10/10/26
"A saúde mental é um autocolante"
28/08/26
O vírus da irracionalidade
Quem nunca disse "Não tenho sorte nenhuma" após um dia difícil ou exclamou "Tu nunca ajudas!" numa discussão? Olhamos para estas frases como reacções normais ao stress, mas a psicologia cognitiva diz-nos que são sintomas de um vírus silencioso que com mais ou menos peso todos carregamos: as crenças irracionais (1)
A Terapia Racional Emotiva Comportamental (TREC), desenvolvida pelo psicólogo Albert Ellis ajuda-nos a compreender como estas crenças moldam a nossa vida. O princípio fundamental da TREC refere que não são os acontecimentos da vida que nos perturbam, mas sim a forma como os interpretamos. Ellis organizou esta dinâmica através do Modelo ABC. Imagine que o evento activador (A) é uma negativa num exame. A maioria de nós acredita que a consequência emocional (C), como a raiva ou o desespero, nasce directamente desse azar. No entanto, este modelo demonstra que existe um intermediário crucial: a nossa crença (B). É o filtro mental que aplicamos ao facto que determina se vamos reagir com uma tristeza saudável ou com uma depressão paralisante.
As crenças irracionais são ideias rígidas, absolutas e irreais que distorcem a realidade. Fazem parte da " tirania dos deveres" (Karen Horney) - a tendência neurótica de exigir que o mundo, os outros ou nós próprios sejamos perfeitos. Quando dizemos "Eu devia ter conseguido aquela promoção" ou "As pessoas têm de me aceitar", criamos uma armadilha dogmática. Se a realidade não corresponde ao nosso "deveria", caímos na "catastrofização", transformando um contratempo banal num cenário apocalíptico. (2)
A afirmação "Não tenho sorte nenhuma" é o exemplo desta sabotagem. Sob a perspectiva da TREC, esta frase revela erros lógicos: a generalização, que transforma um evento negativo isolado numa lei universal; o filtro mental, que força o cérebro a focar-se apenas nos azares, ignorando as centenas de vezes em que tudo correu bem; e o “locus” de controlo externo, onde nos demitimos da responsabilidade da nossa vida e nos assumimos como vítimas desamparadas do destino.
A cura para a irracionalidade passa ainda por duas fases do modelo: a Disputa (D) onde confrontamos os nossos pensamentos de forma científica e empírica. Quando a mente ditar um absolutismo, devemos questionar: Que provas reais tenho de que nunca tenho sorte? Pensar assim ajuda-me a resolver o problema ou apenas me paralisa? (3)
O objetivo final da TREC é atingir o Efeito (E) de uma nova filosofia de vida assente na aceitação de que o azar e os imprevistos são apenas probabilidades da experiência humana, não uma conspiração do mundo contra nós e contra tudo o que fazemos. Não podemos controlar o vento e as tempestades, mas controlamos as velas e podemos abrigar-nos melhor. Substituir a rigidez mental por um pensamento flexível — "Isto correu mal e é frustrante, mas eu consigo lidar com isso" — é a única forma de recuperar o nosso controle mental e equilíbrio emocional.
Seria interessante se nas grandes e nas pequenas opções políticas fosse utilizada a metodologia da TREC ajudando a identificar e questionar crenças irracionais que alimentam a polarização, o fanatismo e a angústia gerada pelo debate partidário. Esta abordagem mostraria que não são os acontecimentos políticos que causam raiva ou desespero, mas sim a interpretação rígida que fazemos deles e, portanto, a necessidade de mudar de paradigma.
(1) “O mapa não é o território“ (Xavier Guix, Ni me explico, ni me entiendes - Los laberintos de la comunicación, p. 28-29)
(2) Podemos encontrar na internet listas de crenças para todos os gostos mas o importante é reconhecer que muitas crenças limitam ou fortalecem os nossos comportamentos, causam sofrimento e ou limitam as suas possibilidades. Por exemplo: Katie Sullivan Porter- 55 crenças limitantes que impedem os lideres de alcançar sucesso e realização; As 4 principais crencas que causam sofrimento segundo Albert Ellis; 10 tipos de crenças mais comuns moldam maneira-ser/ ...
(3) Formulário de auto-ajuda TREC
24/06/26
Construir
Sabemos como é difícil construir: um projecto, uma casa, um hospital, fazer um curso, dar um concerto, uma pintura, escrever um livro, ganhar o mundial...
Também sabemos como em segundos um mundo caótico, mesmo quando organizado e obediente a chefes autoritários, está à nossa espera e invade a nossa vida social, familiar e pessoal, de que temos mais ou menos consciência, ou somos alertados pelas notícias que alguns chamam percepções, conflitua com a nossa educação, os nossos sentimentos, os valores da paz e os direitos humanos.
É ainda mais estranho que situações socialmente positivas, de vitória, de festa, comemoração, resultem em confronto, vandalismo, manifestações de desordeiros e arruaceiros que vivendo num regime democrático, usam as manifestações para ultrapassarem os limites da liberdade.
Foi o que se verificou, recentemente, com os Incidentes nas celebrações da vitória do PSG que fizeram um morto e 780 detenções ou com os desacatos que se verificaram no final de uma manifestação sindical.
Podemos especular que foi o desenvolvimento com poucos limites, sem latência e pouco superego (Freud), a justificação de tamanha desorientação.
O trabalho educativo, possivelmente, foi descurado pela família e pela escola e, em geral, a socialização foi guiada pela anomia em vez do controle das emoções negativas, a par da desadaptação proveniente da relação excessiva com as tecnologias.
Face à modernidade como reagir? Como refere Alain de Botton precisamos de uma cabana dentro da nossa mente para onde nos retirarmos quando estamos a ser invadidos por valores hostis ao nosso sentimento de equilíbrio e amor-próprio”... “Só nos podemos culpar até certo ponto pelo nosso sofrimento mental. O problema não é que sejamos pessoas frágeis, mas sim que estamos a viver numa época de alta tecnologia que sistematicamente desfaz em pedaços os seus elementos mais sensíveis, na sua obediência ao que um dia irá ser conhecido como etos grosseiramente primitivo e falho em imaginação.” (Uma viagem terapêutica, p. 86,)
“Devemos, por conseguinte, lidar com as emoções destrutivas não apenas por observação mas em termos de transformação interior. À medida que as emoções negativas se introduzem continuamente no espírito, transformam-se em estados de espírito (quadro seguinte) e, eventualmente, em traços de temperamento. Portanto, precisamos de começar a trabalhar com as próprias emoções. (Daniel Goleman, Emoções destrutivas e como dominá-las, p. 100 e 116 )
Estados de espírito destrutivos
Estados de espírito construtivos
Baixa auto-estima
Excesso de confiança
Abrigar emoções negativas
Ciúme e inveja
Falta de compaixão
Incapacidade de ter relações interpessoais próximas
Amor-próprio
Auto-estima (se merecida)
Sentimentos de integridade
Compaixão
Benevolência
Generosidade
Ver o verdadeiro, o bom, o correto
Amor
Amizade
Se saber perder exige saber lidar com emoções negativas, saber ganhar não dá direitos ou vantagens especiais, antes nos mostra a necessidade de a pessoa saber controlar o excesso de confiança e o sentimento de superioridade.
A oportuna encíclica de Leão XIV Magnifica Humanidade propõe duas possibilidades para a humanidade construir o seu futuro: a edificação da Torre de Babel ou o caminho de reconstrução das muralhas de Jerusalém.
Na era da inteligência artificial (IA) é preciso o consenso das nações para dar uma oportunidade à construção do bem. E isso significa construir uma cidade orientada para o bem comum, aceitar os limites da fragilidade humana, construir um mundo onde todos possam “florescer”, usando linguagem evangélica. ( § 7 a 15)
“A grandeza do homem está em construir-se a si mesmo." (Michel Quoist, Construir)
02/04/26
Entre o parque jurássico e a guerra das estrelas
![]() |
| (1) |
A situação pode ainda complicar-se. Quando são duas ou mais crianças no mesmo estádio de desenvolvimento ou em estádios contíguos, pré-operatório e operações concretas, por ex., podem surgir mais conflitos porque o que um quer o outro também quer, o mais novo a sombra do mais velho, os dois querem sempre ganhar e a brincadeira às vezes termina com choro ou agressão... E nós, sempre temos a desculpa de que são irmãos, não é? Quem tem irmãos sabe que é assim...
Mais difícil ainda quando estão com pais, avós, primos. Em família alargada com autoridade mais diluída a obediência também fica mais fluida: "Tu não mandas em mim", "tu não és meu pai", "o pai ainda não disse", "oh mãe, a avó disse...", "deixa-me em paz", "pára, pára"...
Mas, na realidade, o mais difícil é gerir a tralha electrónica: tv e o respectivo comando, telemóvel, tablet ou iPad. Séries infindáveis como Os Mistérios dos bichos, Spidy, Barbapapa, Rubble e companhia... no canal panda, disney junior, nickjr, etc... É deveras difícil mas tem que ser levado em conta para não passarem manhãs e tardes inteiras de passividade motora. Há que esperar o protesto dos mais novos que sempre querem mais e as regras ainda não importam...
Os adultos são responsáveis por gerir a situação relacional e educativa. Um adulto deve conseguir resolver estas crises com segurança, controlo emocional, compreensão de que se fossemos nós teríamos as mesmas atitudes e comportamentos. São de facto crianças muito pequenas para perceberem a necessidade de mudança de actividade e de passar para as tarefas das rotinas diárias: almoçar, jantar, sair...
Os adultos têm também que perceber quando se trata de desorganização ou de acumulação pura e simples de objectos sem função lúdica. Neste caso o problema é querer sempre mais tralha o que leva à dispersão e à dificuldade em se concentrar ou focar numa determinada actividade dificultando a conclusão de qualquer trabalho.
Por estes longos dias de férias podemos ver como a liberdade de escolher actividades, brinquedos, brincadeiras, nos revela as muitas capacidades que as crianças têm para interagir, para desenvolver a criatividade, para inventar jogos, actividades, às vezes a partir de qualquer coisa aparentemente insignificante que lhes desperte a atenção.
É uma boa estratégia a

- Podemos passear na quinta e ter a sensação da terra acabada de lavrar. Que bom que é caminhar na terra como se se estivesse na lua! Afinal podemos ir à lua e andar suavemente quase sem sentir o chão debaixo dos pés.
E fazer corridas até ao fim da leira como se fosse uma pista de atletismo. É mais suave do que na praia ... Pouco importa se, no fim, é pó por todo o lado, da cabeça até aos pés.
- Podemos construir uma casa. Não importa se para isso é preciso desfazer as camas, mudar de sítio as almofadas, lençóis...
- À noite podem surgir ideias interessantes como fazer uma representação, um espectáculo de bateria com tachos e panelas, mesmo que o público seja apenas os dois avós mas é como se estivesse a sala cheia.
- Podemos organizar a "A feira das pipocas" com um stand para venda com os respectivos preços.
Moral da história: A actividade, brincar, é fundamental para o desenvolvimento harmonioso das crianças. A prevenção, necessariamente, deve ter em conta os riscos decorrentes dessa actividade. Ou seja, a actividade da criança tem inúmeras vantagens para o seu desenvolvimento mesmo face a alguns riscos calculados que dela possam advir. No caminho para a autonomia tudo envolve algum nível de risco. É por isso que a supervisão do adulto deve ser permanente. Isso também significa que podem ser feitas actividades que envolvem algum risco. Por isso a prevenção é a melhor protecção. (4)
________________
(1) Ilustrações de M. 9:4, Atelier "Verão por um fio", Museu Cargaleiro.
(3) Finalmente, o governo "arriscou" regular a utilização de telemóveis no espaço escolar para o 1º e 2º ciclos (DL n.º 95/2025, de 14 de agosto); Como combater dependência do telemóvel, CUF.
(4) Temos de ter a consciência de que os acidentes domésticos são a principal causa de morte em crianças e jovens. Maria Luisa Faleiro "Acidentes domésticos aprenda a preveni-los", CUF; "A seguranca na água", APSI.
21/03/26
Salvar a alma
Perante qualquer possibilidade de existência de conflito, o diálogo deveria ser sempre o método, o caminho a seguir. Que sentido faz iniciar uma guerra se sempre tem que acabar num diálogo mais ou menos consensual que possa estabelecer um compromisso, cessar-fogo, acordo, tratado... entre os que ganham e os que perdem nem que seja supostamente?
Perante novos conflitos ou conflitos já requentados (o histórico, como diria A. Guterres) podemos sempre aprofundar conflitos até ao limite, até à destruição. As guerras são sempre assim, não resolvem nada. E os vencedores de hoje podem vir a ser os perdedores de amanhã. Como se tem visto com o fim dos impérios ao longo da história.
Para gente tão evoluída como a que chegou ao sec. XXI, há nisto pelo menos um erro de metodologia: primeiro devia estar sempre o diálogo e, falhado este, não deveria seguir-se a guerra mas mais diálogo com outros parceiros com outras perspectivas. A escalada não é solução. Ao ódio histórico que justifica tudo, por esta via, juntam-se mais episódios de ódio e o círculo vicioso é interminável: o que acontece é que se continua a achar que primeiro há que andar à pancada, depois não se pode perder a face, congela-se a situação, e depois sobre as ruínas e os mortos, o cessar-fogo e poder (re)construir. E o que se perdeu?
O necessário diálogo com os outros pressupõe o necessário diálogo consigo ou se quisermos com a sua cadeira vazia. O que dirá cada um dos que fazem a guerra à sua cadeira vazia? O que fez cada um deles para chegar até aqui. Como se sente em saber que uma decisão sua vai matar uma ou mil pessoas? O que tem de especial o seu poder para desencadear a guerra e o que pretende com isso? Há alguém que possa ter esse poder? O que dá o direito de liquidar os que pensam de outra forma? A guerra como solução é um absurdo e o conflito devia ser fundamentalmente um problema de comunicação e o diálogo a sua forma de lhe pôr fim.
"Sobre a guerra na Ucrânia, o jornalista Rudiger Kronthaler perguntou ao Santo Padre se considerava que deviam ser fornecidas armas ao país ucraniano, naquilo que pode ser encarado como uma ajuda à autodefesa.
“Esta é uma decisão política, que pode ser moral, moralmente aceite, se for feita de acordo com as condições de moralidade, que são muitas. Mas pode ser imoral se for feita com a intenção de provocar mais guerra, vender armas, ou descartar armas de que já não se precisa. A motivação é a que em grande parte qualifica a moralidade deste acto. Defender-se não é somente lícito, mas também uma expressão de amor à Pátria”, começou por dizer Francisco.
O conceito de “guerra justa” voltou a ser abordado e o Santo Padre fez questão de lembrar outras guerras que se encontram a acontecer um pouco por todo o mundo. Referindo que neste momento nos encontramos numa guerra mundial, Francisco diz que o negócio das armas é “assassino” e que deve sempre tentar-se alcançar a paz.
“Acho que é sempre difícil entender o diálogo com os Estados que iniciaram a guerra, e parece que o primeiro passo foi dado de lá, daquele lado. É difícil, mas não devemos descartar isto, devemos dar a oportunidade de diálogo a todos, a todos! Porque há sempre a possibilidade de que no diálogo se possam mudar as coisas, e também oferecer outro ponto de vista, outro ponto de consideração. Não excluo o diálogo com qualquer potência, seja em guerra, seja o agressor…”, explicou." (Papa Francisco: “Não excluo o diálogo com qualquer potência, seja em guerra, seja o agressor” )
Albert Szent-György a quem se deve a descoberta da vitamina C, e, por isso, foi premiado com o Nobel da medicina, em 1937, escreveu em O macaco louco: "O nosso complexo militar-industrial, que faz perigar o futuro da humanidade, deve muito da sua estabilidade ao facto de tantas pessoas dependerem dele para viver.
O facto é verdadeiro para todos nós, incluindo eu próprio. Quando recebi o Prémio Nobel, a primeira e única grande soma de dinheiro que vi até agora, tive de fazer qualquer coisa com ele. A maneira mais fácil de largar aquela batata quente era investir, comprar ações. Eu sabia que a segunda guerra mundial estava iminente e temia poder vir a desejar a guerra se possuísse ações que subissem no caso de ela deflagrar. Por isso pedi ao meu corretor que comprasse acções cujo valor descesse em caso de guerra. Ele assim fez. Perdi o dinheiro e salvei alma."
Então quem ganha dinheiro com a guerra tem que perguntar qual é para si o valor da vida humana. Quem ganha dinheiro com a guerra tem que se interrogar sobre as suas decisões poderem estar erradas e não ficará na história como um ser empático e de moralidade superior mas como torcionário indiferente ao sofrimento de milhões de pessoas a começar por aquelas que pela sua fragilidade fariam parar qualquer possibilidade de guerra, como são as crianças.
O tempo passa, a guerra prolonga-se e as cadeiras vazias esperam urgentemente que sejam ocupadas por interlocutores que desejem a paz. Há muito para dizer a cada uma das cadeiras. Cada uma delas pode ser o outro, nosso inimigo, nosso aliado, ou eu, inimigo ou aliado de mim próprio.
Por isso, se ainda têm uma, será que vão a tempo de salvar a alma?
09/03/26
Compaixão e altruísmo

13/02/26
Serenidade e esperança: A música como terapia
A música desperta as mais diversas emoções em cada um de nós. Por experiência própria, sabemos que a música muda o nosso estado emocional. Momentos de alegria e de tristeza têm a sua música apropriada. Momentos que vamos vivendo ou recordando ao longo da vida estão muitas vezes associados a determinadas músicas.
A música é fonte das emoções e sentimentos mais positivos como a alegria, gratidão, serenidade, esperança, amor... Ou, pelo contrário, desperta as mais terríveis emoções como n' A Sonata Kreutzer , de L. Tolstói, onde no capítulo 23, explica o "efeito sublime na alma" provocado pela música no despertar do ciúme.
Helena C. Peralta, em "A música (também) faz bem à saúde", Lusíadas, faz referência a Daniel Levitin que "demonstrou que estamos mais musicalmente equipados do que pensamos, pois os nossos cérebros estão naturalmente dotados para a música e esta é, talvez, tão fundamental para a espécie humana como a própria linguagem."
Se não for o Senhor o construtor da casa,será inútil trabalhar na construção.Se não é o Senhor que vigia a cidade,será inútil a sentinela montar guarda.Será inútil levantar cedo e dormir tarde,trabalhando arduamente por alimento.O Senhor concede o sonoàqueles a quem ele ama.Os filhos são herança do Senhor,uma recompensa que ele dá.Como flechas nas mãos do guerreirosão os filhos nascidos na juventude.Como é feliz o homemque tem a sua aljava cheia deles!Não será humilhado quando enfrentarseus inimigos no tribunal. *
"O uso do ritmo siciliano** cria uma atmosfera de repouso quase transcendental, especialmente quando o trecho central, “Cum dederit dilectos suis somnum” ("Quando Ele concede sono aos seus amados"), é repetido de forma meditativa. Essa repetição reforça a ideia de que o verdadeiro descanso é um presente divino, resultado da graça e do cuidado de Deus, e não do esforço humano."
"A obra foi composta por Vivaldi para o Ospedale della Pietà, um orfanato e conservatório em Veneza, o que acrescenta um significado especial. Destinada a jovens em situação de vulnerabilidade, a música traz conforto ao destacar a proteção e a herança divina, como nos versos “Ecce haereditas Domini, filii / Merces, fructus ventris” ("Eis a herança do Senhor, os filhos / Recompensa, fruto do ventre"). A repetição de “fructus ventris” (fruto do ventre) enfatiza a bênção da vida e a esperança para o futuro." (Letras - Nisi dominus, cum denderit)
* Na Vulgata corresponde ao Salmo 126.
** Forma musical barroca de carácter lento, bucólico e melancólico, frequentemente em modo menor.
04/12/25
Ideias que curam - Como responder aos nossos demónios
20/11/25
Os idosos e o futuro
13/11/25
O amor não é frágil... mas pode ser mágico
Como costumamos dizer, passamos a vida toda a aprender e, obviamente, a aprender a amar também. Mesmo quando chegamos aos cinquenta anos de casados? Talvez ainda com mais premência depois de passadas tantas experiências em contextos diferentes, simpáticos ou adversos, é, no entanto, sempre nesta capacidade de nos ligarmos ao outro que se baseia toda a nossa vida afectiva e relacional da qual depende a nossa saúde mental.
Acontece também que "as relações modernas têm inscritas no seu cerne, um paradoxo da melancolia: sabemos que o crescimento afetivo requer amor, mas no terreno, encontramos cada vez menos relacionamentos felizes. “ (Alain de Botton . Uma viagem terapêutica, p. 133)
Num relacionamento, o fracasso ou sucesso resume-se na essência à presença ou ausência de vários factores, cinco âncoras, como lhes chama Alain de Botton.
Estas cinco âncoras permitem manter a embarcação da vida relacional em equilíbrio. São as seguintes: não defensividade, vulnerabilidade, ternura, atitude terapêutica e entusiasmo.
A nossa postura defensiva é compreensiva e até necessária (defesas do ego) mas também pode ser parte do fracasso das nossas relações.
Por experiência ou não, a frase " “ama-me por quem eu sou” é o inevitável grito de guerra de todos os amantes que se encaminham para o desastre". Seria injusto "exigirmos ser amados tal como somos, com a nossa panóplia de falhas, obsessões, neuroses e imaturidades... só devemos esperar ser amados por quem desejamos ser, por quem somos nos nossos melhores momentos..." (p.134-135)
"O amor não é frágil, "pode haver ruturas - e reparações. O amor verdadeiro é resistente. Não será destruído por um pormenor... A defensividade pode ser ultrapassada. Podemos aprender a medir no nosso coração a difrerença entre uma queixa e uma rejeição existencial” (p.137)
Os parceiros devem ter a capacidade de ultrapassar a defensividade, podemos chegar a entender o que podemos reconhecer e superar os pequenos defeitos que todos temos, como por exemplo, na forma como deixamos a casa de banho, podemos comentar que temos mau hálito ou que estamos mal vestidos...(p. 138)
Ser vulnerável é descobrir "um lado em nós que remonta à infância..." (p. 140) e podemos e somos capazes de pedir ajuda.
A ternura está, por exemplo, no comportamento de um pai quando vê uma birra do seu filho que empurra o prato do jantar para o chão e mesmo assim não o castiga nem o considera “mau”
Ter uma atitude terapêutica depende essencialmente da capacidade de ambos os parceiros adoptarem em momentos críticos uma atitude terapêutica em relação às compulsões, falhas, fúrias e e excentricidades um do outro...
Finalmente, o entusiasmo. Claro que no principio da relação é fácil viver com entusiasmo. Porém a pouco e pouco "deixamos de nos maravilhar porque nos enredamos inconscientemente em várias formas de irritação não assimilada (p. 148): porque nunca pede desculpa; porque decidiu sem nos consultar; porque... porque...
Devemos deixar um tempo para falar daquilo que não correu bem, não para fazer queixas, não para voltar ao “histórico” que sempre é relevado quando nos irritamos e vamos buscar pormenores da relação de muitos anos atrás...
Mas em vez disso devemos verbalizar os nossas irritações com regularidade. Tentando compreender o que esteve na atitude do outro.
Até para a semana.





