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19/08/25

Florescer


Peggy Lee -  É só isso ? (Is that all there is?)


"Is that all there is?", música interpretada por Peggy Lee, descreve alguns eventos da vida, positivos e negativos: um incêndio presenciado na infância, o encantamento do circo e a experiência sem sucesso de um relacionamento amoroso. Seja qual for a situação, resulta sempre insatisfação e desilusão, algo está  sempre em falta. Que mais tem a vida para oferecer? Na festa e na desgraça, é só isso ? Na alegria e na tristeza, é só isso?
O tema é glosado de diferentes maneiras, como em "Estou além" (António Variações): “Esta insatisfação / Não consigo compreender / Sempre esta sensação / Que estou a perder”. Ou, mesmo quando "o homem do leme" enfrenta o destino com coragem para ultrapassar as dificuldades, "a vida é sempre a perder" (Xutos e Pontapés - "O homem do leme").

A "síndroma Peggy Lee" parece abranger muita gente para quem tudo é insatisfatório. De facto, em tempos de tédio, insatisfação permanente e vitimização imperiosa, não há mais nada para viver? Perante guerras tão miseráveis quanto cínicas não é caso para perguntar: a guerra é só isso? 
Ou mesmo quando em tempos mais pacíficos, a nossa luta interior, não nos deixa sossegados, a vida é só isso?

Os mais novos parece serem mais afectados por esta condição: como refere Pedro  Strecht.
"- Podia explicar o que quer dizer com a descrição da sensação: "estou mal, porque estou bem"? 
- Porque estar bem, para muitos pais e filhos, parece ser sempre insuficiente. Quando nos esquecemos que, em várias ocasiões, "menos é mais", somos facilmente levados a um padrão de constante sensação de falha ou falta porque, mesmo que já se tenha "tudo", parece sempre que "nada" chega. (Entrevista a Vanda Marques, "Pedro Strecht: Nunca existiram tantas crianças e adolescentes a sentirem-se sós", Sábado, 13 de Julho)

Temos alguns momentos, breves ou persistentes, de melancolia, passamos por momentos de tristeza e apatia que podem ser uma reação emocional normal a perdas, decepções ou situações difíceis da vida. A melancolia persistente por longos períodos é como a depressão e possui os mesmos sintomas: a pessoa não se interessa por nada ao seu redor, nenhum acontecimento traz prazer ou alegria e a vida deixa de ter interesse.

Também existe relação com o luto. "Contudo, a melancolia contém algo mais que o luto normal. Na melancolia, a relação com o objeto não é simples; ela é complicada pelo conflito devido a uma ambivalência. Esta ou é constitucional, isto é, um elemento de toda relação amorosa formada por esse ego particular, ou provém precisamente daquelas experiências que envolveram a ameaça da perda do objeto. Por esse motivo, as causas excitantes da melancolia têm uma amplitude muito maior do que as do luto, que é, na maioria das vezes, ocasionado por uma perda real do objeto, por sua morte. Na melancolia, em consequência, travam-se inúmeras lutas isoladas em torno do objeto, nas quais o ódio e o amor se digladiam; um procura separar a libido do objeto, o outro, defender essa posição da libido contra o assédio." ( Freud, Luto e melancolia)

Também, em Psicologia, falamos de alexitimia (palavra de origem grega: a-falta de, sem; lexis-palavra; thymus-emoção ou ânimo), utilizada pela primeira vez por Peter Sifneos, em 1967. A alexitimia é um construto que "designa a falta de palavras para descrever as emoções. Afetivamente conduz a uma grande dificuldade em reconhecer, descrever e discriminar sentimentos e emoções. Cognitivamente, há um estilo de pensamento muito particular, virado para o concreto e para o exterior e relacionalmente, há relações úteis, pragmáticas e superficiais. Existe uma incapacidade em perceber o outro com uma individualidade própria, os seus sentimentos, havendo portanto uma reduzida empatia e compreensão." (S. Pereira, Alexitimia, ITAD)

"Is That All There Is?" coloca a questão fundamental sobre o que é a vida e como podemos responder.
Os paraísos artificiais que invariavelmente levam ao meio do nada ou, definitivamente, a  lado nenhum, podem parecer que é por aí que encontramos resposta para a insatisfação e infelicidade mas, como neste caso, depressa se percebe "que tinha parado de ter qualquer esperança, sonhos ou objectivos. Chamei isso de meu momento Peggy Lee".  Então a droga é só isso?

Assim sendo, "Eu sei o que devem estar dizendo a si mesmos: Se é assim que ela se sente, por que ela simplesmente não acaba com tudo?
- Ah, não, não eu, eu não estou pronta para essa decepção final. Porque eu sei tão bem quanto estou aqui falando com você que quando esse momento final chegar e eu estiver dando meu último suspiro, estarei dizendo a mim mesma:
É só isso, é só isso?
Se é só isso, meus amigos, então continuemos dançando.
Vamos beber  e divertir-nos.
Se é só isso."

Não é só isso. Não pode  ser só isso: viver por viver. Podemos sempre superar as dificuldades, superar o trauma. Podemos, sempre, ser resilientes e prosperar, se quisermos. Podemos fazer o caminho da psicoterapia, o caminho do florescimento,  o caminho da espiritualidade e, se é pessoa de alguma fé, o caminho da ressurreição.

A falta de um propósito para a vida parece fundamentar esta falta de interesse pela vida. A logoterapia (Victor Frankl), diz-nos que a vida tem um sentido e, se assim é,  pode ser o começo da psicoterapia/cura.
M. Seligman criou o modelo de florescimento constituído pelos seguintes elementos: emoção positiva, envolvimento, relações,  significado, realização pessoal (PERMA).
Florescer permite uma cultura de cuidado, do próprio e do outro, fazendo o mundo mais bonito por dentro, e, ao  cuidar da natureza, fazendo o mundo mais bonito por fora. A beleza vem da escolha: podemos escolher entre a "vida vazia" ou "a vida plena". Como diz Epicteto, "Não és o teu corpo nem o teu penteado, mas sim a tua capacidade de escolher bem. Se as tuas escolhas forem belas, então serás belo". (Ryan Holiday e Stephen Hanselman, Estoico todos os dias, p. 110)
"A vida vale a pena ser vivida", mesmo contra "os pensamentos catastróficos automáticos" (Seligman, p. 65) e "Todos podemos dizer sim a mais bem-estar" (p. 257). 
Florescer é, afinal, encontrar o bem-estar na vida, como é definido por Seligman. E isso está a acontecer em muitos países. Nuns mais do que noutros. Felicia Huppert e Timothy So, da Universidade de Cambridge, definiram e avaliaram o florescimento em  23 países da União Europeia (2009). A Dinamarca liderava o ranking com 33% da população florescendo. E Portugal estava em penúltimo lugar com  cerca de 7%. (pp. 41-43 e 254-257) 

No início de Agosto, mês de férias, e, portanto, mês de sair da azáfama quotidiana de procura incessante das riquezas - vaidade - a primeira leitura, na liturgia de domingo, apresenta um texto lindíssimo do Eclesiastes: vaidade das vaidades tudo é vaidade. 
Salomão (Eclesiastes), suposto autor, desiludido e amargurado depois de uma vida de glórias e prazeres, constata a inutilidade de todos os esforços do homem e conclui que tudo na vida é “vaidade” ou “ilusão”.
Então, onde procurar o bem-estar? Se tudo é vaidade, tem de ser noutro lugar para que tudo faça sentido.

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As referências são de M. Seligman, A vida que floresce, estrelapolar/Leya, 2011.





Rádio Castelo Branco

20/06/25

“Mal-estar na civilização”


Ouvimos dizer que o mundo está polarizado. Mais do que isso: o mundo está em guerra e assistimos a atrocidades inimagináveis.
Este século começou mal, com um ataque violento aos Estados Unidos em que foram derrubadas as torres gémeas com cerca de 3000 pessoas mortas (2.977, além dos 19 sequestradores dos aviões). O 11 de Setembro é considerado o ataque com o maior número de mortos da história. Além disso, foi uma tragédia que mudou, em vários aspectos, os rumos do mundo.
Depois veio a pandemia cujos resultados, como estamos agora a constatar, não deixaram tudo bem, antes pelo contrário.
Vivemos, pelas paredes-meias da comunicação social, com a guerra da Ucrânia-Rússia, Israel-Gaza-Irão.

Vivemos “o mesmo mal-estar de que Freud nos falava no início do século XX, no texto O mal-estar na civilização, “em que apresenta uma visão pessimista da relação entre o eu e o outro. É uma visão decorrente de uma leitura que centra a reflexão em torno do conceito de narcisismo; ou seja, tomando como ponto de partida os apelos e desejos narcísicos do eu, o outro aparecerá como um obstáculo. (1) 

O ambiente está, de facto, polarizado e irrespirável. A saúde mental foi afectada de forma particularmente sensível.
Claro que as pessoas são afectadas de forma diferente. Há pessoas que são mais afectados do que outras. Ou seja, em que as vulnerabilidades pessoais são mais relevantes do que as potencialidades.

Deste desequilíbrio surge, então, a doença mental.
"Se definirmos a doença mental como uma perda de controle sobre a mente poucos de nós podem garantir estar livres de algum tipo de mal-estar."
“Quando ficamos doentes perdemos o controle sobre os nossos melhores pensamentos e sentimentos. Uma mente que não está bem não consegue aplicar um filtro à informação que chega à consciência; já não consegue ordenar e sequenciar o seu conteúdo. E a partir daqui, sucede-se uma panóplia de cenários dolorosos:
- A nossa consciência é continuamente invadida por ideias despropositadas, como vozes inclementes que ecoam sem parar...
- Somos incapazes de nos reconciliarmos com quem somos.Todas as coisas más que alguma vez dissemos ou fizemos reverberam e ferem nossa auto-estima...
- Não conseguimos moderar a nossa tristeza. Não conseguimos ultrapassar a ideia de que não fomos realmente amados, que fizemos da nossa vida adulta uma bagunça que desapontamos todas as pessoas que alguma vez tenham tido um pingo de esperança em nós...
- Todos os compartimentos da nossa mente estão escancarados. Os pensamentos mais estranhos, mais extremos, correm descontrolados pela nossa consciência. Começamos a temer que possamos gritar obscenidades em público...
- Nos casos mais graves perdemos o poder para distinguir a realidade exterior do nosso mundo interior...
- Á noite... ficamos indefesos perante as nossas piores preocupações... (2)

Mas a vida é assim. A verdadeira saúde mental, diz-nos Alain de Botton, envolve uma aceitação honesta de que, mesmo nas vidas mais competentes e significativas, haverá sempre algum grau de sofrimento e dificuldades...


Até para a semana.


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(2) Alain de Botton, Uma viagem terapêutica, D. Quixote, p. 16-19.




Rádio Castelo Branco




21/09/20

O segundo passo

Bem-vindos a mais um ano em que espero estar convosco aqui nesta rádio (RACAB), à quinta-feira, com a minha opinião sobre os acontecimentos do quotidiano que tento compreender principalmente do ponto de vista psicológico.

 

Estamos em tempo de grandes mudanças como de resto aconteceu em outras épocas. A vida é feita de mudança e a sobrevivência depende da nossa capacidade de adaptação.

A pandemia veio destapar aquilo que já se sabia como resultado principalmente da política de cativações dos governos Costa /Centeno.

Já todos sabíamos que não era possível responder adequadamente a qualquer crise quando os serviços e equipamentos já eram  deficientes em recursos materiais e humanos com relevo para o sistema de saúde, educação e segurança social...

Acima de tudo, revelou a incapacidade de organização e gestão dos recursos: as listas de espera  cada vez maiores, agendamentos excessivamente burocráticos, teletrabalho nem sempre justificável ...

Por exemplo, sabíamos que no sector da saúde já era complicado haver respostas atempadas,  num contexto de  pandemia covid 19 tudo ficou pior. 

É verdade que os médicos, enfermeiros e restante pessoal fazem o que podem e são merecedores do nosso respeito pelo profissionalismo e humanismo que têm demonstrado.

Mas ficou pior porque a afluência à urgência, tal como o número de intrervenções diminuíram drasticamente. 

Não por serem falsas urgências mas pelo receio dos utentes e pela falta de resposta dos serviços.

Aliás, a questão das falsas urgências é  uma falsa questão.

 

A medicina e a psicologia lidam com o sofrimento do ser humano. O  sofrimento é contra a vida,  tira  o prazer da vida, e, por isso, deve ser eliminado imediatamente.

Bom, mas o sofrimento existe e,  ao contrário do que muitas vezes se diz, não é uma provação de Deus ou um castigo de Deus.

Infelizmente, muito desse sofrimento deve-se ao impasse em que vivemos ou às opções erradas que tomamos. Em vez de nos focarmos na descoberta da cura ou da vacina para a covid,  anda-se numa competição desenfreada para se saber quem é o primeiro a tê-la, quem deterá as patentes e, com isso, fará negócios de muitos milhões.

 

O homem existe para ser feliz, o sofrimento deve ser passageiro e as respostas dos que governam têm que ser rápidas para evitar esse sofrimento.

Temos duas maneiras de reagir ao nosso sofrimento e ao que se passa à nossa volta: aceitação ou resignação.

O estado de resignação significa que não há nada a fazer, a não ser ter um comportamento fatalista. A resignação leva à inacção e o organismo não reage à agressão que sofre.

Pelo contrário, pela aceitação “o doente aceita a realidade e desde logo estabelece a estratégia para combater o mal, o invasor, o problema, a desgraça."

"Quando o indivíduo não aceita a realidade entra em processo de revolta, de raiva, de ódio, de mágoa, o que são condições mentais e físicas  altamente maléficas  e extremamente prejudiciais à cura."

"A diferença gritante entre aceitação e resignação está... no passo seguinte. O resignado não tem um segundo passo. Resignou-se, parou. Aquele que aceita a realidade como ponto de partida, necessariamente dará o segundo passo e os seguintes..." (p.21)*

 

Até para a semana.


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* Lauro Trevisan, Jesus - o grande psicanalista, Dinalivro.








 



01/02/18

Educação parental

As famílias, qualquer que seja a sua estrutura, têm dificuldade nas interacções entre os seus diversos elementos, sendo particularmente evidente, a dificuldade que sentem na educação dos filhos.
O problema da educação dos filhos sempre levantou interrogações. As crianças sempre foram mais vítimas dos comportamentos dos adultos e das vicissitudes históricas em que nem sequer eram reconhecidas as necessidades próprias da infância.
A "educação" das crianças passou por vários modos (L. Demause) ao longo do tempo,  desde o modo infanticida,  ao modo abandonante …  até à actualidade, em que o modo é o de ajudar a criança, ou seja, o fim absoluto da humilhação para controlar a criança e ajudar os pais a ajudar a criança a atingir os seus objectivos mais do que socializá-la ao gosto do adulto.

O quadro legal em que vivemos* é muito diferente de outros momentos históricos. Felizmente, hoje, podemos falar dos direitos da criança. As crianças obtiveram direitos à medida que a sociedade também evoluiu no sentido do reconhecimento dos direitos humanos. Porém, o quadro actual dos direitos da criança inscritos na “Declaração dos direitos da criança” e na “Convenção sobre os direitos da criança”, está longe de ser respeitado. Pelo contrário, os abusos estão por todos os lados e atingem muitas famílias, sendo, aliás, dentro das famílias  que verificamos muitos dos abusos em que as crianças são as principais vítimas. O que quer dizer que nem sempre os pais são  a melhor protecção para as crianças nem para decidirem em seu nome.

A visão de que as crianças são uns pequenos ditadores deixa muito por explicar mas pode levar a que muitas pessoas achem que “de pequenino é que se torce o pepino”,  adágio que não deixa de estar certo, excepto quando signifique que é com castigos corporais que se educam as crianças.
Não podemos confundir punições com castigos corporais (maus-tratos físicos)  e humilhação (maus- tratos psicológicos). Não podemos pensar que  um programa de contingências de reforço é o único método  de modificação do comportamento. Ou que é aplicável de forma rápida e simples. Além disso, deve haver sempre referência aos estádios de desenvolvimento da criança.  Ou seja, não generalizar comportamentos registados e seleccionados nos programas televisivos aos comportamentos de algumas crianças como se  correspondessem  a uma tipologia comportamental. Há algumas crianças que têm comportamentos daquele tipo mas na maioria das vezes têm significados diferentes  e elas são as vítimas.

É fácil constatar que os pais de crianças com problemas comportamentais não têm ajudas, não sabem como resolver esses problemas, fazem o que pensam que é melhor para a educação dos filhos, mesmo que isso implique a sua exposição pública num programa de televisão, num reality show. Mas este é outro problema que deve ter resposta da escola, das artes, da saúde, do desporto, dos tempos livres...
Os pais devem esperar dos filhos, em determinadas idades, comportamentos desajustados que, no entanto, fazem parte do desenvolvimento e que não são mais do que crises normais do desenvolvimento. E, vistas bem as coisas, que drama há em ter dificuldades com uma criança às refeições ou ao deitar, comparadas com o mundo dos adultos - conflitos mesquinhos, todo o tipo de violência, corrupção ao mais alto nível... – que é bem mais medonho do que este mundo da infância que está a aprender a regular-se e a ser sociável, a aprender seguir alguns modelos adultos e a recusar, necessariamente, outros.

A Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) elaborou um Parecer  sobre “o Impacto  da Exposição das Crianças e Jovens em Programas com Formato de Reality Show”,  isto é, sobre as consequências negativas a nível da criança e a nível da audiência e do público em geral,  que podem advir da exposição mediática das crianças em virtude da sua participação neste tipo de programas.
A nível da criança, as consequências têm a ver com  a falta de consentimento informado, a violação da privacidade, a exploração de uma imagem negativa da criança, o sofrimento psicológico e a interferência na relação com os outros.
As repercussões negativas na audiência e no público em geral são, por exemplo, a imitação dos comportamentos disruptivos;  a ideia, falsa, de que os problemas apresentados são resolvidos com soluções imediatas, rápidas e simples; a exposição da vida das famílias pode degradar a sua imagem…

Os riscos deste tipo de programas são mais do que suficientes para que não se tenha a veleidade de pensar que supernanny é um programa de informação e ou educação sem contra-indicações. 

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* Convenção sobre os direitos da criança (Adoptada pela Assembleia Geral nas Nações Unidas em 20 de Novembro de 1989 e ratificada por Portugal em 21 de Setembro de 1990; Lei 147/99, de 1 de Setembro (Lei de protecção de crianças e jovens em perigo)

29/09/10

Integração de crianças sobredotadas na escola - experiências inovadoras

1. A minha experiência de trabalho com alunos sobredotados mostra que a sua integração no ensino regular é possível e tem resultados positivos para a própria criança e para os outros alunos.

2. É necessário que sejam adoptadas medidas que tenham em conta as especificidades destas crianças porque, como se sabe, o bem-estar psicológico de um aluno com características de sobredotação depende, fortemente, da organização dos ambientes e oportunidades socioeducativas que lhes forem proporcionadas.

3. A intervenção na turma deve ter também o objectivo de proporcionar esse ambiente favorável à sua evolução, porque como refere M. Pereira “… para cederem à fonte de pressão dos pares, poderão vir a funcionar em “falso-self”, no sentido da normalização e de se sentirem mais aceites”. (1)

4. É também fundamental o trabalho a realizar em colaboração com o conselho de turma, designadamente com o Director de Turma:
- Deve estar altamente motivado para trabalhar com alunos com estas características dentro da turma
- Com vontade de aprender, sendo o ponto de partida conhecer o tema da sobredotação (formação em exercício).
- Disponibilidade para a mudança de metodologias, se necessário. Devem ser reformuladas algumas das formas de funcionamento. Por exemplo, é necessário compreender que o elogio tem que ser usado adequadamente, sob pena de acontecer o efeito Pigmaleão negativo. Isso significa que pode ser contraproducente a associação do elogio a justificações do tipo “é o mais novo”, “é sobredotado”, “sabe de certeza”…
- Elaborar as adaptações curriculares sobretudo a nível da diferenciação pedagógica, tomadas no sentido de favorecer não só estes alunos mas também todos os alunos da turma.

5. Manter a motivação face aos conteúdos curriculares. Segundo M. Pereira (2006), "são vários os factores de risco que se colocam a esta população. Por funcionarem dentro de um esquema cognitivo diferente do habitual, marcado pelo pensamento divergente e tratamento não sequencial da informação, facilmente “chocam” com o ensino dito tradicional. Correm o risco de mais facilmente se deprimirem e de se isolarem socialmente, dados os interesses atípicos e as preocupações esotéricas que por vezes apresentam”. (2)

6. Devem ser desenvolvidas áreas ou actividades de grupo em que pode ser importante a participação do aluno sobredotado:
- Área de Projecto, onde é possível evoluir e desenvolver maior socialização, interacção grupal e capacidade de liderança.
- Participação em actividades de enriquecimento.

7. A intervenção, deve ter ainda em conta o suporte emocional para lidar com o sucesso e a preparação para lidar com o fracasso.

8. Como experiência inovadora, em que se faz caminho caminhando é importante haver um modelo de referência como, por exemplo, o modelo de enriquecimento curricular (SEM) (3) que dá relevo a:
- currículo regular
- grupos de enriquecimento
- enriquecimento da aprendizagem e ensino.

9. Há vantagens para a própria escola resultantes da integração dos alunos sobredotados devido à motivação individual e à dinâmica que se pode gerar dentro da própria turma e na escola.

10. É necessário encontrar atitudes por parte da escola que possam transmitir confiança à família de que a escola é competente para apoiar estas crianças.

11. O relacionamento com a família deve ser constante aferindo sistematicamente o desenvolvimento do aluno sobredotado, a sua evolução em termos cognitivos e enquanto ser humano, mesmo quando há necessidade de fazer alguns ajustamentos entre o pensamento da família e da escola.

12. A intervenção é também importante para o sistema educativo. Este tipo de intervenção não deve ser desprezado face à intervenção tradicional, isto é, a intervenção em que, periodicamente, grupos de crianças sobredotadas se reúnem. É mesmo, em nosso entender, uma alternativa a esse tipo de programas.

13. Podem ainda ser extraídas algumas consequências a nível da legislação do sistema educativo. Já está prevista a entrada precoce no sistema educativo e a legislação permite também a aceleração. É necessário que seja possível também a dupla aceleração quando se tornasse necessária como acontece nos casos verdadeiramente excepcionais.

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(1) Pereira, M. (2006). Educação e desenvolvimento de alunos sobredotados: Factores de risco e de protecção. In Revista Portuguesa de Pedagogia. Ano 39, n.º 2. Coimbra: Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação.
(2) Pereira, M. - idem 
(3) O modelo de enriquecimento curricular de Jospeh S. Renzulli e Denise de S. Fleith.



27/09/10

Sobredotação - "Mentes que brilham"



O filme "Mentes que brilham" mostra algumas características das crianças sobredotadas e coloca diversas questões sobre o assunto.

1.Questões referentes à sinalização e identificação
Como fazer a sinalização ? “Nesta escola o que importa são os resultados dos testes” ?
Alguns sinais podem indicar-nos que estamos perante uma criança com características excepcionais:
- Fazer perguntas e mais perguntas.
- A insónia: estratégias para a enfrentar.
- Ser diferente: Festa de anos “Não quero festa de anos” vs “Todas as crianças querem", da mãe.
- Habilidades especiais: tocar piano.
- Van Gogh “as vezes acordo dentro dos quadros dele”.

2. A educação familiar destas crianças e os problemas que se colocam no aconselhamento à família
- A responsabilidade da mãe: não expor o filho, normal vs negar o potencial. Mas por outro lado diz “Você e eu sabemos que ele é o melhor...
- Ausência de cooperação entre a mãe e a professora e até competição pela criança: a mãe, Dede, ameaça a professora de que “a mata se alguma coisa acontece ao filho”.
- O encontro com um amigo mais velho e a necessidade de fazer outras experiências, outros ritmos: De Mozart ... ao jazz, a educação informal ... fazer outras coisas ...normais.
Os amigos normais mais velhos e a dificuldade de adaptação: ser amigo não quer dizer que esteja sempre contigo a qualquer hora.
- Gostos e desejos que são semelhantes aos de outras crianças e adolescentes: Macrobiótica vs coca-cola.
Dificuldade de autonomia. A professora, ela própria, finalmente, fazia experiências de culinária.

3. A questão do ensino geral vs ensino especial
- A não compreensão da escola regular para as crianças excepcionais. O desapontamento da professora do ensino regular e dos outros alunos face às respostas da criança.
A escola com tantos sinais não foi capaz de identificar esta situação.
A desadequação das actividades para estes alunos: A estimulação tem de se fazer na Universidade ? Procura-se a adaptação ao nível intelectual. Não se poderia fazer essa estimulação num meio mais ajustado ?
- Em outros contextos há uma desintegração psico-social enorme.
- A importância de ter também ensino individualizado.

4. A questão dos processos cognitivos envolvidos ou subjacentes aos comportamentos de excelência
- Todo o filme parece chamar a atenção para a necessidade de compreensão integrada dos processos cognitivos, envolvendo a emoção e a acção (comportamentos).
- O processo de assimilação mais rápido do que nas outras crianças e origina desadaptação na turma regular.
- Produção divergente de respostas: não ser compreendido pela professora nem pelos outros alunos que se espantam ou se riem.
- Criatividade
- Capacidade para colocar perguntas: “porque fala como se fosse um livro ? Porque não vem ninguém cá a casa ?”, “Porque não tem filhos ?”
- Embora também a nível dos conteúdos, das actividades, a confusão física quântica educação física e o abandono da sala pela maioria dos alunos. Envolve processos mais reflexivos do que activos.

5. Desenvolvimento sócio-afectivo
- Como acontece a qualquer criança, a separação da mãe provoca medo.
Encontra estratégias criativas para enfrentar e afastar o medo, as sombras na parede.
- Quando a ausência se faz sentir mais profundamente: “A minha mãe morreu”.
- Parentificação (é o homem da casa): Fazer o currículo, “Eu faço as contas”, “Quem vai regar as plantas”...

6. O papel dos fazedores ou fabricantes de prodígios
Protecção: O papel fundamental do professor: “Ninguém troçará de ti, eu não deixo”.
Estimulação e motivação.
Mas será necessário realizar “A odisseia da mente”, o “concurso para génios”, meninos prodígio” ou até a “feira do excepcional” ?
“Sem a Jane eu seria mais um palhaço”, refere o colega.

19/09/10

Entrada na escola – alunos sobredotados

Em relação às crianças sobredotadas põe-se o problema da entrada na escola antes de terem completado a idade prevista para esse efeito. Para elas também se colocam problemas particulares de integração.
A criança sobredotada é aquela que possui aptidões superiores que ultrapassam nitidamente a média das capacidades das crianças da sua idade, apresenta traços de personalidade excepcionais (Ajuriaguerra) e determinadas características do ponto de vista das aprendizagens escolares: ler antes de serem escolarizadas, superiores em matérias abstractas e conteúdo verbal, superioridade no cálculo. Preferem actividades abstractas, amigos mais velhos, etc.

São sobredotados "os alunos cujo potencial intelectual está em nível superior, tanto no raciocínio produtivo como no crítico, de modo que se possa imaginar que serão futuros solucionadores de problemas, os inovadores e os críticos da cultura, se lhes forem proporcionadas experiências educacionais adequadas" (Lucito)
Este raciocínio produtivo pode ser divergente (fluência, flexibilidade, singularidade, elaboração, detalhes) e convergente. É importante que os pais tenham atenção ao desenvolvimento da criança, e observem até que ponto ele é diferente do de outras crianças da sua idade: a escolha dos amigos, os jogos, os interesses, a comunicação, a criatividade (pensamento divergente ).

Estas são algumas ideias gerais sobre o assunto. Na realidade, é necessário saber se estamos ou não perante uma criança sobredotada ou com precocidade excepcional.
Se for esse o caso, a criança poderá e deverá entrar mais cedo na escola ou poderá beneficiar de um processo de aceleração da escolaridade dado que a lei o permite e é benéfico para a criança.
Os pais e encarregados de educação devem informar-se na escola sobre o que fazer nestas situações.
O que deverá acontecer, nestas circunstâncias, é que as crianças sejam avaliadas pelo Serviço de Psicologia e Orientação (SPO) que normalmente têm um psicólogo com competência técnica e formal para fazer avaliação nesta área.
É aliás a forma de o fazer.
Há um protocolo de avaliação das características consideradas necessárias para se equacionar a entrada precoce na escola ou a aceleração da escolaridade.
Um dos problemas, porém, é que no sistema educativo as coisas não se passam bem assim e estas situações são deixadas mais ou menos ao destino porque o despiste sistemático das crianças com estas características não se faz. Para isso era necessário que houvesse uma verdadeira rede de SPO o que, como sabemos, está longe de acontecer.

As sinalizações pouco têm a ver com sobredotação e estas crianças chegam à consulta por motivos bem diferentes: trazem queixas de problemas de comportamento, de atenção, às vezes de leitura e escrita, de situações de luto, pela dificuldade que os pais na sua educação, pelas perguntas fora do vulgar que fazem num contexto de adultos… e que são “apanhadas”, por acaso, no âmbito de uma avaliação psicológica.

Surgem também falsas sinalizações. Principalmente quando as crianças nascem nos primeiros dias do mês de Janeiro e não podem iniciar a escolaridade por não terem completado seis anos de idade no ano anterior. Obviamente que por muito que isso custe aos pais, não poderá ser alterada essa situação quando a avaliação não satisfaz os critérios estabelecidos.

Há por vezes professores atentos que descobrem algum sinal especial na criança: na visita ao museu é o aluno que faz as perguntas mais interessantes, tem particular interesse pela leitura, fica à noite muito tempo a ler a ponto de os pais terem que se zangar, interessa-se por questões científicas, etc.
Nesse caso convém informar o SPO de forma a poder avaliar essas características e, nesse caso, poder ser feito um programa de intervenção, se for caso disso, ou, pelo menos, haver uma mudança na atitude dos professores relativamente à compreensão do aluno.