29/09/15

Marshmallow, austeridade e eleições


No final dos anos 60 e início dos anos 70, foi realizada uma experiência famosa, em psicologia, conhecida como Experiência Marshmallow de Stanford, liderada pelo psicólogo Walter Mischel, da Universidade de Stanford. Pretendia-se saber como era a capacidade das crianças se controlarem e de resistirem às suas invejas. 
Resumidamente, a experiência consistia no seguinte: Era oferecido às crianças da experiência, com média de idades de 4 anos e meio, a escolha entre uma recompensa (normalmente um marshmallow) entregue imediatamente ou duas recompensas (dois marsmalows) se esperassem até que o investigador voltasse cerca de 15 minutos depois.
A verdade é que algumas crianças eram capazes de esperar esse tempo para receberem a segunda recompensa.
Em estudos de seguimento (follow-up) os investigadores descobriram que as crianças que foram capazes de esperar mais tempo pela possível recompensa apresentaram tendência de ter melhor êxito na vida: vistos pelos pais como adolescentes mais competentes, obtinham melhores resultados em testes padronizados, e tinham melhor tempo de reacção na realização das tarefas. *

Esta capacidade poderia vir da perspectiva temporal de cada um. As nossas decisões, juízos e comportamentos são fortemente afectados pela nossa maneira de ver o tempo. Esta perspectiva temporal seria construída num processo de representação, havendo uma origem social e cultural desta variável psicológica individual…
A perspectiva temporal passado, presente e futuro da criança que tem capacidade para esperar ou não define tipos de personalidade diferentes. **
Outras pesquisas (Zimbardo) mostraram também que o perfil temporal do indivíduo podia ajudar a fazer boas ou más escolhas na nossa vida.  Uma perspectiva baseada num passado positivo, um forte élan para o futuro e uma ligação para viver o presente, pode ser uma combinação vencedora na nossa vida.

Podemos dizer que na nossa vida colectiva se passa a mesma situação, quando os partidos fazem promessas que se traduzem por recompensas imediatas, as pessoas , dada a sua experiência do passado, não acreditam.
Algumas governações desastrosas e temerárias levaram os respectivos países a programas de resgate dolorosos para alguns sectores da população, principalmente para  a classe média.
Claro que muitos cidadãos perceberam e também ficaram com memória dessa situação. Uma cidadã  grega, numa entrevista de rua, era questionada pela jornalista sobre o que pensava do situação no seu país (novo resgate). A sua resposta foi mais ou menos a de que deviam fazer alguns sacrifícios durante algum tempo para, no futuro, a vida do dia a dia ficar mais equilibrada.
Em particular, em Portugal, as pessoas também perceberam isso: Uma perspectiva de futuro melhor. Basicamente, trata-se de fazer alguns sacrifícios agora para depois os nosso filhos e os nossos netos, como costumamos dizer, poderem ter uma vida melhor ou sem sobressaltos como actualmente.
A passividade que alguns atribuem aos portugueses, devia antes ser vista como a sua grande capacidade de espera em tempos melhores e de entender a vida como uma perspectiva temporal global. E, acima de tudo, significa a sabedoria das pessoas de que é sempre preferível ter  algum tempo de espera agora para poder ter, no futuro, um tempo melhor.
_______________________________
* Foram também encontrados correlatos biológicos: Um estudo de imagens cerebrais de uma amostra de participantes da experiência original de Stanford, realizado quando eles alcançaram a meia idade mostrou diferenças fundamentais entre os que manifestaram alto ou baixo tempo de espera pela recompensa, em duas áreas: o córtex prefrontal (mais ativo nos grandes retardadores) e o striatum ventral (área relacionada a dependência de drogas) quando tentavam controlar suas respostas a sedutoras tentações.

**Morsa, Maxime, "Quelques choses à retenir du temps qui passe", le cercle psy, nº 15, Dec 2014, Jan/Fev 2015, pag. 84-87.

25/09/15

Um mundo melhor: Sinais de esperança

As informações que nos chegam não são de forma a pensarmos que vivemos no melhor dos mundos. E mesmo algumas notícias positivas não nos deixam confortáveis com o que foram as realizações do ser humano até aos nossos dias.
Pelo contrário procuramos saber se não retrocedemos em todas as vertentes da nossa vida. Sendo o declínio aquilo que é mais perceptível não conseguimos ver o mundo com um olhar positivo, temos dificuldade em memorizar o nosso passado: as dificuldades do pós-guerra em que os nossos pais ou avós viveram, esses sim, foram verdadeiramente tempos difíceis.
Também verificamos que a par do progresso material na saúde e na vida social, o crescimento da riqueza no mundo desenvolvido devia ter maiores consequências no bem-estar da população.
As doenças psicológicas, principalmente depressão em pessoas cada vez mais novas, chamam a atenção para as questões das emoções positivas mas também do empenhamento em actividades com significado na conquista do bem-estar, da realização e da felicidade. (Seligman).

Mas se deixarmos um pouco o nosso umbigo e tivermos uma visão mais geral poderemos verificar que há muitos sinais de esperança porque o mundo está efectivamente melhor, como se refere aqui: 26 charts and maps that show the world is getting much, much better by Dylan Matthews (2015). Apenas um breve resumo:
  • A extrema pobreza diminuiu. Houve um declínio enorme da parte da população mundial vivendo com menos de US $1,25 por dia, de 53% em 1981 para 17 %, em 2011. (Alguns especialistas em desenvolvimento consideram que se devia usar um nível de pobreza global de US $ 10-15 por dia). 
  • A fome diminuiu.
  • O trabalho infantil está em declínio.
  • As pessoas nos países desenvolvidos têm mais tempo livre .
  • A parte do rendimento gasto em alimentação diminuiu nos EUA , em 1960 de 17,5 para 9,7 %, em 2007.
  • Nos cuidados de saúde, a expectativa de vida está a crescer - globalmente, a expectativa de vida para homens e mulheres aumentou seis anos de 1990 a 2012, mas os ganhos foram mais altos em países de baixos rendimentos, que viram um aumento de cerca de nove anos para homens e mulheres.
  • A mortalidade infantil está a cair. A taxa de mortalidade infantil em crianças até aos cinco anos no mundo desceu para metade em 25 anos, entre 1990 e 2015. Mas embora os progressos globais tenham sido substanciais, 16 mil crianças continuam a morrer diariamente antes de completarem cinco anos de idade. O número equivale a 11 mortes por minuto. 
  • A morte devida ao parto é mais rara, e caiu 45 % entre 1990 e 2013 (Organização Mundial de Saúde).
  • A maternidade em mães adolescentes caiu nos Estados Unidos.
  • Comportamentos pouco saudáveis como o consumo de tabaco tem vindo a diminuir desde 1955, quando 45% dos americanos fumavam para 21%, em 2014.
  • No capítulo da paz e segurança: A guerra, embora possa não parecer, está em declínio. Taxas de homicídios estão caindo na Europa e nos E.Unidos. Como diz Steven Pinker (2011), acreditamos que o nosso mundo está cheio de terror e guerra, mas nós podemos estar vivendo na era mais pacífica da existência humana. Porque a brutalidade está em declínio e a empatia está em ascensão.
  • Os crimes violentos nos Estados Unidos estão caindo (tal como em Portugal).
  • Houve redução das armas nucleares.
  • Cada vez mais países são democracias.
  • Mais pessoas frequentam a escola durante mais tempo. A literacia está previsivelmente a subir.
  • Nos EU a população dos sem-abrigo diminuiu cerca de 32 %, desde 2007.
Como vemos, há dados objectivos e positivos para pensarmos que o nosso trabalho e o das gerações anteriores não foi em vão.
Mesmo não estando satisfeitos com os resultados, é necessário pensar que está nas nossas mãos contribuir para fazer um mundo melhor, desde logo sendo nós próprios melhores pessoas e depois aqueles que nos estão mais próximos.

Hoje apetece-me ouvir

Lila Downs - La cumbia del mole

Sophie Cruz conseguiu estar com Francisco. "Tengo miedo de que se lleven a mi familia". Os pais foram de Oaxaca, Mexico, para os EUA, onde trabalham, sem "papéis".

23/09/15

Vendavais

Em 2015, o início do Outono em Portugal ocorreu às 08h21 do dia 23 de Setembro.

Quando era pequeno havia uma cantiga assim: O vento de Outono/ tão triste a chorar /percorre campinas/e geme ao passar/vento de Outono/ contigo eu vou/ chora a beleza/ que o tempo levou.
Aparecem os primeiros frios, chuvas e ventos, as folhas das árvores mudam de cor, muitas acabam por cair. No nosso imaginário, vento e vendavais ocupam um lugar preferencial. Músicos e poetas não escapam a esta influência.
Perdoa-me, folha seca, 
não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo, 
e até do amor me perdi.
...
Tu és folha de outono 
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
E vou por este caminho,
certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão...

Cecília Meireles, Canção de Outono

Seja de que estação for, o vento é tema e pretexto para quase tudo o que se passa na nossa vida, paixões, política, o vento fala e o vento cala,  pouco importam as contradições que coloca na nossa vida, sendo ao mesmo tempo destruidor e apaziguador, para uns ele leva para outros traz, para uns tem a resposta para outros não. O vento ameno do Outono é instável e agressivo no Inverno, mas leva os beijos dos amantes, que, mesmo que leve as cantigas, permanece o seu perfume manso, revivendo a saudade, no monte dos vendavais é a nossa vida que se joga, I hated you, I loved you too, podemos pintar com todas as cores do vento, e podemos sempre esperar pelo vento da mudança. Podemos? Que mudança?

Em  "E tudo o vento levou", de Margaret Mitchell nostalgia de uma vida de paz e bem-estar sobre os destroços da guerra de secessão dos EUA, Scarlett O'Hara, à vista de Tara, promete que nunca mais haverá aquela miséria. Um objectivo para uma vida e para um país.

E tudo o vento levou - Tema de Tara

É equivalente a "E nada o vento levou", de Helena Sacadura Cabral, ou seja, "apesar de toda a destruição da guerra, do vendaval das paixões, dos conflitos sociais e pessoais,  nada pode tirar o que verdadeiramente importa na nossa vida. São, aliás, as adversidades que nos fortalecem, aquilo por que se luta e em que se acredita faz parte da nossa existência e marca-nos tanto como os genes que transportamos."

Bob Dylan - Blowing in the wind

The answer my friend is blowing in the wind
The answer is blowing in the wind

Marlene Dietrich - Blowing in the wind

Adriano Correia de Oliveira - Trova do vento que passa

Amália - Trova do vento que passa

"pergunto ao vento que passa 
notícias do meu país
o vento cala a desgraça 
o vento nada me diz"

Blowing Kisses In The Wind, Paula Abdul

"mandando beijos ao vento
Esperando, esperando, esperando
Esperando por você é
É como soprar, soprar beijos"


"A lembrança dos teus beijos
Inda na minh’alma existe,
Como um perfume perdido,
Nas folhas dum livro triste,

Perfume tão esquisito
E de tal suavidade,
Que mesmo desapar’cido
Revive numa saudade!"

Mariza  - Alma de vento

 
Kate Bush  - Monte dos vendavais (Wuthering Heights)

"Heathcliff, sou eu, sou Cathy, voltei p'ra casa
Estou com tanto frio, deixa-me entrar na sua janela
Estou com tanto frio."

Pharrell Williams - Gust of Wind  

Como uma rajada de vento
Tu  me atinges às vezes
Como uma rajada de vento
Empurras-me de vez em quando
Como uma rajada de vento
Lembras-me que há alguém lá em cima
Que move 
O ar que preciso para me fortalecer


Jorge Palma - ser do vento

"como se o vento fosse todo o meu resguardo"

Pocahontas - Colors Of The Wind 

"Já ouviu um lobo uivando para a lua azul
Será que já viu um lince sorrir,
E é capaz de ouvir as vozes da montanha
E com as cores do vento colorir...
E com as cores do vento colorir."

Scorpions - Wind Of Change

"Leve-me à magia do momento
Em uma noite de glória
Onde as crianças do amanhã ficam sonhando
No vento da mudança."


Chopin Etude Op.25 No.11 - winter wind

21/09/15

Crescimento - paraíso perdido

O crescimento tem vindo a ser visto por alguns, gurus da economia, políticos de todos os quadrantes, principalmente os responsáveis pelos programas de ajustamento, pedintes de troicas e pecs, como a panaceia para resolver os nossos problemas (e os de todo o mundo). É o crescimento mágico, paraíso, a solução "milagrosa"...

A solução do crescimento mágico, tornado realidade-pesadelo, entre outros males, tem rebentado com o equilíbrio ecológico, tem imposto um desnivelamento cada vez maior  entre norte e sul, leste e oeste, entre pobreza e riqueza: deslocalização de empresas e consequente desemprego, degradação de ecossistemas, migrações (mediterrâneo, sudoeste asiático), nacionalismos exagerados, guerras...

Por exemplo, o caso do crescimento de Detroit, teve como consequência a insolvência de Detroit. "Veio mostrar como tudo isto é imprevisível e de como tudo se pode desmoronar quando não é sustentável.
O que se passou com Detroit? A cidade que se tornou no século XX o maior centro mundial da indústria automobilística, na década de 1970, entrou em recessão económica, por causa da crescente concorrência de companhias japonesas produtoras de automóveis, e em 18 de Julho de 2013 a cidade declarou bancarrota, tornando-se a maior cidade dos Estados Unidos a declarar bancarrota.
O valor da dívida, adianta por seu lado o New York Times, não é consensual, variando as estimativas "entre os 18 biliões e os 20 biliões de dólares". 

O automóvel tornou-se objecto fetiche de consumo generalizado, o paraíso automóvel, tornou-se um pesadelo individual e social.


Automóvel - paraíso perdido é uma publicação já antiga (tr. port. de 1974), alertava  para "as raízes de um fenómeno que, a nível individual, faz com que a generalidade das pessoas sintam que viver sem ter o direito reconhecido de coduzir um automóvel não é serem cicidadãos totais da sociedade industrial".
Em texto de Ricardo Abramovay, ninguém nega que "a conquista da mobilidade foi um ganho extraordinário, para as pessoas e para a sociedade. As cidades passaram a ser diferentes "e a sua influência exprime-se no próprio desenho das cidades. Entre 1950 e 1960, nada menos que 20 milhões de pessoas passaram a viver nos subúrbios norte-americanos, movendo-se diariamente para o trabalho em carros particulares. Há hoje mais de 1 bilião de veículos motorizados. Seiscentos milhões são automóveis."


"A produção global é de 70 milhões de unidades anuais e tende a crescer. Uma grande empresa petrolífera afirma em suas peças publicitárias: precisamos nos preparar, em 2020, para um mundo com mais de 2 biliões de veículos.
O realismo dessa previsão não a faz menos sinistra. O automóvel particular, ícone da mobilidade durante dois terços do século 20, tornou-se hoje o seu avesso."

Hoje existem mais de um bilião de veículos no mundo, e dentro de vinte anos, o número vai dobrar, em grande parte, consequência da China e do crescimento explosivo da Índia.
Os especialistas de transporte Daniel Sperling e Deborah Gordon explicam como chegamos a este estado, e o que podemos fazer sobre isso. Sperling e Gordon atribuem a culpa directamente à indústria automobilística, às políticas governamentais de visão curta e aos consumidores.
Alguns  autores têm vindo a chamar a atenção para o problema do crescimento sustentável. Em vez disso, os políticos vêem/lêem empobrecimento, e em vez disso os economista do crescimento vituperam a austeridade. Quando passam à prática não têm alternativas: Hollande em França, Tsipras na Grécia nem sequer um compromisso conseguiu até esta data ...

No entanto, a austeridade continua a ser a má da fita.  É assim que vários teóricos, gurus da economia e simpáticos crescimentistas (ver textos de Tavares Moreira no Quarta República) têm defendido a antiausteridade. De facto, são palavras doces para os ouvidos mas que a realidade desmente..

As universidades embandeiram em arco com esses representantes da antiausteridade que têm consigo a salvação. No meu pequeno país, mas grande em generosidade, Paul Krugman recebeu duma assentada, com grande pompa e circunstância, três galardões - Doutoramento Honoris Causa pelas Universidade de Lisboa,Universidade Técnica e Universidade Nova (2012).
"Reafirmou as suas posições de feroz adversário das políticas de austeridade, o que é simpático para os portugueses e nem tanto assim para o governo; mas reafirmou também que os salários deveriam descer entre 20 e 30%, o que inverte a ordem da simpatia. O que vale – e o que ele provavelmente não sabe - é que já não deve faltar muito para atingir esse desiderato. Valha-nos (mas pouco, porque dentro de poucos anos iremos querer muito ter salários como os deles) que também afirmou que Portugal não tem que reduzir os salários para os níveis chineses.
Ficava no ar um certo tom de contradição: como é que se pode ser contra as políticas de austeridade e defender reduções de salários?"
Por outro lado, Pickety "decretou" que "em Portugal a dívida vai ser reestruturada". Ora, ele é que sabe. E já agora, a folha de excel da troica não é melhor do que os palpites destes crescimentistas ? Isto não é meter-se onde não se é chamado ? A troica é que nos humilhava e os que dão palpites a torto e direito ?

O interessante disto tudo é que a austeridade iniciou-se em Portugal pelo governo PS mas esqueceram-se rapidamente. Em 30/09/2010: "O ministro da Economia, Vieira da Silva, defendeu hoje a importância das medidas de austeridade anunciadas pelo Governo, dizendo que são "fundamentais" para o crescimento económico do país. Julgo que é indiscutível para a maioria dos economistas, que a médio e longo prazo, estas medidas terão um feito positivo", declarou o governante, dizendo ter "a esperança" de que o aumento do IVA e o corte dos salários na Função Pública possam "gerar dinâmica na procura externa".
No final da sua intervenção, que marcou o início da conferência, Vieira da Silva abordou as medidas de austeridade anunciadas na quarta feira pelo Governo para reduzir a despesa pública, entre as quais se inclui a subida do IVA de 21 para 23 por cento e os cortes de 5 por cento na massa salarial da Função Pública.
"As metas que o Governo tem apontado para o crescimento económicos são muito prudentes, não fizemos estimativas baseadas na vontade, mas no realismo", afirmou o governante, justificando assim a convicção de que as previsões de crescimento económico serão concretizadas.
Sobre a contestação que as medidas anunciadas pelo Governo estão já a gerar entre os funcionários públicos e os sindicatos, Vieira da Silva declarou: "a contestação é algo que faz parte da vivência do regime democrático. Ao governo compete fazer o seu trabalho, que é tomar as medidas e chamar a tenção dos portugueses para os riscos que Portugal correria se não as tomasse".

De facto, há alternativas que não são as badaladas pelos simpáticos crescimentistas nem enredadas nas investigações dos peritos. 
Aos países e às pessoas interessa a prosperidade, entendida como algo mais do que o crescimento económico, como refere Tim Jackson: “Definitivamente, não é apenas a capacidade económica de um país, medida pelo PIB”, diz. Segundo ele, quando buscam prosperidade, as pessoas almejam mais do que dinheiro: querem saúde, solidez na família, na comunidade em que vivem… “Todos propósitos que vêm sendo debilitados em nome do crescimento económico”, lamenta. 

Um pequeno exercício sobre crescimento vs austeridade poderá indicar-nos como há crescimento virtuoso e austeridade virtuosa e crescimento vicioso e austeridade viciosa.
1. Mais crescimento e mais austeridade é o que conseguem fazer países com elevado crescimento mas onde a vida das pessoas continua cada vez mais difícil. A existência de matérias primas como o petróleo podia servir para levar mais bem-estar às pessoas e o que acontece é que, em muitos desses países, tudo mudou para pior, sendo a guerra com outros povos ou os conflitos internos que dominam este tipo de sociedades, normalmente não democráticas. Petróleo e paz dificilmente se conjugam.

2. Menos austeridade e mais crescimento é o que têm vindo a apregoar teóricos da economia e políticos crescimentistas de que na Europa os socialistas são um bom exemplo. E é o caminho que vai levar ao desastre: manter o "estado social" (quantas vezes simplesmente não passa de ostentação do estado: ppp rodoviárias, fundações, parque escolar...) com mais dívida.

3. Mais austeridade e menos crescimento tem sido o resultado das políticas aplicadas após a falência de alguns países como na Europa, que levam à necessidade de mais resgates.

4. Talvez reste a possibilidade de uma menor austeridade e de um crescimento menor desde que sustentados. Não vai ser possível continuarmos a viver neste mundo de recursos finitos do mesmo modo que o temos feito. A prosperidade é então uma coisa diferente de consumismo, de consumir para crescer, mas ter padrões de consumo ecológicos, produzir a preços acessíveis, regulados de forma equitativa para todos os países, sem trabalho infantil, sem trabalho sem regras, sem horários descontrolados... que levam à distorção de preços, a concorrência desleal, ao dumping, desemprego, ...

Pode haver "prosperidade sem crescimento".
"Prosperidade sem crescimento foi primeiro publicado em 2009 e colocou em linhas claras um debate de importância vital: para vivermos bem, para sermos «prósperos» e usufruirmos de bem-estar, será realmente necessário que haja crescimento económico? A resposta de Tim Jackson é taxativa: não."

"Mais do que crescimento interessa o florescimento e felicidade. Prosperidade quer dizer que as coisas vão bem para nós. Pergunte às pessoas o que isso significa na prática e elas falarão espontaneamente de sua família, relacionamentos, amigos, segurança. Ter um emprego decente. Sentir-se parte da comunidade. Participar de maneira significativa da sociedade. Prosperidade tem a ver com dar-se bem na vida. Significa florescer - no sentido amplo da palavra."

"O que quer que o futuro nos reserve, uma coisa está clara: a mudança é inevitável. Não existe um cenário confortador no qual simplesmente continuaremos do mesmo jeito. Os que esperam que a economia do crescimento conduza a uma utopia materialista vão se decepcionar. Simplesmente não temos a capacidade ecológica de realizar esse sonho. No final do século, deixaremos nossos filhos e netos com um clima hostil, os recursos naturais exauridos, a perda de habitats, a dizimação de espécies, a escassez maciça de alimentos, a migração em larga escala e a guerra quase inevitável.

"Assim, nossa única chance real é trabalhar para a mudança. Transformar as estruturas e as instituições que moldam o mundo social. Eliminar o pensamento imediatista que assolou a sociedade durante décadas. E substituí-lo por uma visão mais razoável de uma prosperidade duradoura."

"Porque, no fim das contas, a prosperidade vai além dos prazeres materiais. Ela transcende as preocupações materiais. Ela reside na qualidade de nossa vida e na saúde e felicidade de nossa família. Ela está presente na força de nossas relações e de nossa confiança na comunidade. Está evidente em nossa satisfação no trabalho e em nosso senso de significado e propósito compartilhados. Apoia-se em nosso potencial de participar plenamente da vida em sociedade."

"A prosperidade consiste em nossa capacidade de progredir como seres humanos - dentro dos limites ecológicos de um planeta finito. O desafio para nossa sociedade é criar as condições para que isso se torne possível. Essa é a tarefa mais urgente de nosso tempo."


20/09/15

Terapia cognitiva


Lamento saber que sofres frequentemente de gripe, e daquelas febres ligeiras e irritantes que as gripes prolongadas, e já quase ininterruptas, arrastam consigo. E lamento-o  tanto mais quanto eu próprio também experimentei esse tipo de doença. A principio não me preocupei: a minha juventude era ainda capaz de aguentar as maleitas e de resistir bravamente aos ataques da doença! Mas por fim fui-me abaixo, e cheguei ao ponto de ficar quase tuberculoso e reduzido a uma extrema magreza. Muitas vezes senti vontade de pôr termo à vida. O que me reteve foi a avançada idade do meu muito querido pai. Em vez de pensar no ardor com que seria capaz de enfrentar a morte,  decidi pensar antes como ele desejaria ardentemente que eu morresse! Assim, impus a mim mesmo a obrigação de viver. E a verdade é que por vezes continuar vivo é dar mostras de coragem!
Antes de dizer-te como é que me consolava da doença, dir-te-ei apenas isto: o próprio facto de me resignar a estar doente já me servia de remédio. De facto, formas dignas de consolação acabam por tomar-se medicamentos; e tudo quanto nos fortalece a alma transforma-se em benefício para o corpo. Os meus estudos restituíram-me a saúde. É à filosofia que devo a minha convalescença, a minha recuperação; a ela devo a vida - aliás, a menor dívida de gratidão que tenho para com a filosofia. Também  contribuíram para eu recuperar a saúde os meus amigos:  nos seus conselhos, na sua companhia, na sua conversa encontrei uma grande consolação. Lucílio, meu excelente  amigo, nada ajuda tanto um doente a recuperar como a  afeição dos amigos, nada é mais eficaz para afastar de nós a expectativa e o medo da morte. Digo-te: eu imaginava que continuaria a viver, não já na companhia deles mas através da sua memória; dava-me a sensação de que não exalaria definitivamente a alma, mas sim que a confiaria  nas suas mãos. Estes pensamentos deram-me a força de vontade para me ajudar a mim mesmo e para suportar  todos os sofrimentos. O cúmulo da infelicidade seria, isso sim, ter perdido a vontade de morrer e, simultaneamente, não ter coragem para viver!
Recorre tu também a remédios idênticos a estes. O médico há-de indicar-te até que ponto podes andar a pé ou fazer exercícios, ele te dirá que não caias na indolência  que é o que a falta de forças tem tendência a fazer; prescrever-te-á que leias  em voz alta, como forma de exercícío para as tuas vias respiratórias bloqueadas; que andes de barco para o balanço ginasticar  os teus pulmões; dir-te-á o que podes comer, quando é que deverás beber vinho para ganhar força ou quando o deves evitar para não provocar e aumentar a tosse. O remédio que eu, por minha parte, te receito é valido não apenas para a tua doença, mas  para toda a tua vida: despreza a morte. Nenhum motivo de tristeza pode haver quando nos libertamos de morrer. 
Em qualquer doença há três factores importantes a ter em conta: o medo de morrer, a dor física, a proibição
temporária dos prazeres.
...

Lúcio Aneu Séneca, Cartas a Lucílio, (Tr. J.A. Segurado e Campos), 2007, 3ª ed, Fundação Calouste Gulbenkian, Livro IX, Carta 78, pág 328-329. Sublinhados meus.


Heróis e vilões

Raspar um socialista..., Vasco Pulido Valente , 19/09/2015.
Quando se raspa um socialista acaba sempre por se encontrar um tiranete. No meio do espectáculo pouco edificante das prisões de Sócrates, ninguém perdeu tempo a discutir, ou a investigar, o papel do cavalheiro na imprensa e na televisão. Mas nem Mário Soares, no fim, escapou à regra de interferir na política editorial do “Diário de Notícias” de Mário Mesquita. Para gente tão penetrada da sua virtude e da sua razão a crítica é fundamentalmente um escândalo, que em democracia se tem de aturar - com conta peso e medida. Os processos para manter a canalha do jornalismo na ordem, ou pelo menos, numa ordem tolerável, são vários: a compra, a rápida promoção para a vacuidade, uma ou outra ameaça e, se nada disto der resultado, a calúnia e o despedimento das cabecinhas que persistem em “pensar mal”.

16/09/15

Heróis e vilões

1. Há uma comunicação social livre que mostra a realidade da vida das pessoas, por vezes contraditória com o poder e, por isso, sujeita a todas as formas de violência incluindo a morte.
"O Comitê de Proteção aos Jornalistas "afirma que, desde 1992, mais de mil jornalistas foram mortos, a maioria dos quais estava cobrindo política, guerra ou corrupção."

Daqui
Como consequência do seu trabalho, "os jornalistas expõem a corrupção, mudam as leis, reformam as práticas empresariais e melhoram vidas."
Em 2014, "66 profissionais foram assassinados e outros 178 foram presos, segundo um balanço anual publicado esta terça-feira pela organização não-governamental Repórteres sem Fronteiras (RSF)."
Estes jornalistas que todos os dias informam, em condições muitas vezes difíceis, são merecedores de admiração, verdadeiros profissionais que dão credibilidade e prestígio à sua profissão.
A sociedade necessita do seu serviço e deve reconhecer e agradecer o seu trabalho e esforço para podermos ter comunicação social livre e vivermos em regimes democráticos.

2. No entanto, também há promiscuidade entre jornalistas que comentam, interpretam e brincam com a informação e comentadores que informam, desinformam e puxam a "brasa à sua sardinha".
As notícias são tratadas como peças humorísticas e para o receptor, não se sabe onde  termina a informação e começa a interpretação ou o achincalhamento dos factos e das pessoas. No entanto,
“1. O jornalista deve relatar os factos com rigor e exactidão e interpretá-los com honestidade. Os factos devem ser comprovados, ouvindo as partes com interesses atendíveis no caso. A distinção entre notícia e opinião deve ficar bem clara aos olhos do público.” Código Deontológico do Jornalista
3. Há dependências, compromissos, favores, desfavores,  pressões, ameaças através de sms, grosseiras ou subtis, políticas, empresariais, que mostram a dificuldade em que trabalham alguns profissionais, e que acabam por favorecer o jornalismo-voz-do-dono.


4. Por isso, não sei se são injustas as opiniões sobre jornalismo. Como esta:  "O jornalismo que se faz em Portugal é um jornalismo de matilha" (Emídio Rangel, 10-2-2010, RTP, Programa "Directo ao assunto").  
Ou esta: "Como aves de arribação, os jornalistas desembarcam todos no mesmo lugar da crise aguda, e desembarcam assim que se torna crónica, gerando o desinteresse colectivo. A isto chama-se, no jargão, comportamento de matilha, responsável pela repetição ad nauseam das mesmas histórias, escritas e reescritas ao espírito do tempo. Nunca chegamos a ver a continuação do filme, e muito menos o fim." (Clara F. Alves, A Revista do Expresso, nº 2230, 25-7-2015 , "Pluma caprichosa - silly season"). 

5. As imbecilidades de "matar o mensageiro", como por ex., se passa nos regimes ditatoriais, onde o longo braço do poder dos ditadores silencia jornalistas em qualquer parte do mundo, mas também as outras técnicas mais soft, como a denominada comunicação social de referência, a uniformização da agenda informativa, o auto ou hetero silenciamento, como sabemos, também não são inócuas ou irrelevantes.

6. Como noutra profissão qualquer há heróís e vilões. Heróis são também os que não querendo ser uma coisa ou outra, desempenham com profissionalismo e competência o seu trabalho, confrontam as dificuldades e pressões dentro ou fora das redacções.

7. Não quero generalizar. Há comportamentos jornalísticos estranhos. Prefiro ficar com a imagem dos que são heróis.

Governando um ninho de cucos...

cap 1 - Capacidade e incapacidade
1. A dificuldade de estabelecer consensos e ou compromissos, tem sido demonstrada por diversas vezes e foi essa incapacidade que levou à queda do governo minoritário, em 2011.
Em 2009, foi assim: José Sócrates falou em "extraordinária vitória eleitoral", prometeu que o PS governará "com o seu programa eleitoral" mas não adiantou nem uma vírgula sobre como conseguirá a "estabilidade que esta legislatura merece". Se na pré-campanha deixou antever a vontade de governar sozinho, mesmo sem maioria absoluta, ontem não fechou a porta a nenhum tipo de acordo, nem sequer a coligações." Não foi capaz de concretizar com nenhum partido da dita esquerda ou da dita direita nem sequer com  um acordo parlamentar.
No mesmo sentido, o ministro dos Assuntos Parlamentares argumentou hoje que o programa eleitoral do PS foi sufragado pelos portugueses e que, por isso, governar com esse programa "é o acto mais coerente que seria esperável do Governo".
Este foi o resultado, em 2011, 

2. O mérito de  Passos Coelho e Paulo Portas foi o de  terem conseguido estabelecer um compromisso de governação,  apesar dos sobressaltos (só faltava que não houvesse conflitos políticos numa  governação em democracia) que aconteceram designadamente com a saída do ministro das finanças Vítor Gaspar e da demissão (ir)revogável do ministro dos negócios estrangeiros Paulo Portas.
Essa capacidade de fazer compromissos foi fundamental para o perfil politico de um governante que, nos dias de hoje, abdicando das propostas do próprio partido, tendo que fazer cedências, conflituando, chegando perto da rotura, conseguiu que a coligação se mantivesse.
Isto quer dizer que não puderam executar o programa do respectivo partido, ficando à beira da rotura quando se colocava a chamada linha vermelha (como o problema das pensões)  como limite para as cedências (Paulo Portas).
3. Esse compromisso, foi ainda mais relevante porque ao fim e ao cabo tiveram que executar um programa da responsabilidade e acordado pelo governo anterior com a troica, perdão, as instituições de credores, que veio impor as condições, de que resultou perda de soberania e humilhação correspondentes, em cada visita de avaliação do cumprimento do programa de ajustamento pelos técnicos dessas instituições credoras. Humilhação de quem não é capaz de se governar a si próprio como mostraram os governos de Sócrates.


4. Foi ainda fundamental pela resistência ao desgaste dos "casos" das primeira páginas. A um compromisso de governo chamaram casamento de conveniência. Se bem que  na Europa são mais os governos que resultam deste tipo de casamentos.
Neste casamento há quem desempenhe muito bem o papel de alcoviteiras políticas. Nada de propostas positivas e construtivas mas intriga recorrente pelas questões mais mesquinhas, todas as possíveis para que o casamento se desfaça como a questão da demissão ter sido  por sms, por carta, ou das duas maneiras.
Todas as semanas um caso novo, fez parte da agenda politico-mediática. Mas até onde pode chegar o ridículo? Como é possível fazer um caso com o facto de o calendário escolar começar uma semana mais tarde ou uma semana mais cedo... De imediato pede-se a demissão do ministro.
Habitualmente, a escalada dos pedidos de demissão é sempre a mesma: começa pela demissão de um  ministro, quando acontece, devia ser de todo o governo; querem que o ministro peça desculpa pelos erros na colocação de professores, pede desculpa, e depois devia era demitir-se...

5. Passos definiu-se quando na crise Portas/Gaspar afirmou "não me demito e não abandono o meu país". O governo conseguiu resistir  e completou a legislatura. De igual modo , quando conseguiu, em quase todos os aspectos da governação, melhorar em relação a 2011.

cap 2 - mitos urbanos
1. Mais uma estória de encantar e, de como com uma cajadada se matam dois coelhos, salvo seja: resolve-se o problema dos refugiados e o das belas florestas nacionais.
Sempre me pareceu que o candidato tinha solução para tudo: para as finanças, para a economia, para o crescimento, para o serviço nacional de saúde que a coligação quer destruir, para a "escola pública" que querem destruir, para a segurança social, para o desemprego, 207 mil empregos, primeiro promessas, depois estimativas, para colocar os milhares de professores que não têm colocação nas escolas, para a segurança social, que o outro candidato concorrente e actual primeiro ministro quer destruir, para a segurança social, outra vez, sem cortes nas pensões... E até para os refugiados tem uma solução que não deixa de ser encantadora: roçar mato. 
Talvez começar por limpar as ruas de Lisboa fosse outra boa solução. Mas agora quem lá manda é um senhor que não foi a eleições...

2. Disse Costa que "a direita é a troica". Independentemente de saber o que é isso de direita ou de esquerda e quem é de direita ou de esquerda, Costa tem toda a razão. Se a "direita é a troica", Costa e tudo o que ele representa é a bancarrota.
Por mais cambalhotas que invente e queira negar o passado, toda a gente sabe quem foi que chamou e porque chamou a troica. José Gomes Ferreira dá uma ajuda:


José Gomes Ferreira - os três embustes

3. Das inanidades aos bordões políticos, tipo massacre comunicacional até que sejam verdade, o contexto é socrático, autoritário, "habituem-se", o SMS ao jornalista, são o prenúncio: "No passado sábado tivemos um novo caso com a revelação nas páginas do “Expresso” de um SMS claramente prepotente de António Costa. Enviar uma mensagem escrita ameaçadora a um director de um dos jornais mais influentes do país (e a propósito de uma crítica banal às ideias de um grupo liderado pelo economista Mário Centeno) para que o jornalista “não tenha dúvidas” sobre o que Costa pensa a respeito do respectivo jornalista está ao nível dos piores casos de José Sócrates – personagem que fazia questão de intimidar jornalistas pelos decibéis da sua voz." (Luís Rosa, Jornal I, O PS de Costa, a justiça e os media, 6/05/2015).
Tal como na entrevista ao jornalista Vítor Gonçalves, acusa Costa "o sr. está aqui como porta-voz do dr. Passos Coelho ...".  

4. Seguro, pelo menos, antes do golpe "fraterno", reconheceu os erros e fez propostas que não agradaram ao status quo e, por isso, teve o fim que se conhece: saiu completamente derrotado e traído mas quanto a ele com dignidade que tem vindo a manter.
Propostas como, por exemplo, o salário mínimo, em que Pacheco Pereira viu subserviência através do líder da UGT, outro ostracizado, pouco se importando com as empresas que ficarão desesperadas, com a economia social IPSS - lares de idosos, centros de dia...); ou como a revisão da Constituição, com a redução para 180 deputados...

5. Outra estória de encantar que envolve extraterrestres: Bloco central ? "Só se os marcianos descerem à terra" ... (isto é que é o fim da história tal como a conhecemos).

6. Mas, há radicais e  radicais que podem ser aceites por Costa: "Manuela sim, Pacheco, não"... nem com ajuda das críticas deste, supostamente arrasadoras da coligação, Costa se comove.

7. Também é giro dizer que a coligação "traiu os seus compromissos, não merece confiança e os portugueses não perdoarão a traição à palavra dada". Ora traição é uma coisa de que Costa não devia falar.

8. Houve um debate televisivo onde nenhum dos três jornalistas perguntou sobre educação ou revisão constitucional, que se resumiu a questões formais de quem ataca ou quem defende, quem ganha ou quem perde, num jogo da força da técnica contra a técnica da força...

9. De vez e quando um abaixo-assinado. Ontem, Campos e Cunha (Olhos nos olhos) disse que o "manifesto dos 74"  tinha sido assinado "por políticos ou por ignorantes".

cap 3 - o futuro
1. Medina Carreira continua a dizer que "este estado social" consome tudo o que se produz e não chega, e assim, qualquer pequeno erro vai dar um grande sarilho: "poucas fantasias em matéria de despesa pública, porque por aí pode sair o sarilho nos juros em poucos meses".

2. Quem é Passos Coelho? Vimos Passos Coelho governar em estado de necessidade, como será  governar com o seu próprio programa

Love and mercy

Como já foi dito, o problema dos refugiados diz respeito a todos os países, desde logo os de origem, os de passagem e os de destino, mas também os que ficam longe, os que estão em guerra e os que apoiam a guerra, os que vendem as armas, os que lavam as mãos porque isto é lá com a Europa...
Há então que agir em três momentos e em três espaços: Em primeiro lugar, nos países de origem "sob pena de estarmos a tratar os sintomas e não a doença", como defende Luís Amado, ”é necessário acabar com o estado islâmico”, “deixou-se uma força como o EI crescer e progredir, ganhar território e poder de terror sobre as populações que a humanidade não pode aceitar."

Por outro lado, parece que não seria muito difícil de resolver o problema se o sr. Obama e o sr. Putin se sentassem à mesa para decidirem parar esta calamidade*, isto é, a Rússia** e os Estados Unidos não podem assistir, indiferentes, a esta desgraça, tal como os estados vizinhos, até porque esses países também têm sido vítimas deste radicalismo.
Sobre os países de passagem há que acolher os refugiados em nome da lei ***, da ética e do humanismo. Isto também quer dizer que a abertura de fronteiras deve ser organizada, com regras, e registo de todos os que pedem asilo de forma a que a grande maioria dos que fogem da guerra não possam ser confundidos e trazer no seu seio os inimigos da democracia.
Provavelmente a Europa, a começar pela Alemanha e a Áustria, é uma parte do mundo em que o cumprimento da lei e do humanismo são mais efectivos e a srª Merkel tem sido disso um bom exemplo. 
Os cidadãos dos países democráticos europeus, têm defendido  duas posições antagónicas mas que merecem ser consideradas: é preciso acolher e melhorar o acolhimento, sem dúvida, e também é compreensivo o medo que algumas pessoas e comunidades sentem face às atrocidades cometidas nos países de origem com que são confrontadas diariamente na comunicação social.
O receio dessas comunidades não pode impedir o direito de asilo mas também não é aceitável a posição dos que com base em problemas no acolhimento, certamente graves mas pontuais, passam o tempo a denegrir a Europa, como aliás, é habitual, na sua atitude de autoflagelação.

Refugiados 2013

O problema dos refugiados é muito mais grave (a invisibilidade dos refugiados) do que aquele também grave que se vive na Europa. É também um fenómeno persistente ao longo da história da humanidade, como o êxodo em 1978-79 dos boat people vietnamitas. É por isso necessário encontrar soluções nos países de origem sendo certo que a resposta aos problemas dos refugiados estará sempre nos regimes democráticos e nas atitudes das comunidades e das pessoas que vivem nesses regimes. É mais do que tempo de nos deixarmos de ismos e darmos um chance à paz (John Lennon).
____________________
* Comunicado da Frontex: "Mais de 500.000 migrantes foram detectados em fronteiras europeias nos primeiros oito meses deste ano, depois de em Agosto ter sido registado o quinto recorde consecutivo com 156.000 pessoas a atravessarem fronteiras europeias", lê-se num comunicado da Frontex. O texto precisa que em todo o ano de 2014 o número de refugiados registado foi de 280.000."
** Seg. notícia de 15-9-2015: " Potências ocidentais recusaram acordo com Rússia para afastar Assad em 2012" - EUA, Reino Unido e França estavam tão convencidos de que o presidente da Síria estaria prestes a cair que ignoraram proposta feita por embaixador russo."...
A Rússia tem sido um dos principais apoios de Bashar al-Assad ao longo dos quatro anos e meio de guerra e sobretudo quando a contestação ao seu regime era imensa, até a nível internacional, e a sua queda parecia iminente. Moscovo terá enviado recentemente aviões de combate e tropas para áreas sob controlo de Damasco, um envolvimento que os EUA consideraram uma porta aberta para a escalada do conflito. O interesse russo na zona prende-se sobretudo com o facto de no porto de Tartus, na Síria, ficar a sua única base naval com acesso ao Mar Mediterrâneo.
*** Convenção de Genebra de 1951, Lei n.º 70/93, de 29 de Setembro, Convenção de Dublin.

Escolas de pequena dimensão

Continua a saga do fecho de escolas. Não há interesse em alternativas ou, pelo menos, em estudar alternativas ao fecho de escolas. Outros interesses são sempre mais importantes que o desenvolvimento das crianças e o seu bem-estar pessoal e familiar.
Os pais e alguns autarcas, principalmente os que estão ligados às aldeias, continuam, quixotescamente, a lutar pela sua escola.
Os srs presidentes de câmara só se indignam com o mapa judiciário, os centros de saúde ou outras áreas que lhes são retiradas dos concelhos, muitas vezes em nome da boa gestão. 
Tanto o poder central como o local, com excepções como a referida abaixo, não vêem a diferença ?
No caso das escolas o que está em causa são crianças dos 6 aos 10 anos, dependentes, longe dos pais durante um dia inteiro, com viagens longas,  numa altura em que a ligação aos pais ainda é muito importante para o eu desenvolvimento.
O ministério da educação e as autarquias não podiam criar uma rede de escolas de pequena dimensão nos locais onde famílias e autarcas considerassem essa prioridade para o desenvolvimento das crianças?
Desta vez, enfim, e é apenas um exemplo, foram os...
Gazeta do interior, nº1394, 2-9-2015

11/09/15

Literacia e educação


Na terça-feira passada, 8 de Setembro, comemorou-se o Dia Internacional da Literacia, criado pela ONU e UNESCO em Novembro de 1965 (1967?). O tema para 2015 “Literacia e Sociedades Sustentáveis”, considera que a literacia é essencial para o desenvolvimento sustentável das sociedades.” Com este dia pretende-se destacar a importância da literacia para as pessoas e sociedades.
Também este ano, a ELINET (European Literacya Policy Network), criou a Semana da Literacia como forma de alertar para a necessidade de tomar medidas que permitam aumentar os níveis de literacia. De 8 a 17 de Setembro, decorre por toda a Europa a “Semana da Literacia 2015″. 

De acordo com o UIS (UNESCO Institute for Statistics), 757 milhões de adultos em todo o mundo (1), dois terços dos quais são mulheres, ainda carecem de habilidades básicas de alfabetização. O número de crianças e adolescentes fora da escola está em ascensão, situando-se em 124 milhões, e cerca de 250 milhões de crianças em idade escolar primária não estão a dominar habilidades básicas de alfabetização, mesmo enquanto estão na escola. 
Para haver sucesso pessoal e social não é suficiente saber ler e escrever (2), é necessário que se entenda o que se lê o que levará ao desenvolvimento de competências na vida das pessoas: o consumo, estilos de vida saudáveis e sustentáveis, ecologia e ambiente, redução da pobreza, participação cívica...
Dominar a leitura escrita e cálculo liberta da ignorância, dá poder e autonomia aos indivíduos de forma que possam ser sujeitos críticos, tomar decisões mais acertadas e controlar melhor a sua própria vida.

De acordo com relatório recente da ONU, cerca de 84% da população mundial já pode ser considerada alfabetizada. (3)
O problema é que é necessário que se atinja um nível de literacia mínimo, isto é, que se atinja um nível de leitura funcional, tendo em conta que a literacia é a capacidade de processamento, na vida diária (social, profissional, e pessoal) de informação escrita de uso corrente contida em vários materiais impressos (textos, documentos, gráficos). Este conceito tem dois aspectos:
. permite a análise da capacidade efectiva de utilização na vida quotidiana das competências de leitura escrita e calculo
. remete para um continuo de competências que se traduzem em níveis de literacia com graus de dificuldade distintos 

Num estudo feito em Portugal (4), com população entre os 15 e os 64 anos, sobre os níveis de literacia, a avaliação feita com uma escala de seis pontos (5) manifestou que 79,4 % se encontravam abaixo do nível mínimo para se responder aos desafios diários ( nível 0, um e dois).

Apesar destes resultados, há muitos sinais positivos conseguidos ao longo dos anos:.
. Primeiro, creio que já todos aprendemos que estas coisas da educação funcionam a longo prazo. Foram necessários mais de 100 anos para que a ideia generosa da 1ª república de luta contra o analfabetismo, atingisse objectivo de uma sociedade escolarizada e, mesmo assim, ainda não conseguido na totalidade. 
. Segundo o censo de 2011, há 5,2 % de portugueses que continuam sem saber ler nem escrever, ou seja, mais ou menos 5 em cada 100 portugueses, continuando as mulheres mais penalizadas (mulheres 6,8%; homens 3,5 %).

. A alfabetização e literacia vão deixando de ser campo de disputa político-partidária (como as campanhas de dinamização cultural do MFA da famosa 5ª divisão, em 74-75; ou o programa “novas oportunidades” ).
. A inclusão de todos os alunos na escola tem vindo a ser cada vez mais efectiva de forma a que também os níveis de literacia sejam mais elevados. Por isso, há que dar oportunidades agora a todos os alunos que frequentam a escola estatal ou privada.
____________________________
1) De acordo com o CIA World Factbook, quase 75% dos 775 milhões de analfabetos no mundo estão concentrados em dez países (em ordem decrescente: Índia, China, Paquistão, Bangladesh, Nigéria, Etiópia, Egito, Brasil, Indonésia e a República Democrática do Congo). 
2) agora mesmo ! Grupo de peritos de alto nível sobre literacia da UE, Síntese, Setembro de 2012.
3) Alguns países tem 100% da população alfabetizada o que, certamente, não corresponde à realidade.
4) Benavente, Rosa, Costa e Ávila, A literacia em Portugal. Resultados de uma pesquisa Extensiva e Monográfica (1996).
5)  O UIS desenvolveu uma Avaliação da Literacia e Programa de Monitorização (LAMP) para fornecer as informações de diagnóstico necessárias para monitorizar e melhorar as competências de literacia.

09/09/15

Entrada na escola: latência activa


Bem-vindos à “opinião” das quintas-feiras. Vamos continuar a falar de psicologia e da sua importância para as nossas vidas, dos nossos comportamentos, da vida pessoal, social, comunitária, politica e cultural.
Em especial, vamos falar de psicologia da educação, do desenvolvimento humano, dos comportamentos na infância e adolescência.
A psicologia tem a ver com todas estas áreas e por isso teremos que falar dos comportamentos das pessoas no seu quotidiano.
Se não fosse por esse motivo seria por uma questão de cidadania. Como escrevia Walt Whitman, 
      Esta é a cidade e eu sou um dos cidadãos,
      o que quer que interesse aos outros, também me interessa, política, guerras, mercados,             jornais, escolas,
      o presidente da Câmara e as assembleias, bancos, tarifas, navios,
      fábricas, mercadorias, armazéns, bens mobiliários e imobiliários.

IMG_2161.JPGÉ precisamente pela educação que quero começar: a entrada na escola, uma latência muito activa
A entrada na escola foi e é um dia marcante para qualquer um de nós, porque o é na realidade e também pela carga afectiva, social... que as famílias e a sociedade colocam nesse dia.
Por isso, o primeiro dia de escola provavelmente é dos episódios da nossa infância que lembramos mais facilmente .
Sei precisamente quem me levou à escola no primeiro dia, a minha mãe, que me “entregou” ao meu professor e ali fiquei com a lágrima no olho, a imaginar o que me podia acontecer naquele meio desconhecido.
Este é um momento de grande apreensão e ansiedade para os pais e para as crianças. Por isso, merece que estejamos atentos aos sinais que surgem.
Quem é a criança que vai entrar na escola ?
Conhecer o nosso filho é fundamental para iniciar uma boa escolaridade. Mesmo assim, vamos encontrar algumas surpresas nem sempre agradáveis .
Aos 6 anos ,como se costuma dizer, a criança chega à idade da razão. A partir desta idade a criança torna-se operatória, isto é, capaz de raciocinar de forma concreta e de realizar operações concretas. 
Os psicólogos da segunda metade do século XX trouxeram um grande conhecimento para compreensão do desenvolvimento da criança. A criança passou a ser vista como um indivíduo em desenvolvimento, que esse desenvolvimento é feito por estádios e que a criança é activa e não um ser passivo onde se inscreve tudo o que se quiser.
A inteligência é a adaptação às circunstâncias que vai encontrar: Adaptação à classe, aos companheiros, ao professor, ao trabalho escolar
Freud designou este período de desenvolvimento como latência.. É um período muito importante para a formação da autoridade, aprendizagem dos limites e aprendizagem de sentimentos relacionados com a ética e a estética.
A criança está interessada nas aprendizagens de coisas novas, como a leitura e escrita e de tudo o que se passa no meio social.
Esta criança está a ser avaliada, pela primeira vez,  e com ela os pais estão também a ser avaliados como bons ou maus educadores.

08/09/15

Dia Internacional da Literacia


"O futuro começa com o alfabeto." Director-Geral da UNESCO 


O tema do Dia Internacional da Literacia 2015 é Literacia e Sociedades Sustentáveis. A literacia é um fator-chave para o desenvolvimento sustentável. Competências de literacia são o pré-requisito para a aprendizagem de um conjunto mais amplo de conhecimentos, habilidades, atitudes e valores, necessários para a criação de sociedades sustentáveis. Ao mesmo tempo, o progresso em áreas de desenvolvimento sustentável, tais como a saúde e a agricultura, serve como um factor favorável à promoção da alfabetização e ambientes letrados.

07/09/15

Informação e manipulação

Resultado de imagem para wikipedia
Wikipedia expulsa 381 editores que manipulavam informação


"Editores expulsos iludiam a vigilância dos outros colaboradores porque funcionavam em rede: uns validavam o trabalho dos outros. Rede recebia dinheiro para promover pessoas e empresas.

A maior enciclopédia digital colaborativa do mundo, a Wikipedia, expulsou 381 editores que criavam e manipulavam artigos sobre pessoas e empresas a troco de dinheiro. O fundador da Wikipedia, Jimmy Wales, revelou ao jornal espanhol El País que baniram centenas de perfis devido a "fraude"."
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06/09/15