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07/03/19

A condição masculina


1. A nível governamental, a preocupação com a situação das mulheres iniciou-se, de forma embrionária, em 1970. Com o 25 de Abril de 1974, Maria de Lourdes Pintasilgo, quando Ministra dos Assuntos Sociais, criou a Comissão da Condição Feminina (CCF),
Em 1990, passou a designar-se CIDM (Comissão para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres) e em 2007, passou a CIG – Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género.(1)
Desde a sua criação, muitos anos passaram, muitos estudos, projectos e decisões importantes para as mulheres foram tomadas, que também o foram para os homens, porém, faz falta ter em conta, principalmente nos dias de hoje, uma visão diferente da condição masculina, o que seria importante também para as mulheres.
Há sem dúvida um conjunto de especificidades que atrapalham a vida dos homens e que os tornam nas primeiras vítimas dos seus comportamentos, da sua cultura, da sua vida social.

2. Isto não pode justificar qualquer insensibilidade à discriminação e desvantagem das mulheres em relação aos homens, principalmente no que toca à violência. Doméstica ou não. (2) .

3. No entanto, se queremos mudar alguma coisa é também necessário reflectir sobre alguns factos que mostram desvantagens dos homens, expressas nas várias áreas da sociedade.
Resultado de vicissitudes biológicas, culturais e sociais manifestam-se em comportamentos evidenciados pelas estatísticas no que se pode designar como "masculinidade tóxica”:
"Nos Estados Unidos das 45.000 pessoas que se suicidam, 77% são homens . A OMS refere que mais de metade das mortes violentas nos homens corresponde a suicídios. Num estudo da ONG Promundo “numa amostragem com 1500 jovens concluiu-se que quase um em cada cinco tinha já considerado o suicídio para os seus problemas. E os mais sujeitos a este tipo de pensamento eram aqueles para os quais ser homem significa mostrar-se forte, não falar sobre os seus problemas, não exprimir as suas emoções.” (3)

4. Entre nós, por exemplo, devido à sua biologia, psicologia ou cultura, podemos elencar alguns dados preocupantes em que os homens são as principais vítimas dos seus comportamentos: (4)
- O número de presos corresponde a 93% de homens
- No consumo de álcool “os homens permanecem sendo os maiores consumidores".
- O género masculino tende a ser o mais afectado pelo consumo de drogas.
- O número de casos atendidos nas Comissões de Protecção de Crianças e Jovens (CPCJ) é superior no sexo masculino.
- Mais de metade (62%) dos alunos com NEE são rapazes.
- De 60 a 80% dos diagnósticos de dislexia são do sexo masculino.
- O diagnóstico de perturbação de hiperactividade com défice de atenção (PHDA) é mais frequente no sexo masculino, com uma relação de 2:1.
- O abandono escolar precoce é superior nos rapazes 14, 7 % em relação a 8,7 nas raparigas.
- O número de homens matriculados no acesso ao ensino superior, em 2018, é de menos 28283.
- O número de diplomados pelo ensino superior, em 2017, é 32422 rapazes contra 44.612 raparigas.
- Os rapazes manifestam mais agressividade do que as raparigas. Daniel Goleman (Inteligência Emocional) refere que a tendência para o crime manifesta-se cedo nestas crianças (pág. 258); "a impulsividade em garotos de 10 anos constitui um previsor da futura delinquência três vezes mais certeiro do que o QI." (pag 259)

5. Também o psicanalista franco-canadiano Guy Corneau, em “Filhos do silêncio” explica estes comportamentos do seguinte modo: "o pai está sujeito a uma regra de silêncio". Mostra a dificuldade das conversações íntimas entre os homens de diferentes gerações…
Os pais têm dificuldade e resistem a dar reconhecimento e aprovação aos filhos.
A intervenção do pai junto dos filhos parece assim ser um ponto fulcral de desvantagem para os homens a quem se nega a oportunidade de expressar os seus afectos pelos filhos ao mesmo tempo que estes se vêem privados dele. (O Livro da Psicologia, Marcador)

6. É tempo de mudar de paradigma. Podemos começar por esta sugestão de Jordan Peterson
_______________________
(1) Nos últimos anos, esta área da governação não tem sido pacífica quer a nível  das nomeações dos dirigentes para a Secretaria de Estado da Cidadania e Igualdade quer de algumas  intervenções que esta Comissão tem feito sobre a igualdade de género que passou a ser vista como ideologia de género.
Dar luta à ideologia de género é tarefa de qualquer democrata. 
O caminho parece ser o que é expresso pela presidente da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género, Teresa Fragoso, quando reconhece que “ainda há um longo caminho a percorrer para que as mulheres tenham as mesmas oportunidades que os homens” mas que “os homens também são altamente prejudicados pela forma como a sociedade está organizada”. (Negócios)

(2) Das 9.176 vítimas registadas pela APAV em 2017, mais de 80% eram do sexo feminino.

(3) Mário Freire, "Pais em tempos de crises - Masculinidade tóxica", Reconquista, 14/02/2019, dados baseados na revista digital Slate, OMS, ONG Promundo e do seu fundador Gary Baker.
 
(4) - Em 2017, havia 13440 presos, 12584 homens, 856 mulheres, o que corresponde a 93% de homens. (Pordata)
- No consumo de álcool “os homens permanecem sendo os maiores consumidores. Impulsividade e comportamento de risco para a saúde têm estreita relação, havendo na população masculina maior prevalência de comportamentos considerados impulsivo-agressivos.”
- “O género masculino tende a ser o mais afectado pelo consumo de drogas, embora o género feminino, depois da iniciação, tenha um percurso mais rápido e degradante.”
- O número de casos atendidos nas Comissões de Protecção das Crianças e Jovens (CPCJ), em 2017, é superior no sexo masculino.54,5% (38155) são do sexo masculino e 45,5% (31812) do sexo feminino.
- O número de alunos com NEE segundo a DGEEC ,” mais de metade dos alunos com NEE são rapazes: das cerca de 79 mil crianças registadas, 49 mil são do sexo masculino.
- Quanto ao problema da dislexia, de 60 a 80% dos diagnósticos são do sexo masculino, porém isso acontece porque os casos entre o sexo masculino costumam ser mais graves e associados a um maior número de comorbidades que entre o sexo feminino. Em estudos onde todos alunos de uma instituição de ensino são avaliados, a diferença de géneros é significativamente menor.
- O diagnóstico de perturbação de hiperacvidade com défice de atenção (PHDA) é mais frequente no sexo masculino, com uma relação de 2:1, ou seja, por cada rapariga que é diagnosticada com PHDA, são diagnosticados dois rapazes. No período da adolescência esta discrepância é atenuada.
- O abandono escolar precoce é superior nos rapazes, em 2018, 14,7 % em relação a 8,7 % nas raparigas, total 11,8 %. (Pordata)
- O número de homens matriculados no acesso ao ensino superior, em 2018, total 372753, 172.235 homens contra 200518 mulheres. (Pordata)
- O número de diplomados pelo ensino superior, em 2017, total 77034, 32422 homens, contra 44612 mulheres. (Pordata)

Médicos de família

1.  “Quase 29 mil portugueses não têm médico de família porque não querem.” (1) 
Eu sou um desses portugueses que não querem médico de família do SNS. Em determinada altura, foi-me atribuído um médico de família que eu não escolhi nem pedi e a quem não recorri, isto é, durante a minha vida,  por duas ou três vezes necessitei do médico de família do SNS.
Por falta de uso, a Administração Regional de Saúde do Centro - Unidade Local de Saúde enviou-me um ofício que rezava assim:
A falta de utilização dos cuidados de saúde primários durante mais de três anos fez com que fosse classificado como "utente inscrito no ACES (Agrupamento de Centros de Saúde) sem contacto nos últimos três anos".
Ainda bem que chegaram a esta conclusão.

2. No entanto, como qualquer pessoa, necessito de um médico de família. Por isso, sempre tive um médico que regularmente me acompanha a nível dos cuidados de saúde primários.
Aliás, valorizo de forma determinante o papel do médico de família num sistema de saúde: 
É o médico de família que muitas vezes detecta e compreende os sinais e sintomas de algum problema de saúde.
É o médico com quem acabamos por manter uma ligação maior, devido ao compromisso  e interesse com o doente ao longo do tempo.
Também por isso está em condições de fazer uma compreensão do contexto da doença, pessoal, familiar e social, que lhe permite avaliar mais detalhadamente os riscos e os recursos disponíveis e assim planear melhor as suas intervenções.
E ainda tem um papel fundamental a nível da educação para a saúde e da saúde preventiva.

3. Há uma infeliz confusão entre Sistema de Saúde com Serviço Nacional de Saúde. Embora no site do SNS seja claro que : O Serviço Nacional de Saúde (SNS) é o conjunto de instituições e serviços, dependentes do Ministério da Saúde, que têm como missão garantir o acesso de todos os cidadãos aos cuidados de saúde, nos limites dos recursos humanos, técnicos e financeiros disponíveis.
Refere a seguir: "Para além do SNS, existem diversos subsistemas de saúde, criados no âmbito de vários ministérios, empresas bancárias, seguradoras e outras instituições, para prestação de cuidados de saúde aos seus trabalhadores ou associados (ADSE, ADME, SAMS, etc.). Os beneficiários destes subsistemas podem utilizar também, caso o desejem, toda a rede do SNS.”
Além disso, “Diversas instituições de saúde privadas e profissionais em regime liberal completam a oferta de cuidados de saúde, prestando os seus serviços à população em regime privado ou através de acordos ou convenções quer com o SNS, quer com alguns dos subsistemas atrás referidos.”

4. Por tudo isto, continuo sem perceber a necessidade de todos os cidadãos terem médico de família do Serviço Nacional de Saúde, quando, como é o meu caso,  se tem um médico de um subsistema de saúde que  é, na realidade, o meu médico de família.
Não compreendo porque não pode haver médicos de família nos outros subsistemas de saúde, com as mesmas funções dos médicos de família do Serviço Nacional de Saúde que pudessem contribuir de forma articulada para um Sistema de Saúde Nacional.
Não compreendo a falta de capacidade para gerir os recursos existentes na comunidade de forma personalizada, racional e mais adequada para o doente. Poderia ser um contributo importante para poupar dinheiro ao orçamento de estado, permitir incluir no Serviço muitos doentes do quase  um milhão que esperam por médico de família, reduzir as listas de cada médico, reduzir o número de  crianças que não têm médico de família.
_______________________
(1) "Quase 29 mil portugueses não têm médico de família porque não querem.” “Dos 10,2 milhões de utentes inscritos nos centros de saúde portugueses, perto de 1,3 milhões não têm médico de família porque não lhes foi atribuído e 28.880 não têm porque não querem.” (Observador, 18/2/2015)
Em 2018, havia 749.613 utentes sem médico de família atribuído. (Público,16/10/2018)

12/02/19

Lembranças e esquecimentos


ZAZ - Si jamais j'oublie


Se eu me esquecer

Lembra-me o dia e o ano
Lembra-me do tempo que fazia
E se eu o esqueci
tu podes fazer-me reagir
E se eu quiser ir embora
Fecha-me e deita a chave fora
Com doses de estímulos
Diz como eu me chamo
Se um dia eu esquecer as noites que passei
As guitarras e as vozes
Lembra-me quem eu sou
Porque eu estou viva
Se um dia eu me esquecer de como escapar
Se um dia eu fugir
Lembra-me quem eu sou
O que eu prometia a mim mesmo
Lembra-me de meus sonhos mais loucos
Lembra-me das lágrimas no meu rosto
E se eu esquecer do quanto eu amava cantar
Lembra-me quem eu sou
Porque eu estou viva
Lembra-me do dia e do ano…


A memória pode definir-se como a capacidade de armazenar, processar e recuperar informação que provém de todo o ambiente que nos rodeia captada pelas nossas capacidades sensoriais.
Tanto as lembranças ou recordações como os esquecimentos ou amnésias estão presentes na nossa vida. Todos nós já alguma vez percebemos que nos esquecemos de alguma coisa, como não nos lembrarmos onde deixamos as chaves de casa ou termos o nome de uma pessoa "mesmo debaixo da língua", ou como respondem os alunos, quando são interrogados pelos professores mesmo quando estudaram: "sei mas não me lembro".
Também é engraçado quando nos acontece que nos lembramos de que nos esquecemos de dar um recado, ou de dar os parabéns a alguém.
Os "lapsos de memória" acontecem com frequência e não me refiro àqueles falsos lapsos de memória que acontecem muitas vezes nos tribunais e nas comissões de inquérito parlamentar...

A idade tem influência na frequência dos esquecimentos ou vai tornando mais difícil as lembranças, embora esta dificuldade possa também afectar  os mais jovens.
Muitos de nós têm a ideia de que se lembram de tudo o que ouvem ou fixam tudo o que vêem. No entanto, na realização de um teste psicológico de memória visual, como acontece no teste da Figura Complexa de Rey, acabam por verificar que afinal se esqueceram de muitas coisas, acrescentaram ou modificaram outras.
De facto, o processo de memorização envolve a complexidade do sistema nervoso, por um lado, e, por outro, a complexidade psicológica de todo o processo de aprendizagem, condicionamento operante, do tipo de tarefa e motivação e das emoções que acompanham a realidade da nossa vida.

Mesmo que não se atinjam situações tão graves como em algumas doenças em que se perde a própria identidade, à medida que envelhecemos os esquecimentos tornam-se uma realidade mais frequente. Cerca de 40% das pessoas com idade acima de 65 anos têm algum tipo de problema de memória, e a prevalência aumenta rapidamente com o aumento da idade.
Segundo um relatório da OCDE de 2017, em Portugal, 20 em cada mil habitantes sofrem de demência.  Um valor acima da média da OCDE que está nos 15 casos por mil habitantes (Relatório Health at a Glance, 2017), “A prevalência da demência, cuja forma mais comum é a doença de Alzheimer, é um indicador para monitorizar a saúde da população idosa, acrescentando que o envelhecimento da população tornará a demência mais comum. E os países “com um envelhecimento mais rápido verão esta prevalência mais do que duplicar nos próximos 20 anos”. (Ana Maia, Público, 10/11/2017)

Há uma canção de Zaz -“Se eu me esquecer” - que expressa bem este esquecimento, a necessidade de compreensão e apoio.


24/01/19

Etarismo


Como contraponto à inclusão que é o processo de vida desejável de qualquer sociedade, coloca-se  o problema das muitas formas de discriminação.
Talvez uma das mais actuais e violentas formas de discriminação embora sem se lhe dar essa devida conotação  seja o etarismo.
Por etarismo entende-se a discriminação etária, discriminação geracional. É um tipo de discriminação contra pessoas ou grupos baseado na idade.(1)
"Quando este preconceito é a motivação principal por trás dos atos de discriminação contra aquela pessoa ou grupo, então tais atos constituem-se discriminação por idade". O etarismo embora possa existir em relação a todos os grupos etários, é, sem dúvida em relação aos idosos que assume uma maior expressão. Os idosos  são rotulados de lentos, fracos, dependentes e senis.(Wikipedia)
Pode haver muitas formulações: “é  velhinho, coitadinho”,  não incentivar os netos a beijar os avós;  maus tratos e abandono; os velhos vistos como peste grisalha e ameaça das futuras gerações; a proibição do acesso dos “cotas” a determinados eventos…

Um estudo da Organização Mundial de Saúde que envolveu 53 países coloca Portugal no grupo dos cinco piores no tratamento aos mais velhos, com 39% dos idosos vítimas de violência. (2)

O Presidente da República, Prof. Marcelo Rebelo de Sousa, tem vindo a interessar-se pelo estatuto dos cuidadores informais e na Assembleia da República discutiu-se a criminalização da violência contra os idosos.
Como sabemos, as propostas dos deputados do CDS-PP e do PAN para criminalizar o abandono de idosos nos hospitais e unidades de saúde foram rejeitadas  no Parlamento. (3)
Também penso que o problema é mais social do que criminal. ("Quem cuida dos idosos?", Felisbela Lopes, JN, 9/2/2018). Mas todos sabemos que o país está envelhecido e torna-se mais urgente não fechar os olhos às necessidades destas pessoas e criar respostas adequadas.

Não deixa de se ser hipócrita quando se criminaliza o abandono e a violência sobre animais domésticos e continuamos a ignorar o que se passa com os idosos. O excesso de sensibilidade vai a questões como não se dever cantar “atirei o pau ao gato” mas podemos humilhar um idoso.

Mesmo quem não lê a Bíblia,  não deixará de concordar com as palavras sábias de uma  das leituras da liturgia recente do  Livro Ben-Sirá (I Sir 3):
"Deus quis honrar os pais nos filhos e firmou sobre eles a autoridade da mãe. Quem honra seu pai obtém o perdão dos pecados e acumula um tesouro quem honra sua mãe. Quem honra o pai encontrará alegria nos seus filhos e será atendido na sua oração. Quem honra seu pai terá longa vida, e quem lhe obedece será o conforto de sua mãe. Filho, ampara a velhice do teu pai e não o desgostes durante a sua vida. Se a sua mente enfraquece, sê indulgente para com ele e não o desprezes, tu que estás no vigor da vida, porque a tua caridade para com teu pai nunca será esquecida e converter-se-á em desconto dos teus pecados."

Estou convicto de que a criação de Comissões de Promoção e Protecção da pessoa idosa  e do estatuto do cuidador informal podia ajudar  a melhorar este estado de coisas. No entanto ainda não passou de  projecto.
Felizmente que em alguns municípios começa a ser criadas estas comissões e, por outro lado, como em Castelo Branco, a sociedade civil começa a organizar-se no sentido da coordenação das estruturas de apoio a pessoas idosas (Reconquista, 29/11/2018) como é o caso da "Rede integrada de apoio à pessoa idosa, em Castelo Branco, ou da “Unidade de Apoio ao Cuidador Informal” (UACI). Os cuidadores informais zelam pelos próprios dependentes contribuindo "para que renunciem ao abandono , mau trato, falta de cuidado e até violência para com os idosos e/ou incapacitados evitando desta forma internamentos hospitalares recorrentes ou a falta de assistência em fim de vida pela família", como referem as criadoras da associação. (Reconquista, 3/1/2019)

 ______________________

(1) "O termo etarismo - É uma tradução do vocábulo “ageism”, cunhado pelo médico gerontologista Robert Neil Butler em 1969, surge para descrever as formas de intolerância dirigidas a grupos etários. Outras versões menos frequentes são os termos “idadismo” (Lima, 2010); “etaísmo” (Koch Fho, et al., 2010), e “edaísmo” (de Santa Rosa, 2008). A primeira definição do conceito compreendia o preconceito somente contra as pessoas com mais idade, descrevendo-o como “um processo de estereotipação sistemática e discriminação contra pessoas por elas serem velhas” (Butler, 1969 citado em Macnicol, 2006, p. 7). Definições mais amplas, como em Palmore (1999, p. 4), passam a considerar também os jovens como alvos de estereótipos e discriminação: “[...] qualquer prejuízo ou discriminação contra ou a favor de uma faixa etária”. ("Etarismo nas organizações", Nereida da Silveira

(2)"Estamos no topo da Europa como o país que menos investimento tem para os idosos. É um estudo que está publicado e ao qual não podemos ficar alheios, para desempenharmos a nossa função de defesa de direitos humanos, de defesa dos direitos dos idosos e de defesa da cidadania", Antonieta Dias, médica e vice-presidente da Comissão de Protecção ao Idoso.

(3) Além do abandono de idosos, o CDS-PP queria criminalizar a rejeição ou condicionamento da entrada de um idoso numa instituição de acolhimento quando ele se recusasse a doar o seu património ou a pagar valores superiores à mensalidade estipulada. Também previa o agravamento das penas dos crimes de difamação, injúria e burla quando a pessoa for indefesa em função da idade.



26/12/18

De Josefa de Óbidos a Chiara Lubich


ver detalhe da imagem
Josefa de Óbidos, Adoração dos Pastores - óleo sobre tela (1669) - Museu Nacional de Arte Antiga de Lisboa.


"Aquele menino !

Quando Te rezamos, Jesus, no nosso coração, quando Te adoramos na Sagrada Eucaristia do Altar, quando conversamos Contigo, presente no Céu, e a Ti dizemos o nosso obrigado pela vida e em Ti lançamos o arrependimento das nossas faltas e de Ti invocamos as graças de que necessitamos, pensamos-Te sempre adulto, Senhor.
Ora eis que, luz sempre nova, em cada ano, de novo volta o Natal e como uma renovada revelação mostras-Te menino, acabado de nascer, num berço, e uma onda de comoção nos invade. E já não sabemos formular palavras, nem ousamos pedir, nem nos sentimos com coragem de ser um peso para tão minúsculas forças, embora omnipotentes.
O mistério faz-nos calar e o silêncio da alma em adoração confunde-se com o de Maria que, perante o testemunho dos pastores que ouviram o celeste canto dos anjos «conservava todas estas coisas, meditando-as no Seu coração»
O Natal ...: aquele Menino sempre nos aparece como um dos mistérios mais profundos da nossa fé, porque é o princípio da revelação do amor de Deus por nós, que depois se manifestará em toda a Sua divina, misericordiosa e omnipotente majestade."
(Chiara Lubich, Saber perder, p.108-109)



29/09/18

Momentos

Há momentos da nossa vida em que precisamos dos outros de uma forma mais intensa, mais empenhada e mais solidária.
Nestes momentos é reconfortante poder ter a esperança de que os enormes progressos científicos e técnicos adquiridos na área da saúde, física e mental, melhorem a nossa qualidade de vida, reduzindo a dor e sofrimento.
É animador poder ter confiança nas qualidades científicas, técnicas e humanas dos profissionais de saúde, médicos, enfermeiros, nas mãos de quem fazemos depender a nossa vida e do pessoal auxiliar que nos ajuda a ultrapassar as nossas limitações resultantes de fragilidades e dependências nas coisas mais básicas do dia a dia.

Nestes momentos entendemos melhor que a inclusão é um processo em que todos estão envolvidos  e de que todos irão precisar em algum momento da vida.

É muito bom poder ler e pensar com Séneca, Marco Aurélio, Epicteto, a filosofia... Nestes momentos mais difíceis, servem-me de lenitivo e refúgio com mais frequência  do que habitualmente.
Ou contar com a ajuda de estratégias como a meditação e oração, neste caso nas formas de obsecração e súplica, como é vista por João Cassiano e por John Main.
É fortalecedor contar com a psicologia positiva, proposta por Seligman, e procurar o bem-estar, conhecendo os pontos fortes da nossa personalidade, e a importância do optimismo como elemento fundamental da recuperação.

Por fim, talvez o mais importante, poder contar com o apoio da família onde, nestes momentos, os vínculos se manifestam com toda a sua força, e com o apoio de verdadeiros amigos que nos confirmam deste modo como gostam de nós.
É esta, verdadeiramente, a melhor sorte que podia ter.

(29 de Setembro - Dia mundial do coração)


20/08/18

Sobriedade

 
Demi Lovato (20/8/1992) - Sober
 
I got no excuses
For all of these goodbyes
Call me when it's over
'Cause I'm dying inside
Wake me up when the shakes are gone
And the cold sweats disappear
Call me when it's over
And myself has reappeared

I don't know, I don't know, I don't know, I don't know why
I do it every, every, every time
It's only when I'm lonely
Sometimes I just wanna cave
And I don't wanna fight
I try and I try and I try and I try and I try
Just hold me, I'm lonely

Momma, I'm so sorry, I'm not sober anymore
And daddy, please forgive me for
the drinks spilled on the floor
To the ones who never left me
We've been down this road before
I'm so sorry, I'm not sober anymore

I'm sorry to my future love
For the man that left my bed
For making love the way I saved for you
inside my head
And I'm sorry for the fans I lost
Who watched me fall again
I wanna be a role model
But I'm only human

I don't know, I don't know, I don't know, I don't know why
I do it every, every, every time
It's only when I'm lonely
Sometimes I just wanna cave
And I don't wanna fight
I try and I try and I try and I try and I try
Just hold me, I'm lonely

Momma, I'm so sorry I'm not sober anymore
And daddy, please forgive me
for the drinks spilled on the floor
To the ones who never left me
We've been down this road before
I'm so sorry, I'm not sober anymore
I'm not sober anymore

I'm sorry that I'm here again
I promise I'll get help
It wasn't my intention
I'm sorry to myself



Sobriedade

31/07/18

Brincar, brinquedos e felicidade


Brincar é fundamental para o desenvolvimento da criança nas diversas áreas da personalidade.
Noutra ocasião, dissemos que brincar, jogar, era uma actividade relacional, factor essencial ao desenvolvimento da personalidade.
Também dissemos que "jogo é o caminho para a conquista da autonomia da criança; "jogo é o écran do quotidiano, ou como entendia Anna Freud, jogo é o contributo para a realização de frustrações, de complexos, de insuficiências, de dificuldades de aprendizagem, de dificuldades relacionais, de reacções regressivas, de tendências agressivas e anti-sociais"

Quando era criança, os brinquedos eram escassos, e tinham que ser fabricados por nós próprios, pelos companheiros, pelos pais e havia brinquedos que todos podíamos ter: bola, bilharda, berlinde, pião... O Bonanza marcava pontos na TV e, na escola, jogávamos à bola ou aos cowboys... Os companheiros de jogo eram quase sempre os que viviam na mesma rua ou nas ruas próximas. A TV, a do café, da Casa do Povo ou do salão da paróquia...
Daqui
Quando, um dia me ofereceram um Borgward Isabella, lembro-me de ter ficado muito feliz…

Hoje não há semelhança com a diversidade de brinquedos, comprados, a imensa variedade de bonecos, de colecções, de jogos electrónicos, de DVD ou com as histórias fantásticas das séries da Netflix, embora, à mistura, haja muita treta de pedagogia duvidosa... e podemos não conhecer os companheiros de jogo.
Brincar, nem antigamente é que era bom pela escassez que aguçava o engenho, nem o é actualmente pela abundância em que pode tornar-se menos activo. Tanto num caso como no outro qualquer brinquedo pode estimular a criatividade, o desenvolvimento psicomotor, a imaginação, os sentidos, o pensamento, a inteligência, as emoções.
Na minha infância, brincar deixava-nos felizes, tal como vemos acontecer com as crianças deste tempo, o mesmo sentimento de felicidade.

Mas, na realidade o que fazia e faz mesmo felizes as crianças? Brincar é relação com o outro mas com os pais, em primeiro lugar.
Fico apreensivo quando, num inquérito de 2016, se fica a saber que os pais inventam desculpas para não brincarem com os filhos, devido ao trabalho. O estudo conclui que 74% dos pais portugueses acham difícil dizer aos filhos que não têm tempo para brincar com eles. (1)
Daqui

Noutro estudo, (Katya Delimbeuf, texto, Carlos Esteves, infografia) as respostas parecem apontar para aquilo que, de tão óbvio, se tende a esquecer: é no tempo passado com a família e nos momentos de brincadeira que as crianças encontram a felicidade.
No estudo, mais de metade dos pais (51,89%) acredita que a origem da felicidade dos filhos está no tempo passado com os pais e familiares, e 34,56% no tempo de brincadeira.
"O afecto ocupa um lugar-chave na felicidade dos mais novos: 33% defendem que é quando os filhos se sentem "ouvidos e queridos" que são mais felizes. Na mesma linha, 14% defendem que é fundamental reforçar a autoestima das crianças "elogiando-as e incentivando-as quando fazem algo bem."

Em 2013, um relatório da UNICEF  que servia para medir a felicidade e o bem-estar em 29 países, incluindo Portugal, concluía que as crianças mais felizes eram as holandesas. Porquê? "Primeiro, os bebés holandeses dormem mais horas; as crianças trazem poucos ou nenhuns trabalhos de casa na escola primária; a liberdade é incentivada desde cedo, podendo os miúdos ir sozinhos de bicicleta para a escola, ou brincar na rua sem supervisão; fazem refeições em família regularmente; passam mais tempo com os pais que nos outros países europeus; não têm uma cultura materialista — brincam com objetos em segunda mão; e, numa nota curiosa, comem cereais de chocolate ao pequeno-almoço."(2)
Neste estudo, Portugal encontrava-se a meio da tabela, no 15º lugar entre 29. Mas nem todas as razões das crianças holandesas parecem adequadas às nossas crianças, felizmente, como, p. ex., ir sozinho de bicicleta para a escola...

Enfim, o melhor presente que os pais podem oferecer aos filhos é estarem presentes, como aqui já dissemos, e brincar com eles é igualmente crucial. Como refere Mário Cordeiro "Os pais são, ainda, o brinquedo favorito do bebé" (O grande livro do bebé - O primeiro ano de vida, pg. 302. (3)

Nas férias não pode haver a desculpa do trabalho. Se houver essa tentação, desligue-se (4) do trabalho e brinque com os seus filhos que, pelos vistos, é a melhor maneira de eles serem felizes.
________________
1. O inquérito foi promovido pela marca de sumos TriNa para assinalar o Dia da Família. Foram inquiridos 410 pais de norte a sul do país, com filhos entre os seis e os 12 anos.
2. Estudo de uma marca de brinquedos (Imaginarium), que entrevistou 1131 pais portugueses de crianças dos 0 aos 8 anos.
3. Ver o Cap. 10 sobre "Brincar".
4. O direito a desligar-se. A discussão já chegou ao parlamento mas, enquanto não se decide, decida você.

09/07/18

Terapia do ar livre


As vantagens físicas e mentais de viver a vida ao ar livre são evidentes.
O desenvolvimento humano, a civilização, levou-nos a ficar cada vez mais sedentários, dentro dos edifícios: em casa, nas empresas e escritórios, centros comerciais, ginásios... Além disso,  à medida que nos vamos desenvolvendo individualmente, diminui o tempo em que permanecemos nos espaços exteriores.

Porém, temos actualmente razões validadas pela investigação de que a vida nos espaços exteriores tem vantagens para a nossa saúde.  (Maria Pinheiro, "O ar livre faz bem à saúde: 8 razões para sair de casa", PH+, nº 20.
Podemos identificar as seguintes razões:
1. Estimula a produção de vitamina D. O sol que incide na pele tem efeito na produção desta vitamina que por seu lado tem um papel activo no crescimento das células e dos ossos. Há estudos que indicam também que tem um efeito protector  relativamente a patologias como a osteoporose, depressão, doenças cardiovasculares e cancro.
Com a idade vai havendo um declínio da vitamina D - uma pessoa aos 65 anos gera um quarto de vitamina do que uma pessoa aos 20. Um passeio diário de 10 a 15 minutos pode contrariar este declínio.
2. Melhora a saúde mental. A luz solar tem efeito positivo sobre o humor. A actividade física tem um impacto positivo sobre o humor e a autoestima.
Quem passeia na natureza por oposição a quem o faz na cidade manifesta menos actividade no cérebro relacionada com a depressão, ou seja, estes resultados podem manifestar que a exposição à natureza tem relação com a saúde mental.
3. Diminui o stress. Passear na natureza melhora o nosso desempenho mental. A comparação entre um grupo que passeia pela cidade e outro pela natureza este último apresentava melhor humor e menos índices de ansiedade.
Noutro estudo, verificou-se que a simples visão do verde dos trabalhadores que tinham uma janela gerava menos stress e maior satisfação profissional  do que aqueles que não tinham.
4. Aumenta a concentração e potencia o desempenho académico. Comparando um grupo que tinha andado pelo parque com o que e andou pela cidade ou com o que ficou a relaxar, o que andou pelo parque apresentou melhor capacidade de realizar as tarefas que lhe foram propostas.
Outro estudo mostrou que crianças com actividade física moderada e intensa  revelaram maior fluência e compreensão na leitura e na aritmética quando comparadas com as que tinham uma vida mais sedentária.
5. Melhora a visão. Passar mais tempo ao ar livre pode ser uma estratégia eficaz para travar o a progressão da miopia em crianças e adolescentes.
6. Reduz a inflamação e estimula  o sistema imunitário. Um grupo de alunos que ficaram na floresta manifestaram índices inferiores e stress oxidativo associado ao envelhecimento e morte das células bem como de cortisol e de alguns marcadores oncológicos face aos que tinham ficado na cidade.
7. Melhora a qualidade do sono.  Passar mais tempo exposto à luz solar permite ajustar o ritmo circadiano à alternância normal entre o dia e a noite na medida em que estimula a produção de melatonina, hormona que regula o adormecer e o acordar.
8. Retarda o envelhecimento. A percentagem de verde num raio de 1 a 3 km tinha um impacto directo no estado de saúde, mais positivo nas zonas rurais.
Noutro estudo verificou-se que 12% de mulheres que viviam nas zonas rurais tinham uma taxa de mortalidade inferior com a relação a ser mais forte nas patologias respiratórias  e oncológicas.

Já  todos ouvimos falar das vantagens que a natureza nos oferece. Perante estes estudos ficamos ainda mais seguros do papel benéfico do ar livre para a saúde.
As autarquias não podem ignorar estes dados relativamente à qualidade de vida que pode ser devolvida pela natureza quando cuidamos dela, criando espaços verdes, zonas de lazer, que são autênticos espaços terapêuticos.
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Obs.: Consultar referências na revista pH+ nº 20.