26/12/14

Adeste fideles


Uma das músicas de Natal mais conhecidas no mundo, é, certamente, portuguesa.
Quanto ao seu autor, pode resumir-se assim o assunto:
"The author and Composer was King John IV of Portugal in 1645.
Erroneous and subsequently, it was spread as being composed by other authors.
Of course, these authors, having been born after the oldest manuscript of this work, can not be considered true authors, nor is there any expert who now defend it. This manuscript comes from the Royal Library of the Ducal Palace of Vila Viçosa (Portugal).
By the way, it was known in the english royal court at the time, as the "Portuguese Hymn" (Aida Magalhães).
"A autoria da melodia, jamais será conhecida com certeza. Mas não há dúvida de sua origem portuguesa."(J.J. Peralta).
Há vários milhares de versões, para todos os gostos, mas o original é nosso, e não de um tal John Wade.

16/12/14

Dias mágicos

Há dias especiais na nossa vida. Um deles é o dia de Natal que celebra o nascimento de Cristo. Na realidade, o nascimento de Cristo foi em data desconhecida, mas a decisão corresponde ao solstício de Inverno dado que essa é a ligação entre a renovação da natureza com a renovação simbólica que Cristo veio trazer.



O Natal como celebração festiva anual é para todos mas, especialmente para as crianças, é um acontecimento mágico em que todos os actos têm um significado simbólico: os presentes são como os presentes dos Reis Magos, as luzes da árvore de natal, a iluminação das ruas, a chama do madeiro, são o símbolo do Sol da nova vida; a mesa farta, pelo menos mais do que é habitual e a reunião familiar transmitem à criança as duas coisas fundamentais para o seu desenvolvimento: a alimentação e a segurança física e afectiva. A criança tem assegurado a protecção da família que lhe permite a vida e não ser abandonada.(Bruno Bettelheim)
No Natal e nos dias festivos a criança torna-se centro das atenções de toda a família e comunidade.
A criança acredita nas figuras concretas do Natal, como o Pai Natal ou o Menino Jesus. Naturalmente, há-de chegar o tempo em que a criança percebe que não existem essas figuras concretas a oferecerem presentes, embora possa continuar a fingir que acredita. 
O pensamento mágico domina a criança durante os primeiros anos de vida. Entre os 2 e os 7 anos, para este tipo de pensamento, nada é impossível, podem existir centenas de pais natais, pode descer pela chaminé sem se queimar, ou pode transportar tantos presentes ou ainda que saiba exactamente qual o presente para cada criança...

Claro que as épocas festivas se tornaram também épocas em que há o perigo de reduzir tudo aos bens materiais e ao consumo.
Há quem veja apenas este lado negativo e assuma a atitude paternalista de indicar ou orientar os outros de como deve fazer. Consumistas são sempre os outros. 
Focamo-nos nesta abstracção de que estes dias só servem para consumir.
Obviamente cada pessoa sabe como se deve orientar nas compras, nos dias festivos ou noutras circunstâncias, e, quando não sabe, estamos perante outro problema.
Todos sabemos que não é principalmente o preço do presente que interessa mas o seu valor simbólico. Lembro-me da felicidade que sentíamos quando na manhã do dia de Natal íamos ver os presentes que os pais, pessoas normalmente pobres, podiam dar aos filhos e de que ninguém fazia questão com o valor das prendas.
É o valor emocional que tem importância. Estes objectos são símbolos de felicidade que atenuam a nossa ansiedade, insegurança e que podem dar-nos confiança para enfrentarmos o futuro.
É também por isso que os pais guardam "aquelas coisas" que os filhos oferecem quando vêm do jardim de infância e com todo o carinho do mundo nos dizem: “ fui eu que fiz para ti”. 
Ou como os namorados que oferecem objectos insignificantes um ao outro.
É por isso que guardamos pedras de variadas formas e cores que os filhos nos oferecem em dias especiais quando frequentam o jardim de infância e que, para mim, são as minhas pedras preciosas.

Desejo a todos um bom Natal, com muitos presentes, caros ou baratos, pouco importa, desde que oferecidos com o coração. 
  

10/12/14

Direitos do homem


Faz hoje 66 anos que foi aprovada a Declaração Universal dos Direitos do Homem.
Em 10 de Dezembro de 1948, depois da segunda guerra mundial que causou um sofrimento terrível e que tão mal tratou os direitos do homem, a Declaração foi adoptada e proclamada pela Assembleia Geral das Nações Unidas (Resolução 217A (III) de 10 de Dezembro de 1948).
O dia 10 de Dezembro foi proclamado, em 1950, pela Organização das Nações Unidas, "Dia Internacional dos Direitos Humanos", com o objectivo de alertar os governantes de todo o mundo para o cumprimento da Declaração Universal e assegurar a aplicação dos seus princípios. 
A Declaração Universal dos Direitos do Homem, considera,essencialmente, que:
- a dignidade inerente a todos os membros da família humana e os seus direitos iguais e inalienáveis constitui o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo;
- o desconhecimento e o desprezo dos direitos do homem conduziram a actos de barbárie que revoltam a consciência da Humanidade
- é essencial a protecção dos direitos do homem através de um regime de direito, para que o homem não seja compelido, em supremo recurso, à revolta contra a tirania e a opressão;
- é essencial encorajar o desenvolvimento de relações amistosas entre as nações.

Uma das dificuldades de aplicação é o relativismo cultural, ou seja, a ideia de que todas as acções são correctas ou incorrectas consoante a cultura e, por isso, que violar qualquer dos direitos consagrados na Declaração é eticamente permissível desde que seja permissível numa dada cultura
Para o relativismo cultural a Declaração dos Direitos do Homem, não exprime princípios éticos universais
Ora acontece que o relativismo cultural é incompatível com os direitos humanos universais, entre outras razões, porque há uma grande diferença entre respeitar costumes e tradições que que não têm relevância ética, como por exemplo, comportamentos sociais (casamento, vestuário...)  ou comportamentos sexuais, e respeitar costumes que têm relevância ética, como a escravatura, a discriminação das mulheres ou a violação de crianças. 

Os direitos humanos vão sendo cumpridos e também desrespeitados um pouco por todo o lado.
Não apenas em países com ditaduras e regimes totalitários mas também em países democráticos como o nosso.
Os direitos humanos não são cumpridos quando, em Portugal, se conta pelo número de 40 os homicídios domésticos 
Os direitos humanos não são cumpridos quando voltamos à barbárie, com a morte de pessoas inocentes em nome de fundamentalismos religiosos ou culturais.
Os direitos humanos não são cumpridos quando, nas prisões, se pratica a tortura de presos, mesmo quando um país é atacado de forma bárbara.

Portugal tem particular responsabilidade por ter sido eleito, em Outubro deste ano, para o Conselho de Direitos Humanos da ONU, para o biénio 2015/2017, com um número recorde de votos.
Na sua candidatura (road map de Lisboa), Portugal defendia o carácter individual, universal, inalienável e interdependente dos direitos humanos. Ou seja, era recusada uma abordagem relativista de ordem cultural e geográfica na aplicação dos direitos humanos.
Era então desejável que se começasse pela nossa própria casa a cultivar esses princípios consagrados na Declaração Universal dos Direitos do Homem.

02/12/14

Entardecer

Castelo Branco, 17H24


ENTARDECER
                                                          
                                        O anoitecer enverga lentamente as vestes
                                        que um renque de velhas árvores lhe sustém;
                                        tu olhas: e de ti separam-se as terras,
                                        uma que sobe ao céu e outra que se despenha;  
                                        e deixa-te, a ti que a nenhuma pertences,
                                        nem tão escuro como a casa silenciosa
                                        nem tão seguro evocando a eternidade
                                        como a que todas as noites se torna astro e ascende -  
                                       e deixam-te (indizível de desenredar)
                                       a tua vida inquieta, imensa e amadurecendo,
                                       para que, ora confinada, ora compreensiva,
                                       em ti se torne ora pedra ora estrela.

Rainer Maria Rilke, O Livro das imagens, Relógio d'Água
 (Trad. de M. João  Costa Pereira)

Ética, moral e justiça

 

A ética é a ciência dos princípios da moral. A moral designa a aplicação desses princípios nos actos particulares da vida.
A moral é a ciência do bem e da acção humana.
“Hoje em dia a moral apresenta-se mais particularmente como uma teoria das relações com outrem uma filosofia da “comunicação” (M. Buber, E. Levinas): é na relação imediata com o rosto do outro que o homem faz originariamente a experiência dos valores morais (por exemplo, captar o olhar do outro é compreender que não o podemos constranger)”. (Larousse)

A ética e a moral andam juntas em toda a nossa vida. E é pela interacção das duas que podemos pautar os nossos comportamentos. A interacção entre a ética e a moral podem originar conflitos e por isso é necessário optar pela melhor decisão.
Um dos conflitos diz respeito ao relativismo cultural. O conceito de moral varia de acordo com as culturas e o período sócio-histórico? Então até onde pode ser aceitável o relativismo cultural? Há aspectos culturais que são aceitáveis mas “podemos aceitar estes aspectos sem aceitar toda a teoria" (J. Rachels) do relativismo cultural.
Por outro lado, o juízo moral depende do desenvolvimento do ser humano não sendo a mesma coisa para uma criança, adolescente ou adulto.
Acontece que muitos adultos têm juízo moral infantil. Não vão além do “bom rapaz, da boa rapariga”. Ou do “porreiro, pá”.
Recentemente foi notícia o facto de alguns trabalhadores da Câmara da Póvoa de Varzim, terem encontrado uns milhares de euros no lixo*, dinheiro que devolveram ao respectivo dono. O que devia ser um comportamento moral normal, foi notícia repetida em vários canais de televisão e em vários noticiários, o que pode querer dizer que não é o habitual no nosso comportamento.

Uma das áreas mais sensíveis é a da política. Haverá ética na política e nos negócios, e em particular nos negócios do estado?
Somos levados a pensar que em regra não é o que acontece. Se fosse assim, como se compreenderiam, em tantos locais do mundo, políticos metidos em negócios que revertem para beneficio próprio? Para que serviriam os offshores se houvesse ética na política e nos negócios?
Os gestores e os líderes políticos, devem ser os primeiros a agirem segundo princípios éticos. Mas todos os dias, pelas situações noticiadas, concluímos que não existe ética na política ou pelo menos em grandes sectores da política.
Todavia, não se pode aceitar uma política sem ética.
É, por isso, que a justiça, justa e independente, é indispensável para aplicar a legalidade, de forma ética, de acordo com os direitos universais do ser humano.
Política e negócios dizem respeito ao ser humano, à ética e à moral. Não deixa de ser caricato separar o comportamento ético dos dirigentes dos respectivos partidos como se isso não fosse relevante para a situação actual, principalmente quando se continua a defender os mesmos princípios, não houve um corte com o passado, ou dito de outra forma, não fizeram o luto de um tempo mentiroso e de uma actividade politica errada, que acabou por desembocar no falhanço político, à beira da bancarrota, com consequências para as pessoas: desemprego, incumprimento dos seus compromissos, as suas vidas alteradas e as expectativas frustradas.
Como dizia Sá Carneiro, a política sem risco é uma chatice e sem ética é uma vergonha.
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* Corrigido (18-12-2014)
Nos tempos que correm, é caso de admiração social e política.