quadro familiar e escolar
Centros de apoio infantil (médicos, psicólogos, assistentes sociais)
Métodos educativos apropriados, ultrapassando o conceito de atraso intelectual
Organizam-se os primeiros grupos de pais de alunos
1930-1940
Trabalho com crianças
Generalização dos métodos psicoterápicos (terapia pelo jogo...)



Cooperante
1958
Bowlby
Publica o trabalho “ The nature of the child’s tie to his mother” e utiliza pela primeira vez a expressão Vinculação como impulso primário, de natureza instintiva, esclarecendo que o comportamento instintivo não é herdado o que é herdado é o potencial para desenvolver sistemas comportamentais.
1959
Harlow
Ligação precoce (“A natureza do amor”)
1969
M. Ainsworth
e M. Main  
A vinculação segura.

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[1] Gomes-Pedro, J - A criança e a família, Cadernos de Curso Pós-básico, nº 10, Escola de Educadores de Infância, 1988, pag. 20.

As relações adulto criança - perspectiva histórica da infância


Ph. Ariès defende que a criança nas primeiras idades era feliz porque tinha liberdade de se misturar com todas as classes e todos os grupos etários.
Na Idade Moderna foi inventada uma condição especial conhecida pelo nome da infância. Daí resultou um conceito tirânico da família que privou as crianças da liberdade que gozavam anteriormente: nasceram os castigos, as práticas punitivas
Baseia-se no facto de que a Arte Medieval “até cerca do sec. XII não conhecia a infância, nem tentava retratá-la, uma vez que os artistas eram incapazes de representar uma criança excepto como um homem em escala reduzida”. [1]
Para Lloyd DeMause este processo terá sido diferente:
“A história da infância é um pesadelo do qual só recentemente começámos a acordar."
Descreve 6 modos de relação pais-filhos ao longo da história (Aspecto Diacrónico).

Image-Evolution of psychogenic modes.png



Estes modos eram a “norma” dessa época, isto é, aceites pela sociedade dessa época (embora essas práticas ainda existam hoje, elas são excepcionais e não aceites pela sociedade)
Baseia-se na teoria psicogenética da história, isto é, “ a força central da mudança na história não é nem a tecnologia, nem a economia, mas as mudanças na personalidade ocorrendo por causa de sucessivas gerações de relações progenitores-crianças”.

Podemos resumir a perspectiva diacrónica na tabela seguinte:
MODO
ÉPOCA
CARACTERÍSTICAS
Infanticida
Da antiguidade ao sec. IV d.C
Simbolizada pelo mito de Medeia.
“Sacrifício” que remonta a Abraão.
A prática atingia mais os filhos ilegítimos e os do sexo feminino. A lei só considerou matar crianças como um crime no ano 374
Abandonante
Prolonga-se até ao sec. XIII
Simbolizado pelo mito de Griselda que abandonou os filhos para provar o amor pelo marido
Práticas: - venda de crianças; - uso como reféns políticos; - garantia sobre dívidas e sua negociação para adopção; - envio para amas de leite
Em 1780, das 21000 crianças nascidas em Paris
17000 enviadas para o campo para serem tratadas por mas de leite
700 - tratadas por amas de leite em casa
700 criadas pelas próprias mães
Ambivalente
Prolonga-se até ao sec. XVIII
Criança encarada como cera ou argila que deve ser “formada” “moldada” de modo a não ser ameaçadora (por projecção)
Proliferam os manuais sobre educação infantil [2]
Influência do empirismo de Locke
Intrusivo
Sec. XVIII
Maior aproximação à criança, tratamento menos brutal e sobretudo passa a estar a cargo da mãe
Socializante
Sec. XIX e 1º metade do sec. XX
A criança passa a ser guiada e ensinada para que se integre na sociedade
Cooperante
2ª metade do sec. XX
A criança tem um papel activo, conhece as suas próprias necessidades ( melhor do que os pais) pelo que ambos os pais devem empatizar com ela

Aspecto Sincrónico
O adulto quando está face a face com uma criança que tem uma necessidade, pode reagir de três modos
Reacção projectiva - em que os conteúdos do inconsciente do adulto são atribuídos à criança
Reacção reversiva - a criança serve de substituto a uma figura importante na vida do adulto, o que leva geralmente a comportamento agressivo.
Reacção empática - o adulto regressa ao nível da necessidade da criança e identifica-se com ela sem lhe misturar as suas próprias projecções. Só deste modo a criança pode ser ajudada
As duas primeiras foram coexistindo ao longo do passado dando origem ao conceito de “dupla imagem” (DeMause) - a criança é vista ao mesmo tempo como má e adorável. A última seria muito recente.
Em suma, cada geração de pais, através do processo de regressão à idade psíquica dos filhos, tem uma segunda oportunidade de enfrentar melhor as suas ansiedades; daí resulta uma diminuição progressiva da distância adulto-criança e uma diminuição das reacções projectivas e regressiva, pelo que vai havendo uma tendência para a melhoria do tratamento infantil com tendência para a empatia.

Critica às teorias de Ariès e DeMause:
Em relação a Ph. Ariès, embora o conceito de infância na idade moderna seja muito diferente do da idade média, não se pode aceitar que tenha sido inventado na idade moderna.
Não se pode aceitar que os tempos modernos não tenham trazido uma melhoria da relação dos pais para com os filhos bem como dos cuidados dispensados.
Quanto a DeMause podemos referir:
1- A teoria psicogenética da historia não é suficiente para explicar os acontecimentos sociais. Trata-se de uma teoria monocausal da história (semelhante à teoria económica de Marx). Hoje o pensamento moderno tende mais para teorias explicativas multifactoriais dos acontecimentos sociais.
2- Como se explica o que leva a abandonar a reacção projectiva e reversiva e se passe para a empática? Como se explica que o progresso diacrónico dos modos seja diferente de sociedade para sociedade?
3- As referências históricas provêm da literatura anglosaxónica e poucas vão além da antiguidade greco-romana
4- A maioria dos relatos referem-se aos filhos das classes dominantes e às práticas levadas a cabo nessas classes sociais
5- Não esclarece se as práticas chocantes eram de facto modos prevalecentes das relações pais-filhos ou se o "pesadelo" eram apenas formas desviadas de actos praticados por adultos perturbados e que por serem excepcionais ficaram registados por escrito
Mas DeMause "tem apenas razão ao delimitar a tendência geral na História da Humanidade para uma progressiva melhoria das relações pais-filhos e para um diminuição igualmente progressiva, das práticas brutais em relação às crianças. " (pag. 32)
G. Pereira que rejeita o enquadramento teórico que defende DeMause, tenta uma interpretação em bases teóricas diferentes e reorganiza o material fornecido por DeMause.
Partindo de Skinner será possível arquitectar um mundo novo no qual o comportamento é controlado por via do reforço positivo ?
Criar uma criança não é uma tarefa fácil. É muitas vezes fonte de stress para os pais e o controlo do comportamento é feito de forma punitiva.
Depois dos pais são as instituições... que exercem essa actividade punitiva.
Será então que esta tendência tende a ser perpetuada ?
Se aceitarmos a tese de DeMause de que as relações pais filhos são menos brutais e mais humanas temos que concordar que há outros factores exteriores: sociais, culturais, económicos, científicos:
- Progressos da biologia e da medicina, na alimentação: evitar a administração de álcool, etc. para controlar as crianças.
- Factores sócio culturais: a partir da revolução cristã a criança é vista de outra maneira.
- A ignorância a par da miséria que coexiste com a superstição e submissão a práticas mágicas.
- A ascensão sócio-económica que pode trazer melhoria para a educação dos filhos mas muitas vezes não é apenas assim, como o provam a prática de amas e empregadas domésticas.
Como veremos adiante, paulatinamente, foram criadas as condições para uma intervenção mais empática entre pais e filhos: a educação para todos - escola inclusiva, os direitos da criança, a protecção a criança em risco...[3]
Historicamente, tentou-se sempre o controle punitivo dos comportamentos. Para além da punição física como controle dos comportamentos, há a punição psicológica:
Manietar; o enfaixamento; uso de trelas, espartilhos e corpetes; uso de bebidas alcoólicas; embalar freneticamente; disciplina de enrijamento; espancamento (instrumentos de espancamento: régua, ponteiro...); Outras modalidades de castigar: quarto escuro, etc.; aterrorizar a criança para que coma ou adormeça; o problema da indisciplina na escola e as práticas punitivas entre professores e alunos e alunos entre si como as praxes intolerantes dos nossos dias.
Hoje mantêm-se alguma destas práticas mas a sociedade não as tolera e são penalizadas, talvez ainda de forma insuficiente.
Foi longa a evolução nas relações família/sociedade para atingirmos uma forma de encarar a criança que de uma maneira maioritária correspondesse ao modo socializante e cooperante.
Os modos mais frequentes de relações pais-filhos foram o infanticídio, a mortalidade muito elevada, o abandono, eram de algum modo formas de controle da natalidade, sendo práticas comuns.
A obscuridade em que se viveu relativamente à criança, segundo Gomes Pedro, pode ficar a dever-se 
- à elevada mortalidade infantil que tornava absurdo qualquer investimento na criança.
- à correlação da subalternidade da mulher como a tábua rasa em relação à criança, isto é, o poder paternal acompanhado do poder do cônjuge masculino.
Na família medieval, o nascimento da criança decorre em ambiente de festa inquieta devido aos problemas que podem surgir no parto.
A criança voltava a aparecer a partir dos 6/7 anos, sendo colocada na casa de outras pessoas para aí fazerem aprendizagens de tarefas domésticas.
A criança era ainda um adulto em miniatura mas começou a ganhar relevo a representação social do mundo infantil.
Com a escolarização da criança passa a ser educada na escola [4] e não na família mas continua a manifestar-se a indiferença e o abandono juntamente com outras formas de rejeição como a recusa da mãe em aleitar. A alimentação mercenária limitava-se à clientela aristocrática e só no sec. XVIII a entrega dos filhos a amas se alarga a todas as camadas da sociedade urbana.
A partir do sec. XVIII começa a aparecer a convicção de que os cuidados e ternura da mãe eram factores insubstituíveis para a sobrevivência e conforto do bebé:
- passa a ser a mulher a amamentar o seu filho.
- desaparece o modo tradicional de enfaixar o bebé [5] o que permite à mãe brincar agarrar tocar o bebé que por sua vez reage as carícias da mãe.
- higiene cuidada, fraldas, banho passa a ser exigência da nova mãe.
- bom regime alimentar.
- preferência pelo externato.

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[1] Pereira, O. G. e Jesuíno, J. C. - Desenvolvimento psicológico da criança, Moraes Editores, pag. 24
[2] Em Portugal, a obra de Martinho de Mendonça: A educação de um menino nobre.
[3] Também aqui incluímos a luta pela educação , no sentido referido por Milton Schwebel, Educação para quem?, Editora Cultrix, São Paulo. 
[4] Em 1772, o Marquês de Pombal cria, em Portugal, a instrução primária.
[5] Na corte francesa as crianças amarradas deste modo serviam de "bola" nos jogos entre damas. Um irmão de Henrique IV terá morrido vítima de um "acidente deste tipo, referido por Gouveia Pereira

29/05/14

Construir a Europa


Passaram mais umas eleições europeias. Provavelmente por incapacidade minha não (ou)vi praticamente discutir sobre a Europa. Federalistas, europeístas convictos, eurocépticos, europeus críticos, europeus optimistas, europeus pessimistas, antieuropeus... todos ávidos por um lugarzinho no parlamento europeu. Estiveram, aliás, mais interessados em discutir o que se passa na política interna e, nesse sentido, parece que não foi apenas problema meu. O que se seguiu após os resultados, e ainda a procissão vai no adro, veio confirmar que, afinal, havia outras contas internas a ajustar.

O Presidente da República pediu que se discutisse a Europa mas isso também não adiantou. Talvez por isso, o povo tenha ficado mais confuso... mas será que a ideia era esclarecer? 
Ora a Europa deve ser discutida. Somos europeus, não há duvida, por mais "jangadas de pedra" que inventemos.
Vasco Graça Moura escreveu um ensaio sobre A Identidade Cultural Europeia que bem podia ser o pano de fundo para discutir a Europa.
É tanto mais importante quanto sabemos a que levaram as convulsões recentes nos Balcãs, ou que se passam na Ucrânia, actualmente.
“A seguir à segunda guerra mundial desencadeou-se um intenso movimento de reflexão sobre o espírito europeu, a construção europeia, o humanismo, a violência, a guerra, a cultura, o progresso técnico e o progresso moral e tópicos relacionados. A identidade europeia não é nem pode ser um facto imobilizado no tempo. É antes um processo em marcha..."
O erro será, porventura, o convencimento de que a Europa é uma realidade estática e conseguida.
Depois das eleições, e já foi assim anteriormente, ficamos sempre com a sensação de que a maioria dos europeus não quer saber. Há um divórcio entre as elites políticas e os diferentes povos da União Europeia. Talvez, por isso, porque a Europa não é uma realidade construída por cada um, por cada comunidade, por cada país, o divórcio se aprofunde.

Impõe-se por isso a pergunta: “a Europa terá mesmo uma identidade cultural ? Em que sentido se poderá falar de uma comunidade de valores partilhados ?”
“A história da Europa não é linear e também não o é a sua identidade possível". Muitas contradições e conflitos, inquietações e incertezas... Mas, como a Fénix, é necessário renascer das próprias cinzas ou das próprias fraquezas.
Alguns passos dados parece que têm servido mais para afastar os europeus do que para os unir. Será mesmo necessário o federalismo para haver uma união europeia com politicas comuns no campo monetário, económico, social, educativo e cultural ?
O tratado de Lisboa em vez de esbater problemas veio acrescentar alguns, inclusive para Portugal, ao instituir mais desigualdade entre os estados-membros. 
Certamente há-de haver uma forma de articular e cooperar entre os pequenos e grandes países que não seja a fingir, como até agora.
Não vale a pena partir do princípio falso de que os países são iguais. Aliás nunca assim foi desde o início: os países do Benelux precisavam de ter na Alemanha um mercado para os seus produtos, a política agrícola comum foi estabelecida para resolver os problemas da França.
Neste momento as diferenças sociais entre países são enormes, como é o caso da Segurança Social. Basta ver o que acontece com os anos necessários para a reforma, o que se passa com os apoios à maternidade, e em geral a todas as políticas sociais… e o que aí vem com a queda do crescimento demográfico, o envelhecimento progressivo da população e o desemprego.
Não será possível outra política de segurança neste mundo globalizado, com tráfico de armas, de droga e de seres humanos, rever o acordo de Schengen ou encontrar formas de superar os problemas de segurança?
Tem que ser possível dar passos consistentes de forma a aproximar as políticas sociais, etc..
Se não for assim, o que é a identidade cultural europeia ? Como se construirá a identidade cultural europeia?

23/05/14

Teoria da imbecilidade

"A imbecilidade humana não atinge somente aspectos referentes a relacionamentos amorosos, ela está inserida também no ambiente de trabalho." (Gisele Meter) 
Na tipologa de Fernando Savater temos por onde escolher mas talvez o tipo "e) El que quiere con fuerza y ferocidad, en plan bárbaro pero se ha engañado a sí mismo sobre lo que es realidad, se despista enormemente y termina confundiendo la buena vida con aquello que va a hacerle polvo", seja um dos mais frequentes.
Haverá uma tipologia da imbecilidade nos políticos e na política ? Pelos vistos há. O problema é que (quando) nos vemos ao espelho.

15/05/14

Desenvolvimento da comunicação não verbal da criança

Menino curioso, apontando com dedo para cima


“A comunicação entre a criança e o cuidador começa muito antes desta pronunciar a primeira palavra.”Peixoto, V. (2007)

Nos primeiros meses de vida, os comportamentos vocais da criança são interpretados e respondidos de forma contingente pelo cuidador como tendo significado (a criança ainda não tem intenção comunicativa consciente). É através das respostas que o cuidador dá à criança, que os seus comportamentos podem ser usados para regular o comportamento dos outros. Os seus gestos e vocalizações passam de pré-intencionais a intencionais. Só mais tarde, com o aparecimento das primeiras palavras é que surge a comunicação simbólica.
O desenvolvimento pré-linguístico assenta em dois marcos essenciais:
· A mudança da comunicação pré-intencional para a comunicação intencional;
· A mudança da comunicação pré-simbólica para a comunicação simbólica.
Podemos identificar três períodos principais no desenvolvimento da comunicação:
·   A fase perlocucionária;
·   A fase ilocucionária;
·  A fase locucionária.
A fase perlocucionária ocorre desde o nascimento até aos 9 meses de idade, no qual o comportamento da criança afecta as respostas do cuidador. A criança ainda não produz sinais com a intenção consciente de atingir determinado objectivo, nem são dirigidos a um parceiro comunicativo. Nesta fase, são considerados actos não intencionais: a direcção do olhar, a expressão facial e os movimentos corporais.
A fase ilocucionária ocorre por volta dos 9 meses. Consiste na transição para a etapa onde a criança começa a usar gestos e sinais pré-verbais, para comunicar intencionalmente. Esta fase é caracterizada pela ocorrência da capacidade de coordenar a atenção e estabelecer momentos de atenção conjunta. Podemos referir-nos a “comunicação intencional” quando a criança tem consciência que o seu comportamento vai implicar uma reacção no seu interlocutor.
Por fim, na fase locucionária, por volta dos 12/13 meses, a criança inicia a comunicação intencional através de palavras.
Mesmo antes da criança começar a falar, os gestos cumprem uma função comunicativa muito importante na Aquisição e Desenvolvimento da Linguagem.
Os gestos são ações produzidas com a intenção de comunicar, usados pela criança com determinado significado. São usados simultaneamente com estabelecimento de contacto ocular com o adulto e podem ser acompanhados por vocalizações. Após produzir um gesto, a criança faz uma pausa para que o adulto compreenda e responda ao seu acto comunicativo.
O uso de gestos acelera a produção e compreensão de palavras nas fases iniciais de aquisição da linguagem e tem o poder de enriquecer as interacções pais-criança nos processos de comunicação precoce.
Num período mais precoce do desenvolvimento lexical da criança, os gestos são uma modalidade na aquisição de novo vocabulário.
Inicialmente, as palavras e gestos têm um desenvolvimento quase paralelo e têm uma representação equivalente no vocabulário da criança. Só mais tarde é que o papel dos gestos fica subordinado ao das palavras.
Entre os 8 e os 14 meses as crianças começam a exibir comportamentos mais efectivos para estabelecer referência. Começam por desenvolver gestos deíticos que marcam o seu foco de atenção e chamam a atenção do outro.
Entre os 12 e os 14 meses surge o apontar, dar, mostrar e tentar alcançar – momento de transição no desenvolvimento linguístico.
Por volta dos 16 e os 20 meses assistimos a um uso crescente da fala, pelo que a comunicação através dos gestos decresce.

Liliana Lucas
Terapeuta da fala

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Ref. Bibliográfica:
Peixoto, V. (2007). Perturbações da Comunicação – a importância da detecção precoce. Porto: Edições Universidade Fernando Pessoa.

12/05/14

Rousseau ou Dolto ? Talvez Spock.


Um dos argumentos com que justificam o actual comportamento indisciplinado e ou perturbado  das crianças,  parece ser a influência  exercida por alguns pensadores na "filosofia" de educação das famílias e escolas. As ideias de Rousseau e Dolto são das mais criticadas.
Desde logo não se entende porque é que umas crianças são indisciplinadas e outras têm bom comportamento dadas as circunstâncias dessa filosofia ser a mesma para umas e para outras. Umas apanham o "vírus" e outras não.  
Outro aspecto interessante, verdadeiramente espantoso, é saber como a influência de alguns destes pensadores se faz sentir nos mais diversos países. Em França, Françoise Dolto poderia ter alguma influência na atitude permissiva parental nos comportamentos desajustados dos filhos.  Mas, em Portugal, quem conhece Dolto?

Ora os problemas da escola são transversais a um grande número de países, onde as crianças apresentam os mesmos comportamentos que as crianças francesas. Os problemas escolares e as queixas sobre indisciplina são idênticos.
la cause des enfants
A sala de aula apresenta os mesmos problemas que em Portugal, nos EU ou em França. O fenómeno das semelhanças educativas e das diferentes consequências comportamentais não é um exclusivo de cada país. Também com diferenças educativas podemos chegar a resultados semelhantes. 

Em Portugal tem havido a moda anti-rousseauniana. "Os filhos de Rousseau" originou alguma polémica entre M. Filomena Mónica e Valter Lemos.  "As crianças nascem boas e a sociedade é que as faz más" e a partir daqui toda a educação ficou inquinada. Sabemos que os comportamentos são multifactoriais. Mas uma frase exagerada ou mesmo errada não é apresentada sem críticas. É claro que a visão educativa de Rousseau é muito mais do que este cliché.
A crítica que Didier Pleux, ("De l'enfant roi à l'enfant tyran"/"Da criança-rei à criança tirana") faz ao Doltoísmo por ser ele o responsável pela educação permissiva ou pela perigosidade educativa das suas ideias torna o debate interessante. Em contrapartida, tem outra visão de Rousseau que é referenciado inúmeras vezes no seu livro. 

Por vezes, também se apresenta a escola da permissividade a partir do livro de Benjamin Spock (Meu Filho, Meu Tesouro) como responsável por uma geração de crianças mimadas, indisciplinadas e acima de tudo porque disse que não se devia bater nas crianças.
Em "Um mundo melhor para os nossos filhos", B. S. ensaia, sem sucesso, o desmentido,   "O rótulo da permissividade":
"... muitos pais abordam-me nas ruas ou nos aeroportos para me agradeceram por tê-los ajudado a criar crianças óptimas e frequentemente acrescentam «Não vejo qualquer espécie de "satisfação instantânea" no Meu Filho, Meu Tesouro. » Respondo-lhes que estão certos.
Sempre aconselhei os pais a tratarem os filhos com uma autoridade firme e clara e a pedirem cooperação e boas maneiras em troca. Por outro lado, recebi também cartas de mães conservadoras dizendo, efectivamente: «Graças a Deus que nunca usei o seu livro horrível.
É por isso que os meus filhos tomam banho, usam roupa lavada e tiram boas notas na escola.»
Uma vez que recebi a primeira acusação vinte e dois anos depois de Meu Filho, Meu Tesouro ter sido pela primeira vez publicado - e uma vez que aqueles que escrevem a respeito dos efeitos nefastos do livro me asseguram invariavelmente que nunca o usaram -, penso que é óbvio que a hostilidade é em relação às minhas opiniões políticas e não aos conselhos sobre puericultura. E embora eu ande a negar essa acusação há vinte e cinco anos, uma das primeiras perguntas que muitos jornalistas e entrevistadores me fazem é «Doutor Spock, ainda  é permissivo?» Nunca conseguimos ver-nos completamente livres de uma acusação falsa."(pag.29)


10/05/14

Os direitos da criança


Os direitos da criança têm vindo a merecer uma cuidada atenção pelas instituições nacionais e internacionais, traduzida na  Declaração universal dos direitos da criança de 1959 ou na Convenção sobre os direitos da criança que foi aprovada pelas Nações Unidas em 1989 e ratificada por Portugal em 1990.

Temos além disso a legislação dos diversos países que no caso de Portugal se traduz em várias leis como a Lei de protecção de crianças e jovens em perigo (Lei 147/99, de 1/9).

Mas tudo isso ainda poderá ser pouco se não tiver tradução na consciência e vontade dos homens. É, por isso, lamentável assistirmos, no sec. XXI, à obediência cega a ditames de interesses pessoais, pseudo-religiosos e pseudo-culturais.
Vem isto a propósito das noticias sobre raptos e sequestros de crianças, como aconteceu recentemente na Nigéria
O sequestro é repugnante ainda mais quando se trata de crianças. Normalmente é usado para outros crimes como a venda de pessoas, a escravidão, o abuso sexual.
O sequestro significa sofrimento físico mas também sofrimento emocional e psicológico. E, normalmente, mantém-se para toda a vida ou uma boa parte da vida. É o caso da Perturbação de Stress Pós-Traumático (DSM IV) - um evento traumático que poderá desencadear perturbações nas pessoas na medida em que a pessoa vivenciou, testemunhou ou foi confrontada com um ou mais eventos que envolvem morte ou  ferimento grave, reais ou ameaçadores, ou uma ameaça à própria integridade física  ou de outros. 
Outras perturbações psicológicas, mesmo que temporárias, impedem que as pessoas voltem a ter a mesma qualidade de vida que tinham antes da situação traumática.
O tráfico de seres humanos (TSH) "é uma realidade com um impacto económico comparável ao do tráfico de armas e de droga. Estima-se que por ano sejam traficadas milhões de pessoas em todo o mundo.
Portugal não está imune a este fenómeno que acarreta consigo um conjunto de causas e consequências problemáticas: o crime organizado, a exploração sexual e laboral, as assimetrias endémicas entre os países mais desenvolvidos e os mais carenciados, questões de género e de direitos humanos, quebra de suportes familiares e comunitários.
Para lá da reconhecida abrangência do fenómeno, são identificados grupos que apresentam uma maior vulnerabilidade à situação de tráfico tais como as mulheres e as crianças.
No caso das crianças, o fenómeno constitui o mais vil atentado ao direito a crescer livre e num ambiente protegido e acolhedor."

Há situações que estão mais perto de nós e são mais domésticas. Segundo o Instituto de Apoio à Criança (IAC), em 2010, dos cem apelos recebidos, fugas e raptos parentais foram os casos mais comuns. A ausência de fronteiras no espaço Schengen facilitou os raptos.

Muitas vezes o rapto de crianças toma o nome de crianças desaparecidas. O problema das crianças desaparecidas deveria ter um impacto maior na sociedade de forma a que se tornasse intolerável para todos as pessoas.
Mais uma vez o mundo reagiu tarde. São necessários sistemas de alerta eficazes. Não sei se como, por ex., o Plano de Alerta AMBER (America's Missing: Broadcast Emergency Response) ou outros * de forma a tornar a vida difícil ou impossível àqueles que ganham com o sofrimento infantil.
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* Em Portugal, em 2007, foi criada a Associação Portuguesa de Crianças Desaparecidas (APDC)


05/05/14

"As estações domésticas"

                                                  a jardineira

                                                  não sei como ela sabe o que está certo
                                                  para o jardim nas estações do ano,
                                                  e compra bolbos numa inglesa, perto
                                                  de nossa casa, e vai fazendo o plano

                                                  de caminhos, canteiros, trepadeiras
                                                  e arbustos que esqueci, tufos de hortênsias,
                                                  renques de rosas, fúcsias, japoneiras,
                                                  vermelho, branco, azul, lilás, violências

                                                  da túlipa amarela. e nesse reino,
                                                  de sapatos de ténis, e de luvas,
                                                  chapéu de palha e fato gris de treino,
                                                  vai governando aos ventos, sóis e chuvas,

                                                  e põe junto às sementes, pá na mão,
                                                  ao pé da expectativa o coração. 


                                                  Vasco Graça Moura, 
                                                   Poesia 1963-1995Círculo de Leitores




01/05/14

Crianças medicadas



1. O trabalho com crianças no período pré-operatório, é sempre surpreendente e em geral são sessões divertidas onde as características das crianças deste estádio de desenvolvimento são evidenciadas facilmente. É uma verdadeira aventura pedagógica, a criatividade é soberana e a realidade é o que menos importa.
Integro-me neste espírito e espero que aconteçam as mais inesperadas situações...
A minha vontade de querer voltar ao trabalho de avaliação psicológica ou de terapia é sistematicamente "boicotada" e confrontada com a vontade de M. não querer trabalhar. Ler? É melhor inventar uma palavra ou o resto da palavra, e nem sequer é necessário olhar para o texto...
De repente, M. diz-me: Queres ver a pirueta que eu faço quando me sinto feliz ?
Quero, claro... e lembro-me da história de Gillian Lynne...
M. tem nível cognitivo dentro da média, linguagem sem problemas, maturidade psicomotora ... parece que está tudo bem na vida desta criança. Mas não está bem na escola e, na sua turma, apresenta as maiores dificuldades de adaptação na transição do Jardim de infância para o 1º ciclo.
Houve alguns sinais de instabilidade no Jardim de infância, nada de especial para uma criança nesta idade mas a escola tem exigências de aprendizagem, comportamentais e emocionais que já não se coadunam com estas características.
O calvário destes pais começa nesta altura. Estas crianças não vão conseguir acompanhar os colegas.  Os pais desdobram-se em consultas a especialistas e os diagnósticos, coincidentes ou não, nunca são completamente satisfatórios e, pior ainda, não têm a consequente e eficaz intervenção.
O diagnóstico costuma ser Perturbação de hiperactividade com défice de atenção (PHDA) e a intervenção é feita habitualmente com a medicação destas crianças. O problema é quando a medicação não traz melhorias, como é muitas vezes o caso, o tempo passa e não há progressos na leitura, escrita e comportamento.
A medicação pode ser  necessária. No entanto, em muitos casos, exagerada, e, provavelmente, em detrimento da intervenção psicológica e educativa.

2. A seguir aos EU, Portugal era (2008) o país que mais medicava as crianças (Isabel Stilwell, Destak).
“... Portugal comanda o ranking dos países da União Europeia com maior taxa de consumo de psicofármacos por crianças e adolescentes, o que é obviamente triste”, lamenta ainda Pedro Strecht, considerando que o uso abusivo desta medicação acaba por ser sintomático de uma “doença” generalizada: “A nossa sociedade procura cada vez mais pílulas para tudo: escola, felicidade, amor...”, diz, mas o que importa perguntar – remata – “é se estamos a calar sintomas ou a tratar pessoas...”.
Em Portugal, de facto,   as vendas de medicamentos para crianças hiperactivas e com défice de atenção aumentaram 78%, em 5 anos. Os números sugerem que há cada vez mais crianças e jovens medicados para a concentração.
Marilyn Wedge, autora de Pills are not for preschoolers: A drug-free approach for troubled kids, interroga: Nos EU pelo menos 9% das crianças em idade escolar foram diagnosticadas com PHDA, e tomam medicamentos. Na França, a percentagem de crianças diagnosticadas e medicadas para a PHDA é inferior a 5 % .
Em 2009, num estudo elaborado numa escola básica, a partir da informação dos professores, em 824 alunos, havia 21 alunos (2,35%) diagnosticados e medicados para a hiperactividade.
É interessante verificar que se trata principalmente de um problema que ocorre no 1º ciclo, diminuindo à medida que os alunos se vão desenvolvendo.
Curiosamente, esta é também a tendência da evolução da distracção. 
Sabemos que a atenção depende da mielinização das estruturas nervosas e, neste caso, isso se faz tardiamente.
Dizer que uma criança tem falta de atenção é, em geral, ocioso. É o sintoma comum a quase todos os alunos, principalmente os que apresentam baixo rendimento escolar.

3. É necessário que haja mais investimento nas intervenções psicoterapêuticas com vista à modificação comportamental. 
A intervenção psicopedagógica alternativa à medicação poderá passar por adaptações curriculares mais ou menos profundas de acordo com a dimensão do problema. Alguns exemplos:
Adaptações no ambiente de aprendizagem (p.ex., proporcionar um local na sala de aula onde a criança possa trabalhar isoladamente, se necessário, estabelecer regras bem claras e exigir o seu cumprimento …); 
Adaptações para obter a atenção dos alunos (p. ex., demonstrar e modelar entusiasmo e excitação sobre a lição que se seguirá, usar o contacto visual, fazer com que os alunos olhem para o professor quando este se lhes dirige …), 
Adaptações no ritmo de trabalho (p.ex., ajustar o ritmo de aula à capacidade de compreensão do aluno, alternar actividades paradas com actividades mais activas …); 
Adaptações nos métodos de ensino (p. ex., relacionar a informação nova com a experiência da criança, dividir as tarefas complexas em tarefas mais simples …); 
Adaptações nas estratégias (p.ex., evitar o uso de linguagem abstracta como metáforas ou trocadilhos, usar frases curtas e reduzidas ao essencial do assunto estabelecido …); 
Adaptações para manter os alunos em actividade (p.ex., estabelecer na turma um ambiente mais cooperativo e menos competitivo, ter a certeza de que todos os alunos compreenderam a tarefa que têm que executar antes de os colocar a trabalhar individualmente …), 
Adaptações na avaliação (p.ex., permitir instrumentos de avaliação alternativos: apresentação oral, resposta múltipla, etc., estabelecer, de comum acordo, expectativas realistas quanto aos resultados a alcançar …) 
Adaptações no tratamento de comportamentos inadequados (p.ex., evitar uma linguagem de confronto, remover objectos que possam iniciar um comportamento indesejado …).

4. A intervenção junto da família e sociedade é necessária para mudar os respectivos contextos, rotinas, actividades sociais.
Os estudos têm vindo a mostrar uma ligação entre a exposição aos "ecrãs" (TV, computadores, consolas...) e a falta de atenção.
"Uma criança que consome uma hora de televisão em cada dia terá duas vezes mais riscos de problemas quando estiver na escola primária." Uma criança da escola primária que consome uma hora de televisão por dia terá 50% de risco suplementar de desenvolver um problema de atenção na adolescência, tendo em conta as suas dificuldades de atenção iniciais". (Bruno Harlé, «Les écrans rendent-ils hyperactifs ?», Le Cercle Psy nº 11, pags. 52-55)

Por isso, os pais e educadores devem esperar que os seus filhos, desatentos e (hiper)activos deixem de o ser, se tiverem como intervenção de primeira linha o sue apoio e dedicação.

5. Aprofundar a investigação e descobrir as melhores formas de intervenção parece ser o melhor caminho para se poder ajudar as crianças com défice de atenção e hiperactividade.
A partir das pesquisas de Michael Posner sobre a atenção, é discutível tratar o défice de atenção como perturbação. A investigação sobre o que é atenção também mostra a desadequação da designação PHDA para todos os casos e há vários factores envolvidos em proporções diversas nesses casos. (B. Harlé, idem)

Por outro lado, a  atenção é fundamental para o sucesso escolar  e o sucesso em diversas situações da vida. D. Goleman , em “Foco - A atenção e seu papel fundamental para o sucesso",  considera a atenção “um recurso mental subestimado e pouco percebido” nas relações sociais.