29/01/26

A paixão pelo poder absoluto


Claudio Monteverdi - L’Incoronazione di Poppea (A Coroação de Popeia) - Pur ti miro. 


A paixão pelo poder absoluto é uma força destrutiva de controle e domínio quer na vida social e política quer nas relações pessoais. Para o comprovar basta assistir às notícias do quotidiano: Os actuais imperadores só se ouvem a eles e às suas paixões. Como sempre aconteceu.

Séneca, professor e conselheiro de Nero tenta aconselhá-lo a ser virtuoso e a cuidar do Estado, opondo-se aos desejos de Nero por Popeia em detrimento da imperatriz Otávia.
A racionalidade de Séneca não se fez valer. E vai ser fatalmente castigado por não dizer o que Nero quer ouvir. Popeia Sabina quer ser imperatriz, não importa como, nem por quê, nem para quê, mesmo que isso tenha o preço das intrigas, vinganças e assassinatos que vão atingir a própria Popeia.
O momento é de paixão e nada mais existe para além dela e do poder. Nero e a sua recém coroada imperatriz, Popeia, são dos mais perversos e corruptos personagens da história de Roma que se contemplam um ao outro como a si mesmo.

O dueto Pur ti miro, pur ti godo, mesmo que não tenha sido escrito por Monteverdi, é um dos mais belos e emocionantes momentos da história da ópera.



Pur ti miro

Pur ti miro, pur ti godo / Mas eu te contemplo, mas eu te desfruto
Pur ti stringo, pur t'annodo; / Mas eu te abraço, mas eu te prendo;
Più non peno, più non moro / Não sofro mais, não morro mais
O mia vita, o mio tesoro! / Ó minha vida, ó meu tesouro!
Io son tua, tuo son io / Sou teu, sou teu
Speme mia, dillo, di': /Minha esperança, diga, diga:"
Tu sei pur l'idolo mio" / "Tu és meu ídolo"
Sì, mio ben, sì mio cor / Sim, meu amor, sim, meu coração
Mia vita, sì! / Minha vida, sim!


28/01/26

Chuva ... Chuva... e um regresso nostálgico à infância


Regenlied - Brams

Que alterações climáticas? Vai chover menos, vai aquecer mais. De certeza? A Clintel que interessa?  Enquanto os espertos vão recolhendo os subsídios e a taxa de carbono e se preparam para o anunciado fracasso de futuras COP, o frio, a chuva vieram este ano como há alguns anos já não soía. 

Esta noite, entre as 5 e as 6 horas locais, a força da natureza (a depressão Kristin) manifestou-se aqui furiosa e um pouco por todo o país, como se quisesse dizer quem manda e o que acontece àquilo que lhe faz frente quando não se cumprem as suas regras.

Como em 2018, ou em 2025, a chuva não sai da nossa vida. Até ficarmos atolados e cansados... 

A parte boa é que, desde sempre, inspira poetas e compositores. 


Regenlied (Canção da chuva)


Flui, chuva, flui, 
Desperta meus sonhos de novo, 
Aqueles que sonhei na infância, 
Quando a água espumava na areia! 

Quando o calor abafado do verão 
Casualmente se misturava com o frescor, 
E as folhas nuas descongelavam 
E as sementes adquiriam um azul mais escuro, 

Que felicidade, na água corrente, 
Ficar descalço! Roçar a grama 
E segurar a espuma com as mãos, 
Ou apanhar gotas frias com as bochechas quentes, 

E abrir meu coração infantil aos aromas recém-despertados! 
Como os cálices que caíram, 
Minha alma se abriu, respirando, 
Como as flores, embriagadas de fragrância, 

Mergulhadas no orvalho do céu. 
Cada gota esfriava com um tremor 
Bem fundo no pulsar do coração, 
E a sagrada trama da criação 
Impulsionada para a vida oculta. 

Flua, chuva, flua, 
Desperta minhas antigas canções, 
Que cantávamos na porta, 
Quando as gotas lá fora soavam! 

Anseio por ouvi-las novamente, 
Seu doce e húmido murmúrio, 
Suavemente humedece minha alma 
Com o temor piedoso da infância.


Klaus Groth (1819 - 1899)



27/01/26

Um hino para o tempo presente







Podemos tocar os sinos que ainda podem tocar. Não há soluções perfeitas mas há sempre uma falha por onde entra a luz, a esperança  e a mudança.

Que outra coisa temos visto que não seja uma grande desilusão? A pomba da paz é capturada novamente, um pouco por todo mundo. Os conflitos que matam crianças inocentes recrudescem sempre de novo. Não há sequer um pequeno intervalo de compaixão. Não há lugar para a pomba sagrada da paz. O tempo presente é feito de maldade e sem esperança num lugar longe, muito longe, da felicidade.

Mas este tempo também há-de ter uma falha onde vamos aprender com o passado e o presente desastroso das guerras. 
fragilidade da paz há-de romper nas pedras duras das dificuldades e desesperança. Em vez do silvo mortal dos mísseis, o canto dos pássaros, ao romper do dia, será a música do coração dos homens.  

Há sempre uma falha por onde entra a luz...



Hino / Anthem

Os pássaros cantam / The birds they sang
No romper do dia /At the break of day
Comece de novo / Start again
Eu ouço eles dizendo / I heard them say
Não se apoie naquilo / Don't dwell on what
Que passou / Has passed away
Ou naquilo que está para vir / Or what is yet to be

Ah, as guerras / Ah the wars they will
Elas serão lutadas de novo / Be fought again
A pomba sagrada / The holy dove
Ela será apanhada novamente / She will be caught again
Comprada e vendida / Bought and sold
E comprada de novo / And bought again
A pomba nunca está livre / The dove is never free

Toque os sinos que ainda podem tocar / Ring the bells that still can ring
Esqueça sua oferenda perfeita / Forget your perfect offering
Há uma falha em tudo / There is a crack in everything
É assim que a luz entra / That's how the light gets in

Nós pedimos sinais / We asked for signs
Os sinais foram enviados / The signs were sent
O nascimento traído / The birth betrayed
O casamento gasto / The marriage spent
Sim, a viuvez / Yeah the widowhood
De todo governo / Of every government --
Sinais para todos verem / Signs for all to see

Eu não posso mais correr / I can't run no more
Com essa multidão descontrolada / With that lawless crowd
Enquanto os assassinos em lugares altos / While the killers in high places
Fazem suas orações em voz alta / Say their prayers out loud
Mas eles invocaram, eles invocaram / But they've summoned, they've summoned up
Uma tempestade / A thundercloud
E eles vão ouvir de mim / And they're going to hear from me

Toque os sinos que ainda pode tocar / Ring the bells that still can ring

Você pode acrescentar as partes / You can add up the parts
Mas você não vai encontrar a soma / But you won't have the sum
Você pode iniciar a marcha / You can strike up the march
Não há nenhum tambor / There is no drum
Todo coração, todo coração /Every heart, every heart
Virá para amar / To love will come
Mas como um refugiado / But like a refugee

Toque os sinos que ainda pode tocar / Ring the bells that still can ring
Esqueça sua perfeita oferenda / Forget your perfect offering
Há uma falha, uma falha em tudo / There is a crack, a crack in everything
É assim que a luz entra / That's how the light gets in


Produzido por Rebecca De Mornay & Leonard Cohen.  Escrito por Leonard Cohen  e lançado  em 24 de Novembro de 1992.

17/12/25

"A Criança é hoje"



Da capa de A criança e a família, de Françoise Dolto, Pergaminho



Foram trinta e três anos de programas e crónicas na Rádio Beira Interior (RBI), actualmente Rádio Castelo Branco (RACAB). Desde 1992 participei em  programas como “Falar de educação” e “Avenida Central - Falar claro...sobre educação”  e “Conversas Informais” e, desde 2007, faço semanalmente a crónica "Opinião”.

Durante esse tempo aqui, nesta Rádio, falei da importância da  psicologia na vida quotidiana das pessoas e  do relevo que merece a educação e a defesa dos direitos da criança. 

Falei da minha experiência num Serviço de psicologia e orientação (SPO) e dos desafios que este trabalho apaixonante, todos os dias, colocava.

Falei em especial para os pais, educadores e professores.

Estas crónicas são o reflexo do que sou e do que faço, do que acredito, da minha ansiedade e também do que detesto e contesto... 

 

A evolução das políticas de protecção das crianças foi enorme, principalmente a partir de meados dos séc. XX, em todo o mundo, em que as crianças puderam ver os seus direitos reconhecidos na Declaração dos direitos da criança (1959)  e na Convenção dos direitos da criança (1989). 

Também no nosso país a evolução na protecção da infância  deve ser motivo de orgulho, com destaque para os últimos 50 anos, com o acesso generalizado de todos a todos os níveis de educação.

Uma das realizações mais importantes foi a criação das Comissões de Protecção de Crianças e Jovens (CPCJ)  em que participei desde o seu início, em 1993. *

 

É necessário e urgente continuar a criar ambientes seguros e protegidos nas famílias, nas escolas, nas instituições sociais, onde as crianças se possam desenvolver harmoniosamente. Porque, como sabemos, apesar dessa evolução estamos muito longe de cumprir esses direitos. Três exemplos de situações de perigo:

- Segundo a Unicef, morrem à fome um milhão de crianças por ano.

- O número de crianças expostas à violência em zonas de conflito armado atingiu 520 milhões em 2024, fixando um novo recorde pelo terceiro ano consecutivo. (Save the Children)

- O aumento da violência sexual, em particular na internet, é assustador e as crianças estão permanentemente em perigo.

 

Mas o nosso trabalho não é só pôr cobro aos maus tratos. A protecção da criança começa, verdadeiramente, com os bons tratos, de que faz parte o direito ao afecto.

É gratificante saber que cada vez mais a sociedade compreende a relação adulto-criança nesta perspectiva, como bem exprime Manuela Eanes, presidente honorária do Instituto de Apoio à Criança (IAC): "A angústia por falta de amor, por carências graves no aspecto afectivo, marca mais a Criança do que a fome ou o frio. Como dizia  Gabriela Mistral, de uma forma tão bela:

Muito do que precisamos pode esperar. 

A Criança, não.

Não se lhe pode dizer amanhã.

Seu nome é Hoje."

("O papel da Família no desenvolvimento da Criança e da sociedade", in Identidade e Família, p. 94)


Quero deixar, nesta crónica, um grande agradecimento às pessoas com quem trabalhei mais directamente, Isabel Moreira, Graça Lourenço, Manuela Cardoso e Ricardo Coelho,  e igualmente à gestão da RACAB,  pela liberdade de expressão que sempre tive e por me terem ajudado a levar esta informação aos ouvintes que tiveram a paciência de me ouvir durante tantos anos.

 

Muito obrigado.

 

 

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* Inicialmente designada Comissão de Protecção de Menores. A Lei n.º 147/99, de 1 de Setembro, viria estabelecer o Regime jurídico da proteção de crianças e jovens em perigo.





Rádio Castelo Branco






13/12/25

11/12/25

A familia e o Natal



Natal é tempo da família e da infância, é tempo de partilha de afectos e de presentes, de bons sentimentos em relação aos que nos são próximos e a todo o ser humano.
Também acontece que no Natal, os ausentes estão presentes e os que deviam primar pela presença estão ausentes. Tanto as recordações como as ausências geram sofrimento, saudade e tristeza. 
Seja como for, a família é o melhor ambiente para que esses afectos se concretizem.

Mais de um ano decorreu após a publicação do livro Identidade e família. Um livro colectivo com mais de vinte autores, com diversas visões sobre a família ... 
Não se fizeram esperar criticas á publicação do livro. E, no entanto, mantém toda a importância e actualidade no que se refere à família.

As funções da família são de grande diversidade: desde a função biológica de geração dos filhos, ao crescimento num ambiente de amor, associado ao processo de socialização, de aprendizagem e educação, ao cuidar dos mais novos e cuidar dos mais velhos.
Por outro lado, já aqui o tenho referido, a família tem varias estruturas e, basicamente, podemos dizer que onde há uma criança há uma família. E é a presença de uma criança que define a família.
Estudei algumas estruturas familiares como as famílias reconstituídas e, genericamente, concluímos que eram famílias tão adaptativas como as famílias com outras estruturas tradicionais.

Como todos nós, as crianças aprendem por modelagem, mas não é determinante o facto de haver uma ou outra estrutura familiar. O que é fundamental é que todas as crianças têm pai e mãe, independentemente da estrutura familiar em que estejam inseridas.
Por vezes, ouvimos dizer que “tal pai, tal filho” ou “sai à mãe” ou “é como o avó”.... Mas o que acontece é que cada um de nós tem a capacidade de escolher aquilo que prefere e essa escolha vai muitas vezes contra a opinião dos pais ou dos familiares. E não é só na opção relativa aos clubes de futebol que isso acontece!

Há dias numa escola, nas fotografias escolares, foram eliminados os símbolos de Natal porque não se queria ofender ninguém de outras culturas.
Noutra escola não se comemorava o dia do pai porque há crianças que não têm pai. 
Ou será que não sabem quem é o pai ? Se nem todas as crianças têm um pai presente ou registado, isso não invalida que ter pais seja um direito fundamental.
Na realidade, muitas crianças vivem em famílias monoparentais ou sem a figura paterna, ou são registadas sem o nome do pai. *
Então, porque existe um problema, deixa de se fazer uma actividade... Porque não pode ser o dia do pai e de quem cuida, de quem exerce a função paternal ?

A verdade, como sempre, parece ser o caminho a seguir. Fingir que alguém não tem pai é que não é opção. Neste Natal não seremos filhos de pais incógnitos ou como canta José Afonso “não seremos pais incógnitos”. (*)
A vida faz sentido quando temos afecto, uma identidade, pertencemos a alguém e a algum sítio, vivemos em paz e temos um espaço afectivo seguro. 
Neste Natal, é apenas isto que estão a pedir as nossas crianças.
 
A todas as famílias que amam os seus filhos um feliz Natal. 
Até para a semana.

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(*) Em Portugal, a lei não permite filhos de pai incógnito desde 1977. No entanto, desde 2013 que o número de crianças registadas sem o nome do pai tem vindo a aumentar.



Rádio Castelo Branco





04/12/25

Ideias que curam - Como responder aos nossos demónios

 

No mundo caótico, incerto e sofrido, em que vivemos, imersos e baralhados em redes sociais, políticas, familiares ou do próprio Eu, procuro encontrar maneiras de resistir ao stress e manter o equilíbrio e a sanidade...
A terapia racional, emocional e comportamental (TREC), criada pelo psicólogo Albert Ellis, pode ser um contributo para manter o equilíbrio. 
Nas situações da vida de que falamos, as pessoas têm crenças racionais ou irracionais podendo as reações emocionais ser apropriadas ou inapropriadas e os comportamentos daí resultantes serem saudáveis ou problemáticos. 
Para esta terapia, o pensamento irracional é o determinante principal das nossas perturbações emocionais e por isso deve ser analisado e mudado.

O que é interessante é que uma das fontes desta terapia é a filosofia da resiliência e do autocontrole do estoicismo. *
Dentre os estoicos mais famosos, temos um ex-escravo Epicteto (55 d.C. - 135 d.C.) para quem a liberdade depende da forma como reagimos ao mundo, e um imperador, Marco Aurélio (121 d.C. - 180 d.C.) para quem o sofrimento não vem das coisas externas, mas do nosso julgamento sobre elas.
De facto, há coisas que podemos controlar como pensamentos, ações e atitudes. E há coisas que não podemos controlar como opiniões alheias, eventos externos, a morte.
Sendo assim, o estoicismo incentiva o autocontrole, a resiliência, a aceitação do que não pode ser mudado e a serenidade mental (ataraxia) para viver em harmonia com a natureza e alcançar uma vida ética e feliz (eudaimonia). 

Podemos fazer um exercício: reflectir sobre o texto de um dos dias do livro Estoico todos os dias, de Ryan Holiday e Stephen Hanselman. Foi o que fiz hoje, dia 4 de Dezembro: o tema é “Isso não lhe pertence”.
“Por muito que lutemos e trabalhemos para acumular objectos podemos perdê-los em segundos. O mesmo é verdade para coisas que gostamos de pensar que são “nossas”, mas que são igualmente precárias: o nosso estatuto, a nossa saúde física ou força, as nossas relações” (p. 411)

Se estes princípios servem para todos, terão mais importância quando somos um pouco mais ansiosos.
Neste caso, diz-nos Alain de Botton,  "as nossas relações podem nunca dar certo, alguns membros da família podem continuar a ter-nos rancor, alguns inimigos podem nunca tomar o nosso partido, não conseguiremos corrigir erros nas nossas carreiras e haverá invariavelmente quem seja cético ou puramente sádico. Porém, nada disto nos deveria surpreender e não devemos ser ingénuos ao ponto de deixar que isso afete o nosso estado de espírito. Devemos explorar a nossa tristeza irredutível em manhãs soalheiras quando as nossas faculdades racionais estão frescas e seguras, em vez de deixarmos que nos enerve com os seus ataques às três da manhã, quando estamos demasiado azamboados e cansados para saber como responder aos nossos demónios.” (Uma viagem terapêutica, p.123)


Até para a semana.



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Rádio Castelo Branco



26/11/25

A temperança do 25 de Novembro

 

Temperança - Escultura de Barata Feio

 (Assembleia da República)


Foi há 50 anos. Como disse M. João Avillez no Expresso da meia noite (SIC), com o general Tomé Pinto, o 25 de Novembro foi uma guinada para meter o carro, novamente, na auto-estrada da democracia. Quem é pelo 25 de Abril é pelo 25 de Novembro. E quem é pelo 25 de Novembro é pelo 25 de Abril. São dias "inteiros e limpos", por mais que inventemos divergências inultrapassáveis.
A democracia é o regime que permite análises e interpretações diferentes da realidade social, política, etc. Porém, até onde pode a realidade ser vista com tantas diferenças?
O Presidente da Assembleia da República José Pedro Aguiar-Branco refere que, cinco décadas volvidas, ainda "é estranho ouvir dizer que o 25 de Novembro é uma data que "divide" em vez de "agregar”. E acrescenta: "Sou de Abril, sou de Novembro. Sou hoje e sempre pela democracia representativa, porque Abril abriu a porta da liberdade e Novembro permitiu que houvesse chão firme para continuar".

As tentativas para alguém impor a sua visão dos acontecimentos é uma forma de manipulação. “Alguém que vive uma vida de mentiras tenta manipular a realidade através da percepção, do pensamento e da acção de modo a que apenas um resultado desejado, e predefinido, possa existir.” (J. Peterson, 12 Regras para a vida, "Regra 8 - "Diga a verdade - ou pelo menos não minta", p. 270)
Querem que exista apenas uma verdade: a sua. Como refere J Peterson “Já vi pessoas definirem a sua utopia e depois transformarem a realidade”. (p. 271)
Ser jovem, e sonhar com radicalismo, não era, e pelos vistos não é, tão inusual, porém não faz muito sentido ouvir pessoas da dita esquerda usando a velha versão do tempo em que eram jovens na faculdade e, cheios de ressentimento, não são capazes de ver o que foi o PREC, o COPCON, a 5ª Divisão... ou uma sociedade totalitária e com liberdade condicionada.

Há duas maneiras de ver a realidade. “Aquilo que queria, aconteceu? Não. Então o meu objetivo, os meus métodos estavam errados. Ainda tenho algo para aprender. Essa é a voz da autenticidade.
Aquilo que queria aconteceu? Não. O mundo é injusto. As pessoas têm inveja e são demasiado estúpidas para entender. A culpa é dos outros. Essa é a voz da inautenticidade, que não se diferencia muito de “os outros devem ser detidos”, ou “os outros devem ser castigados, ou, “os outros devem ser destruídos”. Sempre que houve algo incompreensivelmente brutal, é esse tipo de ideias que se manifesta” (p. 276)

Foi particularmente interessante o que disse o Presidente Marcelo na Assembleia da República, em relação a uma visão de sociedade aberta, democrática e livre onde prevalece a temperança.
Para o psicólogo M. Seligman, a temperança manifesta-se através de forças de caráter como perdão, humildade, prudência e autorregulação, ajudando as pessoas a gerir paixões, desejos e impulsos para tomar decisões conscientes e construir um bem-estar duradouro. 
A temperança é o equilíbrio, moderação e autocontrole que nos permite ver o que está ou esteve errado, o que não deu certo, o que é voltar aos tempos indesejados, de antes do 25 de abril, de ditadura, de pobreza e de falta de liberdade, ou voltar aos tempos igualmente indesejados que sucederam ao 25 de Abril.



Até para a semana.





Rádio Castelo Branco





20/11/25

Os idosos e o futuro

 

No meio da confusão geral em que vai o mundo (1) é necessário continuar a procurar o equilíbrio pessoal e familiar. É difícil, no meio dos vendavais naturais e sociais, continuar a manter esse equilíbrio e com isso podermos ter alguma esperança no futuro. 
Somos confrontados na nossa família com a vida diária em situações de doença ou de velhice. Por isso servir e cuidar dos mais frágeis devem ser os grandes objectivos da família, das instituições sociais, de saúde e policiais...

Para a minha geração o cenário não é agradável. Podemos rever-nos e rever a nossa vida nos mais velhos, com todas as suas fragilidades, e pensar o que significa envelhecer bem... Será que vou ter alguém que cuide de mim ? Não devo preocupar-me com isso? Não quero ir para um lar, ok, mas se for, será que, ao menos, consigo uma vaga num lar? E que humanização vou encontrar ? 

Tudo questões de difícil resposta principalmente quando sabemos que a dependência dos idosos se deve sobretudo à demência.
Sabemos as estatísticas da demência: Há 55 milhões de pessoas com demência no mundo. (Margarida Cordo, "Os mais velhos na família e no mundo", in Identidade e Família, p.166)
Quando na nossa família há idosos em idades avançadas, começamos a aperceber-nos dos sintomas, dos défices, em varias áreas:
A perda de memória é talvez o mais conhecido: Esquecer compromissos, dificuldade em reter memórias recentes ou repetir o mesmo assunto. 
Dificuldades de raciocínio: Problemas com números, com as finanças ou tratar de assuntos com o banco.
Desorientação: Perder-se em locais familiares, não saber onde é o quarto ou a cozinha ou ter dificuldade em entender onde se está.
Dificuldade com tarefas diárias: Esquecer-se de como realizar ações habituais, como cozinhar ou vestir-se ou tomar a medicação...
Começamos a aperceber-nos destas dificuldades, que por vezes já acontecem connosco, e por aí podemos ver o filme da nossa vida num futuro não muito distante.
Não existe cura para a demência, mas é possível combatê-la com uma combinação de tratamento médico, hábitos de vida saudáveis e intervenções comportamentais: manter-se fisicamente activo, procurar estímulos cognitivos, participar nas atividades sociais e manter rotinas diárias. 
É aqui que a família desempenha um papel decisivo. A família tem muitos papéis a desempenhar relativamente aos idosos. Espera-se dela apoio na doença mesmo em fases avançadas e irreversíveis.
É também necessário tomar medidas que possam melhorar a vida quando chegamos a velhos.

Sabemos que 70% dos mais de 200 mil portugueses que carecem de cuidados paliativos continuam sem acesso (I. Galriça Neto, "O apoio à família nas situações de doença crónica e avançada", in Identidade e Família, p. 174) 
Entretanto, há intervenções que merecem ser elogiadas. Em 2025, foram sinalizados pela GNR mais de 43.000 idosos que vivem sozinhos ou em situação de vulnerabilidade. No distrito de Castelo Branco foram detectados 2.316 idosos que vivem sozinhos.
A GNR está a fazer contacto direto com estas pessoas para as alertar para a necessidade de adotarem comportamentos de segurança, minimizando o risco de se tornarem vítimas de crimes. (Lusa, 18-11-2025Que por incrível que possa parecer, existem com alguma frequência.  (APAV)
Era desejável criar Serviços e Equipas de Apoio Social e Comunitário a partir das autarquias (2)  de forma a que todas as pessoas pudessem sentir menos a solidão e, assim, haver futuro para os idosos.


Até para a semana.

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(1) Como escreve João Távora no "corta-fitas", "tempos de turbulênicia".

Mas seria importante trabalhar em rede envolvendo Serviços do Município, da Segurança Social, da Saúde, da Segurança, etc. para, assim, melhorar o futuro dos idosos ou a vida das pessoas em situação vulnerável.


Rádio Castelo Branco