08/07/09

Uma pessoa é o sol, o mar, o pai e a mãe

1. Pedi a uma criança para fazer um desenho de uma pessoa. Perguntei-lhe o que tinha desenhado; respondeu que era “o sol, o mar, o pai e a mãe”.
Percebi, desta forma, o que era uma pessoa e o que era mais importante para a criança.
No princípio, era a água e o fogo. O mar e o sol. O líquido indispensável à vida. O fogo, a experiência fascinante que se perde no tempo e que ainda hoje continua a ser uma experiência infantil.
Importante é procurarmos na água o nascimento de um ser que parte para a grande caminhada da vida levando sempre as memórias da infância. Como Eugénio de Andrade em CANÇÃO INFANTIL:

Era um amieiro.
Depois uma azenha.
E junto um ribeiro.

Tudo tão parado.
Que devia fazer?
Meti tudo no bolso
para os não perder

E também procurar no fogo aquilo que quebra o gelo. O fogo do diálogo. Que começa por ser o diálogo corporal e que se prolonga no diálogo musical.
Mozart, Brahms, Tchaikovsky, tão próximos de uma canção de embalar, que é a mais bonita canção de amor entre dois seres: mãe -filho.
A música está no corpo do bebé que é o seu primeiro instrumento; está nos primeiros esforços que faz para galrear e balbuciar. Ela é ritmo antes de ser melodia. E como se sabe, para um bebé a primeira melodia é a voz da mãe, voz doce que se confunde com a voz mais dura do pai ... e ambos cantando-lhe o seu amor.
A criança não precisa de compreender as palavras para se sentir calma e feliz.
Antes da invenção dos instrumentos, os efeitos do canto vocal foram explorados pelo homem para fins precisos: o acalmar das crianças agitadas é o mais espalhado pelo mundo.
A canção de embalar acompanha a voz com movimentos da cabeça ou das mãos … estímulos visuais, que sincronizados com o canto, contribuem para a indução da calma, e são ainda reforçados pelo balanço do berço, que assim aumenta o efeito hipnótico do canto dirigindo-se ao sistema somestésico da criança.
2. Depois uma pessoa é o pai e a mãe, a família. A autoridade dos pais como modelo e como responsabilidade.
A autoridade dos pais baseia-se na vida e no trabalho dos pais, a sua personalidade de cidadãos, o seu comportamento.
O trabalho paterno deve consistir em saber como vive, de que se interessa, do que gosta e o que quer o seu filho. Quais são os seus amigos, com quem joga, o que lê e como assimila o que lê. Qual a sua atitude face à escola, aos professores, quais são as suas dificuldades, como é o seu comportamento nas aulas.
A ajuda dos pais não deve ser inoportuna, enjoativa e fastidiosa mas deve ser responsável. É necessário que a criança às vezes resolva os seus problemas sozinha e que se habitue a ultrapassar dificuldades e resolver questões complicadas.
As férias de Verão podem ser um tempo para esta experiência educativa pois têm todos estes ingredientes : o mar, o sol, o pai e a mãe.

04/07/09

Professores salvadores


Foi publicado, em Abril de 2009, o livro de Daniel Pennac “Mágoas da escola”[1]
É um livro que relata a história de um mau aluno mas que acaba por se tornar professor.
É um livro que recomendo, se me permitem, a todos os pais e professores e que não sendo um tratado de pedagogia é sobre o essencial da pedagogia.
“Mágoas da escola” fala dos maus alunos, aqueles alunos em que ninguém acredita, que não vão ser nada nem ninguém na vida. São os alunos sem futuro.
Não é um livro sobre a escola como refere o autor, mas um livro”sobre cábulas, sobre a dor de não aprender”.(pag 22)
Revejo todos os anos que tenho dedicado ao trabalho com muitas destas crianças.
Revejo o sonho deste cábula:
“Tenho um sonho….
Estou sentado de pijama, na berma da minha cama. Grandes algarismos de plástico, como aqueles com que brincam as crianças muito pequenas, estão espalhados pelo tapete, à minha frente. Tenho de “ordenar aquele algarismos”.
É o enunciado. A operação parece-me fácil, estou feliz. Debruço-me e estendo os braços para os algarismos. Apercebo-me de que as minhas mãos desapareceram. Não há mãos dentro do pijama. As minhas mangas estão vazias. Não é o desaparecimento das mãos que me aterroriza, é não poder alcançar os algarismos para os ordenar. O que seria capaz de fazer.”
Já falámos do final do ano lectivo e dos problemas que vêm com a avaliação.
Os interventores da escola continuam a não compreender esta coisa tão simples que é haver alunos que não são capazes de adequar o seu trabalho às necessidades do currículo.
Os tratados de pedagogia esquecem-se muitas vezes apenas deste pormenor.
E depois, concordo, temos a atribuição da constituição de bandos aos fenómenos dos subúrbios, às questões económicas, às questões sociais, ao desemprego, aos excluídos, à economia paralela e aos tráficos de toda a ordem…
Mas esquecemo-nos da única coisa sobre a qual podemos agir: “a solidão e a vergonha do aluno que não compreende, perdido num mundo em que todos os outros compreendem”.
Mas é preciso mudar também as expectativas dos pais, que confrontados com o filho que tem dificuldades, às vezes, são os primeiros a discriminá-lo.
Pennac fala dos professores salvadores e dos professores que dão estes alunos como casos perdidos.
“Os professores que me salvaram - e que fizeram de mim um professor - não tinham recebido nenhuma formação para esse fim. Não se preocuparam com as origens da minha incapacidade escolar. Não perderam tempo a procurar as causas nem tampouco a ralhar comigo. Eram adultos confrontados com adolescentes em perigo Pensaram que era urgente. Mergulharam de cabeça. Não me apanharam. Mergulharam de novo, dia após dia, mais e mais…acabaram por me pescar. E muitos outros como eu repescaram-nos literalmente. Devemos-lhes a vida” ( pag. 36).
_______________________________
[1] Pennac, Daniel (2009), Mágoas da escola, Porto: Porto Editora

17/06/09

Arqueologia ideológica



“Em que direcção se põe o sol ? “
Uma criança pouco informada ou com dificuldades de desenvolvimento poderá responder – põe-se do lado direito. Outro aluno com as mesmas características poderá responder – põe-se do lado esquerdo.
Facilmente podemos perceber que ambas as respostas podem estar certas e ambas as respostas podem estar erradas. Em termos de avaliação final terão que estar ambas erradas.
Então o que se passa ?
A criança não é capaz de raciocinar em termos de orientação, isto é, a criança não dispõe de estruturas cognitivas que lhe permitem compreender que a sua posição é relativa. Isto é, o sol pode pôr-se de qualquer lado: da esquerda ou da direita dependendo do local em que se encontra.
Então a resposta não pode ser essa.
Na nossa vida passamos o tempo a falar de esquerda e de direita.
As duas posições políticas tal como as posições geográficas podem estar certas e as duas podem estar erradas. Depende do ponto de vista.
Para me orientar preciso da bússola ou de sinais que me dêem a certeza do lugar onde estou. Mas é também necessário ter estruturas cognitivas que permitam compreender os pontos cardeais.
Esta é a falácia da política: esquerda é positivo, pensar bem, social, democrática, tudo o que faz é bem feito, tudo o que faz é para bem e em nome do povo.
Um golpe de estado de esquerda? Bem… enfim… é em nome do povo… quer dizer….
Uma ideia interessante da campanha eleitoral de 2002, para além da ideia do cherne, foi Durão Barroso vir falar de arqueologia ideológica a propósito destes conceitos.
Se tinha dúvidas praticamente desvaneceram-se após o 11 de Setembro e por tudo o que se passou desde então.
Poderá existir um “arquipélago de sangue”, de Noam Chomsky, mas isso não impede que o “arquipélago de Gulag” tenha sido menos violento.
A arqueologia ideológica continua aí. Durão Barroso tinha razão.
E alguns especialistas em esburacar ainda mais a sociedade, sem nada de novo apresentarem, de forma criativa, que possa tornar o preço do pão menos caro e as pessoas um pouco mais felizes, insistem em ficar calados perante os desvarios dos amigos ditos de esquerda ou de direita.
Os direitos humanos não são de esquerda nem de direita, ou seja, dos partidos que estão à esquerda ou estão à direita. As questões civilizacionais não são dos que se sentam à esquerda ou à direita…
Como nas questões geográficas das crianças, temos que ter outro referencial que não sejam os clichés estafados de bom e de mau pelo facto de se sentarem à esquerda ou à direita. Em última análise são apenas isso: sentam-se à esquerda ou à direita.
Mas o referencial deverá ser que estão certos ou errados conforme defendam ou não os direitos humanos, conforme defendam ou não princípios axiológicos e civilizacionais.
Se o sol quando nasce é para todos bem podem tapá-lo com uma peneira que não é por isso que os que se sentam à esquerda são mais iluminados do que os que se sentam à direita. A não ser que tenham os pontos cardeais da liberdade, da democracia, da justiça e da paz.

11/06/09

Orientação escolar e profissional


Um dos problemas que se coloca a muitos alunos nessa fase do ano lectivo diz respeito ao que irão fazer no próximo ano lectivo.
Para os que estão a terminar o 9º ano. Com o final da escolaridade básica coloca-se uma questão fundamental: Continuar a estudar ou ingressar no mundo do trabalho.
Para a maioria dos alunos a escolha preferida será a continuação dos estudos. Mas estudar o quê e onde ?
Como se sabe hoje temos várias escolas que podem certificar os alunos a nível do ensino secundário: As escolas do ensino secundário, as escolas profissionais, as escolas do ensino artístico, os centros de formação, os centros de formação do sector de actividade…
As escolas do ensino secundário têm também outro tipo de respostas que não apenas as dos cursos científico-humanísticos e tecnológicos.
Estes caminhos são muitas vezes esquecidos pelos alunos e pais, quando permitem ou querem que os filhos ingressem imediatamente na vida activa sem antes terem acesso à formação profissional.
Isto tem implicações na qualificação profissional dos trabalhadores e engrossa o contingente da mão-de-obra pouco qualificada.
Há, no entanto, alunos que não completam o 9º ano.
Para eles coloca-se também o problema da orientação quando devido a sua idade, ao seu comportamento ou às suas dificuldades de aprendizagem já não estão bem na escola e a escola já nada lhes diz e passam do desinteresse ao absentismo e muitas vezes ao abandono.
O insucesso repetido é assim muitas vezes a base da desmotivação que leva ao cominho mais fácil: o abandono.
Há alunos que deixam de ir à escola no dia em que completam os 15 anos. Nem sequer deixam terminar o ano lectivo que é o correcto para cumprir a legislação em vigor, prejudicando-se muitas vezes a si próprios, porque se foi viver com a namorada, porque se engravidou, por muitas razões, certamente compreensíveis mas pouco racionais.
No meio de tudo isto florescem orientações pouco científicas e pouco pedagógicas.
As crianças e adolescentes com problemas escolares deviam ter diagnósticos correctos mas para elas muitas vezes começa aí outro calvário.
São enviadas ao médico para serem vistas pela falta de memória ou de atenção, outras vezes vão aos xamanes da região, ou são caracterizadas com diagnósticos mais modernos como hiperactividade ou são consideradas espíritos especiais e caracterizadas como indigo ou cristal.
O que é preciso é encontrar uma justificação…
É por isso que há necessidade de equipas multidisciplinares que possam compreender e orientar estas situações. Estas equipas devem colaborar estreitamente com a escola e, principalmente, com a estrutura de decisão que é o conselho escolar ou o conselho de turma. É necessário, no entanto, dar mais competências organizacionais a umas e a outro.
Os recursos que temos são escassos mas é possível serem mais bem rentabilizados. Assim como a coordenação das respostas, a articulação dos serviços e dos apoios educativos e sociais.

04/06/09

CIF - Dificuldades de aplicação

1. Os critérios para a integração ou exclusão das NEE de alunos com deficiência mental e dificuldades de aprendizagem têm dado origem a dificuldades na elegibilidade dos alunos com NEE.
Estas dificuldades vêm provar a existência de vários problemas de aplicação da CIF. Tenho visto grandes discrepâncias no entendimento relativo à aplicação da CIF. Há de tudo, desde quem não tenha em conta as exclusões, dando origem a listagens intermináveis de capítulos, esquecendo o “core” a estabelecer para um perfil de funcionalidade, como refere Simeonson, até às interpretações mais ou menos “a olho” no que se refere principalmente ao primeiro qualificador…
Relativamente às funções do corpo – funções intelectuais, são evidentes várias interpretações relativamente ao primeiro qualificador. Veja-se, por exemplo, aqui, uma dessas interpretações, da qual discordo.
2. Tentando estabelecer algum consenso sobre este assunto, em meu entender, devem ser considerados os critérios psicométricos que definem a deficiência mental [1] de acordo com a Classificação da Deficiência Mental da OMS, DSM IV [2] e WISC – III [3] , referidos no Quadro seguinte:


Para um aluno ser considerado portador de NEE de tipo cognitivo (deficiência mental) a classificação deverá ser: Deficiência mental (ligeira, moderada, grave e profunda) – muito inferior [4].
Em meu entender é suficiente que este score seja apenas numa das escalas da WISC – III (Escala verbal, Escala de realização ou Escala completa).
No entanto, a tomada a decisão do Conselho de Turma deve ainda ter em conta critérios de tipo adaptativo, educativo e de personalidade.
Os alunos considerados com deficiência mental são abrangido pelo DL 3/2008 pelas medidas educativas previstas nas alíneas b) ou e), que se excluem mutuamente, e podem ser acumuladas com outras medidas quando necessário.
3. Os alunos que não se enquadrem nestes critérios (deficiência mental) e o nível cognitivo se situe a nível médio inferior e inferior (QI entre 80 e 90; 70 e 80), devem ser considerados no âmbito das dificuldades de aprendizagem, tendo em conta as situações seguintes:
No primeiro caso, se as dificuldades de aprendizagem forem consideradas graves (alexias, dislexias), o aluno deverá ser considerado nas NEE no domínio comunicação, linguagem e fala.
As medidas educativas a aplicar são, principalmente, as abrangidas pela alínea a), devendo ser ponderado se o aluno deve ser também apoiado por professor de EE (alínea d) do nº 2 do artº 17).
Considero dificuldades de aprendizagem graves, nos alunos do 1º ciclo, quando se verificar um atraso de dois anos na aprendizagem da leitura e escrita, isto é, quando o aluno não tiver adquirido, de forma consistente, o 1º e 2º nível da leitura e escrita, devendo ser considerado como elegível para o apoio da educação especial.
Quanto aos outros casos, quando se verificar que, na avaliação de prova de despiste da dislexia específica, o aluno ultrapassar 75% de erros[5] , deve também ser considerado elegível para a Educação Especial no domínio da comunicação, linguagem e fala.
No segundo caso, envolvendo perturbações disruptivas do comportamento e de défice de atenção (perturbação de hiperactividade com défice de atenção, perturbação de comportamento e perturbação de oposição), devidamente avaliadas por instrumento adequado e que se enquadrem nos critérios estabelecidos no DSM IV, deverão também ser considerados no domínio emocional/personalidade e elegíveis para a Educação Especial.
Além disso, o aluno deverá manifestar, cumulativamente, dificuldades de aprendizagem, ainda que não apresentem a gravidade descrita na primeira situação.

[1] No caso de se tratar de crianças até aos 6 anos de idade, deverá ser avaliado o seu desenvolvimento através de instrumentos adequados, como por exemplo: WPPSI - R ou Escala de Desenvolvimento de Griffiths, tendo em conta quer o respectivo QI ou QD.
[2] American Psychiatric Association - DSM IV – Climepsi Editores, 1996
[3] Wechsler, D. - WISC III – Escala de Inteligência de Wechsler para crianças III – Manual – CEGOC, 2003
[4] A classificação de Lou Brown: com QI inferior a 51 era, em 1987, deficiência intelectual severa (severe intelectual disabilities), e em 1995, deficiência intelectual acentuada (significant disabilities). Estes alunos devem ser objecto de um currículo funcional.

[5] Prova de avaliação da dislexia específica, por exemplo, PEDE, de Condemarin e Blomquist



29/05/09

A verdade da mentira

    
Grande parte da nossa vida anda à volta desta questão: a verdade da mentira.
Saber quem nos engana e quem nos quer enganar é hoje quase uma tarefa de sobrevivência.
A mentira faz parte do desenvolvimento da criança, a mentira infantil ou seja a mentira depende do desenvolvimento da criança.
Assim sendo, podem as crianças dizer a verdade, podem ser testemunhas num processo judicial ?
Colocar esta dúvida é, em si, já algum progresso porque nem sempre foi assim, isto é, a questão nem sequer se punha.
Houve tempos em que pura e simplesmente o testemunho da criança não tinha qualquer valor.
Hoje sabemos que os adultos não mentem menos do que as crianças. Com uma diferença: é que a mentira dos adultos costuma ser mais perigosa.
Na escala de inteligência WISC, uma das perguntas de avaliação da compreensão da criança e dos adolescentes é a seguinte: porque se deve manter uma promessa feita? Normalmente, só os alunos mais velhos são capazes de responder.
Mas é difícil saber porque devemos cumprir uma promessa feita.
Honrar a palavra é uma das respostas possíveis.
Mas é exactamente aqui que nós temos sido enganados.
Estamos em campanha eleitoral e nestas como em outras campanhas anteriores temos então pessoas importantes que são aquelas pessoas que nos pedem para votarmos nelas que nos prometem muitas coisas. Basicamente, que tudo vai ser melhor.
Porque se deve então manter uma promessa feita ?
Outra questão é: porque é que há deputados na assembleia da república ?
Poucos alunos respondem a este item da compreensão; não fazem a menor ideia do que é isso.
A formação cívica fica assim cada vez mais no plano teórico. Por outro lado, a modelagem que se faz só pode ser negativa.
Em geral, os deputados, os políticos que nos governam são modelos errados.
É por isso que a credibilidade das instituições políticas anda pelas ruas da amargura.
Mudam de partido conforme as probabilidades de ser eleito e o que é mais interessante, ou melhor, preocupante, é que é sempre melhor aquele partido onde actualmente se encontram. Os partidos para essas pessoas são instrumentais e os fins, que é manterem-se no poder, justificam os meios.
A ideia de que só não mudam os burros é verdadeira mas também se requer alguma coerência. Não se pode defender, hoje, a estatização e, amanhã, defender a concorrência e o mercado, e isto tudo com a maior das canduras.
Será também por isso que as crianças não aprendem por que é que se deve manter uma promessa.
Eu próprio também não sei o que posso dizer. Talvez esteja como as crianças. Fico-me pelo fazer como Frei Tomás, faz o que ele diz mas não faças o que ele faz ou talvez seja melhor ficar calado e não ter resposta para as perguntas: porque devemos manter uma promessa feita ou porque temos deputados na assembleia da república.
A verdade da mentira é hoje tarefa de reflexão dos cidadãos: a reprise está novamente em movimento e, sendo assim, só acredita na mentira quem gosta de ser enganado.
     

26/05/09

Preparar a reforma

Uma das consequências da gestão de recursos humanos da actual politica e em particular do Ministério da Educação foi ter atirado para a reforma muitos professores que ainda estavam capazes de poderem dar o seu contributo na educação da juventude deste país.
Um dos cartazes da manifestação dos 100 mil que vieram para a rua gritar que mais me chocou foi aquele que dizia: “não nos tratem como lixo”.
Precisamos de trabalhar com competência, de dormir, de não termos insónia, de não entrarmos em depressão, de sermos felizes, de termos bom humor, em casa, junto dos filhos e de irmos para a reforma descansados. Precisamos, se possível, que nos deixem morrer em paz.
Entretanto, muitos estão a abandonar ou estão, decididamente, a procurar a reforma de uma forma abrupta e uma mudança de vida de forma radical.
Mas será que esta mudança está a ser feita da melhor maneira?
Não deveria haver alguma forma de preparação para a reforma de modo a não mudar de uma forma radical de uma situação para outra?
Não será angelical, nestes tempos difíceis, sugerir esta coisa sofisticada de preparação para a reforma?
Quando nos reformamos não é a vida que se acaba mas, dizem, o início de uma nova vida, às vezes para melhor outras vezes para pior...
A preparação para a reforma deverá ter em conta que se deve pensar nesta mudança e na adaptação das pessoas a esta nova fase da vida. Assim, será possível, com tempo, encontrar novos caminhos, estudar alternativas e sonhar com essa nova vida.
A preparação para a reforma incide muitas vezes apenas no aspecto financeiro e preparar a reforma tem a ver com segurança financeira, económica e com seguros de saúde…
Mesmo a este nível, segundo um estudo da Fidelity Internacional, os portugueses e os franceses são os europeus mais atrasados na preparação da reforma. De acordo com os dados divulgados nesta análise, dos 57% portugueses inquiridos que ainda não começou a preparar a reforma, 31% conta ainda fazê-lo, enquanto 26% não pensa começar a tratar disso.[1]
Mas os aspectos psicológicos e sociais e, de uma maneira geral, os aspectos do desenvolvimento devem igualmente ser relevantes.
Como sabemos há aprendizagem e desenvolvimento ao longo de toda a vida.
Erikson definiu estádios de desenvolvimento para toda a vida. Assim, a partir dos 30 anos de idade, é uma fase de afirmação pessoal no mundo do trabalho e da família. A vertente negativa leva o indivíduo à estagnação nos compromissos sociais, à falta de relações exteriores, à centralização em si próprio.
A partir dos sessenta anos é o estádio da integração e compreensão do passado vivido. È preciso saber como não cair no desespero.
O preconceito em relação à velhice deve ser desconstruído. Para isso, a actividade, a utilização das nossas capacidades devem ser postas ao serviço da luta contra a exclusão, o afastamento a solidão…
Para quem passou toda a sua vida profissional a integrar os jovens não seria descabido que os jovens, principalmente aqueles que nos governam, não excluíssem os seus maiores da vida activa cedo de mais e sem qualquer preparação.

[1] Contudo, mais de um terço dos portugueses (36%) já começou a preparar a reforma, valor que representa uma subida de 11 pontos percentuais face a 2006.
O mesmo estudo revela que 42% da população afirma estar informado sobre a preparação da reforma, quando em 2006 o valor era apenas de 36%.
O estudo sobre a preparação para a reforma foi realizado para a Fidelity pela consultora TNS na Suíça, Holanda, Alemanha, Áustria, Suécia, França, Itália e Portugal, entre Novembro e Dezembro de 2007, e foram entrevistadas 4104 pessoas entre a população activa com mais de 18 anos.

24/05/09

Talentos e cifrões

Numa das crónicas recentes falámos da necessidade de responsabilização de todos os que estão na educação, a propósito de um abaixo assinado em que se pediam penalizações para as famílias dos alunos com comportamentos problemáticos.
Com a mesma força com que condenámos os alunos e as famílias dos alunos que usam a violência contra outros alunos e professores temos de o fazer com os professores e outros profissionais que também eles podem ter comportamentos desajustados.
Um professor não tem que ser uma pessoa virtuosa mas há-os que realmente são tudo o que não queremos para educar os nossos filhos. E no estado actual da nossa cultura democrática e educativa, não podemos pensar que tudo funciona bem, mas há alguns padrões de comportamento, atitudes, métodos pedagógicos e níveis de desenvolvimento moral que devem ser exigidos.
O caso da professora de história que dá “lições” de sexualidade numa escola de Espinho, é a prova de que a formação académica não ensina o essencial para educar crianças e adolescentes.
Situações deste tipo alertam para que não basta legislar para que haja educação sexual e formação cívica na escola.
Os interventores na escola designadamente os pais e encarregados de educação têm que andar atentos ao que se passa na escola.
A escola estatal ou privada tem que estar sob o escrutínio democrático dos pais e dos outros interventores da comunidade que, aliás, estão representados no conselho geral e em outros órgãos de gestão da escola.
É necessário preocuparmo-nos com a qualidade do ensino com o sucesso e a qualidade do sucesso.
À conta de querermos levar o ensino a todos os alunos não podemos esquecer que cada um deve ser capaz de desenvolver as suas capacidades.
Na bênção das pastas dos finalistas que estiveram no Campo Grande em Lisboa, foi lida a parábola dos talentos. Parece-me que esta parábola faz sentido para cristãos e não cristãos.
Para que servirá termos capacidades se elas ficam por desenvolver. Atirar capacidades para o lixo é aquilo que estamos a fazer com alguns alunos. Porque o sistema é facilitista (não sei se posso dizer…), porque o sistema relevando medidas mais vistosas continua a não se preocupar com os problemas centrais da educação.
Basta de encenações com alunos verdadeiros ou falsos, basta de se servirem da escola para a propaganda partidária, basta de resultados estatísticos para inglês ver...
Podemos encontrar homens como procurava o cínico Diógenes que não sejam subservientes ao poder seja ele qual for ?
Confunde-se delação com não suportar imposições ou pressões ilegítimas vindas do poder, confunde-se recusa de obediência ao chefe com falta de carácter.
Por isso Diógenes não encontrava um homem.
E milhares de anos depois, a luz clara da justiça e da dignidade continua a ter dificuldade em romper o nevoeiro. Onde estão os homens no caso casa pia, no caso freeport, no caso conegil, no caso apito dourado, no caso bpn, no caso bpp, etc?
Porém, tudo isto é efémero e o que vai ficar é o que formos capazes de construir, cada um ao nível dos talentos que desenvolveu, porque é tão importante o trabalho do homem que limpa a minha rua como a do médico que me assiste no hospital desde que o faça com dignidade, com mais talento e com menos cifrões.

14/05/09

O cyberbullying e os adolescentes

               
É uma evidência que os adolescentes utilizam as novas tecnologias da informação, principalmente o telemóvel.
Mas será que os adolescentes também utilizam as novas tecnologias para praticar cyberbullying ?
O cyberbullying consiste, entre outros aspectos, em utilizar o e-mail e o telemóvel para enviar mensagens ofensivas e intimidar os colegas.
Os pais passaram a ter mais uma preocupação com os filhos embora muitas vezes não tenham consciência disso, porque também nestes casos e nesta idade os pais não são as pessoas mais requisitadas para os adolescentes contarem os seus problemas…
Num estudo recente [1] com alunos do básico e secundário com vista a determinar se utilizam o telemóvel e o e-mail para intimidar e em que medida o fazem, foi posto em evidência que os alunos do básico e secundário utilizam as tecnologias da informação (telemóvel, e-mail, etc.) para praticar cyberbullying.
Esta prática ocorre, mais frequentemente, no sexo feminino: 45% admite já ter enviado mensagens ofensivas; enquanto que, para o sexo masculino, é de 35%, ao contrário do bullying que é, mais frequente, no sexo masculino.
Os sentimentos envolvidos na prática de cyberbullying são a raiva, sendo mais relevante, no sexo feminino, 38% refere sentir raiva no envio de mensagens ofensivas, enquanto que para o sexo masculino, é de 16%.
O desprezo, a alegria e a tristeza são também sentimentos, muito presentes, na prática de cyberbullying.
O telemóvel é o meio mais utilizado (variando entre 74% e 85%) para praticar cyberbullying.
O envio de mensagens é feito, quase sempre, individualmente, com percentagens, em média, a rondar os 70%.
As raparigas são as principais vítimas do cyberbullying, apenas 33% referiu que nunca recebeu qualquer mensagem ofensiva.
A raiva e a indiferença são os sentimentos dominantes em quem é vítima de cyberbullying.
Os amigos são os melhores confidentes para quem sofre de cyberbullying independentemente do género ou nível de escolaridade mas é o sexo masculino que mais confia nos amigos (87%); apenas 4% admite informar os Pais/Encarregados de Educação, enquanto que para o sexo feminino 29% admite contar aos Pais/Encarregados de Educação.
Pode-se concluir, assim, que a maioria das vítimas de cyberbullying não informa nem procura os adultos (Li, 2005); os pais, raramente, tomam conhecimento e os professores nunca são informados.
Os problemas de cyberbullying têm aumentado, drasticamente, nos últimos tempos, sem dúvida, devido à massificação das novas tecnologias.
Não devemos nem podemos ficar indiferentes à forma como as novas tecnologias são utilizadas, uma vez que a sua utilização indevida tem consequências negativas para o desenvolvimento social dos adolescentes e perturba o clima relacional na escola, na turma e nos grupos sociais em que estão inseridos.

[1] Beirão, Maria do Céu & Martins, Maria José D. - Cyberbullying e emoções na adolescência - Escola Secundária Mouzinho da Silveira & Escola Superior de Educação de Portalegre.
                            

Escola sem tempo inteiro

Por vezes a escola concretiza actividades que levam a sair da escola como acontece numa actividade do tipo jogo de pista, foto paper, etc. Pode ser uma manhã sem aulas mas uma manhã onde se fazem importantes aprendizagens. Uma actividade extracurricular que envolve para além dos alunos, a comunidade escolar, e se desenrola no espaço urbano.
Um contacto directo com a história e com a cultura da cidade é talvez mais importante do que ter ficado na escola. Fazem-se aprendizagens e revelam-se défices dos alunos do ponto de vista da interacção social e cultural.
Claro que estas actividades levantam muitos problemas pedagógicos e de organização.
Carl Honoré, escreveu um livro que ainda não tem tradução em português mas que podemos traduzir por “Sob pressão” [1]. Refere que durante gerações, crescer foi uma tarefa fácil: íamos à escola umas horas por dia, praticávamos desporto e tínhamos alguma ligação a um clube ou a uma instituição cultural ou religiosa, e o resto do tempo brincávamos ou sonhávamos acordados.
Não sou tão pessimista como Carl Honoré que diz que o nosso enfoque moderno da infância é um fracasso: os nossos filhos estão mais obesos, míopes, mais deprimidos e mais medicados do que qualquer geração anterior.
Mas é fácil concordar que " temos que desligar todos os aparelhos e dizer às criança que saiam para brincar”.
De facto as nossas associações desportivas e culturais deviam estar cheias de crianças e jovens a participarem em actividades próprias para a sua idade.
Não só para virem a ser grandes campeões, participantes nos jogos olímpicos e nem sequer para os desviarem dos caminhos errados …mas para terem um vida saudável e positiva e aprenderem a cultura do seu e dos outros povos.
“Sob pressão”, tem a ver com a cultura que criámos, uma cultura do perfeccionismo. Esperamos que tudo seja perfeito: os nossos clientes, os nossos corpos, as nossas férias, a nossa lua de mel, os nossos filhos…
Hoje estamos acelerando o desenvolvimento das nossas crianças: academicamente, expondo-as aos meios de comunicação adultos; vendo-as como consumidores; carregando-as com rotinas desnecessárias.
Mas, por outro lado, estamos a infantilizá-las superprotegendo-as e nunca lhes dizendo 'não'.
Para Honoré, a multitarefa é um mito. As crianças de hoje contam com uma grande quantidade de conhecimentos tecnológicos úteis mas não é verdade que o cérebro humano esteja preparado para esta multiplicidade de tarefas, numa sequência de diferentes actividades durante o dia.
A alternância das tarefas redunda num uso muito ineficiente do tempo e da energia do cérebro.
Ser mãe ou pai é uma viagem; é o descobrimento, por tentativa e erro, do tipo de pais que somos ou queremos ser. Não se trata de começar com uma ideia fixa do pai perfeito e fazer tudo o que esteja à altura desse ideal. Temos que ter tempo, espaço e liberdade para explorar o mundo com as crianças.
As duas tarefas mais difíceis da educação são saber ligar-se quando os filhos são pequenos e depois saber desligar-se quando precisam de trilhar os caminhos da autonomia.
Ao contrário do que alguns possam pensar nunca como hoje foi tão difícil ser criança, tão difícil educar uma criança e o melhor caminho educativo não é mantê-las sob pressão.

[1] Entrevista de Horacio Bilbao, de Clarin.com a Carl Honoré.