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09/05/18

Fazer e avaliar em vez de desfazer e apagar (2)

A qualidade da educação e do ensino é um dos principais objectivos da sociedade. Qualquer governo decente deve criar ou assegurar os instrumentos necessários para atingir esse objectivo tendo em conta que, numa democracia, não tem sentido impor ideias de forma autocrática.
Nem sempre tem sido assim. De facto, vamos tendo um pouco de tudo: "paixão pela educação", "escola na sociedade de classes",  educação "cívica" do "homem novo", metas que viram competências e competências que viram metas, currículos grandes, currículos pequenos, avaliação de desempenho burocrática, feita pelos pares, uma das maiores fontes de conflito nas escolas, colocação de professores, centralizada, com critérios diferentes todos os anos, contagem de tempo de serviço, que ninguém entende que raio de contagem é...
Apesar de tudo, e isso é o mais importante, o ensino tem vindo a obter resultados que, graças ao trabalho de alunos, professores, explicadores e pais, são muito encorajadores.

Nuno Crato dá conta ("Contra argumentos não há factos" - O Observador ) de como algumas alterações na exigência, isto é, na qualidade da educação, levaram a resultados que começaram a ter expressão em provas internacionais como o  PISA E TIMSS:
"Relembremos alguns factos. Qual era a situação relativa do nosso país? No TIMSS, em matemática do 4.º ano, de entre os países participantes, estávamos no antepenúltimo lugar com 475 pontos. Atrás de nós, havia apenas a Islândia e o Irão.
No PISA, em 2000, de entre os países participantes que pertenciam então à OCDE, Portugal ocupava a antepenúltima posição em ciências e a leitura. Em matemática, só tinha três países atrás.
A taxa de abandono escolar precoce era 43,6% em 2000. Quer isto dizer que apenas 56,4% dos jovens entre os 18 e os 24 estavam a estudar ou tinham completado o Secundário. Na União Europeia apenas Malta tinha um resultado pior.
Em 2000, as taxas de reprovação eram escandalosamente altas. Atingiam cerca de 10% no 4.º ano, 16% no 9.º e 50% no 12.º.

Entretanto, tudo ou quase tudo melhorou. Fruto de um esforço persistente das escolas, dos professores, dos pais e de vários governos, chegámos a 2015 com um panorama totalmente diferente.
No TIMSS, em matemática do 4.º ano, passámos do antepenúltimo lugar para um lugar cimeiro, acima da média, com 36 países atrás de nós. Passámos de 475 para 541 pontos. Passámos à frente da mítica Finlândia!
No PISA, das últimas posições ocupadas em 2000, passámos em 2015 para cima da média da OCDE. Em leitura, subimos de 470 para 498 pontos. Em matemática, progredimos de 454 para 492 pontos. E em ciências, passámos de 459 para 501 pontos.
A taxa de abandono escolar precoce melhorou, descendo dos 43,6% em 2000 para os 28,3% em 2010 e 13,7% em 2015. Passámos à frente da Espanha e da Itália.
As taxas de reprovação também melhoraram. Em 2015, no 4.º, 9.º e 12.º anos, desceram para 2%, 10% e 30%. Ou seja, no 4.º ano, e com a Prova Final da altura, reduziu-se a retenção para quase um quarto do que era; no 9.º e no 12.º, reduziu-se para dois terços do que era."

Crato tinha a sua ideia do que era o sector da educação, desde o tempo do programa televisivo "Plano Inclinado", e apesar de críticas justas de muitos profissionais  como, em algumas questões, as de Santana Castilho, teve o mérito de contribuir para a qualidade do ensino.
Mas o que dizer dos actuais "funcionários" deste ministério e de alguns dedicados “ajudantes progressistas", na assembleia da república? Não fazem ideia nem parece que venham a fazer sobre o futuro da educação, sobre a qualidade da educação, nem que tenham a percepção do alcance pernicioso que costuma vir da demagogia das medidas que tomam.

A Sociedade Portuguesa de Matemática já veio dar conta dos estragos que estão a ser feitos: "SPM considera, o projeto de decreto-lei Currículo dos Ensinos Básico e Secundário, um passo atrás.
Em suma, a SPM não pode deixar de lamentar veementemente e de forma pública este intempestivo e progressivo desmantelamento dos pilares em que se apoia a Escola portuguesa e dos progressos tão duramente conquistados pelos nossos alunos e respetivas famílias e escolas – num processo que, se não cessar com brevidade, trará consequências que levarão décadas a corrigir." ( Rui Cardoso)
Não concordei com muitas medidas de Nuno Crato. Discordei, por exemplo, quanto à questão do eduquês, cliché que só serve para mistificar (o falhanço de pedagogias erradas, a desorganização de recursos humanos, mudanças sistemáticas nos currículos), discordei de Crato quanto à questão do construtivismo, quanto à questão de falta de relevo dada às artes, e ainda por insistir nas medidas erradas que vinham do governo anterior, como a avaliação de desempenho, a prova de acesso à carreira profissional...
Críticas mas também elogios mereceu essa política educativa e sobre o assunto escrevi, por exemplo, nestes textos:

O que não se esperava era que sob o manto diáfano da fantasia da "escola na sociedade de classes", a confusão se instalasse na 5 de Outubro, dando espaço ao apagamento do que de positivo tinha sido feito, já que na sede da fenprof e para a maioria conveniente da assembleia da república, não há confusão nenhuma, é tudo "muito simples e muito claro!", como diria António Guterres.

27/04/18

Fazer e avaliar em vez de desfazer e apagar

Isabel Leiria , "Medidas de Crato apagadas do sistema", Expresso, 21-4-2018.























Desfazer o que o governo anterior fez, parece ser a actividade política favorita dos governos no poder. É assim na saúde (1), no mapa judiciário (2), nas autarquias (3), na educação.
Andamos de revisão em revisão sem haver motivos fundamentados para isso.  Os benefícios que daí advêm não se conhecem, mas sabe-se que são, quase sempre, instrumentos eleitoralistas. Reversões, cativações e apagões são  o saldo político negativo de uma governação dita de esquerda. Nada, portanto,  de estruturante ou que interesse para o futuro.

Na educação, é essa a estratégia deste governo minoritário, apoiado pela  maioria dita de esquerda no parlamento, como titula o Expresso: “medidas de Crato apagadas do sistema” .
Obedecendo a ideais, às vezes pessoais, de grupo ou a ideologias partidárias, impõem-se medidas e terminam-se medidas num experimentalismo radical, na escola e na sala de aula,  como se na escola houvesse cobaias para "suportar" os desenhos ideológicos  de ditas esquerdas ou ditas direitas.
A educação, a escola, merece mais respeito:
-  É necessário ter em conta que o aluno é pessoa, tem direitos como pessoa e como aluno. O direito à educação, a saber utilizar ferramentas fundamentais  para a vida de cidadão e para a vida profissional.
- É necessário ter em conta que os professores não são meros executores de medidas ao gosto dos governos e merecem respeito como qualquer outro profissional. (4)
- É necessário ter em conta os dados da ciência, as descobertas no campo da neurologia, da psicologia do desenvolvimento e da aprendizagem.
- É necessário ter em conta as experiências dos outros países,  as boas práticas, mas de forma contextualizada, aqui e agora.
- E necessário fazer avaliações das estratégias seguidas antes de atirar para o lixo a experiência de vários anos.
- É necessário ter em conta que as reformas na educação podem levar vários anos, e, portanto, várias legislaturas, para serem aplicadas e, por isso, se deve pensar em compromissos entre maiorias diferentes que se vão constituindo.

Ora tudo isto tem sido mais ou menos irrelevante na estratégia do ministério da educação e nas medidas tomadas pela maioria conjuntural dita de esquerda da assembleia da república.
Nada de novo em desfazer ou apagar medidas, uma vez que a dita esquerda sempre usou o apagamento do que não lhe interessa. Convém até não deixar vestígios de que há outras formas de pensar e de fazer, com mais eficiência e melhores resultados. Lamento que algumas dessas medidas tenham sido apagadas, como o caso dos cursos vocacionais, os exames de português e matemática no 4º e 6 anos, o exame de português no ensino profissional, a autonomia das escolas na possibilidade de contratação a nível de escola...
A minha vida profissional esteve ligada à educação, vi entrar e sair ministros e secretários de estado, de que já ninguém  lembra o nome, mas alguns  fizeram muito mal à educação, porque  achincalharam os professores, prejudicaram os alunos e as suas famílias e instabilizaram o sistema educativo.
Com esta política, a instabilidade continua... 
O trabalho que estava a ser feito não era perfeito mas era mais exigente, correspondia mais às necessidades dos alunos e começava a haver resultados positivos (Programme for International Student Assessment - PISA, Trends in International Mathematics and Science Study- TIMSS).
Avaliar é uma coisa, desfazer e apagar, outra, bem diferente.
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(1) Na saúde, já não é possível ignorar as condições miseráveis em que são atendidas crianças doentes, como acontece no Hospital de S. João, no Porto, ou no Hospital de Abrantes…
(2) "Fazer e desfazer" é o título da crónica  de M. F. Leite, no Expresso, de sábado passado, a propósito das alterações ao mapa judiciário, feitas pelo ministério da justiça, que foi revisto no governo anterior e parece que  vai ser revisto novamente.
(3) Parece que vai haver reversão da extinção das freguesias... Ao contrário deste populismo, o passo seguinte não seria extinguir alguns concelhos?
(4) 102 agressões a professores em 2016.

08/02/18

Rendimento escolar

Os resultados dos exames nacionais, vulgarmente conhecidos como "ranking das escolas" (Sol, b,i. nº151, 3/2/2018), relativos a 2017, foram recentemente publicados. São um instrumento de trabalho (1) de que o sector de educação dispõe para melhorar a qualidade de ensino. Assim, devia servir para todas as análises que se pretendesse fazer sobre o rendimento escolar. Mas em vez disso, a sua publicação (2) continua a ser objecto de controvérsia,  talvez porque continua a haver quem prefere esconder os resultados por motivos ideológicos, não quer ver a realidade nem se interessa com a liberdade dos cidadãos para poderem fazer as escolhas educativas dos filhos.
A escola é o futuro e tudo o que possamos saber acerca dela, positivo e negativo, é preferível a vivermos numa nebulosa de indiferenciação e irresponsabilidade.
A avaliação escolar, em todos os níveis, é um dos critérios de qualidade das escolas, que, como em qualquer organização, deve fazer parte da sua gestão. (3) Por isso, a discussão entre escola estatais (3) e privadas, em relação a este assunto, é completamente inútil. O ranking deveria existir mesmo que todas as escola fossem estatais ou todas fossem privadas, com contratos de associação, ipss ou cooperativas.

A situação actual, relativamente aos  resultados dos exames nacionais, tem vindo a mostrar, entre outras reflexões, o seguinte:
- As escolas privadas obtêm melhores resultados do que as escolas estatais.
- As escolas estatais melhoraram os resultados em relação ao passado - menos escolas com médias negativas nos exames.  Esta é uma situação de assinalar porque os rankings têm esta função: fazer com que a partir de uma situação desfavorável seja possível efectuar melhorias nos processos de ensino-aprendizagem que se traduzam em melhorias nos resultados.
- Algumas escolas estatais que sofreram intervenções de requalificação das suas instalações obtiveram melhores resultados.
 - O abandono escolar dos alunos do ensino profissional está a aumentar.
- Há um factor que tende a ser ignorado e que não sabemos qual o peso que pode desempenhar nos resultados dos exames: o factor "explicações", uma autêntica instituição educativa que os pais pagam em duplicado (pelos impostos e pelas  mensalidades).
- Numa classificação haverá sempre primeiro e último. O problema é a divergência dos  resultados negativos em relação à média e este podia ser o principal objectivo das melhorias a introduzir: conseguir resultados positivos
- Contribuição para a regulação do sistema educativo relativamente ao ingresso no ensino superior. A divergência entre resultados internos e externos mostram bem a possibilidade de inflacionar as notas internas e a distorção e injustiça relativamente ao acesso ao ensino superior.  Os resultados externos são uma boa maneira de avaliar as escolas quando as divergências são muito grandes e sistemáticas.
- A classificação no ranking não significa que não haja bons alunos do ponto de vista do rendimento académico em escolas do final do ranking e maus alunos em escolas bem colocadas. Os resultados conhecidos podem levar a melhorias que venham a beneficiar, em especial,  os alunos com mais dificuldades. (4)
- Os resultados nos exames em forma de ranking de escolas, só faz sentido se estivermos a falar da classificação das escolas resultante dos exames nacionais. Há outras dimensões educativas das escolas: o ensino tecnológico e profissional, os projectos de currículos alternativos, as modalidades de apoio a alunos com deficiências, as escolas profissionais de artes, de música, etc..
- A auto-estima de pertencer a uma escola com bons resultados, a uma turma com bons resultados, ou a uma escola que faz progressos é ela própria garantia de que os alunos se sentem mais confiantes. Não há nada melhor para o sucesso do que o próprio sucesso. Ganhar é sempre estimulante mas, por outro lado, perder não deixa de ser desafiante.
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(1) Os resultados não são uma fotografia do que são e do que se passa nas escolas. O sistema de ensino é muito mais rico e interessante do que as estatísticas, quaisquer que elas sejam. Isto não justifica que o sr. ministro da educação desvalorize os rankings, aliás, o sr. ministro desvaloriza as avaliações e os os exames, tal como o 1º ministro (“tal como um raio x não cura um doente também um exame não faz a aprendizagem dos alunos”). Mas o que será que ele valoriza, do que é que o sr. ministro é "adepto" na educação? Podia ao menos reconhecer que há todo um trabalho anterior, inclusive a introdução de exames, que tem tido como consequência a melhoria dos resultados escolares em provas nacionais ou internacionais (PISA, TIMSS), onde os rankings também existem.
(2) Sempre defendi a transparência e a divulgação pública de avaliações, rankings, classificação dos resultados dos exames, com os nomes das respectivas escolas (escola pública explicações privadas, resultados escolares e cultura, a difícil tarefa de organizar turmas, motivação de sucesso o melhor prémio ).
 A sua divulgação pública por parte do ministério da educação só pecou por tardia e, passados dezassete anos sobre o início desta prática, em 2001, é anacrónico e sem sentido, discutir se devem ou não ser publicados rankings dos resultados dos exames. Devia desde sempre ser publicamente acessível para que todos os interventores da educação tivessem conhecimento da  situação relativa de cada estabelecimento de ensino de forma a poderem ser estabelecidos planos e projectos de melhoria, de forma a que os pais pudessem saber qual a escola onde deviam colocar os seus filhos, os contribuintes pudessem saber como é aplicado o dinheiro dos seus impostos, ou, no caso dos privados, também o pagamento das suas mensalidades.
(3) Pública não é nem mais nem menos do que estatal. Todas as escolas são públicas, apenas diferem na gestão: o estado e ou uma entidade privada ou do sector social. O contributo para educação das futuras gerações deve-se, por isso, à concorrência destes sectores e à convergência para os mesmos objectivos: formar cidadãos responsáveis, participativos, cumpridores dos deveres de cidadania, com elevados princípios éticos e morais.
(4) Participei, como representante dos SPO, com professores e representantes dos pais, em muitas dezenas de conselhos pedagógicos. Muitas destas  reuniões, chatas e compridas, dedicadas à avaliação, eram, no entanto, fundamentais para se  poder progredir em relação aos resultados dos alunos e à qualidade da educação. Havia real preocupação com os níveis positivos e  negativos obtidos pelos alunos, queríamos saber as causas de isso estar a acontecer, ficávamos orgulhosos quando os resultados eram, comparativamente, melhores do que noutras  escolas ou do que a média nacional.


05/09/17

10 anos de "Educar em Diálogo"

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10 anos de "Educar em diálogo". O objectivo inicial foi o de trazer algumas ideias sobre  a educação que na altura passava por caminhos controversos e autoritários, com uma ministra da educação, Maria de Lurdes Rodrigues, que tinha dos professores a ideia de que eram o fracasso do sistema educativo e que era preciso ensinar-lhes as boas maneiras para serem professores. Muitos projectos eram os do regime "socrático": novas oportunidades, "magalhães", parque escolar, avaliação de desempenho altamente burocratizada, a divisão entre professores e professores titulares, a escola a tempo inteiro (AEC), as alterações do DL 3/2008 e as escolas de referência, a CIF, o número mágico de 1,8% de crianças com NEE, com a exclusão de muitas do apoio da educação especial, o encerramento de escolas rurais e de pequena dimensão... (A crise na educação)
O que mais chocava era a atitude arrogante do poder, em particular  num sector onde o diálogo,  como método,  devia ser o caminho para tomar decisões e  melhorar a educação.

25/07/17

Liberdade de escolha na escola estatal !



"Polícia foi chamada ao Liceu Pedro Nunes para acalmar pais revoltados com matrículas
O problema com as matrículas volta a repetir-se este ano e levou até a polícia a intervir, esta segunda-feira, na Escola Secundária Pedro Nunes, em Lisboa. Pais protestam contra moradas falsas." (Marlene Carriço, Observador, 25/7/2017)

"Afinal, a liberdade de escolha da escola existe
O debate já não é se deve ou não haver escolha. Ela existe nas escolas públicas, mas de forma ilegítima e só para alguns. A questão é se se a quer alargar a todos, a começar pelos mais desfavorecidos." (Alexandre Homem Cristo, Observador, 24/7/2017)


O ME pode continuar a ignorar tudo isto, a fechar escolas contratadas, a nem sequer regular, como deve ser, as matrículas nas escolas estatais, a que haja escolas "fim de linha". A realidade vai desmentindo todos os dias a hipocrisia socialista da  "igualdade de oportunidades" para todos. 
Os pais só têm que se defender destas utopias, ingenuidades e hipocrisias. E fazem bem que procuram a melhor educação ("waiting for superman") para os filhos nas escolas estatais, cooperativas, IPSS ou privadas.



26/01/17

Expectativas

Na semana passada, falamos das expectativas presentes na nossa vida. Há quem defenda que é melhor não termos expectativas para não virmos a ficar frustrados quando elas não se concretizam ou aceitar, passivamente, aquilo que vai acontecendo seja a nível pessoal familiar e laboral.
Na realidade, as expectativas são uma componente da motivação que se tornou uma grande preocupação fundamental das organizações, em especial na área da motivação no trabalho.
Psicólogos e investigadores das organizações têm vindo a propor várias teorias sobre a relação das expectativas com a motivação
Pode-se partir do pressuposto de que existe sempre "uma maneira melhor" (“the best way”) de motivar as pessoas. Porém, “ a evidência tem demonstrado que as pessoas reagem de diferentes maneiras conforme a situação em que estejam colocadas.” (I. Chiavenato, Administração de recursos humanos, vol.1, p. 92)
A desmotivação atinge muitas pessoas nas mais diversas profissões e situações profissionais. 
A profissão docente, por exemplo, tem vindo a ser objecto de alguns estudos em que fica patente uma grande desmotivação.
A carreira docente a que, actualmente, é difícil aceder é constituída por uma série de factores que a transformam numa das mais stressantes:
“A intensificação do trabalho docente, a indisciplina dos alunos, a avaliação dos professores, a desresponsabilização das famílias no apoio aos seus filhos, o não reconhecimento do trabalho dos professores pelos pais e encarregados de educação, o número elevado de alunos por turma, o cumprimento de diretrizes burocráticas, o excesso de burocracia, o excesso de reuniões, a instabilidade de vínculo profissional, a crescente descredibilização da importância do papel do professor na sociedade, a desvalorização da carreira, a dificuldade de relacionamento com os pais e o aspeto remuneratório, constituem alguns indicadores iniludíveis da desmotivação docente." (M.Rosário Miranda, O impacto da desmotivação no desempenho dos professores, 2012)
Num estudo recente  (As motivações e preocupações dos Professores, Fundação Manuel Leão, 2016) “cerca de um terço dos professores gostaria de deixar de lecionar e mais de metade, 57%, aponta a falta de reconhecimento profissional como a causa de maior insatisfação no trabalho, sendo que 85% considera que o Ministério da Educação não valoriza o trabalho da classe docente e 48.4% considera que o seu trabalho não é valorizado pelos alunos.” (resumo de Sandra Maximiano,"Estar motivado para motivar", Expresso, 9-9-2016)
Sendo assim, que motivação podemos esperar de um professor? Uma das teorias da motivação (Victor Vroom) considera que a motivação individual em produzir em dado momento depende de objectivos particulares e da percepção da utilidade relativa do desempenho como um meio gradativo de atingir determinados objectivos. Ora isso depende de três forças básicas que actuam no individuo, isto é, a motivação depende então de expectativas, recompensas e relações entre expectativas e recompensas.
A motivação de produzir é função de:
expectativas: a força do desejo de alcançar objectivos individuais;
recompensas: a relação percebida entre produtividade e alcance de objectivos individuais;
relações entre expectativas e recompensas: a capacidade percebida de influenciar o seu próprio nível de produtividade. (Chiavenato, p. 92-93) 
A teoria da expectativa pode então ser um bom ponto de partida para avaliar o esforço investido pela pessoa na sua profissão. Se o esforço investido pela pessoa não a leva a alcançar determinados objectivos, no fundo, a atingir as suas expectativas, então compreende-se bem a desmotivação dos profissionais da educação.
E o que faz o Ministério da Educação para responder às expectativas dos professores?



  

19/01/17

Expectativas


O primeiro-ministro A. Costa tinha a expectativa de que os partidos de oposição (designadamente o PSD) aprovariam o aumento do salário mínimo nacional em troca do abaixamento da TSU.  
Na política do actual governo tem sido assim: dar com uma mão o que tira com a outra. Mais uma vez, para o primeiro-ministro, esta medida não tinha custos. Quem não percebe de economia sabe,  pelo menos, que a segurança social paga a despesa. Entretanto, o ministro da segurança social veio dizer que no ano passado a despesa correspondeu a 11 milhões de euros.
Na política internacional vive-se mais ou menos de expectativas. Trump, que amanhã será presidente dos Estados Unidos, tem a expectativa de que vai ter uma boa relação com Putin…
Na vida pessoal vivemos de expectativas. Eu tenho a expectativa de que um dia hei-de ganhar o euromilhões pois há vinte anos anos jogo todas as semanas sempre com a mesma chave.
E assim é feita a nossa vida de expectativa em expectativa. 
Também é fácil constatar que expectativas elevadas levam muito provavelmente ao fracasso. Pelo contrario expectativas baixas dão-nos a possibilidade de termos agradáveis surpresas.
O que acontece nos concursos das televisões got talent, voice de Portugal… mostra que se formulamos expectativas baixas, normalmente somos surpreendidos. Claro que só é surpresa porque criámos expectativas baixas, a partir da roupa, da cara, do corpo da idade, da postura, de preconceitos… que afinal pouco têm de essencial para o que é avaliado.
No trabalho psicológico com crianças ou adolescentes com dificuldades sociais e de de aprendizagem era frequente manifestarem grandes expectativas. Esperavam ter um futuro muito bom em que teriam uma grande vivenda, um grande automóvel… Mas também havia outros alunos que não queriam ouvir falar de futuro e não tinham qualquer expectativa. O que naquele momento a família e a escola pediam e queriam era que estudassem e tivessem bom comportamento. No entanto, estes alunos preferiam viver a sonhar com o futuro ou num presente vazio. 
Gerir as expectativas é uma das nossas grandes dificuldades. Podemos viver como se tudo nos fosse correr mal e então esperar pelo dia da morte ou viver como se fôssemos imortais como faz a gerontocracia que se mantém no poder até cair da tripeça.
Para algumas "teorias", "as expectativas não nos permitem viver em liberdade, aceitando o curso das coisas, já que acreditamos que pelo fato de desejarmos algo de verdade, seja aprovação, perfeição ou comodidade, isso tem que obrigatoriamente ocorrer. A realidade é que o que tiver que acontecer irá acontecer, estejamos ou não de acordo." (Viver sem expectativas)
É por isso que é muito importante ter pensamento positivo mas não é suficiente Como é importante ter auto-estima mas não como se fosse algo de mágico. Temos dentro de nós um pequeno ditador (eu devo ser, eu devo fazer…) que nos impõe expectativas muitas vezes excessivamente elevadas e, então, não podemos falhar sob pena de considerarmos que somos um fracasso.
Saramago dizia que (cito de cor) "aquilo que tiver que ser meu à mão me virá ter". Mais do que esperar o destino melhor será viver a vida como ela é.
E como este assunto tem pano para mangas, tenho a expectativa de voltar a ele na próxima semana.


17/01/17

"Nunca desistas"

Quando os pais e professores se interessam pelas crianças, então é possível lutar contra o sistema, incluindo os sindicatos de que fazem parte. O mais importante do sistema educativo são os alunos e não o resto. Infelizmente, a maior resistência à mudança vem das corporações. Esta realidade acontece não só na sociedade onde se desenrola o filme mas também em qualquer outro local, sendo particularmente acutilante no actual estado da educação nacional. 
A autonomia incomoda-os e é preciso viver sempre na sua dependência, no seu centralismo, na sua "entourage", desde a colocação de professores à "gratuitidade" dos livros e ao silêncio do "manifestódromo". 
A RTP passou, um destes dias, esta história de pais e professores que tomam a educação como responsabilidade sua. Então pode haver "esperança" para todas as crianças.

06/10/16

Escolas de pequena dimensão


Desde que começou a política de encerrar as escolas de pequena dimensão (1) que, contra essa política, tenho defendido a continuação do seu funcionamento.
Essa política levou, inicialmente, a encerrar as escolas mais pequenas com menos de 10 alunos para, logo a seguir, passarem a encerrar as escolas com menos de 21 alunos e, espantoso, até com mais de 21 alunos, com base em critérios arbitrários do tipo os alunos aprendem melhor em "bons" equipamentos acabados de construir, normalmente nas sedes de concelho.
A maioria das escolas que encerraram fazem parte do mundo rural. Em consequência da desertificação humana que tem vindo a acontecer no interior do pais mas também por uma visão estratégica errada da educação. Não é, aliás, uma política exclusiva de Portugal.
Esta política coincidiu com a criação de agrupamentos de escolas e depois de mega-agrupamentos que  reúnem os alunos de uma determinada zona geográfica, como o agrupamento de escolas de Alcobaça e agrupamento de escolas de Belas-Queluz, em Sintra, com mais de 4000 alunos.

Os argumentos ocultos para fechar escolas são, essencialmente, de ordem economicista mas os argumentos expressos para fechar escolas são a socialização das crianças e melhores condições de instalações e equipamentos pedagógicos.
As crianças com problemas de socialização estarão em todo o tipo de escolas e não se devem à ruralidade. Nem as escolas "douradas" são mais eficazes do que as escolas com instalações mais modestas e sem luxos.
Provam isso os resultados dos exames, em que escolas rurais e de pequena dimensão atingem posições cimeiras nos rankings de resultados e  a integração e o êxito dos alunos nos níveis de ensino seguinte.
Os factores determinantes para o sucesso dos alunos não são certamente as instalações mas antes as capacidades dos alunos e a qualidade dos professores que poderão ser factores mais influentes do que os factores externos (2). O afastamento dos pais durante o dia por longos períodos, como as distâncias a percorrer superiores muitas vezes a 30 quilómetros (3) e sem condições, obrigando a levantar muito cedo e a regressar muito tarde, esses sim, são factores bem mais penalizadores do que as modestas instalações.
Devia ainda ser respeitada a vontade dos pais que também são cidadãos e contribuintes e querem, certamente, uma educação de qualidade para os filhos e dos autarcas que em alguns casos têm tido um comportamento merecedor de reconhecimento por se terem colocado do lado dos pais e acima de tudo do lado da educação das crianças.

O caso de Monsanto (4) parece-me merecer particular interesse por manifestar que os autarcas podem contribuir para o não encerramento destas escolas. Infelizmente, há outros que fizeram lindos e "dourados" parques ou centros escolares onde juntaram todos os alunos do concelho.
Em Monsanto, com o actual autarca de Idanha-a-Nova não foi assim (5). Aliás, como tem sido feito na autarquia de Castelo Branco com o actual presidente, e com o anterior, que apenas encerraram escolas quando já não era possível criar uma turma nessas escolas.
Não sei se a desertificação do interior começa com o enceramento das escolas mas creio que fechar escolas não significa desenvolvimento nem valorização do interior.
O que não deixa de ser paradoxal é que este governo tenha criado uma Unidade de Missão para a Valorização do Interior, "com o objectivo de promover a atracção e fixação de pessoas nestas regiões, a cooperação transfronteiriça e o intercâmbio de conhecimento aplicado entre centros de investigação e desenvolvimento e as comunidades rurais".
Era bom que governo e Unidade de Missão para Valorização do Interior se entendessem. (6)

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(1) "Desde 2002, deixaram de funcionar mais de 6500 antigas escolas primárias. A reorganização arrancou no Governo liderado por Durão Barroso (PSD-CDS) e incidiu, sobretudo, sobre as regiões norte e interior do país. No período José Sócrates (PS), com Maria de Lurdes Rodrigues como ministra, foram encerradas mais de 2500 e com Isabel Alçada outras 700 escolas. Nos dois primeiros anos de Governo Passos Coelho (PSD-CDS), o ministério da Educação, Nuno Crato, encerrou mais de 500 escolas."
(Ana Cristina Pereira, "Ministério da Educação fecha 311 escolas do 1.º ciclo no próximo ano lectivo, Público, 21/06/2014 )
(2) Christine Leroy, "L'effet-maître, l'effet-classe, l'effet-établissement", Sciences humaines, nº 285, pags 40-41.
(3) Mais relevante do que a distância é o tempo que demora o percurso.
(6) Neste momento, não sei sequer se a educação faz parte das 155 medidas anunciadas!