27/09/13

Descubra as diferenças



Sobre soutiens, podemos concordar que se trata de um soutien de génio ao 1:26. Mas qual nasceu primeiro: o de Lady Gaga, o da Vogue (Lara Stone) ou o de Tezenis ?










Sobre seios, anda por aí a "notícia" seguinte: 
A pesquisa aponta que olhar para seios durante dez minutos por dia pode prolongar a expectativa de vida dos homens em até cinco anos e equivale a 30 minutos diários de exercício aeróbico, de acordo com estudo alemão publicado no New England Journal of Medicine. 
Depois de comparar a saúde de 200 pacientes do sexo masculino, 100 dos quais instruídos para ver seios diariamente, a doutora Karen Weatherby, uma das especialistas e responsáveis pelo estudo, afirma que a excitação sexual faz o coração bombear e melhora a circulação sanguínea.
Quem não estaria interessado em melhorar a sua saúde ?
Porém, não vale a pena ter tão altas expectativas porque parece que não é bem assim. 

Agora, o que faz bem ao corpo e à mente é, certamente, o poema de Alexandre O'Neill: Sei os teus seios./Sei-os de cor.

26/09/13

Para além da doença




Florescer pode significar estar em flor mas também, em sentido figurado, prosperar, brilhar.
Florescer, prosperar, era o que devia estar a acontecer com cada um de nós.
No entanto, pelos dados de que dispomos não é bem assim: o consumo de antidepressivos tem vindo a aumentar em Portugal mais do que noutros países.
Nos primeiros oito meses do ano, os portugueses compraram em média, por dia, mais de 75 mil embalagens de antidepressivos, estabilizadores de humor, tranquilizantes, hipnóticos e sedativos. Trata-se de um aumento de 1,9% face ao mesmo período do 2012, revelam dados da consultora IMS Health
Também aqui  é referido que 
"de facto, há um acentuar dos problemas de saúde mental, normalmente muito associados ao desemprego...
"De acordo com o mesmo estudo, as dificuldades económicas, aliadas ao aumento das taxas moderadoras, estão a condicionar o acesso à saúde, sobretudo dos grupos mais vulneráveis, como os idosos, que estão a adiar as idas ao médico e ao dentista, bem como a atrasar a compra de óculos e até a espaçar a toma de medicamentos para cortar nos gastos." 
O que está a acontecer? Aparecem algumas explicações como, por exemplo, as do Relatório da Primavera do Observatório Nacional dos Sistemas de Saúde.

No entanto, parece haver uma contradição: ao mesmo tempo que há aumento da prescrição de medicamentos, refere-se o condicionamento do acesso à saúde e aos médicos.

No entanto, o problema é mais complexo e é necessário saber o que está em causa na nossa felicidade ou na nossa doença.
Seligman, depois de ter estudado a felicidade das pessoas adopta um conceito mais geral, no sentido do bem-estar. Para vivermos bem é preciso perseguirmos cinco objectivos: felicidade, empenhamento, relacionamentos, propósito e realizações.
É importante procurar aquilo que nos dá prazer e alegria (felicidade), mas também uma actividade de que se goste (empenhamento), no meio de pessoas positivas (relacionamentos) e dar um propósito à nossa vida, como por exemplo, dedicarmo-nos à família, a instituições solidárias. Quando conseguimos atingir os nossos objectivos e dar um sentido à nossa vida podemo-nos considerar realizados.
Não há apenas um factor mas vários a determinar o nosso bem-estar. A complexidade do ser humano é a da sua personalidade onde se cruzam todos esses factores. Alguns deles são mais marcantes na nossa personalidade do que outros. Por exemplo, às vezes, podemos tentar viver bem pelo nosso empenho num projecto, exactamente porque as circunstâncias da vida nos foram adversas. É por isso que a resiliência é uma estratégia importante para lidarmos com a adversidade e a perturbação de stress pós-traumático .

O uso de medicamentos antidepressivos é necessário em muitas situações. E não podemos prescindir deles. Mas é também bom saber que analisando toda a literatura sobre anti-depressivos, descobrimos que eles melhoram os sintomas, em média, em 60 a 65%. Com o placebo, a melhora é de 40 a 50%. Basicamente, os anti-depressivos são úteis, mas limitados. 

É por isso necessário trabalhar outras capacidades, ou seja, os objectivos referidos por Seligman: o empenhamento, os relacionamentos, um propósito para a nossa vida, etc…para acabar com os problemas de humor, ansiedade e depressão. É preciso trabalhar para estes objectivos para florescer, além de tratar a depressão.
Todos conseguimos florescer. Podemos estar deprimidos mas se essas condições atrapalham o nosso bem-estar, não anulam a possibilidade de florescer. 
Mais de 20 estudos mostraram que é possível ter emoções positivas e alguma perturbação mental.
Afinal florescer é como o que acontece na natureza: é necessário arrancar as ervas daninhas que junto das flores não vão impedir que elas cresçam.


Pensamentos de um velho sobre a escola *




Pensamentos de um velho sobre a escola:
Um velho reúne recordações da juventude e flores que a juventude,
              ela mesma, não consegue reunir.

Hoje só eu vos conheço,
Ó belos céus da aurora, ó orvalho da manhã na erva!
E são estes que vejo, estes olhos cintilantes,
Cheios de um significado místico, estas vidas jovens,
Que constroem, que se equipam como uma frota de navios, navios
              imortais,
Que em breve navegarão pelos mares sem limites,
Na viagem das almas.

Apenas um grupo de rapazes e raparigas ?
Apenas as enfadonhas lições de leitura, escrita e cálculo ?
Apenas uma escola primária ?

Ah, mais , muito mais.
(Tal como George Fox lançou o seu grito de alarme: «É a este
               amontoado de tijolos e argamassa, a estes soalhos mortos,
               janelas, grades a que chamais igreja ?
Isto não é de modo algum uma igreja - a igreja são as almas vivas ,
               vivas para sempre.»)

E tu, América,
Fizeste uma avaliação real do teu presente ?
Das luzes e das sombras do teu futuro, bom ou mau ?
Presta atenção às tuas raparigas e rapazes, ao professor e à escola.


* Para a inauguração de uma escola primária, em Camden, Nova Jersey, em 1874


18/09/13

A psicologia escolar: dimensão emocional, preventiva, positiva

(collèges, lycées, groupe scolaire) 

L' école française dans le refus de la dimension émotionnelle des élèves ?
Imaginez seulement la richesse et le confort pour les élèves de l'accompagnement par un "pro" de leur développement d'enfant, de pré-ado et ado, à cette étape fondamentale de la construction de leur vie ... Pourquoi encore réserver ces visites aux "enfants à problème"? Non, un psy à l'école  c'est vraiment pas du luxe !!! 
# Le" psy" de l'établissement serait pourtant la personne idéale pour renvoyer aux professeurs des choses fondamentales de leurs organisation et fonctionnement professionnel, et de façon neutre. On ne peut confondre cet aspect avec la mission des inspecteurs . On trouve absolument fondamental que les équipes qui travaillent avec des humains soient accompagnées dans un suivi de groupe (accompagnement des mourants, hôpitaux, équipes d'éducateurs , ...) N'est-ce-donc pourtant pas de l'éducation qu'on fait avec ces enfants qui passent tant d'heures par semaine dans les écoles ? La charge de plusieurs dizaines d'enfants n'est-elle pas assez lourde pour qu'on trouve normal d'être soutenu par le regard neutre mais aidant d'un psychologue ? Même dans le cas improbable où tout irait vraiment bien ? 
# Le "psy" serait également pour les élèves la personne bienveillante, à l'écoute personnelle de leurs soucis, interrogations ou angoisses. Mais aussi sur un mode plus collectif, la personne bien placée pour organiser avec l'infirmière et les professeurs des actions de prévention des dépendances et " d'éducation au bonheur " telle que le conçoivent les Britanniques ou nos voisins allemands. 
...
Il faut rappeler que les psychologues scolaires ont de vastes circonscriptions qui vont jusqu'à plusieurs milliers d'élèves par personne .
Tiers monde ?
Non, pays riche qui préfère dépenser autrement que pour l'éducation, l'écoute et le bien être de sa jeunesse ...


Não é só entre nós que  a colocação de psicólogos escolares nas escolas encontra dificuldades. O mesmo acontece em países onde a psicologia escolar tem grande historial.





Escola digital


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Todos os anos, por esta altura, a escola fica sob os holofotes da sociedade. Isso é positivo. Também era bom que todas as instituições tivessem o escrutínio que tem a escola. Todas as críticas são, por isso, preciosas e têm que ser vistas e aproveitadas para introduzir melhorias no sistema educativo.
A escola iniciou mais um ano lectivo dentro daquilo que era de esperar. A grande maioria das escolas não apresenta problemas diferentes dos anos anteriores.
E há problemas que nunca mudam. São problemas psicológicas que embora dependentes de novas condições externas, fazem parte da própria dinâmica da vida das famílias, relativas à adaptação de cada aluno ou professor.
Estas escolas, em geral, não são notícia (good news no news).

Ao contrário, são notícia as escolas que têm problemas que, mesmo esses, são ampliados para se fazer crer que existe um caos instalado. Efectivamente, uma pequena percentagem de escolas têm problemas com o arranque do ano lectivo: falta de alguns professores, turmas com muitos alunos, escolas sem condições físicas, sem assistentes operacionais, sem técnicos... 
Mas a verdade é que o sistema funciona razoavelmente bem. Há que corrigir os erros  e compreender que os exageros, as informações falsas, parciais, deslocadas e contra-informações fazem  parte do processo de início do ano lectivo. 
Todos sabemos quem faz este papel todos os anos, quem toma a nuvem por Juno, e, por isso, não é de surpreender. 
A educação é um dos sectores governamentais que pela transparência, pela necessária lentidão de implantação das medidas, de médio e longo prazo, pela dificuldade da inclusão, apresenta mais dificuldades em agradar a toda a população. 

No meio deste ritual anual, eis que surge uma novidade positiva,que também foi notícia: alunos do 7.º ano do Agrupamento de Escolas de Cuba, vão deixar de ter livros e, em vez disso, terão "manuais digitais".
A iniciativa começou a ser pensada há dois anos na Direcção-Geral de Estabelecimentos Escolares (DGEE) - Direcção Regional de Serviços do Alentejo. Depois de avaliarem qual a melhor forma de acabar com os manuais e tentarem perceber as vantagens pedagógicas, seguiu-se a procura de parceiros. A Porto Editora com os livros digitais, a Fujitsu com os aparelhos e a Universidade Católica como instituição que vai monitorizar e avaliar a experiência permitiram dar gás ao projecto.
Esta iniciativa vem colocar em destaque, talvez, o mais importante de tudo isto que não diz apenas respeito aos "manuais digitais" mas à vida digital dos alunos. Neste grupo de alunos apenas um não tem facebook. 

H. Gardner, o teórico das inteligências múltiplas, em entrevista recente, interroga-se sobre a proliferação da informação na era digital. 
A internet, que percebe como um « caos geral », apresenta-nos um mundo onde vale tudo ? Neste caso, como ajuizar do que é verdade, do que é 
belo e do que está bem ? 
É por isso importante que a escola se ajuste à época digital em que vivemos. Mesmo que o objectivo principal continue a ser a alfabetização tem que ser mais do que isso: deve fornecer os instrumentos que permitam distinguir o que é verdadeiro do que é falso, de julgar sobre o que é a arte e o que é bom. Distinguir o que é inteligência colectiva do que é estupidez colectiva mesmo que apoiada com "gosto" por milhares de indivíduos.
Por isso, um currículo com "manuais digitais" deve incluir a educação para os valores da vida que, essa, não é virtual.


Actualizado - 24-9-2013

Outras referências:
Aula digital - da lousa ao tablet
A tecnologia serve como mediadora
Não basta ter acesso a tecnologia
Os eBooks que querem substituir os livros escolares

12/09/13

O fracasso aprendido



Enciclopédia da Psicologia, Oceano, vol. 1, pag.188


Aqui, é  muito bem analisado o que se passa com estas pessoas (malhadiços).
M. Seligman mostrou, cientificamente, que era assim que acontecia na experiência sobre o fracasso aprendido (também chamado fraqueza aprendida ou desamparo aprendido).
A. Beck, com base em dados clínicos, "acha que que a condição do paciente pode ser entendida como resultando de uma tríade de crenças intensamente negativas e irracionais sobre si próprio, o seu futuro e o mundo circundante. O indivíduo acredita que não serve absolutamente para nada, que o seu futuro é desolador e que, aconteça o que acontecer à sua volta, será sempre para pior." (Gleitman, Fridlund e Reisberg, Psicologia)
Em educação, este é um assunto de extrema importância. Há quem continue a achar que a punição física e ou psicológica não tem importância nenhuma mas, como já aqui tínhamos dito, "não há palmadas pedagógicas".  Conhecemos há muito tempo as evidências negativas deste tipo de educação.
Fenómenos como o dos alunos gozados (bullying), na escola e ou nas redes sociais, são perturbadores do desenvolvimento e às vezes têm desfechos fatais.
No interior das sociedades e na política internacional, a interacção e cooperação não seria uma estratégia mais eficaz do que aquela que tem sido seguida ?
Em democracia, tem que haver sempre saídas e nada tem que ser inevitável, mesmo que as alternativas de cooperação tenham que ser procuradas até à exaustão.

11/09/13

Os dons do jardim de infância


Os dons de Froebel (tirada daqui )


O jardim de infância faz parte da nossa vida, provavelmente, mas quase por certo faz parte da vida dos nossos filhos e dos nossos netos. Vivenciamos estas situações de forma diferente quando somos os alunos, os pais ou os avós, mas igualmente nos emocionamos em cada uma destas novas situações: Como será que se vai adaptar à educadora, aos colegas, como vai brincar, alimentar-se, falar do pai e da mãe, da família ?
Vai chorar, vai chamar pela mãe, vai ser posto de parte pelos companheiros, estará interessado nas actividades, vai isolar-se ? 

Embora muita gente da minha geração não tivesse jardim de infância e não foi por isso que deixaram de ter carreiras profissionais, algumas brilhantes, é hoje entendida, genericamente, a importância que o jardim de infância tem na sociedade actual .
Digo sociedade actual porque foram as condições sociais principalmente o trabalho da mulher e a ausência da família alargada que a necessidade de respostas deste tipo se tornou imprescindível. *

Mas o jardim de infância vale por si na medida em que ele é necessário para o desenvolvimento das crianças.
É tão importante que há quem considere que "tudo o que eu devia saber na vida aprendi no jardim de infância". (título do livro de Robert Fulghum)
Obviamente que muitas coisas que precisamos saber também aprendemos com os pais e com a sociedade mas muitas das bases da nossa educação e cultura vêm do jardim de infância. É um tempo crucial para o desenvolvimento e para a formação da nossa personalidade.
Os dons do jardim de infância ou os pilares fundamentais do jardim de infância, como os dons de Froebel, o criador do primeiro jardim de infância (kindergarten), continuam a ser: o jogo, o trabalho, a disciplina e a liberdade. 
Aprende-se, principalmente, a ser autónomo, independente, a fazer a sua higiene, a falar bem, a jogar, a respeitar os colegas, a arrumar, a pedir desculpa, a pedir por favor, a dizer bom dia, a ter cuidado com o trânsito, a ser pacífico, a aprender a pensar o que os outros pensam (teoria da mente).
É um dos períodos de desenvolvimento mais engraçados da nossa vida dada a pouca preocupação com a lógica ou com a realidade e em que a criatividade e associação livre estão sempre presentes.

Se hoje em dia todos os pais compreendem que os filhos devem frequentar o jardim de infância, pelos dons que transmitem à criança, os pais têm que conversar sobre este assunto tão importante e tomar uma decisão em relação ao jardim de infância que melhores condições oferece.
Os pais devem ter confiança na instituição e na educadora. Tem que se ter confiança para lhes podermos entregar o que de melhor temos da nossa vida. É uma situação da máxima responsabilidade.

É por isso que o jardim de infância e a escola estão bem e recomendam-se. As instituições educativas são lugares agradáveis e pacíficos, no mínimo tão pacíficos como as famílias e a sociedade em que estão inseridos.
É por  isso que, como pais e avós, continuamos a confiar nos educadores e lhes entregamos todos os dias os nossos filhos e netos. Para que continuem a desenvolver-se de uma forma equilibrada e a aprender os valores da paz e da vida em sociedade.  
Nem podia ser de outra maneira. Que pais deixariam os seus filhos num lugar que não fosse agradável, de confiança e de paz ? 

08/09/13

Paraísos




Prendo-me a estas leituras, no fim de semana. Não são apenas de fim de semana. Cada vez mais os meus paraísos: os espaços sensoriais, dos afectos, os jardins dos sentidos e das emoções. Perco-me por aqui, um jardim, uma horta, uma quinta, a família.
"Visitar ou estar num jardim, seja ele público ou privado, é um deleite para os nossos sentidos. Encantamo-nos em percorrê-lo ou, simplesmente, olhá-lo; cheiramos os seus aromas; ouvimos o chilrear dos seus pássaros; apreciamos o sabor de uma fruta colhida da árvore..." (Vera Nobre da Costa)
Perco-me no jardim dos afectos. A única coisa que interessa. Bowlby, Spitz, Winnicott, Ainsworth, depois de Freud, Klein, Bion...  mudaram quase tudo. 
Para um mundo violento e de guerras inter e intrapaíses, inter e intrafamiliares não mudou quase nada. 

Pena. Porque o amor é a única guerra que vale a pena travar. Porque 
"a necessidade de amor governa as vidas humanas e encontra-se na fonte do vínculo social."  (Martine Fournier)

05/09/13

Prós e contraprós




- Odorico, eu recebi seu chamado, vim correndo - lldásio Paranhos não disfarça a sua estranheza - mas confesso que ainda não entendi...
- Coronel lldásio - Odorico põe a mão sobre o ombro do vice-prefeito para dar mais ênfase - é uma missão muitissimamente importante, que carece de uma pessoa de sua gabaritagem política. Quero que o compadre esteja em Brasília amanhã. Já marquei pelo telefone, o nosso deputado vai receber o compadre às três da tarde.
- E o que é que eu vou conversar com ele?
- Oxente, o coronel vai ter uma confabulância político-sigilista sobre nossas candidaturas, a minha a governador e a do compadre a prefeito.
- E pra isso é preciso que eu saia daqui assim às carreiras?- pergunta Ildásio, ainda confuso com a inesperada missão.
- É que o nosso deputado também vai entrar em campanha - procura explicar Odorico. - Não sendo amanhã ele só vai poder receber o compadre daqui a seis meses.
-Tá bom. Então eu vou ver se pego o avião em Salvador ainda hoje. Mais alguma recomendação?
-Faça assentamento dos prós e dos contraprós que o deputado levantar concernentemente à problemática candidatória. - Odorico passa o braço sobre os ombros largos de Ildásio, leva-o até à porta do gabinete.    - E não tenha pressa de voltar. Aproveite bem Brasília... tem lá uns motéis com quarto espelhado, cama redonda, cine privê...
- É mesmo?.. - O corpo balofo do Coronel lldásio se sacode todo numa gargalhada obscena. - Até a volta.
- Até a volta, compadre. - Odorico fecha a porta, volta-se para Dorotea Cajazeira e Dirceu Borboleta, que presenciaram toda a cena. - Pronto a primeira parte do nosso plano está cumprida. .
- O senhor acha que precisava mesmo afastá-lo de Sucupira? - Dorotéa levanta-se, questionando ainda o plano de Odorico.
- Ele é vice-prefeito, se eu renuncio, ele é empossado.
- Mas ele é também candidato a prefeito. Se tomasse posse não podia mais se candidatar.
- Lá isso é verdade - confirma Dirceu - a lei não permite reeleição.
- Sei disso, mas seguro morreu de velho e desconfiado inda tá vivo. Pode ser que ele prefira cumprir o resto do meu mandato a uma candidatura que pode ser mal sucedida. Mais vale uma pomba na mão...
- Mas o senhor não vai renunciar de verdade, não é? - Dirceu se mostra receoso... - É só um golpe...
- Golpe de mestre - afirma Dorotéa, já plenamente ganha para a jogada do prefeito.
- Temos que tomar todos os acautelatórios. - Odorico pega uma carta sobre a mesa. - Aqui está a carta de renúncia, já escrevi. Esta carta vai ficar com o senhor, seu Dirceu.
- Comigo? - Dirceu se assusta com a responsabilidade.
- É. Amanhã, sexta-feira, dia de lobisomem, depois que eu partir com destino ignorado, o senhor vai reunir a imprensa marronzista e amarelista e comunicar que eu renunciei. Pode mostrar a carta e até mesmo ler alguns trechos. Mas não entregue a ninguém.
- Isso é importante - sublinha Dorotéa - deve ser depois de encerrada a sessão da Câmara.
- Mas não convém se arriscar. Sei de um que se estrepou por causa disso... - lembra Odorico. - O melhor é dizer que não houve tempo de entregar a carta ao presidente da Câmara e que então só segunda-feira a renúncia será apreciada pelos vereadores.
- Teremos então o sábado e o domingo para levantar o povo. - Dorotéa anda pela sala, agitada, duas manchas de suor aparecendo sob as axilas.
- Marque uma concentração popular para domingo. Seu Dirceu, providencie faixas e cartazes. No dia seguinte à minha renúncia, a cidade deve amanhecer enfaixada e encartazada de ponta a ponta: QUEREMOS ODORICO, VOLTE, ODORICO, TODO O PODER A ODORICO e outras que tais.
- E na segunda-feira, quando abrir a Câmara, o que é que eu faa... faaço com esta carta? - Dirceu gagueja, a carta parece engasgá-lo.
- Aí eu já estarei de volta, nos braços do povo.
- E eu duvido que algum vereador se atreva a votar contra o crédito especial - conclui Dorotéa, sentindo que precisa ir ao banheiro passar desodorante.
 - Não terei mais adversários, nem aqui, nem alhures. Passarei como uma motoniveladora por cima de todos eles.

04/09/13

Psicologia escolar: uma política de mais e menos


Após umas férias merecidas regressámos à rotina do trabalho quotidiano. No meu caso o regresso à escola.
Na educação (e não só), vamos tendo notícias a conta-gotas e quando temos uma noticia positiva logo a seguir temos uma informação que deixa as pessoas apreensivas (1; 2):
No próximo ano lectivo haverá mais vagas para psicólogos nos agrupamentos escolares da rede pública. O Ministério da Educação autorizou no início do mês a contratação de 181 técnicos (mais cinco que em 2012-2013), mas resta saber se esse aumento significa que os psicólogos vão estar mais tempo na escola e mais tempo também com os alunos. A dúvida seria fácil de esclarecer se a Direcção-Geral dos Estabelecimentos Escolares já tivesse publicado no seu site a lista com a colocação destes profissionais, como aconteceu em anos anteriores. A informação ainda não está disponível, mas haverá pelo menos 30 agrupamentos espalhados pelo país com horários reduzidos para metade.
O i quis saber junto da tutela quantos agrupamentos no total reduziram para metade o tempo do serviço de psicologia escolar, mas não obteve respostas até ao fecho desta edição.O certo é que escolas e agrupamentos que no ano passado contrataram psicólogos com horário de 35 horas semanais se preparam agora para lançar concursos de 18 horas por semana...

No entanto, é difícil avaliar o que isto significa. Aparentemente, é um retrocesso mas não sabemos o que se passa nos vários subsistemas de intervenção social que envolvem a intervenção psicológica nas escolas. Não sabemos quantos psicólogos estão a trabalhar nesses subsistemas e desses quantos apoiam crianças com problemas escolares. (1)
Será que podemos pensar que, no limite, a administração central pode prescindir dos psicólogos na escola ?
Também podemos viver sem médicos ou sem padeiros, pelo menos até nos faltar o pão ou até precisarmos de fazer uma intervenção cirúrgica. Mas nessa coisa da mente é mais difícil ver a sua necessidade. Há mesmo quem não enxergue um palmo à frente da sua realidade psicológica quanto mais achar que se justifica um SPO numa escola. A mente vê-se pelos seus resultados e só quando são insuportáveis socialmente é que se acha que devem ser tratados.
"Imaginem que por uma hipótese absurda, se decretava que, a partir de hoje, não se considerava mais, na nossa vida quotidiana, nenhuma descoberta da medicina, nem da física, no decurso destes últimos trinta anos. A nossa existência ficaria tão modificada que se torna difícil imaginá-la. Calculem agora que havia outro decreto que suprimia, na prática escolar, as descobertas da psicologia e das ciências de educação durante o mesmo espaço de tempo: nem crianças nem professores se aperceberiam da diferença ou dificilmente se aperceberiam. (A. Clausse, referido por Jadoulle, Psicologia escolar, 1976, pag.122, orig. 1965, PUF).
Pois é. Podemos não dar por isso, mas as consequências serão dramáticas para a vida de alguns alunos.

Fazem falta ou não mais psicólogos nas escolas? Se quisermos ser rigorosos devemos conhecer a realidade mais profundamente.
Nunca houve uma rede coerente de SPO a nível nacional e foi isso que sempre fez falta: a criação de uma rede de serviços que possa dar resposta às dificuldades dos alunos.
Mas, como se fôssemos um país rico para nos podermos dar ao luxo de ter vários subsistemas concorrentes dentro do sector público ou pagos com dinheiro público, em vez disso, proliferaram as mais variadas respostas que coexistem paralelamente ou em sobreposição com os SPO, dentro das escolas, noutros sistemas, ou ainda nas instituições privadas de solidariedade social.
Assim, dentro das escolas, podemos encontrar, além dos SPO: 
- Gabinetes de apoio ao aluno e à família , no âmbito das escolas TEIP (GAAF). 
- Gabinetes com funções específicas de Informação e Orientação.
- Psicólogos contratados anualmente.
- Psicólogos contratados por associações de pais e encarregados de educação.
Noutros sistemas públicos:
- Psicólogos do sistema de saúde: Centros de desenvolvimento dos Hospitais, Centros de saúde, Serviços de psiquiatria infantil.
- Psicólogos do Sistema Nacional de Intervenção Precoce (SNIPI).
- Psicólogos de projectos, como o PIEF.
- Gabinetes de apoio das delegações do IPJ.
Em IPSS e Associações:
- Psicólogos de IPSS que desenvolvem projectos nas escolas.
- Psicólogos dos centros de recursos para a inclusão (CRI).
E, provavelmente, outras situações...
Com tantos psicólogos com possibilidade de intervenção na educação, é difícil calcular o rácio psicólogo/alunos existente.
Claro que podemos limitar-nos ao sistema educativo mas isso não seria rigoroso.

É por isso que as notícias que têm vindo a público sobre a colocação de psicólogos deveriam ser vistas tendo por base todos os contextos dos psicólogos do sector público que, directamente, nos SPO ou, indirectamente, através de outros serviços, trabalham no âmbito das competências dos SPO.