Quando, em 1970, Alvin Toffler escreveu Choque do Futuro alertou para as dificuldades de adaptação às novas tecnologias e aos impactos que causariam nas pessoas. A ideia de um homem modular resultante das interacções parciais que temos é bem evidente nas várias plataformas de redes sociais onde desconhecemos quase tudo acerca de quem está do outro lado.
É este condicionamento que nos deixa ligados ao scroll infinito e à reprodução automática de conteúdos, aos likes, às partilhas, à opinião, à contra-opinião, à pesquisa dos mais variados temas, que reforçam o nosso comportamento e nos tornam mais condicionados.
Uma das piores formas de condicionamento refere-se à indignação moral – “uma emoção poderosa que motiva as pessoas a humilhar e punir aqueles que percebem como transgressores.” (p. 59)
Prisioneiros dos ecrãs, dos indignados e “ofendidinhos” de todos os quadrantes somos o alvo de notícias falsas, burlas, todo o tipo de crenças e descrenças que produzem o seu efeito já que dificilmente há imunização para as doenças da internet.
Pedro Afonso escreve sobre o impacto da internet e das redes sociais na saúde física e mental: perturbações do sono, em particular na adolescência, problemas musculoesqueléticos e perturbações na coluna cervical, efeitos neurológicos, aumenta risco de excesso de peso e obesidade em crianças e adolescentes, redução da actividade física diária...
Existem evidências “que implicam o uso dos smartphones e redes sociais no aumento do sofrimento psicológico, nos comportamentos autolesivos e na ideação suicida entre os jovens.” (p. 41)
No entanto, “existe um relativo consenso na comunidade científica de que as redes sociais têm um potencial de tanto beneficiar quanto prejudicar crianças e adolescentes, justificando-se por isso que seja feito um conjunto de alertas junto da opinião pública” (p. 20).
Para além destas medidas legislativas no domínio da informação são necessárias medidas proibitivas e punitivas e também medidas que visam a formação e a investigação.
Além disso, não faria sentido regular apenas os utilizadores deixando as empresas e instituições livres para censurarem e condicionarem quem entendam.
Sabendo que nem todos estão bem intencionados, há desde logo que rejeitar qualquer tipo de censura ou a imposição de códigos de linguagem “neutra”... Impõe-se por isso não ceder aos fiscais do politicamente correcto que andam mortinhos pelo regresso da censura troglodita com pele sofisticada para além daquela que já está integrada na IA. Como refere Manuel M. Carrilho, citando Mounk: “A adopção do dogma DEI – diversidade, equidade, inclusão – pelas empresas GAFAM (Google, Apple, Facebook, Amazon e Microsoft), e muitas outras, que quase todos assumem explicitamente nos seus sites, é pois altamente inquietante, sendo inequívoco como diz Mounk, que ‘o viés político actual da inteligência artificial tende visivelmente para o lado woke’, o que torna decisivo o debate sobre esta questão...” (A nova peste – Da ideologia de género ao fanatismo woke, p. 93)
A regulação implica a auto-regulação. No entanto, não seria honesto deixar tudo à auto-regulação dado que há muitas pessoas, empresas e instituições que nunca respeitarão qualquer forma de auto-regulação.
“Os pais têm um papel fundamental e crucial na gestão e na redução do tempo de ecrã, promovendo a sensibilização, estabelecendo limites e aplicar mecanismos de controle comportamental.” ((Quase) sempre online, p. 53) “De uma forma geral, é essencial que cuidadores, educadores, e profissionais de saúde compreendam os riscos potenciais do uso excessivo de ecrãs e implementem estratégias que promovam um desenvolvimento saudável das crianças incluindo atividades alternativas que estimulem as competências cognitivas, linguísticas e socioemocionais.” (p. 54)
Apesar do condicionamento que as novas tecnologias arrastam consigo, certamente ninguém estará interessado em regressar aos anos 90 em que apareceram os primeiros fornecedores de acesso à Internet. Ou mesmo a 2007 ano de lançamento do iPhone por Steve Jobs.

