22/03/17

Birras “boas” e birras “más”

As birras não são apenas manifestações do comportamento infantil, também acontecem com os adolescentes e os adultos.
São diferentes das birras das crianças, isto é, enquanto as birras infantis são barulhentas e dão muito nas vistas, as dos adolescentes e adultos também têm aspectos espalhafatosos mas são mais de carácter silencioso. São igualmente perturbadoras para o próprio, e para quem se pretende atingir, e, em geral, duram muito mais tempo. Pode ser atirar a loiça ao chão, ou o que estiver à mão, mas os amuos, por tudo e por nada, são o comportamento mais habitual. 
Pretende-se atingir outra(s) pessoa(s) pelo silêncio, pelo isolamento, pela não participação, de forma a que se possa impor a própria vontade e os ganhos que daí resultam. 
Como acontece com as crianças, é sempre uma forma de quebrar as regras, perder o controlo e testar os limites.
O pediatra Mário Cordeiro fala das birras que, frequentemente, acontecem no quotidiano dos adultos, p, ex. no trânsito, quando o outro condutor estaciona o carro à nossa frente, no lugar que pensávamos já ser nosso e fazemos uma cena porque achamos que temos direito ao lugar…
Ou quando no café, na esplanada, fazemos uma cena se não somos imediatamente atendidos porque não queremos ou não somos capazes de esperar a nossa vez... Isto é, não sabemos lidar com a frustração.
No entanto, nos adultos, há birras que podem ser consideradas reacções saudáveis face a comportamentos desajustados de outras pessoas e que não são mais do que formas de reacção e manifestação da gestão emocional perante as injustiças. Às vezes é melhor “deixar sair” a raiva e a irritação do que sentirmo-nos culpados pelos desajustamentos dos outros.
Isabel Stilwell conta como aprendeu a fazer birras com as netas. “As minhas netas contagiaram-me com a eficácia da birra, e temo que lhe tenha tomado o gosto. Percebi como gritar e bater os pés, atirar objectos para longe e deixar-me apoderar pelos nervos tem um efeito extraordinário de catarse sobre as desilusões e as irritações acumuladas” (Diário de uma avó galinha, pag 94)
Perante uma injustiça, somos sensíveis, incomodamo-nos com as coisas desagradáveis que nos acontecem, mas logo a seguir a irritação “vai embora” e voltamos à serenidade. 

As birras são uma doença mental? Como sabemos o DSM (Manual de diagnóstico e estatística das doenças mentais) é a “cartilha” onde estão inscritas as diversas doenças mentais. É, sem dúvida, de grande utilidade para o trabalho clínico, mas, apesar disso, deve ser usada com todos os cuidados, principalmente, quando se trata de crianças.
Tanto mais que, ao longo dos anos, têm sido feitas várias revisões, e a última, a quinta, tem recebido várias criticas pelo facto de “patologizar” a normalidade.
Relativamente às perturbações mentais infantis, conhecemos bem, p. ex., o que aconteceu com o diagnóstico de “perturbação de hiperactividade com défice de atenção” (PHDA) que levou ao aumento do número de casos diagnosticados com essa doença e, como consequência, levou ao aumento extraordinário do consumo de medicamentos.
É necessário, ser muito cauteloso, na distinção do que são crises normais de comportamento inscritas no desenvolvimento psicológico daquilo que são crises patológicas.
Pensar que as birras constituem um quadro de “perturbação disruptiva de desregulação do humor” pode se um erro de diagnóstico com consequências graves para a criança.
Em relação às crianças aliás, qualquer diagnóstico deve ser prudente dada as características do desenvolvimento infantil. “Os diagnósticos de crianças deviam ser escritos a lápis”, defende Allen Frances.
O stress, as birras, as experiências com altos e baixos, a tristeza, o luto, os contratempos, fazem parte da vida, são problemas normais e não patológicos. E não faz sentido medicar o que é normal. *
_______________________
 * Encontra inúmeros sites que dão conselhos (dicas) para lidar com as birras das crianças. Em "Birra de criança: tudo que você precisa saber sobre ela", há conselhos adequados e talvez eficazes.

20/03/17

As minhas serigrafias: H. Marçal

Humberto Marçal -  S/ Título

Técnica: Gravura
Suporte: Papel Fabriano Art GF 300g; Dimensão da Mancha: 21,5x26 cm; Dimensão do Suporte: 55,5x49,5 cm
Data: 1996
Nº de Exemplar: 112/150

Biografia

"Natural de Setúbal, Humberto Marçal, um dos expoentes da obra gráfica contemporânea em Portugal, é, desde 1994, responsável pelas edições de gravura e litografia do Centro Português de Serigrafia onde tem sido um generoso dialogante e sábio transmissor de conhecimentos às novas gerações de artistas.
Frequentou a Academia Real de Belas Artes de Liége (Bélgica) como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian. Trabalhou no ateliê de Georges e Bransen (litografia) e no ateliê Polígrafa, em Barcelona, na área da gravura artística. Foi orientador técnico de cursos e outras ações de formação de gravura, litografia e serigrafia nos locais mais representativos do país. Foi responsável, durante vários anos, pela edição de gravura e litografia artística na Sociedade Cooperativa de Gravadores Portugueses (Lisboa). Na área do restauro trabalhou desde 1970, na Oficina de Restauro de documentos gráficos do Museu Calouste Gulbenlkian. Enquanto artista-gravador realizou importantes exposições individuais e coletivas, destacando-se em 2014, a exposição retrospetiva em Setúbal, cidade que o viu nascer, e que justamente o agraciou com a Medalha de Honra da Cidade."

Acredita na Primavera

Bill Evans - You must believe in Spring (1977)

Tony Bennett e Bill Evans - You must believe in Spring

18/03/17

Hoje apetece-me ouvir: Rodrigo Leão

Carpe Diem !

Nullum infortunium venit sollum 
O me infelicem! Me perditum! 
Tempus fugit! Carpe diem! 
Vita brevis! Carpe diem! 

Omnia vincit amor! Vincit amor! 
Omnia vincit fortuna! Vincit fortuna! 

Nullum amore venit sollum! 
O me infelicem! Me perditum! 
Furor aeternum! Carpe diem! 
Meae deliciae! Carpe diem! 

Omnia vincit amor! Vincit amor! 
Omnia vincit fortuna! Vincit fortuna! 
Omnia vincit amor! Vincit amor! 
Omnia vincit amor! Vincit amor!

17/03/17

Trabalho não é substituível por subsídios

Muito interessante a intervenção de Manuel Carvalho da Silva, no programa da RTP 3 e da Fundação Manuel dos Santos, "Fronteiras XXI", dedicado ao "emprego no futuro".
Discutia-se se uma coisa chamada "rendimento básico universal" pode ser uma solução perante a evolução do mercado de trabalho. 

«... tem um sentido bondoso mas está carregado de contradições e só relevo duas:
1º o papel do trabalho na sociedade. O trabalho é o meio mais seguro de inclusão social e de criação de responsabilização na sociedade. O trabalho não é substituível por subsídios... o trabalho não vai perder centralidade na sociedade.
2º o conceito de pobreza... Eu cito um monge italiano, Luciano Manicardi .... que, num trabalho feito há uns anos, "A caridade dá que fazer", lembra que a pobreza numa sociedade moderna não é apenas a ausência de meios materiais básicos, é o não acesso a um conjunto de direitos, a um conjunto de serviços, que uma sociedade moderna tem obrigação de organizar.
...
Temos aí muita pobreza e vamos distribuir ... e aproveitar isso para desarmar o estado social e desarmar a responsabilização que os direitos geram nos indivíduos perante a sociedade... isto não é aceitável»
...
O outro aspecto é este: se a robotização traz um aumento exponencial de riqueza que lógica é esta de pegar numas  migalhas dessa imensa riqueza e dizer: está aqui um rendimento para todos que garante que  vocês não morrem à fome e que vivem aí minimamente e o resto para onde vai ?»
...
Ver do minuto 3:00 a 6:55

15/03/17

Também quero elogiar, mas

Henrique Monteiro escreve no Expresso, 15-3-2017, "Um elogio a António Costa". Também elogio.
«Bom, já era tempo de poder elogiar o primeiro-ministro. É hoje. Ao defender uma maioria de 2/3 para a aprovação de grandes projetos que, obviamente, vão para além de uma legislatura, fez uma proposta digna de um primeiro-ministro, de um estadista e não de um chefe de fação. Pena não ser brasileiro para poder dizer "Saravá, seu Costa!" »
No sector da educação, não podia estar mais de acordo.
«Por exemplo, na Educação. Não será a transformação e melhoramento das nossas escolas e do nosso Ensino uma questão transgeracional. Claro que é. Ouvi dizer — sem saber se é verdade — que o primeiro-ministro influenciara o recuo do ministro da Educação quanto à desvalorização dos programas de matemática e português. Temo, caro António Costa, que o Prof. Tiago tenha de ser desautorizado em vários outros aspetos. Ocorre-me que para tal política saudável ir em frente, seria até melhor substituí-lo.»
De facto, a estabilidade de um país também depende deste princípio. Mas será que há coragem para o por em prática? E como será isso feito perante bojardas deste tipo ?
«Pedro Nuno Santos: “PS não precisa, nunca mais, da direita para governar” (Observador, 20/1/2017)
«O PS nunca mais precisará da direita para governar, garante o secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares numa entrevista ao Jornal Económico, que diz ainda que, ao contrário da forma como tentaram retratar a aliança parlamentar no início, esta solução é sólida.»

As birras são para ver e ouvir


Entre o nascimento e os 3 anos de idade a criança faz uma série de conquistas extraordinárias no domínio do seu autocontrolo. Pelo ano de idade adquire a locomoção, entre os 18 meses e os 2 anos, o domínio da função simbólica, designadamente da linguagem, pelos 3 anos o domínio do controlo dos esfíncteres (média de 33,3 meses, Brazelton, pag. 264).

Porém, há outras situações em que esse controlo se está ainda a fazer, o controlo emocional de responder ajustadamente ao contexto social em que se insere está longe de estar adquirido.
E é precisamente em momentos mais ou menos inesperados que surgem comportamentos mais bruscos como as birras.

“As birras nascem de forças interiores que a criança procura controlar. Embora o controle a partir do exterior possa certamente ajudá-la a consegui-lo por si mesma, o objectivo último consistirá em que ela constitua o seu próprio limite. Por isso, o papel dos pais torna-se o de verem onde é que ela necessita de controles e ajudarem-na a encontrá-los sozinha.” (Brazelton, p. 43)

As birras surgem quando aquilo que pode não ter importância para nós, pode ser importante para a criança. “ E o importar-se (é) um reflexo da agitação interior provocada pela tomada de decisão com que nos defrontamos quando as decisões se tornam nossas e já não são tomadas por um dos pais. É muito provável que as birras sejam necessárias e sejam expressão íntima dessa perturbação. São adequadas à idade.”

Há alguns mitos acerca das birras que muitas vezes levam a que os pais se perguntem o que fizeram de errado na educação dos filhos.
Um mito é o de que “as birras são o reflexo de uma verdadeira perturbação da criança e a marca de um a amor materno fraco.”
“Outro mito é sobre o que deve ser feito para travar as birras o que é mais um sinal de que são más – como se tivessem de ser um sinal neurótico ou pudessem fazer mal à criança se se permitir que continuem.”
Este tipo de pensamento leva os pais a terem que fazer alguma coisa para lhes por fim ou distraírem a criança com outra actividade. O problema é que muitas vezes os esforços não resultam e ficam agitados, tentam punir a criança…

Muitas birras ocorrem em casa, às refeições, ao adormecer… mas é nas várias situações sociais que se tornam verdadeiramente espectaculares como no restaurante ou no supermercado. É verdade que no restaurante as pessoas pagam a sua refeição e desejam estar num ambiente agradável. Mas o que fazer quando inesperadamente uma criança decide fazer birra ? De repente todo o restaurante fica em silêncio para se ouvir apenas o choro da criança, às vezes acompanhado por alguma agitação motora.
Às vezes, é, apenas, a reacção ao que vai comer: “ já disse, não gosto de coisas verdes!”; outras vezes, é porque o sumo não vem quando o do irmão, outras vezes é por nada... E lá temos o restaurante virado para a nossa mesa certificando-se donde vem aquela decisão tão solene e espalhafatosa; muitas vezes, ainda, as birras podem resultar da frustração da criança quando os pais não cedem à manipulação... 

Que fazer? O papel dos pais deve ser o de compreenderem que se algumas birras podem ser prevenidas como acontece quando a criança esta cansada, com sono ou fome … outras são inevitáveis. 
“Acho que o papel dos pais nessa altura deve residir em confortarem e harmonizarem os aspectos dessa luta. Recuarem completamente por medo de desencadearem birras ou envolverem-se tanto que acabem por também terem uma explosão não será, com certeza, ajuda para o bebé. Pegarem-lhe para o acarinharem e confortarem depois e perceberem que são necessários limites, quer o bebé reaja com uma birra quer não, talvez sejam os melhores papéis que os pais podem desempenhar.” (Brazelton, pag. 43) 
Também as pessoas devem compreender que as crianças vivem na família e na sociedade e sentir, dessa forma, como assunto nosso. 
Não gostamos que as crianças tenham estes comportamentos mas devemos saber que eles são inevitáveis. 
Em geral, pouco adianta o cliché "os pais não sabem dar educação aos filhos…" 
Talvez possam ajudar mais os pais e as crianças se também perceberem que quando surge uma birra se trata de uma criança a aprender os seus limites e a melhor forma de tomar decisões. 

13/03/17

Hoje apetece-me ouvir: Igor Stravinsky...

Sinfonia dos Salmos - Direcção de Claudio Abbado


11 de Março, Fantástico concerto pela Jugendorchester Gustav Mahler, fundada por Claudio Abbado, no Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian,
Obras de 
Olivier Messiaen, Les offrandes oubliées, composição 1930.
Igor Stravinsky, Sinfonia dos Salmos, composição 1930, com o Coro Gulbenkian.
Uma surpresa: Bogoroditse Devo, de Rachmaninoff, pelo Coro Gulbenkian.
Arthur Honegger, Sinfonia nº 3 - "Litúrgica”, composição 1945-46, evoca os horrores da 2.ª Grande Guerra e o desejo de uma paz duradoura. 
Direcção de Lorenzo Viotti.
Maestro do Coro Gulbenkian, Paulo Lourenço.

10/03/17

As minhas serigrafias: Marina dos Santos

Marina dos Santos - "Águas profundas"


Técnica: Gravura (Maneira negra)
Suporte: Papel Fabriano Art GF 300g; Dimensão da Mancha: 29,3x24,5 cm;Dimensão do Suporte: 70x50 cm
Data: 1999
Nº de Exemplares: 45/150


08/03/17

8 de Março: mitos e realidade

8 de Março. Comemora-se o dia internacional das mulheres. Este dia foi oficializado pelas Nações Unidas em 1977. Tem a sua origem nas lutas operárias e sufragistas do início do século XX, quando as mulheres lutavam por melhores condições de trabalho e pelo direito de voto.
Quanto à sua origem, a criação de um «dia internacional das mulheres» foi proposta pela primeira vez em 1910, na II Conferência Internacional de Mulheres Socialistas, na Dinamarca, por Clara Zetkin, e foi aprovada por representantes de 17 países. O objectivo era honrar as lutas femininas e, assim, obter suporte para instituir o sufrágio universal em diversas nações. *
Mas a data não foi logo fixada, e apenas a partir de 1917, com a greve das operárias de São Petersburgo, a tradição do 8 de Março passou a ter lugar.
Depois de 1945, o dia internacional das mulheres tornou-se uma tradição no mundo inteiro.

Mas a origem deste dia está baseada em alguns mitos.
«Em 1955, a manifestação de 8 março de 1857 foi citada pela primeira vez, explica Françoise Picq. E a origem lendária, retransmitida todos os anos na imprensa, substituiu a realidade»...
Também se trata de mito a associação do dia internacional das mulheres ao incêndio, que se verificou em 25 de março de 1911, na fábrica de confeçções (Triangle Shirtwaist) que vitimou 146 trabalhadores - a maioria costureiras. O número elevado de mortes foi atribuído às más condições de segurança do edifício. Este foi considerado como o pior incêndio da história de Nova Iorque, até 11 de setembro de 2001. Para Eva Blay, é provável que a morte das trabalhadoras da Triangle se tenha incorporado ao imaginário coletivo, de modo que esse episódio é com frequência desde a década de 1950 erroneamente considerado como a origem do Dia Internacional das Mulheres.  (Dia Internacional da Mulher)

Também a propaganda política se tem aproveitado desta data, principalmente nos países comunistas, até 1989, como, por exemplo :
Na antiga Checoslováquia, (1948-1989), a celebração era apoiada pelo Partido Comunista. O "Dia Internacional da Mulher"era então usado como instrumento de propaganda do partido, visando convencer as mulheres de que considerava as necessidades femininas ao formular políticas sociais. A celebração ritualística do partido no Dia Internacional da Mulher tornou-se estereotipada. A cada dia 8 de março, as mulheres ganhavam uma flor ou um presente do chefe… (Dia Internacional da Mulher)
Ou como na antiga RDA onde eram apresentadas as realizações do socialismo sendo uma delas, a igualdade de direitos entre homens e mulheres, um dado adquirido.

No entanto, apesar de todos os tipos de aproveitamento que é feito, a comemoração desta data, é de grande actualidade e continua hoje plena de significado. Estamos longe de conseguir obter a igualdade de direitos entre homens e mulheres e em algumas situações até houve retrocesso.
Por isso, as Nações Unidas escolheram como tema de 2017 do Dia internacional das mulheres, o 8 de Março,  «as mulheres num mundo de trabalho em evolução: por um mundo 50-50 em 2030 ».
No contexto actual do mundo do trabalho, apenas 50 por cento das mulheres em idade de trabalhar fazem parte da mão-de-obra mundial contra 76 por cento dos homens. Além disso, uma grande maioria das mulheres trabalha na economia informal, ... com fraca protecção social. A igualdade entre os sexos no mundo do trabalho é um imperativo do desenvolvimento durável. »


Les femmes au sein de la population active mondiale

Nascer menina, nos dias de hoje, em quase todos os países, é poder contar com maiores dificuldades, à partida, em todas as vertentes da vida. Ora, a igualdade de direitos entre homens e mulheres começa na infância, na igualdade de direitos como a educação e porque, pela educação, se fará mais facilmente essa igualdade entre homens e mulheres no mundo do trabalho.

 

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* Certamente houve antecedentes, em vários países, como por exemplo na Alemanha ("A luta das mulheres na Alemanha"):
Em 1865, foi fundada e Leipzig a associação Geral das mulheres alemãs - a sua luta incidiu,  sobretudo, na formação das mulheres, exigindo o seu acesso às universidades... Em 1893, primeiro liceu para raparigas... A partir de 1908, as mulheres foram admitidas às universidades prussianas.
Em 1891, o SPD integrou no seu programa a exigência do direito de voto feminino. E, em 1902, foi fundada a Liga alemã pelo direito de voto feminino.
Entretanto, surgem mais oportunidades de trabalho, o fim do espartilho, a participação das mulheres em associações de turismo e montanhismo, a bicicleta, as piscinas para ambos os sexos, os jornais diários com páginas dedicadas às mulheres e revistas dirigidas ao público feminino.
Após a guerra, a lei fundamental da república federal da Alemanha declarou a igualdade de direitos entre homem e mulher em todos as áreas da vida.
(Dietrrich Schwanitz, Cultura - da historia da música aos grandes pensadores, vol. 4, D. Quixote/Expresso, pags. 116-119)

Afinados e ameaçadores: da confiança à temeridade

Vai por aí um grande burburinho sobre a opinião que Teodora Cardoso manifestou, recentemente, em relação ao orçamento do ano passado.
Hoje, na AR (TV), o sr. primeiro ministro vangloriava-se sobre a enorme confiança dos portugueses (isto é, dos consumidores portugueses). Mudei para o "Cá por casa", do Herman, que é o único comediante que me enche de confiança.
Vale  a pena ler a opinião de Daniel Bessa (Expresso, 4/3/2017) que é, certamente, imparcial. Daniel Bessa não fala de "milagre" mas de «"nova religião de Estado", amplamente disseminada no nosso país (quem não se diz confiante não é bom português, no tempo novo e na ordem nova hoje prevalescentes)».


07/03/17

Obrigado !





"Interessante seu blog, uma pausa para a gente descansar e ler coisas sadias, neste mundo insano." Eliane F. C. Lima



03/03/17

Afinados e ameaçadores

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"Teodora Cardoso, presidente do Conselho de Finanças Públicas, está cética quanto ao futuro da economia portuguesa apesar dos resultados apresentados pelo Governo de António Costa para 2016. Se admite que o défice de 2,1% alcançado foi, “até certo ponto”, um “milagre”, defende também, em entrevista ao “Público” e à Rádio Renascença, esta quinta-feira, que a redução foi obtida à custa de “medidas que não são sustentáveis”. (Expresso, 02.03.2017)

"Diz o i que Teodora Cardoso acredita que o equilíbrio alcançado é, portanto, periclitante pelo que os resultados de 2016 não serão um fator apaziguador para os mercados. 
“Este tipo de medidas não são sustentáveis. O que resolve o problema da despesa pública é uma reforma que tenha efeitos a médio prazo de melhor gestão das despesas, de qualidade das despesas e de ganhos de eficiência. Nunca fizemos esse esforço no passado, portanto, há-de haver espaço para ganhos de eficiência. Agora, isto não se pode fazer em seis meses, exige uma programação, exige uma forma de atuar diferente, que está aliás prevista na nova lei de enquadramento orçamental”, explicou a economista. 
"Do coro de respostas às considerações da presidente do Conselho de Finanças Públicas (CFP) destacam-se António Costa, Carlos César e Marcelo Rebelo de Sousa.
O Presidente da República não deixou o “milagre” da economista sem resposta. “Milagre este ano em Portugal só vamos celebrar um, que é o de Fátima para os crentes, como é o meu caso, tudo o resto não é milagre. Saiu do pêlo e do trabalho dos portugueses desde 2011/2012”, disse Marcelo no final de uma aula sobre a vida de Sá Carneiro na escola Rodrigues de Freitas, no Porto."
"Também Carlos César fugiu para o inefável e aproveitou para reagir a outras previsões “O CFP, tal como em algumas ocasiões a OCDE ou o FMI, têm-se especializado em maus augúrios para o país”, afirmou o líder parlamentar do PS. “Para felicidade de todos nós, têm falhado. O país hoje está confrontado com resultados muito positivos em matérias de crescimento económico, aumento do investimento, aumento do consumo interno e das exportações, ao mesmo tempo que foram criados mais de cem mil postos de trabalho líquidos ao longo do último ano”.
"Depois do “milagre”, dos “maus augúrios” e do “sair do pêlo”, a resposta de António ao CPF voltou à terra – e ao trabalho. “O governo não faz milagres. Nós fazemos bem o nosso trabalho. Quem fez previsões é que cometeu um monumental falhanço”. ( ionline,03/03/2017)

São as opiniões críticas do coro dos afinados.*
Surge então ... a ameaça.
"O deputado comunista Miguel Tiago criticou declarações da presidente do Conselho de Finanças Públicas. "Milagre é Teodora Cardoso ainda ter salário e ocupar o lugar que ocupa” (Público, 3/3/2017).

O coro não permite desafinanços! E há sempre que contar com os coralistas mais afinados que, incomodados com a verdade, se sentem no dever de elevar a voz.
No que foi dito, afinal, era relevante o seguinte: Medidas como o PERES, por ex., não são sustentáveis. É necessária uma reforma da despesa pública, com efeitos a médio prazo, de melhor gestão das despesas, de qualidade das despesas e de ganhos de eficiência.
Uma opinião desafinada... mas certa.
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* Isto não impede a consideração pelo Prof. Marcelo desde o tempo em que mergulhou no Tejo à procura da Câmara Municipal de Lisboa...

Neoliberalismo socialista

"... neoliberalismo é uma maneira marota e pilantra de parecer que você não é mais socialista, mas não passa disso" (José Monir Nasser)




01/03/17

Ruy de Carvalho: Amar é...

Ruy de Carvalho retratado por Bottelho.

Entrevista a Ruy de Carvalho, que assinala 90 anos de vida.
... «Ao falar da profissão, o artista que já soma mais de 70 anos de carreira explicou que os egos nunca o afetaram. "Acho que tenho um chapéu-de-chuva maravilhoso. Não me chovia muito em cima essa maldade". Aliás, se há algo que tem vindo a tentar "semear" ao longo dos anos, é o amor. "Sem amor, a vida não vale a pena"».
… «E o que é, para ele, amar? "Amar é envelhecermos juntos. E a maior parte não envelhece juntos. Não são capazes de chegar ao fim da vida com o mesmo amor que tinham quando casaram. Não é fácil. Não é fácil viver em casamento. Inicialmente, a parte dominante é a sexual, mas há gente que não pensa que 23 horas e meia são para viver a vida, com maus cheiros, doenças, com ir à casa de banho, com mau hálito, com o ressonar... Há muita coisa que faz parte do casamento e isso tem que ser pensado. A estupidez é que destrói as coisas, o egoísmo, a preguiça, o egocentrismo"»... (Carolina MoraisDN , 25/2/2017)

"Outro dia de sol"

"Another day of sun" -  Justin Hurwitz/Benj Pasek and Justin Paul

Um dos musicais de sempre é, sem dúvida, Sond of Music (1965). A tradução por "Música no Coração" parece-me feliz porque é disso mesmo que se trata: a música está sempre no coração.
A lista de musicais é grande e dela fazem parte filmes que também foram importantes enquanto espectador. Reminiscências de Joselito e Marisol ...
“Outro dia de sol” é um dos temas de La La Land, musical de 2016, que já obteve vários prémios. O musical foi notícia pelos prémios e também por ter originado uma excepcional gafe nessa feira das vaidades chamada "noite dos óscares" onde a passadeira vermelha a mostra, a vaidade, em todo o seu esplendor e mostra ainda como a vanglória e a vã glória andam muito aproximadas.
Apesar disso, mais uma vez a música esteve em destaque e isso é relevante porque, sem dúvida, a música acompanha a nossa vida.
Podemos não ter a sorte de José Cid que “nasceu prà música” mas certamente todos temos esse grande privilégio de viajarmos nesta vida acompanhados pela música. Desde as canções de embalar que acalmam e induzem o sono, até às mais estridentes que no-lo tiram.
A música esteve e está em momentos determinantes da nossa vida, na educação, no namoro, nas crises positivas e negativas da vida, nas situações convencionais  e informais. Acompanhou todos esses momentos de fortes emoções.

A música é ainda uma terapia eficaz em muitas ocasiões. Não há dúvida de que a música tem uma influência positiva na saúde em geral.
A importância da música na saúde vem desde sempre. Os filósofos gregos como Platão e Aristóteles referiram-se a ela. Platão dizia que “a música é o grande remédio da alma” e Aristóteles que “as pessoas que sofrem emoções descontroladas, depois de ouvirem melodias que elevam a alma ao êxtase, regressam ao seu estado normal, como se tivessem experimentado um tratamento médico.”
Mas foi nos últimos 50 anos que os cientistas se dedicaram ao estudo sobre os efeitos da música na saúde.
Daniel Levitin refere-se aos "mecanismos neuroquímicos da música com efeitos em quatro áreas da vida humana: temperamento, stresse, imunidade e interacções sociais."
Para Armando Sena, "as alterações decorrentes da música são sobretudo a nível hormonal e de marcadores inflamatórios que se relacionam com o stresse, que alteram o sistema nervoso simpático e parassimpático. Estudos têm demonstrado que a música pode diminuir esses marcadores, já que favorece a resistência ao stresse."
A música reduz o stresse e a ansiedade (Equipa de cirurgia cardiotoráxica do Hospital Universitário de Orebo, na Suécia e outra equipa de investigadores), pode ajudar a prevenir a depressão, tem a capacidade de controlar os batimentos cardíacos e diminui a pressão arterial. (Uma Gupt)
A música pode ainda ajudar a controlar e a reduzir os níveis de dor. (Equipa de investigadores de Almeria, Granada e da Andaluzia  e também de Taiwan)
Tem efeitos benéficos no cérebro: Nos estudos realizados, a música e o canto melhoravam a memória e consequentemente tinham impacto positivo na aprendizagem. (Karen Ludke, Fernanda Ferreira e Katie Overy)
A música ajuda o cérebro a libertar a dopamina, um neurotransmissor estimulante do sistema nervoso, e dessa forma pode prevenir doenças como Parkinson.
Durante o envelhecimento ajuda a manter a saúde física e mental: melhora a disposição, a memória, o sentido de orientação e a coordenação motora geral.
Tem efeitos no sistema imunitário uma vez que a música tem potencial para aumentar a resistência e resposta do sistema imunitário face a diversas doenças. *
Mas o que todos já sabíamos é que mesmo no dia mais nublado, com música, é sempre “outro dia de sol".
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*A segunda parte do texto foi baseada no artigo “A música faz (mesmo ) bem à saúde?”, Lusíadas, nº 6, Inverno, 2016.