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20/05/26

Os burgueses

 






Climáximo rouba no supermercado e distribui bens no Oriente (ZAP, 15 Maio, 2026).


Desta vez, os actuais ou futuros burgueses foram roubar um supermercado para redistribuirem... 
Talvez a canção de Jacques Brel ajude a explicar-lhes alguma coisa.

13/02/26

Serenidade e esperança: A música como terapia




"Nisi Dominus - Cum Dederit", de Antonio Vivaldi. 
Andreas Scholl


A música desperta as mais diversas emoções em cada um de nós. Por experiência própria, sabemos que a música muda o nosso estado emocional. Momentos de alegria e de tristeza têm a sua música apropriada. Momentos que vamos vivendo ou recordando ao longo da vida estão muitas vezes associados a determinadas músicas. 

A música é  fonte das emoções e sentimentos mais positivos como a alegria, gratidão, serenidade, esperança, amor... Ou, pelo contrário, desperta as mais terríveis emoções como n' A Sonata Kreutzer , de L. Tolstói, onde no capítulo 23, explica o "efeito sublime na alma" provocado pela música no despertar do ciúme.

Helena C. Peralta, em "A música (também) faz bem à saúde", Lusíadas, faz  referência a Daniel Levitin que "demonstrou que estamos mais musicalmente equipados do que pensamos, pois os nossos cérebros estão naturalmente dotados para a música e esta é, talvez, tão fundamental para a espécie humana como a própria linguagem."

Mesmo quando acontece a perda de capacidades é através da música que ainda se manifestam os sentimentos.  Oliver Sacks, em Musicofilia, conta-nos a história de Harry, e de como uma hemorragia cerebral o deixou seriamente afectado... "Tudo isto, contudo, mudava subitamente quando Harry cantava. Tinha uma bela voz de tenor e gostava muito de canções irlandesas. Quando cantava mostrava todas as emoções apropriadas à música - alegria, o humor, o sentimento trágico, o sublime..." (p. 306)

Sacks mostra a importância da música para  o nosso cérebro e de como ela pode ser uma das últimas formas de nos relacionarmos emocionalmente com os outros, com o mundo. 
"A percepção da música e das emoções que pode suscitar não depende apenas da memória e não é necessário que a música seja familiar para exercer o seu poder emocional. Vi doentes que sofriam de demência profunda chorarem ou tremerem enquanto ouviam uma música que nunca tinham ouvido antes, e penso que podem experimentar toda a gama de sentimentos que nós próprios experimentamos com a música e também que a demência, pelo menos nessas ocasiões, não diminui a profundidade da experiência emocional. Quem tenha observado estas respostas sabe que continua a existir um si-próprio que pode ser interpelado, ainda que seja a música, e só a música, a poder falar-lhe." (p. 348-349)

Quando se junta a letra do salmo 127 - Nisi Dominus/Cum dederit -  com a música de Vivaldi  encontramos um momento extraordinário de serenidade e esperança que se torna meditação em que a atenção focada em frases repetitivas nos desliga de tudo o que possa distrair do essencial.

Se não for o Senhor o construtor da casa,
será inútil trabalhar na construção.
Se não é o Senhor que vigia a cidade,
será inútil a sentinela montar guarda.
 
Será inútil levantar cedo e dormir tarde,
trabalhando arduamente por alimento.
O Senhor concede o sono
àqueles a quem ele ama.
 
Os filhos são herança do Senhor,
uma recompensa que ele dá.
Como flechas nas mãos do guerreiro
são os filhos nascidos na juventude.
 
Como é feliz o homem
que tem a sua aljava cheia deles!
Não será humilhado quando enfrentar
seus inimigos no tribunal. *

"O uso do ritmo siciliano** cria uma atmosfera de repouso quase transcendental, especialmente quando o trecho central, “Cum dederit dilectos suis somnum” ("Quando Ele concede sono aos seus amados"), é repetido de forma meditativa. Essa repetição reforça a ideia de que o verdadeiro descanso é um presente divino, resultado da graça e do cuidado de Deus, e não do esforço humano."

"A obra foi composta por Vivaldi para o Ospedale della Pietà, um orfanato e conservatório em Veneza, o que acrescenta um significado especial. Destinada a jovens em situação de vulnerabilidade, a música traz conforto ao destacar a proteção e a herança divina, como nos versos “Ecce haereditas Domini, filii / Merces, fructus ventris” ("Eis a herança do Senhor, os filhos / Recompensa, fruto do ventre"). A repetição de “fructus ventris” (fruto do ventre) enfatiza a bênção da vida e a esperança para o futuro." (Letras - Nisi dominus, cum denderit)

PS: Uma boa parte do país ficou debaixo de água. Serenidade e esperança: foi assim a reacção deste extraordinário povo quando a água tudo levou ou tudo destruiu.

____________________

* Na Vulgata corresponde ao Salmo 126.

** Forma musical barroca de carácter lento, bucólico e melancólico, frequentemente em modo menor.





29/01/26

A paixão pelo poder absoluto


Claudio Monteverdi - L’Incoronazione di Poppea (A Coroação de Popeia) - Pur ti miro. 


A paixão pelo poder absoluto é uma força destrutiva de controle e domínio quer na vida social e política quer nas relações pessoais. Para o comprovar basta assistir às notícias do quotidiano: Os actuais imperadores só se ouvem a eles e às suas paixões. Como sempre aconteceu.

Séneca, professor e conselheiro de Nero tenta aconselhá-lo a ser virtuoso e a cuidar do Estado, opondo-se aos desejos de Nero por Popeia em detrimento da imperatriz Otávia.
A racionalidade de Séneca não se fez valer. E vai ser fatalmente castigado por não dizer o que Nero quer ouvir. Popeia Sabina quer ser imperatriz, não importa como, nem por quê, nem para quê, mesmo que isso tenha o preço das intrigas, vinganças e assassinatos que vão atingir a própria Popeia.
O momento é de paixão e nada mais existe para além dela e do poder. Nero e a sua recém coroada imperatriz, Popeia, são dos mais perversos e corruptos personagens da história de Roma que se contemplam um ao outro como a si mesmo.

O dueto Pur ti miro, pur ti godo, mesmo que não tenha sido escrito por Monteverdi, é um dos mais belos e emocionantes momentos da história da ópera.



Pur ti miro

Pur ti miro, pur ti godo / Mas eu te contemplo, mas eu te desfruto
Pur ti stringo, pur t'annodo; / Mas eu te abraço, mas eu te prendo;
Più non peno, più non moro / Não sofro mais, não morro mais
O mia vita, o mio tesoro! / Ó minha vida, ó meu tesouro!
Io son tua, tuo son io / Sou teu, sou teu
Speme mia, dillo, di': /Minha esperança, diga, diga:"
Tu sei pur l'idolo mio" / "Tu és meu ídolo"
Sì, mio ben, sì mio cor / Sim, meu amor, sim, meu coração
Mia vita, sì! / Minha vida, sim!


28/01/26

Chuva ... Chuva... e um regresso nostálgico à infância


Regenlied - Brams

Que alterações climáticas? Vai chover menos, vai aquecer mais. De certeza? A Clintel que interessa?  Enquanto os espertos vão recolhendo os subsídios e a taxa de carbono e se preparam para o anunciado fracasso de futuras COP, o frio, a chuva vieram este ano como há alguns anos já não soía. 

Esta noite, entre as 5 e as 6 horas locais, a força da natureza (a depressão Kristin) manifestou-se aqui furiosa e um pouco por todo o país, como se quisesse dizer quem manda e o que acontece àquilo que lhe faz frente quando não se cumprem as suas regras.

Como em 2018, ou em 2025, a chuva não sai da nossa vida. Até ficarmos atolados e cansados... 

A parte boa é que, desde sempre, inspira poetas e compositores. 


Regenlied (Canção da chuva)


Flui, chuva, flui, 
Desperta meus sonhos de novo, 
Aqueles que sonhei na infância, 
Quando a água espumava na areia! 

Quando o calor abafado do verão 
Casualmente se misturava com o frescor, 
E as folhas nuas descongelavam 
E as sementes adquiriam um azul mais escuro, 

Que felicidade, na água corrente, 
Ficar descalço! Roçar a grama 
E segurar a espuma com as mãos, 
Ou apanhar gotas frias com as bochechas quentes, 

E abrir meu coração infantil aos aromas recém-despertados! 
Como os cálices que caíram, 
Minha alma se abriu, respirando, 
Como as flores, embriagadas de fragrância, 

Mergulhadas no orvalho do céu. 
Cada gota esfriava com um tremor 
Bem fundo no pulsar do coração, 
E a sagrada trama da criação 
Impulsionada para a vida oculta. 

Flua, chuva, flua, 
Desperta minhas antigas canções, 
Que cantávamos na porta, 
Quando as gotas lá fora soavam! 

Anseio por ouvi-las novamente, 
Seu doce e húmido murmúrio, 
Suavemente humedece minha alma 
Com o temor piedoso da infância.


Klaus Groth (1819 - 1899)



27/01/26

Um hino para o tempo presente







Podemos tocar os sinos que ainda podem tocar. Não há soluções perfeitas mas há sempre uma falha por onde entra a luz, a esperança  e a mudança.

Que outra coisa temos visto que não seja uma grande desilusão? A pomba da paz é capturada novamente, um pouco por todo mundo. Os conflitos que matam crianças inocentes recrudescem sempre de novo. Não há sequer um pequeno intervalo de compaixão. Não há lugar para a pomba sagrada da paz. O tempo presente é feito de maldade e sem esperança num lugar longe, muito longe, da felicidade.

Mas este tempo também há-de ter uma falha onde vamos aprender com o passado e o presente desastroso das guerras. 
fragilidade da paz há-de romper nas pedras duras das dificuldades e desesperança. Em vez do silvo mortal dos mísseis, o canto dos pássaros, ao romper do dia, será a música do coração dos homens.  

Há sempre uma falha por onde entra a luz...



Hino / Anthem

Os pássaros cantam / The birds they sang
No romper do dia /At the break of day
Comece de novo / Start again
Eu ouço eles dizendo / I heard them say
Não se apoie naquilo / Don't dwell on what
Que passou / Has passed away
Ou naquilo que está para vir / Or what is yet to be

Ah, as guerras / Ah the wars they will
Elas serão lutadas de novo / Be fought again
A pomba sagrada / The holy dove
Ela será apanhada novamente / She will be caught again
Comprada e vendida / Bought and sold
E comprada de novo / And bought again
A pomba nunca está livre / The dove is never free

Toque os sinos que ainda podem tocar / Ring the bells that still can ring
Esqueça sua oferenda perfeita / Forget your perfect offering
Há uma falha em tudo / There is a crack in everything
É assim que a luz entra / That's how the light gets in

Nós pedimos sinais / We asked for signs
Os sinais foram enviados / The signs were sent
O nascimento traído / The birth betrayed
O casamento gasto / The marriage spent
Sim, a viuvez / Yeah the widowhood
De todo governo / Of every government --
Sinais para todos verem / Signs for all to see

Eu não posso mais correr / I can't run no more
Com essa multidão descontrolada / With that lawless crowd
Enquanto os assassinos em lugares altos / While the killers in high places
Fazem suas orações em voz alta / Say their prayers out loud
Mas eles invocaram, eles invocaram / But they've summoned, they've summoned up
Uma tempestade / A thundercloud
E eles vão ouvir de mim / And they're going to hear from me

Toque os sinos que ainda pode tocar / Ring the bells that still can ring

Você pode acrescentar as partes / You can add up the parts
Mas você não vai encontrar a soma / But you won't have the sum
Você pode iniciar a marcha / You can strike up the march
Não há nenhum tambor / There is no drum
Todo coração, todo coração /Every heart, every heart
Virá para amar / To love will come
Mas como um refugiado / But like a refugee

Toque os sinos que ainda pode tocar / Ring the bells that still can ring
Esqueça sua perfeita oferenda / Forget your perfect offering
Há uma falha, uma falha em tudo / There is a crack, a crack in everything
É assim que a luz entra / That's how the light gets in


Produzido por Rebecca De Mornay & Leonard Cohen.  Escrito por Leonard Cohen  e lançado  em 24 de Novembro de 1992.




28/10/25

É sempre assim, não é ?


Le jardin du Luxembourg - Joe Dassin


Là où cet enfant passe, je suis passé 
Il suit un peu la trace que j'ai laissée 
Mes bateaux jouent encore sur le bassin 
Si les années sont mortes 
Les souvenirs se portent bien.







04/05/25

Para todas as mães


Conversa de mãe 

Olhem só para o meu lindo filho! 
Com suas franjas douradas de cabelo, 
Olhos azuis, bochechas vermelhas! 
Bem, pessoal, vocês têm um filho assim?
Não, pessoal, vocês não têm!
...


Para todas as mães.



24/03/25

Chuva... Chuva...


O tempo é assim. Imprevisível apesar das previsões. Excessivo ou com moderação. Ameno ou de tempestade. Inspirador pela doçura ou pelo medo. 
As barragens voltaram a encher contra os que diziam que não haveria mais água para isso. A neve cobriu a Serra da Estrela contra os que diziam que não ia cair.
Periodicamente, é o que acontece. Como em 2018. São estas as alterações do clima que nos fazem pensar na mudança: "mudam-se os tempos mudam-se as vontades" como cantava Camões.  E, após um mês de chuva, hoje começou a Primavera com alguns dias de atraso.
Apesar dos contratempos que causa,  a chuva, desde sempre, em todas os lugares e culturas, é música para os nossos ouvidos. 





Maurice Ravel - Jeux d'eau (orchestral version)


R. Strauss - Sinfonia Alpina


Preludio - Gota d´água - Chopin


Young People's Chorus of New York City/USA: Três Cantos Nativos dos Índios Kraó, EJCF Basel 2014





17/03/25

O bom da partida é o regresso


Cipriano de Rore - Ancor che col partire


Ancor che col partire

Io mi sento morire
Partir vorrei ogn' hor, ogni momento:
Tant' il piacer ch'io sento
De la vita ch'acquisto nel ritorno:
Et cosi mill' e mille volt' il giorno
Partir da voi vorrei:
Tanto son dolci gli ritorni miei







08/02/25

A cultura portuguesa


Há uma frase de Chesterton que diz: "Chegará o dia em que temos que provar ao mundo que a grama é verde".  Creio que ultrapassámos esse dia há muito: Há quem não saiba o que é uma mulher. E quem não queira saber que há dois sexos
Há também quem ache que a cultura portuguesa não interessa. (1)
Em relação à cultura, fiquei sem saber se se trata de uma questão honesta sobre a complexidade do que é a cultura, que reflecte o que significa a cultura nos dias de hoje, se é uma dúvida sobre a cultura portuguesa  ou se é, apenas, mais um absurdo do wokismo, mais uma forma de negacionismo da cultura portuguesa e, no fundo, da cultura. 
Se se tratar desta última possibilidade, ficamos a entender melhor o que se tem andado a (des)conversar sobre os brasões do Jardim da Praça do Império, sobre o Padrão dos descobrimentos, sobre Camões, ou o P. António Vieira...
Se, ao contrário, se pretende compreender e questionar o que é a cultura, temos aqui uma oportunidade para debater o tratamento que, nos últimos tempos, temos dado à cultura.

Para Mario Vargas Llosa (A civilização do espetáculo)  “Ao longo da história a noção de cultura teve diferentes significados e matizes... Mas apesar dessas variantes e até à nossa época, cultura sempre significou um conjunto de factores e disciplinas que, segundo amplo consenso social, a constituíam e ela implicava: a reivindicação de um património de ideias, valores e obras de arte, de conhecimentos históricos, religiosos, filosóficos e científicos em constante evolução, o fomento da exploração de novas formas artísticas e literárias e da investigação em todos os campos do saber.” (p. 61) (2)

O antropólogo Jorge Dias, em O essencial sobre os elementos fundamentais da cultura portuguesa, (Imprensa Nacional-Casa da Moeda), explicou que as várias maneiras de ver o português, mais cultas ou mais populares, são o exemplo da cultura do povo português. (3)
Jorge Dias chama-lhe “as constantes culturais deste povo já velho de tantos séculos.... ou a sua personalidade de base". Assim:
- O Português é um misto de sonhador e de homem de acção, ou, melhor, é um sonhador activo...
- Há no Português uma enorme capacidade de adaptação a todas as coisas, ideias e seres sem que isso implique perda de carácter...
- A saudade do português é um estranho sentimento de ansiedade...
- A saudade toma uma forma especial, em que o espírito se alimenta morbidamente das glórias passadas e cai no fatalismo do tipo oriental, que tem como expressão magnífica o fado...
- Uma das características mais importantes da saudade é precisamente essa fixidez da imaginação, que, por intensidade se pode tornar em ideia motora e conduzir à acção. É esta obstinação que encontramos na arte, na musica, nas canções corais alentejanas e minhotas... 

- O Português é sobretudo profundamente humano, sensível, amoroso e bondoso, sem ser fraco. Não gosta de fazer sofrer e evita conflitos, mas, ferido no seu orgulho pode ser violento e cruel.

- A capacidade de adaptação é uma das constantes de alguma portuguesa. “o português adapta-se a climas, profissões, a culturas, idiomas e a gente de maneira verdadeiramente excecional”... 

- “Outra constante da cultura portuguesa é o profundo sentimento humano, que assenta no temperamento afectivo, amoroso e bondoso. Para  o português o coração é a medida de todas as coisas.”


Também Eduardo Lourenço escreve sobre a saudade em O labirinto da saudade - Psicanálise mítica do destino Português (Publicações D. Quixote) 
Somos irrealistas, vivemos de sonhos? “Somos um povo de pobres com mentalidade de ricos” ? 
Há muito para repensar. Mas também era tempo de conhecer melhor a nossa terra, a nossa gente, a nossa cultura e também de apreciar a arquitectura, a literatura, a música, a arte... e de ter orgulho da cultura portuguesa. 


Até para a semana.



Rádio Castelo Branco



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(1) Reacção de uma eurodeputada, Ana Catarina Mendes (do PS), à posição do líder do seu partido, Pedro Nuno Santos, que, num momento de lucidez, referiu que deve haver  adaptação dos imigrantes à cultura do país que os acolhe (aculturação). 


(2) Para Vargas Llosa, a cultura estabeleceu sempre categorias sociais entre aqueles que a cultivavam e aqueles que a desprezavam ou ignoravam ou dela eram excluídas por razões sociais e económicas. Em  todas as épocas havia pessoas cultas e incultas e entre os dois extremos pessoas mais ou menos cultas ou pessoas mais ou menos incultas. Mas no nosso tempo tudo isso mudou, toda a gente é culta, e há uma cultura para todos os disparates...

E isto já é outra coisa!

 

(3) Alguns trabalhos, mais eruditos ou mais populares, sobre a cultura portuguesa que têm  passado nos media, como, por exemplo: "O Tempo e a Alma", com José Hermano Saraiva; "Visita Guiada", com Paula Moura Pinheiro; "Primeira Pessoa", com Fátima Campos Ferreira; "Terra Nossa", com César Mourão, "A nossa cultura" - Observador; "Portugal fenomenal", com Tiago Góes Ferreira... mostram algumas das várias vertentes de abordagem da cultura portuguesa.

 




15/01/25

Ideias que curam


Factors-that-Impact-Health



Procuramos a felicidade. Tudo o que fazemos na nossa vida  são meios para atingir a felicidade e o bem-estar.

No entanto, a experiência da tristeza e de outras emoções negativas fazem parte desta procura. Ela é mais marcante  em datas e momentos especiais em que  tudo o que acontece merece uma maior valorização: as festas, as datas  comemorativas, os dias de aniversário são acompanhados de tristeza, exactamente porque neles nos recordamos dos ausentes. (Reacções de aniversário) 

Há momentos, como o Natal, tempo de amor e de paz, em que essas memórias são particularmente dolorosas, como as expectativas não concretizadas de uma reunião familiar, como foi o caso este ano, devido às guerras, à falta de saúde, à gripe e outros vírus, à solidão da velhice e tantas ausências que nos fazem sentir ainda mais  a fragilidade do nosso bem-estar.


Para além dos comprimidos e xaropes prescritos para contrariar  a maldita gripe, se houver vontade, que falta muito quando estamos doentes, podemos encontrar lenitivo na prática que ajuda a superar pensamentos, sentimentos e emoções negativas e desajustadas. 

 

O filósofo William B. Irvine (referido por Marianna Pogosyan, "5 Ancient Ideas That Can Help You Flourish Today", Psychology Today ) recorda-nos algumas “ideias antigas” que podem ajudar o nosso bem-estar.

 

1. Visualização negativa de gratidão.

Face ao sofrimento, por mais sombrio que possa parecer, podemos usar a “visualização negativa para despertar um profundo apreço pela vida”, como faziam os filósofos estóicos. 

Afinal, há tantas pessoas em situações piores do que as nossas que, só por isso, já vale a pena estarmos felizes.


2. Enquadramento para reduzir emoções negativas.

Como nas molduras das pinturas ou fotografias, “as molduras psicológicas que pomos à volta dos acontecimentos da vida podem influenciar as nossas reações emocionais .” Ou seja, o sofrimento devido a algo externo não se deve “ à coisa em si, mas à avaliação que fazemos dela; e isso podemos terminar a qualquer momento.” Podemos experimentar diferentes molduras para vermos perspectivas diferentes, podemos até reagir com humor...  


3. A meditação da “última vez”.

Haverá sempre uma última vez para tudo o que fazemos. Pode ser apenas um momento de recordar como fomos felizes ou pensar que a felicidade está a acontecer agora e aproveitar o tempo para amarmos ainda mais quem merece o nosso amor. E, afinal, ainda podemos ir além do que estava previsto (última vez+1). 

4. Conhecer tudo para cultivar o prazer. 

Podemos tornar-nos conhecedores de arte, música, natureza, culinária... Porque ao sermos conhecedores do mundo em que vivemos, podemos aproveitar plenamente as nossas vidas e perceber que vivemos num “jardim prazeroso”. 


5. Meditação antes de dormir.

 Na hora de dormir podemos avaliar os nossos comportamentos e atitudes durante o dia para termos mais autoconsciência: se fui gentil, fui curioso, fiquei chateado por algo insignificante,  se fui capaz de manter a calma face aos contratempos, ou se experimentei alegria e prazer.


Em resumo, perante as adversidades e contrariedades da vida, falhas de expectativas e mudanças de planos, temos várias prescrições de terapias, a nível da saúde e também a nível psico-social, que nos podem ajudar a remover essas pedras indesejadas do nosso caminho de bem-estar.

 

 

Até para a semana.

 

  



Rádio Castelo Branco






08/01/25

Eça e Offenbach




"Sim, Offenbach, com a tua mão espirituosa deste nesta burguesia oficial — uma bofetada? Não! Uma palmada na pança, ao alegre compasso dos cancans, numa gargalhada europeia.
Offenbach é uma filosofia cantada."

(As Farpas, Coord. de M. F. Mónica, Principia, p. 29)

11/12/24

Um hino à alegria


Gostava de terminar este ano a falar da alegria. Essa emoção extraordinária que nos enche de satisfação, plenitude e confiança, com vontade de seguir em frente, de realizar novos projectos e, se necessário, de mudarmos para sermos melhores pessoas. 
Mesmo quando os motivos que vêm da sociedade e as desavenças exteriores magoam e deixam sobressair a tristeza em que tantas pessoas vivem actualmente. 
Ainda assim, é tempo de Hino à alegria, o 4° andamento da 9ª Sinfonia de Beethoven que foi inspirado num poema de Friedrich Schiller (1785). (1)
De facto, a poesia e a música são a melhor forma de expressão das nossas emoções em especial a emoção da alegria que para Schiller é de origem divina, a alegria é o abraço do amigo que encontra o amigo.

É natural e normal sentir emoções. Elas tornam-nos verdadeiramente humanos e o seu reconhecimento pode ajudar-nos a saber lidar com os acontecimentos da nossa vida e com os pensamentos, agradáveis ou desagradáveis, sobre esses acontecimentos. Elas permitem adaptar-nos aos acontecimentos desestabilizadores expressando-os através do corpo...

Podemos dizer que existem três tipos de emoções: as primárias, as secundárias e as de fundo.
As primárias facilmente perceptíveis pelas pessoas, como: a alegria, expressão do êxito e da partilha; a tristeza, suscitada pela perda de alguém ou de alguma coisa; o medo, reacção face a um perigo; cólera, como resposta muitas vezes a uma injustiça; nojo, que provoca repugnância.
As emoções primárias são completadas por diversas emoções secundárias, mais complexas, implicando outras pessoas, e por isso são chamadas emoções sociais, como a vergonha, o orgulho, a culpa, o ciúme, a inveja, a gratidão, a compaixão, o embaraço... (A. Damásio, Ao encontro de Espinosa - As Emoções Sociais e a Neurologia do Sentir, Círculo de Leitores, p. 47)
As emoções de fundo: são as não perceptíveis, como a calma ou fadiga. Elas são difíceis de serem percebidas porque são emoções que resultam de processos regulatórios do mundo interno do indivíduo. “O nosso bem-estar ou mal-estar resulta desta calda imensa de interações regulatórias” (A. Damásio, idem, p. 46) 

A alegria é considerada como a emoção mais positiva, funciona como uma recompensa, uma satisfação. Ficamos alegres quando lutamos por algo que acabamos por conseguir ou quando temos um projecto que nos permite ser mais criativos, fortemente motivados e autoconfiantes...

Uma maneira interessante de perceber as emoções será ver, talvez mais uma vez, o filme Inside-Out. Partindo da sua experiência pessoal e da vivência de sua filha de 11 anos, Pete Docter, imaginou o que acontece na complexa mente humana, quando as emoções falam mais alto e, de acordo com as emoções principais identificadas pelo psicólogo Paul Ekman (raiva, medo, tristeza, nojo, alegria) (2), Docter criou Inside-out ou, em português, Divertida-mente. (3)

Neste final de ano, “mudemos então de tom”. Celebremos a alegria, que está na verdadeira amizade, no amor entre as pessoas. É minha sugestão para as festas deste ano, à semelhança do que acontece noutras culturas, como na Alemanha ou no Japão, ouvir o Hino à Alegria de Beethoven.


Bom Natal e bom Ano Novo.

 



_______________________________________ 


Alegria, sois Divina
filha de Elísio
tornais ébria a Poesia
inspirais Dionísio

Nem costumes ou tradição
Vos reduzem o Encanto
criais-nos um mundo irmão
insuflais nosso Canto

Feliz de quem alcançou
ser-se amigo dum amigo
Quem doce dama ganhou
jubile-se comigo

Quem um só ente conquistou
seja citado no mundo
mas se na Alegria falhou
ficai só moribundo!

(2) Optou por cinco emoções uma vez que considerou a surpresa e medo muito semelhantes.

(3) Sinopse: Riley é uma menina divertida de 11 anos de idade, que deve enfrentar mudanças importantes na sua vida. Dentro do cérebro de Riley, convivem várias emoções diferentes, como a Alegria, o Medo, a Raiva, o Nojo e a Tristeza. A líder delas é Alegria, que se esforça bastante para fazer com que a vida de Riley seja sempre feliz. Entretanto, uma confusão na sala de controle faz com que ela e Tristeza sejam expelidas para fora do local. Agora, elas precisam percorrer as várias ilhas existentes nos pensamentos de Riley para que possam retornar à sala de controle - e, enquanto isto não acontece, a vida da menina muda radicalmente.



Rádio Castelo Branco





03/11/24

"Q"



Frank Sinatra - After You've Gone (2024 Mix) com Quincy Jones

Quincy Delight Jones Jr. (14/3/1933 - 3/11/2024)





25/10/24

17/10/24

Pedro e o lobo: a actualidade de Esopo

M. - 5 anos


Uma das famosas fábulas de Esopo é "O Pastor mentiroso e o Lobo". 
"Era uma vez um jovem pastor que levava suas ovelhas para pastar na serra. Para se divertir e ter companhia, ele gritava "Lobo! Lobo!" na direção da aldeia, fazendo os camponeses irem até ele. Mas não era verdade, era apenas uma brincadeira. O pastor repetiu essa brincadeira várias vezes.
Depois de alguns dias, um lobo realmente apareceu e atacou o rebanho. O pastor pediu ajuda gritando "Lobo! Lobo!" ainda mais alto, mas os camponeses não acreditaram nele, pensando que era mais uma brincadeira. O lobo pôde atacar as ovelhas à vontade, pois ninguém veio ajudar. Quando o pastor voltou para a aldeia, reclamou amargamente. O homem mais velho e sábio da aldeia respondeu: "Quem mente constantemente não será acreditado quando falar a verdade."

Pedro e o Lobo, na versão da Disney, narra a história de Pedro e o Lobo, por meio da música, como em Prokofiev. Pedro não é mentiroso. É apenas um caçador que vai para a floresta à procura do lobo. Quando os caçadores da aldeia surgem já Pedro com a ajuda de Ivan, o gato, tinham preso o lobo. Pedro é então o herói da aldeia. Todos estavam felizes menos o lobo, claro !

A história “Pedro e o Lobo” do compositor Sergei Prokofiev foi composta em 1936 com o objectivo pedagógico de mostrar às crianças as sonoridades dos diversos instrumentos musicais. Em "O Pedro e o Lobo" é utilizada uma Orquestra Sinfónica em que cada personagem é representado por um instrumento ou naipe da orquestra e possui um tema musical: O Pedro: Instrumentos de cordas; o Lobo: Trompas; o Avô: Fagote; O Pato: Oboé; O Gato: Clarinete; O Pássaro: Flauta Transversal; Os Caçadores: pelos Tímpanos e pelo Bombo.

A fábula de Esopo ("O pastor mentiroso e o lobo") e a história de Prokofiev ("Pedro e o lobo") apenas têm em comum, vulgarmente, o nome, “Pedro e o Lobo”, porque quanto ao resto são completamente diferentes. 

A moral da história de Esopo: Se mentirmos muitas vezes, tornamo-nos pessoas que não são dignas de confiança e os outros deixam de acreditar em nós, mesmo quando falamos a verdade.
A moral da história de Prokofiev, como, por ex., na versão de Suzie Templeton, mostra que a coragem pode ajudar a superar medos que atrapalham, e com a ajuda de um pássaro louco e de um pato sonhador, capturam o lobo.
O destino do lobo é diferente consoante as histórias: vai para o zoo, ou, na versão da Disney não sabemos o que acontece ao lobo, no caso da versão de ST, é solto e regressa à floresta.










01/09/24

Hoje apetece-me ouvir



1. Hoje é o Dia Nacional das Bandas Filarmónicas. 

"As estimativas apontam para a existência de mais de 600 bandas em Portugal e, de acordo com um inquérito feito em 2001 pela Direção Regional de Cultura do Centro, esta designação engloba agrupamentos de 17 a 83 músicos. As bandas apresentam-se geralmente com uniformes personalizados e reconhecíveis, incluindo chapéu, e muitas vezes usando insígnias para distinguir e identificar a comunidade à qual pertencem. Os músicos são quase todos amadores, no sentido em que a música não é a sua carreira, não obstante o facto de, ao longo dos últimos 30 anos, um número crescente de músicos destas bandas procurar formação musical em escolas oficiais de música, elevando assim a sua qualidade técnica e o potencial musical de uma forma bastante notória." (Bandas Filarmónicas: 200 Anos de Música em Comunidade)
Um trabalho extraordinário. Parabéns.

2. Em 1 de Setembro de 1610, a obra musical Vespro della Beata Vergine de Claudio Monteverdi é publicada pela primeira vez, impressa em Veneza e dedicada ao Papa Paulo V.

Monteverdi - Vespro della Beata Vergine - Gardiner