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11/04/19

Vale mais prevenir

Vale mais prevenir do que remediar diz o povo e com razão. Porém, continuamos a funcionar em várias áreas da nossa vida social esquecendo este razoável ditado. É assim com os incêndios, com os acidentes de viação e segurança rodoviária, com a segurança no trabalho, com os hábitos alimentares, com os comportamentos aditivos e desajustados, com as doenças mentais…

Hoje, vamos deter-nos na área da saúde, onde a prevenção deveria estar sempre presente, a propósito do Prémio Bial de Medicina Clínica 2018 entregue ao médico Mário Dinis Ribeiro que defende a realização de uma endoscopia digestiva alta em simultâneo com o rastreio do cancro colorretal, para prevenir cancros.*
“O trabalho premiado acompanhou, entre 2005 e 2017, cerca de 400 doentes com lesões gástricas malignas ou pré-malignas. A abordagem utilizada permitiu definir novas orientações na deteção e tratamento do cancro gástrico, um dos mais mortíferos em Portugal, sobretudo devido ao diagnóstico tardio e elevada letalidade consequente."
"… salienta do seu trabalho o papel da endoscopia na deteção precoce do cancro gástrico ou de lesões precursoras de cancro, substituindo, em muitas situações, a cirurgia. No trabalho apresentado são também expostas recomendações inerentes aos principais fatores de risco associados ao cancro gástrico: a infeção pelo Helicobacter pylori e hábitos dietéticos errados, incluindo o consumo aumentado de sal e o tabaco."

"… alguns estudos sugerem que a bactéria Helicobacter pylori – causadora de inflamação (gastrite) e úlceras no estômago - constitui um importante factor de risco para o desenvolvimento do cancro do estômago."
Ora sabemos que 75-80% da população portuguesa tem Helicobacter pylori que muitas vezes não apresenta qualquer sintoma e apenas o rastreio pode levar à sua detecção e a uma intervenção precoce.

Embora esta não seja a minha área profissional, penso que esta proposta tem um interesse muito relevante não só em termos curativos mas também, e é isso que aqui mais interessa, em termos de saúde preventiva.
Por experiência própria verifiquei que é assim. De um momento para o outro a nossa qualidade de vida diminui, aparecem sintomas que nunca tínhamos sentido antes e que também não sabemos definir/explicar muito bem. Ficamos fragilizados não só fisicamente mas socialmente, são as alterações alimentares, o desprazer da comida, as alterações na vida social, o desinteresse em viajar ou passear, o medo de nos sentirmos mal em qualquer altura inesperada…
A dificuldade de obter um diagnóstico leva-nos a percorrer a internet à procura de clarificação. Passa a ser uma tarefa ansiosamente persistente. Chás, medicamentos, tratamentos naturais, dietas, alimentos ácidos e alcalinos…etc. são apresentados como cura para o mal que nos aflige. O Dr Google tem soluções para tudo, algumas contraditórias, mas isso não nos afasta de procurar desesperadamente uma solução.

A prevenção beneficia quando conta com o testemunho de algumas pessoas mediaticamente mais conhecidas, que por esse motivo podem influenciar o comportamento de outras pessoas, como foi, há algum tempo, o caso referido nas redes sociais, de Patrícia Matos: “pivot da TVI, sofre com bactéria grave. A jornalista mantém-se afastada do pequeno ecrã enquanto faz tratamento agressivo”.
A identificação da nossa situação à destas pessoas, para alem da solidariedade, serve-nos de modelo e de esperança na medida em que há pessoas como nós, na mesma situação, e sabermos que vale a pena lutar contra a doença mesmo quando sabemos que o tratamento pode ser eficaz e definitivo ou não.

Vamos esperar para ver como é acolhida a proposta do Dr. Mário Ribeiro, prémio Bial 2018, não apenas pelo serviço nacional de saúde mas por todo o sistema de saúde.

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*"Esta necessidade foi assumida a nível europeu, tendo sido preconizada a realização de teste primário com pesquisa de sangue oculto nas fezes, na população assintomática entre os 50 e os 74 anos, e sem outros fatores de risco. Nesta estratégia, aos doentes com pesquisa de sangue oculto positivo é proposta a realização de colonoscopia." (SNS)

07/03/19

A condição masculina


1. A nível governamental, a preocupação com a situação das mulheres iniciou-se, de forma embrionária, em 1970. Com o 25 de Abril de 1974, Maria de Lourdes Pintasilgo, quando Ministra dos Assuntos Sociais, criou a Comissão da Condição Feminina (CCF),
Em 1990, passou a designar-se CIDM (Comissão para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres) e em 2007, passou a CIG – Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género.(1)
Desde a sua criação, muitos anos passaram, muitos estudos, projectos e decisões importantes para as mulheres foram tomadas, que também o foram para os homens, porém, faz falta ter em conta, principalmente nos dias de hoje, uma visão diferente da condição masculina, o que seria importante também para as mulheres.
Há sem dúvida um conjunto de especificidades que atrapalham a vida dos homens e que os tornam nas primeiras vítimas dos seus comportamentos, da sua cultura, da sua vida social.

2. Isto não pode justificar qualquer insensibilidade à discriminação e desvantagem das mulheres em relação aos homens, principalmente no que toca à violência. Doméstica ou não. (2) .

3. No entanto, se queremos mudar alguma coisa é também necessário reflectir sobre alguns factos que mostram desvantagens dos homens, expressas nas várias áreas da sociedade.
Resultado de vicissitudes biológicas, culturais e sociais manifestam-se em comportamentos evidenciados pelas estatísticas no que se pode designar como "masculinidade tóxica”:
"Nos Estados Unidos das 45.000 pessoas que se suicidam, 77% são homens . A OMS refere que mais de metade das mortes violentas nos homens corresponde a suicídios. Num estudo da ONG Promundo “numa amostragem com 1500 jovens concluiu-se que quase um em cada cinco tinha já considerado o suicídio para os seus problemas. E os mais sujeitos a este tipo de pensamento eram aqueles para os quais ser homem significa mostrar-se forte, não falar sobre os seus problemas, não exprimir as suas emoções.” (3)

4. Entre nós, por exemplo, devido à sua biologia, psicologia ou cultura, podemos elencar alguns dados preocupantes em que os homens são as principais vítimas dos seus comportamentos: (4)
- O número de presos corresponde a 93% de homens
- No consumo de álcool “os homens permanecem sendo os maiores consumidores".
- O género masculino tende a ser o mais afectado pelo consumo de drogas.
- O número de casos atendidos nas Comissões de Protecção de Crianças e Jovens (CPCJ) é superior no sexo masculino.
- Mais de metade (62%) dos alunos com NEE são rapazes.
- De 60 a 80% dos diagnósticos de dislexia são do sexo masculino.
- O diagnóstico de perturbação de hiperactividade com défice de atenção (PHDA) é mais frequente no sexo masculino, com uma relação de 2:1.
- O abandono escolar precoce é superior nos rapazes 14, 7 % em relação a 8,7 nas raparigas.
- O número de homens matriculados no acesso ao ensino superior, em 2018, é de menos 28283.
- O número de diplomados pelo ensino superior, em 2017, é 32422 rapazes contra 44.612 raparigas.
- Os rapazes manifestam mais agressividade do que as raparigas. Daniel Goleman (Inteligência Emocional) refere que a tendência para o crime manifesta-se cedo nestas crianças (pág. 258); "a impulsividade em garotos de 10 anos constitui um previsor da futura delinquência três vezes mais certeiro do que o QI." (pag 259)

5. Também o psicanalista franco-canadiano Guy Corneau, em “Filhos do silêncio” explica estes comportamentos do seguinte modo: "o pai está sujeito a uma regra de silêncio". Mostra a dificuldade das conversações íntimas entre os homens de diferentes gerações…
Os pais têm dificuldade e resistem a dar reconhecimento e aprovação aos filhos.
A intervenção do pai junto dos filhos parece assim ser um ponto fulcral de desvantagem para os homens a quem se nega a oportunidade de expressar os seus afectos pelos filhos ao mesmo tempo que estes se vêem privados dele. (O Livro da Psicologia, Marcador)

6. É tempo de mudar de paradigma. Podemos começar por esta sugestão de Jordan Peterson
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(1) Nos últimos anos, esta área da governação não tem sido pacífica quer a nível  das nomeações dos dirigentes para a Secretaria de Estado da Cidadania e Igualdade quer de algumas  intervenções que esta Comissão tem feito sobre a igualdade de género que passou a ser vista como ideologia de género.
Dar luta à ideologia de género é tarefa de qualquer democrata. 
O caminho parece ser o que é expresso pela presidente da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género, Teresa Fragoso, quando reconhece que “ainda há um longo caminho a percorrer para que as mulheres tenham as mesmas oportunidades que os homens” mas que “os homens também são altamente prejudicados pela forma como a sociedade está organizada”. (Negócios)

(2) Das 9.176 vítimas registadas pela APAV em 2017, mais de 80% eram do sexo feminino.

(3) Mário Freire, "Pais em tempos de crises - Masculinidade tóxica", Reconquista, 14/02/2019, dados baseados na revista digital Slate, OMS, ONG Promundo e do seu fundador Gary Baker.
 
(4) - Em 2017, havia 13440 presos, 12584 homens, 856 mulheres, o que corresponde a 93% de homens. (Pordata)
- No consumo de álcool “os homens permanecem sendo os maiores consumidores. Impulsividade e comportamento de risco para a saúde têm estreita relação, havendo na população masculina maior prevalência de comportamentos considerados impulsivo-agressivos.”
- “O género masculino tende a ser o mais afectado pelo consumo de drogas, embora o género feminino, depois da iniciação, tenha um percurso mais rápido e degradante.”
- O número de casos atendidos nas Comissões de Protecção das Crianças e Jovens (CPCJ), em 2017, é superior no sexo masculino.54,5% (38155) são do sexo masculino e 45,5% (31812) do sexo feminino.
- O número de alunos com NEE segundo a DGEEC ,” mais de metade dos alunos com NEE são rapazes: das cerca de 79 mil crianças registadas, 49 mil são do sexo masculino.
- Quanto ao problema da dislexia, de 60 a 80% dos diagnósticos são do sexo masculino, porém isso acontece porque os casos entre o sexo masculino costumam ser mais graves e associados a um maior número de comorbidades que entre o sexo feminino. Em estudos onde todos alunos de uma instituição de ensino são avaliados, a diferença de géneros é significativamente menor.
- O diagnóstico de perturbação de hiperacvidade com défice de atenção (PHDA) é mais frequente no sexo masculino, com uma relação de 2:1, ou seja, por cada rapariga que é diagnosticada com PHDA, são diagnosticados dois rapazes. No período da adolescência esta discrepância é atenuada.
- O abandono escolar precoce é superior nos rapazes, em 2018, 14,7 % em relação a 8,7 % nas raparigas, total 11,8 %. (Pordata)
- O número de homens matriculados no acesso ao ensino superior, em 2018, total 372753, 172.235 homens contra 200518 mulheres. (Pordata)
- O número de diplomados pelo ensino superior, em 2017, total 77034, 32422 homens, contra 44612 mulheres. (Pordata)

Médicos de família

1.  “Quase 29 mil portugueses não têm médico de família porque não querem.” (1) 
Eu sou um desses portugueses que não querem médico de família do SNS. Em determinada altura, foi-me atribuído um médico de família que eu não escolhi nem pedi e a quem não recorri, isto é, durante a minha vida,  por duas ou três vezes necessitei do médico de família do SNS.
Por falta de uso, a Administração Regional de Saúde do Centro - Unidade Local de Saúde enviou-me um ofício que rezava assim:
A falta de utilização dos cuidados de saúde primários durante mais de três anos fez com que fosse classificado como "utente inscrito no ACES (Agrupamento de Centros de Saúde) sem contacto nos últimos três anos".
Ainda bem que chegaram a esta conclusão.

2. No entanto, como qualquer pessoa, necessito de um médico de família. Por isso, sempre tive um médico que regularmente me acompanha a nível dos cuidados de saúde primários.
Aliás, valorizo de forma determinante o papel do médico de família num sistema de saúde: 
É o médico de família que muitas vezes detecta e compreende os sinais e sintomas de algum problema de saúde.
É o médico com quem acabamos por manter uma ligação maior, devido ao compromisso  e interesse com o doente ao longo do tempo.
Também por isso está em condições de fazer uma compreensão do contexto da doença, pessoal, familiar e social, que lhe permite avaliar mais detalhadamente os riscos e os recursos disponíveis e assim planear melhor as suas intervenções.
E ainda tem um papel fundamental a nível da educação para a saúde e da saúde preventiva.

3. Há uma infeliz confusão entre Sistema de Saúde com Serviço Nacional de Saúde. Embora no site do SNS seja claro que : O Serviço Nacional de Saúde (SNS) é o conjunto de instituições e serviços, dependentes do Ministério da Saúde, que têm como missão garantir o acesso de todos os cidadãos aos cuidados de saúde, nos limites dos recursos humanos, técnicos e financeiros disponíveis.
Refere a seguir: "Para além do SNS, existem diversos subsistemas de saúde, criados no âmbito de vários ministérios, empresas bancárias, seguradoras e outras instituições, para prestação de cuidados de saúde aos seus trabalhadores ou associados (ADSE, ADME, SAMS, etc.). Os beneficiários destes subsistemas podem utilizar também, caso o desejem, toda a rede do SNS.”
Além disso, “Diversas instituições de saúde privadas e profissionais em regime liberal completam a oferta de cuidados de saúde, prestando os seus serviços à população em regime privado ou através de acordos ou convenções quer com o SNS, quer com alguns dos subsistemas atrás referidos.”

4. Por tudo isto, continuo sem perceber a necessidade de todos os cidadãos terem médico de família do Serviço Nacional de Saúde, quando, como é o meu caso,  se tem um médico de um subsistema de saúde que  é, na realidade, o meu médico de família.
Não compreendo porque não pode haver médicos de família nos outros subsistemas de saúde, com as mesmas funções dos médicos de família do Serviço Nacional de Saúde que pudessem contribuir de forma articulada para um Sistema de Saúde Nacional.
Não compreendo a falta de capacidade para gerir os recursos existentes na comunidade de forma personalizada, racional e mais adequada para o doente. Poderia ser um contributo importante para poupar dinheiro ao orçamento de estado, permitir incluir no Serviço muitos doentes do quase  um milhão que esperam por médico de família, reduzir as listas de cada médico, reduzir o número de  crianças que não têm médico de família.
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(1) "Quase 29 mil portugueses não têm médico de família porque não querem.” “Dos 10,2 milhões de utentes inscritos nos centros de saúde portugueses, perto de 1,3 milhões não têm médico de família porque não lhes foi atribuído e 28.880 não têm porque não querem.” (Observador, 18/2/2015)
Em 2018, havia 749.613 utentes sem médico de família atribuído. (Público,16/10/2018)

12/02/19

Lembranças e esquecimentos


ZAZ - Si jamais j'oublie


Se eu me esquecer

Lembra-me o dia e o ano
Lembra-me do tempo que fazia
E se eu o esqueci
tu podes fazer-me reagir
E se eu quiser ir embora
Fecha-me e deita a chave fora
Com doses de estímulos
Diz como eu me chamo
Se um dia eu esquecer as noites que passei
As guitarras e as vozes
Lembra-me quem eu sou
Porque eu estou viva
Se um dia eu me esquecer de como escapar
Se um dia eu fugir
Lembra-me quem eu sou
O que eu prometia a mim mesmo
Lembra-me de meus sonhos mais loucos
Lembra-me das lágrimas no meu rosto
E se eu esquecer do quanto eu amava cantar
Lembra-me quem eu sou
Porque eu estou viva
Lembra-me do dia e do ano…


A memória pode definir-se como a capacidade de armazenar, processar e recuperar informação que provém de todo o ambiente que nos rodeia captada pelas nossas capacidades sensoriais.
Tanto as lembranças ou recordações como os esquecimentos ou amnésias estão presentes na nossa vida. Todos nós já alguma vez percebemos que nos esquecemos de alguma coisa, como não nos lembrarmos onde deixamos as chaves de casa ou termos o nome de uma pessoa "mesmo debaixo da língua", ou como respondem os alunos, quando são interrogados pelos professores mesmo quando estudaram: "sei mas não me lembro".
Também é engraçado quando nos acontece que nos lembramos de que nos esquecemos de dar um recado, ou de dar os parabéns a alguém.
Os "lapsos de memória" acontecem com frequência e não me refiro àqueles falsos lapsos de memória que acontecem muitas vezes nos tribunais e nas comissões de inquérito parlamentar...

A idade tem influência na frequência dos esquecimentos ou vai tornando mais difícil as lembranças, embora esta dificuldade possa também afectar  os mais jovens.
Muitos de nós têm a ideia de que se lembram de tudo o que ouvem ou fixam tudo o que vêem. No entanto, na realização de um teste psicológico de memória visual, como acontece no teste da Figura Complexa de Rey, acabam por verificar que afinal se esqueceram de muitas coisas, acrescentaram ou modificaram outras.
De facto, o processo de memorização envolve a complexidade do sistema nervoso, por um lado, e, por outro, a complexidade psicológica de todo o processo de aprendizagem, condicionamento operante, do tipo de tarefa e motivação e das emoções que acompanham a realidade da nossa vida.

Mesmo que não se atinjam situações tão graves como em algumas doenças em que se perde a própria identidade, à medida que envelhecemos os esquecimentos tornam-se uma realidade mais frequente. Cerca de 40% das pessoas com idade acima de 65 anos têm algum tipo de problema de memória, e a prevalência aumenta rapidamente com o aumento da idade.
Segundo um relatório da OCDE de 2017, em Portugal, 20 em cada mil habitantes sofrem de demência.  Um valor acima da média da OCDE que está nos 15 casos por mil habitantes (Relatório Health at a Glance, 2017), “A prevalência da demência, cuja forma mais comum é a doença de Alzheimer, é um indicador para monitorizar a saúde da população idosa, acrescentando que o envelhecimento da população tornará a demência mais comum. E os países “com um envelhecimento mais rápido verão esta prevalência mais do que duplicar nos próximos 20 anos”. (Ana Maia, Público, 10/11/2017)

Há uma canção de Zaz -“Se eu me esquecer” - que expressa bem este esquecimento, a necessidade de compreensão e apoio.


29/09/18

Momentos

Há momentos da nossa vida em que precisamos dos outros de uma forma mais intensa, mais empenhada e mais solidária.
Nestes momentos é reconfortante poder ter a esperança de que os enormes progressos científicos e técnicos adquiridos na área da saúde, física e mental, melhorem a nossa qualidade de vida, reduzindo a dor e sofrimento.
É animador poder ter confiança nas qualidades científicas, técnicas e humanas dos profissionais de saúde, médicos, enfermeiros, nas mãos de quem fazemos depender a nossa vida e do pessoal auxiliar que nos ajuda a ultrapassar as nossas limitações resultantes de fragilidades e dependências nas coisas mais básicas do dia a dia.

Nestes momentos entendemos melhor que a inclusão é um processo em que todos estão envolvidos  e de que todos irão precisar em algum momento da vida.

É muito bom poder ler e pensar com Séneca, Marco Aurélio, Epicteto, a filosofia... Nestes momentos mais difíceis, servem-me de lenitivo e refúgio com mais frequência  do que habitualmente.
Ou contar com a ajuda de estratégias como a meditação e oração, neste caso nas formas de obsecração e súplica, como é vista por João Cassiano e por John Main.
É fortalecedor contar com a psicologia positiva, proposta por Seligman, e procurar o bem-estar, conhecendo os pontos fortes da nossa personalidade, e a importância do optimismo como elemento fundamental da recuperação.

Por fim, talvez o mais importante, poder contar com o apoio da família onde, nestes momentos, os vínculos se manifestam com toda a sua força, e com o apoio de verdadeiros amigos que nos confirmam deste modo como gostam de nós.
É esta, verdadeiramente, a melhor sorte que podia ter.

(29 de Setembro - Dia mundial do coração)


20/08/18

Sobriedade

 
Demi Lovato (20/8/1992) - Sober
 
I got no excuses
For all of these goodbyes
Call me when it's over
'Cause I'm dying inside
Wake me up when the shakes are gone
And the cold sweats disappear
Call me when it's over
And myself has reappeared

I don't know, I don't know, I don't know, I don't know why
I do it every, every, every time
It's only when I'm lonely
Sometimes I just wanna cave
And I don't wanna fight
I try and I try and I try and I try and I try
Just hold me, I'm lonely

Momma, I'm so sorry, I'm not sober anymore
And daddy, please forgive me for
the drinks spilled on the floor
To the ones who never left me
We've been down this road before
I'm so sorry, I'm not sober anymore

I'm sorry to my future love
For the man that left my bed
For making love the way I saved for you
inside my head
And I'm sorry for the fans I lost
Who watched me fall again
I wanna be a role model
But I'm only human

I don't know, I don't know, I don't know, I don't know why
I do it every, every, every time
It's only when I'm lonely
Sometimes I just wanna cave
And I don't wanna fight
I try and I try and I try and I try and I try
Just hold me, I'm lonely

Momma, I'm so sorry I'm not sober anymore
And daddy, please forgive me
for the drinks spilled on the floor
To the ones who never left me
We've been down this road before
I'm so sorry, I'm not sober anymore
I'm not sober anymore

I'm sorry that I'm here again
I promise I'll get help
It wasn't my intention
I'm sorry to myself



Sobriedade

01/06/18

Jogo e desenvolvimento psicológico

Atividades para crianças: férias criativa e divertida 


jogo finalidade em si (Janet)
jogo energia vital que ultrapassa as necessidades imediatas e estimula o crescimento (Huizinga)
jogo realização do ego do indivíduo (Claperède e M. Mead)
jogo contágio e incubação de valores sócio-culturais
jogo secreção da actividade psicomotora
jogo "loisir" recriação como meio de libertação das preocupações e cansaço
jogo"momento de cultura"onde a criança se encontra com todas as possibilidades de expressão
         corporal, estética, coreográfica, literária, teatral, desportiva, científica
jogo expressão de uma vitalidade mental e concretização de um dom psicomotor
jogo"écran" onde se projecta o que ocupa, ou que invade o espírito e sensibilidade da criança
jogo recapitulação na ontogénese da filogénese (Stanley Hall)
jogo expressão psicomotora e sociomotora
jogo factor de libertação e formação
jogo realização psicomotora que não tende para nenhuma finalidade senão ela própria
jogo obstáculo à solidão, eclosão extra-espacial
jogo relação com os outros, factor essencial ao desenvolvimento da personalidade
jogo caminho para a conquista da autonomia da criança
jogo "écran"do quotidiano
jogo contributo para a realização de frustrações, de complexos, de insuficiências, de dificuldades de
       aprendizagem, de dificuldades relacionais, de reacções regressivas, de tendências agressivas e
       anti-sociais (Anna Freud)
jogo meio terapêutico no âmbito das perturbações psicomotores como também na esfera de
        prevenção de dificuldades escolares
jogo meio de expressão e libertação de forças não utilizadas (Schiller-Spencer)
jogo exercício de preparação para a vida séria (Gross)
jogo agente de crescimento dos órgãos dado que estimula a acção do sistema nervoso (Carr)
jogo exercício de tendências geralmente não utilizadas (Konrad-Langue)
jogo é tudo isto
        mas não é só isto...

***
Todas as crianças do mundo deviam ter direito a brincar, hoje, dia da criança, e todos os dias, em vez de estarem a lutar pela sobrevivência.

Artigo 31
1. Os Estados Partes reconhecem à criança o direito ao repouso e aos tempos livres, o direito de participar em jogos e actividades recreativas próprias da sua idade e de participar livremente na vida
cultural e artística.
2. Os Estados Partes respeitam e promovem o direito da criança de participar plenamente na vida cultural e artística e encorajam a organização, em seu benefício, de formas adequadas de tempos livres e de actividades recreativas, artísticas e culturais, em condições de igualdade.

(Convenção sobre os Direitos da Criança - Adoptada pela Assembleia Geral nas Nações Unidas, em 20 de Novembro de 1989 e ratificada por Portugal em 21 de Setembro de 1990).



12/04/18

Estratégias contra a ansiedade - a meditação

Falámos a semana passada em algumas estratégias de gestão e redução da ansiedade. Dissemos que o relaxamento e a meditação  podem ser usados como técnicas para esse efeito. As técnicas de meditação de atenção plena,  mindfulness, pode ser uma delas. Quero, no entanto, dar um enfoque diferente em relação à meditação, relevando nesta terapia o significado espiritual que ela envolve.

John Main (A palavra que leva ao silêncio) escreve sobre a meditação como um modo de “oração profunda que nos encaminhará para a experiência da união, longe das distracções superficiais e da auto-comiseração".
Ela é para crentes cristãos mas pode ser usada por todos os que querem descondicionar-se em relação à ansiedade.

Como meditar?
"Senta-te. Senta- te tranquilo e direito. Fecha levemente os teus olhos. Senta-te descontraído mas atento. Começa silenciosamente, intimamente, a dizer uma única palavra. Recomendamos a frase oração «Maranatha». Recita-a com quatro sílabas  de igual extensão. Escuta-a à medida que a dizes, gentilmente, mas de forma contínua. Não penses ou imagines coisa alguma – espiritual ou de outra natureza. Se acorrerem pensamentos e imagens, são distracções no tempo de meditação: persiste, pois, em dizer de novo apenas a palavra. Medita, todas as manhãs e todas as noites, cerca de vinte a trinta minutos." (p. 17)
"Para bem meditares, deves adoptar uma posição sentada confortável; esta deve ser confortável e descontraída, mas não desleixada. As costas devem estar tão direitas quanto possível, com a coluna numa posição vertical. Os que possuem um bom grau de flexibilidade e agilidade podem sentar-se no chão, com as pernas cruzadas." (p. 27)

Podemos aprender a meditar?
"Aprender a meditar não é justamente uma questão de dominar uma técnica. É antes aprender a apreciar e a responder directamente às profundezas da tua própria natureza, não da natureza humana em geral, mas da tua em particular…" (p 19)

Contexto cristão da meditação.
Para J Main, "meditação é sinónimo de termos como contemplação, oração contemplativa, oração meditativa, e assim por diante” (p. 19)
"A meditação é o processo muito simples pelo qual nos preparamos, em primeiro lugar, para estar em paz connosco, a fim de conseguirmos prezar a paz da Divindade dentro de nós”
"A visão da meditação que muita gente é encorajada  a ter como meio de descontração, de manter a sua quietação interior no meio das pressões da moderna vida urbana, não é em si essencialmente falsa. Mas , se isto é tudo o que ela afigura ser, então a visão é muito limitada…" (p 20)

Silêncio e  mantra
"A repetição fiel da nossa palavra – o mantra - é que integra todo o nosso ser. Fá-lo assim , porque nos encaminha para o silêncio, para a concentração, para o nível necessário de consciência que nos torna capazes de abrir a nossa mente e o nosso coração à acção do amor de Deus, na fundura do nosso ser." (p.31)

 Obectivos da meditação
"Ao começar a meditar temos três objectivos preliminares:
O primeiro é simplesmente dizer o mantra durante toda a duração da meditação...
O segundo é dizer o mantra sem interrupção ao longo da meditação...
O terceiro é proferir o mantra durante todo o tempo de meditação, inteiramente livre de todas as distracções..." (p 34-35)

Mantra vs narcisismo
Ao contrário do que possa parecer, embora a prática da meditação possa evidenciar narcisismo, “ a meditação intima-nos a abrir os nossos corações a esta luz e esta vida pelo expediente muito simples de prestar atenção; ou seja, prestar atenção à sua (Deus) presença em nós. (p.39)

Meditação vs auto-análise
"Poucas gerações têm sido tão introvertidas e auto-analíticas como a nossa e, todavia, a moderna auto-análise pode ser notoriamente improdutiva. A razão é que ela, como sugeri, tem sido radicalmente não-espiritual; ou seja, não foi levada a cabo à luz do Espírito, não teve em conta esta real e fundamental dimensão da nossa natureza. Sem o espírito não produtividade, não há criatividade ou possibilidade de crescimento."  (p.48)