31/08/14

Num mundo melhor




Acabou de passar num dos canais AXN. "Num mundo melhor", mostra a linha que separa a justiça da vingança, e que o ser humano é capaz de não responder à agressão e à violência, que é o instrumento dos parvalhões. Transmitir, pelo exemplo, às crianças que assim é, significa que se está num nível moral mais elevado, acima do "olho por olho, dente por dente", e quem é o verdadeiro vencedor. É o caminho para uma sociedade da não-violência.

23/08/14

A ciência da bondade

1. A música/letra de Tom Jobim,Wave, marcou bem a importância da relação entre seres humanos: é impossível ser feliz sozinho.

      "Vou te contar
       Os olhos já não podem ver
       Coisas que só o coração pode entender
       Fundamental é mesmo o amor
       É impossível ser feliz sozinho.
       ..."









2. Ser feliz é  quando se faz feliz o outro.

"Mas ficarás mais feliz do que nunca
quando tornares feliz outra pessoa."




Texto: Leif Kristianson, Ilustrações: Dick Stenberg, Tradução: Sophia de Mello Breyner Andresen.











3. Mas haverá uma ciência da bondade, ou o homem é aquilo que todos os dias nos dá de relevante a comunicação social ? Afinal, há biliões de seres humanos para quem fundamental é mesmo o amor.

Dacher Keltner, no livro Born to be good: the science of a meaningful life (2009, ainda sem tradução em português), compila descobertas científicas que revelam o poder da emoção humana inata e criam conexões entre as pessoas, segundo ele um caminho eficaz para uma boa vida.
Em entrevista a Mente&Cérebro:
Mente&Cérebro – Para o senhor, que quer dizer a expressão “nascido para ser bom”?
Dacher Keltner – Significa que a evolução criou uma espécie, os humanos, com inclinação para bondade, brincadeira, generosidade, reverência e autossacrifício – vitais para a evolução, vale dizer, sobrevivência, replicação genética e habilidade de convívio em grupo –, que se manifestam por meio de emoções como compaixão, gratidão, medo, vergonha e felicidade. Estudos recentes revelam que as capacidades humanas de cuidar, brincar e respeitar foram desenvolvidas pelo cérebro e pela prática social.

... O nervo vago é um feixe neural que se origina no topo da espinha dorsal. Ele estimula diferentes órgãos (como coração, pulmão, fígado e aparelho digestivo). Quando ativo, produz uma sensação de expansão confortável no tórax, como quando estamos emocionados com a bondade de alguém ou ouvimos uma bela música. O neurocientista Stephen W. Porges, da Universidade de Illinois em Chicago, há tempos argumenta que essa região cerebral é o “nervo da compaixão”.

... A psicóloga Nancy Eisenberg, da Universidade Estadual do Arizona, descobriu que crianças com atividade alta do nervo vago têm mais chances de cooperar e doar. Segundo pesquisas recentes, ele estimula tal comportamento.

M&C – O que esse tipo de ciência o faz pensar?
Keltner - Ela me traz esperanças para o futuro. Que nossa cultura se torne menos materialista e privilegie satisfações sociais como diversão, toque, felicidade, que do ponto de vista evolucionário são as fontes mais antigas de prazer. Vejo essa nova ciência em quase todas as áreas da vida. Os médicos, por exemplo, hoje recebem treinamento para desenvolver empatia para com seus pacientes, ouvi-los, tocá-los com carinho; são atitudes que ajudam no tratamento. Os professores interagem com mais proximidade com seus alunos. Ensina-se meditação em prisões e em centros de detenção de menores. Executivos aprendem que inteligência emocional e bom relacionamento podem fazer uma empresa prosperar mais do que se ela for focada apenas em lucros.

Ler toda a entrevista aqui.(Mente&Cérebro, Scientific American).


4. De todos os livros pequenos que li, este foi, decisivamente, o maior de todos. Trata-se de uma conferência do Professor Amaral Dias, a 7-11-1987, em Lisboa, no ISPA.

"A violência que quotidianamente é gerada no nosso tempo, e que não deve ser somente denunciada mas essencialmente compreendida como gerada pelas angústias primitivas e pela pulsão de morte existente em cada um de nós, deve o homem não tanto opor-se, mas propor alternativas criadoras e por isso bondosas de habitar a Terra.
Uma das maiores consequências da prática da psicanálise é precisamente esta, ou seja, a compreensão dia a dia, sessão após sessão, da esterilidade da vingança e da estupidez própria da raiva. Diariamente nos confrontamos, nos nossos actos, nos nossos gestos, nas nossas relações e nos nossos sonhos, com a obtusão mental derivada quase  sempre da destruição interna que Thanatos inflige às partes boas e criadoras do self. Esse é o peso que nos empurra para a doença e para a dor. A bondade e o perdão, farão provavelmente parte das asas que nos esperam quando finalmente conseguirmos ser livres."(pag.24)

22/08/14

We're fools to make war

Hoje, mais um dia de violência, um pouco por todo o lado, de guerra, de guerra versão barbárie, de violência hard e soft, de que fala Lipovetsky na Era do vazio, e das manifestações pseudo-pacifistas, convocadas, ou não, nas redes sociais.
Apetece-me apenas dizer :"We're fools to make war".


"Estas montanhas cobertas de névoa
São um lar para mim agora
Mas meu lar são as planícies
E sempre serão
Algum dia vocês voltarão para
Seus vales e suas fazendas
E não mais irá arder o desejo
De ser um companheiro de batalha
....
Somos tolos de guerrear
Com nossos companheiros de batalha."

Brothers In Arms, Dire Straits

20/08/14

Empresas: da visão à missão...



Entrevista a Warren Bennis, Executive Digest , «O talento dos grandes grupos», Outubro 1998.

"...
Strategy&Business - O que é que é necessário para assegurar o sucesso de um grupo ?
WB- Talvez o facto-chave seja encontrar um significado naquilo que se faz, isto é, como é que se leva as pessoas a acreditarem que o que estão a fazer é, de certa forma equivalente a procurar o Santo Graal.
Isto é mais do que ter uma visão. Podemos ver a diferença na frequentemente citada forma como Steve Jobs foi buscar John Sculley para assumir o comando da Apple. Na altura, Sculley estava destinado a tornar-se o presidente da PepsiCo. O clique deu-se  quando Jobs perguntou:.«Quantos anos mais vai dedicar a fazer  água corada quando tem a oportunidade de mudar o mundo ?»
Por isso a visão tem de ter um significado profundo. Tem de ter alguma ligação com o mundo em mudança, com uma missão divina.
..."

O que aconteceu (está a acontecer) com certos gestores é que têm andado a dificultar  a procura do Santo Graal e até a fazê-lo desaparecer, sem deixar rasto, para sempre, nesses espaços do nunca, nem de ninguém, chamados off-shores*...
Estes gestores não têm qualquer visão com significado profundo nem muito menos essa missão divina.

_________________________________
* O termo vem dos tempos dos corsários que saqueavam os mares e depositavam a pilhagem off-shore (fora da costa).

18/08/14

Quanto vale o trabalho de um trabalhador


"Os executivos de topo das maiores empresas britânicas ganham hoje, em média, 147 vezes mais do que os restantes colaboradores dessas empresas, conclui um estudo divulgado hoje pelo High Pay Centre.O ‘think tank' classifica de "dramático" o aumento salarial destes executivos nos últimos 30 anos e insta o Governo a ter "uma acção radical" perante as desigualdades salariais que, dizem, estão a criar "um sentimento profundo de injustiça" no seio da sociedade britânica.
O estudo mostra que, em 1980, um CEO de uma cotada do FTSE 100 ganhava entre 13 e 44 vezes mais do que os seus empregados. E em 1998 a sua remuneração era, em média, 47 vezes superior. Uma medida que sobe em, 2014, para 147 vezes mais e que, em algumas empresas chega a ser mesmo centenas de vezes superior
Números que contrastam com a realidade avançada pelo Instituto Nacional de Estatística britânico, que mostram uma queda no nível de salários da população de 0,2% no último ano."

A avaliar pelo que se passa em Portugal, os executivos de topo deveriam ser ainda mais bem pagos. Talvez assim, tivessem conhecimento do que se passa nas empresas e pudessem explicar como elas se afundam porque, como temos visto, nenhum deles sabe de nada.



Como vamos estando afastados daquilo que é a realização do trabalho que vale mais do que os bens exteriores que se possam acumular...
« A actividade humana, do mesmo modo que procede do homem, assim também para ele se ordena. De facto, quando trabalha o homem não transforma apenas as coisas materiais e a sociedade, mas realiza-se a si mesmo. Aprende muitas coisas, desenvolve as próprias faculdades, sai de si e supera-se a si mesmo. Este desenvolvimento, se for bem compreendido, vale mais do que os bens exteriores que se possam acumular... É a seguinte, pois, a norma para a actividade humana: segundo o plano e a vontade de Deus, ser conforme com o verdadeiro bem da humanidade e tornar possível ao homem, individualmente considerado ou como membro da sociedade, cultivar e realizar a sua vocação integral ».

15/08/14

A cor importa


A colestase neonatal doença com uma incidência de 1:2500 crianças pode danificar seriamente o fígado.
Esta campanha de prevenção é tudo menos de caca.

Meditação: excitação vs relaxamento


"Ao contrário da crença popular, nem todas as técnicas de meditação produzem efeitos similares no corpo e na mente. Um estudo recente realizado por pesquisadores da Universidade Nacional de Singapura (NUS) demonstrou pela primeira vez que os diferentes tipos de meditação budista - nomeadamente os estilos Vajrayana e Theravada - suscitam influências qualitativamente diferentes na fisiologia e comportamento humanos, produzindo excitação e respostas de relaxamento respectivamente.
...
O estudo realizado por Maria Kozhevnikov e Ido Amihai do Departamento de Psicologia da Faculdade de Letras e Ciências Sociais da NUS foi publicado na revista PLoS ONE, em Julho de 2014."

Aqui encontra um resumo do desenvolvimento do budismo ao longo dos últimos dois mil e quinhentos anos.

12/08/14

Ó capitão! Meu capitão!

Ó capitão! meu capitão! terminou a nossa terrível viagem,
O navio resistiu a todas as tormentas, o prémio que buscávamos
           está ganho,
O porto está próximo, oiço os sinos, toda a gente está exultante,
Enquanto seguem com os olhos a firme quilha, o ameaçador e
            temerário navio;
    Mas , oh coração! coração! coração!
        Oh as gotas vermelhas e sangrentas,
                Onde no convés o meu capitão jaz,
                        Tombado, frio e morto

Ó capitão !meu capitão! ergue-te e ouve os sinos; 
ergue-te, a bandeira agita-se por ti, o cornetim vibra por ti;
Para ti ramos de flores e grinaldas guarnecidas com fitas, para ti
             as multidões nas praias,
Chamam por ti, as massas agitam-se, os seus rostos ansiosos voltam-se; 
     Aqui capitão! querido pai!
          Passo o braço por baixo da tua cabeça! 
                  Não passa de um sonho que, no convés, 
                          Tenhas tombado frio e morto.

O meu capitão não responde, os seus lábios estão pálidos e 
                  imóveis,
O meu pai não sente o meu braço, não tem pulso nem vontade,
O navio ancorou são e salvo, a viagem terminou e está concluída,
o navio vitorioso chega da terrível viagem com o objectivo ganho:
  Exultai, ó praias , e tocai , ó sinos!
     Mas eu com um passo desolado, 
             Caminho no convés onde o meu capitão jaz,
                     Tombado, frio e morto.

Walt Whitman, Folhas de erva, Recordações do Presidente Lincoln, Círculo de leitores, pag. 301 (trad. Maria de Lourdes Guimarães)



Notícia: Depressão mata Robin Williams, aos 63 anos.

07/08/14

A mudança de Caná

Pelo ano 30, acontecia um casamento em Caná. Normal como qualquer casamento mas que irá transformar-se num evento extraordinário porque uma transformação irá ter lugar e vai marcar o início da vida pública de Jesus.
O que mais se deseja é que tudo corra bem neste dia em que duas pessoas constroem a sua casa, o seu lar. Este casamento estava a correr mal, faltou o vinho, elemento indispensável.

Na longa entrevista de Gérard Sévérin a Françoise Dolto, este é um dos temas analisados.
A visão de F. Dolto sobre este acontecimento, revela-nos essa transformação que acontece na tradição do casamento.

"Jesus mostra-se aí construtor de uma outra casa, de uma casa espiritual. E mais ainda: é aí que Ele sente uma perturbação mutativa. É primeiramente uma festa de núpcias humanas: um jovem e uma jovem mulher unem-se diante de testemunhas.
Eles permutam os seus votos de amor comum abandonando o seu passado familiar e individual.
Renunciam em festa à sua juventude vigiada.
Empenham a energia da sua ascendência ancestral através do seu desejo, atraídos como são um pelo outro, em acordo  com as suas famílias. É um acto deliberado, individual, familiar e social.
Fundam uma nova célula social responsável e generosa, num dom recíproco total que dá sentido à sua curta vida mortal.
Para todos os participantes, quaisquer que sejam as sua idade e sexo, esses jovens esposos, nesse dia de núpcias, incarnam a imagem realizada ou futura dos seus sonhos de destino. Portanto, que corra com abundância o sumo mágico e luminoso da vinha !
Porquê mágico e luminoso?
Porque a embriaguez vivida em comum é uma possibilidade de fugir em comum à realidade e conseguir a alegria em conjunto. Esta alegria é também o que redime a embriaguez. E acrescento que o inconsciente
se entrega então. ..in vino veritas !
Embriagar-se só tem outra significação?
Certamente. Aquele que bebe só, fecha-se. Receia evadir-se com os outros da realidade tangível. Não pode comunicar senão «em jejum»; portanto, apenas pode comunicar o racional, o judicioso, o sensato, o razoável. Fora deste aspecto, é para ele o deserto.
Em Caná é o contrário. ..
A água clara que os serventes levam nas talhas transforma-se em bebida fermentada, fonte de risos, de esquecimento das amarguras e das preocupações quotidianas. É o leite da alegria que faz ecoar a festa na alma dos convivas, florescer os sorrisos; que o cacho maduro dos fantasmas suaves de sabores inebriados desfia. Bebido em comum, esse sumo capitoso da vinha desprende a língua e os corações."

A mudança é feita com angústia. Este episódio é angustiante pela mudança da situação social de duas pessoas,  pelas circunstâncias da festa do casamento e também outro contratempo: ainda não tinha chegado o tempo e, mesmo hesitando, acabou por ter a ver com o que estava a acontecer.