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23/11/16

"Construção louca"

 

Por volta dos 6 anos de idade, as crianças manifestam comportamentos que, ao contrário de se considerarem de indisciplina ou desorganização, são momentos de uma relação de qualidade com os pais ou avós.
O mais velho (6;7) que iniciou a escolaridade este ano, toma a iniciativa da brincadeira criando o que chama de “construção louca” ou seja, o local da brincadeira feito com todas as almofadas que se encontram na sala, uma “montanha” de almofadas, para onde irá saltar, de diversos sítios e com diversas “acrobacias”…
É uma actividade onde as habilidades psicomotoras são testadas e nos obriga a avisar “cuidado”, várias vezes, com os saltos mais ou menos arriscados que realiza, e com a dúvida se não será melhor acabar com aquela brincadeira. Claro que não mas deve dizer-se que é necessária alguma supervisão para não deixar objectos, como brinquedos inofensivos, que naquelas circunstâncias, se podem tornar perigosos que podem magoar quando salta para a "construção", como na foto.
A segurança da brincadeira torna-se mais sensível quando a irmã mais nova (2;3) também resolve imitar o irmão e entrar na brincadeira.

Aos seis anos de idade, a criança está em franco desenvolvimento físico, psicológico e emocional.
Um dos grandes psicólogos do desenvolvimento, Arnold Gesell *, continua a ser uma referência na descrição minuciosa do comportamento da criança
Gesell diz-nos que aos seis anos, submetida à mais leve tensão, a criança tende para comportamentos extremos, sempre que tenta servir-se dos seus actuais recursos.
As suas novas possibilidades de comportamento parecem surgir nela aos pares. Sente-se muitas vezes compelida a manifestar, primeiro, um dos extremos de dois comportamentos alternativos e depois logo a seguir o comportamento precisamente contrário (p. 97)

“A auto-activação dramática é simultaneamente um método de crescimento e de aprendizagem. É um mecanismo natural mediante o qual a criança organiza a sua maneira de sentir e de pensar. Mas a tarefa é grande demais para ela só. A escola é o instrumento cultural que deve ajudá-la a alargar e a apurar as suas autoprojecções dramáticas. Instintivamente a criança identifica-se com tudo o que acontece à volta dela e até com as figuras e as letras do seu livro e os números escritos no quadro. Assim como precisa de pegar num bloco e manuseá-lo para ficar a conhecer-lhe as propriedades, assim carece também de projectar as suas atitudes mentais e motoras em situações da vida. As emoções não são forças amorfas; são experiências esquematizadas. A função da escola é a de lhe fornecer experiências pessoais e culturais que organizem simultaneamente as emoções em desenvolvimento e as imagens intelectuais a elas associadas.” (p. 100)

“Os seis anos é uma idade activa, a criança encontra-se numa actividade quase constante, quer seja de pé quer sentada. Parece que anda a equilibrar conscientemente o corpo no espaço. Está em toda a parte - ou anda a trepar às árvores ou a arrastar-se de gatas por cima, por baixo e à roda das suas grandes construções de blocos ou das outras crianças. Parece que é toda ela braços e pernas, quando vai a dançar pela casa fora.” (p. 104)
A criança está a iniciar uma grande mudança cognitiva: o período das operações concretas (Piaget). O seu pensamento vai adquirir uma das ferramentas mais importantes de que poderá dispor – a reversibilidade. A lógica vai entrar na solução dos problemas da sua vida.
Estas actividades e comportamentos fazem parte desse desenvolvimento. Por isso, não faz sentido que sejam reprimidos e muito menos sujeitos a castigos, quando ficamos com a casa virada do avesso ou chegamos a casa cansados do trabalho.
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* Gesell, A., A criança dos 5 aos 10 anos, D. Quixote.

11/04/16

As minhas serigrafias: Eurico Gonçalves


Eurico Gonçalves - Luz Oblíqua

Técnica: Serigrafia
Suporte: Papel Fabriano D5 GF 210g; Dimensão da Mancha: 41,7x31 cm ; Dimensão do Suporte: 70x50 cm
N.º de cores: 10
Data: 1995
Nº de Exemplar: 43/200


Biografia
Nasceu em 1932, em Abragão, Penafiel. Exercendo a sua actividade sobretudo na área da pintura, é também professor e crítico de arte, membro da A.I.C.A.. Neste âmbito, tem publicado vários artigos que versam sobre temáticas como a Expressão Plástica das Crianças, o Dadaísmo, a Filosofia Zen ou a Escrita. Em Paris, foi bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, entre 1966 e 1969. Em 1971 recebeu uma Menção Honrosa do Prémio Crítica de Arte Portuguesa, pela Soquil. Entre 1972 e 1992, foi membro dos Corpos Directivos da S.N.B.A (Sociedade Nacional de Belas Artes) e actualmente é membro da A.I.C.A. (Associação Internacional de Críticos de Arte). Em 1998 recebeu o Prémio Almada Negreiros e, em 2005, o Grande Prémio da Bienal de Vila Nova de Cerveira. Autor dos livros: Narrativas de Sonhos e Textos Automáticos (1950-51), editado pelo CPS, 1995; A Pintura das Crianças e Nós - Pais, Professores e Educadores, 1978; A Arte Descobre a Criança e a Criança Descobre a Arte (4 volumes); e Dádá-Zen/Pintura-Escrita, 2005. No seu percurso artístico, conta com uma fase inicial surrealista, originária das teorias freudianas na vertente do fantástico, evoluindo depois para um asbtraccionismo não-geométrico e gestual, que valoriza, portanto, a mancha e o traço livre e impulsivo. Esta pintura tem o intuito, como o próprio artista disse em 2003 de “reduzir-se a pouca coisa ou quase nada, em função do vazio libertador”.

 Eurico Gonçalves
Um blog sobre Eurico Gonçalves.
Eurico Gonçaves dá o seu nome a uma escola básica, merecidamente.



Foi com Eurico Gonçalves que aprendi muito sobre a expressão gráfica na infância. Com os seus livros: A arte descobre a criança  e A pintura das crianças e nós - pais, professores e educadores mas também com a sua capacidade de formador na área da expressão gráfica.
Em determinada altura da minha vida profissional, como psicólogo nos Serviços Sociais da Presidência do Conselho de Ministros (SSPCM), uma das tarefas que me competiam era a participação no projecto de organização e gestão de campos de férias e actividades de férias e, especificamente, no recrutamento e selecção de monitores de campos de férias  e na formação desses monitores. EG foi escolhido para formador da área de expressão plástica. Era deslumbrante a sua comunicação sobre a pintura moderna e a arte infantil. Era exigente com os formandos que nem sempre se esforçavam o que deviam sobre as composições que lhes eram propostas.
Foi, para mim,  um privilégio ter tido a oportunidade de ver de perto a sua forma de trabalhar como pedagogo. Estivemos no seu atelier nos Coruchéus e não me esqueço da sua empatia.

27/01/16

Ser avó

1. Parece que foi ela, a avó, que esteve grávida e deu à luz. Simplicidade e emoções genuínas perpassam pelas diversas situações relacionais com os netos, pela fragilidade dos netos acabados de nascer ou pela própria fragilidade em querer cuidar deles o melhor que sabe.
São momentos de puro encantamento em que as brincadeiras e parvoíces da avó parecem destrambelhar a postura do quotidiano mais ou menos circunspecto da sua profissão.
Será que as avós podem usar qualquer roupa ou "um par de ténis" (p.15) sem estarem a concorrer com as mães?
2. As avós, como já foram mães, podem achar que já sabem tudo sobre os filhos ou sabem mais do que as mães, mas não, as avós não nascem ensinadas para o seu papel de avós, "este papel difícil que exige autocontrole e diplomacia que nos permite estar próximo, mas nos obriga a guardar distância, a medir o envolvimento e o sentido de posse, para não magoarmos, nem nos deixarmos magoar…” 
3. As avós têm uma metodologia, vêem os netos como se estivessem no 1º balcão do teatro. Cada capítulo do desenvolvimento dos netos é como se fosse uma ficha de observação. Descritiva, muito impressiva, mais ou menos independente, devido à proximidade relacional, e documentada com as evidências (fotos) que mostra no telemóvel.
4. As avós dão importância às pequenas grandes coisas do desenvolvimento: A importância de uma bolacha que faz milagres face a uma birra;  A importância de dizer não pela primeira vez, que será o começo de muitas outras, torna-se no momento inicial da educação “quando por faro pressentimos que um não é fundamental, e instintivamente o dizemos, sem agressividade, nem raiva, estabelecendo uma regra ou um limite.” (p. 49)
5. Fica particularmente sensibilizada, com a lágrima ao canto do olho, quando ouve dizer pela primeira vez: “vovó”.
6. A avó aprende a lidar com a censura social, as chamadas "bocas" sobre o bebé. Quando os outros tem tendência a fazer comparações por tudo e por nada: “porque ainda usa chucha”, “porque não quer brincar com os outros”, porque ainda não fala muito, “porque é envergonhada”... (p.91), não lhes dá qualquer importância porque sabe que as crianças são diferentes em tudo, mesmo quando se trata de gémeos idênticos.
7. O avô, faz parte desta sociedade de relação e observação. Como o fotógrafo, que geralmente não fica nas fotografias, está presente, talvez mais discreto e menos interventivo, para isso já chega a avó, e aprecia extasiado e incrédulo aquela relação única da avó e do neto nas coisas mais simples e extraordinárias do dia a dia.
8. Os avós não fazem o papel de pais mas são os “anjos-da-guarda delegados.”(p. 89)
9. Os avós ligam, inscrevem, na genealogia, as gerações e os vários elementos da família extensa; " … enquanto pais, os laços que nos ligam aos filhos e, enquanto filhos, os laços que nos ligam aos pais tornam possível que uns e outros estejam absolutamente seguros do amor incondicional que os une. Essa segurança permite que tanto os adultos como as crianças sejam mais eles próprios quando estão uns com os outros.” (p. 64)
10. “Ser avó é uma bênção dos Céus.” (p. 91)

13/01/16

"Perpetuum mobile" - O modelo certo

Ficámos a saber qual é o modelo de avaliação correcto e de "escola inclusiva e integradora" para o sr. ministro da educação e
A escola não deve ter apenas a cultura da nota, a cultura do treino, a cultura da selecção! Mas, obviamente, também não deve ter a cultura do facilitismo, da falta de esforço e da mediocridade.
O insucesso escolar, e uma das suas piores consequências, o abandono escolar precoce, tem sido um problema difícil de atenuar ao longo da vigência de vários ministérios. Tem que se reconhecer a preocupação de várias equipas ministeriais  interessadas numa escola para todos e na melhoria da qualidade dos resultados.
Não seria justo nem racional imaginar que poderia haver dirigentes que quisessem prejudicar os alunos com as medidas educativas que tomam, a ponto se ser necessária "a reparação de danos". Creio que, apesar de tudo, uns mais do que outros, se têm esforçado por atenuar os efeitos perniciosos do insucesso escolar, não só entre nós mas nos outros países que se defrontam com problemas semelhantes, independentemente, de terem governos de sensibilidades políticas muito diferentes.

Tem havido a procura de respostas para estes alunos e algumas das alterações introduzidas no sistema educativo vão nesse sentido. Os PCA (Percurso de Currículo Alternativo), os CEF (Cursos de Educação e Formação) foram respostas desse tipo. Os cursos vocacionais foram outra medida educativa organizada de forma mais sistemática para dar resposta a estes alunos.
Acompanhei, trabalhei, fiz parte da selecção de alunos e fui professor de cursos de educação e formação.
Alguns alunos conseguiram concluir o 9º ano através destes cursos, de forma muito positiva, que pelo currículo geral não o teriam conseguido.
Foi com o sentido de estarem no caminho certo, motivados, que vi alguns alunos concluírem mais tarde os seus cursos profissionais e fui convidado para algumas sessões de apresentação das provas de avaliação finais (PAF)/provas de aptidão profissional (PAP). Alguns encontraram o seu caminho escolar e o seu percurso na vida.

Não passa de uma falácia chamar “pedagogia classista” à preocupação com a educação e o sucesso dos alunos.
Não, lamentavelmente, o sr. ministro não descobriu o modelo certo!

12/01/16

Contos de fadas

338º Aniversário de Charles Perrault

338º Aniversário de Charles Perrault

Doodle Charles Perrault (Foto: Reprodução/Google)
Doodles sobre Charles Perrault (12/1/1628 – 16-5-1703), por  Sophie Diao

Perrault estabeleceu as bases de um novo género literário, o conto de fadas, além de ter sido o primeiro a dar acabamento literário a esse tipo de literatura, o que lhe conferiu o título de "Pai da Literatura Infantil".
...
Já idoso, resolveu registar as histórias que ouvia a sua mãe nos salões parisienses. O livro, publicado em 11 de Janeiro de 1697, quando contava quase 75 anos, recebeu o nome de Histórias ou contos do tempo passado com moralidades, mas também era chamado de "Contos da Velha" e "Contos da Cegonha", ficando, afinal, conhecido como "Contos da mãe gansa". (wikipedia)

Charles Perrault celebraria esta terça-feira 388 anos.

11/01/16

"Perpetuum mobile"

Expresso, 9-1-2016

DN, 6-1-2016

Está quase tudo aqui. Mais palavras para quê? Ainda valerá a pena tentar compreender o que se passa no sector da educação ? Vai sendo tarefa quase impossível não porque a mudança é necessária mas porque um perpetuum mobile , improviso, remendo, sem estratégia, sem alternativas, meramente ideológico dominou as alternâncias do ministério.  
Não seria possível um compromisso para cinco, dez anos... para os exames? Claro, esta questão já foi "arrumada" até um próximo governo. 

E não haverá uma possibilidade de compromisso para o chamado "ensino vocacional" ? Os cursos vocacionais são uma necessidade dos alunos, não só no secundário (cursos profissionais) mas mesmo ao nível do 3º ciclo. 

Conheci muito bem o desespero e desânimo destes alunos e das suas famílias. Seria importante que o sr. ministro lhes desse respostas e não ideologia. Se pensa que é progresso todos os alunos frequentarem o mesmo currículo até ao final do 9º ano, está muito enganado.
Pelo menos,  por uma vez, seria inteligente não deitar fora o menino com a água do banho!



30/11/15

"Tal como um raio x ..."

Também vão acabar com as provas aferidas no 4º ano? As razões que têm defendido para acabar com os exames servem, igualmente, para as provas aferidas. A primeira razão é que ser da (dita) esquerda significa ser contra as avaliações, e isso é uma questão de "progresso". Depois há razões de peso. Uma delas é esta de Costa: “Tal como um raio x não cura um doente também um exame não faz a aprendizagem dos alunos”.

Como já escrevi,  deve haver exames nos finais de ciclo mas também é igualmente importante que para além dos exames se modifiquem as condições escolares e pedagógicas de forma a poderem ser superados os consequentes constrangimentos daí resultantes.
Os exames são necessários, independentemente da discussão sobre o peso e a forma de realização. É sempre possível fazer melhor.
Aquilo que se devia discutir e solucionar são os resultados dos exames uma vez que devem ser conjugados com o cumprimento da escolaridade obrigatória, ou seja, que soluções devem ser propostas para os alunos com insucesso.
Por outro lado, a avaliação, exames ou provas aferidas são indispensáveis para a avaliação do sistema educativo, para regulação do sistema, para avaliação dos erros de ensino e de aprendizagem, para avaliação das dificuldades dos alunos ...
Se o processo de avaliação, exames ou provas de aferição, serve apenas para se saber quem passa e quem chumba, como também aqui disse, chumbar é estúpido se não houver maneira de resolver este assunto. Um processo tão complexo e caro não pode terminar nos resultados. O problema não é a avaliação é a retenção. É preciso dar resposta aos alunos que ficam retidos.
Tão perniciosa para a sociedade é a existência de exames sem ter soluções para as consequências (retenções) como o facilitismo demagógico que Costa/Catarina/Jerónimo estão a fazer. Dois erros educativos que se pagam caro.

Este é apenas o primeiro passo:
Cerca de 100 mil alunos do 4º ano já não terão de realizar em 2016 as provas finais de Português e Matemática, depois de a maioria de esquerda ter aprovado ontem no Parlamento o fim destes exames, introduzidos em 2012/2013 por Nuno Crato. As provas estavam agendadas para 24 e 26 de maio e pesavam 30% na avaliação dos alunos, que agora passa a depender em exclusivo da nota obtida na escola. PS, PCP, BE, PEV e PAN aprovaram os projetos de lei apresentados por BE e PCP, enquanto PSD e CDS-PP votaram contra.
O que vem já a seguir é ainda melhor:
Ou seja, pior era impossível.

Mas pior é mesmo possível.

Foi quase com as lágrimas nos olhos que li a  bonita e glamorosa frase:  António Costa diz que é preciso "reacender a paixão pela educação".
O objectivo seria, talvez, reviver o passado. Um passado de "imensa festa" que deixou  quatro anos de amargos de boca. Mas para os responsáveis pelo bailout isso não interessa nada. Eles querem regressar ao regabofe.
O que na realidade se passou foi isto e ainda bem que foi reorganizado um serviço educativo que era mais uma despesa desnecessária. Assim, "a rede de 120 CQEP tem um custo estimado de oito milhões de euros anuais, estimativas que se contrapõem a gastos de 110 milhões de euros anuais em 2011 com o financiamento da rede de CNO, quando estavam instaladas 422 destas unidades."

Para além dos custos, era bem melhor,  como escrevi noutro sítio, que fossem criadas "oportunidades hoje" e não "novas oportunidades amanhã". Mas já percebemos que pretende voltar a uma ideia e uma prática de falsa igualdade e de falso progresso:
"Outro ponto marcante da sua intervenção foi “a garantia da igualdade no ensino” – um ponto em que fez duras críticas ao atual Governo. “Recusaremos liminarmente a ideia de antecipar para o Básico as diferenciações vocacionais, porque, sobretudo numa idade precoce, representa prolongar na sociedade de forma duradoura fraturas sociais. Custa-me que 40 anos depois do 25 de Abril de 1974 se tente voltar ao período anterior à reforma de 1973. Esse é um retrocesso que não podemos aceitar e que temos de fazer uma muralha, uma linha vermelha sobre a qual não é possível transigir”, frisou o secretário-geral do PS." (Observador, 24-3-2015).
É por isto que as reformas da educação não passam de reformas-fogacho. Não passam de paixões. Desde Veiga Simão que andamos nisto.

17/11/15

"Les fleurs et les bougies, c'est pour nous protéger"

Como explicar às crianças a guerra, o terrorismo, a morte? Como explicar às crianças aquilo que nem os adultos compreendem muito bem?  As notícias sobre os assassinatos de Paris inundam os media e as pessoas dificilmente as podem esquecer. Interrogamo-nos sobre o que leva estes radicais a cometer estes crimes, e sobre o que está a acontecer na nossa sociedade, no nosso mundo.
Estátua da liberdade - Paris 
Além da guerra em si mesma, há também uma guerra psicológica que é vivida todos os dias pelos sobreviventes e por todas as pessoas que de uma maneira ou outra viveram aqueles acontecimentos. 
Mais tarde ou mais cedo vão acabar por surgir perguntas feitas pelas crianças.
Os diálogos com as crianças devem ter em conta a idade e o seu desenvolvimento cognitivo, social e moral. Obviamente que a comunicação deve ser ajustada a esse desenvolvimento.
Há que ter em conta que as crianças por aprendizagem e por modelagem aprendem as emoções dos pais, a ansiedade dos pais e elas próprias acabam por ficar ansiosas se sentirem ansiedade à sua volta.
Como em outra situação qualquer, a criança vai ficar com medo se nós, através da nossa comunicação, lhes incutirmos esse medo, seja ele qual for: da guerra, do terror, ou de coisas do quotidiano: o medo da escola, dos exames…
Face a tantas notícias, os nossos comentários em família ou com outras pessoas estão carregados emocionalmente, tal como acontece com as conversas dos amigos ou dos colegas na escola, por isso elas estão despertas para aquilo que se passa à sua volta, principalmente quando atinge este tipo de gravidade.
Deve-se deixar que as crianças falem das suas dúvidas e interrogações, deve-se deixar que as crianças exprimam o que sentem sobre a sua ansiedade, o seu sofrimento ou o sofrimento dos outros através de várias formas de expressão como o desenho e a pintura…
Não adianta explicar pormenores sobre o que aconteceu. A criança, geralmente, fica satisfeita com a resposta que lhe dermos.
Não vale a pena usar palavras difíceis, termos complicados ou com muitos números, mesmo que a criança já esteja no período operatório.
Tal como nós, a criança precisa de se sentir segura, tem de perceber que alguém lhe dá segurança e amor e este é o melhor remédio para não ficar ansiosa. 
"Les fleurs et les bougies, c'est pour nous protéger" 
Há perguntas mais difíceis de responder quando se coloca a questão do “porque é que as pessoas fazem isto ? “ Porque nos remete para a questão do bem e do mal. Não sei se há um "eixo do mal" mas todas as pessoas são influenciadas por causas familiares, psicológicas, sociais, políticas e religiosas, e apenas algumas têm estas práticas. Há também diferenças psicológicas que geram diferentes comportamentos: Para umas, as emoções como a bondade e o perdão fazem parte do seu comportamento e outras cheias de ódio, querem impor as suas ideias através da violência. Por outro lado, sabemos que a mente do terrorista suicida, foi sujeita a técnicas sofisticadas de condicionamento para doutrinar e executar actos de violência e terror, matando pessoas, ainda que  totalmente inocentes. E isto é uma realidade de que  é necessário proteger os cidadãos  e que também não deve ser ignorada nem escondida.
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09/11/15

Fantásticas desatenções da infância

Miguel Araújo  - Capitão fantástico

Da estação-Mãe para, mais tarde, a estação-Patrícia: "Ele há qualquer coisa nos olhos de Patrícia que não me deixa dormir"

Miguel Araújo - Canção do ciclo preparatório

e lembro-me da desatenção de 

Page d’écriture
Deux et deux quatre
quatre et quarte huit
huit et huit font seize…
Répétez ! dit le maître
Deux et deux quatre
quatre et quatre huit
huit et huit font seize.
Mais voilà l’oiseau lyre
qui passe dans le ciel
l’enfant le voit
l’enfant l’entend
l’enfant l’appelle
Sauve-moi
joue avec moi
oiseau !
Alors l’oiseau descend
et joue avec l’enfant
Deux et deux quatre…
Répétez ! dit le maître
et l’enfant joue
l’oiseau joue avec lui…
Quatre et quatre huit
huit et huit font seize
et seize et seize qu’est-ce qu’ils font ?
Ils ne font rien seize et seize
et surtout pas trente-deux
de toute façon
ils s’en vont.
Et l’enfant a caché l’oiseau
dans son pupitre
et tous les enfants
entendent sa chanson
et tous les enfants
entendent la musique
et huit et huit à leur tour s’en vont
et quatre et quatre et deux et deux
à leur tour fichent le camp
et un et un ne font ni une ni deux
un à un s’en vont également.
Et l’oiseau lyre joue
et l’enfant chante
et le professeur crie :
Quand vous aurez fini de faire le pitre
Mais tous les autres enfants
écoutent la musique
et les murs de la classe
s’écroulent tranquillement
Et les vitres redeviennent sable
l’encre redevient eau
les pupitres redeviennent arbres
la craie redevient falaise
le port-plume redevient oiseau.

Jacques Prévert - Paroles
in Alberto Carneiro, Elvira Leite e Manuela Malpique, O espaço pedagógico, 2 Corpo/Espaço/Comunicação



Yves Montand - Page d´écriture

23/04/15

A antibiblioteca



Hoje, 23 de Abril, celebra-se o Dia mundial do livro e dos direitos de autor. A comemoração desta data tem como objectivo reconhecer a importância e a utilidade dos livros, assim como incentivar hábitos de leitura na população.
 Esta data foi escolhida, em 1995, pela UNESCO, por ser um dia importante para a literatura mundial  - a 23 de Abril faleceu Miguel de Cervantes (1616), nasceu Vladimir Nabokov (1899) e nasceu e morreu William Shakespeare (1564 e 1616).

1. Os livros são um importante meio de transmissão de cultura e informação. 

Os livros são para serem lidos. E muitos são. Mas outros ficam na biblioteca à espera que o sejam.
Nassim N. Taleb (O Cisne Negro - o impacto do altamente improvável), escreve na primeira parte a que chama a antibiblioteca de Umberto Eco ou como procuramos obter validação, a forma, “como nós humanos, lidamos com o conhecimento – e a nossa preferência pelo anedótico em detrimento do empírico.”

A biblioteca de Umberto Eco que segundo uma interessante entrevista da Revista do Expresso (18-4-2015)  deve andar na ordem dos cinquenta mil livros, tem muitos livros que Eco nunca leu e constituem o que Taleb chama de antibiblioteca. Claro que tantos livros “não servem para inflamar o ego” e os livros lidos e não lidos são uma "ferramenta de investigação". 

Os livros não lidos da nossa biblioteca mostram aquilo que não sabemos. “Acumulamos mais conhecimento e mais livros à medida que envelhecemos e o crescente número de livros não lidos nas prateleiras observar-nos-á de forma ameaçadora. Na verdade quanto mais sabemos mais extensas são as filas dos livros por ler."
Desprezar a parte virgem da biblioteca, os livros por ler, leva à “confirmação do erro”, uma vez que temos tendência a confirmar o nosso conhecimento e não a nossa ignorância.
O livro é uma ferramenta do desenvolvimento do espírito crítico. Tão necessário hoje em dia que vivemos numa situação paradoxal ao termos um acesso quase ilimitado a qualquer tipo de informação, tipo wikipedia, mas não sabemos seleccionar essa informação. Ora não saber seleccionar o que lemos equivale a perda de tempo e ou maior confusão.

2. Os livros são um elemento fundamental no processo educativo. André Mareuil (Le livre et la construction de la personalité de l'enfant ( pag. 51-101) descreve alguns aspectos desse processo:
O livro é um meio de catarse: permite à criança reviver situações ansiogénicas que ela tem necessidade de conhecer e traz ao inconsciente (mais do que ao consciente) do jovem leitor o conhecimento dos jogos edipianos.
A leitura pode dar informações sobre os problemas (pós-edipianos) acerca da  sexualidade.
O livro é ainda um meio de sublimação (no sentido da substituição de um impulso sexual ou afectivo por outro de natureza intelectual ou artística):  como meio de ultrapassar as dificuldades, como descoberta da ciência e como sublimação pelo humor (como os livros de banda desenhada, do Asterix ao Lucky Luke).

3. Ler um livro é uma fonte de prazer intelectual quando temos aquela sensação de estarmos por dentro do pensamento do autor, de prazer erótico, identificando-nos com os personagens, imitando ou recusando os seus papéis...

13/11/14

Muros


Em 1961, Berlim passou a estar dividida por um muro, que de algum modo representava uma divisão mundial que ficou conhecida como Guerra Fria.

Há 25 anos (9 de Novembro de 1989) o muro foi derrubado. A barreira de betão que dividiu Berlim, a Alemanha, a Europa e o mundo durante quase 30 anos caiu, aparentemente com alguma surpresa e facilidade.
No entanto, muitos contribuíram para que isso acontecesse: Gorbatchov, Lech Walesa, Reagan (“Senhor Gorbatchov, derrube este muro”), e sobretudo os que perderam a vida devido a essa divisão. Estima-se que 136 pessoas tenham perdido a vida a tentar passar para a República Federal Alemã (RFA). 
As comemorações dos 25 anos da queda do muro mostram que não há alternativa à liberdade dos cidadãos mesmo que nem tudo tenha sido positivo, como dizem os saudosistas que podem agora manifestar-se livremente. (Observador)

Mas há outros muros físicos e culturais que continuam a existir no nosso mundo, na nossa sociedade.
São os muros que não queremos, nas palavras dos Pink Floyd,  porque não necessitamos de uma educação de obediência cega, que humilha as crianças, não precisamos de controle mental, não somos apenas um tijolo no muro.

As sociedades através da escola podem propor modelos diferentes de cultura: a cultura muro ou a cultura rede (Bruno Munari).
A cultura muro é a acumulação de noções, apenas pode aumentar pela junção de novos tijolos. Esta cultura considera o processo de aprendizagem como a sedimentação de camadas sucessivas de saberes, que se empilham uns sobre os outros, lenta e progressivamente. 
O muro é apenas construído de baixo para cima. Há apenas uma única maneira de aceder ao saber. Cada noção deve ser bem distinta das outras, cada disciplina bem separada das outras. O muro não é susceptível de mudança.
Mas há a cultura rede que significa tecer o maior número possível de relações entre noções. Uma rede é uma transformação permanente.
Não há uma única maneira de aceder ao saber. Uma rede pode ser construída a partir de um ponto qualquer. Aprender significa modificar e transformar continuamente as conexões entre noções, sejam novas ou já conhecidas. Para facilitar a construção da rede importa multiplicar os pontos de vista. Uma rede não está nunca construída, mas necessita de modificações e cuidados constantes... 
Já Pascal escrevia que era preferível “uma cabeça bem feita a uma cabeça bem cheia”.

Por ocasião do 25º aniversário da queda do Muro de Berlim, o Papa Francisco pediu a construção de pontes e não de muros. Disse ainda que "a queda do Muro chegou de forma imprevista, mas foi possível graças ao longo e difícil compromisso de todas as pessoas que lutaram, rezaram e sofreram .
E´necessarrio que "se desenvolva cada vez mais a cultura do encontro, susceptível de fazer cair todos os muros que ainda dividem o mundo, e para que nunca mais os inocentes sejam perseguidos ou, às vezes, mortos por suas crenças e religiões".
"Precisamos de pontes, não de muros". 

12/02/14

Kruel ou a magia de aprender a ler


A aprendizagem da leitura e escrita é a base fundamental do currículo dos primeiros anos de escolaridade. 
Tudo vai bem quando o aluno entra facilmente neste processo. E a maioria das crianças aprende a leitura e escrita sem grandes sobressaltos.
Mas para algumas crianças e famílias, aprender a ler e escrever é um problema muito perturbador, no início da escolaridade. E é aqui que começa a grande dificuldade da escola.
A esperança dos pais de que tudo vai correr bem, na escola, com o seu filho transforma-se, rapidamente, em desespero e numa verdadeira fonte de perturbação e conflito da vida familiar.
Este é também o problema com que se deparam muitos professores mesmo aqueles que, com longa experiência profissional e sabedoria, não conseguem que esses alunos entrem minimamente neste processo de aprendizagem.
Por isso, ao longo do tempo, têm surgido vários métodos de aprendizagem da leitura e escrita. 

Decroly foi um dos iniciadores do método global. Iniciou este método porque todos os outros falhavam. Ele próprio, indisciplinado, teve dificuldades na escola e propôs uma nova concepção de ensino.
O método João de Deus, também em reacção ao método tradicional, "segue uma via completamente original, quando apresenta as dificuldades da língua de uma forma gradual, numa progressão pedagógica que constitui um verdadeiro estudo da língua portuguesa."
Alguns professores, não satisfeitos com os métodos existentes, criaram eles próprios métodos novos com o objectivo de fazer com que todas as crianças pudessem aprender a ler.


Yolanda Betim Paes Leme de Kruel, criou o método das 28 palavras. Essas palavras são apresentadas às crianças através de uma história que se irá contando ao longo do ano. É uma história que termina como um poema de Walt Whitman: «tudo o que a menina viu, nela se tornou». (Também aqui)

Entre nós, a versão actual de Camila Santos, Conceição Liquito, Rosalina Veiga, chama-se "Caixinha de Palavras"  que "é uma caixinha mágica, pois com ela aprendemos a ler e escrever, o que é uma verdadeira magia."
O método das 28 palavras "ajuda a descobrir a leitura e a escrita usando 28 palavras-chave divididas em sílabas que se poderão combinar com o objectivo de descobrir novas palavras. É um método que funciona por descoberta, ou seja, a criança aprende descobrindo!"
O método das 28 palavras "é um método analítico, partindo do todo para o particular. Parte da palavra, considerada como um todo (pelo menos nas primeiras 4 palavras), sem descer à análise dos seus elementos."
"Aparece, então, a sua decomposição até que sejam perfeitamente reconhecidas as sílabas que compõem as palavras-chave. Com essas sílabas, novas palavras se formarão."

Aquilo que parece fazer discordar os defensores exclusivistas do método sintético  é dizer "que a aprendizagem se faz por descoberta." Mas dizer que há descoberta na aprendizagem não passa de um truísmo porque há sempre um momento de descoberta na aprendizagem em que o aluno acomoda a assimilação de um elemento novo (Piaget)
Não significa isto que se dispense o ensino e o trabalho do professor ou do educador, pelo contrário, como sabemos da “teoria da instrução” de Bruner. Mas apenas não se pode esquecer que "aprender é sempre um trabalho de autor." (Bruner) 
Creio que qualquer método pode ser eficaz para um determinado aluno se com ele o aluno aprende a ler e a escrever.

Não vou alimentar a discórdia  que existe sobre os métodos. O que sei é que é necessário procurar o método eficaz para o aluno aprender, seja o método a,  b , c, sintético, global ou de ponto de partida...
Até porque me parece um falso debate. De facto, J. Chall, num estudo exaustivo, mostrou que os métodos chegam aos mesmos resultados, concluindo que de uma maneira geral, os resultados não diferem muito quando são usados diferentes métodos para o ensino da leitura. (referido por F. Sequeira, in Maturidade linguística e aprendizagem da leitura, Braga, Universidade do Minho, 1989, pag. 70).
A “guerra” entre métodos globais e silábicos parece ter sido importante em França. F. L. Viana coloca a questão nos seus devidos termos, de forma interessante e desapaixonada, em Aprender a ler: apenas uma questão de métodos?

Quando deparamos com alunos que devido às suas diferenças, dificuldades de aprendizagem, dificuldades específicas de aprendizagem ou outra tipologia de necessidades educativas especiais, não aprende a ler, provavelmente, temos que mudar de método.
Nas equipas de trabalho de que faço parte, o método das 28 palavras tem sido utilizado com alguns alunos por professores experientes.
Têm tido sucesso em relação a alunos que manifestam muitas dificuldades na aprendizagem da leitura e escrita pelo método tradicional. E esse é um dado evidente: não aprendem como as outras crianças, mas a mudança de método tem tido resultados, em alguns casos, espectaculares. De repente, os alunos começam a ler.
Mas os benefícios são muito mais vastos: a criança sente-se capaz de aprender como as outras crianças. As letras e as palavras começam a fazer sentido. A escola começa a ser vista de outro modo. Deixa de ser um local de grande sofrimento, de medo, de frustração, que leva a problemas de autoestima, em alguns casos de desinteresse pelas actividades e mesmo pela escola.
Kruel não é cruel. Insensibilidade será assistir  às dificuldades da criança sem nada fazer e deixar que ao fim de seis meses, ao fim do ano, ela continue no i de igreja ou de ilha, que irá repetir no ano seguinte...  

11/09/13

Os dons do jardim de infância


Os dons de Froebel (tirada daqui )


O jardim de infância faz parte da nossa vida, provavelmente, mas quase por certo faz parte da vida dos nossos filhos e dos nossos netos. Vivenciamos estas situações de forma diferente quando somos os alunos, os pais ou os avós, mas igualmente nos emocionamos em cada uma destas novas situações: Como será que se vai adaptar à educadora, aos colegas, como vai brincar, alimentar-se, falar do pai e da mãe, da família ?
Vai chorar, vai chamar pela mãe, vai ser posto de parte pelos companheiros, estará interessado nas actividades, vai isolar-se ? 

Embora muita gente da minha geração não tivesse jardim de infância e não foi por isso que deixaram de ter carreiras profissionais, algumas brilhantes, é hoje entendida, genericamente, a importância que o jardim de infância tem na sociedade actual .
Digo sociedade actual porque foram as condições sociais principalmente o trabalho da mulher e a ausência da família alargada que a necessidade de respostas deste tipo se tornou imprescindível. *

Mas o jardim de infância vale por si na medida em que ele é necessário para o desenvolvimento das crianças.
É tão importante que há quem considere que "tudo o que eu devia saber na vida aprendi no jardim de infância". (título do livro de Robert Fulghum)
Obviamente que muitas coisas que precisamos saber também aprendemos com os pais e com a sociedade mas muitas das bases da nossa educação e cultura vêm do jardim de infância. É um tempo crucial para o desenvolvimento e para a formação da nossa personalidade.
Os dons do jardim de infância ou os pilares fundamentais do jardim de infância, como os dons de Froebel, o criador do primeiro jardim de infância (kindergarten), continuam a ser: o jogo, o trabalho, a disciplina e a liberdade. 
Aprende-se, principalmente, a ser autónomo, independente, a fazer a sua higiene, a falar bem, a jogar, a respeitar os colegas, a arrumar, a pedir desculpa, a pedir por favor, a dizer bom dia, a ter cuidado com o trânsito, a ser pacífico, a aprender a pensar o que os outros pensam (teoria da mente).
É um dos períodos de desenvolvimento mais engraçados da nossa vida dada a pouca preocupação com a lógica ou com a realidade e em que a criatividade e associação livre estão sempre presentes.

Se hoje em dia todos os pais compreendem que os filhos devem frequentar o jardim de infância, pelos dons que transmitem à criança, os pais têm que conversar sobre este assunto tão importante e tomar uma decisão em relação ao jardim de infância que melhores condições oferece.
Os pais devem ter confiança na instituição e na educadora. Tem que se ter confiança para lhes podermos entregar o que de melhor temos da nossa vida. É uma situação da máxima responsabilidade.

É por isso que o jardim de infância e a escola estão bem e recomendam-se. As instituições educativas são lugares agradáveis e pacíficos, no mínimo tão pacíficos como as famílias e a sociedade em que estão inseridos.
É por  isso que, como pais e avós, continuamos a confiar nos educadores e lhes entregamos todos os dias os nossos filhos e netos. Para que continuem a desenvolver-se de uma forma equilibrada e a aprender os valores da paz e da vida em sociedade.  
Nem podia ser de outra maneira. Que pais deixariam os seus filhos num lugar que não fosse agradável, de confiança e de paz ? 

04/07/13

Adolescentes e actividades de férias


Alvor

Acabou a escola, os exames estão praticamente no final. Que fazer até Setembro? É muito tempo para ficar inactivo ou para andar por aí…
O grupo etário dos adolescentes de 13-15 anos é particularmente sensível a esta questão porque tem sido  particularmente desfavorecido em relação à criação de respostas sociais e psicopedagógicas, ajustadas às suas características, como acontece com as actividades de férias e em que os adolescentes se encontram numa fase de desenvolvimento muito importante para a autonomia segura e saudável.
A oferta de actividades de férias é escassa, mas não deixa de ser importante para a ocupação dos jovens e para o seu desenvolvimento.
As transformações sociais trouxeram também evolução no que se refere a estas actividades. As antigas colónias de férias tão positivas para alguns, foram, para outros, um grande aborrecimento e, por isso, os pais podem ter receio de deixarem participar os filhos neste tipo de actividades, dada a experiência negativa que eles próprios tiveram..
No entanto, mesmo que a experiência tenha sido positiva, isso não invalida a importância de fazer uma selecção rigorosa dos serviços e empresas que oferecem estas actividades.

As actividades de férias caracterizam-se por serem livres, lúdicas, criativas, educativas e hedonistas.
Além disso, elas favorecem o desenvolvimento emocional: “ O distanciamento em relação aos pais que o adolescente tem necessidade de tomar a certa altura, é quase sempre mal suportado por estes e interpretado como um desinteresse afectivo. Os pais sentem-se abandonados e preteridos pelos filhos quando estes se isolam ou procuram os grupos dos seus pares, rapazes e raparigas da mesma idade. Este afastamento normal e transitório a que os pais reagem com sofrimento, abre a porta a uma situação que pode ser trágica e que é necessário evitar a todo o custo - a ruptura da comunicação pais - filhos, adultos - adolescentes". (Dias Cordeiro)
O grupo etário dos 13-15 anos inclui indivíduos na puberdade e adolescência, um período da vida de transformações somáticas, fisiológicas e psicológicas profundas.
Estas transformações permitem a abertura a novos valores interindividuais e sociais e a antecipação e construção de projectos de futuro. 
Dentre as perspectivas psicanalíticas merece uma particular referência a que considera a adolescência como perca dos objectos afectivos e como reacção de luto.
Os vários lutos evidenciam que "a adolescência‚ é o período da vida no qual o aparelho psíquico opera as mudanças mais importantes que arrastam em si profundos sentimentos de perca, geradores obrigatórios de aspectos depressivos. Portanto não existe adolescência normal sem depressão, sendo as formas anormais desta no fundo, decorrentes de um deficit da capacidade de tolerância do EU ao luto" (Amaral Dias, pag.56 e 57).

Os adolescentes dos 13-15 anos desenvolvem a sua maturidade, através de um processo de pesquisa e descoberta sendo as actividades de férias um tempo e um espaço privilegiados para isso.
Nas relações interpessoais, o afastamento da família‚ é feito progressivamente a partir dos 13 anos, atingindo o nível mais baixo aos 15. Ganha importância a amizade com adolescentes do mesmo sexo e posteriormente do sexo oposto.
As actividades de férias apostando nos interesses dos adolescentes e favorecendo a autonomia podem facilitar essa transição de forma saudável .