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02/04/25

Histórico e ressentimento


Tudo o que fazemos, dizemos ou sentimos fica guardado na memória. E logo que isso acontece começa a haver história. 
Porém, sabemos que não há memória sem esquecimento como também sabemos que a memória nos engana e aquilo que pensamos ser um facto vivenciado por nós em determinadas circunstâncias objectivas, pode não ser bem assim. 

Seja como for, há um conjunto de memórias onde ficam guardados acontecimentos da nossa vida que constituem o "histórico" dessa mesma vida, a memória autobiográfica.
Esse histórico é fundamental para nos situarmos no mundo e faz parte da experiência que temos do comportamento de ir juntando acontecimentos, factos, pequenas e grandes coisas que vão ganhando ou perdendo importância e quando vistas no contexto podem ser amplificadas ou simplificadas... até nos dar jeito. 

O histórico tem um lado positivo quando ele nos serve para vermos a realidade tal como ela é, os factos e como aconteceram, e tem um lado negativo quando nos serve para justificarmos o nosso ressentimento. *
O que vem depois é o efeito gota de água que faz transbordar o copo. E infelizmente, há sempre uma gota de água que vem a calhar, quando nos dá jeito, para podermos justificar o nosso comportamento. 
Quando achamos uma oportunidade lá vamos nós buscar o histórico, o nosso ressentimento: no dia tantos fizeste-me isto, fizeste aquilo...
E sai todo um relatório de “deve e haver” em relação à nossa vida e à relação com quem naquele momento é fonte da nossa frustração e objecto da nossa raiva.

Esta interligação está muitas vezes na origem do ressentimento que existe entre pessoas, num casal, na família, no trabalho, nas instituições sociais e políticas.
Hoje o ressentimento está presente em muitas situações e visões da sociedade.
Há cada vez mais indivíduos ressentidas: vitimizados, ofendidos, magoados, ressabiados e melindrados...

Nós não somos computadores e não podemos apagar o nosso  histórico como fazemos ao nosso hardware. A nossa memória apaga alguns acontecimentos mas outros ficam presentes, ou são alterados fazendo com que demos interpretações dos factos que não correspondem à realidade.
Podemos passar por esses eventos e nunca mais pensar neles. Mas podemos também desenvolver o ressentimento. 

“O ressentimento pode fazer mal às nossas relações e ocasionar um conjunto de emoções negativas.” (Louise Leboyer, "Ces comportements cultivent votre ressentiment envers les autres au quotidien", Psychologies, 24 março 2025 )
“As pessoas guardam muito os seus ressentimentos porque se baseiam no profundo sentimento de terem sido injustiçadas.
Além do impacto nos nossos relacionamentos, o ressentimento causa mais danos à pessoa que o sente do que à pessoa a quem é dirigido. 
É por isso que é melhor tentar evitar cair neste ciclo negativo.“
Podemos evitar (Susanne Wolf) alguns comportamentos envolvidos na comunicação que podem ser fonte de ressentimento.
Por isso, uma comunicação saudável é uma boa prevenção: Estabelecer limites claros; evitar a manipulação ou relações interesseiras; ser coerente entre palavras e actos, valores e crenças; saber escutar... 



Até para a semana. 



____________________________

* "O ressentimento descreve uma reação emocional negativa quando se é maltratado. Não existe uma causa única para o ressentimento, mas a maioria dos casos envolve uma sensação subjacente de ser maltratado ou injustiçado por outra pessoa. Experimentar frustração e decepção é uma parte normal da vida. Quando os sentimentos se tornam muito opressores, podem levar ao ressentimento. Quando isso acontece, a confiança e o amor nos relacionamentos são quebrados e às vezes nunca reparados."  (Signs of Resentment - Web MD)




Rádio Castelo Branco










17/10/24

"Não é não!" ou da assertividade


“Não é não!” Tem sido à volta desta frase que a política tem acontecido desde que este governo exerce funções. Não é suficiente um não, é necessário reforçar a todo o momento a assumpção desse comportamento, ou seja, de que há linhas vermelhas que não querem ultrapassar.
Temos assistido, incrédulos, a uma “negociação” orçamental onde a descomunicação é que mais ordena e mais despreza qualquer eficácia.
De fora, as pessoas reforçam a experiência de que em política se pode fazer todas as promessas, declarações, propósitos mas quando se chega ao poder (executivo, legislativo...), se pode mudar de atitude, de comportamento, a qualquer momento, dependendo de interesses políticos pontuais ou conjunturais. Como no humor de Groucho Marx: “Esses são os meus princípios. Se não gostar, eu tenho outros.” (1)

Também não deixa de ser curiosa a frase de uma ex-ministra (A. Leitão, 2022), que afirmou: “a assertividade é mais prejudicial às mulheres na política e na vida”. Afinal ser assertivo é bom para os homens!
Pelo contrário, ser assertivo é, de facto, fundamental nas nossas relações e interacções com os outros. 
A assertividade, tal como a inteligência emocional e a empatia, é um dos factores que concorre para uma comunicação eficaz.

Podemos dizer que a assertividade "é o conjunto de condutas emitidas por uma pessoa num contexto interpessoal que expressam os sentimentos, as atitudes, desejos, opiniões e direitos dessa pessoa de um modo directo, firme e honesto, respeitando ao mesmo tempo sentimentos e atitudes, desejos, opiniões e direitos das outras pessoas" (Xavier Guix, Ni me explico ni me entiendes, p. 120)
Desta forma simples, a assertividade parece uma palavra mágica que resolve todos os problemas de comunicação.

A internet oferece-nos essa magia com muitas soluções, regras, leis, estratégias, para se ser assertivo. (2)
“Ora o que é mágico nem sempre funciona , nem é do gosto de todos. Não existe uma única forma no mundo de comportar-se assertivamente mas uma série de estratégias que podem variar segundo a pessoa, o contexto, a sociedade e a cultura em que se vive” (p. 121) 

Perante qualquer situação, mesmo que gere ansiedade ou tensão, podemos responder com passividade, com agressividade ou então com assertividade. (3)
Por isso, a assertividade é importante na nossa vida familiar, no trabalho, na política, e, particularmente, quando a comunicação é difícil, como em situações de ansiedade ou outras situações perturbadoras.

Podemos aprender a desenvolver estratégias assertivas nas interações com os outros, como refere X. Guix (p. 131-133 ):
- Ter propósitos claros: O que realmente quero fazer.
- Evitar os pensamentos automáticos.
- Analisar a posição do outro.
- Tratar as nossas convicções como hipóteses.
- Ver a situação de fora.
- Ter, a priori, dúvidas positivas: partir do que se tem em comum, daquilo em que o outro tem razão, parece ser um bom começo.
- Atender à forma de verbalizar.
Sobre este último aspecto podemos ver a complexidade que requer ser assertivo:
- Ser claro e preciso.
- Implicar-se pessoalmente. Usar o “Eu” em vez do “Eles”.
- Saber implicar o outro: gostei da forma como o outro cooperou na reunião.
- Mostrar-se educado e cordial: dar e receber feedback.



Até para a semana.

___________________________ 

(1)  "Afinal, Portugal raramente foi mais do que «isto»"Maria João Avillez considera que não há um português que suporte um minuto mais “disto”. 

(2) Desenvolver a atitude assertiva e ser mais feliz nas relações interpessoais

(3) Podemos avaliar se somos mais agressivos ou assertivos, como no Teste de assertividade de Rathus.



Rádio Castelo Branco



09/03/24

"Dia de reflexão"

Praia da Manta Rota, Algarve

Manta Rota. Daqui


A procura de sossego merecido, de descanso, esperado durante todo o ano, a mudança de local, de actividades tranquilizadores e de rotinas calmas, apesar dos imprevistos, do trânsito, do estacionamento e de toda a logística afim necessária a férias, foi, este ano, pela Ilha de Tavira, Manta Rota... 
A praia compensa tudo, mesmo o que não funciona em condições, e por isso repetimos todos os anos a mesma dose... E às dez da manhã esperamos pelo tranquilizador pregão do vendedor de bolas de Berlim. 
Das férias deste ano ficou-me na memória o slogan: "É só p'ra dizer que já cheguei", que todas as manhãs despertava os nossos sentidos, como ficou provado por Pavlov, sem querermos saber de dietas, de tamanhos ou de açúcar.

No passadiço de acesso à praia, um encontro inesperado com P. Passos Coelho que, delicadamente, parou, esperou, conversou  e a quem cumprimentei do mesmo modo. Fala-se do tempo, do mar e da ondulação que está perigosa... e faço questão de lhe dizer e agradecer que tenho por ele o respeito e a apreciação do carácter de um político de qualidade e com qualidades. As que foram necessárias e suficientes para tirar o País da bancarrota.

P. Passos Coelho voltou a estar num comício da AD, em 25-2-2024, de apoio a L. Montenegro.
“Mais do que em 2015, o espírito da AD faz-nos recuar a 1979... Nessa altura, Francisco Sá Carneiro ... tinha uma frase muito marcante à época: ‘Portugal era um país em que os velhos não tinham presente e os jovens não tinham futuro.’ A AD que ele criou visava uma confiança e um carácter reformista que o país precisava... Também hoje há problemas sérios que aguardam resolução.... Podemos ter um país melhor do que aquele que está a ser oferecido às pessoas… seja na área da saúde, do ensino, da habitação, da segurança. Lembro-me de uma intervenção que aqui fiz em que disse, em 2016... nós precisamos de ter um país aberto à emigração mas cuidado que precisamos também de ter um país seguro. Na altura o governo fez ouvidos moucos a isso mas na verdade hoje as pessoas sentem uma insegurança que é resultado da falta de investimento e de prioridade que se deu a essas matérias. Não é um acaso...
Se queremos, como foi sempre a nossa alma, reformar alguma coisa para que as coisas mudem então temos de dizer que a nossa proposta é diferente.... se queremos realmente que as coisas mudem, a nossa proposta tem algum arrojo, o de confiar nas pessoas que estão a dirigir e de não querermos ser donos não só da economia, mas do próprio o Estado. Nós somos donos de nós próprios e do nosso futuro.
Está estudado: se mantivermos o perfil destes oito anos, não há jovem qualificado que encontre um futuro em Portugal. Fomos dos primeiros a entrar e não tarda estaremos na cauda da Europa do progresso, do desenvolvimento e do bem-estar. Qualquer dia estaremos todos nivelados por baixo...A AD tem um bom programa económico. É preciso colocá-lo em prática.
A política não é só economia.... há muitas outras coisas que são importantes hoje, há muitas questões políticas que são importantes...
Nas escolas queremos essa liberdade para as pessoas, nas escolas, na saúde, em todo lado...
Foi preciso estar a decorrer uma guerra na Europa para que as pessoas prestassem atenção nas questões de Defesa...
O mais importante de tudo é manter estas duas preocupações: antes de tudo uma capacidade reformista... e abandonar este calculismo. Não há um partido da esquerda que não veja um lobo mau em cada proposta reformista... ponham o Estado ao serviço da sociedade e não o contrário. A segunda coisa que precisamos é de dar uma oportunidade ao país para ser diferente”. (Do discurso de PPCoelho)

P. Passos Coelho só precisava de dizer, como o vendedor de bolas de Berlim: “É só p'ra dizer que já cheguei“.
E seria, só por isso, julgado, pela presença, como também o seria pela ausência, como fizeram, em geral, os OCS (nem vale a pena falar do cartoon obsceno divulgado pela rtp2).
Há escolhas, em relação a estes tempos de calculismo, que por sinal têm origem no mesmo sítio que lhes deu origem: entre o "Não pagamos, que até ficam as pernas a tremer aos banqueiros alemães", e as bolas de Berlim, com ou sem creme, porque já se ouve: "É só p'ra dizer que já cheguei ".





15/11/23

Lideranças


Não me admira, e creio que não surpreende ninguém, que tenhamos chegado aqui. Os fundamentos não eram fiáveis. Este ciclo de poder foi constituído com base no poder pelo poder. A "geringonça" foi constituída por forças tão diferentes politicamente em que interessou apenas o poder. Porém, há princípios que se devem sobrepor na política, como a liberdade, a democracia, a democracia parlamentar, os direitos humanos, o relevo do social e do indivíduo.

Não ter isto em conta não é derrubar um muro, como foi dito pelo primeiro ministro demissionário, mas um limite, que  ultrapassado, nos leva para a incoerência ideológica e para uma prática  de interesses.

Por isso, esperava-se o fim deste ciclo mais cedo ou mais tarde, mas não que este desmoronamento político e moral dos líderes pudesse ter lugar numa sociedade livre e democrática.


As pessoas que formam um governo deviam passar por uma selecção mais profunda.

"O "revolucionário de profissão", o "agitador de ofício", o “politicante” deveriam ser figuras pertencentes a um passado de pesadelo e não à triste realidade de ontem, de hoje e de amanhã"… "O político do futuro devia ser, de modo particular, homem entre os homens: inspirar confiança e saber aquilo que dele se pretende, não em atenção a um credo político e oportunismos de momento mas de acordo com uma linha de conduta moral que é bem mais antiga que todas as chamadas conquistas da civilização moderna." (Andrea Devoto, A tirania psicológica, p. 410-411)

 

A tónica posta no indivíduo é fundamental porque mesmo que haja instituições democráticas, elas não fazem automaticamente um líder capaz. Como a inversa também pode acontecer.

O perfil de alguns políticos já fazia adivinhar esta instabilidade. Veja-se a insegurança com que as pessoas vivem pelo facto de não terem possibilidades de arrendar uma casa ou de pagar a prestação da respectiva habitação, veja-se insegurança na saúde com um SNS desorganizado, veja-se a escola que não há maneira de os alunos terem todas as aulas e os pais terem descanso...

Em qualquer outra chefia, exige-se um conjunto de características que na minha perspectiva deviam ser exigidas aos governantes mas na realidade parece que são dispensadas.

Há pelo menos sete aptidões psicológicas (Josef E. Klausnitzer, Como avaliar as suas qualidades de chefia,p. 222) da qualidade de chefia :

- energia física ou vitalidade, motivação de produtividade, energia psíquica ou poder de concentração,

- inteligência  e inteligencia emocional,

- capacidade de apreciação,

- capacidade de decisão,

- integridade pessoal,

- apresentação,

- poder de adaptação.

É ainda importante  a motivação ou tendência a chefiar...

"No mundo dos dirigentes verifica-se de vez em quando uma mescla de integridade e intrigas, honestidade e falta de escrúpulos, equilíbrio psíquico e ambição desmedida... Uma mera capacidade técnica, o estar na frente, o rótulo de superioridade colocado ante o nariz dos subordinadas: nada disto é chefia.” (Josef E. Klausnitzer, Idem, p. 222)


Este é todo um programa que não se aprende nas juventudes partidárias mas com trabalho e esforço na escola, onde se deve aprender política e psicologia política (Devoto, idem, p. 411), no emprego, no meio do povo.

 



Até para a semana 

 



 

Rádio Castelo Branco



28/07/23

Os sonhos dos jovens



 

Acontece por estes dias a Jornada Mundial da Juventude (JMJ), não só em Lisboa mas por todo o país mesmo nas aldeias mais recônditas. 

Conforme refere a Organização da Jornada, a “Jornada Mundial da Juventude (JMJ) é um encontro dos jovens de todo o mundo com o Papa. É, simultaneamente, uma peregrinação, uma festa da juventude, uma expressão da Igreja universal e um momento forte de evangelização do mundo juvenil. Apresenta-se como um convite a uma geração determinada em construir um mundo mais justo e solidário. Com uma identidade claramente católica, é aberta a todos, quer estejam mais próximos ou mais distantes da Igreja.”


Há 37 anos (1986) realizou-se a primeira JMJ. Os adultos de hoje foram os jovens dessa Jornada. Entretanto, aconteceram grandes mudanças principalmente a nível da comunicação. Para o pior e para o melhor. Será que motivação idêntica caracteriza os jovens dessa altura e os de hoje? O que é ser jovem em 2023? O que mudou e se mantem nos sonhos dos jovens? 

Como nesse tempo, os jovens estão perante opções de vida fundamentais, hoje ainda mais difíceis de tomar do que antes. As armadilhas em que tropeçam são muitas e oscilam entre as falinhas mansas de que a felicidade está ao virar da esquina e as profecias climáticas, culpando tudo e todos e negando-lhes o futuro, entre o facilitismo na educação em que deixa de haver exame a matemática num curso de ciências e a ideologia de género dizendo-lhes que eles podem ser aquilo que quiserem, e a incultura woke que lhes proíbe as suas raízes culturais e pratica o cancelamento, a higienização, a censura, a proibição de livros e o proselitismo.


Não sabemos muito bem o que é a juventude e o que são os jovens. A “juventude” é segundo a ONU uma categoria fluida e mutável. Ser jovem pode variar muito em todo o mundo. O critério etário não é preciso, se "jovens" são pessoas entre 15 e 24 anos, por outro lado também define criança até aos 18 anos. Por vezes considera-se a juventude até aos 29/30 anos... 

Segundo a ONU os jovens manifestam a imaginação, a criatividade e a energia que são vitais para o desenvolvimento contínuo das sociedades. 


Seja como for, aquilo que continua a ser importante, antes e agora, é que os jovens sejam capazes de atingir estádios de desenvolvimento cognitivo e moral (estádio das operações formais e estádio pós-convencional) que lhes permitam ter capacidade para determinar o certo e o errado, com base em parâmetros sociais democraticamente pré-estabelecidos, compreender que as leis são como contratos sociais e não imposições rígidas e imutáveis feitas seja por quem for, políticos, influencers, gurus, wokistas, e ainda ter a capacidade de resistir à arregimentação e às investidas do proselitismo.

Se a JMJ contribuir para o desenvolvimento da autonomia dos jovens de forma a permitir que emocional e racionalmente se tornem pessoas dirigidas por princípios éticos universais, a JMJ terá valido a pena. Os sonhos dos jovens serão realizados se esta sólida formação moral estiver nos seus objectivos.

 

 



21/06/23

Avaliar alunos e avaliar escolas

 

Se bem me lembro, foi em 2001, portanto, há 22 anos, que o governo do primeiro-ministro António Guterres e ministro da educação Júlio Pedrosa, decidiu publicar os dados dos exames nacionais, conhecidos como ranking dos exames.
Honra lhes seja feita que decidiram desocultar estes resultados porque não havia qualquer justificação para serem confidenciais ou apenas conhecidos de alguns, e, pelo contrário, deviam ser amplamente divulgados. Desde então todos os anos são publicados os dados dos exames nacionais.

Este ano, mais uma vez, com a publicação dos resultados dos exames, veio a análise e crítica a esses dados, o que é louvável, mas também a contestação à publicação dos rankings.
O actual ministro da educação, João Costa, explicou que a condição sócio-económica das escolas influencia os resultados. Para ele, os rankings são uma “operação comercial”. A mesma desvalorização vem dos sindicatos: para a FNE os resultados são “mais do mesmo” e a Fenprof considera o “ranking” uma fraude.
Neste resumo está tudo o que governo e sindicatos pensam da escola, ou seja,  na escola tudo se justifica com o estatuto socio-económico das famílias e o meio de implantação das escolas: os resultados dos alunos, os comportamentos desajustados dos alunos, a violência e o bullying, os consumos aditivos ...

Todos conhecemos a importância que a realidade socio-económica, a origem e a vida dos alunos têm nos resultados escolares e na sua vida futura... 
E então? O ranking dos exames também reflete essa realidade. Não é por isso que deixa de haver escolas com melhores resultados nos exames mesmo quando o meio é semelhante.
Mas isso importa para as famílias? Claro. Significa que se os pais puderem colocar os seus filhos noutra escola o farão sem dúvida nenhuma.

E isso deve ser importante para o ministério da educação? Claro que é, embora isso não interesse ao sr. ministro da educação.
Esta informação pode contribuir para mudar a motivação dos professores, alterar os recursos materiais e humanos, promover actividades de valorização e enriquecimento, intervir a nível das famílias juntamente com as instituições de acção social e segurança social, formar a nível das mudanças parentais e valorizar a escola, fomentar as artes, o desporto, criar pedagogias diferenciadas, férias na escola, tudo isso são projectos possíveis que podem transformar uma escola talvez com relevo no ranking dos exames.

Lamentavelmente, esta informação preciosa – os dados dos exames - parece ser desprezada pelo sr. ministro e desvalorizada pelos sindicatos.

Mas há escolas que vêem estes resultados, entre muitos outros dados, como um contributo para a avaliação da qualidade do ensino na escola - e essa foi a minha experiência em dezenas de conselhos pedagógicos em que participei - levando a alterações no currículo e na escola necessárias à introdução de planos de melhoria. 
Não, não é uma “operação comercial”. É muito mais do que isso. É também a cultura assimilada pelos alunos, a cultura de avaliação, a valorização da escola, a aprendizagem dos valores, o respeito dos professores, a devolução às famílias dos resultados do trabalho feito e o respeito pelos contribuintes.


Até para a semana.


Rádio Castelo Branco





25/05/23

Os novos poderes




Interrogo-me sobre o espectáculo “deplorável” a que assistimos por estes dias na ordem nacional e internacional. 

Abalados por estes acontecimentos procuramos compreender o que se  está a passar e o que fazer perante situações, que quer queiramos ou não, têm implicação na nossa vida, mesmo não vendo televisão, não ligando ao que se passa nas redes sociais ou ignorando os vizinhos do lado... 

Na realidade, os novos poderes instalaram-se nas sociedades e são responsáveis pela criação deste ambiente transmitindo-nos sentimentos de desconfiança, de insegurança e de que algo está errado neste caminho que termina nas comissões parlamentares de inquérito ou no  poder judicial.

 

Alvin Toffler, em Os novos poderes, em 1991 (original 1990)  já enunciava a Era de Transformação Radical do Poder, no início do séc. XXI: “Apesar do mau odor inerente à própria ideia de poder, consequência dos maus usos que lhe têm sido dados, o poder em si não é nem bom nem mau. É um aspeto inevitável de todas as relações humanas e influencia tudo, das nossas relações sexuais aos empregos que temos, aos carros que conduzimos, à televisão que vemos, às esperanças que acalentamos. Num  grau maior do que muitos imaginamos nós somos produtos do poder.” (pág. 15)


Esta mudança resultante, também, da fragmentação do poder, traduz-se na luta travada entre as várias “capelinhas”, os "cubículos" (Toffler), os gabinetes do poder, que às vezes estão onde menos se espera.  

Estão, por exemplo, no Ministério das infraestruturas, onde, a nível macro e micro,  se trava uma luta fundamental entre várias facções do poder político e burocrático. 

Não deixa de ser curioso que o documento mais importante sobre a reestruturação da TAP se encontra no computador portátil de um assessor.  

O poder encontra-se exactamente neste cubículo onde, desde o ministro aos funcionários se entra e se sai quando isso interessa ao jogo estratégico de “quem é que manda nisto?”.


Por outro lado, no sistema de comunicação, o controle da informação e comunicação, através da manipulação da mensagem que vai da mentira, à falta de memória e à “reconstrução da verdade”, é um instrumento fundamental na manipulação dos espíritos e na detenção do poder (1), contra as várias comissões de inquérito ou os vários processos judiciais que todos os dias são instaurados procurando repor racionalidade nesse sistema mas que enredados no mesmo modelo, acabam, por vezes, de deixar de exercer a sua função principal que é fazer justiça.

                                                                       

O poder reparte-se por uma infinidade de "cubículos", como os lobbies, grupos de pressão política e social, económica e ideológica que tentam minar a estrutura do poder: As redes sociais que exercem censura e bloqueiam a participação, os grupos nacionalistas, os grupos verdes, animalistas, ou os ecologistas da vandalização, as agendas da ideologia de género ...

Esta é a realidade dos novos poderes aos quais não nos devemos habituar mas de que é necessário compreender a dinâmica intrusiva na nossa vida e, sendo excessiva, combatê-la.                                                                                               

 

Até para a semana. 



_________________                                                                                                                                                                                                                                 

(1) Por vezes ainda sou surpreendido com algumas análises: A mentira na política.


                                      

Rádio Castelo Branco


                                                                                                         

01/09/22

Tempo de diálogo e esperança


Gorbatchov,  2 de Março de 1931 - 30 de Agosto de 2022.

"Escrevi este livro porque acredito no senso comum de toda a gente. Estou convencido de que as pessoas, tal como me acontece, se preocupam com o futuro do nosso planeta. E este é o assunto mais importante.
Devemos encontrar-nos e discutir. Devemos tentar resolver os problemas com espírito de cooperação em vez de com animosidade. Compreendo que nem todos concordarão comigo. Na verdade, nem eu concordo com tudo quanto outros, em diversas ocasiões, dizem. Isto significa que o mais relevante é o diálogo. O meu livro é uma contribuição para isso." (Perestroika, p.17)

Um homem extraordinário, como tentei dizer em: MurosRevoluções, guerras e pessoas; Tempo de esperança. 

Erros? Claro. Releio uma crónica de J. Pacheco Pereira ("Gorbatchov e a Rússia", Vai Pensamento, 2002): 
"É por isso que convém não confundir o papel que objectivamente Gorbatchov teve para acabar com o comunismo e a URSS, com as suas ideias presentes sobre a Rússia, o seu antiamericanismo larvar, o seu apoio a Putin e à guerra da Chechénia. O crescente isolacionismo da política russa que encontrou também uma voz em Gorbatchov. - "não nos dêem lições", "nós é que sabemos do nosso país e da sua complexidade" - funciona como argumento de autoridade para que não haja discussão. Discussão é aliás coisa com que Gorbatchov convive mal, ele que foi educado a ensinar e a debitar a "linha" política, e que tem muitos tiques autoritários da velha política russa. Gorbatchov pode ser um "herói" dos nossos dias como lhe chamou António Barreto mas convinha não assinar de cruz as suas políticas ou as suas opiniões." (p. 242-243)

Para um homem condicionado pela educação do "homem novo", temos de convir que foi um homem extraordinário que originou um tempo de diálogo e de esperança.






19/05/22

Populismo


              
         

O populismo é hoje um dos maiores desafios para a democracia. O Papa Francisco na carta encíclica Fratelli Tutti, refere: “nos últimos anos os termos “populismo” e “populista” invadiram os meios de comunicação e a linguagem em geral, perdendo assim o valor que poderiam conter para compor uma das polaridades da sociedade dividida."
Tampouco o populismo ajuda a compreender que a sociedade é mais do que a mera soma de indivíduos. “A verdade é que há fenómenos sociais que estruturam as maiorias, existem megatendências e aspirações comunitárias; além disso, pode pensar-se em objetivos comuns, independentemente das diferenças, para implementar juntos um projeto compartilhado; enfim, é muito difícil projetar algo de grande a longo prazo se não se consegue torná-lo um sonho coletivo. Tudo isto está expresso no substantivo “povo” e no adjetivo “popular”. 
“Povo não é uma categoria lógica nem uma categoria mística no sentido de que tudo o que faz o povo é bom ou no sentido de que o povo seja uma entidade angelical. É uma categoria mítica”... “Pertencer a um povo é fazer parte de uma identidade comum, formada por vínculos sociais e culturais. E isto não é algo de automático; muito pelo contrário: é um processo lento e difícil... rumo a um projeto comum.” (pag. 95-99)

Há líderes que têm capacidade para interpretarem o sentir do povo, mas outros que degeneram este sentimento. Falam em nome do povo mas desprezam as pessoas e os indivíduos concretos.
Os regimes populistas, um pouco por todo o mundo, têm-se instalado no poder, tanto à esquerda como á direita. Partilham esta dicotomia de se considerarem povo, falarem e agirem em nome do povo, fazendo a clivagem com os outros: o antipovo (Gloria Alvarez), passando a dirigir ditaduras que não respeitam os adversários políticos, liquidam os opositores e prendem manifestantes...

Nos nossos dias, o populismo está nas mais diversas manifestações sociais e políticas mesmo nas mais improváveis e, aparentemente, inocentes.
“Hannah Arendt, citada por Bernard Crick (pag. 86-91), distinguiu “povo” de “multidão”. O povo pretende ser uma representação politicamente eficaz enquanto a multidão odeia a sociedade da qual foi excluída.
O Big Brother, por ex., é um jogo controverso e estupidificante pelo seguinte: 
- cria a ilusão de naturalismo. Reconhecemo-nos em pessoas que fazem aquilo que nós costumamos fazer ...
- dá ao espectador um poder de sentenciar: a ilusão de participação democrática e do poder popular...
- atrai uma vasta multidão para ver ao vivo as expulsões daqueles em que votaram 
- finalmente, e ao contrário do Big Brother de Orwell não era principalmente para o entretenimento mas para vigiar as pessoas.
O programa Big Brother pretendia ser a voz do povo ou da multidão vazia. As pessoas não podem fazer aquilo que querem? E, portanto, não são necessários conhecimento, discussões racionais, recurso a autoridades nem experiência... *
Na sociedade totalitária de Orwell  “O GRANDE IRMÃO ESTÁ A VIGIAR-TE” e a polícia do pensamento interessa-se por controlar a nossa mente e a nossa vida. Como o populismo.



Até para a semana.

__________________________

* Isso é para as elites. Na definição de populismo encontramos esta dicotomia. "Populismo é um conjunto de práticas políticas que se justificam num apelo ao "povo", geralmente contrapondo este grupo a uma "elite". Não existe uma única definição do termo, que surgiu no século XIX e tem obtido diferentes significados desde então". ( Wikipédia )







04/05/22

"Porquê a guerra ?"

 Image illustrative de l’article Pourquoi la guerre ?



É a pergunta que qualquer ser humano poderá fazer perante a tragédia da guerra a que estamos a assistir. É a pergunta que fazem, em primeiro lugar, as principais vítimas,  os ucranianos, os que sofrem, choram, perderam tudo, família, filhos, pais, casa, foram violados, feridos...
O que leva um ser humano a cometer todo o tipo de violência contra as pessoas, crimes contra a humanidade?

Foi a interrogação de Konrad Adenauer, após a 2ª guerra mundial, ao perguntar: como foi possível ter acontecido?
Adenauer, escrevia nas suas memórias: "A democracia não termina num regime parlamentar; tem que estar apoiada, sobretudo, na consciência do indivíduo...
Democracia é um conceito universal que tem as raízes na dignidade, no valor e nos irrevogáveis direitos do indivíduo. Quem, de verdade, pensa democraticamente, deve sentir respeito pelo outro, pelos seus elementares desejos e aspirações."

Foi também a pergunta que Einstein fez a Freud. Porquê a guerra? Existe alguma forma de livrar a humanidade da ameaça de guerra?
A explicação poderá ser de ordem psicológica? Podemos explicar a guerra pela personalidade dos líderes que surgem, periodicamente, nos diversos países?
Obviamente que não surgem por geração espontânea. Por isso, temos que nos interrogar se estamos perante indivíduos com perturbações psicopatológicas como a perturbação anti-social de personalidade ou a perturbação narcísica de personalidade, o que significa que temos de nos interrogar sobre o seu desenvolvimento psicológico e as aprendizagens feitas ao longo da sua vida. 
Em 1932, Einstein, propôs a Freud a troca de correspondência, pública, sobre o problema da paz.
Quais são os factores psicológicos de peso que paralisam tais esforços a favor da paz?
Freud recusa que a psicanálise possa caucionar as considerações sobre o bem e o mal inscritos no inconsciente. Há um dualismo pulsional: pulsão de vida e pulsão de morte mas seria desajustado conotar moralmente estas pulsões. Uma é tão indispensável quanto a outra e os fenómenos da vida têm acções conjugadas das duas.
Freud acha que não faz sentido querer suprimir as tendências agressivas dos homens.
Mas pode-se lutar contra a agressividade humana pelo reforço de Eros; tudo o que leva às ligações entre os homens não pode ser senão contra a guerra.
Tudo o que desenvolva estes importantes traços comuns convoca sentimentos partilhados, isto é, identificações. A psicanálise recomenda o reforço das ligações pulsionais pelo amor e pelas identificações.
Para Freud, a guerra é uma regressão, um regresso à violência das origens e uma destruição da aptidão profunda do homem pela civilização.
A cultura é certamente destruída pela guerra mas ela é também o baluarte que promove o desenvolvimento do ser humano e que trabalha contra a guerra.

Todos sabíamos o que podia acontecer: o que não sabíamos é que no sec XXI fosse possível regredir tanto às antigas fórmulas desumanas e contra as regras internacionais.
Há violência entre as nações porque há violência dentro de nós. Porquê a guerra? Porque não somos capazes de sermos civilizados e de nos tornarmos pessoas cultas. 


Até para a semana.




21/04/22

A questão da liderança


Podemos dizer que a vida de um povo depende dele próprio que ao escolher ou tolerar determinado líder aceita, passivamente, não se manifestando ou, activamente, apoiando ou opondo-se, a compreensão que faz do seu passado e a vida que quer viver agora e no futuro.
Sabemos muito sobre liderança mas não queremos compreender como ela pode ser determinante para a mudança de comportamentos de toda a sociedade. Ora bem, a liderança começa em cada um de nós pela forma como sabe e é capaz de gerir as suas emoções.
Como diz Augusto Cury, "só é eficiente quem aprende a ser líder de si próprio, ainda que intuitivamente: tropeçando, traumatizando-se, levantando-se, interiorizando-se, reciclando-se." (Gestão da emoção, pag. 7)
Ou seja “ sem saber gerir a emoção, nenhuma das restantes competências tem sustentação. Sem liderar o mais rebelde, fascinante e importante dos mundos, a emoção, não é possível dar musculatura ao pensamento estratégico, à arte de negociar, à habilidade de se reinventar e de ser proativo.” (Pag. 8)
A liderança política é, por isso, a capacidade que um indivíduo tem de se auto-dirigir e de dirigir os processos políticos, levando os outros a seguirem essa forma de actuação ou modelagem.

Um líder político deve ter conhecimento do contexto histórico em que vive, da sua comunidade, do seu país, e deve ser capaz de se adaptar e ou de mudar conforme o contexto, colaborando com os cidadãos na melhoria das condições de vida do povo a quem serve e de procurar as melhores relações com os outros indivíduos e povos.

Os líderes, políticos ou não, podem usar vários estilos. Kurt Lewin definiu os três tipos de liderança que normalmente existem nos grupos e nas organizações: A liderança liberal ou laissez-faire, a liderança democrática ou participativa e a liderança autoritária.
O líder liberal só aparece quando solicitado a isso e normalmente as decisões são tomadas pelos indivíduos ou pelo grupo. É mais um facilitador de processos, coordenador do grupo e da informação. Mas isso também pode significar aumento da responsabilidade e iniciativa individual.
Na liderança democrática ou participativa, os membros de um grupo ou organização assumem a responsabilidade da tomada de decisão. Dessa forma, cada um oferece o melhor que pode colocar à disposição do grupo ou da organização.
Ao contrário da liderança democrática e da liderança liberal, a liderança autocrática assume um controle absoluto sobre a maioria dos processos vividos pelas pessoas. Este estilo de liderança é autoritário e não conta com a participação de quem está fora do governo.

É por isso que, num regime democrático, ou mesmo num regime autoritário quando a oposição é tolerada, a liderança da oposição assume um papel fundamental. 
Essa liderança baseia-se na resistência ao poder estabelecido. É seu papel questionar as medidas tomadas, avaliar os erros e denunciá-los. Ao deixar de ser oposição, essa liderança perde o seu sentido de ser, devendo assumir outra forma de estar na política.
Como vimos, as lideranças e os estilos de liderança são diversos e fazem toda a diferença na história dos povos como se vê no tempo em que vivemos...


Até para a semana.



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10/03/22

“Todos os ditadores são lineares”



Por que  surgem sempre novos ditadores ? Por que a educação não leva a evitar os erros do passado e a criar seres humanos que sejam melhores para o seu semelhante ?

A psicologia e psicopatologia do pensamento ajudam-nos a compreender o funcionamento mental destas pessoas.


Para Augusto Cury, existem três tipos de pensamento: um inconsciente, o pensamento essencial, e dois conscientes, os pensamentos dialéctico e antidialéctico.

O pensamento essencial está na base da formação do pensamento antidialéctico e, posteriormente, do dialéctico. É o primeiro resultado da leitura da memória e é fundamental na construção dos pensamentos conscientes: interpretações, compreensão, definição, conceituação. (p. 138)

A criança começa por ser perguntadora, no jardim de infância, e a pouco e pouco durante a educação escolar vai fazendo menos perguntas. No secundário isso verifica-se ainda menos e  quando chega à universidade deixa de haver perguntas. (p. 140)

O processo de socialização - educação na família e na  e na escola -  faz o seu trabalho. “Muitos pais corrigem os seus filhos sem refletirem sobre o instrumento de correção  que usam...”. 

“Tais pais desconhecem que sob o enfoque da gestão da emoção  deviam usar também o pensamento antidialético para pensar antes de reagir e olhar os seus filhos com generosidade. Pais que são excessivamente lógicos, cartesianos, enfim, dialéticos são também intolerantes e, ao corrigir os efeitos, em vez de deterem as causas de determinados comportamentos, bloqueiam a formação de mentes livres, resilientes e maduras.” (p. 132)

Ou seja, o pensamento dialético é muito importante mas “precisa do pensamento antidialético para ter profundidade; caso contrário torna-se superficial, parcial, frio.”

Por sua vez, o pensamento antidialético também precisa do pensamento dialético para ser fonte de criatividade produtiva e útil; caso contrário leva ao desenvolvimento de uma imaginação autodestrutiva.” (p.137)


“Todos os ditadores experimentaram limitações cognitivas importantes após ascender ao poder. Construíram um raciocínio simplista, parcial, tendencioso, egocêntrico. Tiveram uma racionalidade abaixo da média, mas uma voracidade pelo poder muitíssimo acima da média. Foram hábeis no uso de armas mas não na gestão da emoção. Foram mais hábeis ainda a construir fantasmas emocionais no inconsciente coletivo com discursos paranóicos. Normalmente são o assombro e a passividade do povo que alimentam os ditadores, principalmente no início do processo ditatorial quando estes são mais frágeis.” (p. 141)

Estaline, “serviu o seu próprio ego e ideias, porém não o seu povo. Como  qualquer ditador com limitações cognitivas, era paranoico, sentia-se perseguido pelos monstros que ele mesmo criava no teatro da sua mente. A necessidade neurótica de poder encarcerou o desenvolvimento saudável do pensamento antidialético. Estaline não conseguia pôr-se no lugar dos outros e pensar antes de reagir, reagia como animal irracional."  (p. 141-142)

"Hitler era um  analfabeto emocional,  desconhecia a  linguagem da compaixão, da generosidade, do altruísmo, da serenidade." (p. 143)


Diz-nos Cury: “Sem o pensamento antidialético não há gestão da emoção; sem gestão de emoção a nossa espécie ainda chorará lágrimas incontidas.” (p. 143)

Nem mais. Acontece neste momento, por todo o mundo, devido à guerra na Ucrânia.

 

 

 

Até para a semana, com muita paz.






 

10/02/22

Cultura de vitimização

  O segredo de uma família feliz: o triângulo de Karpman



Vivemos hoje, publicamente, com medo de nos expressarmos, de tomarmos posições, de dizermos qualquer coisa que possa sair do politicamente correcto.
A sociedade actual está cheia de gente que se ofende por tudo e por nada: “os ofendidinhos” (L.F. Pondé).
Há sempre um “ofendidinho” em qualquer lado e quando menos se espera. Um dos problemas que daí resultam é o controle da linguagem que como sabemos é por aí que começam as ditaduras de esquerda ou direita, comunistas ou fascistas... *
Vivemos a cultura do cancelamento destes “ofendidinhos” que têm poder para destruir as carreiras de quem tem alguma capacidade crítica em relação a qualquer assunto principalmente se for considerado fracturante ou for dos temas que facilmente sofrem atribuição de racista, xenófobo ou negacionsta não importa de quê. 
Não se pode divergir, nao se pode criticar, nao se pode elogiar, não se pode tocar, não se pode expressar pensamento divergente... porque há sempre alguém que se sente vítima...

A vitimização não é por si só uma patologia (DSM) mas é um dos factores que pode contribuir para uma perturbação paranóica da personalidade. É sem dúvida um traço psicológico que afecta a vida psicológica do sujeito e as relações interpessoais. 
A vitimização é uma chantagem emocional como forma de comunicação.

O que tem vindo a acontecer então com esta cultura de vitimização?
Por um lado, a nossa cultura não sabe lidar com o sofrimento, com a responsabilidade, com a história... Ao contrário é-nos dito que tudo se resolve, tudo é revisto, há dinheiro para tudo, mesmo que não se assumam responsabilidades... Além disso, trata-se de um processo complexo em que há vários papéis que estão envolvidos. Parte-se do papel de vítima para logo assumir o de salvador e de perseguidor.
O psicólogo Stephen Karpman (1968) identificou três estados do EU que afectam as relações interpessoais em todos os âmbitos (social, familiar, empresarial)... **
As pessoas assumem o papel de salvador, de vítima e de perseguidor, muitas vezes de forma inconsciente, para obter afecto ou para sobreviver numa organização.

O salvador é uma pessoa que oferece ajuda falsa para criar dependência; Fortalece o papel das vítimas para continuar a ajudá-las; Manipula subornando; Necessita que precisem dele.
A vítima provoca os outros para ser humilhada; Envia mensagens de indefesa; Esquece de forma conveniente; Manipula com sentimentos de confusão e culpa; Queixa-se, escusa-se, reprova; Não aceita responsabilidades; Tem um sentimento de inferioridade e baixa autoestima que se volta contra os outros; Necessita ajuda e compaixão permanentes.
O perseguidor elabora normas pouco práticas que faz cumprir cruelmente; Atormenta os vulneráveis; Manipula com o medo; Parece fora do jogo mas observa e julga tudo; Necessita que reconheçam a sua autoridade.
Os três papéis – vítima , salvador, perseguidor - criam um círculo vicioso na medida em que cada um deles é uma forma de manipulação e a pessoa pode assumir distintos papéis na sua vida, pode ser perseguidor na família ou salvador no emprego ou assumir vários papéis em determinado contexto. Quando um subalterno substitui o chefe pode assumir o papel de perseguidor quando antes tinha o de vítima.

Como podemos sair deste círculo vicioso e ultrapassar a cultura de vitimização? Veremos para a semana.


Até para a semana com muita saúde.

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* O que não deixa de ser curioso é que esta cultura vem principalmente donde não seria de esperar (ou talvez não), as universidades que como o nome indica são escolas de pensamento universal,  e a comunicação social que  devia ser livre e independente de forma a contribuir para a liberdade de pensamento e de expressão.

** Sobre o assunto pode ler-se/ver-se com proveito: O segredo de uma família feliz: o triângulo de KarpmanAna Delgado, "Salvador, víctima y perseguidor: el triángulo dramático de las empresas, Emprendedores, 15/01/2018Luiz Felipe Pondé - Dor e Mudança: A Cultura da Vitimização.