17/12/25

"A Criança é hoje"



Da capa de A criança e a família, de Françoise Dolto, Pergaminho



Foram trinta e três anos de programas e crónicas na Rádio Beira Interior (RBI), actualmente Rádio Castelo Branco (RACAB). Desde 1992 participei em  programas como “Falar de educação” e “Avenida Central - Falar claro...sobre educação”  e “Conversas Informais” e, desde 2007, faço semanalmente a crónica "Opinião”.

Durante esse tempo aqui, nesta Rádio, falei da importância da  psicologia na vida quotidiana das pessoas e  do relevo que merece a educação e a defesa dos direitos da criança. 

Falei da minha experiência num Serviço de psicologia e orientação (SPO) e dos desafios que este trabalho apaixonante, todos os dias, colocava.

Falei em especial para os pais, educadores e professores.

Estas crónicas são o reflexo do que sou e do que faço, do que acredito, da minha ansiedade e também do que detesto e contesto... 

 

A evolução das políticas de protecção das crianças foi enorme, principalmente a partir de meados dos séc. XX, em todo o mundo, em que as crianças puderam ver os seus direitos reconhecidos na Declaração dos direitos da criança (1959)  e na Convenção dos direitos da criança (1989). 

Também no nosso país a evolução na protecção da infância  deve ser motivo de orgulho, com destaque para os últimos 50 anos, com o acesso generalizado de todos a todos os níveis de educação.

Uma das realizações mais importantes foi a criação das Comissões de Protecção de Crianças e Jovens (CPCJ)  em que participei desde o seu início, em 1993. *

 

É necessário e urgente continuar a criar ambientes seguros e protegidos nas famílias, nas escolas, nas instituições sociais, onde as crianças se possam desenvolver harmoniosamente. Porque, como sabemos, apesar dessa evolução estamos muito longe de cumprir esses direitos. Três exemplos de situações de perigo:

- Segundo a Unicef, morrem à fome um milhão de crianças por ano.

- O número de crianças expostas à violência em zonas de conflito armado atingiu 520 milhões em 2024, fixando um novo recorde pelo terceiro ano consecutivo. (Save the Children)

- O aumento da violência sexual, em particular na internet, é assustador e as crianças estão permanentemente em perigo.

 

Mas o nosso trabalho não é só pôr cobro aos maus tratos. A protecção da criança começa, verdadeiramente, com os bons tratos, de que faz parte o direito ao afecto.

É gratificante saber que cada vez mais a sociedade compreende a relação adulto-criança nesta perspectiva, como bem exprime Manuela Eanes, presidente honorária do Instituto de Apoio à Criança (IAC): "A angústia por falta de amor, por carências graves no aspecto afectivo, marca mais a Criança do que a fome ou o frio. Como dizia  Gabriela Mistral, de uma forma tão bela:

Muito do que precisamos pode esperar. 

A Criança, não.

Não se lhe pode dizer amanhã.

Seu nome é Hoje."

("O papel da Família no desenvolvimento da Criança e da sociedade", in Identidade e Família, p. 94)


Quero deixar, nesta crónica, um grande agradecimento às pessoas com quem trabalhei mais directamente, Isabel Moreira, Graça Lourenço, Manuela Cardoso e Ricardo Coelho,  e igualmente à gestão da RACAB,  pela liberdade de expressão que sempre tive e por me terem ajudado a levar esta informação aos ouvintes que tiveram a paciência de me ouvir durante tantos anos.

 

Muito obrigado.

 

 

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* Inicialmente designada Comissão de Protecção de Menores. A Lei n.º 147/99, de 1 de Setembro, viria estabelecer o Regime jurídico da proteção de crianças e jovens em perigo.





Rádio Castelo Branco






13/12/25

11/12/25

A familia e o Natal



Natal é tempo da família e da infância, é tempo de partilha de afectos e de presentes, de bons sentimentos em relação aos que nos são próximos e a todo o ser humano.
Também acontece que no Natal, os ausentes estão presentes e os que deviam primar pela presença estão ausentes. Tanto as recordações como as ausências geram sofrimento, saudade e tristeza. 
Seja como for, a família é o melhor ambiente para que esses afectos se concretizem.

Mais de um ano decorreu após a publicação do livro Identidade e família. Um livro colectivo com mais de vinte autores, com diversas visões sobre a família ... 
Não se fizeram esperar criticas á publicação do livro. E, no entanto, mantém toda a importância e actualidade no que se refere à família.

As funções da família são de grande diversidade: desde a função biológica de geração dos filhos, ao crescimento num ambiente de amor, associado ao processo de socialização, de aprendizagem e educação, ao cuidar dos mais novos e cuidar dos mais velhos.
Por outro lado, já aqui o tenho referido, a família tem varias estruturas e, basicamente, podemos dizer que onde há uma criança há uma família. E é a presença de uma criança que define a família.
Estudei algumas estruturas familiares como as famílias reconstituídas e, genericamente, concluímos que eram famílias tão adaptativas como as famílias com outras estruturas tradicionais.

Como todos nós, as crianças aprendem por modelagem, mas não é determinante o facto de haver uma ou outra estrutura familiar. O que é fundamental é que todas as crianças têm pai e mãe, independentemente da estrutura familiar em que estejam inseridas.
Por vezes, ouvimos dizer que “tal pai, tal filho” ou “sai à mãe” ou “é como o avó”.... Mas o que acontece é que cada um de nós tem a capacidade de escolher aquilo que prefere e essa escolha vai muitas vezes contra a opinião dos pais ou dos familiares. E não é só na opção relativa aos clubes de futebol que isso acontece!

Há dias numa escola, nas fotografias escolares, foram eliminados os símbolos de Natal porque não se queria ofender ninguém de outras culturas.
Noutra escola não se comemorava o dia do pai porque há crianças que não têm pai. 
Ou será que não sabem quem é o pai ? Se nem todas as crianças têm um pai presente ou registado, isso não invalida que ter pais seja um direito fundamental.
Na realidade, muitas crianças vivem em famílias monoparentais ou sem a figura paterna, ou são registadas sem o nome do pai. *
Então, porque existe um problema, deixa de se fazer uma actividade... Porque não pode ser o dia do pai e de quem cuida, de quem exerce a função paternal ?

A verdade, como sempre, parece ser o caminho a seguir. Fingir que alguém não tem pai é que não é opção. Neste Natal não seremos filhos de pais incógnitos ou como canta José Afonso “não seremos pais incógnitos”. (*)
A vida faz sentido quando temos afecto, uma identidade, pertencemos a alguém e a algum sítio, vivemos em paz e temos um espaço afectivo seguro. 
Neste Natal, é apenas isto que estão a pedir as nossas crianças.
 
A todas as famílias que amam os seus filhos um feliz Natal. 
Até para a semana.

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(*) Em Portugal, a lei não permite filhos de pai incógnito desde 1977. No entanto, desde 2013 que o número de crianças registadas sem o nome do pai tem vindo a aumentar.



Rádio Castelo Branco





04/12/25

Ideias que curam - Como responder aos nossos demónios

 

No mundo caótico, incerto e sofrido, em que vivemos, imersos e baralhados em redes sociais, políticas, familiares ou do próprio Eu, procuro encontrar maneiras de resistir ao stress e manter o equilíbrio e a sanidade...
A terapia racional, emocional e comportamental (TREC), criada pelo psicólogo Albert Ellis, pode ser um contributo para manter o equilíbrio. 
Nas situações da vida de que falamos, as pessoas têm crenças racionais ou irracionais podendo as reações emocionais ser apropriadas ou inapropriadas e os comportamentos daí resultantes serem saudáveis ou problemáticos. 
Para esta terapia, o pensamento irracional é o determinante principal das nossas perturbações emocionais e por isso deve ser analisado e mudado.

O que é interessante é que uma das fontes desta terapia é a filosofia da resiliência e do autocontrole do estoicismo. *
Dentre os estoicos mais famosos, temos um ex-escravo Epicteto (55 d.C. - 135 d.C.) para quem a liberdade depende da forma como reagimos ao mundo, e um imperador, Marco Aurélio (121 d.C. - 180 d.C.) para quem o sofrimento não vem das coisas externas, mas do nosso julgamento sobre elas.
De facto, há coisas que podemos controlar como pensamentos, ações e atitudes. E há coisas que não podemos controlar como opiniões alheias, eventos externos, a morte.
Sendo assim, o estoicismo incentiva o autocontrole, a resiliência, a aceitação do que não pode ser mudado e a serenidade mental (ataraxia) para viver em harmonia com a natureza e alcançar uma vida ética e feliz (eudaimonia). 

Podemos fazer um exercício: reflectir sobre o texto de um dos dias do livro Estoico todos os dias, de Ryan Holiday e Stephen Hanselman. Foi o que fiz hoje, dia 4 de Dezembro: o tema é “Isso não lhe pertence”.
“Por muito que lutemos e trabalhemos para acumular objectos podemos perdê-los em segundos. O mesmo é verdade para coisas que gostamos de pensar que são “nossas”, mas que são igualmente precárias: o nosso estatuto, a nossa saúde física ou força, as nossas relações” (p. 411)

Se estes princípios servem para todos, terão mais importância quando somos um pouco mais ansiosos.
Neste caso, diz-nos Alain de Botton,  "as nossas relações podem nunca dar certo, alguns membros da família podem continuar a ter-nos rancor, alguns inimigos podem nunca tomar o nosso partido, não conseguiremos corrigir erros nas nossas carreiras e haverá invariavelmente quem seja cético ou puramente sádico. Porém, nada disto nos deveria surpreender e não devemos ser ingénuos ao ponto de deixar que isso afete o nosso estado de espírito. Devemos explorar a nossa tristeza irredutível em manhãs soalheiras quando as nossas faculdades racionais estão frescas e seguras, em vez de deixarmos que nos enerve com os seus ataques às três da manhã, quando estamos demasiado azamboados e cansados para saber como responder aos nossos demónios.” (Uma viagem terapêutica, p.123)


Até para a semana.



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Rádio Castelo Branco



26/11/25

A temperança do 25 de Novembro

 

Temperança - Escultura de Barata Feio

 (Assembleia da República)


Foi há 50 anos. Como disse M. João Avillez no Expresso da meia noite (SIC), com o general Tomé Pinto, o 25 de Novembro foi uma guinada para meter o carro, novamente, na auto-estrada da democracia. Quem é pelo 25 de Abril é pelo 25 de Novembro. E quem é pelo 25 de Novembro é pelo 25 de Abril. São dias "inteiros e limpos", por mais que inventemos divergências inultrapassáveis.
A democracia é o regime que permite análises e interpretações diferentes da realidade social, política, etc. Porém, até onde pode a realidade ser vista com tantas diferenças?
O Presidente da Assembleia da República José Pedro Aguiar-Branco refere que, cinco décadas volvidas, ainda "é estranho ouvir dizer que o 25 de Novembro é uma data que "divide" em vez de "agregar”. E acrescenta: "Sou de Abril, sou de Novembro. Sou hoje e sempre pela democracia representativa, porque Abril abriu a porta da liberdade e Novembro permitiu que houvesse chão firme para continuar".

As tentativas para alguém impor a sua visão dos acontecimentos é uma forma de manipulação. “Alguém que vive uma vida de mentiras tenta manipular a realidade através da percepção, do pensamento e da acção de modo a que apenas um resultado desejado, e predefinido, possa existir.” (J. Peterson, 12 Regras para a vida, "Regra 8 - "Diga a verdade - ou pelo menos não minta", p. 270)
Querem que exista apenas uma verdade: a sua. Como refere J Peterson “Já vi pessoas definirem a sua utopia e depois transformarem a realidade”. (p. 271)
Ser jovem, e sonhar com radicalismo, não era, e pelos vistos não é, tão inusual, porém não faz muito sentido ouvir pessoas da dita esquerda usando a velha versão do tempo em que eram jovens na faculdade e, cheios de ressentimento, não são capazes de ver o que foi o PREC, o COPCON, a 5ª Divisão... ou uma sociedade totalitária e com liberdade condicionada.

Há duas maneiras de ver a realidade. “Aquilo que queria, aconteceu? Não. Então o meu objetivo, os meus métodos estavam errados. Ainda tenho algo para aprender. Essa é a voz da autenticidade.
Aquilo que queria aconteceu? Não. O mundo é injusto. As pessoas têm inveja e são demasiado estúpidas para entender. A culpa é dos outros. Essa é a voz da inautenticidade, que não se diferencia muito de “os outros devem ser detidos”, ou “os outros devem ser castigados, ou, “os outros devem ser destruídos”. Sempre que houve algo incompreensivelmente brutal, é esse tipo de ideias que se manifesta” (p. 276)

Foi particularmente interessante o que disse o Presidente Marcelo na Assembleia da República, em relação a uma visão de sociedade aberta, democrática e livre onde prevalece a temperança.
Para o psicólogo M. Seligman, a temperança manifesta-se através de forças de caráter como perdão, humildade, prudência e autorregulação, ajudando as pessoas a gerir paixões, desejos e impulsos para tomar decisões conscientes e construir um bem-estar duradouro. 
A temperança é o equilíbrio, moderação e autocontrole que nos permite ver o que está ou esteve errado, o que não deu certo, o que é voltar aos tempos indesejados, de antes do 25 de abril, de ditadura, de pobreza e de falta de liberdade, ou voltar aos tempos igualmente indesejados que sucederam ao 25 de Abril.



Até para a semana.





Rádio Castelo Branco





20/11/25

Os idosos e o futuro

 

No meio da confusão geral em que vai o mundo (1) é necessário continuar a procurar o equilíbrio pessoal e familiar. É difícil, no meio dos vendavais naturais e sociais, continuar a manter esse equilíbrio e com isso podermos ter alguma esperança no futuro. 
Somos confrontados na nossa família com a vida diária em situações de doença ou de velhice. Por isso servir e cuidar dos mais frágeis devem ser os grandes objectivos da família, das instituições sociais, de saúde e policiais...

Para a minha geração o cenário não é agradável. Podemos rever-nos e rever a nossa vida nos mais velhos, com todas as suas fragilidades, e pensar o que significa envelhecer bem... Será que vou ter alguém que cuide de mim ? Não devo preocupar-me com isso? Não quero ir para um lar, ok, mas se for, será que, ao menos, consigo uma vaga num lar? E que humanização vou encontrar ? 

Tudo questões de difícil resposta principalmente quando sabemos que a dependência dos idosos se deve sobretudo à demência.
Sabemos as estatísticas da demência: Há 55 milhões de pessoas com demência no mundo. (Margarida Cordo, "Os mais velhos na família e no mundo", in Identidade e Família, p.166)
Quando na nossa família há idosos em idades avançadas, começamos a aperceber-nos dos sintomas, dos défices, em varias áreas:
A perda de memória é talvez o mais conhecido: Esquecer compromissos, dificuldade em reter memórias recentes ou repetir o mesmo assunto. 
Dificuldades de raciocínio: Problemas com números, com as finanças ou tratar de assuntos com o banco.
Desorientação: Perder-se em locais familiares, não saber onde é o quarto ou a cozinha ou ter dificuldade em entender onde se está.
Dificuldade com tarefas diárias: Esquecer-se de como realizar ações habituais, como cozinhar ou vestir-se ou tomar a medicação...
Começamos a aperceber-nos destas dificuldades, que por vezes já acontecem connosco, e por aí podemos ver o filme da nossa vida num futuro não muito distante.
Não existe cura para a demência, mas é possível combatê-la com uma combinação de tratamento médico, hábitos de vida saudáveis e intervenções comportamentais: manter-se fisicamente activo, procurar estímulos cognitivos, participar nas atividades sociais e manter rotinas diárias. 
É aqui que a família desempenha um papel decisivo. A família tem muitos papéis a desempenhar relativamente aos idosos. Espera-se dela apoio na doença mesmo em fases avançadas e irreversíveis.
É também necessário tomar medidas que possam melhorar a vida quando chegamos a velhos.

Sabemos que 70% dos mais de 200 mil portugueses que carecem de cuidados paliativos continuam sem acesso (I. Galriça Neto, "O apoio à família nas situações de doença crónica e avançada", in Identidade e Família, p. 174) 
Entretanto, há intervenções que merecem ser elogiadas. Em 2025, foram sinalizados pela GNR mais de 43.000 idosos que vivem sozinhos ou em situação de vulnerabilidade. No distrito de Castelo Branco foram detectados 2.316 idosos que vivem sozinhos.
A GNR está a fazer contacto direto com estas pessoas para as alertar para a necessidade de adotarem comportamentos de segurança, minimizando o risco de se tornarem vítimas de crimes. (Lusa, 18-11-2025Que por incrível que possa parecer, existem com alguma frequência.  (APAV)
Era desejável criar Serviços e Equipas de Apoio Social e Comunitário a partir das autarquias (2)  de forma a que todas as pessoas pudessem sentir menos a solidão e, assim, haver futuro para os idosos.


Até para a semana.

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(1) Como escreve João Távora no "corta-fitas", "tempos de turbulênicia".

Mas seria importante trabalhar em rede envolvendo Serviços do Município, da Segurança Social, da Saúde, da Segurança, etc. para, assim, melhorar o futuro dos idosos ou a vida das pessoas em situação vulnerável.


Rádio Castelo Branco



13/11/25

O amor não é frágil... mas pode ser mágico



Expensive Soul - O amor é mágico


Como costumamos dizer, passamos a vida toda a aprender e, obviamente, a aprender a amar também. Mesmo quando chegamos aos cinquenta anos de casados? Talvez ainda com mais premência depois de passadas tantas experiências em contextos diferentes, simpáticos ou adversos, é, no entanto, sempre  nesta capacidade de nos ligarmos ao outro que se baseia toda a nossa vida afectiva e relacional da qual depende  a nossa saúde mental.

Acontece também que "as relações modernas têm inscritas no seu cerne, um paradoxo  da melancolia: sabemos que o crescimento afetivo requer amor, mas no terreno, encontramos cada vez menos relacionamentos felizes. “ (Alain de Botton . Uma viagem terapêutica, p. 133)


Num relacionamento, o fracasso ou sucesso resume-se  na essência à presença ou ausência de vários factores, cinco âncoras, como lhes chama Alain de Botton.

Estas cinco âncoras permitem manter a embarcação da vida relacional em equilíbrio. São as seguintes: não defensividade, vulnerabilidade, ternura, atitude terapêutica e  entusiasmo.


A nossa postura defensiva é compreensiva e até necessária (defesas do ego)  mas também pode ser parte do fracasso das nossas relações.

Por experiência ou não, a frase " “ama-me por quem eu sou” é o inevitável grito de guerra de todos os amantes que se encaminham para o desastre". Seria injusto "exigirmos ser amados tal como somos, com a nossa panóplia de falhas, obsessões, neuroses e imaturidades... só devemos esperar ser amados por quem desejamos ser, por quem somos nos nossos melhores momentos..." (p.134-135)

"O amor não é frágil, "pode haver ruturas - e reparações. O amor verdadeiro é resistente. Não será destruído por um pormenor... A defensividade pode ser ultrapassada. Podemos aprender a medir no nosso coração a difrerença entre uma queixa e uma rejeição existencial” (p.137)

Os parceiros devem ter a capacidade de ultrapassar a defensividade, podemos chegar a entender o que podemos reconhecer e superar os pequenos defeitos que todos temos, como por exemplo, na forma como deixamos a casa de banho, podemos comentar que temos mau hálito ou que estamos mal vestidos...(p. 138)


Ser vulnerável é descobrir "um lado em nós que remonta à infância..." (p. 140) e podemos e somos capazes de pedir ajuda.


A ternura está, por exemplo, no comportamento de um pai quando vê uma birra do seu filho que empurra  o prato do jantar para o chão e mesmo assim não o castiga nem o considera “mau” 


Ter uma atitude terapêutica depende essencialmente da capacidade de ambos os parceiros adoptarem em momentos críticos uma atitude terapêutica em relação às compulsões, falhas, fúrias e e excentricidades um do outro...


Finalmente, o entusiasmo. Claro que no principio da relação é fácil viver com entusiasmo. Porém a pouco e pouco "deixamos de nos maravilhar porque nos enredamos inconscientemente em várias formas de irritação não assimilada (p. 148): porque nunca pede desculpa; porque decidiu sem nos consultar; porque... porque...

 

Devemos deixar um tempo para falar daquilo que não correu bem,  não para fazer queixas, não para voltar ao “histórico” que sempre é relevado quando nos irritamos  e vamos buscar pormenores da relação de muitos anos atrás...

Mas em vez disso devemos verbalizar os nossas irritações com regularidade. Tentando compreender o que esteve na atitude do outro.

 

Até para a semana. 

 

 


 

Rádio Castelo Branco







05/11/25

Relação presencial e "efeito aldeia"

 

A vida actual, em que estamos sempre online, leva as pessoas ao isolamento social e afectivo, por mais paradoxal que isso seja. As novas tecnologias, designadamente o telemóvel, a possibilidade de fazer quase tudo online: encomendar o almoço no restaurante, as compras no supermercado, fazer pagamentos, meter combustível ou levantar dinheiro... As reuniões e o trabalho online, a automação e o crescimento do número de pessoas que vivem sós, leva a que os contactos pessoais sejam cada vez mais reduzidos. 


Ora sabemos, há muito tempo,  que a criação de vínculos sociais e afectivos e o relacionamento face a face são importantes para a saúde mental e para uma vida  mais feliz.

Num estudo (1) que é feito desde 1938, época da Grande Depressão, até à actualidade, procurou-se compreender as relações entre saúde física e mental, entre saúde e felicidade. 

As conclusões  têm mostrado que os relacionamentos íntimos, mais do que a fama ou dinheiro, são a fonte da felicidade ao longo da vida. Estes laços protegem as pessoas das frustrações, ajudam a retardar doenças físicas e mentais e são parâmetros mais eficientes na análise da longevidade – mais do que classe social, QI ou até mesmo a genética.

Para o psiquiatra Robert Waldinger, o nível de satisfação com os relacionamentos, na idade de 50 anos, foi mais importante para avaliar a saúde física do que níveis de colesterol por exemplo... As pessoas mais satisfeitas aos 50 anos eram os mais saudáveis aos 80.

As pessoas que mantêm relacionamentos calorosos vivem mais e com mais felicidade e aquelas que se sentem solitárias morrem mais cedo. 


Por tudo isto, os amigos são muito importantes.

Podemos falar de três níveis de amizade (2) (Arthur Brooks): O primeiro é o dos amigos com base na utilidade, que nos ajudam a conseguir determinadas coisas, com os quais trocamos favores, que estão sempre disponíveis e para quem o estamos também.

O segundo  é o dos amigos com base no prazer, que nos ajudam a descansar, porque partilhamos gostos, saídas, distrações;  são amigos com quem não temos conversas demasiado profundas e, como os nossos gostos e entretenimentos vão variando,  pessoas que entram e saem com facilidade da nossa vida.

Por último, há os amigos “inúteis”, que  são aqueles dos quais não queremos nada de especial: queremo-los a eles; trocamos favores com eles, evidentemente, e talvez partilhemos gostos e interesses, mas a amizade está radicada a um nível mais profundo...

São  estes amigos a quem podemos telefonar a meio da noite quando estamos  doentes ou assustados...


E também é importante a relação face a face. 

A psicóloga Susan Pinker (3) mostrou que o contacto e a integração sociais são muito mais importantes para a longevidade e o bem-estar do que fatores como dietas e exercícios físicos.

Fala do “efeito aldeia”  ou seja da necessidade de contactos pessoais  e presenciais que  superam, sem dúvida, os contactos online


Até para a semana

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(2) Classificação de Arthur Brooks, referida por Isabel Sánchez, Cultura do Cuidado, p.141-142.

(3) "Susan Pinker destaca o valor das relações presenciais para a longevidade"; "Susan Pinker tem o segredo da vida"



Rádio Castelo Branco




28/10/25

É sempre assim, não é ?


Le jardin du Luxembourg - Joe Dassin


Là où cet enfant passe, je suis passé 
Il suit un peu la trace que j'ai laissée 
Mes bateaux jouent encore sur le bassin 
Si les années sont mortes 
Les souvenirs se portent bien.







22/10/25

Respeitar a infância

 

Antes de olharmos para os nossos filhos  e vermos neles uma quantidade enorme de problemas, problemas de alimentação, sono, ciúmes, violência, egoísmo..., poderíamos encontrar muitas qualidades. Afinal os nossos filhos são boas pessoas. Como nos diz muito bem o pediatra Carlos Gonzalez. (Bésame mucho - Como criar os seus filhos com amor, Pergaminho, p.108)


As crianças têm uma série de qualidades a que se calhar não damos importância. É mais fácil percebermos os problemas que são muitas vezes criados por nós do que as qualidades que as crianças apresentam na sua relação com os adultos e com os pares.

Quando acontece um caso de violência intrafamiliar ficamos chocados e é a oportunidade para algumas pessoas porem em questão a educação sem violência das crianças e, provavelmente, arranjamos sempre uma desculpa para justificarmos práticas punitivas e humilhantes, que achamos que, essas sim,  funcionam... A criança ainda é vista como um ser que precisa de ser “endireitado” para se tornar adulto. 

Ora a criança não nasce ensinada e também pode não aprender à primeira. Pode ser necessário repetir para aprender. Afinal como qualquer ser humano. 


O respeito pela infância é uma marca da qualidade da infância que por sua vez é uma marca da qualidade de vida da nossa sociedade.

O respeito, a par com o carinho, são as grandes vias para a educação responsável e justa. 

Os nossos filhos e os nossos alunos são muito melhores do que pensamos. 

A facilidade com que atribuímos incapacidades às crianças, e aos alunos na escola, é surpreendente: “Não trabalha”, “é preguiçoso”, “é hiperactivo”, “está sempre na lua”, “fala pelos cotovelos”, “nunca participa”, “é implicativo”...

Mas a realidade diz-nos que essas crianças precisam de nós e do nosso trabalho para crescerem ...


A realidade confronta-nos, todos os dias,  com as maldades que os adultos fazem às crianças. Os maus tratos físicos de todo o tipo, os abusos sexuais, o tráfico de menores,... provam que não estamos no caminho certo da proteção da infância e do respeito que nos merece.

Mas não é apenas a maldade activa, é também o abandono, a ausência, o afastamento das pessoas de ligação - os pais - que deviam  estar presentes de algum  modo na vida dos filhos, transmitindo aprendizagens por modelagem e regulando as circunstâncias, as dificuldades e os problemas da vida, o diálogo permanente, sabendo que, no fim da linha, a autoridade são os pais e a decisão final pertence aos pais.


Os nossos filhos apresentam qualidades que mostram que são boas pessoas como refere Carlos Gonzalez (p.108-121):

o seu filho é desinteressado. O amor de uma criança é assim: puro, absoluto e desinteressado,

o seu filho é generoso mesmo quando parece egoísta,

o seu filho chora, claro!  quando tem razões para isso,

o seu filho sabe perdoar sem fingimentos e sem reservas, não guarda ressentimento,

o seu filho é sincero e facilmente diz o que pensa,

o seu filho é sociável, basta observar quando brinca sem reservas com outras crianças,

o seu filho é compreensivo, e sabe confortar quando vê alguém  em sofrimento...


O desenvolvimento de uma criança é feito de palavras e mimos, "… devemos tratar os nossos filhos com carinho e respeito…pegar-lhes ao colo ou consolá-los quando choram.” (" 'Todos os castigos são inúteis', diz o pediatra do contra, Carlos Gonzalez", Entrevista de  Ana Cristina Marques, Observador, 26-5-2014)

Tal como gostávamos que nos acontecesse a nós.

 


Até para a sem
ana.



Rádio Castelo Branco




15/10/25

As percepções importam

 

A percepção é um “processo psicológico complexo através do qual o indivíduo tem consciência das suas impressões sensoriais e adquire conhecimento da realidade. É um mecanismo de aquisição da informação através da integração estruturada de dados que procedem dos sentidos; em virtude dessa integração, o indivíduo capta os objectos.”... (Enciclopédia da Psicologia, 4, Oceano,  p.149)

De acordo com Maslow, o ser humano para sobreviver precisa que as suas necessidades básicas estejam asseguradas. A necessidade de segurança (segurança física, estabilidade emocional e proteção contra ameaças), faz também parte dessas necessidades essenciais.

As percepções de segurança ou insegurança dependem das experiências pessoais passadas, de variáveis contextuais diversas e das próprias estatísticas... E, assim, podem dar relevo à forma como reagimos às diversas situações da nossa vida.


De certeza que todos queremos viver numa sociedade segura, numa cidade segura. Ninguém quer ver a sua vida em risco ou perigo, ninguém quer ser ferido, ninguém quer ser roubado. Queremos ir para o trabalho, voltar para casa, queremos que os nossos filhos estejam seguros na escola e fora dela, queremos passear, simplesmente, sem que ninguém nos aborreça ou usarmos a internet de forma segura.

Mas também "vemos ouvimos e lemos, não podemos ignorar",  Basta haver um caso, passado na nossa rua, ou mesmo longe da nossa  casa, ou que veio no jornal, na televisão, para sentirmos medo e ansiedade cada vez que saímos à rua.

Como diz Daniel Pennac, (Mágoas da Escola, p.11), "estatisticamente tudo se explica, pessoalmente tudo se complica".

 

O ex-ministro Pedro Duarte viu o seu carro assaltado. Essa experiência é determinante para a sua visão da realidade. Diz “não acreditar nas estatísticas oficiais de criminalidade no país, uma vez que o episódio que viveu, tal como "muitos outros" semelhantes ficam por reportar: As pessoas hoje em dia, em determinadas zonas da cidade, não se dão sequer ao trabalho de chamar a polícia, porque sabem que nada vai acontecer. Conheço dezenas de casos, o que torna os relatórios oficiais completamente enganadores. Portanto, quando dizem que as estatísticas mostram que o Porto não tem um problema de segurança, naturalmente que eu não posso levar a sério.” (CNN, 8-9-2025 )


As percepções são fundamentais na interpretação de todo o contexto ambiental e, nessa medida, são fundamentais na compreensão de sistemas e subsistemas em que estamos envolvidos, sejam cognitivos, emocionais ou sociais. *

Mesmo sabendo que as percepções são alteradas pelo  medo  e a ansiedade, pelas motivações  e expectativas...

Mesmo sabendo que as  emoções, a  paixão e o amor alteram as nossas percepções. Como na canção de Miguel Araújo “Será amor?" "Que será que me deu?",  "...até o cheiro a gasolina emana um aroma de rosas no ar."

 

Mas nada seríamos sem as percepões. Estaríamos permanentemente em risco e perigo, não saberíamos que fazer, nem como fazer.

A estatística é necessária para  interpretar a realidade mas não é a realidade. 

Os negacionistas da importância da percepção de segurança mudam de opinião no hora em que  são confrontados com a insegurança. 

E devíamos estar gratos a quem arrisca a vida para podermos ter sossego.

Por isso, as percepções sobre a segurança importam.

 

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*Perceção de criminalidade e insegurança, Barómetro APAV.




Rádio Castelo Branco





09/10/25

Saúde mental para todos


 

Comemora-se amanhã, dia 10 de Outubro, mais um Dia Mundial da Saúde Mental. O tema da Organização Mundial da Saúde (OMS) para o Dia Mundial da Saúde Mental de 2025 é "Saúde mental para todos: acessível e inclusiva", focando-se no acesso equitativo a cuidados de saúde mental de qualidade. (1)


A partir de 2020, com a pandemia, muita coisa se alterou na nossa vida. Tanto mais que as guerras que se seguiram, sem fim à vista, são responsáveis por mais ansiedade, insegurança, falta de perspectivas de futuro. Dizia-se então: “vai ficar tudo bem”. De facto, podemos dizer, cinco anos depois, que não ficou tudo bem. 

Vejamos, numa breve avaliação: 

A pandemia revelou novas preocupações no que respeita à saúde mental. Estamos menos tolerantes, mais propensos ao conflito. Aumentou o consumo de antidepressivos e de ansiolíticos. Há mais casos graves a chegar às urgências dos hospitais, incluindo de tentativas de suicídio, algo que poderia ser evitado se antes tivesse havido apoio psicológico, dizem os especialistas. É sobretudo nas crianças e nos jovens que a saúde mental foi mais afetada pela covid-19. E há efeitos que só vamos conseguir ver quando esta geração chegar à idade adulta. Os pediatras estão a identificar, em consultas de rotina, mais casos de sofrimento mental. (2)


Segundo o psiquiatra Caldas de Almeida, “O campo da saúde mental é muito vasto e integra fenómenos de natureza diversa:
A saúde mental positiva que constitui a base do bem-estar mental, do funcionamento efetivo e da capacidade relacional dos indivíduos. 
As doenças mentais ou psiquiátricas, que são entidades patológicas caracterizados por um conjunto de sintomas e sinais psicológicos e comportamentais associadas a sofrimento psíquico e, muitas vezes, também a incapacidades de vária ordem... 
E ainda problemas de saúde mental relacionados com situações que envolvem algum sofrimento psíquico, embora não cumpram os critérios para o diagnóstico de uma doença mental...” (J. M. Caldas de Almeida, A saúde mental dos portugueses, F. F. M. dos Santos, p.15)


“Se definirmos a doença mental como uma perda de controle sobre a mente poucos de nós podem garantir estar livres de algum tipo de mal-estar. A verdadeira saúde mental envolve uma aceitação honesta de que mesmo nas vidas mais competentes e significativas, haverá sempre algum grau de sofrimento ou dificuldades." (Alain de Botton, Viagem terapêutica, D. Quixote, p.19)


“A saúde mental é um milagre de que não nos apercebemos até ao momento em que nos foge das mãos - e nesse momento perguntamo-nos  como é que até aí conseguimos fazer algo de tão belo e complexo como manter os nossos pensamentos sadios e equilibrados” (idem, p. 14)

Para continuarmos neste caminho mentalmente saudável, o que podemos fazer?
Em primeiro lugar, não hesitar em procurar ajuda especializada quando não entender o que se passa consigo, com os seus pensamentos e sentimentos.
Entretanto, podemos fazer muito por nós e pelas pessoas da nossa família. O auto-cuidado, cuidar de si próprio, com o recurso a terapias de auto-ajuda é um primeiro passo para mantermos uma mente saudável e plenamente funcional.

 

Até para a semana.

 

 

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(1) Na realidade o tema deste ano destaca a "saúde mental nas emergências humanitárias".  No entanto, o Google informou-me que  "saúde mental para todos"  era o tema para 2025. De facto, este tema podia servir para todos os anos.

Nos dois anos anteriores, os temas foram "A saúde mental é um direito humano universal" (2023) e "É hora de priorizar a saúde mental no local de trabalho" (2024). 

Este dia foi celebrado pela primeira vez em 1992, por iniciativa da Federação Mundial para Saúde Mental.


(2) "Cinco anos depois, há muita gente que não se libertou da máscara". Como ficou a saúde mental depois da pandemia? "Pior",  Wilson Ledo , 9-3-2025,  CNN PortugalPodemos também ver o "Impacto da COVID-19 na saúde mental", SNS24.

 

 



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