26/11/14

Hortiterapia

Ego vs Eco: rethinking our place in the world  F&O Forgotten Nobility

Sem darmos por isso ou tendo plena consciência do que está a mudar no mundo e na nossa vida, constatamos que a realidade do nosso tempo é de que apesar de as pessoas ficaram com mais tempo livre - 5 horas mais do que há 30 anos, termos menos filhos, a aposentação chegar mais cedo ou ter uma duração maior, vivemos com mais stress e o tempo que nos resta , o tempo livre,  é gasto frente à televisão, nas redes socais, nos transportes nas grandes cidades…

Por outro lado, os comportamentos das pessoas nos países desenvolvidos têm levado ao consumismo, poluição, esgotamento dos recursos, recessão económica, abandono do mundo rural, crises, corrupção ao mais alto nível, offshores, bancos falidos, défices e dívida sempre a aumentar.


De facto, confrontamo-nos com:
- o esgotamento dos recursos energéticos como o petróleo, gás, urânio, carvão e a escassez de muitos outros recursos minerais.
- a degradação ambiental: diminuição da biodiversidade, poluição, deterioração da saúde das populações .
- mudança de estilo de vida: transporte, tratamento de resíduos, alimentos (obesidade nos países desenvolvidos, a desnutrição em países pobres).

Foi aqui que chegamos com o desenvolvimento descontrolado. Foi aqui que nos trouxe quer o capitalismo quer o socialismo.
Por isso, cada vez mais, as pessoas aderem à ideia de que a riqueza interior é o mais importante da nossa vida.
Ao contrário dos que falam em crescimento, sem saberem como é que isso vai acontecer, há uma diversidade de caminhos que já estão a ser postos em prática e que convergem no mesmo sentido, tais como o decrescimento", "criativos culturais", "consumactores", "simplicidade voluntária", "redução"("downshifting")...
Estes caminhos procuram uma vida com mais realização e felicidade, são resposta ao stress, excesso de trabalho e falta de qualidade de vida. 
Estes caminhos optam por sair da correria das grandes cidades, pelo trabalho a tempo parcial, por horários de trabalho flexíveis, pela redução de compras desnecessárias e por uma vida mais simples. 

Estas alternativas são compatíveis com a hortiterapia.
Para além de contribuirmos para a redução da desertificação, podemos valorizar os terrenos que estão abandonados, contribuindo para uma consciência ecológica, e, talvez, algum rendimento. 
Segundo Philippe Lahille alguns benefícios da horticultura e hortiterapia (em baixo, os benefícios segundo Mélanie Massonnet) são:
- Reencontrar o contacto com a natureza
- Respeitar o tempo da meteorologia e do relógio
- Aceitar o fracasso e aceitar as dádivas da natureza
- Despertar e encantar as crianças :
- Fazer actividade física ao ar livre
- Anti-stress
- Recriar o seu paraíso na terra
- Aprender os nomes de plantas e animais
- Partilhar o saber fazer,
- Antecipar um futuro ecológico e sustentável

Interessa-me cada vez mais a horticultura como hobby e como terapia.
São inegáveis as vantagens da hortiterapia para o bem estar e para manter a forma: «Um individuo pode queimar tantas calorias em 45 minutos como em 30 minutos de aeróbica" (Denis Richard).  Esta actividade no ginásio verde (green gym), três vezes por semana, para manter a forma. 
Mas tem também indicações terapêuticas para : depressão, dor de cabeça e outras doenças graves.
A opção pela hortiterapia é fácil, barata, faz bem à saúde e à natureza.

Aspectos da saúde beneficiados
Capacidades desenvolvidas ou estimuladas pela hortiterapia
Saúde física
Contacto com a natureza
Diminuição do stress
Diminuição da fadiga mental
Aceleração da velocidade de recuperação
Exercício físico
Diminuição do risco de certas doenças
Diminuição da ansiedade
Diminuição do estado depressivo
Vitalidade, endurance,
Força física
Coordenação global e fina, equilíbrio
Saúde psicológica
Percepção do tempo e das estações
Sentido da vida
Autoestima, autoconfiança autorespeito e autoaceitação
Realização, orgulho
Estabilidade emocional, alteação dos sentimentos negativos
Sentimento de tranquilidade, de alegria, de autonomia
Relaxação, reflexão
Diminuição do stress
Saúde social
Coesão social, enriquecimento da rede social, amizade
Desenvolvimento de capacidades sociais e de comunicação
Cooperação pelo trabalho
Diminuição do sentimento de solidão
Saúde intelectual
Aprendizagem de novos conhecimentos
Capacidade de observação, de concentração
Curiosidade,
Criatividade imaginação
Empregabilidade

Les grandes lignes del’hortithérapie, Mélanie Massonnet

18/11/14

"Mulheres de guerra"




Uma reportagem de Victor Bandarra e Ricardo Ferreira, com edição de imagem de Miguel Freitas, Repórter TVI: «Mulheres de Guerra» merece referência positiva.
Felizmente, há, de vez e quando, quem chame a atenção para a realidade do stress pós-traumático de guerra. Os ex-militares não podem ser considerados "tara perdida". Há responsabilidade da sociedade em relação aos ex-militares da guerra do ultramar (e também em relação aos que têm participado em missões humanitárias).
As mulheres e filhos destes homens não estiveram na guerra mas vivem a guerra por dentro, durante toda a vida. Como seria sem estes cuidadores?    

Felizmente, a associação APOIAR presta apoio gratuito a vítimas de stress de guerra e disponibiliza apoio jurídico, clínico, médico e social aos ex-combatentes e seus familiares.

Escrevi "danos centrais" sobre este problema. Insisto: o mínimo que se podia fazer por estas pessoas seria não só a gratuitidade dos serviços de saúde, em especial de saúde mental, mas também de terapias medicamentosas e psicológicas.

13/11/14

Muros


Em 1961, Berlim passou a estar dividida por um muro, que de algum modo representava uma divisão mundial que ficou conhecida como Guerra Fria.

Há 25 anos (9 de Novembro de 1989) o muro foi derrubado. A barreira de betão que dividiu Berlim, a Alemanha, a Europa e o mundo durante quase 30 anos caiu, aparentemente com alguma surpresa e facilidade.
No entanto, muitos contribuíram para que isso acontecesse: Gorbatchov, Lech Walesa, Reagan (“Senhor Gorbatchov, derrube este muro”), e sobretudo os que perderam a vida devido a essa divisão. Estima-se que 136 pessoas tenham perdido a vida a tentar passar para a República Federal Alemã (RFA). 
As comemorações dos 25 anos da queda do muro mostram que não há alternativa à liberdade dos cidadãos mesmo que nem tudo tenha sido positivo, como dizem os saudosistas que podem agora manifestar-se livremente. (Observador)

Mas há outros muros físicos e culturais que continuam a existir no nosso mundo, na nossa sociedade.
São os muros que não queremos, nas palavras dos Pink Floyd,  porque não necessitamos de uma educação de obediência cega, que humilha as crianças, não precisamos de controle mental, não somos apenas um tijolo no muro.

As sociedades através da escola podem propor modelos diferentes de cultura: a cultura muro ou a cultura rede (Bruno Munari).
A cultura muro é a acumulação de noções, apenas pode aumentar pela junção de novos tijolos. Esta cultura considera o processo de aprendizagem como a sedimentação de camadas sucessivas de saberes, que se empilham uns sobre os outros, lenta e progressivamente. 
O muro é apenas construído de baixo para cima. Há apenas uma única maneira de aceder ao saber. Cada noção deve ser bem distinta das outras, cada disciplina bem separada das outras. O muro não é susceptível de mudança.
Mas há a cultura rede que significa tecer o maior número possível de relações entre noções. Uma rede é uma transformação permanente.
Não há uma única maneira de aceder ao saber. Uma rede pode ser construída a partir de um ponto qualquer. Aprender significa modificar e transformar continuamente as conexões entre noções, sejam novas ou já conhecidas. Para facilitar a construção da rede importa multiplicar os pontos de vista. Uma rede não está nunca construída, mas necessita de modificações e cuidados constantes... 
Já Pascal escrevia que era preferível “uma cabeça bem feita a uma cabeça bem cheia”.

Por ocasião do 25º aniversário da queda do Muro de Berlim, o Papa Francisco pediu a construção de pontes e não de muros. Disse ainda que "a queda do Muro chegou de forma imprevista, mas foi possível graças ao longo e difícil compromisso de todas as pessoas que lutaram, rezaram e sofreram .
E´necessarrio que "se desenvolva cada vez mais a cultura do encontro, susceptível de fazer cair todos os muros que ainda dividem o mundo, e para que nunca mais os inocentes sejam perseguidos ou, às vezes, mortos por suas crenças e religiões".
"Precisamos de pontes, não de muros". 

12/11/14

"O homem que assobia a mulher que passa"


Tudo é comunicação. A vida é comunicação. Independentemente da minha vontade, eu comunico ainda que não queira, mesmo que esteja em silêncio ou que me afaste das pessoas e viva no deserto. 
Há formas de comunicação que nos podem parecer estranhas porque elas dependem da cultura de cada povo. Há formas de comunicação que podem ser insultuosas, dependendo do contexto.
Dois terços da nossa comunicação é não verbal e apenas após o primeiro ano de vida estamos em condições de comunicar verbalmente.
Uma forma de comunicação não verbal que merece a concordância de uns e a discordância de outros é o comportamento de “assobiar a mulher que passa"
Como em toda a comunicação, há uma fonte do comportamento comunicacional, a mulher que passa, em que, sem falar, comunica, como no poema de Almada Negreiros. 
       Aquela que tem a forma do faz calar,
       Aquela que fala co’o andar,
       Aquela que sabe mentir,
       Aquela cujo olhar dá ilusão
       E que tem na voz o timbre dos repuxos;
                     J. de Almada Negreiros, Poesias
O assobio apreciativo muitas vezes é acompanhado de outros piropos ou de outras expressões, que entram no campo do assédio moral. 
Parece, no entanto, que este assunto merece uma análise mais detalhada. O que motiva um individuo a assobiar uma mulher?
A comunicação é um processo básico da vida. Torna-se indispensável ao estabelecimento de relações sócio-afectivas. Mas nem por isso é fácil expressarmos as nossas emoções. 
Como expressão da nossa organização psicológica, a comunicação, é, certamente, uma questão da personalidade do indivíduo.
Sabemos que o assobio admirativo dificilmente tem resultado. Então por que continua a verificar-se este comportamento ?
Há vários paradigmas psicológicos dos processos intrapsíquicos e relacionais que podem ajudar a compreender este comportamento.
Os paradigmas dos processos intrapsíquicos remetem-nos para a organização interna do psiquismo. A personalidade é constituída pelas instâncias (ego, id, superego) e põem em jogo desejos, motivações, outras necessidades do individuo.
Torna-se imperiosa a necessidade de comunicar. Há processos inconscientes na comunicação que foram socializados pelo super-ego e pelo princípio da realidade que impedem que esta comunicação seja simplesmente uma pulsão sexual primitiva.
A analise transaccional permite-nos analisar os estratagemas, jogos e motivações escondidas.
Provavelmente este individuo acredita que é uma maneira de se evidenciar perante outros e que o torna na vedeta do grupo. 
Este padrão comportamental tem origem na infância. Começa por ser a maneira de se evidenciar perante a família e os irmãos onde o jogo comunicacional tinha esse beneficio.
É também uma forma de relação sistémica, um comportamento que normalmente acontece em grupo, sendo necessário entender os aspectos do contexto, do enquadramento do grupo a que se pertence, da forma como é entendida a mulher nesse grupo e onde há trocas comunicacionais prévias, em relação às quais há aceitação por parte do grupo.
Podemos compreender o sentido deste comportamento a partir da nossa própria experiência, do contexto das normas sociais em que o assobio define uma situação de ambivalência de comunicação sexualizada mas simultaneamente lúdica e sem consequências a esse nível.
Mais uma vez o processo de socialização na escola e na família é decisivo para a comunicação sócio-afectiva, sexualizada e equilibrada, entre homens e mulheres. 

06/11/14

Ousar falar


Le cercle psy, nº 3 , hors-série,  dá voz às pessoas que sofrem de alguma difculdade a nível da sua personalidade. Sobre o assédio moral, um extracto do livro De la rage dans mom cartable, remete-nos para o testemunho de Noémya.


Noémya foi vítima de assédio moral durante toda a sua escolaridade. Viveu quatro longos anos de sofrimento, onde intimidação, insultos, agressões e rejeição foram o seu quotidiano, na indiferença geral do pessoal docente, acrescentando a cada dia um pouco mais de raiva na sua mochila ... Isto foi seguido por dez longos anos de depressão e fracassos profissionais, as consequências directas do fenómeno do assédio. Com espírito de luta, Noémya escapou graças à escrita, conseguindo colocar em palavras os seus problemas .... 
Durante três anos, ela fez da luta contra o assédio moral a sua luta pessoal. 

"Diz-se que há palavras que matam. Palavras que destroem do interior. A diferença com as agressões é que as palavras ficam...

...Para as vítimas de assédio escolar não há geralmente paragem. Todos os locais se tornam ansiogénicos. As salas de aula. O pátio do recreio. A cantina. O autocarro. A perseguição é permanente."


Para os que sofrem com esta situação,  mais importante  do que "guardar na mochila" todas estas agressões é ousar falar.

Respeito


Respeito é a atitude que consiste em não prejudicar o outro nem fisicamente através da violência, nem moralmente através do juízo (Larousse)
É esta atitude, respeito, que faz falta na nossa sociedade:  respeito por si próprio, pelos outros.
Mas o que falta em respeito sobra em assédio moral.
O assédio pode acontecer em vários aspectos e várias etapas da nossa vida.
No mundo do trabalho, leva ao constrangimento da pessoa, afecta a sua dignidade, criando-lhe um ambiente hostil e humilhante (mobbing).
O assédio pode assumir carácter sexual sob forma verbal, não verbal ou física.
O assédio é mais comum em relações hierárquicas autoritárias e assimétricas, isto é, da chefia em relação ao subordinado, em que o fracasso do subordinado é fabricado, um falso fracasso, com o objectivo de o destruir moralmente. Entre nós uma forma frequente deste  assédio é "por o trabalhador na prateleira”
O assédio é frequente na escola, normalmente falamos de bullying.
Hoje, o assédio é particularmente pernicioso nas redes sociais. A internet tornou-se um local preferido para a perseguição (cyberstalking). Tem a vantagem de funcionar no anonimato e na cobardia.
Há vários estudos sobre uso da internet para o assédio. Num deles, (Universidade East Carolina) nos Estados Unidos, perguntaram a 804 estudantes se já tinham usado as tecnologias de informação e comunicação para controlar os seus parceiros. Metade respondeu que sim, ao menos uma vez. 
A pesquisa também mostra que as mulheres são mais propensas ao abuso. Uma em cada quatro das entrevistadas afirmou que violava o e-mail de seus parceiros em comparação  apenas 6% dos homens.
O que leva uma pessoa a assediar alguém, chegando ao ponto de a prejudicar no trabalho, na escola  ou na sua vida ?
Há três tipos de personalidades reprováveis: personalidade maligna, personalidade narcísica e a personalidade paranóica (Piñuel, referido por Varela, P., Ansiosa-mente, pag.135)
Eventualmente pessoas comuns, como o caso de alguns adolescentes, podem manifestar episódios de perseguidores. Há um limite ténue entre a curiosidade sobre uma pessoa e o começo do assédio.
Como, no espaço  público, é difícil saber quando, para comportamentos que vão do piropo apreciativo ou ofensivo  à perseguição (stalking) e agressão física, se atingiu o limite.
Neste caso a vítima é quase exclusivamente feminina.
O piropo é, supostamente, uma expressão ou frase dirigida a alguém, geralmente para demonstrar apreciação física. 
Há quem ache que é uma questão cultural mas também discorde e ache que “não existe lado “positivo” no piropo” (Soledad Cutuli) 
Recentemente uma instituição sem fins lucrativos, a Hollaback realizou a seguinte experiência:
Uma actriz (Shoshana B. Roberts) andou durante dez horas em silêncio pelas ruas de Nova Iorque. Durante essas dez horas ouviu 100 comentários, desde piropos mais ou menos inócuos a outros mal educados, até ser acompanhada durante vários minutos.
A Hollaback refere que há entre 70 e 99% de mulheres que passa por uma experiência de assédio na rua, em determinada fase da sua vida.
O assédio sexual no espaço púbico, mesmo quando assume a forma de piropo, é sempre um comportamento injustificável mas obviamente que há uma grande diferença entre piropo e perseguição (stalking ou cyberstalking).
Aquilo que falta é que haja mais respeito nas relações entre seres humanos, no trabalho ou na rua. A educação pode dar uma ajuda.


03/11/14

DDT




"São mais contas, as outras duas que o Económico hoje destaca: as que se começam a fazer sobre a promessa do novo PS de repor na íntegra, em 2016, os salários cortados no Estado (que merecem um alerta de Manuel Caldeira Cabral e uma crítica de Paulo Trigo Pereira no Público de domingo); e as que o ministro Poiares Maduro faz a António Costa, ainda sobre as contas que este retira dos quadros do Orçamento sobre a aplicação de fundos comunitários em 2015 ("A questão já não é de números mas de seriedade e credibilidade", acusa o ministro).
O posicionamento do novo líder socialista neste início de mandato merece uma nota crítica do diretor do Económico no editorial de hoje ("O pé esquerdo de Costa") e uma violenta crítica de Camilo Lourenço no Negócios ("fica claro qual vai ser o posicionamento do PS nos próximos meses: prometer tudo e mais alguma coisa. Mesmo aquilo que não pode cumprir"). O Governo não sai incólume em nenhum dos dois artigos." (Observador, Newsletters -360º, David Dinis, 3-11-2014)


Por aqui podemos começar a imaginar o que se vai seguir. O sr. DDT (dá dinheiro a todos) está a chegar. Não aprendemos facilmente estas contracurvas da política e dos políticos, mas quando a esmola é grande até o santo desconfia. Era necessário um momento de verdade porque este povo é mais do que santo.