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12/09/26

Memória





A inauguração do monumento em memória dos antigos combatentes nascidos em S. Miguel de Acha foi uma cerimónia profundamente emocionante.

Para além da homenagem, o evento transformou-se numa oportunidade única para proclamar a paz. Como sublinhou o General Chito Rodrigues, Presidente da Liga dos Combatentes: “Depois de se ter estado na guerra, não há ninguém que mais a deteste”.

O monumento honra aqueles que, com o sacrifício da própria vida ou dos seus sonhos e expectativas, deixaram para trás tudo o que tinham de mais precioso para defender a Pátria. 

Nesta terra, também houve homens que partiram e famílias que ficaram à espera, como disse num testemunho comovente, Cristina Geraldes, Presidente da Junta de Freguesia de S. Miguel de Acha: “O meu pai só me conheceu quando eu já tinha 18 meses”.

Este acto solene veio fazer justiça à memória dos que ainda estão vivos e daqueles que já partiram, tantas vezes esquecidos pelos poderes públicos.

Parabéns aos organizadores (Município de Idanha-a-Nova e Junta de Freguesia de São Miguel de Acha) por este momento tão nobre, que serve para reparar as feridas, físicas e psicológicas, provocadas por conflitos cujos estragos a humanidade continua a insistir em ignorar. 

O monumento fica agora erguido, na paisagem e no tempo, para que a história e o esforço destes homens e das suas famílias nunca caiam no esquecimento.





06/06/26

A gratidão na velhice


 A gratidão na velhice


A gratidão na velhice — obrigado antes que eu parta, 
Pela saúde, pelo sol do meio-dia, pelo ar impalpável, pela vida, a 
                simples vida, 
Pelas preciosas recordações nunca esquecidas ( de ti minha querida 
                mãe, de ti, pai, de vós, irmãos, irmãs, amigos),
Por todos os meus dias — não só os de paz — também os dias de 
                guerra, 
Pelas palavras afáveis, carinhos, dádivas dos países estrangeiros, 
Pelo abrigo, vinho e carne, pelo doce reconhecimento 
(Vós, distantes e obscuros desconhecidos — ou jovens ou velhos — 
                inúmeros e não especificados queridos leitores, 
Nunca nos encontrámos e nunca nos iremos encontrar — e, no 
                entanto, as nossas almas estreitam-se num longo, longo 
                abraço);
Pelos seres, grupos, amor, actos, palavras, livros, pelas cores e 
                formas, 
Por todos os homens valentes e vigorosos — homens dedicados e 
                audaciosos — que se lançaram em frente na defesa da 
                liberdade, em todos os tempos, em todos os países, 
Pelos homens mais valentes, mais vigorosos e mais dedicados (uma 
               honra especial, antes que eu parta, para os eleitos da guerra 
               na vida, 
Os artilheiros da poesia e do pensamento, os grandes artilheiros,
               os guias da vanguarda, os capitães da alma);
Como um soldado regressado da guerra que acabou, como um 
               viajante entre muitos na longa procissão voltada para o 
               passado, 
Obrigado — rejubilantes agradecimentos! — os agradecimentos de 
               um soldado, de um viajante.

Walt Whitman, Folhas de erva




11/12/25

A familia e o Natal



Natal é tempo da família e da infância, é tempo de partilha de afectos e de presentes, de bons sentimentos em relação aos que nos são próximos e a todo o ser humano.
Também acontece que no Natal, os ausentes estão presentes e os que deviam primar pela presença estão ausentes. Tanto as recordações como as ausências geram sofrimento, saudade e tristeza. 
Seja como for, a família é o melhor ambiente para que esses afectos se concretizem.

Mais de um ano decorreu após a publicação do livro Identidade e família. Um livro colectivo com mais de vinte autores, com diversas visões sobre a família ... 
Não se fizeram esperar criticas á publicação do livro. E, no entanto, mantém toda a importância e actualidade no que se refere à família.

As funções da família são de grande diversidade: desde a função biológica de geração dos filhos, ao crescimento num ambiente de amor, associado ao processo de socialização, de aprendizagem e educação, ao cuidar dos mais novos e cuidar dos mais velhos.
Por outro lado, já aqui o tenho referido, a família tem varias estruturas e, basicamente, podemos dizer que onde há uma criança há uma família. E é a presença de uma criança que define a família.
Estudei algumas estruturas familiares como as famílias reconstituídas e, genericamente, concluímos que eram famílias tão adaptativas como as famílias com outras estruturas tradicionais.

Como todos nós, as crianças aprendem por modelagem, mas não é determinante o facto de haver uma ou outra estrutura familiar. O que é fundamental é que todas as crianças têm pai e mãe, independentemente da estrutura familiar em que estejam inseridas.
Por vezes, ouvimos dizer que “tal pai, tal filho” ou “sai à mãe” ou “é como o avó”.... Mas o que acontece é que cada um de nós tem a capacidade de escolher aquilo que prefere e essa escolha vai muitas vezes contra a opinião dos pais ou dos familiares. E não é só na opção relativa aos clubes de futebol que isso acontece!

Há dias numa escola, nas fotografias escolares, foram eliminados os símbolos de Natal porque não se queria ofender ninguém de outras culturas.
Noutra escola não se comemorava o dia do pai porque há crianças que não têm pai. 
Ou será que não sabem quem é o pai ? Se nem todas as crianças têm um pai presente ou registado, isso não invalida que ter pais seja um direito fundamental.
Na realidade, muitas crianças vivem em famílias monoparentais ou sem a figura paterna, ou são registadas sem o nome do pai. *
Então, porque existe um problema, deixa de se fazer uma actividade... Porque não pode ser o dia do pai e de quem cuida, de quem exerce a função paternal ?

A verdade, como sempre, parece ser o caminho a seguir. Fingir que alguém não tem pai é que não é opção. Neste Natal não seremos filhos de pais incógnitos ou como canta José Afonso “não seremos pais incógnitos”. (*)
A vida faz sentido quando temos afecto, uma identidade, pertencemos a alguém e a algum sítio, vivemos em paz e temos um espaço afectivo seguro. 
Neste Natal, é apenas isto que estão a pedir as nossas crianças.
 
A todas as famílias que amam os seus filhos um feliz Natal. 
Até para a semana.

_______________________


(*) Em Portugal, a lei não permite filhos de pai incógnito desde 1977. No entanto, desde 2013 que o número de crianças registadas sem o nome do pai tem vindo a aumentar.



Rádio Castelo Branco





12/02/25

A cultura portuguesa - Os melhores dos melhores


O processo de desenvolvimento humano, independentemente da nossa vontade, depende também de determinantes culturais e cada um de nós é o resultado do ambiente cultural onde se processou a sua socialização.
Numa comunidade, o processo de socialização, ou de aprendizagem das normas socio-culturais, necessita de adequada socialização dos seus membros, que tenha como resultado a integração da maior parte deles na sociedade. Ou, caso contrário,  haverá o desvio e a anomia.
Trata-se de um processo circular e dinâmico no qual a cultura que recebemos através dos agentes sociais como a família, escola, igreja, empresa, grupo de pertença, etc. levam a criar em cada um de nós motivações, forças e atitudes, autoestima e resiliência, sentimento de segurança ou de abandono, que farão parte da personalidade e que por sua vez vão constituir a base em que se fará a futura socialização dos jovens.

Continuo a ter uma percepção muito positiva do mandato do Presidente Marcelo, contra a opinião generalizada do contrário. Nesse sentido, concordo que: "Nós somos bons, muito bons. Somos os melhores dos melhores". 
O papel que cabe a um Presidente sobre a  autoestima e a (re)motivação dos cidadãos é inestimável para o bem-estar de cada um e para a cultura da comunidade. 
Somos os melhores por aquilo que fazemos, pelos resultados que obtemos, e também pela capacidade crítica dos defeitos e do que, podendo, não fazemos. 

 

Crítica feita sobretudo de humor. Rir das nossas virtudes e defeitos é um bom princípio para sabermos situar-nos no mundo em que vivemos, e não nos tornarmos insuportáveis para os que nos estão próximos...

Ser melhor significa também que se pode ser crítico com total liberdade, sem medo de ser incomodado pelos censores estatais ou informais ou pelos agentes do cancelamento...

Algumas das nossas “elites” não têm esta capacidade. Como, p.ex.,  o despautério de uma esquerda globalista que diz os maiores disparates, sem se rir, da cultura portuguesa.


Felizmente, temos outras vanguardas em que só os melhores têm esta capacidade crítica. De Gil Vicente a Eça de Queirós, de Eduardo Lourenço a Miguel Esteves Cardoso. 

Um Alípio Abranhos do séc. XX pode passar pela Câmara Municipal, Governo ou Parlamento. Temos vindo a divertir-nos com episódios dos passantes por esses sítios de poder sem qualquer noção do sentido de estado ou do ridículo... 

 

As “Aventuras” de Miguel Esteves Cardoso – (1ª parte - As minhas aventuras na República Portuguesa", Independente Demente) mostram como os portugueses têm humor suficiente para se verem ao espelho e serem capazes de sorrir de si próprios e em especial dos políticos que os governam. 

Por exemplo, a “Aventura do sofrer” (p. 42): “Em Portugal  sofre-se muito. Eu sofri muito. Tu já sofreste muito. Só  Deus sabe o que ele já sofreu. De  resto, sofre-se muito neste país. O  próprio país sofre. Sofre só por si com ponto final. E sofre coisas exteriores a si. Sofre  de dúvidas. Sofre quedas. De  escadotes. De  cabelos. Sofre alterações. Sofre cataclismo. Sofre  de sucessivas. Sofre  de chofre. 

Esta afirmação sofre de contra-argumentação.”...

 

 

Até para a semana.

 

 

Rádio Castelo Branco



 



08/02/25

A cultura portuguesa


Há uma frase de Chesterton que diz: "Chegará o dia em que temos que provar ao mundo que a grama é verde".  Creio que ultrapassámos esse dia há muito: Há quem não saiba o que é uma mulher. E quem não queira saber que há dois sexos. 
Há também quem ache que a cultura portuguesa não interessa. (1)
Em relação à cultura, fiquei sem saber se se trata de uma questão honesta sobre a complexidade do que é a cultura, que reflecte o que significa a cultura nos dias de hoje, se é uma dúvida sobre a cultura portuguesa  ou se é, apenas, mais um absurdo do wokismo, mais uma forma de negacionismo da cultura portuguesa e, no fundo, da cultura. 
Se se tratar desta última possibilidade, ficamos a entender melhor o que se tem andado a (des)conversar sobre os brasões do Jardim da Praça do Império, sobre o Padrão dos descobrimentos, sobre Camões, ou o P. António Vieira...
Se, ao contrário, se pretende compreender e questionar o que é a cultura, temos aqui uma oportunidade para debater o tratamento que, nos últimos tempos, temos dado à cultura.

Para Mario Vargas Llosa (A civilização do espetáculo)  “Ao longo da história a noção de cultura teve diferentes significados e matizes... Mas apesar dessas variantes e até à nossa época, cultura sempre significou um conjunto de factores e disciplinas que, segundo amplo consenso social, a constituíam e ela implicava: a reivindicação de um património de ideias, valores e obras de arte, de conhecimentos históricos, religiosos, filosóficos e científicos em constante evolução, o fomento da exploração de novas formas artísticas e literárias e da investigação em todos os campos do saber.” (p. 61) (2)

O antropólogo Jorge Dias, em O essencial sobre os elementos fundamentais da cultura portuguesa, (Imprensa Nacional-Casa da Moeda), explicou que as várias maneiras de ver o português, mais cultas ou mais populares, são o exemplo da cultura do povo português. (3)
Jorge Dias chama-lhe “as constantes culturais deste povo já velho de tantos séculos.... ou a sua personalidade de base". Assim:
- O Português é um misto de sonhador e de homem de acção, ou, melhor, é um sonhador activo...
- Há no Português uma enorme capacidade de adaptação a todas as coisas, ideias e seres sem que isso implique perda de carácter...
- A saudade do português é um estranho sentimento de ansiedade...
- A saudade toma uma forma especial, em que o espírito se alimenta morbidamente das glórias passadas e cai no fatalismo do tipo oriental, que tem como expressão magnífica o fado...
- Uma das características mais importantes da saudade é precisamente essa fixidez da imaginação, que, por intensidade se pode tornar em ideia motora e conduzir à acção. É esta obstinação que encontramos na arte, na musica, nas canções corais alentejanas e minhotas... 

- O Português é sobretudo profundamente humano, sensível, amoroso e bondoso, sem ser fraco. Não gosta de fazer sofrer e evita conflitos, mas, ferido no seu orgulho pode ser violento e cruel.

- A capacidade de adaptação é uma das constantes de alguma portuguesa. “o português adapta-se a climas, profissões, a culturas, idiomas e a gente de maneira verdadeiramente excecional”... 

- “Outra constante da cultura portuguesa é o profundo sentimento humano, que assenta no temperamento afectivo, amoroso e bondoso. Para  o português o coração é a medida de todas as coisas.”


Também Eduardo Lourenço escreve sobre a saudade em O labirinto da saudade - Psicanálise mítica do destino Português (Publicações D. Quixote) 
Somos irrealistas, vivemos de sonhos? “Somos um povo de pobres com mentalidade de ricos” ? 
Há muito para repensar. Mas também era tempo de conhecer melhor a nossa terra, a nossa gente, a nossa cultura e também de apreciar a arquitectura, a literatura, a música, a arte... e de ter orgulho da cultura portuguesa. 


Até para a semana.



Rádio Castelo Branco



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(1) Reacção de uma eurodeputada, Ana Catarina Mendes (do PS), à posição do líder do seu partido, Pedro Nuno Santos, que, num momento de lucidez, referiu que deve haver  adaptação dos imigrantes à cultura do país que os acolhe (aculturação). 


(2) Para Vargas Llosa, a cultura estabeleceu sempre categorias sociais entre aqueles que a cultivavam e aqueles que a desprezavam ou ignoravam ou dela eram excluídas por razões sociais e económicas. Em  todas as épocas havia pessoas cultas e incultas e entre os dois extremos pessoas mais ou menos cultas ou pessoas mais ou menos incultas. Mas no nosso tempo tudo isso mudou, toda a gente é culta, e há uma cultura para todos os disparates...

E isto já é outra coisa!

 

(3) Alguns trabalhos, mais eruditos ou mais populares, sobre a cultura portuguesa que têm  passado nos media, como, por exemplo: "O Tempo e a Alma", com José Hermano Saraiva; "Visita Guiada", com Paula Moura Pinheiro; "Primeira Pessoa", com Fátima Campos Ferreira; "Terra Nossa", com César Mourão, "A nossa cultura" - Observador; "Portugal fenomenal", com Tiago Góes Ferreira... mostram algumas das várias vertentes de abordagem da cultura portuguesa.

 




06/11/24

Idosos cuidadores de idosos


Tem vindo a aumentar o número de pessoas idosas que necessitam de cuidados permanentes ou regulares, muitas vezes prestados pelos próprios familiares. *
Como sabemos, há perdas e ganhos no envelhecimento. A mente vai-se deteriorando ainda que o corpo esteja fisicamente em condições de realizar as actividades da vida diária. Ou então é o corpo que já não possui as condições que a mente ainda lhe exige. Num ou noutro caso, ter consciência dessas dificuldades não é fácil de aceitar.

Não é um problema da actualidade. Séneca, na carta 26 (Cartas a Lucílio), divide a velhice em duas fases: a da velhice propriamente dita e a da decrepitude.
Diz Séneca: “Dizia-te eu, não há muito, que já estava à vista da velhice; agora creio bem já ter deixado a velhice lá para trás de mim! 
À minha idade, ou pelo menos ao meu corpo, já será adequada outra designação, pois "velhice" é o nome que se dá ao período da vida em que o homem está, embora cansado, ainda não gasto de todo. 
Inclui-me, portanto, no número dos decrépitos já prestes a atingir o fim. 
Há, porém, uma coisa que te peço tomes em consideração: é que não sinto na alma as injúrias da idade, conquanto as sinta no corpo. Somente envelheceram os meus vícios, tal como o corpo auxiliar desses vícios. O meu espírito conserva-se vigoroso e mostra-se contente de já pouco ter de se ocupar com o corpo, isto é, já alijou uma grande parte do seu fardo."


Colocar o pai ou a mãe num lar pode ser uma decisão extremamente difícil e complicada e gerar conflitos contra a sua vontade, quando rejeita essa opção, de forma ostensiva ou ficando em silêncio... Uma alternativa é, muitas vezes, ficar a cuidar deles  na sua própria casa, mesmo que a nível temporário, mesmo que com apoio de outros familiares.

 

É necessário avaliar se o podemos fazer sozinhos, com apoio dos irmãos ou outros familiares, ou com necessidade de recorrer ao apoio domiciliário disponibilizado por instituições ... 

Com pais muito idosos é natural que os filhos também já sejam idosos e, por isso, é necessário ter em conta que os idosos cuidadores de idosos são duplamente onerados devido às suas fragilidades e por terem de cuidar de outros ainda mais frágeis.


Como encarar esta dupla fragilidade? Que fazer? A gestão desta situação faz-se em vários planos: as interações com os pais, as interacções com os irmãos, com o resto da família, com a sociedade.
E não é fácil cuidar, com as forças que nos restam, de pais muito idosos. Mas, por vezes, mais difícil ainda é lidar com o resto da família, em especial os irmãos.
Sendo uma fase stressante para toda a família, muitas vezes as pessoas revelam facetas desconhecidas, quase sempre por motivos por dinheiro e heranças...
Por estarmos numa das fases mais complexas, tristes e emocionalmente desgastantes da vida, é necessário estarmos preparados para estas situações e protegermos a nossa sanidade mental. (Reviver, "Cuidar de pais idosos: As 15 melhores formas de manter a sanidade mental")

 


Até para a semana.


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* No dia 5 de Novembro comemorou-se o Dia Mundial do Cuidador Informal. Este dia foi instituído com o objectivo de homenagear todas as pessoas que, de forma informal, prestam cuidados básicos a quem não pode cuidar de si próprio.




Rádio Castelo Branco




11/01/24

"As cantigas são tantas, que a mim até se mudam"


As cantigas são tantas, que a mim até se mudam - 
Ensaio sobre a paisagem,  Filipe Faria.

1. "As  cantigas são tantas, que a mim até se mudam", é o nome da exposição de Filipe Faria inaugurada no dia 18/11/2023, no Centro Cultural Raiano, com a participação musical de Fátima Torrado Milheiro. O evento integra o Programa "Fora do lugar".

A exposição "Som Sobre Fotografia" integra cantigas e fotografias de São Miguel de Acha. É uma exposição sobre os sons que estão dentro dos lugares e das pessoas de S. Miguel de Acha a que dá voz Fátima Torrado Milheiro. É uma exposição sobre a existência e a importância dos sons nos eventos da vida.

2. É também um livro com as fotografias da exposição de Filipe Faria e uma longa entrevista a Fátima T. Milheiro. 

Como é referido por Filipe Faria no belo livro sobre o evento, é possível que o som nunca se extinga e se tivéssemos uma máquina que o captasse - como dizem que dizia Marconi - podíamos  ouvir  esse som sempre que quiséssemos.

"Podíamos ouvir tudo. Ouvir a primeira inspiração dos nossos filhos e dos nossos pais. Ouvir o primeiro grito da Humanidade, cada sermão, conselho sábio ou riso de todas as gerações. Ouvir o som grave da primeira erupção ou o canto agudo daquela ave que escapou para longe. Todos nós podíamos ouvir tudo. Ouvir tudo, para sempre. 
Depois de produzido, o som não morria mas perdia poder, enfraquecia. Estas ondas sonoras, fracas, sem destino preciso, permaneciam eternamente a flutuar. Qualquer som podia, em teoria, ser recuperado. Ouvido pela primeira ou pela enésima vez. Qualquer som de qualquer lugar ou tempo passado. O primeiro e o último. Um som perdido podia ser ouvido, novamente, com o equipamento certo. Um equipamento poderoso. Um que conseguisse ouvir e escolher. Um por inventar. 
Todos os sons são sons perdidos… "

Como não há máquina que os possa captar, temos, felizmente, outro dispositivo altamente sofisticado, chamado memória. Uma memória que preserva tudo o que foi a nossa vida ao longo do tempo, que gravou, seleccionou e é capaz de reproduzir todos os acontecimentos que vivemos. Foi isso que Filipe Faria levou a efeito na exposição/canto em que o som se liga aos lugares, casas, ruas, pedras, equilíbrios arquitectónicos, paisagens, caminhos, os lugares que "ouviram" as canções de roda, os lugares altaneiros, as torres onde aconteceu e acontece "a encomendação das almas".
O som anda por aí, pelas ruas, se nos pusermos à escuta, profundamente, descobrimos esse som em cada pessoa de S. Miguel ou em cada imagem das pedras, das janelas, das coisas mais organizadas ou desorganizadas.

Alguns sons são especiais. Podemos lembrar o som da fala da mãe, do pai, dos irmãos, dos amigos, dos que nos amam muito e também dos que não gostam de nós. Há um som particularmente importante: O som do meu nome. O nosso nome, o nome de uma pessoa é o som mais importante e doce de qualquer linguagem. (Dale Carnegie, Como fazer amigos e influenciar pessoas)

O som pode ser ruído, experiência desagradável, e ferir, literalmente, os nossos sentidos. De resto, o som ajuda no equilíbrio da mente. É dessa forma que os bebés pacificam, com uma canção de embalar, e não só os bebés, basta ouvir, por ex., Lullaby, de Brahms, para nos acontecer a mesma serenidade. Sobre a origem da angústia infantil, escreve Freud sobre um pequeno rapaz de três anos: "Um dia em que ele se encontrava num quarto sem luz, ouvi-o gritar: 'Tia diz-me qualquer coisa, tenho medo porque está muito escuro.' A tia respondeu-lhe: 'De que é que isso te serve se não me podes ver?' 'Isso não tem importância', respondeu a criança; 'desde que alguém me fale, há luz.' ". (Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, Ed. "Livros do Brasil", Lisboa, p. 166)

3. As memórias destes sons fazem parte desta história e são elas que dão colorido aos registos que permanecem connosco por gerações. 
E que bela memória nos apresenta Fátima T. Milheiro para nos transmitir, cantando, as melodias que nos estão no ouvido mas que só ela sabe interpretar com a mestria que lhe reconhecemos.
Felizmente, ficam também aqui registadas e podem ser acedidas pelo QR Code que remete para o site "arte das musas", para as histórias e as músicas cantadas pela Fátima.

4. A exposição esteve patente ao público até final de Dezembro. Era bom que conforme então se perspectivava, na Primavera de 2024, a exposição pudesse ser visitada no local onde estes sons nasceram - S. Miguel d'Acha.



19/10/23

A culpada mais desejada


 

Será impossível num mundo de culturas diferentes chegar a entendimentos comuns, de forma a podermos viver e conviver, mesmo que com conflitos, sem necessidade de usar armas para nos aniquilarmos mutuamente ?
O choque de culturas "nem sempre conduz a lutas sangrentas e a guerras devastadoras, constitui também uma oportunidade para um desenvolvimento fecundo e prometedor” (p.110). Quem nos fala assim é Karl Popper (Em busca de um mundo melhor). E continua: “Creio que a nossa civilização ocidental, apesar de tudo o que, com razão se lhe possa censurar, é a mais livre, a mais justa, a mais humana, a melhor de que temos conhecimento na história da humanidade. É a melhor porque a mais predisposta ao aperfeiçoamento."(idem)
Esta predisposição acontece um pouco por todo o mundo: “Por toda a parte na terra, os homens têm criado novos universos culturais, nas artes na economia... os universos da moral, do direito, da protecção e do auxílio às crianças, aos doentes, aos incapacitados e outros necessitados." (idem)

Mas também sabemos que a liberdade, valor fundamental social e individual, tem de ser limitada pela  ordem.  E o mesmo se passa com todos ou quase todos os valores que desejaríamos ver implementados... 

Como a paz que é mais urgente do que nunca. No entanto, não se trata de uma paz passiva tem que ser uma paz de luta, como no caso de Mahatma Gandhi, lutador da não violência.

Freud escreveu Considerações sobre a guerra e sobre a morte (1915). Na primeira parte reflecte sobre a desilusão da guerra, no caso, uma desilusão sobre a primeira Guerra Mundial.
Escreve Amaral Dias: “De acordo com Freud se houvesse uma guerra esta seria ou deveria ser uma guerra civilizada, ou seja, uma guerra em que, como ele refere, se teria cuidado com as mulheres e as crianças e ambas as partes envolvidas na guerra dariam imunidade aos feridos que deveriam ser retirados da contenda, bem como ambas dariam uma particular atenção aos médicos e aos enfermeiros.” (p.138)

O que Freud idealizou foi o modelo de sociedade  civilizada...

Para Freud “a guerra traz aos homens civilizados uma desilusão que por sua vez nos introduz numa dupla questão: o Estado que deveria de ser o guardião dos padrões morais, revela a sua baixa moralidade e os indivíduos civilizados demonstram a sua brutalidade.” (p.139)

E aqui chegados vemos o que falta fazer para que as relações entre culturas passem da hipocrisia.


Apesar de todas as críticas que são feitas à Europa civilizada, muitas que,  certamente, têm razão de ser, porque será demandada por milhares de pessoas que sofrendo as vicissitudes que conhecemos, enfrentando o desconhecido, estão dispostas a todos os riscos ? 

Certamente porque podem usufruir desses valores que nos são comuns que foram construídos ao logo de muitos séculos.

A desilusão de que fala Freud vem de quando não se entendem os valores da liberdade e da paz que passam pelo conflito de ideias, de palavras e de argumentos, das lutas que valem a pena, e nunca da guerra.

 


Até para a semana.




Rádio Castelo Branco






15/10/23

Ser Pai - um testemunho

  

"Não me cabe conceber nenhuma necessidade tão importante durante a infância de uma pessoa que a necessidade de sentir-se protegido por um pai”. (Freud)

A frase atribuída a Freud, ganha ainda maior relevo na medida em que também para Freud "a criança é  o pai do homem".


As relações entre  pai e filho  com todas as emoções que foram construídas ao longo dos anos, principalmente emoções positivas, são de grande riqueza e complexidade para o desenvolvimento saudável, para o equilíbrio mental e auto-estima de que necessitamos para viver. É, por isso, que ser pai é muito mais que ser progenitor. É este vínculo que se estabelece para sempre.

 

Nos tempos actuais, é notória a falta de respeito de alguns filhos para com os pais, quando  os mais velhos são atirados para fora da família e de sua própria  casa, quando são privados até do bem-estar que conseguiram construir ao longo de muitos anos. 

Podemos falar muito de como deve ser o relacionamento entre pai e filhos, sobre a parentalidade, sobre a educação... No fim, é determinante o exemplo dos pais. A modelagem funciona e através dela são aprendidos os valores evidenciados e praticados pelos pais. 

A melhor forma de sabermos como os pais educaram está no testemunho dos filhos. Sem dúvida que o orgulho dos filhos mostra bem como a educação que receberam dos pais, mesmo que não seja completamente perfeita nem de acordo com todos os critérios dos educadores encartados, é de  resultado eficaz.


É um achado encontrar nas redes sociais alguma novidade que nos faça pensar duas vezes, emocionar genuinamente e estar solidário com as pessoas que a escrevem. Mas acontece. Fui surpreendido com uma descrição que os filhos fazem do seu pai que preenche estes requisitos.

Permitam-me que partilhe este texto que tirei do Facebook do João Gonçalves. Não pude deixar de me sensibilizar pela forma como os filhos se referem ao seu pai. Há esperança, afinal, e nem tudo se perdeu na voragem da egoísmo reinante.

 

“Não sabemos exatamente por onde começar.

Descrever o nosso pai é um pouco difícil nestas horas e acima de tudo, pelo seu caráter complexo, levaria muito tempo a escrever. 

O nosso pai foi um bom cristão, um grande jurista, um homem corajoso, íntegro, fiel aos seus valores, inteligentíssimo, cultíssimo, com bom gosto, com jeito para fotografia, com algum jeito para a pintura, muito jeito para escrever mas acima de tudo foi um grande PAI que nos amava muito!

É indescritível o amor do meu pai por nós. Só descrevendo os sacrifícios inimagináveis realizados tanto por ele e pela minha mãe, para que nós pudéssemos ter um futuro digno (e conseguiram!), é que se poderia compreender. 

O nosso pai foi, é e sempre será o nosso anjo da guarda! 

É com muito orgulho e honra que nós (João Oliveira, Pedro Oliveira e Maria Oliveira) dizemos que somos filho/a do António Augusto Alves de Oliveira! 

Obrigado Pai por todos os esforços e pelos sacrifícios incalculáveis ! 

A tua memória e a tua honra serão para sempre salvaguardadas por nós os 3 (+ mãe) até à morte. 

Até sempre Pai. Raul Xaves

Ps: o meu pai tinha o hábito de jogar o Euromilhões todas as terças e sextas, para ver se nos saía um milagre… 

Ao falar com o meu irmão hoje eu disse-lhe:

-Tivemos muita sorte em tê-lo como pai. 

Respondeu-me ele : eu sei, foi o nosso euromilhoes, e ele jogava essa merda todas as semanas e nós já o tínhamos…”

 

 


24/03/23

Respeitar os idosos


O psicólogo Erik Erikson definiu oito estádios de desenvolvimento psico-social sendo o oitavo correspondente à velhice. 
A resolução das crises características desta idade passa pelo equilíbrio entre a integridade e o desespero. Quer dizer, reconhecer sucessos e fracassos vividos como parte de um todo que constitui a nossa vida, como um sentimento de realização ou de desespero de uma vida insatisfatória e que já não se pode alterar.

O envelhecimento da população vem questionar-nos sobre as respostas que a sociedade cria, desenvolve e regula para que estas pessoas possam viver sem grande ansiedade o resto da suas vidas.
Segundo os dados dos censos de 2021, a percentagem de população idosa (65 e mais anos) representava 23,4%, da população. 
Por outro lado, o que também está a aumentar é a violência contra idosos.
Segundo os dados da APAV, em 2021, 1594 pessoas idosas foram vítimas de crimes.
Embora sujeitos a episódios de violência extremamente graves, apenas 35% dos idosos denunciaram o crime e apresentaram queixa contra os agressores.

Sofrem também a violência institucional. Nas últimas semanas tivemos notícias sobre alguns lares de idosos a funcionarem em condições verdadeiramente infra-humanas. 
Tudo isto faz (re)pensar no respeito que devemos aos idosos e nas estruturas para apoio de que necessitam. 
Estas notícias certamente não nos deixam indiferentes: E se fosse comigo? Sim, se fosse eu que estivesse num destes lares o que faria?

Muitos idosos - nem velhos nem trapos ou mesmo que velhos nunca são trapos - de facto, hoje, são activos e, apesar da idade, continuam a ter autonomia suficiente para não dependerem de ninguém e até contribuírem para o desenvolvimento da sociedade e das comunidades em que estão inseridos.
Mas outros são velhos com alguma forma de necessidade (dependência) física, psicológica, social, espiritual. 
Ao depararmos com estas notícias sobre lares a funcionarem em condições desumanas o que poderemos pensar ?
Será que é a resposta adequada ou apenas uma solução a que se recorre porque não há alternativa?
Se houvesse alternativa alguém escolheria passar os seus últimos dias num lar?
A vontade dos idosos é tida em conta quando se trata de tomar a decisão de ser colocado num lar?
Como é possível o que acontece em alguns destes equipamentos sem condições para as pessoas internadas?

Como fazer o balanço de que Erikson fala quando o idoso vive em condições socio-culturais bem diferentes daquelas que alguma vez pensou e tudo é favorável ao desespero ? Como resolver o dilema entre a integridade e o desespero, quando se é posto perante condições infra-humanas: fome, falta de cuidados elementares, falta de carinho, longe da família, longe de tudo e de todos ? Onde ficam os laços de toda uma vida ? Qual o lugar dos afectos ?
Também aqui “o silêncio tem voz”. É preciso respeitar os idosos e os direitos dos idosos e se a educação de cada um não chega para o fazer, a sociedade tem que ter mecanismos que os façam respeitar.


Até para a semana.

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31/12/22

Bento XVI - Por amor


" O amor é a vida. O amor é síntese, a morte é dissolução. Quem encontrou o amor pode dizer: "Encontrei a vida". A inversão do processo da morte, numa passagem para a vida, realiza-se na conversão da cupidez ao amor. O Cristianismo é conversão ao amor divino, portanto, ao amor fraterno e, por conseguinte, passagem da morte à vida."



17/12/22

"A vida apenas, sem mistificação" (2)




A Assembleia da República aprovou  a semana passada (9-12-2022) a lei que  regula as condições em que a morte medicamente assistida não é punível, conhecida como prática da eutanásia.

Assim sendo, continuo a defender o direito à vida como já aqui  fiz  algumas vezes ("A vida apenas, sem mistificação" e Morrer). 


Como sabemos, há diversas posições sobre o assunto. Hoje refiro uma delas, a de Lucien  Israël, médico oncologista  e não crente, que no livro “Contra a eutanásia” explica porque não podemos aceitar a eutanásia. 

No original, o livro tem o título de “Os perigos da eutanásia”; trata-se de ser contra a eutanásia  mas, mais do que isso, de apontar para os perigos que ela representa.

Um desses perigos é a normalização: convenciona-se que há um grupo de pessoas  que podem ser excluídas da sociedade através da eutanásia e o assunto  passa a ser uma questão normal para a sociedade.

Para Lucien Israël, e cito, é “o desabamento da cultura ocidental... a eutanásia  legalizada representa a rutura do laço simbólico entre gerações: filhos e netos e, doravante, bisnetos – já que vamos tornar-nos uma sociedade a quatro gerações - saberão que podem desembaraçar-se dos idosos. No momento em que esta perspectiva se admitir e se tornar objecto de uma forma de consenso social, os mais jovens não poderão deixar de considerar os mais velhos como objetos para deitar fora.” (p. 98) *

E continua:

“Quanto a mim vejo em tudo isto o reflexo de um enfraquecimento dos laços existentes, não só entre indivíduos mas também entre as gerações e os grupos sociais. Hoje estão em perigo precisamente os valores que tornam  possível a sociedade. Existe algo indizível que é indispensável à coerência de uma sociedade;  revelador deste indizível é o respeito devido  à  vida e a necessidade de estender até ao fim os esforços para prolongá-la.”

Claro que há uma distinção entre obstinação terapêutica que é procurar todos os meios para manter a vida e o encarniçamento terapêutico quando já não há nada a fazer e que é de rejeitar.

 

Critica aquilo que parece ser moda: “o pedido da eutanásia faz parte do politicamente correto, cujo campo de aplicação se vai ampliando cada vez mais. Agora em alguns ambientes, é boa regra pronunciar-se a favor da eutanásia porque ela constituiria um quadro satisfatório na relação com o próximo.” (p. 102)

 

O utilitarismo continua a fazer estragos; porque um ser humano deixou de ser útil e se torna um encargo para a sociedade passa a fazer parte dos descartáveis.

Sabemos os custos económicos que os idosos, e o seu tratamento, quando adoecem, exigem da sociedade; porém ninguém pode aceitar que a eutanásia seja uma solução económica para resolver um problema da sociedade que, no fundo, está por trás daquilo que alguns chamam uma morte digna.


Neste debate, refere Lucien Israël, “Percebe-se uma incrível arrogância e a certeza de que sabem melhor que os outros o que é conveniente para a espécie humana. Consideram que todos os seus adversários estão de má fé e chegam até a pensar que os médicos que rejeitam a eutanásia escondem uma forma de sadismo que deve ser combatida com veemência.” (p. 114)

Para Lucien Israël, médico e não crente, o médico tem não só o dever de não se render à morte mas também deve infundir no seu paciente a esperança, a confiança, a vontade e a força de lutar. Porque existem doenças incuráveis, mas não existem doenças intratáveis.

 


Até para semana.


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* Como diz Michel Houellebecq: «Uma civilização que aceita a eutanásia não merece qualquer respeito». (Le Figaro, 










01/12/22

"A razão dos avós"





Nos dias que correm educar uma criança é uma tarefa difícil. Não sei se mais difícil do que no passado. Não o seria a pensarmos nas inovações que num lar estão ao nosso dispor mas a vida moderna trouxe consigo novas dificuldades e necessidade de adaptação.

Há um ditado africano que diz: para educar uma criança é necessária toda a aldeia. E assim é.  

O papel dos avós é inestimável e muitos  estão a dar o seu contributo para essa educação como podem, directa ou indirectamente, apoiando financeiramente tomando conta dos netos, levando os netos ao colégio ou à escola, a passear na rua, ao parque infantil...

Por vezes, na rua, cruzo com pessoas que suponho serem avós com os netos e sorrio... Comigo, quando vou com os meus netos, acontece o mesmo e sinto recompensa pelo sorriso destas pessoas. Creio que, no fundo, comunicamos: “está certo o que estás a fazer,  estás a desempenhar uma tarefa linda e importante”. Muitas vezes é uma opção. Encontramos nos netos a nossa missão principal como  ocupação da nova vida de reformados. É também uma grande viagem à volta de nós próprios. E ainda sobra tempo para fazer turismo, passear por aí, fazer hortiterapia e estar com os amigos...

 

Estar com os netos, traz também uma grande compensação ao vermos  como crescem e se desenvolvem, de que fazem parte momentos difíceis e fáceis, de prazer e alegria, de tristeza e ansiedade, de emoção e afeto, de negação e birras. A alegria dos primeiros passos, as primeiras corridas, as primeiras palavras, as primeiras letras, os primeiros números, o  primeiro amigo. 

Como escrevia  Walt Whitman, em tudo isto o menino se transforma e passa a fazer parte dele. 

É a nossa vida que passa para a vida deles. É a continuidade que vem dos antepassados e que está ali a renovar-se em cada dia. Nada paga esta experiência, esta sensação de que fazemos parte da cadeia, somos um elo vital fundamental mas que nos faz aprender a ser humildes perante tanta dádiva de Deus e da Natureza que nos inunda os dias de felicidade.

 

Revemo-nos nas palavras de Daniel Sampaio em A Razão dos avós: “Um momento significativo ocorre quando os avós vão buscar os netos à escola. É curioso observar como o fazem: sem pressas, com tranquilidade, por vezes com algum excesso de gratificação. Contrastam com a ansiedade de alguns pais que chegam a deixar o carro mal estacionado e se precipitam em recomendações e perguntas a que as criança respondem como podem. Os avós chegam cedo, esperam a hora de saída e passam pela pastelaria da esquina onde oferecem o lanche ou contribuem com uns euros para a coleção de cromos.”(p.86)

 

Os avós vivem agora mais tempo e com mais qualidade de vida. Já não correspondem muitas vezes às imagens dos livros e as novas tecnologias são ferramentas que muitos dominam. 

Há toda uma interacção benéfica para ambos – avós e netos -  e não podemos dispensá-la da educação das crianças deste tempo.

 

 

 

Até para a semana.