30/03/16

Tribos políticas e justiça


A Justiça, em granito, em frente ao Supremo Tribunal Federal, Brasília, de Alfredo Ceschiatti


Perante os factos mais inverosímeis do quotidiano, costumamos dizer que já nada nos surpreende. Mas não é verdade. Estamos sempre a surpreender-nos. E é de espanto que se fazem os nossos dias.
Assistimos com frequência ao aparecimento de regimes ainda mais autoritários do que aqueles que caíram com as supostas “primaveras” políticas e sociais transformando-se nos piores “invernos” para as populações, com as "revoluções" da América latina transformando-se em regimes ditatoriais... 
As políticas têm implicações directas na vida das pessoas e devem garantir a defesa da vida, a segurança do dia a dia, a tranquilidade e uma vida com alguma qualidade mas em vez disso assistimos todos os dias, à destruição de famílias, de cidades, da cultura…
As democracias são ameaçadas todos os dias pelo terrorismo externo, mas também pelas oligarquias internas, que António Barreto ("Moral e política") chama de “tribos políticas”, que numa atracção fatal pela perpetuação no poder, usam todas as artimanhas para essa manutenção. 
"O que se passa no Brasil, com Lula da Silva à beira de ser nomeado ministro, a fim de evitar ser preso por corrupção, e um juiz federal a tentar impedir aquele gesto, merece toda a atenção. Não para resmungar, mais uma vez, contra a “falta de valores” e a “ausência de moral”, mas sim para perceber o modo como as tribos políticas transformam em virtude não só as suas ideias, como também os seus interesses, os seus crimes e os seus roubos.
No Brasil ou na Venezuela, em Portugal ou em Itália, políticos ou banqueiros, empresários ou sindicalistas, assumem a sua mentira e a sua corrupção como actos legítimos na defesa dos seus interesses e pontos de vista que são obviamente lícitos, contra os dos outros, que os combatem com meios evidentemente ilegítimos. Um governante que mente e rouba, um banqueiro que esconde e desfalca, um empresário que corrompe e disfarça, um gestor que favorece e dissimula ou um deputado que falsifica e engana, tem todo o interesse em demonstrar que os seus inimigos são, não a lei nem as instituições democráticas, mas os opositores, os outros partidos, as outras classes sociais, as outras nacionalidades.
Por isso, os envolvidos nestes casos procuram, na imprensa, nas televisões e na rua, ganhar as batalhas que nunca venceriam na justiça. Por isso há bandidos que tentam vencer, com
a política, o que nunca obteriam com a lei. Por isso, os grandes delinquentes consideram que a justiça e os magistrados estão “ao serviço do inimigo”.
Na América Latina e na Europa, lá como cá, não estamos diante de mais uma escaramuça, mas sim de um grave conflito de cujo resultado depende a democracia. A vitória desta última só pode ser ganha com a justiça. Não chegam as maiorias políticas. Nem os poderes sociais e económicos. Nem a força da rua."
A justiça é um dos pilares da democracia, o último da sua defesa. Mas deixem-me meter Cristo nisto tudo que tinha e tem uma pergunta a fazer: “quando o sal se tornar insípido, com que se salgará?”
É por isso que a justiça não pode perder a sua independência e a sua força face a qualquer poder, político ou não.

25/03/16

As minhas serigrafias: Isabel Laginhas


Isabel Laginhas - S/ Título


Técnica: Serigrafia
Suporte: Papel Fabriano D5 GF 210g; Dimensão da Mancha: 54x35 cm; Dimensão do Suporte: 70x50 cm
N.º de cores: 26
Data: 1997
Nº de Exemplar: 91/200
Nasceu em Lisboa em 1942. É formada em Pintura pela Escola de Artes Decorativas António Arroio e pela Escola de Belas Artes de Lisboa. Frequentou também o Curso Estudo da Cor, organizado pelo I.N.I., e foi professora de desenho na Escola Francisco Arruda e de Tapeçaria na Escola de Artes Decorativas António Arroio. Entre 1974 e 1977 pertenceu à Comissão Etária dos Espetáculos. No âmbito da investigação em tapeçaria moderna, à qual se dedica desde 1970, foi bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian nos anos de 1976, 1977, 1982 e 1991. Ao longo do seu percurso artístico, recebeu vários prémios e realizou várias exposições em Portugal e no estrangeiro. Ilustrou vários livros infantis, de poesia e contos e desenhou figurinos para teatro. As suas obras evoluiram de um pendor neofigurativo para o abstraccionismo geométrico, que desenvolve na actualidade.

Ciência, tradição e cultura


1. Uma das experiências mais interessantes que tenho vindo a verificar, entre as pessoas que têm uma pequena quinta ou horta, é a da partilha. Normalmente, há sempre quem plante em excesso, de forma que as dádivas dos vizinhos permitem que não seja preciso gastar dinheiro em sementes ou plantas novas.
Um livro cheio de boas ideias e actividades práticas para realizar. A ideia fundamental é reciclar, não desperdiçar, ser criativo e ter estilo.
Os cenários da nossa vida ficam muito mais agradáveis e a natureza menos agredida.
Aprende-se todos os dias com a natureza, o tempo, a fragilidade, a riqueza da natureza que tantas vezes nos passa ao lado. É um mundo maravilhoso de complexidade que a maior parte (?) de nós desconhece como verificamos, por exemplo, em The seed site.
É uma óptima terapia, como aqui escrevi para todas as pessoas e, para os mais velhos, uma boa alternativa aos bancos do jardim ou à esperança de orçamentos milagrosos que, dizem "eles", viram a página da austeridade!
O livro tem uma dedicatória: "À minha avó, uma inspiração na jardinagem." Muitas destas aprendizagens resultaram da observação que fizemos com os nossos pais e avós. A tradição começou na aprendizagem com as gerações anteriores. A cultura começou por esta parte, pela cultura agrícola (séc XI) que mais tarde (séc.XVI) passaria a ter o sentido figurado de cultura de espírito (Dicionário temático Larousse, Sociologia, pág 58).


2. A relação entre cultura, ciência e tradição é uma das melhores formas de compreensão do mundo em que vivemos e, esta visão do ser humano, integrada e ecológica, possibilita percursos de vida mais felizes. A tradição tem,  afinal, grande importância para uma vida de qualidade. O saber fazer e saber estar, o modo de viver dos nossos pais e avós somado aos instrumentos de trabalho da actualidade podem ser o segredo para uma vida com qualidade.

Um projecto interessante, já com alguns anos, tem vindo a promover a ligação, o diálogo, entre Ciência, Tradição e Cultura que pelos vistos é possível e necessário.


No âmbito deste projecto, em 15 de outubro de 2014, ocorreu o encontro improvável entre Marcelo Rebelo de Sousa e Rosalia Vargas, no Cineteatro Avenida, em Castelo Branco. Falaram sobre Ciência, Tradição e Cultura e de como estas podem e devem ser promovidas, desde os mais jovens aos menos jovens e em que medida os meios de comunicação social e as instituições as podem promover.

Falaram da experiência infantil da modelagem do barro e da vontade de fazer novamente essa experiência.
Infelizmente, nas nossas escolas este tipo de experiências tem vindo a ser esquecido. As muflas que havia nas escolas desapareceram ou jazem em armazéns à espera da inutilização. Diga-se o mesmo de outras artes: carpintaria, mecânica, tecelagem... Face a este esquecimento curricular, ganha maior importância tudo o que pode ser feito pelas associações culturais ou por projectos como é o caso do Centro Ciência, Tradição e Cultura. O que era mesmo interessante era que fosse dado o lugar na educação que estas artes merecem, tendo em conta o significado que o diálogo ciências-artes pode ter na formação dos alunos, não apenas em relação à aprendizagem dessas artes mas à estratégia que é subjacente à motivação para as aprendizagens, à ligação com a cultura. É o que verificamos sempre que há festa na escola: são as artes que dão o toque estético de como a escola vive a cultura e a integração na comunidade.
O que era mesmo interessante era que o desejo do agora Presidente da República se tornasse numa experiência enriquecedora para as aprendizagens de tantos alunos.

3. A tradição é também o tema deste número de Inverno da Epicur. Do Editorial "O que ainda é do que já foi", a frase de Gustav Mahler: "A tradição não é o culto das cinzas, mas a preservação do fogo" e a escrita de Filipa Melo "É verdade que grande parte das vezes se consome tradição como se consome novidade: não por serem ricas em potencalidades ou evocativas mas porque estão à mão, como um hábito que nos dispensa de pensar. E, no entanto, a ligação aos clássicos e à tradição só faz sentido se significar culto, preservação ou recuperação do afeto. Se de algum modo for parte viva, estimulante, de nós e do presente."
Todo o desenvolvimento humano (psicológico, social, económico...) tem que ver com estas formas de ser e estar. Não se pode fazer à custa do esquecimento da tradição tanto mais que, como sabemos, são cada vez mais apreciados os produtos tradicionais, mesmo contra o excesso de padronização europeia, porque muitos deles têm em conta o respeito pela natureza e pelas suas regras. O desenvolvimento da ciência também tem estes limites do humano e apenas quando eles estão garantidos o justificam.

Gente perigosa



Temos dificuldade em nos afastarmos das noticias que nos deixam estupefactos com a violência gratuita que um pouco por todo o mundo assassina indiscriminadamente inocentes e espalha o terror. Em Madrid, Londres, Paris, Bruxelas, essa Europa que com valores humanistas, é violentada por aqueles que tem acolhido ao longo dos tempos.
A violência terrorista sobre pessoas e ou instalações não é apenas física mas também psicológica, incutindo medo de forma a obter efeitos psicológicos não apenas nas vítimas directas mas também no resto da população. Acontece ainda que o medo é revivido sempre que um novo acto terrorista é perpetrado, como nas perturbações de stress pós-traumático (Joan Cook).
Vivemos em sociedades complexas e estes fenómenos têm que ser analisados com cuidado, tendo em conta os vários contextos relacionados como o processo de radicalização e com a globalização. A globalização é a “a intensificação à escala mundial, de relações sociais que ligam localidades distantes de tal forma que os acontecimentos locais são influenciados por acontecimentos que ocorrem a muitos quilómetros de distância e vice-versa”. 1
Por outro lado, temos que pensar que vivemos numa sociedade onde as pessoas perigosas não têm um rótulo, um perfil ou se fazem anunciar. Gente perigosa está no meio de nós: psicopatas, pedófilos, violadores, assassinos, e também radicais e fundamentalistas. 2A radicalização dos jovens tem tocado especialmente alguns países que deixaram de forma descontrolada criar espaços que tornam o fenómeno mais intenso. Certamente os estados estão a lidar com estas situações o melhor que sabem mas também com os princípios políticos subjacentes que defendem. 3
Habitualmente, as respostas securitárias são afastadas liminarmente por gente "bem intencionada" 4 mas se calhar, pelo menos, devemos interrogar-nos sobre o significado que os eleitores têm dado nas eleições mais recentes, em vez de pura e simplesmente utilizar os rótulos do costume: preconceito, xenofobia, decadência da sociedade de consumo ou pobreza dos bairros periféricos.
A sociedade deve reagir a esta violência. Claro, a nível individual estamos a fazê-lo mas é necessário fazer mais também a nível colectivo e preventivo.
As respostas devem vir sobretudo da sociedade, das instituições existentes: apoio psicológico nas escolas, centros de saúde e de saúde mental, a formação e emprego, as polícias, a luta contra a propaganda nos meios de comunicação como a internet, porque a radicalização necessita da globalização para ser eficaz.
O que é ainda mais chocante é que o recrutamento se faz num período de desenvolvimento em que os jovens fazem o percurso da sua identidade, a crise da adolescência.5 O apoio que necessitam é completamente distorcido pelo fanatismo. É neste estádio que se adquire uma identidade
psicossocial: o adolescente precisa de entender o seu papel no mundo e tem consciência da sua singularidade.
Um processo que pode começar como uma crise de adolescência, de ruptura com a família, como tantas vezes acontece, acaba por se transformar num grave problema pessoal, familiar e social.
Por seu lado, os pais, por vezes, não sabem como lidar com os filhos adolescentes, sentem vergonha dos comportamentos, e não pedem ajuda. E, infelizmente, quando soa o alarme é já tarde para agir.
 ______________________
1 A. Giddens, citado por Manfred B. Steger, A globalização, Quasi, pag 19.
2 Dossier "Les patiens dangereux", Le cercle psy, nº 19.
3 Isto não tem nada a ver com as justificações do tipo "pôr-se a jeito". Nada justifica o terrorismo. Ou, pior ainda, é relacionar o terrorismo com políticas de direita.
4 Nem sequer há entendimento quanto ao controle de fronteiras. O tráfico de armas é um dos principais negócios a nível mundial.
5 Erik Erikson definiu um quinto estádio de desenvolvimento psicossocial: identidade/difusão de identidade.

21/03/16

Ecce Homo

"21 c. Recitativo
Pilatos: Eis que vo-lo trago para fora, para que saibais que não encontro nele nenhuma culpa.
Evangelista: Então Jesus saiu com a coroa de espinhos e o manto púrpura. E Pilatos disse-lhes:
Pilatos: Olhai, aqui está o homem!"
                                  


Bernardo Mariano, Notas ao programa Paixão Segundo São João de Johann Sebastian Bach:
"...
A 'Paixão segundo São João' foi escrita para a primeira Páscoa que Bach passou em Leipzig, ele que no final de Maio de 1723 fora investido nas funções de 'Kantor' (ou 'Director musices') das quatro principais igrejas da luterana cidade saxa - são estas, por ordem de importância: de São Tomas/Tomé, de São Nicolau, Igreja Nova e de São Pedro, sendo que só as duas primeiras subsistem nos nossos dias. Era obrigação inerente a esse cargo prover de música todas as liturgias, dominicais e de dias festivos. Estamos portanto na Primavera de 1724, ano em que a Sexta-Feira Santa calhou a 7 de Abril, e foi na hora de Vésperas desse dia que pela primeira vez se ouviu, na Igreja de São Nicolau, a `Paixão segundo São João'. 
....
A 'Paixão segundo São João' divide-se em duas partes, sendo a 2ª bastante mais extensa que a primeira. Esta divisão prende-se com o 'modus operandi' que era corrente em Leipzig, na altura, de fazer intercalar a execução da Paixão pela homilia (ou prédica, ou sermão), proferida pelo pastor luterano. Daí as duas partes serem outrossim designadas de "antes da homilia" e "após a homilia". A cesura é realizada entre o arrependimento de Pedro (final da 'parte prima') e o momento em que Cristo é levado à presença de Pôncio Pilatos (inicio da 'parte seconda'), correspondendo, em termos do texto de João, à passagem do versículo 27 para o 28 do capitulo 18. 
..."

Foi de facto um privilégio poder ouvir Concerto Ibérico - Coro e Orquestra Barroca, com a Dir. de Ketil Haugsand.

Pode-se revisitar aqui, sob a direcção de Philippe Herreweghe - 1987.

Paixão seg. S. João  - J. S. Bach (BWV245) 

08/03/16

"A liberdade tem sempre um preço"

Li o livro Alentejo prometido, de Henrique Raposo. Podemos dizer que é uma história sobre identidade e identificação. E também sobre o permitido e o proibido, de dentro e de fora, isto é, sobre o eu e sobre a sociedade que não compreende como é possível haver quem não tenha o espírito de pertença que HR manifesta não ter nestas “histórias familiares e pessoais”.
Quem está fora é de tal modo questionado pela novidade do outro, pelo pensamento do outro, que não só não aceita este sentimento de desligamento das raízes de que fala o livro como o quer proibir para que outros não o possam ler. É, por isso, que a liberdade tem sempre um preço. 
Muito do que ali está escrito não é apenas de um Alentejo que existiu mas de todo um país que, durante séculos, viveu esta realidade. Os relacionamentos entre rapazes e raparigas eram assim, os bailes eram assim como HR descreve, até ao aparecimento do gira-discos que permitiu a realização de bailes e festas particulares... HR estabelece algumas semelhanças e diferenças entre o sul e o norte e,  na verdade, havia no país antigo e há no país actual muitas diferenças que HR prova com estatísticas, como é o caso do suicídio, da emigração, do problema da água e construção de barragens, da violência doméstica que existe tanto no norte como no sul mas em que o feminicídio é praticamente residual no sul.
Os comportamentos oscilam entre o permitido e o proibido. Os critérios do permitido e do proibido variam de época para época e de sociedade para sociedade. Houve tempo em que era indecente que a mulher mostrasse as pernas, mas o decote podia ser generoso. Como diz Umberto Eco (1975): “Em Citânia: tem mini-saia – é uma rapariga leviana. Em Milão: tem mini-saia - é uma rapariga moderna. Em Paris: tem mini-saia é uma rapariga. Em Hamburgo no Eros: tem mini-saia - se calhar é um rapaz”.
Mas quem escreve assim, por certo ama aquela terra, como ama aquela família, em especial as mulheres daquela família: “A história um dia fará justiça a esta geração de mulheres que criou o conceito de criança entre o fim da roda dos expostos (final do séc. XIX) e o advento da pílula. E o que é mais espantoso é que elas iniciaram esta revolução mental contra a miséria, contra os elementos e, sobretudo, contra a cultura marialva dos maridos.”
E também porque, desesperadamente, procura motivações que justifiquem uma identidade, começando por mentir a si próprio "o Alentejo dos meus avós e pais é a minha terra". Sofre do que chama o “complexo do desenraizado”, este sentimento de não pertença a um lugar geográfico determinado. 
Mas a identidade está nas memórias da infância e essas são aquilo que nem HR nem ninguém pode afastar porque o reprimido sempre aparecerá em qualquer livro escrito ou da vida, chame-se ou não Alentejo prometido.
Não será assim noutros locais, com todos nós? Não foi Sócrates, o filósofo, que disse: "Não sou nem ateniense nem grego sou um cidadão do mundo" ?
Além disso, nem todos têm essa facilidade de identificação como parecem ter os censores que querem proibir que o livro seja divulgado.
Há um poder, da tradição, do silêncio, da imitação, do controle, da política, neste caso da dita esquerda, do dinheiro, que como qualquer poder "reprime e proibe e leva ao aparecimento e produção de comportamentos na relação do indivíduo consigo próprio, que é função de certas maneiras de sentir, de agir e de pensar que lhe são inculcadas através dos mecanismos identificatórios". Esta sociedade não admite que se toque na estrutura formal com que os seus elementos se identificam. Como se houvesse um modelo para servir a todos, do tipo pronto-a-vestir, em que só se pode permitir a igualdade psicológica, para todo o sempre.
O desenraizamento, a não pertença, devido à migração por se querer uma vida económica melhor e por rejeitar determinados atavismos,  tem um preço: o vazio da não pertença.
É por isso que é tão importante divergir e, ao mesmo tempo, convergir e valorizar as memórias vinculativas positivas do passado, ou mesmo as de sofrimento, por um futuro melhor.
HR deixa algumas notas de esperança. A educação e as novas tecnologias estão a contribuir, definitivamente, para que as crianças das últimas gerações possam ter este futuro.

As minhas serigrafias: Malangatana

Malangatana - S/ Título


Técnica: Serigrafia
Suporte: Papel Fabriano D5 GF 300g; Dimensão da Mancha: 56,5x39 cm; Dimensão do Suporte: 76x56 cm
N.º de cores: 74
Data: 1997(1998?)
Nº de Exemplar: 169/200

Biografia 
"Nasceu em Moçambique, em 1936. Em 1958 frequenta o núcleo de arte, onde conhece o pintor Zé Júlio que o apoia. Em 1971 é Bolseiro da Gulbenkian em gravura e cerâmica, e contacta pela primeira vez com uma sociedade não moçambicana, não africana. Em 1973 volta à Europa; percorrendo vários países, visitando muitos ateliês, museus e galerias. Em 1980 regressa a Maputo e é nomeado diretor do Departamento de Artesanato, dispendendo grande atividade para apoio e desenvolvimento das cooperativas de artesãos de Maputo. Em 1985 passa a dedicar-se unicamente às Artes Plásticas. Em 1997 foi nomeado pela UNESCO Artist for Peace. Malangatana foi laureado com a Medalha Nachingwea pela sua contribuição para a cultura Moçambicana, e foi nomeado Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique. Faleceu em 2011."

02/03/16

“O hábito fala pelo monge”


Num pequeno texto inserido no livro Psicologia do vestir, Umberto Eco (5/1/1932 - 19/2/2016)  escreve sobre o vestuário.
O título já nos diz que se o hábito não faz o monge de certeza que "o hábito fala pelo monge".
Vivemos dias em que as alterações comportamentais de figuras públicas quanto ao seu vestuário e outros comportamentos sociais manifestam alterações evidentes aos padrões mais frequentes de comunicação nesse contexto.
A questão sempre existiu mas, recentemente, em algumas democracias europeias, principalmente naquelas em que para elementos de novos partidos, não sei se são partidos novos, a componente “o vestuário que fala” tem grande impacto mediático. 
Na Grécia, um primeiro ministro que não usa gravata e um ministro das finanças que se veste de maneira singular, faz-se transportar de mota, e deixa-se fotografar na sua luxuosa residência no centro de Atenas. Em Espanha, o líder de um desses novos partidos apresenta-se sem gravata e sem casaco, mas apresenta-se de smoking num festival de cinema….
Há ministros que se transportam de mota, e um presidente que a usa para visitar a namorada, outros preferem o carro eléctrico ou viajar em classe económica. Há deputados que usam brinco, outros rastas, outros barba e ou bigode…
Umberto Eco diz “o vestuário é comunicação”. E isso não é nada de novo “mas a semiologia veio aperfeiçoar esta tomada de consciência e agora permite-nos inserir a nossa noção de comunicabilidade do vestuário num quadro mais amplo, no quadro de uma vida e sociedade onde tudo é comunicação.” (p. 8)
Tudo é comunicação. O homem comunica através da linguagem verbal mas o homem comunica através de uma infinidade de outros sinais, os gestos das mãos, os movimentos dos olhos, as inflexões da voz …
Eco diz que "a roupa serve principalmente para nos cobrirmos com ela... (para proteger do calor ou do frio e para ocultar a nudez que a opinião pública considera vergonhosa)" mas isto "não supera os cinquenta por cento do conjunto. Os restantes cinquenta por cento vão da gravata à bainha das calças, passando pelas bandas do casaco e chegando até às solas dos sapatos - e isto se nos detivermos ao nível puramente quantitativo, sem estender a investigação aos porquês de uma cor ou de um tecido…" (p. 7)
Os sinais estão por todo o lado de diversas formas e devemos identificar o significado das mensagens que encontramos no contexto social e cultural do nosso quotidiano, como, p. ex., na condução rodoviária, na publicidade, na moda.
"A linguagem do vestuário tal como a linguagem verbal serve para identificar posições ideológicas segundo os significados transmitidos e a formas significativas que foram escolhidas para os transmitir”.(p. 17)
Apesar da sua importância, “os códigos de vestuário existem embora muitas vezes sejam fracos” porque mudam com uma certa rapidez… São extremamente flutuantes…" (p. 18 e p. 20), como vimos nos exemplos acima.
O que importa é que a sociedade “seja de que forma se constituir, ao constituir-se, “fala” . Fala porque se constitui e constitui-se porque começa a falar. Quem não sabe ouvi-la falar onde quer que ela fale, ainda que sem usar palavras, passa por essa sociedade às cegas: não a conhece: portanto não pode modificá-la.” (p. 20)

01/03/16

As minhas serigrafias: Regina Chulam

Regina ChulamAmor

Técnica: Serigrafia
Suporte: Papel Fabriano D5 GF 300g; Dimensão da Mancha: 38,5x36 cm; Dimensão do Suporte: 50x50 cm
N.º de cores: 30;
Data: 1994
Nº de Exemplar: 48/200

Biografia
"Nasceu em Vitória, Espírito Santo, Brasil em 1950. Frequentou The Heatherley School of Fine Art, Londres em 1975. Licenciou-se em pintura pela Escola Superior de Belas Artes de Lisboa (ESBAL) em 1981. Desde então, tem exposto coletivamente e individualmente em Portugal e no Brasil. Está representada em coleções privadas e institucionais (na Europa e no Brasil)."