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24/06/26

Construir

 

Sabemos como é difícil construir: um projecto, uma casa, um hospital, fazer um curso, dar um concerto, uma pintura, escrever um livro, ganhar o mundial...

Também sabemos como em segundos um mundo caótico, mesmo quando organizado e obediente a chefes autoritários, está à nossa espera e invade a nossa vida social, familiar e pessoal, de que temos mais ou menos consciência, ou somos alertados pelas notícias que alguns chamam percepções, conflitua com a nossa educação, os nossos sentimentos, os valores da paz e os direitos humanos.

É ainda mais estranho que situações socialmente positivas, de vitória, de festa, comemoração, resultem em confronto, vandalismo,  manifestações  de desordeiros e arruaceiros que vivendo num regime democrático, usam as manifestações para ultrapassarem os limites da liberdade. Sentem-se vítimas de tudo: da sociedade, do clima, do patriarcado, sentem-se os explorados e oprimidos e desrespeitam tudo o que seja figura de autoridade, em especial a polícia.

Foi o que se verificou, recentemente,  com os Incidentes nas celebrações da vitória do PSG que fizeram um morto e 780 detenções ou com os desacatos que se verificaram no final de uma manifestação sindical


Podemos especular que foi o desenvolvimento com poucos limites, sem latência e pouco superego (Freud), a justificação de  tamanha desorientação. 

O trabalho educativo, possivelmente, foi descurado pela família e pela escola e, em geral, a socialização foi guiada pela anomia em vez do controle das emoções negativas, a par da desadaptação proveniente da relação excessiva com as tecnologias.

Face à modernidade como reagir? Como refere Alain de Botton precisamos de uma cabana dentro da nossa mente para onde nos retirarmos  quando estamos a ser invadidos por valores hostis ao nosso sentimento de equilíbrio e amor-próprio”... “Só nos podemos culpar até certo ponto pelo nosso sofrimento mental. O  problema não é que sejamos pessoas frágeis, mas sim que estamos a viver numa época de alta tecnologia que sistematicamente desfaz em pedaços os seus elementos mais sensíveis, na sua obediência ao que um dia irá ser conhecido como etos grosseiramente primitivo e falho em imaginação.” (Uma viagem terapêutica, p. 86,)

“Devemos, por conseguinte, lidar com as emoções destrutivas não apenas por observação mas em termos de transformação interior. À medida que as emoções negativas se introduzem continuamente no espírito, transformam-se em estados de espírito (quadro seguinte) e, eventualmente, em traços de temperamento. Portanto, precisamos de começar a trabalhar com as próprias emoções. (Daniel Goleman, Emoções destrutivas e como dominá-las, p. 100 e 116 )


Estados de espírito destrutivos 

Estados de espírito construtivos 

Baixa auto-estima 

Excesso de confiança 

Abrigar emoções negativas 

Ciúme e inveja 

Falta de compaixão 

Incapacidade de ter relações interpessoais próximas 

 

Amor-próprio 

Auto-estima (se merecida) 

Sentimentos de integridade 

Compaixão 

Benevolência 

Generosidade 

Ver o verdadeiro, o bom, o correto 

Amor  

Amizade

 

Se saber perder exige saber lidar com emoções negativas, saber ganhar não dá direitos ou vantagens especiais, antes nos mostra a necessidade de a pessoa saber controlar  o excesso de confiança e o sentimento de superioridade.


A oportuna encíclica de Leão XIV Magnifica Humanidade propõe duas possibilidades para a humanidade construir o seu futuro: a edificação da Torre de Babel ou o caminho de reconstrução das muralhas de Jerusalém.

Na era da inteligência artificial (IA) é preciso o consenso das nações para dar uma oportunidade à construção do bem. E isso significa construir uma cidade orientada para o bem comum, aceitar os limites da fragilidade humana, construir um mundo onde todos possam “florescer”, usando linguagem evangélica. ( § 7 a 15) 

“A grandeza do homem está em construir-se a si mesmo." (Michel Quoist, Construir)





 

02/04/26

Entre o parque jurássico e a guerra das estrelas



(1)
Uma casa onde habitam crianças não é bem um espelho de desarrumação mas tem momentos em que parece. Nada de especial. Casa onde há crianças é assim. Tudo o que encontram ou conseguem apanhar com potencial para a descoberta, interesse ou nova experiência serve para brincar mesmo que sejam objectos frágeis, valiosos ou perigosos, são mais atractivos do que alguns brinquedos acabados de comprar e, o nosso trabalho é dizer vezes sem conta: "Isso não é brinquedo", "isso é perigoso", "põe no sítio onde estava", "tem cuidado"...
A casa vira Arca de Noé, invadida por todo o tipo de animais, fofinhos ou ferozes, muito rápidos ou muito lentos, bichos medonhos e nojentos, perigosos e assustadores, aranhas, osgas, cobras... Mais ferozes para mim que para eles. 
Há dinossauros por todo o lado misturados com starwars, naves espaciais, transformers, legos, bonequinhos do Kinder surpresa, Minecraft e Creeper, Superthings e Kazoom Blast, Piratix, Stich e Lilo, Sonic... 
Toda esta confusão e desarrumo ou, quem sabe, organização, faz-me sentir entre o parque jurássico e a guerra das estrelas. 

A situação pode ainda complicar-se. Quando são duas ou mais crianças no mesmo estádio de desenvolvimento ou em estádios contíguos, pré-operatório e operações concretas, por ex., podem surgir mais conflitos porque o que um quer o outro também quer, o mais novo a sombra do mais velho, os dois querem sempre ganhar e a brincadeira às vezes termina com choro ou agressão... E nós, sempre temos a desculpa de que são irmãos, não é? Quem tem irmãos sabe que é assim...

Mais difícil ainda quando estão com pais, avós, primos. Em família alargada com autoridade mais diluída a obediência também fica mais fluida: "Tu não mandas em  mim", "tu não és meu pai", "o pai ainda não disse", "oh mãe,  a avó disse...", "deixa-me em paz", "pára, pára"...

Mas, na realidade, o mais difícil é gerir a tralha electrónica: tv e o respectivo comandotelemóvel, tablet ou iPad. Séries infindáveis como Os Mistérios dos bichos, Spidy, Barbapapa, Rubble e companhia... no canal panda, disney junior, nickjr, etc... É deveras difícil mas tem que ser levado em conta para não passarem manhãs e tardes inteiras de passividade motora. Há que esperar o protesto dos mais novos que sempre querem mais e as regras ainda não importam...

Os adultos são responsáveis por gerir a situação relacional e educativa. Um adulto deve conseguir resolver estas crises com segurança, controlo emocional, compreensão de que se fossemos nós teríamos as mesmas atitudes e comportamentos. São de facto crianças muito pequenas para perceberem a necessidade de mudança de actividade  e de passar para as tarefas das rotinas diárias: almoçar, jantar, sair...

Os adultos têm também que perceber quando se trata de desorganização ou de acumulação pura e simples de objectos sem função lúdica. Neste caso o problema é querer sempre mais tralha o que leva à dispersão e à dificuldade em se concentrar ou focar numa determinada actividade dificultando a conclusão de qualquer trabalho.

Por estes longos dias de férias podemos ver como a liberdade de escolher  actividades, brinquedos, brincadeiras, nos revela as muitas capacidades que as crianças têm para interagir, para desenvolver a criatividade, para inventar jogos, actividades, às vezes a partir de qualquer coisa aparentemente insignificante que lhes desperte a atenção.

Sair de casa é sempre uma boa alternativa. Principalmente quando começam a ficar cansados e quezilentos.  

É uma boa estratégia aproveitar a oferta de actividades de ocupação de tempos livres que as comunidades mais atentas através das autarquias locais ou associações de solidariedade social, responsavelmente, oferecem, algumas bem interessantes, criativas e pedagógicas.

E, mesmo sem a inventividade do "task master", pode fazer-se tanta coisa... 

- Podemos passear na quinta e ter a sensação da terra acabada de lavrar. Que bom que é caminhar na terra como se se estivesse na lua! Afinal podemos ir à lua e andar suavemente quase sem sentir o chão debaixo dos pés.

E fazer corridas até ao fim da leira como se fosse uma pista de atletismo. É mais suave do que na praia ... Pouco importa se, no fim, é pó por todo o lado, da cabeça até aos pés.

- Podemos construir uma casa. Não importa se para isso é preciso desfazer as camas, mudar de sítio as almofadas, lençóis...

- À noite podem surgir ideias interessantes como fazer uma representação, um espectáculo de bateria com tachos e panelas, mesmo que o público seja  apenas os dois avós mas é como se estivesse a sala cheia.

- Podemos organizar a "A feira das pipocas" com um stand para venda com os respectivos preços.

- Podemos jogar um jogo de cartas com as regras de conveniência do momento onde há cooperação mas também competição.

- Podemos participar no Atelier "Verão por um fio", organizado pelo Museu Cargaleiro/Câmara Municipal ou praticar natação na piscina dos "Redentoristas".
Uma questão que sempre se coloca diz respeito à protecção ou superprotecção vs "deixem-me arriscar" (2) ou seja, sobre a salutar actividade da criança no seu contexto ecológico.
O que é risco e perigo na educação? Até onde podemos correr riscos numa actividade educativa ou numa situação que configura perigo ? (3)
É preciso compreender que a criança é activa e, para o seu pleno desenvolvimento, necessita de actividade físico-motora regular. Desde cedo é crucial para o desenvolvimento físico, mental, emocional, motor e neurológico da criança. 
Por outro lado, a actividade diminui o risco de doenças como obesidade, diabetes e problemas cardiovasculares. Tem também a vantagem de reduzir a atracção do telemóvel e dos écrans... (3)

Finalmente as férias chegam ao fim. Com o passar dos dias, devagarinho, vêm-nos à memória os momentos agradáveis das férias e começam as saudades dos mais pequenos episódios, das mais pequenas coisas e vem-nos à memória aquele bordão descontraído e irreverente: " 'I believe I can fly', as cuecas do teu pai..."

Moral da história: A actividade, brincar, é fundamental para o desenvolvimento harmonioso das crianças. A prevenção, necessariamente, deve ter em conta os riscos decorrentes dessa actividade. Ou seja, a actividade da criança tem inúmeras vantagens para o seu desenvolvimento mesmo face a alguns riscos calculados que dela possam advir. No caminho para a autonomia tudo envolve algum nível de risco. É por isso que a supervisão do adulto deve ser permanente. Isso também significa que podem ser feitas actividades que envolvem algum risco. Por isso a prevenção é a melhor protecção. (4)

 

 

________________

(1) Ilustrações de M. 9:4,  Atelier "Verão por um fio", Museu Cargaleiro.


(2) Joana Silva, Deixem-me arriscar - Correr, lutar, trepar, cair. - A importância de deixar as crianças correrem riscos saudáveis na brincadeira.


(3) Finalmente, o governo "arriscou" regular a utilização de telemóveis no espaço escolar para o 1º e 2º ciclos (DL n.º 95/2025, de 14 de agosto)Como combater dependência do telemóvel, CUF.


(4) Temos de  ter a consciência de que os acidentes domésticos são a principal causa de morte em crianças e jovens.  Maria Luisa Faleiro "Acidentes domésticos aprenda a preveni-los", CUF;  "A seguranca na água",  APSI.







11/12/25

A familia e o Natal



Natal é tempo da família e da infância, é tempo de partilha de afectos e de presentes, de bons sentimentos em relação aos que nos são próximos e a todo o ser humano.
Também acontece que no Natal, os ausentes estão presentes e os que deviam primar pela presença estão ausentes. Tanto as recordações como as ausências geram sofrimento, saudade e tristeza. 
Seja como for, a família é o melhor ambiente para que esses afectos se concretizem.

Mais de um ano decorreu após a publicação do livro Identidade e família. Um livro colectivo com mais de vinte autores, com diversas visões sobre a família ... 
Não se fizeram esperar criticas á publicação do livro. E, no entanto, mantém toda a importância e actualidade no que se refere à família.

As funções da família são de grande diversidade: desde a função biológica de geração dos filhos, ao crescimento num ambiente de amor, associado ao processo de socialização, de aprendizagem e educação, ao cuidar dos mais novos e cuidar dos mais velhos.
Por outro lado, já aqui o tenho referido, a família tem varias estruturas e, basicamente, podemos dizer que onde há uma criança há uma família. E é a presença de uma criança que define a família.
Estudei algumas estruturas familiares como as famílias reconstituídas e, genericamente, concluímos que eram famílias tão adaptativas como as famílias com outras estruturas tradicionais.

Como todos nós, as crianças aprendem por modelagem, mas não é determinante o facto de haver uma ou outra estrutura familiar. O que é fundamental é que todas as crianças têm pai e mãe, independentemente da estrutura familiar em que estejam inseridas.
Por vezes, ouvimos dizer que “tal pai, tal filho” ou “sai à mãe” ou “é como o avó”.... Mas o que acontece é que cada um de nós tem a capacidade de escolher aquilo que prefere e essa escolha vai muitas vezes contra a opinião dos pais ou dos familiares. E não é só na opção relativa aos clubes de futebol que isso acontece!

Há dias numa escola, nas fotografias escolares, foram eliminados os símbolos de Natal porque não se queria ofender ninguém de outras culturas.
Noutra escola não se comemorava o dia do pai porque há crianças que não têm pai. 
Ou será que não sabem quem é o pai ? Se nem todas as crianças têm um pai presente ou registado, isso não invalida que ter pais seja um direito fundamental.
Na realidade, muitas crianças vivem em famílias monoparentais ou sem a figura paterna, ou são registadas sem o nome do pai. *
Então, porque existe um problema, deixa de se fazer uma actividade... Porque não pode ser o dia do pai e de quem cuida, de quem exerce a função paternal ?

A verdade, como sempre, parece ser o caminho a seguir. Fingir que alguém não tem pai é que não é opção. Neste Natal não seremos filhos de pais incógnitos ou como canta José Afonso “não seremos pais incógnitos”. (*)
A vida faz sentido quando temos afecto, uma identidade, pertencemos a alguém e a algum sítio, vivemos em paz e temos um espaço afectivo seguro. 
Neste Natal, é apenas isto que estão a pedir as nossas crianças.
 
A todas as famílias que amam os seus filhos um feliz Natal. 
Até para a semana.

_______________________


(*) Em Portugal, a lei não permite filhos de pai incógnito desde 1977. No entanto, desde 2013 que o número de crianças registadas sem o nome do pai tem vindo a aumentar.



Rádio Castelo Branco





20/11/25

Os idosos e o futuro

 

No meio da confusão geral em que vai o mundo (1) é necessário continuar a procurar o equilíbrio pessoal e familiar. É difícil, no meio dos vendavais naturais e sociais, continuar a manter esse equilíbrio e com isso podermos ter alguma esperança no futuro. 
Somos confrontados na nossa família com a vida diária em situações de doença ou de velhice. Por isso servir e cuidar dos mais frágeis devem ser os grandes objectivos da família, das instituições sociais, de saúde e policiais...

Para a minha geração o cenário não é agradável. Podemos rever-nos e rever a nossa vida nos mais velhos, com todas as suas fragilidades, e pensar o que significa envelhecer bem... Será que vou ter alguém que cuide de mim ? Não devo preocupar-me com isso? Não quero ir para um lar, ok, mas se for, será que, ao menos, consigo uma vaga num lar? E que humanização vou encontrar ? 

Tudo questões de difícil resposta principalmente quando sabemos que a dependência dos idosos se deve sobretudo à demência.
Sabemos as estatísticas da demência: Há 55 milhões de pessoas com demência no mundo. (Margarida Cordo, "Os mais velhos na família e no mundo", in Identidade e Família, p.166)
Quando na nossa família há idosos em idades avançadas, começamos a aperceber-nos dos sintomas, dos défices, em varias áreas:
A perda de memória é talvez o mais conhecido: Esquecer compromissos, dificuldade em reter memórias recentes ou repetir o mesmo assunto. 
Dificuldades de raciocínio: Problemas com números, com as finanças ou tratar de assuntos com o banco.
Desorientação: Perder-se em locais familiares, não saber onde é o quarto ou a cozinha ou ter dificuldade em entender onde se está.
Dificuldade com tarefas diárias: Esquecer-se de como realizar ações habituais, como cozinhar ou vestir-se ou tomar a medicação...
Começamos a aperceber-nos destas dificuldades, que por vezes já acontecem connosco, e por aí podemos ver o filme da nossa vida num futuro não muito distante.
Não existe cura para a demência, mas é possível combatê-la com uma combinação de tratamento médico, hábitos de vida saudáveis e intervenções comportamentais: manter-se fisicamente activo, procurar estímulos cognitivos, participar nas atividades sociais e manter rotinas diárias. 
É aqui que a família desempenha um papel decisivo. A família tem muitos papéis a desempenhar relativamente aos idosos. Espera-se dela apoio na doença mesmo em fases avançadas e irreversíveis.
É também necessário tomar medidas que possam melhorar a vida quando chegamos a velhos.

Sabemos que 70% dos mais de 200 mil portugueses que carecem de cuidados paliativos continuam sem acesso (I. Galriça Neto, "O apoio à família nas situações de doença crónica e avançada", in Identidade e Família, p. 174) 
Entretanto, há intervenções que merecem ser elogiadas. Em 2025, foram sinalizados pela GNR mais de 43.000 idosos que vivem sozinhos ou em situação de vulnerabilidade. No distrito de Castelo Branco foram detectados 2.316 idosos que vivem sozinhos.
A GNR está a fazer contacto direto com estas pessoas para as alertar para a necessidade de adotarem comportamentos de segurança, minimizando o risco de se tornarem vítimas de crimes. (Lusa, 18-11-2025Que por incrível que possa parecer, existem com alguma frequência.  (APAV)
Era desejável criar Serviços e Equipas de Apoio Social e Comunitário a partir das autarquias (2)  de forma a que todas as pessoas pudessem sentir menos a solidão e, assim, haver futuro para os idosos.


Até para a semana.

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(1) Como escreve João Távora no "corta-fitas", "tempos de turbulênicia".

Mas seria importante trabalhar em rede envolvendo Serviços do Município, da Segurança Social, da Saúde, da Segurança, etc. para, assim, melhorar o futuro dos idosos ou a vida das pessoas em situação vulnerável.


Rádio Castelo Branco



13/11/25

O amor não é frágil... mas pode ser mágico



Expensive Soul - O amor é mágico


Como costumamos dizer, passamos a vida toda a aprender e, obviamente, a aprender a amar também. Mesmo quando chegamos aos cinquenta anos de casados? Talvez ainda com mais premência depois de passadas tantas experiências em contextos diferentes, simpáticos ou adversos, é, no entanto, sempre  nesta capacidade de nos ligarmos ao outro que se baseia toda a nossa vida afectiva e relacional da qual depende  a nossa saúde mental.

Acontece também que "as relações modernas têm inscritas no seu cerne, um paradoxo  da melancolia: sabemos que o crescimento afetivo requer amor, mas no terreno, encontramos cada vez menos relacionamentos felizes. “ (Alain de Botton . Uma viagem terapêutica, p. 133)


Num relacionamento, o fracasso ou sucesso resume-se  na essência à presença ou ausência de vários factores, cinco âncoras, como lhes chama Alain de Botton.

Estas cinco âncoras permitem manter a embarcação da vida relacional em equilíbrio. São as seguintes: não defensividade, vulnerabilidade, ternura, atitude terapêutica e  entusiasmo.


A nossa postura defensiva é compreensiva e até necessária (defesas do ego)  mas também pode ser parte do fracasso das nossas relações.

Por experiência ou não, a frase " “ama-me por quem eu sou” é o inevitável grito de guerra de todos os amantes que se encaminham para o desastre". Seria injusto "exigirmos ser amados tal como somos, com a nossa panóplia de falhas, obsessões, neuroses e imaturidades... só devemos esperar ser amados por quem desejamos ser, por quem somos nos nossos melhores momentos..." (p.134-135)

"O amor não é frágil, "pode haver ruturas - e reparações. O amor verdadeiro é resistente. Não será destruído por um pormenor... A defensividade pode ser ultrapassada. Podemos aprender a medir no nosso coração a difrerença entre uma queixa e uma rejeição existencial” (p.137)

Os parceiros devem ter a capacidade de ultrapassar a defensividade, podemos chegar a entender o que podemos reconhecer e superar os pequenos defeitos que todos temos, como por exemplo, na forma como deixamos a casa de banho, podemos comentar que temos mau hálito ou que estamos mal vestidos...(p. 138)


Ser vulnerável é descobrir "um lado em nós que remonta à infância..." (p. 140) e podemos e somos capazes de pedir ajuda.


A ternura está, por exemplo, no comportamento de um pai quando vê uma birra do seu filho que empurra  o prato do jantar para o chão e mesmo assim não o castiga nem o considera “mau” 


Ter uma atitude terapêutica depende essencialmente da capacidade de ambos os parceiros adoptarem em momentos críticos uma atitude terapêutica em relação às compulsões, falhas, fúrias e e excentricidades um do outro...


Finalmente, o entusiasmo. Claro que no principio da relação é fácil viver com entusiasmo. Porém a pouco e pouco "deixamos de nos maravilhar porque nos enredamos inconscientemente em várias formas de irritação não assimilada (p. 148): porque nunca pede desculpa; porque decidiu sem nos consultar; porque... porque...

 

Devemos deixar um tempo para falar daquilo que não correu bem,  não para fazer queixas, não para voltar ao “histórico” que sempre é relevado quando nos irritamos  e vamos buscar pormenores da relação de muitos anos atrás...

Mas em vez disso devemos verbalizar os nossas irritações com regularidade. Tentando compreender o que esteve na atitude do outro.

 

Até para a semana. 

 

 


 

Rádio Castelo Branco







05/11/25

Relação presencial e "efeito aldeia"

 

A vida actual, em que estamos sempre online, leva as pessoas ao isolamento social e afectivo, por mais paradoxal que isso seja. As novas tecnologias, designadamente o telemóvel, a possibilidade de fazer quase tudo online: encomendar o almoço no restaurante, as compras no supermercado, fazer pagamentos, meter combustível ou levantar dinheiro... As reuniões e o trabalho online, a automação e o crescimento do número de pessoas que vivem sós, leva a que os contactos pessoais sejam cada vez mais reduzidos. 


Ora sabemos, há muito tempo,  que a criação de vínculos sociais e afectivos e o relacionamento face a face são importantes para a saúde mental e para uma vida  mais feliz.

Num estudo (1) que é feito desde 1938, época da Grande Depressão, até à actualidade, procurou-se compreender as relações entre saúde física e mental, entre saúde e felicidade. 

As conclusões  têm mostrado que os relacionamentos íntimos, mais do que a fama ou dinheiro, são a fonte da felicidade ao longo da vida. Estes laços protegem as pessoas das frustrações, ajudam a retardar doenças físicas e mentais e são parâmetros mais eficientes na análise da longevidade – mais do que classe social, QI ou até mesmo a genética.

Para o psiquiatra Robert Waldinger, o nível de satisfação com os relacionamentos, na idade de 50 anos, foi mais importante para avaliar a saúde física do que níveis de colesterol por exemplo... As pessoas mais satisfeitas aos 50 anos eram os mais saudáveis aos 80.

As pessoas que mantêm relacionamentos calorosos vivem mais e com mais felicidade e aquelas que se sentem solitárias morrem mais cedo. 


Por tudo isto, os amigos são muito importantes.

Podemos falar de três níveis de amizade (2) (Arthur Brooks): O primeiro é o dos amigos com base na utilidade, que nos ajudam a conseguir determinadas coisas, com os quais trocamos favores, que estão sempre disponíveis e para quem o estamos também.

O segundo  é o dos amigos com base no prazer, que nos ajudam a descansar, porque partilhamos gostos, saídas, distrações;  são amigos com quem não temos conversas demasiado profundas e, como os nossos gostos e entretenimentos vão variando,  pessoas que entram e saem com facilidade da nossa vida.

Por último, há os amigos “inúteis”, que  são aqueles dos quais não queremos nada de especial: queremo-los a eles; trocamos favores com eles, evidentemente, e talvez partilhemos gostos e interesses, mas a amizade está radicada a um nível mais profundo...

São  estes amigos a quem podemos telefonar a meio da noite quando estamos  doentes ou assustados...


E também é importante a relação face a face. 

A psicóloga Susan Pinker (3) mostrou que o contacto e a integração sociais são muito mais importantes para a longevidade e o bem-estar do que fatores como dietas e exercícios físicos.

Fala do “efeito aldeia”  ou seja da necessidade de contactos pessoais  e presenciais que  superam, sem dúvida, os contactos online


Até para a semana

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(2) Classificação de Arthur Brooks, referida por Isabel Sánchez, Cultura do Cuidado, p.141-142.

(3) "Susan Pinker destaca o valor das relações presenciais para a longevidade"; "Susan Pinker tem o segredo da vida"



Rádio Castelo Branco




22/10/25

Respeitar a infância

 

Antes de olharmos para os nossos filhos  e vermos neles uma quantidade enorme de problemas, problemas de alimentação, sono, ciúmes, violência, egoísmo..., poderíamos encontrar muitas qualidades. Afinal os nossos filhos são boas pessoas. Como nos diz muito bem o pediatra Carlos Gonzalez. (Bésame mucho - Como criar os seus filhos com amor, Pergaminho, p.108)


As crianças têm uma série de qualidades a que se calhar não damos importância. É mais fácil percebermos os problemas que são muitas vezes criados por nós do que as qualidades que as crianças apresentam na sua relação com os adultos e com os pares.

Quando acontece um caso de violência intrafamiliar ficamos chocados e é a oportunidade para algumas pessoas porem em questão a educação sem violência das crianças e, provavelmente, arranjamos sempre uma desculpa para justificarmos práticas punitivas e humilhantes, que achamos que, essas sim,  funcionam... A criança ainda é vista como um ser que precisa de ser “endireitado” para se tornar adulto. 

Ora a criança não nasce ensinada e também pode não aprender à primeira. Pode ser necessário repetir para aprender. Afinal como qualquer ser humano. 


O respeito pela infância é uma marca da qualidade da infância que por sua vez é uma marca da qualidade de vida da nossa sociedade.

O respeito, a par com o carinho, são as grandes vias para a educação responsável e justa. 

Os nossos filhos e os nossos alunos são muito melhores do que pensamos. 

A facilidade com que atribuímos incapacidades às crianças, e aos alunos na escola, é surpreendente: “Não trabalha”, “é preguiçoso”, “é hiperactivo”, “está sempre na lua”, “fala pelos cotovelos”, “nunca participa”, “é implicativo”...

Mas a realidade diz-nos que essas crianças precisam de nós e do nosso trabalho para crescerem ...


A realidade confronta-nos, todos os dias,  com as maldades que os adultos fazem às crianças. Os maus tratos físicos de todo o tipo, os abusos sexuais, o tráfico de menores,... provam que não estamos no caminho certo da proteção da infância e do respeito que nos merece.

Mas não é apenas a maldade activa, é também o abandono, a ausência, o afastamento das pessoas de ligação - os pais - que deviam  estar presentes de algum  modo na vida dos filhos, transmitindo aprendizagens por modelagem e regulando as circunstâncias, as dificuldades e os problemas da vida, o diálogo permanente, sabendo que, no fim da linha, a autoridade são os pais e a decisão final pertence aos pais.


Os nossos filhos apresentam qualidades que mostram que são boas pessoas como refere Carlos Gonzalez (p.108-121):

o seu filho é desinteressado. O amor de uma criança é assim: puro, absoluto e desinteressado,

o seu filho é generoso mesmo quando parece egoísta,

o seu filho chora, claro!  quando tem razões para isso,

o seu filho sabe perdoar sem fingimentos e sem reservas, não guarda ressentimento,

o seu filho é sincero e facilmente diz o que pensa,

o seu filho é sociável, basta observar quando brinca sem reservas com outras crianças,

o seu filho é compreensivo, e sabe confortar quando vê alguém  em sofrimento...


O desenvolvimento de uma criança é feito de palavras e mimos, "… devemos tratar os nossos filhos com carinho e respeito…pegar-lhes ao colo ou consolá-los quando choram.” (" 'Todos os castigos são inúteis', diz o pediatra do contra, Carlos Gonzalez", Entrevista de  Ana Cristina Marques, Observador, 26-5-2014)

Tal como gostávamos que nos acontecesse a nós.

 


Até para a sem
ana.



Rádio Castelo Branco




23/05/25

Vínculo vital


Amar é uma tarefa da vida inteira. Aprender a amar também. Temos assim a possibilidade de experimentar desafios que ao longo do tempo vamos tentando superar; isto quer dizer que a nossa vida  é também um processo terapêutico em que nos adaptamos e tornamos melhores pessoas.

“Aprender mais sobre o que é o verdadeiro amor é essencial para superar a confusão mental, permitindo-nos detetar a sua ausência na forma como nos tratamos e começar a nutrir e honrar a sua presença naqueles de quem decidimos aproximar-nos”. (Alain de Botton, Uma viagem terapêutica, p.131)

Para Alain de Botton, temos uma ideia fundamentalmente romântica e pouco útil do amor segundo a qual o amor é a recompensa que alguém recebe pelos seus pontos fortes: ser rico, popular, carismático...

Porém, existe uma outra concepção de amor, não como recompensa pelos pontos fortes mas como simpatia e compromisso com a fraqueza: “Amor é o que sentimos quando vemos um bebé recém-nascido, indefeso  perante o mundo, a tentar agarrar o nosso dedo, apertando-o com força e esboçando um sorriso  frágil e agradecido.”...

As pessoas em quem devemos acreditar “são aquelas que se comovem com as nossas crises que estão por perto nas horas mais sombrias que estarão ao nosso lado quando o resto do mundo estiver a fazer troça.” (idem)


Sob o signo do afecto (da capa),
 de B. Cyrulnik  

Na encíclica Fratelli Tutti, o Papa Francisco, definiu o vínculo amoroso como o vínculo da vida:  “ninguém pode experimentar o valor de viver, sem rostos concretos a quem amar” (nº 87), ou seja, com as suas potencialidades mas também fragilidades.

Este vínculo vital exige rostos concretos a quem amar. São pessoas que têm as suas características mesmo que não sejam aquelas que mais apreciamos.

 

Ou seja, a nossa viagem humana  é constituída pelas nossas potencialidades mas também pelas vulnerabilidades: “as fraquezas, carências, medos, imaturidades, incompetências ou simples esquisitices”. (idemNo fundo, características humanas. Tanto umas como outras  podem ter aspectos importantes nessa viagem. Podemos aprender a amar e esta aprendizagem implica podermos ser vulneráveis.


No “decurso da vida” que inicia com a infância pode acontecer que as vulnerabilidades, como as perturbações psíquicas, provoquem rupturas no equilíbrio da nossa personalidade. 

Vão com certeza acontecer crises previsíveis mas  também imprevisíveis, algumas dessas crises podem transformar-se em factores de risco e, em alguns casos, factores de perigo, que seja necessário controlar ou resolver.

E é da interacção de potencialidades, como factores de protecção, e vulnerabilidades, como factores de risco, que pode surgir o equilíbrio na nossa vida e na nossa vida mental.

 

Os psicólogos têm vindo a adoptar sistemas compreensivos desta realidade. Assim, do jogo entre potencialidades e fragilidades resultantes do processo de socialização, das condições sócio-culturais e biopsicológicas do indivíduo (como, por ex., a adaptação cognitiva resultante do processo de assimilação e de acomodação) pode resultar a adaptação ou desadaptação;  e este é um processo de equilíbrios sucessivos (ou equilibração) em que as estruturas mentais vão mudando.

Para Alain de  Botton, os paradigmas da psicoterapia podem aplicar-se às relações amorosas, mesmo quando as relações são difíceis, como a escuta activa, suavizar a linguagem...

 


Até para a semana.





Rádio Castelo Branco 





16/05/25

A cultura do cuidado

 

É a prática  que mais falta faz na nossa sociedade. É verdade que o simples facto de se falar no assunto mostra preocupação de mudança. Mas há épocas  em que parece que estamos pior. As guerras vão-se somando e todos os dias nos apercebemos desse mundo sofrido que não vê solução nos políticos, quer democraticamente nossos representantes, quer ditadores, para haver melhoras.

Vivemos num mundo  de direitos, os direitos humanos, os direitos das crianças. Mas de que direitos se trata quando há milhões de crianças que não têm garantido sequer o direito à vida?

Em vez de os líderes deste mundo adoptarem a  cultura do cuidado como um imperativo, o que temos são guerras entre vizinhos, as guerras mais destrutivas, com os meios sofisticadamente selváticos, as mais violentas.

 É por isso que a cultura do cuidado é a base de toda a convivência. Sem ela não teríamos evoluído das cavernas para o respeito dos direitos humanos e da infância.


Dizia o Dr. Armando Leandro: “Não há desenvolvimento ético, cultural, social e económico de qualidade sem qualidade humana e esta é subsidiária em alto grau da qualidade da infância.

O desenvolvimento dessa cultura da infância, ao nível da prevenção e da intervenção reparadora e superadora do perigo, compete a todos.” 

Como estava certo: Pelo tratamento dado aos mais frágeis podemos avaliar a sociedade.

Os maus tratos às crianças são apenas o sintoma de um sociedade que não está bem e que acaba por se magoar a si própria.


Leão XIV, na alocução inicial do seu pontificado, falou da necessidade de uma paz que seja  desarmada e  desarmante, construída através do diálogo e da criação de  pontes.

Um coro universal das vítimas da  insensibilidade, devia todos os dias soar aos ouvidos dos líderes mundiais, reclamando justiça e paz.  Até que entendessem que os resultados das guerras são sempre o sofrimento de todos, dos perdedores mas também dos vencedores.

Uma cultura do cuidado, como o do samaritano que ajudou o estranho que encontrou doente no caminho é o sentimento que faz falta.


A cultura do cuidado é fundamental para vivermos como pessoas como seres humanos que existem  com os outros e em que os narcisismos não são determinantes. 

Uma cultura do cuidado é uma cultura da interdependência onde ninguém é descartável.

“...  quando chegamos a este planeta, somos desde o início da vida rodeados de cuidados diversos que se prolongam no tempo;  chega depois a altura em que devemos cuidar de outras pessoas e passaremos por momentos em que teremos de permitir que outros cuidem de nós, inclusive quando ainda esteja longe o fim da nossa vida. 

Estaremos preparados para assumir a interdependência que exige a nossa própria vulnerabilidade? Teremos consciência de que devemos cuidar de nós próprios, dos nossos entes queridos, do conjunto da sociedade e do mundo em que vivemos? 

Uma sociedade em que o bem-estar individual e o bem-estar coletivo andam de mãos dadas é mais humana, mais forte e muito mais comprometida.” (Isabel Sánchez, Cultura do cuidado )

 

 

Até para a semana.

 



 Rádio Castelo Branco