30/05/14

As relações adulto criança - perspectiva histórica da infância


Ph. Ariès defende que a criança nas primeiras idades era feliz porque tinha liberdade de se misturar com todas as classes e todos os grupos etários.
Na Idade Moderna foi inventada uma condição especial conhecida pelo nome da infância. Daí resultou um conceito tirânico da família que privou as crianças da liberdade que gozavam anteriormente: nasceram os castigos, as práticas punitivas
Baseia-se no facto de que a Arte Medieval “até cerca do sec. XII não conhecia a infância, nem tentava retratá-la, uma vez que os artistas eram incapazes de representar uma criança excepto como um homem em escala reduzida”. [1]
Para Lloyd DeMause este processo terá sido diferente:
“A história da infância é um pesadelo do qual só recentemente começámos a acordar."
Descreve 6 modos de relação pais-filhos ao longo da história (Aspecto Diacrónico).

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Estes modos eram a “norma” dessa época, isto é, aceites pela sociedade dessa época (embora essas práticas ainda existam hoje, elas são excepcionais e não aceites pela sociedade)
Baseia-se na teoria psicogenética da história, isto é, “ a força central da mudança na história não é nem a tecnologia, nem a economia, mas as mudanças na personalidade ocorrendo por causa de sucessivas gerações de relações progenitores-crianças”.

Podemos resumir a perspectiva diacrónica na tabela seguinte:
MODO
ÉPOCA
CARACTERÍSTICAS
Infanticida
Da antiguidade ao sec. IV d.C
Simbolizada pelo mito de Medeia.
“Sacrifício” que remonta a Abraão.
A prática atingia mais os filhos ilegítimos e os do sexo feminino. A lei só considerou matar crianças como um crime no ano 374
Abandonante
Prolonga-se até ao sec. XIII
Simbolizado pelo mito de Griselda que abandonou os filhos para provar o amor pelo marido
Práticas: - venda de crianças; - uso como reféns políticos; - garantia sobre dívidas e sua negociação para adopção; - envio para amas de leite
Em 1780, das 21000 crianças nascidas em Paris
17000 enviadas para o campo para serem tratadas por mas de leite
700 - tratadas por amas de leite em casa
700 criadas pelas próprias mães
Ambivalente
Prolonga-se até ao sec. XVIII
Criança encarada como cera ou argila que deve ser “formada” “moldada” de modo a não ser ameaçadora (por projecção)
Proliferam os manuais sobre educação infantil [2]
Influência do empirismo de Locke
Intrusivo
Sec. XVIII
Maior aproximação à criança, tratamento menos brutal e sobretudo passa a estar a cargo da mãe
Socializante
Sec. XIX e 1º metade do sec. XX
A criança passa a ser guiada e ensinada para que se integre na sociedade
Cooperante
2ª metade do sec. XX
A criança tem um papel activo, conhece as suas próprias necessidades ( melhor do que os pais) pelo que ambos os pais devem empatizar com ela

Aspecto Sincrónico
O adulto quando está face a face com uma criança que tem uma necessidade, pode reagir de três modos
Reacção projectiva - em que os conteúdos do inconsciente do adulto são atribuídos à criança
Reacção reversiva - a criança serve de substituto a uma figura importante na vida do adulto, o que leva geralmente a comportamento agressivo.
Reacção empática - o adulto regressa ao nível da necessidade da criança e identifica-se com ela sem lhe misturar as suas próprias projecções. Só deste modo a criança pode ser ajudada
As duas primeiras foram coexistindo ao longo do passado dando origem ao conceito de “dupla imagem” (DeMause) - a criança é vista ao mesmo tempo como má e adorável. A última seria muito recente.
Em suma, cada geração de pais, através do processo de regressão à idade psíquica dos filhos, tem uma segunda oportunidade de enfrentar melhor as suas ansiedades; daí resulta uma diminuição progressiva da distância adulto-criança e uma diminuição das reacções projectivas e regressiva, pelo que vai havendo uma tendência para a melhoria do tratamento infantil com tendência para a empatia.

Critica às teorias de Ariès e DeMause:
Em relação a Ph. Ariès, embora o conceito de infância na idade moderna seja muito diferente do da idade média, não se pode aceitar que tenha sido inventado na idade moderna.
Não se pode aceitar que os tempos modernos não tenham trazido uma melhoria da relação dos pais para com os filhos bem como dos cuidados dispensados.
Quanto a DeMause podemos referir:
1- A teoria psicogenética da história não é suficiente para explicar os acontecimentos sociais. Trata-se de uma teoria monocausal da história (semelhante à teoria económica de Marx). Hoje o pensamento moderno tende mais para teorias explicativas multifactoriais dos acontecimentos sociais.
2- Como se explica o que leva a abandonar a reacção projectiva e reversiva e se passe para a empática? Como se explica que o progresso diacrónico dos modos seja diferente de sociedade para sociedade?
3- As referências históricas provêm da literatura anglosaxónica e poucas vão além da antiguidade greco-romana.
4- A maioria dos relatos referem-se aos filhos das classes dominantes e às práticas levadas a cabo nessas classes sociais.
5- Não esclarece se as práticas chocantes eram de facto modos prevalecentes das relações pais-filhos ou se o "pesadelo" eram apenas formas desviadas de actos praticados por adultos perturbados e que por serem excepcionais ficaram registados por escrito.
Mas DeMause "tem apenas razão ao delimitar a tendência geral na História da Humanidade para uma progressiva melhoria das relações pais-filhos e para um diminuição igualmente progressiva, das práticas brutais em relação às crianças. " (pag. 32)
G. Pereira que rejeita o enquadramento teórico que defende DeMause, tenta uma interpretação em bases teóricas diferentes e reorganiza o material fornecido por DeMause.
Partindo de Skinner será possível arquitectar um mundo novo no qual o comportamento é controlado por via do reforço positivo ?
Criar uma criança não é uma tarefa fácil. É muitas vezes fonte de stress para os pais e o controlo do comportamento é feito de forma punitiva.
Depois dos pais são as instituições... que exercem essa actividade punitiva.
Será então que esta tendência tende a ser perpetuada ?
Se aceitarmos a tese de DeMause de que as relações pais filhos são menos brutais e mais humanas temos que concordar que há outros factores exteriores: sociais, culturais, económicos, científicos:
- Progressos da biologia e da medicina, na alimentação: evitar a administração de álcool, etc. para controlar as crianças.
- Factores sócio culturais: a partir da revolução cristã a criança é vista de outra maneira.
- A ignorância a par da miséria que coexiste com a superstição e submissão a práticas mágicas.
- A ascensão sócio-económica que pode trazer melhoria para a educação dos filhos mas muitas vezes não é apenas assim, como o provam a prática de amas e empregadas domésticas.
Como veremos adiante, paulatinamente, foram criadas as condições para uma intervenção mais empática entre pais e filhos: a educação para todos - escola inclusiva, os direitos da criança, a protecção a criança em risco...[3]
Historicamente, tentou-se sempre o controle punitivo dos comportamentos. Para além da punição física como controle dos comportamentos, há a punição psicológica:
Manietar; o enfaixamento; uso de trelas, espartilhos e corpetes; uso de bebidas alcoólicas; embalar freneticamente; disciplina de enrijamento; espancamento (instrumentos de espancamento: régua, ponteiro...); Outras modalidades de castigar: quarto escuro, etc.; aterrorizar a criança para que coma ou adormeça; o problema da indisciplina na escola e as práticas punitivas entre professores e alunos e alunos entre si como as praxes intolerantes dos nossos dias.
Hoje mantêm-se alguma destas práticas mas a sociedade não as tolera e são penalizadas, talvez ainda de forma insuficiente.
Foi longa a evolução nas relações família/sociedade para atingirmos uma forma de encarar a criança que de uma maneira maioritária correspondesse ao modo socializante e cooperante.
Os modos mais frequentes de relações pais-filhos foram o infanticídio, a mortalidade muito elevada, o abandono, eram de algum modo formas de controle da natalidade, sendo práticas comuns.
A obscuridade em que se viveu relativamente à criança, segundo Gomes Pedro, pode ficar a dever-se 
- à elevada mortalidade infantil que tornava absurdo qualquer investimento na criança.
- à correlação da subalternidade da mulher como a tábua rasa em relação à criança, isto é, o poder paternal acompanhado do poder do cônjuge masculino.
Na família medieval, o nascimento da criança decorre em ambiente de festa inquieta devido aos problemas que podem surgir no parto.
A criança voltava a aparecer a partir dos 6/7 anos, sendo colocada na casa de outras pessoas para aí fazerem aprendizagens de tarefas domésticas.
A criança era ainda um adulto em miniatura mas começou a ganhar relevo a representação social do mundo infantil.
Com a escolarização da criança passa a ser educada na escola [4] e não na família mas continua a manifestar-se a indiferença e o abandono juntamente com outras formas de rejeição como a recusa da mãe em aleitar. A alimentação mercenária limitava-se à clientela aristocrática e só no sec. XVIII a entrega dos filhos a amas se alarga a todas as camadas da sociedade urbana.
A partir do sec. XVIII começa a aparecer a convicção de que os cuidados e ternura da mãe eram factores insubstituíveis para a sobrevivência e conforto do bebé:
- passa a ser a mulher a amamentar o seu filho.
- desaparece o modo tradicional de enfaixar o bebé [5] o que permite à mãe brincar agarrar tocar o bebé que por sua vez reage as carícias da mãe.
- higiene cuidada, fraldas, banho passa a ser exigência da nova mãe.
- bom regime alimentar.
- preferência pelo externato.

__________________________________
[1] Pereira, O. G. e Jesuíno, J. C. - Desenvolvimento psicológico da criança, Moraes Editores, pag. 24
[2] Em Portugal, a obra de Martinho de Mendonça: A educação de um menino nobre.
[3] Também aqui incluímos a luta pela educação, no sentido referido por Milton Schwebel, Educação para quem?, Editora Cultrix, São Paulo. 
[4] Em 1772, o Marquês de Pombal cria, em Portugal, a instrução primária.
[5] Na corte francesa as crianças amarradas deste modo serviam de "bola" nos jogos entre damas. Um irmão de Henrique IV terá morrido vítima de um "acidente deste tipo, referido por Gouveia Pereira.

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