14/02/13

A revolução da bondade


O ano passado, 2012, no Distrito Judicial de Lisboa, registaram-se 245 processos de violência nas comunidades escolares, mais 86 que em 2011, um aumento de 54%. * 
Estes dados referem-se apenas a ocorrências registadas oficialmente, não sabemos quantas ocorrências houve na realidade. 
Para além deste aumento, temos podido constatar que algumas destas violências tem características de grande intensidade para toda a comunidade escolar e de algum modo toca-nos de perto porque praticamente todos temos algum familiar a frequentar a escola. 
A indisciplina nasce fora da escola, na sociedade, mas também se exerce com os pares e é inevitável dado que a indisciplina é inerente à situação escolar. 
Mas há situações que ultrapassam fortemente os limites das regras da escola. 
É importante que se façam estudos sobre o que está afectar esta situação. Mas independentemente de ficarmos a debater se a violência tem a ver com as circunstâncias sociais ou com a genética, o que é facto é que há alunos que postos nas mesmas circunstâncias, desenvolvem comportamentos violentos e outros não. 
O que tem vindo a surpreender é que estas violências dentro da escola vem de todo o tipo de alunos: com ou sem problemas de aprendizagem, de qualquer estatuto sócio-económico. 
Além disso são conflitos em que se cria um ciclo de vingança e de ausência de perdão. 
É chocante ouvirmos alunos que se querem vingar do colega porque lhe chamou um nome, porque o empurrou, que goza com ele ou que chamou nomes à mãe.
E não entendem facilmente porque podem e devem ter outros comportamentos mais ajustados e mais equilibrados, em vez de reagirem apenas através das emoções negativas como a raiva e a vingança. 
De facto não é fácil perdoar e às vezes parece mesmo injusto. Temos memória desagradável da situação pelo que a bondade e o perdão não são fáceis de pôr em prática. 
Podemos até achar-nos cúmplices do agressor enquanto que com as vitimas ninguém se importa. 
A psicologia positiva pode ajudar-nos a entender e tratar alguns destes problemas. 
E podemos verificar que a bondade e o perdão ao impedir a vingança são respostas mais adequadas e vantajosas para quem perdoa. 
Desde logo quebra o ciclo da indisciplina e violência e tem ganhos para a saúde física e mental. 
Podemos superar a dificuldade de perdoar sem necessidade de esquecer a ofensa mas também podemos ter empatia para compreender o outro e optarmos pelo perdão. 
Afastar-se ou evitar o colega, deixar de brincar com ele, por exemplo, são melhores respostas do que querer vingar-se ou fazê-lo pagar pelo que fez… 
José Saramago acha que “a grande revolução, seria a revolução da bondade ...
Quando nós olhamos para o estado em que o mundo se encontra, damo-nos conta de que há milhares e milhares de seres humanos que fizeram da sua vida uma sistemática acção perniciosa contra o resto da humanidade.” ** 
De facto não vamos ficar bons de um dia para o outro mas se cada um fizer a sua parte de bondade a vida das pessoas ficará melhor. A começar pela vida das nossas escolas e dos nossos alunos. 



*Procuradoria-Geral Distrital de Lisboa 




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