29/12/12

Ver


Herbário, 1988, Painel de azulejos


Impressiona a criatividade, a inovação, as cores, a vibração das cores e o trabalho, uma obra imensa. A aparente simplicidade. A cultura das raízes, o azulejo português como ponto de partida ou de regresso.

E depois fica o poema de Mário de Sá-Carneiro a bater:

Je ne suis pas moi-mème
Et je ne suis pas l’autre
Je suis quelque chose d’intermédiaire
Pilier du pont de l'ennui
Qui s’en va de moi jusq’à l’autre.




26/12/12

Educação: balanço em tempo de dificuldades




O desempenho do ME merece nota suficiente. Depois daquilo que aconteceu nos últimos anos não seria muito difícil mas tendo em conta o contexto de dificuldades tem sido positivo o esforço que se tem vindo a fazer na educação.
O fim de algumas medidas, que eram simplesmente burocráticas ou até antipedagógicas tem sido concretizado, como aconteceu, por exemplo, nas seguintes:
- plano individual de trabalho (PIT),
- aulas de substituição ,
- planos de recuperação,
- áreas curriculares não disciplinares (mantém-se apoio ao estudo para os alunos que precisam)…
A actuação do sistema de educação parece-me que se pode resumir no seguinte: sempre que o ME tenta fazer diferente do anterior geralmente acerta mais e merece mais a concordância do que quando dá continuidade a medidas anteriores, como é o caso da extinção de escolas de pequena dimensão ou da avaliação de desempenho dos professores.
Por outro lado, há medidas que não entendo: como a revisão da constituição do Conselho Pedagógico, de onde saem praticamente todos os elementos que não sejam professores ou alguns técnicos. Acho completamente errado tirar os pais do Conselho Pedagógico. Não se vislumbra uma única razão para isso. Porquê ? Os pais não sabem pedagogia ?
Pois eu acho que não só os pais deviam continuar como devia haver um representante dos assistentes operacionais. A escola e a pedagogia existem para além da porta da sala de aula. E de que maneira !
Também não entendo o fim dos exames a nível de escola. O ministério vive entre o oito ou o oitenta. Mas há situações de alunos que não são nem uma coisa nem outra.
A adopção da escolaridade até aos 18 anos, ou final do ensino secundário, implicava perguntar "quanto custa". Não se fez na devida altura e agora está aí a factura. Outra pergunta que se deveria ter feito (e que eu aqui tenho feito), era o que vai acontecer aos alunos que não têm sucesso ? O que se faz aos alunos com NEE ?
Alguns em nome de uma falsa equidade acham que não há nada a fazer e todos deviam seguir para os cursos científico-humanísticos do secundário .. .
Mas quem está no terreno e que realmente trabalha todos os dias com estes alunos sabe que não é assim.
Este ministério veio tentar dar resposta aos alunos que não têm sucesso, através da “ensino vocacional” ( já agora mudem lá esta designação: o que é isso de vocacional?) e também o que se faz aos alunos com NEE/CEI que vão para o ensino secundário.
Assim, ou doutra maneira, era necessário agir. Já que até agora nada tinha sido feito. Embora tenhamos que dar passos cautelosos na avaliação destes novos currículos.
Também não se compreende que havendo que clarificar a avaliação dos alunos com CEI,  um despacho (despacho 14) que ia no sentido correcto, prevendo avaliação qualitativa e quantitativa é alterado no despacho seguinte para avaliação qualitativa. De facto, de uma maneira geral não faz sentido uma avaliação quantitativa mas há situações em que faz, por exemplo, um aluno com CEI pode ter avaliação quantitativa na disciplina de educação física ou na área de ET ou EV... Porque não fica essa decisão por conta do Conselho de turma e de acordo com o PEI de cada aluno ?
Finalmente, há um aspecto que me parece que tem sido positivo e merece bom: o diálogo que tem havido com todos os parceiros do sector educativo que resulta, se quisermos, na capacidade, no bom senso e na humildade, para corrigir o que está errado. É incoerente exigir voltar atrás e depois, quando isso acontece, achar que a correcção significa fraqueza.
Espero que o Ministério continue a dialogar e, quando necessário, voltar atrás. Porque isso, o diálogo, é a sua força.

19/12/12

Os sentidos do Natal


O Natal é uma época extraordinária para os sentidos. A luz, o madeiro, os doces, as filhós, o tronco de natal, os cânticos, os sabores, os cheiros, as tradições, o calor da lareira, o frio da rua…
É um dos acontecimentos sociais mais importantes do ano porque se junta a nossa família dos afectos. Na ceia de Natal estamos com aqueles que amamos. Mesmo quando ausentes estão presentes com as saudades que deles sentimos
Na festa de Natal a alimentação é, principalmente, hedónica e simbólica. Comer é muito mais do que comer. Isto é, comer é muito mais do que a parte energética. É muito mais o prazer do convívio e dos símbolos presentes.
As escolhas alimentares estão directamente ligadas a regras sociais, culturais e à nossa personalidade.
São experiências passadas, inconscientes, que fizeram parte do nosso desenvolvimento e foram experiências agradáveis ou desagradáveis.
Somos muito determinados nos nossos gostos: gostamos ou não gostamos de determinado alimento. 
E é assim desde a infância. Matty Chiva (“Le gout et l' autre: sensation, émotion et communication dans la prime enfance”, 1980), concluiu que o gosto começa por ser um reflexo gusto-facial (se colocamos um alimento amargo na boca da criança muito pequena ela fará uma careta) e à medida que vamos saboreando vários alimentos o comportamento vai-se transformando em comunicação com o outro tornando-se cada vez mais uma interacção cultural, com a socialização e aprendizagem, que se realiza na mesa familiar.
É uma festa para os sentidos porque a variedade de alimentos, de cores, de sabores, de cheiros diferentes constituem uma oportunidade extradordinária para a criança efectuar e treinar a aprendizagem do paladar, de sabores novos e diferentes. Geralmente o aumento da aceitação de um novo alimento está sujeito a várias apresentações desse alimento. Os pais nem sempre são persistentes para que a criança possa fazer essa aprendizagem.
A alimentação da criança é muitas vezes um processo complicado e é necessário saber que a criança é muito selectiva em relação aos sabores. Porque está a fazer aprendizagens em relação aos seus gostos. É por isso que gostos se discutem e começam a discutir-se desde muito cedo. 
O Natal é uma festa para os sentidos porque é uma festa da relação. É uma festa que se faz com o outro. 
Para construirmos um mundo com sentido, precisamos de um mundo que seja coerente.
Natal continua a ser a festa da família e das recordações. Mesmo na ausência da família. A família real muitas vezes já não existe ou está ausente mas a recordação está bem presente. E pode existir numa recordação encobridora sugerida por um harmonioso quadro familiar de Natal. Como uma memória reparadora da falha, da ausência, do vazio.
A vida faz sentido quando temos afecto, uma identidade, pertencemos a alguém e a algum sítio, vivemos em paz e temos um espaço afectivo seguro. 
Neste Natal, é apenas isto que estão a pedir as nossas crianças.
O Natal é uma festa para os sentidos porque é o retorno à infância e à degustação. É bom não perdermos o sabor dos alimentos simples e diferentes, o olfacto das coisas naturais e o brilho colorido das luzes da infância .

16/12/12

Fala-me de amor





Eu acredito
que o amor é a maior coisa do mundo;
que só ele pode vencer o ódio; que o direito
pode e há-de triunfar sobre o poder.

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12/12/12

Quebrar barreiras

Daqui: Sensory Software International Ltd


O nosso mundo torna-se compreensível através dos sentidos. É por isso que para haver desenvolvimento temos de ter acesso ao mundo exterior através dos órgãos dos sentidos. Muitas vezes não o conseguimos devido às barreiras que existem entre nós e o mundo. Por causa de nós, por causa do mundo ou dos dois.
Quando as barreiras se tornam permanentes e não podemos efectuar essas experiências na infância o nosso desenvolvimento fica comprometido e dificilmente nos tornamos pessoas completamente integradas.
Ma, além disso, cada um de nós tem uma maneira própria de sentir o mundo. Os gostos, os cheiros, são muito especiais para cada um de nós. Podemos dizer que ouvimos e gostamos de uma sinfonia de Beethoven. Mas mesmo aí há várias sensibilidades nessa maneira de gostar. É que o nosso cérebro tem uma maneira personalizada de sentir .
Ora acontece que estas diferenças personalizadas se passam em todas as aprendizagens.
Quando estabelecemos metas gerais de aprendizagem, para poderem ser atingidas, tem que haver caminhos ou métodos diferentes.
Todos aceitamos que prédios para habitação e equipamentos colectivos não devem ter barreiras arquitectónicas para que todas as pessoas possam ter acesso aos equipamentos sociais.
O mesmo se passa na escola com as aprendizagens. Se formos capazes de eliminar as barreiras curriculares seremos capazes de fazer com que todos os alunos aprendam. E acredito que a maioria delas podem ser eliminadas e os alunos têm a possibilidade de atingir as metas comuns.
Sabemos melhor como o cérebro trabalha e também vivemos, ou começamos a viver, num mundo digital. São dois mundos extraordinários e com muito para explorar .
Os meios digitais dão-nos a possibilidade de aprender e comunicar o que sentimos dado que são extensão ou alternativa dos nossos órgãos dos sentidos.
Por outro lado, "os indivíduos aprendem de maneira tão exclusiva como seu ADN". E por isso, a educação tem que ser personalizada.
As novas tecnologias têm versatilidade e capacidade de transformação, que não existem num quadro, livro ou caderno.
Veja-se o que podemos fazer com um texto digital: a utilização de tags ou marcadores, as redes e os hiperlinks, para todos os tipos de aprendizagem, dicionários, tradutores, dão-nos uma visão do que podemos ter no futuro. ..
Dispomos também de novas tecnologias a de comunicação aumentativa e alternativa, como a comunicação com símbolos e as possibilidades que pode trazer software tipo boardmaker, ou hardware como um ipad, ou todo o tipo de switches que nos dão acesso à comunicação.
Este método designa-se como desenho universal de aprendizagem e destina-se a aumentar o acesso às aprendizagens, eliminando ou pelo menos reduzindo barreiras físicas, cognitivas e organizacionais para a aprendizagem.
Este método não exclui outros como o ensino multissensorial e a pedagogia diferenciada...
O nosso cérebro funciona em rede sendo uma delas o reconhecimento sensorial. As tecnologias de informação e comunicação permitem a eliminação de barreiras nas aprendizagens e possibilitam que a informação chegue ao nosso cérebro.
Se, como sabemos, a legislação obriga a que os edifícios não tenham barreiras arquitectónicas, era bom que nos mentalizássemos de que também podemos quebrar barreiras na educação.

05/12/12

Da experiência de ouvir à aprendizagem de escutar





A educação sensorial é o ponto de partida para que o desenvolvimento atinja os seus objectivos.
Também para Piaget, a experiência é um dos factores de desenvolvimento. Sem ela todo desenvolvimento fica comprometido. Para se chegar à experiência lógico–matemática temos primeiro que desenvolver a experiência física que se processa a partir dos órgãos dos sentidos: a visão, a audição, o paladar, o olfacto e o tacto.
A experiência infantil ligada à natureza é uma experiência fundamental:
O bebé precisa dessa experiência física para ir construindo a sua pele psicológica de modo a que possa incorporar os dados da natureza nas suas estruturas cognitivas e por outro lado, processar igualmente os dados que vêm do seu próprio organismo.
No caso da audição, praticamente todas as tarefas a exigem, com particular relevância na linguagem. A maioria das pessoas nasce com a capacidade de ouvir. No entanto, as pessoas ouvem mas nem sempre escutam. Os dois termos, ouvir e escutar (hearing e listening) não significam a mesma coisa.
Os bebés têm capacidade para ouvir. Nascem com particular sensibilidade para determinados sons, para a música e para ritmo que lhe está associado desde muito cedo.
Mas esta capacidade inata de ouvir tem que ser desenvolvida pela experiência auditiva em todas as situações da vida, no sentido de se tornar capacidade de escuta.
Os alunos “ouvem” de maneiras diferentes e por motivos diferentes ao longo do dia de escola. Eles podem ouvir e escutar: o Director, o DT, professores, os amigos, histórias, regras do jogo, avisos, etc.
Podemos dizer que 45 por cento do dia de um aluno é gasto ouvindo e os alunos adquirem 85 por cento do conhecimento, ouvindo (Associação Internacional de escuta).
O treino da escuta é essencialmente informal, embora algumas pessoas possam treinar a escuta formalmente (segundo a mesma associação apenas 2% da população já recebeu instrução formal de escuta), deve ser feita para melhorar essa capacidade
Escutar é difícil porque envolve outras capacidades como por exemplo a capacidade de atenção, a capacidade para reconhecer os pontos importantes ou insignificantes do discurso, o contexto em que se fala, a linguagem corporal que acompanha, a entoação com que se dizem as frases.
Alguns alunos manifestam dificuldades na capacidade de atenção e por isso devem ser encaminhados para terapia. Usamos com eles programas de treino da atenção e reflexividade.
A escuta é muitas vezes inactiva, estamos presentes quando alguém fala, mas não absorvemos qualquer informação, estamos apenas fisicamente mas não mentalmente.
A comunicação entre as pessoas é difícil e, por isso, as reacções a uma entrevista, geram em cada comentador reacções diferentes, levado ao extremo quando se trata de ajuizar o que foi dito, consoante a cor politica. É normalmente uma escuta selectiva em que se ouve o que se quer ouvir e não o que está sendo dito.
Pelo menos em determinados settings, como entre pais-filhos, professores- alunos, psicólogo-cliente, médico-doente, a escuta na comunicação deve ser a escuta reflexiva que envolve escutar activamente, interpretar o que se diz e observar como está sendo dito e implica escutar o outro profundamente, interessar-se seriamente pelo que ele diz.
Escutar é uma competência poderosa mas é necessário que seja aprendida desde o berço. 

30/11/12

Ultimatistas e boicotadores




Numa democracia, a liberdade de expressão é componente essencial e o contraditório faz parte do exercício da liberdade.
O politicamente correcto, o mainstream da política, é fazer ultimatos ao governo para que se demita. Todos os dias há mais um bem pensante comentador político e económico a exigir que o façam porque já não tem legitimidade.
O mesmo se passa com o presidente da república.
Exigem a marcação da agenda das instituições: quando falam não deviam falar quando não falam o silêncio é ensurdecedor.
Os bem pensantes comentadores políticos e económicos querem que Isabel Jonet diga o que eles pensam e que não diga as verdades que são sua opinião.
Os bem pensantes políticos e económicos não gostaram que Fernando Nobre tivesse direito, como qualquer homem livre, de se candidatar pelo PSD à Assembleia da República.
O mainstream exige o boicote ao Pingo Doce porque a empresa de Soares dos Santos mudou a sua sede social.
Debates tipo prós e prós confirmam, patrões e sindicatos em harmonia, que o pensamento único, é o que fica bem ao serviço público pago pelos contribuintes.
Ou então fazem-se cartas abertas.
É assim o exercício da liberdade.
Mas há um pormenor: os outros, discordantes, também devem poder expressar-se livremente, fazerem as opções políticas que quiserem, por quem quiserem.
E querem continuar a ajudar quem querem. É o que farei como sempre fiz.
Nos EUA, como se viu há pouco tempo, prós e contras, sabem que são mais quatro anos.

28/11/12

Sonho de ser organista

Órgão renascentista da Sé de Évora. Tirada daqui
Foi concretizado o sonho de ser organista de uma catedral. Antoine Sibertin-Blanc. Ouvi-o algumas vezes.

“La Coca”


"La Coca" é sobre o que está a pensar: “cinco décadas de história do tráfico entre o Minho e a Galiza. Negócios de cigarros, uísque, barras de ouro, gado, café e, mais recentemente, a droga."
É sobre o enriquecimento rápido que pelos vistos acontece sempre. Antes e depois do BPN.
E sobre aquilo em que não está a pensar a menos que leia o livro. "La Coca" refere-se a uma frase de Picasso. "La Coca" é o que precisamos de ter: cabeça. Para pensar.
Merece qualquer prémio.
Rentes de Carvalho vai receber em Castelo Branco, dia 28 de Novembro, o Grande Prémio de Literatura Biográfica – 2010/2011, pelo seu livro "Tempo Contado".

27/11/12

"O povo é quem mais ordena"


Esteja quem estiver no poder, compete-nos ter uma cidadania activa. Normalmente, essa cidadania é exercida através da participação em acções organizadas pela sociedade, em associações de solidariedade ou através da iniciativa individual e do espírito de entreajuda. De uma forma negativa através de acções críticas aos governos quer seja o governo do país quer seja o governo local, da câmara municipal, ou outros poderes. 
Queremos construir um mundo melhor e por isso temos que questionar: Por que chegámos aqui ? Deveríamos estar noutro patamar do desenvolvimento moral ? Podíamos viver num mundo melhor ? 
Por que não temos serviços de proximidade? Por que não há segurança? Por que morrem as pessoas em casa, sozinhas? Por que esperamos horas na consulta externa ?...
A realidade é que há recuos e avanços permanentes e regressamos a momentos que pensávamos já ultrapassados e que não seriam facilmente  imagináveis.
Este livro (orig. de 1994, tradução de 1996) de Benjamin Spock "trata da deterioração da sociedade contemporânea e daquilo que as pessoas empenhadas podem fazer para legar um mundo melhor a todas as crianças".
É, de algum modo, uma autobiografia onde o autor de "Meu filho, meu tesouro" fala da sua vida familiar, profissional e de cidadão. Como tal refere a sua intervenção social e politica.
É uma visão desiludida da política. O episódio que conta acerca das promessas dos políticos como, por ex., numa campanha eleitoral, ter apoiado um politico que era contra a guerra do Vietname e logo que eleito redobraram os ataques no terreno (pag. 28).
Foi candidato por um partido minúsculo, o partido popular, que obteve oitenta mil votos e o deixou muito satisfeito (pag. 30). Lembra-me a satisfação que tive quando M. L. Pintasilgo obteve 7,38 % dos votos nas eleições de Janeiro de 1986.
Mas Benjamin Spock, fala-nos também de esperança e diz que a política é fundamental para podermos viver num mundo melhor. Por isso, é necessário o exercício da cidadania e de uma cidadania activa.
O exercício da cidadania começa no voto. O voto não pode ficar para os outros sejam eles quem forem. Temos vindo assistir a um crescimento da abstenção que enfraquece a democracia representativa. Mas, ainda assim, 
Depois da tomada de posse dos órgãos eleitos, os cidadãos, individualmente e em grupo, devem vigiar o cumprimento das promessas e fazer pressão junto desses órgãos: escrever-lhes cartas e, se necessário organizar piquetes e manifestações. 
...Hoje em dia, os traficantes da política são muito mais sofisticados. Sabem que poucas pessoas estudam realmente as questões e compreendem as políticas seguidas pelos partidos e candidatos. Sabem que slogans sonantes e acusações enganadoras podem conquistar mais votos do que debates sérios sobre questões complexas...
A televisão, infelizmente, presta-se a meias-verdades ditas de forma fluente mas insincera mais do que à análise de problemas complexos...
Não admira que as vedetas televisivas sejam consideradas autoridades em todos os assuntos e que alguns deles troquem de carreira, enveredando por altos cargos políticos. 
Um mundo melhor necessita de uma cidadania activa.
Tão importantes como as campanhas para as legislativas são as eleições para as autarquias e para a gestão escolar. Os debates e o activismo político de base, a nível local, são vitais para um processo verdadeiramente democrático, pois os assuntos locais, ao serem persistentemente debatidos, depressa se fazem ouvir no cenário político global. O poder autárquico, ao sentir-se pressionado pela comunidade para a necessidade da existência de infantários públicos dirigir-se-á às instâncias superiores para solicitar orientação e apoios.
Tão importante como irem votar é o facto de os pais se manterem politicamente activos entre eleições. A sua opinião de cidadão pode ser dada a conhecer através de uma carta para o director do jornal local ou de telefonemas para um talk show com intervenções telefónicas em directo. Pode escrever cartas aos presidentes das câmaras, aos deputados, ao primeiro-ministro, ao presidente, não apenas uma vez mas sempre que se sinta particularmente irritado com uma situação. Pode frequentar encontros e debates públicos e levantar questões da assistência... (pag.179)
Mudar o mundo é tarefa política, é tarefa de cada um de nós. Mas um mundo melhor para os nossos filhos faz-se com melhores cidadãos. E essa  mudança para melhor é sempre não-violenta.

22/11/12

Sísifo visto por ...

Sisifo, de Tiziano Vecellio, 1548-1549
(Wikipedia)


... José Gomes Ferreira:
«Sísifo é a história da humanidade. Essa é a nossa condição humana... os deuses condenaram-nos a isso... O sistema financeiro criou em nós a ilusão que já não era preciso empurrar a pedra e passámos a viver de crédito... Sabemos que não é assim. Sabemos que temos que empurrar a pedra.»

«E foram mais seis meses de sacrifícios sem sentido para milhões de portugueses, o Sísifo empurrando a pedra eternamente, como punição infernal "por viver acima das suas posses".»

ou Vicente Jorge Silva, em 18-4-2011, mesmo antes deste governo o ser.

O Sísifo dos dias de hoje é a rotina: métro, boulot, dodo. A rotina, como Camus também refere: levantar-se, transporte, quatro horas de escritório ou fábrica, refeição, transporte, quatro horas de trabalho, refeição, sono, e segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado e domingo, sempre tudo se repete.
As consequências do absurdo pode ser a revolta. Ou não. À medida que se perde um pouco da omnipotência tornamo-nos mais humanos, repetindo até ao fim do tempo esta rotina: empurrar a pedra todos os dias.


14/11/12

Simpatia: qualidade essencial do professor


Georges Mauco, em 1967 (edição portuguesa de 1968), pesquisou junto dos alunos a qualidade essencial do professor. A simpatia definida na tabela abaixo caracteriza o professor amado pelos alunos.
A lista define quase um adulto sem defeitos que é aquilo que se pede ao professor que seja.
A simpatia do professor é essencialmente a sua disponibilidade afectiva para com o aluno e, por isso, é muito mais do que um técnico competente que dá aulas. Foi sempre assim mas hoje, mais do que nunca, face aos problemas que os alunos apresentam na sala de aula, principalmente com perturbação do comportamento e de oposição, perturbação de hiperactividade com défice de atenção,  são necessários  professores com estas características. 


Professor simpático
Professor antipático
Firme, benevolente e confiante.
Amabilidade natural.
Gostando dos alunos.
Um grande camarada.
Calmo e amável.
Cordialidade, bondade, paciência.
Alegre e bom.
Nobre, discreto e correcto.
Procurava compreender os alunos.
Maternal e gostava de nós.
Gostava da sua aula e dos seus alunos.
Gostava de todos os alunos com «benevolência»,
Humana e dura (isto é, firme).
Justo, amável e confiante.
Simples e bom.
Delicada e amável.
Compreensivo e divertido.
Gostava dos alunos com autoridade.
Todos gostavam dele.
Encorajava com bondade.
Cordial e amável.
Primeiramente severo, punha depois à vontade.
Contacto directo e firme.
Autoridade pessoal, amado.
Firmeza e disciplina sem castigos.
Simples e bonacheirão.
Benevolente e afectuoso.
Delicado, amável e bondoso.
Temido e respeitado, mas amado.
Quase paternal.
Excelente coração.
Gostava dos seus alunos e respeitava-os.
Vivo e sensível.
Preocupava-se com os seus alunos.
Comunicativo, sociável, disciplina natural devido à personalidade do professor e ao seu juízo.
Alegre, sempre de humor constante, procurava interessar.
Nunca distante, podia-se-lhe falar.
Distante e vago.
Mole e sem entusiasmo.
Distante.
Glacial, exigente e julgando-se perseguido.
Pouco caloroso.
Duro e distante.
Autoritário e frio.
Colérico e com movimentos ridículos.
Injusto, não gostava de crianças.
Distante e altivo.
Nada de pessoal e humano.
Caprichoso, preguiçoso, sem autoridade.
Seco, minucioso, irónico.
Colérico, brutal, não se interessava, muito distante, frio.
Distante e trocista.
Muito distante e frio.
Brutal, sem qualquer esforço para compreender.
Afastado de todos os problemas (dos alunos).
Desconfiado, lunático.
Não se interessava pela aula.
Irregular, altivo ou demasiado familiar.
Procurava agradar, vexado quando não conseguia.
Não estimado, não obedecido.
Gritava muito, castigava injustamente.
Falta de tacto, frio, distante.
Gostava de meter medo.
Colérico e mau.
Muito distante e parecia ausente.
Orgulhosa e colérica.
Brutal e sem coração.
Estava como que ausente.
Não fazia trabalhar, não se interessava.
Desdenhosa, fria, dava as aulas
com indiferença.
Pouco justo nas sanções, parcial nas recompensas.    

11/11/12

Sistema de acompanhamento do progresso do aluno

Há necessidade de um instrumento de informação realista que permita gerir as expectativas e motivações dos alunos relativamente ao seu desempenho escolar.
Temos os planos de recuperação, acompanhamento e desenvolvimento. Sabemos que a ineficácia destes planos principalmente de recuperação e de acompanhamento é muito grande. Para além de serem muitas vezes um  exercício formal necessário (é interessante que, na escola, para abreviar, se fala muitas vezes de plano de retenção...).
Por isso este instrumento pode ser um óptimo contributo no conjunto de  medidas que podem ser implementadas, designadamente os planos de melhoria.
Se nos confrontamos com a questão: um aluno que inicia um ciclo com nível 2 numa determinada disciplina que expectativa poderá ter da sua aprendizagem, do seu esforço ? Infelizmente, a resposta será  de que venha a terminar com nível 2.
Claro que isso não faz sentido e a gestão da expectativa deverá ter como meta o nível seguinte.
Por isso, é necessário que se faça alguma coisa e esta informação disponibilizada através deste instrumento de trabalho do Prof. Júlio Diamantino poderá trazer algo de novo à orientação e aconselhamento do aluno no âmbito do SPO e do conselho de turma..

06/11/12

Austeridade, a sra Merkel, o outro lado do atlântico e os mesmos de sempre




Adaptações curriculares


 
O filme “A caixa” de Manoel de Oliveira conta a estória de um pedinte que acaba por ter aquilo que todos desejam: a possibilidade de pedir com eficácia, com resultados. Claro que acaba por suscitar o interesse de outros e a caixa do peditório acaba por lhe ser roubada. 
Só que há um problema: o ladrão não tem uma estória para contar. Como poderá convencer alguém se não tem uma estória para convencer as pessoas? Não tem uma história e a estória é a base para se poder pedir na rua e ser bem sucedido.
Já todos vimos certamente, pedintes que mostram esse “currículo” na praça pública à compaixão de quem passa. 
Há algum tempo David Rodrigues, num colóquio sobre “inclusão /exclusão que paradigma”, realizado na ESE de Castelo Branco, contou também uma estória que veio ao encontro daquilo que estamos a reflectir: Um pai queixava-se, na escola, que o seu filho não transitava de ano e o insucesso era já habitual para aquela criança e para aquela família. E dizia: “ se ao menos o meu filho tivesse um problema visível, já não havia problemas”. 
Esta necessidade de ter uma estória, a narrativa de uma queixa que impressione os outros parece ser um dado fundamental para obter a justificação suficiente e necessária para entrar num regime educativo especial, para ter medidas de avaliação diferentes como as previstas na legislação, para ter compaixão e tolerância e uma avaliação menos penalizadora para o aluno. 
Ter uma estória é assim fundamental também na escola. E se essa estória for devidamente escrita num relatório médico, ou mesmo psicológico, tanto melhor. 
Mas uma das coisas que mais me incomoda na escola é a situação daqueles alunos que não têm estória. 
Os pais não estão informados para reivindicarem os seus direitos, isto é, a aplicação da legislação em vigor no que diz respeito à avaliação. 
Incomoda-me ver alunos esquecidos que chumbam anos seguidos e não se faz nada ou quase nada por eles. Não há regimes educativos especiais, não há adaptações curriculares e os alunos continuam a repetir anos a fio sem que se altere seja o que for. 
Então mas a educação não é sucesso para todos ? Até onde vai a possibilidade de adequação ou adaptação curricular? 
A formalização da avaliação deve ser objectiva e rigorosa mas o que fazer aos alunos que não conseguem ultrapassar as suas dificuldades ? 
Repetir o ano é uma forma de desperdício escolar e sabemos quanto custa um aluno, anualmente, ao estado. 
O abandono e a repetição de ano são os tipos de desperdício escolar mais relevantes e indicadores do estado da educação. 
As reformas educativas que alterações têm introduzido relativamente a este problema ? 
Continuam a ser os eternos esquecidos do sistema educativo. 
O actual ministério da educação parece que quer alterar este estado das coisas em beneficio da equidade, contrariamente à ideia de se manter os alunos todos num currículo que não lhes altera a situação. 
É verdade que tem havido tentativas (pief, cef, pca) para resolver este problema mas são pouco consistentes e aparecem e desaparecem como os governos que criam essas respostas . 
Que significado poderá ter a orientação escolar e profissional para os jovens com insucesso escolar quando sabemos que o insucesso gera: 
- sentimento de ser desprovido de competências, 
- perspectivas temporais limitadas e perspectivas limitadas ao presente ou ao passado recente: “não me falem de futuro”, 
- representação do emprego sob a forma de “lugares” mais ou menos bons, 
- a verdadeira formação adquire-se pela experiência prática, 
- identidade de pessoa sem qualidade, 
- sentimento de desespero, 
- consciência aguda dos obstáculos.
Que projecto de vida então ? Como fazer as transições de ciclos, de tipo de ensino ? 
Se defendemos a equidade temos de defender várias vias curriculares para os alunos poderem optar. Condená-los ao insucesso é a pior das iniquidades.
É que o insucesso nem sempre depende, apenas, da criança. 


"Em busca da esmeralda perdida"



Este trabalho de pesquisa podia chamar-se "os salteadores da arca perdida" ou Indiana Jones na terra dos afectos…
No fundo, a psicoterapia é procurar as ligações/vínculos que são os factores protectores da nossa vida psicológica e da nossa vida.
Nesse mundo de aventuras os factores de risco parece que são sempre, à medida que nos vamos desenvolvendo, mais difíceis e imprevisíveis antes de se atingir o objectivo. O que acontece é que no nosso tempo estes laços são muito frágeis devido às situações familiares e sociais complexas em que vivemos:
- separações familiares disfuncionais,
- violências hard e soft, guerras, acidentes de viação, doenças,
- perturbações do quotidiano: stress, falta de tempo ou tempo a mais (desemprego…).
Se viver é um risco nem sempre é fácil aceitá-lo. Por isso se desiste.
As crianças também vivem este contexto e correm risco de perturbação de desenvolvimento.
É neste ponto que nos podemos perguntar para que serve a psicologia? Para voltar atrás à procura das ligações, das pontes caídas, e descobrir que caminho podemos seguir para melhor podermos passar para o outro lado, o lado do equilíbrio psicológico.
Ao longo do desenvolvimento deparamos com muitas situações de perigo: real ou imaginário, tão importante como o real. Algumas estão devidamente assinaladas e os sintomas são claros para sabermos o caminho mas outras merecem um cuidado especial por parte do psicólogo.
Tenho vindo a deparar com mais frequência com situações de luto e de depressão infantil. Não são situações relativas a esta ou àquela crise social. O que acontece é que hoje estamos mais atentos e as razões indicadas acima não são de hoje mas têm vindo a contextualizar a sociedade actual.
Muitas vezes estas situações não perfazem totalmente os critérios para podermos falar de depressão infantil mas aparece num sentimento de tristeza associado à perda do objecto do afecto ou à ausência do objecto de afecto ou à insegurança que é sentida pelas dificuldades de ligação ao objecto do afecto.
Os sintomas são as conhecidas  “dores de barriga” associadas a choro, mais ou menos persistente, mas com força suficiente para perturbar a frequência regular das aulas, necessária para não se perder o fio à meada do currículo.
O sentimento de perda está normalmente presente. E um pormenor pode desencadear o processo: uma situação de perda da autoestima, um insanável conflito parental onde a criança é a última a ser considerada, um horário com “furos” e sem objectivos,  e as secas à porta da escola porque os pais nunca chegam a horas à saída...
Estas crianças apresentam medos difusos, não concretos e objectivos. E como sabemos o medo inventa coisas terríveis como se fossem reais.
Como podemos explicar às crianças que essas coisas terríveis não são reais, não existem ?
Os pais têm que estar atentos aos sintomas que podem aparecer e que são resultantes das actividades escolares ou das interacções entre pares no tempo que os filhos passam na escola.
Mas não se esqueçam que a procura da esmeralda perdida deve começar em casa, onde reside muitas vezes a forte ligação a um filho que não pode ter dúvidas acerca do amor dos pais, algumas vezes está na escola ou no caminho para a escola. Ou não.
O mundo afectivo dos pais pode desabar, e aí é necessário procurar ajuda, mas a ligação aos filhos tem de ser mais forte do que tudo o que nos possa acontecer.
Já aqui falei que este seguro afectivo deve fazer parte do enxoval do bebé de qualquer casal que vai ter um filho. Os pais deveriam ter o compromisso, perante qualquer perigo, de nunca romperem esse seguro afectivo.

03/11/12

Escritores da Beira



Rui de Pina
João Roiz de Castelo Branco
Amato Lusitano
Gonçalo Anes Bandarra
Gonçalo Fernandes Trancoso
Pedro da Fonseca
Frei Heitor Pinto
Frei Bernardo de Brito
P. António de Andrade
Frei Manuel da Rocha
Martinho de Mendonça
Ribeiro Sanches
Frei Joaquim de Santa Rosa de Viterbo
José Silvestre Ribeiro
José Germano da Cunha
João Franco
José Augusto de Castro
Afonso Costa
Faria de Vasconcelos
Nuno de Montemor
Hipólito Raposo
Vieira de Almeida
Cassiano dos Sanos Abranches
José Lopes Dias
José Crespo
José Marmelo e Silva
António Paulouro
Vergílio Ferreira
Manuel Antunes
Vasco Miranda
Orlando Vitorino
Eugénio de Andrade
Eduardo Lourenço
João Maia
José Cardoso Pires
António Alçada Baptista
Albano Martins
 E.M. de Melo e Castro
António Salvado
José Correia Tavares
Pinharanda Gomes
Arnaldo Saraiva
Maria de Loudes Hortas
João Camilo
José Manuel Capêlo
Carlos Correia
José Oliveira Barata
Luís Osório
 

31/10/12

Literatura e liberdade

Decorreu na semana passada o “Festival literário de Castelo Branco”.
Estive na sessão do cine-teatro avenida. O tema do debate era  a literatura e o politicamente correcto.
A mesa era composta por autores de que gosto e outros que só conheço de nome.
Mário Zambujal, Isabel Stilwell, Teolinda Gersão, Afonso Cruz e Pedro Vieira. Moderada por Fernando Paulouro.
Mas o meu maior interesse tinha a ver com a homenagem a António Salvado que por impossibilidade de saúde não esteve presente.
Justa homenagem da sua cidade. Castelo Branco tem a sorte de ter um grande autor da e na sua cidade.
Cruzamos com ele muitas vezes ou tomamos a bica no mesmo café. Não é necessário falar.
António Salvado é organizador da única antologia portuguesa de mulheres poetas ou poetisas. Lia os trabalhos que publicava no Jornal do Fundão, em especial uma série de suplementos dedicados aos autores da Beira, quer àqueles que pintam com a palavra quer aos que escrevem com a sua pintura, como muito bem disse José Pires que apresentou a sessão.
Ler os mais recentes livros de António Salvado é a melhor homenagem que lhe podemos prestar . “Outono” é belíssimo e “Repor a luz” é uma onda de felicidade.
A minha homenagem é ler António Salvado.
Quanto à sessão devo confessar que admirei a coragem de Teolinda Gersão que falou da sua visão antidogmática da literatura.
Vou ler “A cidade de Ulisses” e “A árvore das palavras”.
Numa plateia que ia de Fernando Paulouro para a esquerda, salpicada com outras opções políticas que também gostam de cultura, como é o meu caso, foi corajoso falar do tempo do muro de Berlim em que Teolinda Gersão compreendeu que não havia nada de novo do outro lado.
Ainda hoje pensar como Teolinda Gersão é politicamente incorrecto.
Mário Zambujal falou do tempo em que era preciso escolher as palavras para poder escrever sem que a censura lhe cortasse os artigos.
Mas o politicamente correcto não tem a ver só com o tempo.
Nada é comparável à desprezível censura. Mas os "dinossauros excelentíssimos" andam por aí. E eles é que sabem quem deve ser publicado e quem deve fazer as manchetes da comunicação social. São as extinções, as fusões e as pressões, da economia, da politica, no fundo, do poder que nos dão as notícias que acham politicamente correctas.
Há coisas na nossa vida que são construídas todos os dias. A liberdade e a liberdade de expressão são construídas todos os dias, tal como a integração e inclusão social e educativa. Nunca está pronta, nunca está acabada. É cada um de nós que tem que a construir. Como autor ou como leitor.
Houve ainda um momento em que pela primeira vez ouvi a viola beiroa, também designada de viola de Castelo Branco, típica da região da Beira Baixa, que estava praticamente caída no esquecimento.
A cultura é memória e é bom que a Câmara, como fez, ajude a preservar essa memória.
Por isso, um bando de aplausos por esta iniciativa que é um a forma politicamente incorrecta de dizer e escrever, como diria Isabel Stilwell, porque só há bandos de pássaros.
Nem tudo o que é politicamente incorrecto é certo e nem tudo o que é politicamente correcto é errado. As duas formas podem ser registo de cidadãos livres que escrevem o que pensam e pensam o que escrevem.

25/10/12

Boatos e rumores

Significam mais ou menos a mesma coisa. O rumor (Larousse) é uma informação que se transmite oralmente, e assim se espalha. Mas hoje temos um meio muito poderoso para espalhar o rumor, a internet, que utiliza o audiovisual e a velocidade para potenciar essa forma de comunicação muitas vezes falsa, voluntariamente ou não .
Alguns rumores espalham-se mais facilmente do que outros quando para isso encontram terreno ou contexto propício. Por outro lado, o rumor deforma-se ao ser espalhado, modificando-o cada um sem se dar conta disso. Ou não, pode deformar-se propositadamente e então estamos mais no campo do boato.
O boato é uma declaração cuja veracidade não é rapidamente confirmada.
Pode-se também incluir no campo da propaganda e da manipulação.
O que espanta é que as pessoas acreditem tão facilmente no rumor. Como é que as pessoas se tornam crédulas ?
Para Fabrice Clément, (Lausanne) a maior parte destes boatos e rumores têm que passar por dois filtros : um filtro cognitivo e outro emocional. O filtro cognitivo (que se pode chamar “sentido crítico”) verifica se a informação é credível ou não face à experiência e à cultura de cada um. Face a uma informação absurda ou contra-intuitiva (“está um fantasma no armário”), usamos espontaneamente este filtro cognitivo.
O filtro emocional selecciona aquilo que é desejável ou não. Porque para que uma informação seja aceite não é suficiente que pareça verdadeira ou falsa é necessário que ela não perturbe muito o equilíbrio psicológico…
No final a credulidade resulta da transacção entre os dois filtros cognitivo e emocional, racional e desejável.

A internet pelas suas características parece ser uma fonte mais potente de fabricar rumores do que os outros media: a televisão, a radio e a imprensa, principalmente os tablóides.
De facto a internet tem três características que os outros media não têm:
Pela extensão geográfica: dá a informação a nível do planeta.
Pela extensão temporal : a transmissão de uma notícia é quase instantânea.
Pela sua considerável capacidade de memoria : tudo é consultável em qualquer local, e em qualquer momento…
O texto de um rumor encontra-se em poucos clics. Devemos ter em conta a nuance: não é porque existe a possibilidade que nos servimos disso! A maior parte das pessoas não verifica uma informação antes de a tornar pública....
Mas a internet não tem apenas esta possibilidade de veicular os rumores a grande velocidade. Tem também sites anti-boato e anti-rumor ( 1,   2,  3), que servem exactamente para que as pessoas possam saber se um rumor tem fundamento ou se se trata de uma pura falsidade.
Em Portugal há rumores sobre tudo: políticos, famosos, figuras públicas e até sobre os mais descuidados cidadãos, independentemente da idade, sobre todas as situações principalmente aquelas que puxam à lágrima. Era também bom que existissem sites anti-rumor.
O problema é se estes sites anti rumor merecem credibilidade e se eles próprios não se transformam em rumor. Quem poderá garantir que não ? Apesar de tudo eles lançam uma dúvida sobre o rumor. E essa dúvida sobre o rumor já vale a pena.
É que hoje, mais do que no passado, e devido exactamente ao poder das tecnologias de informação e comunicação assistimos aos mais incríveis boatos e rumores sobre tudo e sobre qualquer pessoa.
Por isso é necessário termos espírito crítico e desconfiar do que ouvimos ou do que vemos, principalmente do que nos emociona facilmente ou não nos causa qualquer dissonância cognitiva.

18/10/12

Manipulação positiva, manipulação negativa

Por várias vezes falámos aqui de manipulação. Normalmente a manipulação tem uma conotação negativa e terrível. No entanto, a manipulação para se fazer aquilo que eu quero é uma coisa, a manipulação para o que deve ser feito é outra. O problema é: quem sabe o que deve ser feito ?
O termo manipulação ou manipulação das ideias está presente na nossa vida: é o que fazem os pais e os filhos, os líderes, os chefes das empresas, os professores.
Uma simples t-shirt com um slogan é uma forma de manipulação. As palavras de ordem nas manifestações são manipulação, seja "que se lixe a troika queremos as nossas vidas" ou o pin que os membros do governo usam na lapela.
Há a manipulação da felicidade, da alegria e do bom humor como a manipulação do mágico que nos quer fazer acreditar que tira um coelho da cartola ou que tira moedas do nariz.
Temos dificuldade de distinguir informação de contra informação, propaganda e contra propaganda, na certeza de que os gabinetes de agit-prop  estão cheios de trabalho...
São horas de massacre dos comentadores nos canais de cabo, das notícias repetidas mil vezes, das reportagens redondas e anunciadas, da adjectivação, do desrespeito e da descredibilização das instituições, da maledicência interpessoal dos políticos.
As campanhas eleitorais são manipulação extrema e as promessas dos políticos como a diminuição dos impostos, a baixa do custo de vida, o estado social, continuam a produzir o efeito desejado como acontece com os impostores...
Nas famílias passa-se a mesma coisa: o discurso do casal em separação ou divórcio relativamente ao desentendimento sobre o cuidado dos filhos, as cenas à volta da atribuição do poder parental, a manipulação dos filhos relativamente a um dos progenitores que redunda, normalmente, em manipulação maldosa e perniciosa.
Querendo ou não,  a manipulação faz parte da nossa vida. O que estou aqui a dizer, a minha opinião, é uma forma de dizer que eu tenho razão e, portanto, devem concordar comigo. É uma forma de manipulação.
Manipulação das ideias e persuasão não devem ser confundidas. A manipulação das ideias consiste num conjunto de informações que nos chegam ao cérebro de forma inconsciente para obter comportamentos relativamente focalizados.  A persuasão visa modificar as opiniões e atitudes e são o centro da vida democrática...
Para obter eficácia a manipulação é preferível à persuasão mas as duas constituem a comunicação comprometida, isto é, um discurso de persuasão que não é recebido passivamente mas acompanhado de uma acção empenhada como a assinatura de uma petição, um autocolante, o trabalho de grupo para criar um slogan...
A persuasão só por si  parece cada vez mais letra morta. (Le cercle Psy)
Há formas de manipulação positiva, a manipulação para o bem e a manipulação negativa e perniciosa.
A educação é também uma forma de manipulação. Freud falava da educação como repressão exigida pela integração na cultura. Seja em que cultura for a manipulação positiva é o que se faz com a educação da criança na família e na escola para mudarmos o seu comportamento e atitudes. O mesmo é dizer que uma criança não apresenta comportamentos desajustados por causa da sua natureza. Não, o mal não está nos seus genes. É por isso que na consulta psicológica digo aos pais que não devem punir fisicamente os filhos porque eles não são maus. O seu comportamento é que deve ser punido. Mas os factores que influenciam o comportamento são tão diversos que seria injusto atribuir à natureza da criança essa responsabilidade.
Voltamos a Rousseau, então ? Não. Os maus comportamentos devem ser punidos mas a natureza da criança não é disso responsável.
A manipulação positiva faz bem à saúde. Utilizar a manipulação para mudar comportamentos como o tabagismo, alcoolismo, toxicodependência, ou para incentivar comportamentos saudáveis, mudar o comportamento na refeição ou na hora de dormir das crianças... tudo isto está a acontecer agora na nossa vida.

12/10/12

A diferença és tu

Dinah Washington (August 29, 1924 December 14, 1963)

Não é o governo, nem a oposição e muito menos a troika. Bom fim-de-semana.

M. C. Escher: "Os homens descem e no entanto elevam-se"

                              

                               
 TRANSCENDER

Escher acertou.
Os homens descem e no entanto elevam-se,
A mão é puxada pela mão que puxa,
E uma mulher está apoiada
Nos seus próprios ombros.

Sem eu e tu este universo é simples,
Funciona com a regularidade de uma prisão.
As galáxias giram em arcos estipulados,
As estrelas caem a uma hora específica,
Os corvos dão uma curva em U para sul e os macacos
têm o cio na altura certa.

Mas nós, a quem o cosmos formou durante milhões de anos
Para encaixar no seu lugar, nós sabemos que falhou.
Pois nós podemos reformar,
Meter um braço através das barras
E, tal como Escher, puxar-nos para fora.

E enquanto as baleias que se alimentam de bacalhau
Estão confinadas para sempre ao mar,
Nós subimos as ondas,
E olhamos das nuvens para baixo.

Look Down from Clouds (Marvin Levine, 1997)
(Poema que abre o livro de Seligman)






                                                       
   
o princípio de m. c. escher (I)

prelúdío e fuga sobre um tema popular
a)
lá sai uma, saem as duas
as três pombas do papel
saem do bico da pena
que nesta folha as escreve
e que as penas lhes alisa
sem acrescentar as minhas,
ganham forma, ganham força,
e aos poucos se desenleiam,
já se equilibram, já voam,
descrevem uma parábola
dum branco intenso no azul,
vêm pousar no peitoril,
de patinhas saltitantes
pulam pra cima da mesa,
fazem dum livro degrau
e regressam ao papel,
entram na caligrafia
que as prende no seu cordel,
letra a letra, linha a linha,
outra vez palavras planas
que atravessam toda a página
pra voltarem a soltar-se
na chegada ao outro lado
e não há ponto final 
Vasco Graça  Moura
(Extracto de um poema de Vasco Graça Moura  que se pode ler em Poesia 1963-1995,Círculo de Leitores)

10/10/12

Dia mundial da Saúde Mental



Hoje, dia 10 de Outubro, assinalou-se o “Dia Mundial da Saúde Mental”. Podemos dizer que a Saúde Mental “é sentirmo-nos bem connosco próprios e na relação com os outros. É sermos capazes de lidar de forma positiva com as adversidades. É termos confiança e não temermos o futuro.”

É importante distinguir doença mental e deficiência mental (Cobb e Mittler):
A doença mental abrange várias perturbações que afectam o funcionamento e comportamento emocional, social e intelectual. Ou seja, a pessoa apresenta reacções emocionais inapropriadas dentro de vários padrões e graus de gravidade, por distorções (e não por défice) da compreensão e da comunicação e por um comportamento social erradamente dirigido e não por incapacidade de adaptação.
Há várias classificações da doença mental:
Estados psicóticos (esquizofrenia e doenças maníaco depressivas), as perturbações de origem orgânica (demências e perturbações degenerativas do cérebro), e as perturbações psiconeuróticas (estados de ansiedade e perturbações obsessivas) e perturbações do comportamento e personalidade. 
Mas doença mental não quer dizer deficiência mental.
A deficiência mental envolve um problema de desenvolvimento e um problema sócio-cultural: "Funcionamento intelectual significativamente abaixo da média e que seja notório desde tenra idade” e “ Incapacidade significativa para se adaptar às exigências culturais da sociedade.”
Hoje para um indivíduo ser classificado como deficiente mental deverá provar-se que tanto o seu funcionamento intelectual como o seu comportamento adaptativo estão afectados, avaliados por critérios objectivos de medição.
Todos podemos, em determinada altura da nossa vida, sofrer um problema de doença mental, de maior ou menor gravidade.
Esses momentos podem ser mais acentuados em algumas fases da vida: a entrada na escola, a adolescência, o envelhecimento, ou alterações na vida familiar: perda de familiar próximo e significativo, o divórcio, ou alterações na situação laboral: desemprego, reforma, ou acontecimentos escolares: insucesso, bullying...
A depressão na infância e adolescência tem vindo a ganhar relevo na investigação e na atenção que é necessário haver na escola.
Muitos problemas de aprendizagem e de comportamento surgem num fundo de tristeza a que as crianças têm dificuldade em fugir ( como referia João dos Santos)
É por isso necessário ter atenção aos sintomas (CDS - Questionário de depressão para crianças):
Respostas afectivas: sentimentos de tristeza e choro.
Autoconceito negativo: sentimento de inadequação, fraca autoestima, inutilidade, desamparo, desesperança e falta de carinho.
Diminuição da produtividade mental e dos impulsos: aborrecimento, isolamento, falta de energia, descontentamento, pouca capacidade para o prazer e para aceitar ajuda ou conforto, assim como atraso motor.
Preocupações: com a morte a doença, o eu ou os outros, assim como pensamentos suicidas e sentimentos de perda (real ou imaginária).
Problemas de agressão: irritabilidade e explosões de mau humor.
Estas crianças necessitam de ajuda e não de incompreensão e preconceitos: do tipo, é tudo imaginação, são manias, são preguiçosas, a culpa é dos pais que não o educam.
Estes preconceitos, fazem com que muitas crianças e pais tenham vergonha e medo de procurar apoio ou tratamento, ou não queiram reconhecer os primeiros sinais ou sintomas de doença.
O apoio psicológico e psiquiátrico deverá ser sempre procurado. A par do acompanhamento que pode ser dispensado na escola.
A escola, felizmente, também está mais atenta à integração e apoio das crianças com este tipo de perturbações.

Foi só em 1792 que Philippe Pinel, em Paris, tirou as correntes destes pacientes presos nas instituições psiquiátricas. Mas hoje, continua ainda a ser necessário ultrapassar alguns preconceitos.

09/10/12

"O povo é quem mais ordena"



Mas "o povo é quem mais ordena" também porque
A democracia em Portugal não pode ser expressa nem realizada fora da relação entre democracia formal e aprofundamento da democracia participativa a que se refere, de forma clara, a Constituição.

Na verdade, o que caracteriza a democracia portuguesa em toda a sua estrutura é o facto de ser uma democracia participativa. Para que tal democracia funcione, é necessário que os mecanismos da democracia representativa reassumam a sua dignidade institucional própria.

M. de L. Pintasilgo descreve seis eixos que enformam a democracia participativa, sem dúvida mais complexa, completa e exigente do que a democracia representativa e formal e que vou tentar sintetizar:
 "A substituição da responsabilidade pessoal dos deputados, relativamente aos interesses reais do país, pela sua subordinação aos órgãos centrais dos partidos, é uma caricatura do sistema representativo...

Paralelamente, é necessário que os governos governem sem, por um lado, usurparem poderes próprios do Parlamento e sem, por outro, deixarem para tempo indeterminado as suas tarefas prioritárias.

Os governos que vão tomando decisões no dia a dia sem terem a coragem técnica e política de apresentarem ao Parlamento um Plano e suas Grandes Opções tornam-se responsáveis, perante o país, pelo descalabro eventual da democracia.

A democracia participativa supõe ainda plena utilização das instituições democráticas intermédias consignadas na Constituição, tais como o Conselho Nacional do Plano, os órgãos regionais, o Conselho Superior da Magistratura, o Conselho Superior de Defesa Nacional.

Finalmente, a democracia participativa exige que se criem novos mecanismos de intervenção social, aquilo a que eu chamaria de harmonização da convivência entre os cidadãos e entre os diversos grupos.
Destaco, entre esses mecanismos, os seguintes:
- a caracterização de novos parceiros sociais, isto é, de entidades ou instituições que no seu conjunto são determinantes na resolução de problemas fulcrais do país;
- a organização e audição de grupos de pressão, que se possam manifestar, por todas as formas legais, sobre as grandes questões nacionais em que se hipoteca não só o presente, mas também o futuro a médio e a longo prazo;
- a normalização do circuito de recepção das «petições» que chegam à Assembleia da República e a introdução da prática da sua discussão pelos deputados.


Nesse quadro, o lugar do Presidente da República é decisivo, uma vez que lhe cabe ser o garante do «regular funcionamento das instituições democráticas».
Os mecanismos que assim tem ao seu dispor, e os que pode accionar com imaginação, dão-lhe uma responsabilidade própria e única no aprofundamento da democracia participativa, de modo a salvaguardar os valores fundamentais da democracia."
Esta intervenção é mais profunda do que a simples troca de lugares no parlamento e no governo e não ignora que a democracia participativa nunca dispensa a democracia formal.  

"O povo é quem mais ordena"

De facto, há uma célebre frase: "o povo é quem mais ordena". Como se pode confirmar aqui, continua a ser assim.


08/10/12

Olívia patroa, Olívia costureira

Saudades do humor de Ivone Silva.
Como ela tinha razão.
O sr. da CIP tem vontade de fazer greve e o sr. da CGTP quer acabar com o capital mas exige emprego.

Negação e cooperação


Escrevi em 7-3-2012, que há reconhecimento de que é necessário tomar medidas que reduzam o défice e a dívida mas na prática o bordão é o da negação: não toquem em nada.
Como pode um país ter um desenvolvimento sustentado quando as oposições (não me refiro apenas às actuais) vivem da negação permanente de todas as medidas necessárias à gestão governativa ?
A cooperação é uma componente da inteligência emocional e está arredada da política. Pelos vistos a inteligência emocional é apenas para os indivíduos e para as empresas mas nada de a meter na cidadania.
Continua assim, como se pode ler aqui:
Ao longo do último ano os portugueses declararam-se nas mais diversas manifestações públicas contra o aumento das taxas moderadoras na saúde, contra a privatização da RTP, contra o corte de salários dos funcionários públicos, contra o encerramento da Maternidade Alfredo da Costa e outros serviços hospitalares, contra o encerramento de escolas, contra o aumento do número de alunos por turma, contra o despedimento de professores contratados, contra cortes no subsídio de desemprego, contra cortes no rendimento mínimo, contra cortes no investimento público, contra a falta de apoios às empresas, contra o encerramento de Fundações na área da cultura e contra a austeridade porque causa efeito recessivo. Em suma, os portugueses não estão dispostos a abdicar do seu Estado Social. E também não estão dispostos a pagar os impostos necessários para sustentar o Estado Social. Há em Portugal um largo consenso contra aumentos de impostos. O Estado Social é bom enquanto for pago por défices, quando é preciso pagá-lo com impostos já não pode ser.
Sendo um consenso nacional que é necessário reduzir na despesa qual é a despesa em que consensualmente se pode reduzir? Até agora nem uma.
Negação e cooperação são ambas manifestações de cidadania.

04/10/12

Falha, memória da falha e resiliência

Andrew Zolli na conferência "Presente no futuro" ajuda a compreender que a crise é «início da preparação para o futuro».
A importância de reconhecer o que falhou e a memória dessa falha pode ajudar a compreender o comportamento das sociedades, neste caso da portuguesa. Aquilo que alguns confundem com passividade, é resiliência. Todos sabemos o que aconteceu e porque estamos neste ponto. Era importante haver justiça, como na Islândia, para que haja memória da falha.
Mas este luto que os portugueses estão a fazer parece que pouco interessa aos que estiveram calados  e que mentiram durante 15 anos. Querem voltar rapidamente ao poder. Porque não querem ter nem há quem os faça ter memória dessa falha.

02/10/12

A equidade do "ensino vocacional" e a cultura


Contracapa de Mágoas da escola, de Daniel Pennac


O ministério da educação vai criar este ano lectivo, “no âmbito da oferta formativa de cursos vocacionais no ensino básico, uma experiência-piloto de oferta destes cursos, no ano lectivo de 2012 -2013 e regulamenta os termos e as condições para o seu funcionamento (Portaria 292-A/2012, de 26 de Setembro).
Esta experiência-piloto destina-se a alunos com mais de 13 anos, e que tenham tenham duas retenções no mesmo ciclo ou três retenções em ciclos distintos.
A experiência-piloto ora regulamentada pode ser alargada a partir do ano lectivo de 2013 -2014 a outros agrupamentos de escolas ou escolas por despacho do Ministro da Educação e Ciência”
De facto, já não era sem tempo. A realidade do terreno vinha impondo respostas que a teoria dos gabinetes, mesmo que internacionais, não querem ver.
 A OCDE define alguns critérios para a equidade da educação: Um deles refere que se deve “limitar a orientação precoce para vias diferenciadas ou para turmas de nível e evitar a selecção com base nos resultados de aprendizagem”.
São coisas diferentes. Quanto à  orientação precoce para vias diferenciadas  tem que se entender o que significa  orientação precoce para medidas diferenciadas? É a orientação no final do 4º ano , do 6º ou do do 9º ano de escolaridade?
Não será falta de equidade deixar os alunos ao insucesso ? Esta tem sido a prática que tem levado a que muitos alunos acabem por deixar a escola precocemente.
Infelizmente também aqui a ideologia tem contaminado  o debate e a busca de soluções para estes alunos.
É fácil  arranjar um rótulo de "pedagogia classista"  para medidas como esta agora tomada e deixar os alunos  repetirem anos de insucesso.
Este tem sido aliás um dos problemas mais graves com que nos deparamos depois de ter terminado o ensino das escolas profissionais.
Tem sido à conta de ideologias ditas de esquerda  ou ditas de direita que a falta de equidade tem existido.  É lamentável que seja sempre a distinção baseada no económico que esteja subjacente a estas opiniões e decisões.
O que sei é que o insucesso, hoje, e sublinho hoje, é transversal, como acontece, aliás, com as NEE. A lotaria genética não faz essa distinção económica e a influência do meio pode ser importante mas, certamente, hoje, ninguém pensa que um professor faz distinções dessas nas suas aulas.
Ou será que os professores também usam essa ideologia classista e são perversos a ponto de quererem “marcar” assim as classes sociais, enviando os alunos para cursos técnico-profissionais?  Não será até o contrário ? Muitos professores que conheço, independenteente da sua ideologia, fazem tudo o que podem para que os seus alunos tenham sucesso.
Mas também aqui não se passa nada de novo: é sempre a questão dos "memes" a inquinar tudo o que é a "nossa" cultura e a "vossa" cultura.
Há cultura. Se uma cultura é contra os princípios fundamentais do ser humano então a cultura tem que ser  mudada. Seja de esquerda seja de direita, religiosa ou laica...
A cultura da equidade é permitir aos alunos que sigam as suas escolhas. Propor a possibilidade de orientação, como faz este ministério da educação, para alunos com mais de 13 anos com insucesso, parece-me um contributo para promover a equidade.
A forma de o fazer não é forçosamente através de escolas diferentes. O futuro da equidade da educação pode passar  por oferecer dentro da mesma escola currículos diferenciados aos alunos e oferecer a possibilidade de escolha aos alunos que o desejem.
É muito difícil para um educador ver um aluno desmotivar-se da escola  e começar um caminho de insucesso académico. E o problema maior é que às vezes não é só académico é o começo do insucesso para a vida.
E se esse aluno quiser optar por um currículo com  disciplinas  diferentes não deverá poder ter essa opção? Que equidade há no prolongamento dessa mágoa de ir a uma  escola que já nada lhe diz ?