27/12/13

Imagem de Inverno

Lisboa - Quinta do Lambert


O presidente Costa não tem que se preocupar com o lixo em Lisboa. Entre a quadratura do círculo, a câmara municipal e o governo ali à esquina, não lhe sobra tempo para olhar para baixo.
Até que é linda esta imagem de Inverno. Lisboa pode ficar assim. O cidadão apenas deve ter cuidado para não escorregar ou pôr um pé num buraco tapado pelas folhas porque, de resto, para um cidadão distraído este lixo ou outro pouco interessa. 

Obs.1: Antes de isto acontecer, já há muito que não via Lisboa no estado desleixado em que se encontra.
Obs.2: Nas costas de Passos Coelho, Costa pode ver as suas, a sua imagem de Inverno.

18/12/13

Violências familiares


A exposição a modelos de aprendizagem perigosos para o desenvolvimento das crianças tem vindo a merecer o interesse dos educadores.
O número de crianças que sofrem maus tratos deste tipo, isto é, estão sujeitas a modelos de comportamento que podem comprometer a saúde, segurança, desenvolvimento e bem-estar e que são sinalizadas às comissões de protecção de crianças e jovens, tem vindo a aumentar.
Os maus tratos no sistema familiar nem sempre são visíveis e as suas possíveis facetas nunca são avaliadas simultaneamente nem a longo prazo. (J.F. Marmion). Os números muitas vezes não dão a dimensão do fenómeno dado que as violências familiares, exactamente porque são familiares, são menos visíveis. É, por isso, necessário ver para além dos números.
São também menos visíveis quando os comportamentos violentos se tornam banalizados através da sociedade da informação em que vivemos: no cinema, na televisão, nos jogos electrónicos e na internet.
Ou ainda porque se considera que a violência familiar é assunto interno da família e por isso para alguns pais faz todo o sentido que os filhos sejam punidos física ou psicologicamente através da humilhação, da desvalorização, da destruição da autoestima, do insulto, da falta de cuidados de alimentação, higiene, de afecto, o excesso de exigência nos estudos, e nas actividades das crianças...
Ou que assistam a comportamentos de violência doméstica de um dos progenitores em relação a outro ou dos dois, com discussões quotidianas que assustam as crianças e as enchem de medos. Medo de perder os progenitores, medo de estar em casa ou de voltar para casa.

Além disso, a investigação tem demonstrado que muitos comportamentos são adquiridos através da observação e imitação. A aprendizagem pode ocorrer por modelação, isto é, por observação de um modelo. Permite aprender rapidamente comportamentos complexos, que seriam adquiridos de forma mais lenta por outros processos.
A investigação de Bandura veio relevar que as práticas de modelação pelos pais influenciam o desenvolvimento das crianças, como se adquirem e desenvolvem os processos de linguagem e pensamento mas também como os princípios do auto-reforço podem ser usados para tratar vários problemas psicológicos.

Em entrevista, Karen Sadlier diz que "a violência conjugal é um mau-trato para a criança...
... diferencia-se violência conjugal e mau trato da criança, com a ideia de que se pode ser um bom pai mesmo sendo um cônjuge violento. No entanto, estudos norteamericanos mostram que as crianças testemunhas de violências conjugais estão em sofrimento. Pode ser psicológico mas também físico porque metade das crianças cuja mãe sofre violências são igualmente vítimas de castigo físico pelo pai ou companheiro da mãe.
Estas crianças  falam disso tanto menos quanto, em toda a violência familiar, se impõe a lei do silêncio"...

Por outro lado, parece que têm sido pouco eficazes as penalizações legais que são aplicadas também neste caso, dado o crescente número de situações, a sua invisibilidade e o facto de serem "familiares".
É por isso que a grande esperança na mudança passa sempre pela educação através de programas dirigidos à criança e aos pais. 

Decorreu no IPJ de Castelo Branco um colóquio sobre as realidades invisíveis, isto é, sobre a violência doméstica e as suas consequências.
Foi apresentada uma peça de teatro “ Não chove de baixo para cimaem que é retratada a vida de uma mulher que vive obcecada pelos traumas vividos na infância causados por uma mãe esquizofrénica. 
A peça mostra até que ponto esta mãe doente pode influenciar os comportamentos da filha.
Mas também de como é possível recuperar a saúde mental através do trabalho psicológico e dos contextos de vida que é possível encontrar quando estamos disponíveis para os procurarmos.
Felizmente, nem sempre estes modelos geram comportamentos irreversíveis e também nem sempre uma criança vítima se torna agressor.

Um país vale o que vale a qualidade de vida das suas crianças e jovens (Armando Leandro).
Para se construir um país com qualidade, com valores éticos, morais e harmoniosos é necessário que os modelos comportamentais parentais sejam transmissores desses valores e não da violência conjugal, suficientemente grave em si, mas que acrescenta  mais violência porque não se trata apenas de um problema do casal mas de um problema que envolve toda a família.

13/12/13

Segundo código no ADN

Cientistas dizem que descobriram um segundo código no ADN...

Somos ainda mais diferentes do que pensávamos. É por isso que a cidadania passa pela inclusão das pessoas que são diferentes. Que somos nós todos.





10/12/13

Educação especial e cidadania

1. O direito à cidadania constrói-se numa escola inclusiva, ou seja, baseia-se num novo paradigma educacional que preconiza uma "escola para todos", uma instituição que inclua todos os alunos, reconheça as diferenças, promova a aprendizagem e atenda às necessidades de cada um (Declaração de Salamanca,1994).
Educar para a cidadania é construir uma educação eficaz para todas as crianças com ou sem nee. É por isso que de acordo com a convenção sobre os direitos das pessoas com deficiência, a melhor resposta é a que serve para todos, ou seja, em que os objectos, equipamentos e estruturas do meio físico se destinam a ser utilizados pela generalidade das pessoas, ou seja, é a que tem em conta o desenho universal.
A promoção da acessibilidade como, por exemplo, a eliminação de barreiras arquitectónicas, é um bom exemplo de como um desenho universal serve para todas as pessoas: com cadeira de rodas, com carrinhos de bebé, com problemas de mobilidade...
De acordo com a convenção sobre os direitos das pessoas com deficiência, as respostas devem ser inclusivas, sem discriminação de nenhuma espécie e em que haja uma adaptação razoável e um desenho universal.
Segundo a convenção, «adaptação razoável» designa a modificação e ajustes necessários e apropriados que não imponham uma carga desproporcionada ou indevida, sempre que necessário num determinado caso, para garantir que as pessoas com incapacidades gozam ou exercem, em condições de igualdade com as demais, de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais;
e «desenho universal» designa o desenho dos produtos, ambientes, programas e serviços a serem utilizados por todas as pessoas, na sua máxima extensão, sem a necessidade de adaptação ou desenho especializado. «Desenho universal» não deverá excluir os dispositivos de assistência a grupos particulares de pessoas com deficiência sempre que seja necessário.

2. O desenho universal aplica-se à aprendizagem. Numa escola para todos a abordagem de um um ponto de vista curricular tem em conta as diferenças individuais não pelas diferenças individuais mas pelas alterações e adaptações que podem e devem ser feitas tendo em conta as necessidades educativas especiais dos alunos.
A integração das crianças com nee começou por ser feita tendo por base as características do aluno. Mas, na realidade, o mais importante é a capacidade do sistema educativo para produzir as alterações curriculares na escola, nos manuais, nos conteúdos, nas tecnologias, etc. (UNESCO, 1993).
Nas escolas tem vindo a ganhar relevo o modelo curricular mas haverá ainda muitas situações, na turma ou em cada disciplina frequentada pelo aluno, que funcionam na primeira perspectiva.

O ponto de vista do aluno individual
O ponto de vista curricular
as dificuldades são definidas em termos das características do aluno
as dificuldades são definidas em termos de tarefa, actividades e condições existentes na sala de aula
Um grupo de crianças pode ser identificado como tendo características especiais
Qualquer criança pode sentir dificuldades na escola 
Estas crianças necessitam de ensino especial para responder aos seus problemas
Estas dificuldades podem sugerir maneiras de melhorar o ensino
É melhor ensinar um conjunto de crianças que têm problemas semelhantes
Estes melhoramentos conduzem a melhores condições de aprendizagem para todos os alunos
As outras crianças são normais e beneficiam do ensino tal como existe
Os professores devem beneficiar de apoio quando procuram melhorar a sua prática
UNESCO: Necessidades especiais na sala de aula

3. A diversidade do ser humano exige diversidade de respostas.  Em relação às respostas que o sistema educativo pode oferecer, tem-se discutido muito sobre a falta de alternativas curriculares para muitos alunos com insucesso e as possibilidades de alguns alunos poderem frequentar cursos e escolas diferentes.
A discussão anda à volta de duas perspectivas de acordo com David Rodrigues. Resumi estas duas perspectivas na seguinte tabela:

Respostas do sistema educativo
face à diversidade de culturas, de conhecimentos, de ritmo de aprendizagem, de apoio familiar, de premência de suportes e de apoios para a aprendizagem
vias alternativas de ensino
sistema unificado de ensino
os alunos têm  um conjunto de competências que aconselham  currículos separados (ainda precocemente) que eventualmente melhor servem o desenvolvimento das suas capacidades.
conjunto de serviços que permitam  diversificar  a oferta formativa.
objecções/problemas
objecções/problemas
a) Sendo feito precocemente pode ser injusto por não levar em conta todas as potencialidades do aluno.

b) A possibilidade de reverter as opções que são feitas nestas vias alternativas, são muito restritas.

c) A qualidade das vias alternativas. É sabido que a qualidade das escolas, dos professores, dos recursos e sobretudo das expectativas nestas vias alternativas é muito diferente. Desta forma, não se trata só de um ensino diferente mas sim de um ensino claramente pior.
a) Se a escola não mudar os seus métodos de ensino e os seus modelos de aprendizagem para acolher toda esta “nova” diferença, invalida este modelo unificado porque se alunos diferentes forem ensinados como se fossem iguais, isto hipoteca a possibilidade de sucesso.

b) Por outro lado, a carência de recursos – indispensáveis para o apoio e para a diversificação do currículo – pode inviabilizar um sistema que, se procura manter uma cultura comum, também busca o respeito pela diferença e pela identidade cultural e de percursos de aprendizagem.
David Rodrigues - A escola face à diversidade



A perspectiva "sistema unificado de ensino" merece a preferência de David Rodrigues, que, quando não corre bem, isso fica a dever-se à falta de recursos.
Mesmo aceitando este modelo de análise, podemos questionar se estas duas perspectivas são alternativas ou complementares. Não poderão fazer parte de um sistema em que a diversidade da oferta educativa possa ser vantajosa face à diversidade de culturas? Não poderemos ter várias modalidades formativas que conduzam à inclusão ?
É necessário que haja critérios pedagógicos, psicológicos e sociais que facilitem e promovam a opção por uma ou outra resposta, sendo sempre a liberdade de escolha o critério mais importante.
As medidas educativas diversificadas são para todos os alunos que desejam escolher o seu caminho nos cursos científico-humanísticos,  profissionais ou "vocacionais".
Além disso, em todo o tipo de cursos deve ser assegurada a intercomunicabilidade entre os vários tipos de cursos e de currículos. 
O sistema educativo deve ser diversificado para responder à diversidade. Se se chama "unificado" a um "conjunto de serviços que permitam diversificar a oferta formativa" porque não cabem outras respostas, outras escolas nesse conceito ?

4. Há ainda que contar com o importante papel desempenhado pelos centros de recursos para a inclusão (CRI), que desenvolvem cursos de formação profissional e oferecem quase a única resposta a partir dos 16 anos aos alunos com graves dificuldades.
Foi a iniciativa dos cidadãos, principalmente pais, que deu implemento aos movimentos associativos das APP e CERCI  e outras associações de apoio à criança deficiente auditiva, visual, com paralisia cerebral, etc., face à falta de respostas do estado.
É necessário que a articulação das respostas seja uma realidade e que a definição dos objectivos do CRI seja entendida e aplicada por todos.
A alteração ao DL 3/2008 feita na Assembleia da República, alteração que pelos vistos para muitos não existe, devia ser consensual e aceite por toda a rede do sistema educativo. Ou então mude-se a alteração.
Artigo 4.º - A Instituições de educação especial
1 - As instituições de educação especial têm por missão a escolarização de crianças e jovens com necessidades educativas especiais que requeiram intervenções especializadas e diferenciadas que se traduzam em adequações significativas do seu processo de educação ou de ensino e aprendizagem, comprovadamente não passíveis de concretizar, com a correcta integração, outro estabelecimento de educação ou de ensino ou para as quais se revele comprovadamente insuficiente esta integração.
2 - As instituições de educação especial devem ter como objectivos, relativamente a cada criança ou jovem, o cumprimento da escolaridade obrigatória e a integração na vida activa, numa perspectiva de promoção do maior desenvolvimento possível, de acordo com as limitações ou incapacidades de cada um deles, das suas aprendizagens, competências, aptidões e capacidades.
3 - As instituições de educação especial podem ser públicas, particulares ou cooperativas, nomeadamente instituições particulares de solidariedade social, em especial as associações de educação especial e as cooperativas de educação especial, e os estabelecimentos de ensino particular de educação especial.
4 - O Estado reconhece o papel de relevo na educação das crianças e jovens com necessidades educativas especiais das instituições referidas no número anterior.
Além disso, há que contar com todos os recursos da comunidade à disposição de todas as pessoas, com dificuldades ou não. A integração na escola regular passa por uma série de apoios facultados às crianças e aos jovens que lhes permitam suprir algumas das suas dificuldades.

5. A integração/inclusão é um processo de desenvolvimento pessoal. A integração nunca está feita. Durante a vida de qualquer pessoa ela terá de fazer-se todos os dias. Diz respeito a todas as pessoas mesmo àquelas que aparentemente não têm dificuldades sensoriais, mentais, sociais, etc. Envolve todos os elementos da comunidade, e não apenas a escola, os pais ou as instituições de educação especial... Como para Han Fortmann
"A integração nunca é 'um caminho'!
A integração não é nem uma consequência
nem um resultado produzido.
A integração não é nem uma coisa que se ganhe
nem algo que nos seja distribuído.
A integração é a nossa maneira de ouvir os outros.
A integração é uma acção recíproca, mútua, permanente".
Mas virá tempo em que falaremos apenas de educação. Como refere Hegarty, os alunos com necessidades especiais não requerem integração, requerem educação.

08/12/13

Educação especial e cidadania




No dia 3 de Dezembro assinalou-se o Dia Internacional das Pessoas com Deficiência.

A cidadania é um princípio universal de inclusão e não pode haver diferenciação. Mas, ao mesmo tempo, a inclusão dos cidadãos passa pela criação de subjectividade mediante a atribuição de direitos a cada cidadão. (M. Bach, Democracia e subjetividade, pag. 115)

O conceito de cidadania apresenta três dimensões: A cidadania, como princípio de legitimidade política, como conjunto de direitos e deveres, cidadania como construção identitária e cidadania como conjunto de valores. (M.E. Brederode Santos)
É um estatuto que se define pela relação entre o indivíduo e o Estado, relação regulada por um conjunto de direitos e deveres codificados na Constituição da República Portuguesa. É a cidadania nacional.
Mas, desde 1992, pelo tratado de Maastricht, também somos cidadãos europeus. 2013 é o ano europeu dos cidadãos.  
Talvez possamos dizer que também temos uma cidadania mundial pelo facto de sermos habitantes do mundo. Como dizia Sócrates, pelo menos a frase é-lhe atribuída: "não sou nem ateniense, nem grego, mas sim um cidadão do mundo."

A cidadania é também ter identidade ou "sentimento de pertença a uma determinada comunidade e enraíza-se em factores como uma história comum, uma língua, valores, religião, cultura ...

A cidadania refere-se também aos valores, atitudes e comportamentos expectáveis do cidadão. Estes valores necessariamente são os que se orientam pelos direitos humanos que nos servem de bússola que podem  e devem orientar a Educação, e em especial a Educação para a Cidadania, centrando-a na defesa da dignidade das pessoas, no direito ao desenvolvimento da personalidade e no combate a todas as formas de discriminação..."
A Educação para a Cidadania deve ter uma perspectiva dinâmica integrando as temáticas que marcam a sociedade e a cultura, como por exemplo, a construção e oferta de condições que permitam a todos o acesso e o pleno gozo dos seus direitos, numa perspectiva de Educação Inclusiva.
A cidadania acontece quando devido às nossas diferenças, que podem ser mais visíveis, o sistema educativo intervém, com as respostas educativas correspondentes às necessidades da pessoa.

De acordo com a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, a cidadania exclui a "discriminação com base na deficiência que designa qualquer distinção, exclusão ou restrição com base na deficiência que tenha como objectivo ou efeito impedir ou anular o reconhecimento, gozo ou exercício, em condições de igualdade com os outros, de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais no campo político, económico, social, cultural, civil ou de qualquer outra natureza. Inclui todas as formas de discriminação, incluindo a negação de adaptações razoáveis."
Ou seja "modificação e ajustes necessários e apropriados que não imponham uma carga desproporcionada ou indevida, sempre que necessário, num determinado caso, para garantir que as pessoas com incapacidades gozam ou exercem, em condições de igualdade com as demais, de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais."
A escola é um espaço privilegiado de educar, de ensinar e de aprender, de errar e de acertar, de ter alegria e ansiedade, de construir amizades.
A escola é o espaço privilegiado de inclusão de todos os alunos que também são, antes de mais, cidadãos.

As emoções influenciam a tomada de decisões




Nos EUA, o professor catedrático António Damásio foi distinguido com o Prémio Grawemeyer 2014 na área da Psicologia. O português foi condecorado pela hipótese que apresentou sobre os marcadores somáticos, que mostra a forma como as emoções influenciam a tomada de decisões.

Os prémios Grawemeyer:

2013
Irving Gottesman
"O conceito endofenótipo na esquizofrenia" (“The Endophenotype Concept in Schizophrenia”).
2012
Leslie Ungerleider e Mortimer Mishkin
"Dois sistemas visuais corticais" ("Two Cortical Visual Systems”).
2011
Walter Mischel
"Desmistificando força de vontade: Demora de gratificação e força de vontade" ("Demystifying Willpower: Delay of Gratification and Willpower”).
2010
Ronald Melzack
"Teoria da comporta da dor" (“Gate Control Theory of Pain”).
2009Anne Treisman
"Teoria da função de integração" (“Feature Integration Theory”).
2008
Albert Bandura
"Auto-eficácia" ("Self-Efficacy").
2007
Giacomo Rizzolatti, Vittorio Gallese e Leonardo Fogassi
"Sistemas de neurónios-espelho" (“Mirror Neuron Systems”).
2006
John M. O'Keefe e Lynn Nadel
"Teoria do Mapa Cognitivo da função do hipocampo" (“Cognitive Map Theory of Hippocampal Function”).
2005
Elizabeth F. Loftus
"A natureza maleável de memória" (“The Malleable Nature of Memory”).
2004
Aaron Beck
"Abordagens cognitivas à violência etno política" (“Cognitive Approaches to Ethno Political Violence”).
2003
Daniel Kahneman e Amos Tversky
"Estratégias de julgamento e Heurística" (“Judgmental Strategies and Heuristics”).
2002
James McClelland e David Rummelhart
"Processamento paralelo distribuído" ("Parallel Distributed Processing”).
2001
Michael I. Posner, Marcus E. Raichle e Steven E. Peterson
"A imagem da mente humana" ("Imaging the Human Mind”).

06/12/13

Os pais da prova



A prova nasceu aqui (Decreto-Lei n.º 270/2009, de 30 de Setembro). Não foi invenção deste governo nem deste ministro. Mas ninguém esperava que isto fosse para executar. Afinal, era mais um alçapão para o ministro Crato tropeçar. E aí está como se perdeu mais uma oportunidade de romper com o passado.

Bem se pode dizer que a prova tinha outros objectivos... 


03/12/13

Quebrem barreiras, abram portas...




“Entre nós, mais de um bilhão de pessoas vivem com algum tipo de deficiência. Temos de eliminar todas as barreiras que afetam a inclusão e a participação de pessoas com deficiência na sociedade, incluindo mudanças de atitudes que estimulam o estigma e a institucionalização da discriminação."
(Ban Ki-moon)

22/11/13

Potpourri


Quase. O comício da aula magna foi na realidade uma mistura heteróclita de coisas diversas, secas, velhas, sem qualquer fragrância que possa ainda interessar os vivos. Pelo contrário. A fragrância...

(3-12-2013)
Num momento crítico nacional, a fragrância recende o anti-democrático e populista.
Apenas um desejo frívolo, artificial e mesquinho pode atacar um presidente democraticamente eleito por 52,95% dos votos dos portugueses. 
Além disso, apenas uma  obsessão que é um erro político primário faz com que não se vislumbre objectivamente o trabalho do presidente e o seu respeito pelas instituições e pela constituição.
Este é um país pequeno e doce que não vai na agitação dos que atiçam os ânimos mais mesquinhos para ver se a coisa pega. 
A mão que embala o berço devia  ser a de alguém que apelasse à paz, à fraternidade, à compreensão, que organizasse conferências com o objectivo de ajudar a resolver os problemas do país, que podia ser  modelo para um povo, para os jovens. Em vez disso embala um sonho utópico, irrealizável, feito de agitação e propaganda, na expectativa de que alguém faça o trabalho sujo.
Só lembraria ao diabo, respaldar a opinião da violência na palavra do papa. A crítica ao capitalismo  é a que pode ser feita porque não há outra coisa para criticar. A igreja continua a fazer o que sempre fez. Pelo menos desde a Rerum novarum (1891). Mas o maniqueísmo até na religião quer dividir papas bons e maus, patriarcas bons e maus... conforme os momentos em que a coisa dá  jeito.
É caso para dizer que com "papas" e bolos se enganam os tolos.

20/11/13

A húbris

Quarta-feira. 22H25. A esta hora, as "alternativas", no cabo, eram estas: Januário T. Ferreira (rtp informação), Mário Soares (tvi 24)  e Bagão Félix, seguido de M. Alegre (sic notícias). O governo não precisa de oposição. Neste ponto, tem o pensamento, não digo único, mas pelo menos unificado ou unidimensional, contra. 

A tvi anda às voltas com a vingança na família Belmonte. Ela por ela, prefiro.

Resultados escolares e cultura




Na semana passada, saíram os rankings das escolas relativos aos exames do 4º 6º, 9º anos e ensino secundário, do ano lectivo 2012-13, e, como tem acontecido em anos anteriores, há todo o tipo de justificações para todo o tipo de resultados.
Uma das explicações mais comuns para os maus resultados é que esses maus resultados são devidos ao estatuto socioeconómico das famílias dos alunos.
A questão é que há escolas que não encaixam neste figurino do determinismo socioeconómico. 
As escolas das aldeias são a priori inscritas neste estatuto socioeconómico desfavorável.
Ora acontece que as crianças de escolas de aldeias não têm piores resultados do que as outras de escolas urbanas com estatuto socioeconómico mais elevado
Acontece também que há escolas de aldeias ou urbanas onde quase metade dos alunos são subsidiados (ASE) e que ainda assim podem ter melhores resultados do que aquelas onde há poucos alunos subsidiados.
Nos exames do 4º ano de escolaridade, as duas primeiras escolas públicas do concelho de Castelo Branco estão nesta situação. A escola básica das Sarzedas e a escola básica da srª da Piedade encontram-se, no ranking das escolas públicas do concelho, respectivamente, em primeiro e segundo lugar, e em sétimo e décimo segundo lugar, no distrito.
O investimento na qualidade da educação que não passa apenas, e principalmente, pelo investimento em instalações e equipamentos, tem vencido a causalidade socioeconómica. 
Os filhos de pais analfabetos ou pouco alfabetizados podem ser licenciados e ou bons profissionais.
Os filhos de famílias pobres, com frequência, conseguem ter bons resultados escolares…

E não é para isso que serve a escola ?

"...recorrendo a um aterrador determinismo social, dá-se como adquirido que as escolas privadas conseguem bons resultados porque os seus alunos vêm de meios privilegiados enquanto as públicas recebem os filhos dos pobres e como tal estão condenadas ao insucesso.
Esta espécie de fatalismo social isenta todos os protagonistas de responsabilidades e sobretudo leva a que automaticamente se baixem as expectativas em relação aos alunos provenientes de meios menos favorecidos." (H. Matos)

Este argumento tem servido, por exemplo, para justificar o fecho de escolas de pequena dimensão, levando os alunos para centros escolares onde, supostamente, terão as melhores instalações para aprender. 
Tem servido para justificar a não intervenção educativa em relação aos alunos que têm dificuldades de aprendizagem.
Ora não é isso que faz a diferença. O que faz a diferença da escola na obtenção de bons resultados é a organização e cultura de escola, os próprios alunos com as suas determinantes genéticas e mesológicas (certamente) e a sua determinação, o trabalho, na procura do sucesso ou, se quisermos, a vontade de aprender e o professor.

Ao contrário, o círculo vicioso da justificação social e económica das escolas com maus resultados vai-se reproduzindo como um meme e aí temos o insucesso escolar dos pais a manter-se no insucesso escolar dos filhos e netos, na reprodução da narrativa familiar "eu também não gostava da escola".
A diferença está na cultura que rompe com esta justificação do círculo vicioso do fatalismo social e económico.


16/11/13

Manipulação digital dos espíritos



Seja "p'ra mentira ser segura / e atingir profundidade / tem de trazer à mistura / qualquer coisa de verdade" ou  seja tudo verdade ou tudo mentira o que aqui é dito, a manipulação digital dos espíritos mais do que a "comunicação política digital" é o que interessa neste jogo de condicionamento comportamental em que a política de esquerda, de direita, ou de outro lado qualquer, funcionou e funciona sempre do mesmo modo: os fins justificam os meios. Agora é a "malta dos blogues", simultaneamente manipuladora e manipulável com proveito, efémero como sempre é o poder, para alguns. E, "perante este mundo novo e perigosíssimo, o jornalismo está mais manipulável". 

12/11/13

A comentação e o medo do sucesso



As pessoas e as empresas vão tendo os seus sucessos e o país também vai conseguindo uns pequenos sucessos na economia ou como acontece com este 
No entanto, em geral, o medo do sucesso é o politicamente correcto. Não se fala disso, desvaloriza-se. É o que mais interessa  à oposição, fazer crer que quanto melhor, pior. Era de esperar. A comunicação social também gosta da versão bad news. Era de esperar. Mas a maioria da comentação, incluindo a da área do psd e do cds, também se compraz em estar morta.

"O medo do sucesso é um dos últimos medos de que tenho ouvido falar ultimamente. E acho que é sem sombra de dúvida, um sinal de que estamos a ficar sem medos. Uma pessoa que tem medo do sucesso já chegou ao fundo do poço.
Será que vamos precisar de reuniões tipo Alcoólicos Anónimos para essas pessoas ? Levantam-se e dizem: «Olá sou o Bill e não suporto a ideia de ter uma aparelhagem de som e um sofá creme.»
Segundo a maior parte dos estudos, o maior medo das pessoas é falar em público. O segundo maior é a morte. A morte vem em segundo lugar. Acham bem ? Isto significa que, para as pessoas normais, quando têm de ir a um enterro, preferiam estar no caixão a ter de fazer o elogio fúnebre." (Jerry Seinfeld, Linguagem Seinfeld, pag. 98)

08/11/13

Rorschach


Hermann Rorschach nasceu no dia 8 de Novembro de 1884, em Zurique, na Suíça, há 129 anos. 
O Google traz um Doodle interactivo sobre o psiquiatra Hermann Rorschach, conhecido pelo seu trabalho de interpretação de manchas de tinta. 
Às vezes uma mancha de tinta é apenas uma mancha de tinta mas nem sempre uma mancha de tinta é apenas uma mancha de tinta. 

07/11/13

Automóvel e personalidade




aqui falámos do problema da multitarefa e condução, ou seja, por exemplo, conduzir e falar ao telemóvel. E fazer isso, mesmo que fosse permitido, é uma habilidade que muito poucas pessoas possuem, No entanto, todos vemos, frequentemente, condutores que falam ao telemóvel, completamente descontraídos e distraídos.
Esta é uma experiência que todos temos: condutores a falar ao telemóvel nos mais inesperados locais apesar de não ser permitido, apesar de colocar em perigo o trânsito e ser uma das causas frequentes de acidentes....
Este é também daqueles comportamentos perfeitamente evitáveis mas que insistimos em não ter.

Foi notícia, na semana passada, comentada na cidade e na imprensa local, o caso de um condutor alcoolizado que subiu a avenida 1º de maio em contramão (Reconquista, 30/10/2013), colocando em perigo a própria segurança e a de todos os que se deslocavam naquela avenida e apanharam um grande susto.
O que faz com que um individuo mesmo alcoolizado decida conduzir ?
O que acontece às pessoas para terem comportamentos tão irresponsáveis ?
O que faz um condutor julgar-se omnipotente e pensar que é o melhor ?

Os números dos acidentes são assustadores. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS) mais de 1.2 milhões de pessoas morrem em acidentes rodoviários por ano e mais 20 a 50 milhões de pessoas são feridas.
A OMS prevê que em 2030 as mortes causadas por acidentes rodoviários se torne a 5ª causa de morte a nível mundial, ultrapassando outras causas de morte como o HIV, todas as formas de cancro, violência, e diabetes. (1)

Conhecer os comportamentos dos condutores é uma tarefa importante, tal como os condutores conhecerem os seus próprios comportamentos. Este é um trabalho de prevenção que deveria fazer-se com frequência.
O problema começa logo por aí: a negação. Eu sou competente a conduzir, os outros é que são um problema, os outros são um obstáculo ao meu ego.

“O automóvel, através das determinações económicas e da menta1idade colectiva, é, hoje, um facto político primordial".  Político porque está no centro da nossa vida de cidadãos. Muitas das intervenções das autarquias são decididas em função do automóvel: "...para aumentar o alargamento das artérias no interior das cidades, parques de estacionamento à superfície ou subterrâneos; as próprias estradas periféricas têm o efeito de incitar as pessoas a conduzir mais carros, num círculo vicioso e sem saída".
"O desenvolvimento do automóvel constituiu um dos factores mais marcantes do século XX, por implementar um aumento da facilidade de deslocação e como consequência da qualidade de vida." (2)
O problema é que ser cidadão total na sociedade actual tornou-se ser dependente do automóvel.

"Por outro lado, o automóvel possui a nível individual e colectivo uma série de conotações simbólicas, que se encontram relacionadas com sentimentos de afirmação pessoal e social, e que são geridos e agidos por cada um de acordo com a sua personalidade. Esta, está presente em todas as actividades e relações que estabelece com o mundo que o rodeia, não sendo a condução uma excepção. É de salientar que, provavelmente o risco que se revela na condução, não é mais do que um espelho da situação em que o sujeito se encontra nas restantes áreas da sua vida, e do modo como gere e lida com os seus conflitos." (1)

É, por isso, que a condução automóvel mostra qual a personalidade do indivíduo e a sua relação com os outros. Mostra também o que é necessário cuidar e melhorar na nossa personalidade. Diz-me como conduzes, dir-te-ei quem és mas o contrário também é verdade: diz-me quem és, dir-te-ei como conduzes.

____________________________

(1) OMS,  Melhoria da segurança rodoviária global.
(2) R. Girão e R. A. Oliveira, Condução de risco: Um estudo exploratório sobre os aspectos psicológicos do risco na tarefa de condução.

01/11/13

Gentileza

Cosmos bipinnatus


Gentileza é a capacidade de perceber uma necessidade de alguém e ou retribuir algo que lhe foi feito, sem ser pedido. Ou seja, ser gentil é ter educação, ser delicado, amável, cordial, polido e ter urbanidade.
Ter um sorriso (1), um gesto para segurar a porta. Dizer com licença e obrigado…Pode ser um elogio ou ajudar a atravessar a rua…
Pode ser conversar, tentar dar ajuda ao outro através da confiança e da esperança, da partilha de experiências, de alertar para um perigo ou de uma proximidade que nos faz falta.
A gentileza é esta capacidade individual que faz falta na sociedade. Algumas pessoas com imagem pública não parecem estar muito preocupadas com comportamentos de gentileza. Pelo contrário, primam pela grosseria. (2)

Na política ouvimos essa linguagem grosseira a que não estávamos habituados e eu espero nunca me habituar. Parece até que estamos num concurso em que se procura superar o mais mal criado. 
Com raras excepções temos líderes e ex-líderes que criam animosidade dando a entender que as ruas têm alguma solução para a crise.
A palavra cooperação está arredada das interacções sociais e nem sequer uma base de trabalho para um entendimento se consegue. O esforço do Sr. Presidente da República para um entendimento que punha os interesses do país acima dos interesses partidários não teve seguidores.

No futebol, que por mais fair-play que digam ter, assistimos a insultos e falta de respeito pelos colegas do mesmo ofício. Aliás, há quem vá ao futebol ou a outras manifestações apenas para criar desordem …
De facto, temos muitas iniciativas sobre a paz e sobre a não violência e parece que não diminui a agressividade na vida das pessoas.
A gentileza é um valor positivo, e por isso não tem boa imprensa. O espírito de cooperação, de compreensão e de bondade não dão de facto boa imprensa, ao contrário da contestação, desconfiança, maledicência, manifestações e protestos.

Mais uma vez, talvez possamos esperar alguma alteração vinda da escola. A escola pode ser um local onde podemos pôr em prática a gentileza. Ser gentil é ter educação na sala de aula e no recreio com os adultos e colegas. (3)
E é verdade que a maioria das crianças cultivam a gentileza: ajudam os mais pequenos, ajudam os mais frágeis, os que têm alguma deficiência...
No trabalho, nas empresas, a gentileza é um factor importante para beneficio pessoal mas também da própria empresa. Gentileza significa também mais produtividade. (4) Gentileza rima com riqueza. (5)

O dia mundial da gentileza teve início no Japão, na década de 1960 (Small Kindness Movement), para conter a onda de violência na Universidade de Tóquio. Se cada um fizesse uma pequena gentileza diária, a bondade seria sentida na comunidade, na cidade ou até no país. (6)
O dia 13 de Novembro é o dia da gentileza e da bondade. 
Mas a gentileza é de todos os dias, começa em cada um de nós e não temos que ser santinhos ou diabinhos...
A propósito: Já hoje foi gentil com alguém ?

_________________________

(1) O Dia Mundial do Sorriso assinala-se a 28 de Abril. A data foi criada em 1963 por Harvey Ball, um artista de Worcester, Massachussets, que criou a imagem do smiley, reconhecida internacionalmente.



Smiley



(6) A ideia do World Kindness Movement foi concebida na conferência de Tóquio, em 1996, e o movimento foi criado na segunda conferência em 1997.

23/10/13

...Walk in the sun once more


Três versões extraordinárias - Lena Horne, Billie Holliday, F. Sinatra e Quincy Jones - do mesmo tema, nesta tarde de Outono, chuvosa. Apesar do tempo, e do mau tempo, há sempre a esperança de voltar a passear ao sol ainda muitas vezes.










Stormy weather

Don't know why there's no sun up in the sky
Stormy weather
Since my man and I ain't together,
Keeps rainin' all the time
Life is bare, gloom and mis'ry everywhere
Stormy weather
Just can't get my poorself together,
I'm weary all the time
So weary all the time
When he went away the blues walked in and met me.
If he stays away old rockin' chair will get me.
All I do is pray the Lord above will let me walk in the sun once more.
Can't go on, ev'ry thing I had is gone
Stormy weather
Since my man and I ain't together,
Keeps rainin' all the time.
(Harold Arlen, Ted Koehler)

Público e privado: mais calor do que luz



Continua a discussão mistificadora entre público-privado. É uma discussão interminável. Como se fossem duas linhas paralelas que jamais se encontram.
E como escrevia Schumacher “os argumentos ao longo destas linhas de discussão produzem geralmente mais calor do que luz, como acontece com todos os argumentos que derivam a "realidade" de uma estrutura conceptual, em vez de derivarem uma estrutura conceptual da realidade”. (pag. 232) *

Embora a discussão se aplique a todos os sectores, a escola parece ser dos terrenos mais disputados entre estas duas linhas. Obviamente que podemos ter a opção por uma destas duas linhas e clivar em bom e mau o serviço prestado, como se bom fosse o estado ou mau fosse o privado e vice-versa.
Quando a preocupação deveria ser termos escolas de sucesso, criar serviços de saúde de excelência, criar redes de solidariedade do estado e das instituições privadas, sendo o estado apenas o regulador.
Alguns autarcas já o estão a fazer. Por exemplo, não gerem equipamentos sociais directamente mas apoiam-nos financeiramente e regulam a aplicação do investimento.**
Em relação à escola pública o que se faz é confundir-se escola pública com escola estatal. Como se públicas não fossem todas as escolas e não estivessem ao serviço dos cidadãos. O proprietário é o que menos importa em relação ao resultado final. As metas são as mesmas e os meios (a gestão) são igualmente dignos mas podem fazer a diferença.
O que é afinal a escola pública? É um sistema caro,  com desperdícios enormes e com gestão centralizada e quase impossível.
É uma escola que deixa para outros a grande tarefa de preparar os alunos para as avaliações. É um sistema em que existe um currículo oculto de que faz parte, por exemplo, o subsistema das explicações,  privado, e sem qualquer forma de regulação.
E cada vez mais as explicações começam mais cedo, logo no 1º ciclo e vão até ao 12º ano, com um peso extraordinário no horário dos alunos e na carteira dos pais. Mas, para nosso espanto, comunicação social e pais quase nunca apresentam queixas das mensalidades das explicações, apenas acham caros os livros e os cadernos !

Há escola pública  e escolas públicas.
A frequência de determinadas escolas públicas por algumas elites significa que há selecção de determinados públicos, transformando-as em escolas públicas de elite ?
Há escolas públicas onde estão a maioria dos alunos com NEE e com problemas comportamentais. Escolas que procuram ser inclusivas. Mas em que escolas públicas ? Qual a implicação que isso tem nas turmas ? 
Há escolas públicas que apesar da lei não o permitir, não "querem" alunos com estas características. E se bem o pensam melhor o fazem, uma vez que têm um número de alunos com NEE residual.
Além disso, duma maneira geral com a criação das AEC, destruiu-se o subsistema de tempos livres. O estado não deixou ficar na iniciativa privada/particular/cooperativa/associativa o subsistema de tempos livres e preferiu criar actividades de enriquecimento curricular, a chamada “escola a tempo inteiro”. Para quê ?***

Em vez de opor público a privado numa discussão sem fim, porque não se pensa num sistema educativo de que façam parte os vários subsistemas em articulação: estatal, privado, acordado, concordatário, particular (IPSS), cooperativo  (CERCIS)... em que todos concorrem para a educação dos cidadãos ?

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*Schumacher referia estas possibilidades:

Caso 1
Liberdade
Economia de mercado
Propriedade privada
Caso 5
Totalitarismo
Economia de mercado
Propriedade privada
Caso 2
Liberdade
Planeamento
Propriedade privada
Caso 6
Totalitarismo
Planeamento
Propriedade privada
Caso 3
Liberdade
Economia de mercado
Propriedade colectivizada
Caso 7
Totalitarismo
Economia de mercado
Propriedade colectivizada
Caso 4
Liberdade
Planeamento
Propriedade colectivizada
Caso 8
Totalitarismo
Planeamento
Propriedade colectivizada

Infelizmente, a recente experiência do país sobre  PPP veio inquinar toda a discussão sobre estas e outras possibilidades. Só faz sentido o estado fazer contratos PPP se houver benefícios para as partes e, efectivamente, os clientes  forem os principais beneficiados.

**Em Castelo Branco, a gestão autárquica percebeu isso muito bem. Em geral, o município não cria nem gere instituições sociais mas fez a opção  de apoiar as instituições através de apoio financeiro e da sua regulação.

***Algumas vantagens deste subsistema não estar na gestão do estado:
- distinção de espaço escola /espaço tempos livres que permite que o aluno não passe na escola mais de 40 horas como acontece actualmente;
- o recrutamento de professores e outro pessoal qualificado, como animadores culturais,etc.;
- a possibilidade de uma carreira de pessoal qualificado nesta área;
- a mudança de espaços, com vantagem para a disciplina na sala de aula;
- a interacção com colegas de várias escolas, de anos de escolaridade diferentes;
- a possibilidade de "mostrar" outras competências e de evitar "clichés" da escola, dos colegas da escola;  
- a flexibilidade de horários;
- a possibilidade de conjugar o horário mais facilmente com actividades culturais, como a frequência de conservatórios e instituições desportivas;
- a liberdade de escolha das crianças e dos pais.

20/10/13

Estado social

Tirada daqui

Foram os liberais que o criaram. Do welfare state do plano Beveridge ao "plano" de Mouzinho da Silveira, em Portugal.

Classe política e política de classe

Esta crónica de Camilo Lourenço, sobre "classe política" e austeridade, lembra-me outra história.

À porta do Céu, está uma série de pessoas em fila, esperando a sua vez. Vários grupos tentam passar à frente, mas São Pedro impede-os sempre. Chega então um grupo de políticos que passa impunemente.
Finalmente, um velhinho, tenta, sem sucesso, passar também à frente. Interrogado sobre quem é aquela personagem, São Pedro responde: - É Deus. Ele está tão velhinho e esquecido, que às vezes pensa que tem
tantos direitos como os políticos.  (António Frade, Cousas e lousas, pag. 146)

A húbris


Ontem, Herman entrevistou o "profissional do optimismo".
Para ele, Passos Coelho, que está a pagar a conta, "é um político moderno" mas "moderno demasiado simples", ou seja, ... "neoliberal".
Nem um pingo de reconhecimento de qualquer erro. Perdão, arrepende-se da demissão de Manuel Pinho.
Herman dá-se conta de que já ultrapassou o tempo. Pois é. A narrativa do convidado "embala-nos".
Mas há mais: "Foi a crise política que trouxe a tróica, não foi nenhuma decisão do governo anterior."
Repare-se "a crise política". Foram os outros. Mesmo a crise política nada tem a ver com ele.

Como aqui se diz:

18/10/13

"Cousas e lousas"




De António Frade recordo, principalmente, o tempo em que trabalhámos na Comissão de Protecção de Crianças e Jovens de Castelo Branco. 
Era um homem bom, de respeito, que tinha, entre outras características, a paixão pela sua terra,  "a minha raia", " a minha cidade".
Era o lutador pela qualidade de vida dos cidadãos a quem criticava o comportamento desajustado mas que tinha a sensibilidade de reconhecer a dignidade nos que mais necessitavam e sofriam.
Tinha auto-estima pelas "suas" cousas e gostava dos jardins, dos parques, das fontes, dos bebedouros... desta nossa cidade. Levava as suas propostas às instâncias democráticas mesmo que essas propostas fossem relegadas para o dia de são nunca ou lhes fizessem ouvidos moucos.
Tinha o espírito crítico aliado ao respeito, e falava da importância da crítica viesse de quem viesse.
Era solidário com a sua intervenção na comunidade e nas instituições sociais.
Era professor e, reflexo disso, tinha sempre uma atitude pedagógica que as suas crónicas manifestam e, pessoalmente, vi ter com crianças e jovens. 
As suas crónicas são ensinamentos de cidadania.

16/10/13

Saúde mental e inclusão escolar







A escola é o local onde se decide o futuro de um país. O que Walt Whitman perguntava à América, em 1874, pode ser também a nossa interrogação:
E tu, Portugal,
Fizeste uma avaliação real do teu presente ?
Das luzes e das sombras do teu futuro, bom ou mau ?
Presta atenção às tuas raparigas e rapazes, ao professor e à escola.
Assistimos, diariamente, a situações não inclusivas na sociedade e na escola. Perante casos de violência que vão acontecendo em algumas escolas, perguntamos o que se está a passar ou acusamos os que, para nós, são responsáveis. Mas haverá apenas um responsável ? A responsabilidade pode ser mais de um ou de outro, em determinado momento, mas ela é repartida pelo sistema educativo, escola, pais, os próprios alunos.
Para uma análise desapaixonada destas situações, era talvez mais vantajoso entender que a inclusão escolar não se coaduna com a propaganda e instrumentalização do sector educativo e em que pouco interessa dividir entre os bons e os maus da inclusão, como habitualmente. 
Além disso, na educação a aplicação de medidas e de reformas não se pode confundir com obstinação, ou com a instabilidade como se as reformas na educação fossem um jogo de cartas: baralhar e dar de novo. É que se for um jogo ele só pode ter sempre o mesmo vencedor: os alunos.

Quando em 2008, o secretário de estado da educação afirmou que em 2013 haveria, em Portugal, uma verdadeira escola inclusiva, muita gente ficou expectante em relação a tanto excesso de confiança.
Sabíamos, na senda de Hann Fortmann, que a inclusão nunca está concluída e nunca se fará por decreto ou por voluntarismo governamental porque ela também faz parte da mentalidade e da cultura da sociedade onde vivemos e de cada momento da vida de cada um. 
Estamos no final de 2013 e, como era de esperar, a escola inclusiva está em construção, dia após dia, com o trabalho dedicado de todos.

Há dificuldades que resultam dos próprios problemas apresentados pelos alunos. A sociedade e a escola aceitam (ou talvez estejam mais preparadas para aceitar) com alguma facilidade a inclusão dos casos deficitários. No entanto, os casos de doença mental nem sempre são vistos como um problema de inclusão.
E estes casos também devem ser considerados como necessidades educativas especiais.
São, aliás, os casos mais perturbadores do comportamento e da disciplina que deve existir na escola e, geralmente, são responsáveis por algum alarme social. Envolvem situações de violência para com outros alunos, adultos e para os próprios. São casos em que o ódio e a raiva dominam a vida emocional e, compulsivamente, se dirigem contra o outro e contra o próprio, como nos comportamentos de auto-mutilação e perda de auto-estima.
Por isso, são, frequentemente, rejeitados pelos colegas e pela própria comunidade educativa. 

Estes problemas vão surgindo ao longo do desenvolvimento, desde cedo, chegando a ter manifestações graves no período escolar. 
Na idade pré-escolar e escolar "assume particular importância o diagnóstico e a intervenção em patologias com  impacto no desempenho escolar, como a hiperactividade com défice de atenção (PHDA), as 
perturbações de oposição ou as problemáticas do foro ansioso e depressivo." 
Na adolescência, "as problemáticas da ansiedade, da depressão, do risco suicidário e de outros comportamentos de risco têm uma prevalência significativa nesta faixa etária. Começam a tornar-se também mais frequentes as patologias aditivas, requerendo novas especificidades ao nível da avaliação e 

No entanto, a  área da saúde mental é um dos sectores onde os recursos são muito escassos. O relatório Portugal Saúde Mental em números – 2013- Programa Nacional para a Saúde Mental, refere: "Tal como se verificou com a população adulta, também no setor da infância e adolescência a descentralização das respostas (36 dos 41 SLSM têm pelo menos um Pedopsiquiatra e sendo os outros profissionais em
número variável), a produção médica em ambulatório cresceu de modo significativo, embora ainda insuficiente."
Esta dificuldade de acesso aos especialistas de pedopsiquiatria é um assunto conhecido há longa data e não se vê melhoria neste aspecto, apesar do optimismo do relatório. Há capitais de distrito onde praticamente não há um especialistas desta área, como é o caso do distrito de Castelo Branco, onde se contam pelos dedos da mão.


A inclusão é uma tarefa difícil de concretizar em cada situação e nunca está acabada. Ela realiza-se em cada momento da vida das pessoas.
Cada família, cada escola, tem a responsabilidade de integrar todos os seus elementos, quando têm défices e quando estão doentes, procurando as melhores respostas, as respostas possíveis, dentro da própria família, na escola, no sistema de saúde e na comunidade. Não é fácil. "O sentimento de ser rejeitada é o que há de mais difícil de suportar para a criança." (João dos Santos)