07/03/12

"The finite pie"



O que está então em causa na situação portuguesa?
É meu hábito dizer que não pode haver desenvolvimento sem uma matriz cultural que dê forma e sentido a todas as etapas. Mas hoje vou um pouco mais longe. O desenvolvimento, tal como foi vivido pelos portugueses neste dez anos, é basicamente um problema cultural.
Primeiro, porque não é só o colapso económico que está em causa num país como Portugal. Se há um colapso óbvio, é o colapso da economia enquanto ciência e daqueles que a exprimem. É tempo que isto seja dito num contexto cultural. Notáveis economistas o têm dito em diversos termos: Kenneth Boulding, Gunnar Myrdal, Barbara Ward, Rostow, Hazel Henderson. É de um livro desta última economista americana, num artigo intitulado The finite pie, que posso citar a seguinte frase: «As anomalias a que os economistas não são capazes de fazer face estão agora dolorosamente visíveis, quer na inflação global, quer na poluição, quer nos efeitos laterais não desejados do desenvolvimento económico, tais como a disfunção social, a urbanização desastrosa, os elevados custos da infra-estrutura, o desemprego e a má distribuição do rendimento e da riqueza».
Com efeito, a economia mostrou já em todo o mundo que, tal como existe, não consegue fazer face aos nossos problemas internos nem, tão pouco, às associações regionais e à gestão global dos recursos mundiais.
Se, durante a última hora, 1.800 crianças morreram de fome e de má nutrição no mundo, isto não pode ser olhado como um caso moral e resolvido por apelos à generosidade, mesmo que esta seja extremamente positiva e importante do ponto de vista pessoal.
Trata-se, isso sim, de mostrar que, num tempo planetário, a economia que conhecemos não nos dá os instrumentos necessários para poder assegurar a gestão dos recursos naturais e a sua justa distribuição. O caso é, sim, na sua raíz, um caso cultural.
Pintasilgo, M. L. (1985), Dimensões da Mudança, Porto: Edições Afrontamento, pag. 224.

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