Perante qualquer possibilidade de existência de conflito, o diálogo deveria ser sempre o método, o caminho a seguir. Que sentido faz iniciar uma guerra se sempre tem que acabar num diálogo mais ou menos consensual que possa estabelecer um compromisso, cessar-fogo, acordo, tratado.. entre os que ganham e os que perdem nem que seja supostamente?
Perante novos conflitos ou conflitos já requentados (o histórico, como diria A. Guterres) podemos sempre aprofundar conflitos até ao limite, até à destruição. As guerras são sempre assim, não resolvem nada. E os vencedores de hoje podem vir a ser os perdedores de amanhã. Como se tem visto com o fim dos impérios ao longo da história.
Para gente tão evoluída como a que chegou ao sec. XXI, há nisto pelo menos um erro de metodologia: primeiro devia estar sempre o diálogo e, falhado este, não deveria seguir-se a guerra mas mais diálogo com outros parceiros com outras perspectivas. A escalada não é solução. Ao ódio histórico que justifica tudo, por esta via, juntam-se mais episódios de ódio e o círculo vicioso é interminável: o que acontece é que se continua a achar que primeiro há que andar à pancada, depois não se pode perder a face, congela-se a situação, e depois sobre as ruínas e os mortos, o cessar-fogo e poder (re)construir. E o que se perdeu?
O necessário diálogo com os outros pressupõe o necessário diálogo consigo ou se quisermos com a sua cadeira vazia. O que dirá cada um dos que fazem a guerra à sua cadeira vazia? O que fez cada um deles para chegar até aqui. Como se sente em saber que uma decisão sua vai matar uma ou mil pessoas? O que tem de especial o seu poder para desencadear a guerra e o que pretende com isso? Há alguém que possa ter esse poder? O que dá o direito de liquidar os que pensam de outra forma? A guerra como solução é um absurdo e o conflito devia ser fundamentalmente um problema de comunicação e o diálogo a sua forma de lhe pôr fim.
"Sobre a guerra na Ucrânia, o jornalista Rudiger Kronthaler perguntou ao Santo Padre se considerava que deviam ser fornecidas armas ao país ucraniano, naquilo que pode ser encarado como uma ajuda à autodefesa.
“Esta é uma decisão política, que pode ser moral, moralmente aceite, se for feita de acordo com as condições de moralidade, que são muitas. Mas pode ser imoral se for feita com a intenção de provocar mais guerra, vender armas, ou descartar armas de que já não se precisa. A motivação é a que em grande parte qualifica a moralidade deste acto. Defender-se não é somente lícito, mas também uma expressão de amor à Pátria”, começou por dizer Francisco.
O conceito de “guerra justa” voltou a ser abordado e o Santo Padre fez questão de lembrar outras guerras que se encontram a acontecer um pouco por todo o mundo. Referindo que neste momento nos encontramos numa guerra mundial, Francisco diz que o negócio das armas é “assassino” e que deve sempre tentar-se alcançar a paz.
“Acho que é sempre difícil entender o diálogo com os Estados que iniciaram a guerra, e parece que o primeiro passo foi dado de lá, daquele lado. É difícil, mas não devemos descartar isto, devemos dar a oportunidade de diálogo a todos, a todos! Porque há sempre a possibilidade de que no diálogo se possam mudar as coisas, e também oferecer outro ponto de vista, outro ponto de consideração. Não excluo o diálogo com qualquer potência, seja em guerra, seja o agressor…”, explicou." (Papa Francisco: “Não excluo o diálogo com qualquer potência, seja em guerra, seja o agressor” )
Albert Szent-György a quem se deve a descoberta da vitamina C, e, por isso, foi premiado com o Nobel da medicina, em 1937, escreveu em O macaco louco: "O nosso complexo militar-industrial, que faz perigar o futuro da humanidade, deve muito da sua estabilidade ao facto de tantas pessoas dependerem dele para viver.
O facto é verdadeiro para todos nós, incluindo eu próprio. Quando recebi o Prémio Nobel, a primeira e única grande soma de dinheiro que vi até agora, tive de fazer qualquer coisa com ele. A maneira mais fácil de largar aquela batata quente era investir, comprar ações. Eu sabia que a segunda guerra mundial estava iminente e temia poder vir a desejar a guerra se possuísse ações que subissem no caso de ela deflagrar. Por isso pedi ao meu corretor que comprasse acções cujo valor descesse em caso de guerra. Ele assim fez. Perdi o dinheiro e salvei alma."
Então quem ganha dinheiro com a guerra tem que perguntar qual é para si o valor da vida humana. Quem ganha dinheiro com a guerra tem que se interrogar sobre as suas decisões poderem estar erradas e não ficará na história como um ser empático e de moralidade superior mas como torcionário indiferente ao sofrimento de milhões de pessoas a começar por aquelas que pela sua fragilidade fariam parar qualquer possibilidade de guerra, como são as crianças.
O tempo passa, a guerra prolonga-se e as cadeiras vazias esperam urgentemente que sejam ocupadas por interlocutores que desejem a paz. Há muito para dizer a cada uma das cadeiras. Cada uma delas pode ser o outro, nosso inimigo, nosso aliado, ou eu, inimigo ou aliado de mim próprio.
Por isso, se ainda têm uma, será que vão a tempo de salvar a alma?

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