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28/08/26

O vírus da irracionalidade


 

Quem nunca disse "Não tenho sorte nenhuma" após um dia difícil ou exclamou "Tu nunca ajudas!" numa discussão? Olhamos para estas frases como reacções normais ao stress, mas a psicologia cognitiva diz-nos que são sintomas de um vírus silencioso que com mais ou menos peso todos carregamos: as crenças irracionais (1)

A Terapia Racional Emotiva Comportamental (TREC), desenvolvida pelo psicólogo Albert Ellis ajuda-nos a compreender como estas crenças moldam a nossa vida. O princípio fundamental da TREC refere que não são os acontecimentos da vida que nos perturbam, mas sim a forma como os interpretamos. Ellis organizou esta dinâmica através do Modelo ABC. Imagine que o evento activador (A) é uma negativa num exame. A maioria de nós acredita que a consequência emocional (C), como a raiva ou o desespero, nasce directamente desse azar. No entanto, este modelo demonstra que existe um intermediário crucial: a nossa crença (B). É o filtro mental que aplicamos ao facto que determina se vamos reagir com uma tristeza saudável ou com uma depressão paralisante.


As crenças irracionais são ideias rígidas, absolutas e irreais que distorcem a realidade. Fazem parte da tirania dos deveres" (Karen Horney) - a tendência neurótica de exigir que o mundo, os outros ou nós próprios sejamos perfeitos. Quando dizemos "Eu devia ter conseguido aquela promoção" ou "As pessoas têm de me aceitar", criamos uma armadilha dogmática. Se a realidade não corresponde ao nosso "deveria", caímos na "catastrofização", transformando um contratempo banal num cenário apocalíptico. (2)

A afirmação "Não tenho sorte nenhuma" é o exemplo desta sabotagem. Sob a perspectiva da TREC, esta frase revela erros lógicos:  a generalização, que transforma um evento negativo isolado numa lei universal; o filtro mental, que força o cérebro a focar-se apenas nos azares, ignorando as centenas de vezes em que tudo correu bem; e o “locus” de controlo externo, onde nos demitimos da responsabilidade da nossa vida e nos assumimos como vítimas desamparadas do destino.

A cura para a irracionalidade passa ainda por duas fases do modelo: a Disputa (D) onde confrontamos os nossos pensamentos de forma científica e empírica. Quando a mente ditar um absolutismo, devemos questionar: Que provas reais tenho de que nunca tenho sorte? Pensar assim ajuda-me a resolver o problema ou apenas me paralisa? (3)


O objetivo final da TREC é atingir o Efeito (E) de uma nova filosofia de vida assente na aceitação de que o azar e os imprevistos são apenas probabilidades da experiência humana, não uma conspiração do mundo contra nós e contra tudo o que fazemos. Não podemos controlar o vento e as tempestades, mas controlamos as velas e podemos abrigar-nos melhor. Substituir a rigidez mental por um pensamento flexível — "Isto correu mal e é frustrante, mas eu consigo lidar com isso" — é a única forma de recuperar o nosso controle mental e equilíbrio emocional.

 

Seria interessante se nas grandes e nas pequenas opções políticas fosse utilizada a  metodologia da TREC ajudando a identificar e questionar crenças irracionais que alimentam a polarização, o fanatismo e a angústia gerada pelo debate partidário. Esta abordagem mostraria que não são os acontecimentos políticos que causam raiva ou desespero, mas sim a interpretação rígida que fazemos deles e, portanto, a necessidade de mudar de paradigma.

 

 

_____________________ 

 (1) “O mapa não é o território“ (Xavier Guix, Ni me explico, ni me entiendes - Los laberintos de la comunicación, p. 28-29)


(2) Podemos encontrar na internet listas de crenças para todos os gostos mas o importante é reconhecer que muitas crenças limitam ou fortalecem os nossos comportamentos, causam sofrimento e ou limitam as suas possibilidades. (por exemplo: Katie Sullivan Porter- 55 crenças limitantes que impedem os lideres de alcançar sucesso e realização; As 4 principais crencas que causam sofrimento segundo Albert Ellis; 10 tipos de crenças mais comuns moldam maneira-ser/  ...

 

(3) Formulário de auto-ajuda TREC

 

 


 

24/06/26

Construir

 

Sabemos como é difícil construir: um projecto, uma casa, um hospital, fazer um curso, dar um concerto, uma pintura, escrever um livro, ganhar o mundial...

Também sabemos como em segundos um mundo caótico, mesmo quando organizado e obediente a chefes autoritários, está à nossa espera e invade a nossa vida social, familiar e pessoal, de que temos mais ou menos consciência, ou somos alertados pelas notícias que alguns chamam percepções, conflitua com a nossa educação, os nossos sentimentos, os valores da paz e os direitos humanos.

É ainda mais estranho que situações socialmente positivas, de vitória, de festa, comemoração, resultem em confronto, vandalismo,  manifestações  de desordeiros e arruaceiros que vivendo num regime democrático, usam as manifestações para ultrapassarem os limites da liberdade. Sentem-se vítimas de tudo: da sociedade, do clima, do patriarcado, sentem-se os explorados e oprimidos e desrespeitam tudo o que seja figura de autoridade, em especial a polícia.

Foi o que se verificou, recentemente,  com os Incidentes nas celebrações da vitória do PSG que fizeram um morto e 780 detenções ou com os desacatos que se verificaram no final de uma manifestação sindical


Podemos especular que foi o desenvolvimento com poucos limites, sem latência e pouco superego (Freud), a justificação de  tamanha desorientação. 

O trabalho educativo, possivelmente, foi descurado pela família e pela escola e, em geral, a socialização foi guiada pela anomia em vez do controle das emoções negativas, a par da desadaptação proveniente da relação excessiva com as tecnologias.

Face à modernidade como reagir? Como refere Alain de Botton precisamos de uma cabana dentro da nossa mente para onde nos retirarmos  quando estamos a ser invadidos por valores hostis ao nosso sentimento de equilíbrio e amor-próprio”... “Só nos podemos culpar até certo ponto pelo nosso sofrimento mental. O  problema não é que sejamos pessoas frágeis, mas sim que estamos a viver numa época de alta tecnologia que sistematicamente desfaz em pedaços os seus elementos mais sensíveis, na sua obediência ao que um dia irá ser conhecido como etos grosseiramente primitivo e falho em imaginação.” (Uma viagem terapêutica, p. 86,)

“Devemos, por conseguinte, lidar com as emoções destrutivas não apenas por observação mas em termos de transformação interior. À medida que as emoções negativas se introduzem continuamente no espírito, transformam-se em estados de espírito (quadro seguinte) e, eventualmente, em traços de temperamento. Portanto, precisamos de começar a trabalhar com as próprias emoções. (Daniel Goleman, Emoções destrutivas e como dominá-las, p. 100 e 116 )


Estados de espírito destrutivos 

Estados de espírito construtivos 

Baixa auto-estima 

Excesso de confiança 

Abrigar emoções negativas 

Ciúme e inveja 

Falta de compaixão 

Incapacidade de ter relações interpessoais próximas 

 

Amor-próprio 

Auto-estima (se merecida) 

Sentimentos de integridade 

Compaixão 

Benevolência 

Generosidade 

Ver o verdadeiro, o bom, o correto 

Amor  

Amizade

 

Se saber perder exige saber lidar com emoções negativas, saber ganhar não dá direitos ou vantagens especiais, antes nos mostra a necessidade de a pessoa saber controlar  o excesso de confiança e o sentimento de superioridade.


A oportuna encíclica de Leão XIV Magnifica Humanidade propõe duas possibilidades para a humanidade construir o seu futuro: a edificação da Torre de Babel ou o caminho de reconstrução das muralhas de Jerusalém.

Na era da inteligência artificial (IA) é preciso o consenso das nações para dar uma oportunidade à construção do bem. E isso significa construir uma cidade orientada para o bem comum, aceitar os limites da fragilidade humana, construir um mundo onde todos possam “florescer”, usando linguagem evangélica. ( § 7 a 15) 

“A grandeza do homem está em construir-se a si mesmo." (Michel Quoist, Construir)





 

02/04/26

Entre o parque jurássico e a guerra das estrelas



(1)
Uma casa onde habitam crianças não é bem um espelho de desarrumação mas tem momentos em que parece. Nada de especial. Casa onde há crianças é assim. Tudo o que encontram ou conseguem apanhar com potencial para a descoberta, interesse ou nova experiência serve para brincar mesmo que sejam objectos frágeis, valiosos ou perigosos, são mais atractivos do que alguns brinquedos acabados de comprar e, o nosso trabalho é dizer vezes sem conta: "Isso não é brinquedo", "isso é perigoso", "põe no sítio onde estava", "tem cuidado"...
A casa vira Arca de Noé, invadida por todo o tipo de animais, fofinhos ou ferozes, muito rápidos ou muito lentos, bichos medonhos e nojentos, perigosos e assustadores, aranhas, osgas, cobras... Mais ferozes para mim que para eles. 
Há dinossauros por todo o lado misturados com starwars, naves espaciais, transformers, legos, bonequinhos do Kinder surpresa, Minecraft e Creeper, Superthings e Kazoom Blast, Piratix, Stich e Lilo, Sonic... 
Toda esta confusão e desarrumo ou, quem sabe, organização, faz-me sentir entre o parque jurássico e a guerra das estrelas. 

A situação pode ainda complicar-se. Quando são duas ou mais crianças no mesmo estádio de desenvolvimento ou em estádios contíguos, pré-operatório e operações concretas, por ex., podem surgir mais conflitos porque o que um quer o outro também quer, o mais novo a sombra do mais velho, os dois querem sempre ganhar e a brincadeira às vezes termina com choro ou agressão... E nós, sempre temos a desculpa de que são irmãos, não é? Quem tem irmãos sabe que é assim...

Mais difícil ainda quando estão com pais, avós, primos. Em família alargada com autoridade mais diluída a obediência também fica mais fluida: "Tu não mandas em  mim", "tu não és meu pai", "o pai ainda não disse", "oh mãe,  a avó disse...", "deixa-me em paz", "pára, pára"...

Mas, na realidade, o mais difícil é gerir a tralha electrónica: tv e o respectivo comandotelemóvel, tablet ou iPad. Séries infindáveis como Os Mistérios dos bichos, Spidy, Barbapapa, Rubble e companhia... no canal panda, disney junior, nickjr, etc... É deveras difícil mas tem que ser levado em conta para não passarem manhãs e tardes inteiras de passividade motora. Há que esperar o protesto dos mais novos que sempre querem mais e as regras ainda não importam...

Os adultos são responsáveis por gerir a situação relacional e educativa. Um adulto deve conseguir resolver estas crises com segurança, controlo emocional, compreensão de que se fossemos nós teríamos as mesmas atitudes e comportamentos. São de facto crianças muito pequenas para perceberem a necessidade de mudança de actividade  e de passar para as tarefas das rotinas diárias: almoçar, jantar, sair...

Os adultos têm também que perceber quando se trata de desorganização ou de acumulação pura e simples de objectos sem função lúdica. Neste caso o problema é querer sempre mais tralha o que leva à dispersão e à dificuldade em se concentrar ou focar numa determinada actividade dificultando a conclusão de qualquer trabalho.

Por estes longos dias de férias podemos ver como a liberdade de escolher  actividades, brinquedos, brincadeiras, nos revela as muitas capacidades que as crianças têm para interagir, para desenvolver a criatividade, para inventar jogos, actividades, às vezes a partir de qualquer coisa aparentemente insignificante que lhes desperte a atenção.

Sair de casa é sempre uma boa alternativa. Principalmente quando começam a ficar cansados e quezilentos.  

É uma boa estratégia aproveitar a oferta de actividades de ocupação de tempos livres que as comunidades mais atentas através das autarquias locais ou associações de solidariedade social, responsavelmente, oferecem, algumas bem interessantes, criativas e pedagógicas.

E, mesmo sem a inventividade do "task master", pode fazer-se tanta coisa... 

- Podemos passear na quinta e ter a sensação da terra acabada de lavrar. Que bom que é caminhar na terra como se se estivesse na lua! Afinal podemos ir à lua e andar suavemente quase sem sentir o chão debaixo dos pés.

E fazer corridas até ao fim da leira como se fosse uma pista de atletismo. É mais suave do que na praia ... Pouco importa se, no fim, é pó por todo o lado, da cabeça até aos pés.

- Podemos construir uma casa. Não importa se para isso é preciso desfazer as camas, mudar de sítio as almofadas, lençóis...

- À noite podem surgir ideias interessantes como fazer uma representação, um espectáculo de bateria com tachos e panelas, mesmo que o público seja  apenas os dois avós mas é como se estivesse a sala cheia.

- Podemos organizar a "A feira das pipocas" com um stand para venda com os respectivos preços.

- Podemos jogar um jogo de cartas com as regras de conveniência do momento onde há cooperação mas também competição.

- Podemos participar no Atelier "Verão por um fio", organizado pelo Museu Cargaleiro/Câmara Municipal ou praticar natação na piscina dos "Redentoristas".
Uma questão que sempre se coloca diz respeito à protecção ou superprotecção vs "deixem-me arriscar" (2) ou seja, sobre a salutar actividade da criança no seu contexto ecológico.
O que é risco e perigo na educação? Até onde podemos correr riscos numa actividade educativa ou numa situação que configura perigo ? (3)
É preciso compreender que a criança é activa e, para o seu pleno desenvolvimento, necessita de actividade físico-motora regular. Desde cedo é crucial para o desenvolvimento físico, mental, emocional, motor e neurológico da criança. 
Por outro lado, a actividade diminui o risco de doenças como obesidade, diabetes e problemas cardiovasculares. Tem também a vantagem de reduzir a atracção do telemóvel e dos écrans... (3)

Finalmente as férias chegam ao fim. Com o passar dos dias, devagarinho, vêm-nos à memória os momentos agradáveis das férias e começam as saudades dos mais pequenos episódios, das mais pequenas coisas e vem-nos à memória aquele bordão descontraído e irreverente: " 'I believe I can fly', as cuecas do teu pai..."

Moral da história: A actividade, brincar, é fundamental para o desenvolvimento harmonioso das crianças. A prevenção, necessariamente, deve ter em conta os riscos decorrentes dessa actividade. Ou seja, a actividade da criança tem inúmeras vantagens para o seu desenvolvimento mesmo face a alguns riscos calculados que dela possam advir. No caminho para a autonomia tudo envolve algum nível de risco. É por isso que a supervisão do adulto deve ser permanente. Isso também significa que podem ser feitas actividades que envolvem algum risco. Por isso a prevenção é a melhor protecção. (4)

 

 

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(1) Ilustrações de M. 9:4,  Atelier "Verão por um fio", Museu Cargaleiro.


(2) Joana Silva, Deixem-me arriscar - Correr, lutar, trepar, cair. - A importância de deixar as crianças correrem riscos saudáveis na brincadeira.


(3) Finalmente, o governo "arriscou" regular a utilização de telemóveis no espaço escolar para o 1º e 2º ciclos (DL n.º 95/2025, de 14 de agosto)Como combater dependência do telemóvel, CUF.


(4) Temos de  ter a consciência de que os acidentes domésticos são a principal causa de morte em crianças e jovens.  Maria Luisa Faleiro "Acidentes domésticos aprenda a preveni-los", CUF;  "A seguranca na água",  APSI.







21/03/26

Salvar a alma

 



Perante qualquer possibilidade de existência de conflito, o diálogo deveria ser sempre o método, o caminho a seguir. Que sentido faz iniciar uma guerra se sempre tem que acabar num diálogo mais ou menos consensual que possa estabelecer um compromisso, cessar-fogo, acordo, tratado... entre os que ganham  e os que perdem nem que seja supostamente?

Perante novos conflitos ou conflitos já requentados (o histórico, como diria A. Guterres) podemos sempre aprofundar conflitos até ao limite, até à destruição. As guerras são sempre assim, não resolvem nada. E os vencedores de hoje podem vir a ser os perdedores de amanhã. Como se tem visto com o fim dos impérios ao longo da história.

Para gente tão evoluída como a que chegou ao sec. XXI, há nisto pelo menos um erro de metodologia: primeiro devia estar sempre o diálogo e, falhado este, não deveria seguir-se a guerra mas mais diálogo com outros parceiros com outras perspectivas. A escalada não é solução. Ao ódio histórico que justifica tudo, por esta via, juntam-se mais episódios de ódio e o círculo vicioso é interminável: o que acontece é que se continua a achar que primeiro há que andar à pancada, depois não se pode perder a face, congela-se a situação, e depois sobre as ruínas e os mortos, o cessar-fogo e poder (re)construir. E o que se perdeu?

O necessário diálogo com os outros pressupõe o necessário diálogo consigo ou se quisermos com a sua  cadeira vazia. O que dirá cada um dos que fazem a guerra à sua cadeira vazia? O que fez cada um deles para chegar até aqui. Como se sente em saber que uma decisão sua vai matar uma ou mil pessoas? O que tem de especial o seu poder para desencadear a guerra e  o que pretende com isso? Há alguém que possa ter esse poder? O que dá o direito de liquidar os que pensam de outra forma? A guerra como solução é um absurdo e o conflito  devia ser fundamentalmente um problema de comunicação e o diálogo a sua forma de lhe pôr fim. 

"Sobre a guerra na Ucrânia, o jornalista Rudiger Kronthaler perguntou ao Santo Padre se considerava que deviam ser fornecidas armas ao país ucraniano, naquilo que pode ser encarado como uma ajuda à autodefesa.

“Esta é uma decisão política, que pode ser moral, moralmente aceite, se for feita de acordo com as condições de moralidade, que são muitas. Mas pode ser imoral se for feita com a intenção de provocar mais guerra, vender armas, ou descartar armas de que já não se precisa. A motivação é a que em grande parte qualifica a moralidade deste acto. Defender-se não é somente lícito, mas também uma expressão de amor à Pátria”, começou por dizer Francisco.

O conceito de “guerra justa” voltou a ser abordado e o Santo Padre fez questão de lembrar outras guerras que se encontram a acontecer um pouco por todo o mundo. Referindo que neste momento nos encontramos numa guerra mundial, Francisco diz que o negócio das armas é “assassino” e que deve sempre tentar-se alcançar a paz.

“Acho que é sempre difícil entender o diálogo com os Estados que iniciaram a guerra, e parece que o primeiro passo foi dado de lá, daquele lado. É difícil, mas não devemos descartar isto, devemos dar a oportunidade de diálogo a todos, a todos! Porque há sempre a possibilidade de que no diálogo se possam mudar as coisas, e também oferecer outro ponto de vista, outro ponto de consideração. Não excluo o diálogo com qualquer potência, seja em guerra, seja o agressor…”, explicou." (Papa Francisco: “Não excluo o diálogo com qualquer potência, seja em guerra, seja o agressor” )

Albert Szent-György  a quem se deve a descoberta da vitamina C, e, por isso,  foi premiado com o Nobel da medicina, em 1937, escreveu em O macaco louco:  "O nosso complexo militar-industrial, que faz perigar o futuro da humanidade, deve muito da sua estabilidade ao facto de tantas pessoas dependerem dele para viver. 

O  facto é verdadeiro para todos nós, incluindo eu próprio. Quando recebi o Prémio Nobel, a primeira e única grande soma de dinheiro que vi até agora, tive de fazer qualquer coisa com ele.  A maneira mais fácil de largar aquela batata quente era investir, comprar ações. Eu sabia que a segunda guerra mundial estava iminente e temia poder vir a desejar a guerra se possuísse ações que subissem  no caso de ela deflagrar. Por isso pedi ao meu corretor que comprasse acções cujo valor descesse em caso de guerra. Ele assim fez. Perdi o dinheiro e salvei alma."

Então quem ganha dinheiro com a guerra tem que perguntar qual é para si o valor da vida humana. Quem ganha dinheiro com a guerra tem que se interrogar sobre as suas  decisões poderem estar erradas e não ficará na história como um ser empático e de moralidade superior mas como torcionário indiferente ao sofrimento de milhões de pessoas  a começar por aquelas que pela sua fragilidade fariam parar qualquer possibilidade de guerra, como são as crianças.

O tempo passa, a guerra prolonga-se e as cadeiras vazias esperam urgentemente que sejam ocupadas por interlocutores que desejem a paz. Há muito para dizer a cada uma das cadeiras. Cada uma delas pode ser o outro, nosso inimigo, nosso aliado, ou eu, inimigo ou aliado de mim próprio. 

Por isso, se ainda têm uma, será que vão a tempo de salvar a alma?




09/03/26

Compaixão e altruísmo




As pessoas são singulares e, por isso, não se substituem, sucedem-se, mas os valores mantêm-se. Este foi o caminho de Marcelo e a expectativa é de que tenham continuidade com Seguro. 








13/02/26

Serenidade e esperança: A música como terapia




"Nisi Dominus - Cum Dederit", de Antonio Vivaldi. 
Andreas Scholl


A música desperta as mais diversas emoções em cada um de nós. Por experiência própria, sabemos que a música muda o nosso estado emocional. Momentos de alegria e de tristeza têm a sua música apropriada. Momentos que vamos vivendo ou recordando ao longo da vida estão muitas vezes associados a determinadas músicas. 

A música é  fonte das emoções e sentimentos mais positivos como a alegria, gratidão, serenidade, esperança, amor... Ou, pelo contrário, desperta as mais terríveis emoções como n' A Sonata Kreutzer , de L. Tolstói, onde no capítulo 23, explica o "efeito sublime na alma" provocado pela música no despertar do ciúme.

Helena C. Peralta, em "A música (também) faz bem à saúde", Lusíadas, faz  referência a Daniel Levitin que "demonstrou que estamos mais musicalmente equipados do que pensamos, pois os nossos cérebros estão naturalmente dotados para a música e esta é, talvez, tão fundamental para a espécie humana como a própria linguagem."

Mesmo quando acontece a perda de capacidades é através da música que ainda se manifestam os sentimentos.  Oliver Sacks, em Musicofilia, conta-nos a história de Harry, e de como uma hemorragia cerebral o deixou seriamente afectado... "Tudo isto, contudo, mudava subitamente quando Harry cantava. Tinha uma bela voz de tenor e gostava muito de canções irlandesas. Quando cantava mostrava todas as emoções apropriadas à música - alegria, o humor, o sentimento trágico, o sublime..." (p. 306)

Sacks mostra a importância da música para  o nosso cérebro e de como ela pode ser uma das últimas formas de nos relacionarmos emocionalmente com os outros, com o mundo. 
"A percepção da música e das emoções que pode suscitar não depende apenas da memória e não é necessário que a música seja familiar para exercer o seu poder emocional. Vi doentes que sofriam de demência profunda chorarem ou tremerem enquanto ouviam uma música que nunca tinham ouvido antes, e penso que podem experimentar toda a gama de sentimentos que nós próprios experimentamos com a música e também que a demência, pelo menos nessas ocasiões, não diminui a profundidade da experiência emocional. Quem tenha observado estas respostas sabe que continua a existir um si-próprio que pode ser interpelado, ainda que seja a música, e só a música, a poder falar-lhe." (p. 348-349)

Quando se junta a letra do salmo 127 - Nisi Dominus/Cum dederit -  com a música de Vivaldi  encontramos um momento extraordinário de serenidade e esperança que se torna meditação em que a atenção focada em frases repetitivas nos desliga de tudo o que possa distrair do essencial.

Se não for o Senhor o construtor da casa,
será inútil trabalhar na construção.
Se não é o Senhor que vigia a cidade,
será inútil a sentinela montar guarda.
 
Será inútil levantar cedo e dormir tarde,
trabalhando arduamente por alimento.
O Senhor concede o sono
àqueles a quem ele ama.
 
Os filhos são herança do Senhor,
uma recompensa que ele dá.
Como flechas nas mãos do guerreiro
são os filhos nascidos na juventude.
 
Como é feliz o homem
que tem a sua aljava cheia deles!
Não será humilhado quando enfrentar
seus inimigos no tribunal. *

"O uso do ritmo siciliano** cria uma atmosfera de repouso quase transcendental, especialmente quando o trecho central, “Cum dederit dilectos suis somnum” ("Quando Ele concede sono aos seus amados"), é repetido de forma meditativa. Essa repetição reforça a ideia de que o verdadeiro descanso é um presente divino, resultado da graça e do cuidado de Deus, e não do esforço humano."

"A obra foi composta por Vivaldi para o Ospedale della Pietà, um orfanato e conservatório em Veneza, o que acrescenta um significado especial. Destinada a jovens em situação de vulnerabilidade, a música traz conforto ao destacar a proteção e a herança divina, como nos versos “Ecce haereditas Domini, filii / Merces, fructus ventris” ("Eis a herança do Senhor, os filhos / Recompensa, fruto do ventre"). A repetição de “fructus ventris” (fruto do ventre) enfatiza a bênção da vida e a esperança para o futuro." (Letras - Nisi dominus, cum denderit)

PS: Uma boa parte do país ficou debaixo de água. Serenidade e esperança: foi assim a reacção deste extraordinário povo quando a água tudo levou ou tudo destruiu.

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* Na Vulgata corresponde ao Salmo 126.

** Forma musical barroca de carácter lento, bucólico e melancólico, frequentemente em modo menor.





04/12/25

Ideias que curam - Como responder aos nossos demónios

 

No mundo caótico, incerto e sofrido, em que vivemos, imersos e baralhados em redes sociais, políticas, familiares ou do próprio Eu, procuro encontrar maneiras de resistir ao stress e manter o equilíbrio e a sanidade...
A terapia racional, emocional e comportamental (TREC), criada pelo psicólogo Albert Ellis, pode ser um contributo para manter o equilíbrio. 
Nas situações da vida de que falamos, as pessoas têm crenças racionais ou irracionais podendo as reações emocionais ser apropriadas ou inapropriadas e os comportamentos daí resultantes serem saudáveis ou problemáticos. 
Para esta terapia, o pensamento irracional é o determinante principal das nossas perturbações emocionais e por isso deve ser analisado e mudado.

O que é interessante é que uma das fontes desta terapia é a filosofia da resiliência e do autocontrole do estoicismo. *
Dentre os estoicos mais famosos, temos um ex-escravo Epicteto (55 d.C. - 135 d.C.) para quem a liberdade depende da forma como reagimos ao mundo, e um imperador, Marco Aurélio (121 d.C. - 180 d.C.) para quem o sofrimento não vem das coisas externas, mas do nosso julgamento sobre elas.
De facto, há coisas que podemos controlar como pensamentos, ações e atitudes. E há coisas que não podemos controlar como opiniões alheias, eventos externos, a morte.
Sendo assim, o estoicismo incentiva o autocontrole, a resiliência, a aceitação do que não pode ser mudado e a serenidade mental (ataraxia) para viver em harmonia com a natureza e alcançar uma vida ética e feliz (eudaimonia). 

Podemos fazer um exercício: reflectir sobre o texto de um dos dias do livro Estoico todos os dias, de Ryan Holiday e Stephen Hanselman. Foi o que fiz hoje, dia 4 de Dezembro: o tema é “Isso não lhe pertence”.
“Por muito que lutemos e trabalhemos para acumular objectos podemos perdê-los em segundos. O mesmo é verdade para coisas que gostamos de pensar que são “nossas”, mas que são igualmente precárias: o nosso estatuto, a nossa saúde física ou força, as nossas relações” (p. 411)

Se estes princípios servem para todos, terão mais importância quando somos um pouco mais ansiosos.
Neste caso, diz-nos Alain de Botton,  "as nossas relações podem nunca dar certo, alguns membros da família podem continuar a ter-nos rancor, alguns inimigos podem nunca tomar o nosso partido, não conseguiremos corrigir erros nas nossas carreiras e haverá invariavelmente quem seja cético ou puramente sádico. Porém, nada disto nos deveria surpreender e não devemos ser ingénuos ao ponto de deixar que isso afete o nosso estado de espírito. Devemos explorar a nossa tristeza irredutível em manhãs soalheiras quando as nossas faculdades racionais estão frescas e seguras, em vez de deixarmos que nos enerve com os seus ataques às três da manhã, quando estamos demasiado azamboados e cansados para saber como responder aos nossos demónios.” (Uma viagem terapêutica, p.123)


Até para a semana.



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Rádio Castelo Branco



20/11/25

Os idosos e o futuro

 

No meio da confusão geral em que vai o mundo (1) é necessário continuar a procurar o equilíbrio pessoal e familiar. É difícil, no meio dos vendavais naturais e sociais, continuar a manter esse equilíbrio e com isso podermos ter alguma esperança no futuro. 
Somos confrontados na nossa família com a vida diária em situações de doença ou de velhice. Por isso servir e cuidar dos mais frágeis devem ser os grandes objectivos da família, das instituições sociais, de saúde e policiais...

Para a minha geração o cenário não é agradável. Podemos rever-nos e rever a nossa vida nos mais velhos, com todas as suas fragilidades, e pensar o que significa envelhecer bem... Será que vou ter alguém que cuide de mim ? Não devo preocupar-me com isso? Não quero ir para um lar, ok, mas se for, será que, ao menos, consigo uma vaga num lar? E que humanização vou encontrar ? 

Tudo questões de difícil resposta principalmente quando sabemos que a dependência dos idosos se deve sobretudo à demência.
Sabemos as estatísticas da demência: Há 55 milhões de pessoas com demência no mundo. (Margarida Cordo, "Os mais velhos na família e no mundo", in Identidade e Família, p.166)
Quando na nossa família há idosos em idades avançadas, começamos a aperceber-nos dos sintomas, dos défices, em varias áreas:
A perda de memória é talvez o mais conhecido: Esquecer compromissos, dificuldade em reter memórias recentes ou repetir o mesmo assunto. 
Dificuldades de raciocínio: Problemas com números, com as finanças ou tratar de assuntos com o banco.
Desorientação: Perder-se em locais familiares, não saber onde é o quarto ou a cozinha ou ter dificuldade em entender onde se está.
Dificuldade com tarefas diárias: Esquecer-se de como realizar ações habituais, como cozinhar ou vestir-se ou tomar a medicação...
Começamos a aperceber-nos destas dificuldades, que por vezes já acontecem connosco, e por aí podemos ver o filme da nossa vida num futuro não muito distante.
Não existe cura para a demência, mas é possível combatê-la com uma combinação de tratamento médico, hábitos de vida saudáveis e intervenções comportamentais: manter-se fisicamente activo, procurar estímulos cognitivos, participar nas atividades sociais e manter rotinas diárias. 
É aqui que a família desempenha um papel decisivo. A família tem muitos papéis a desempenhar relativamente aos idosos. Espera-se dela apoio na doença mesmo em fases avançadas e irreversíveis.
É também necessário tomar medidas que possam melhorar a vida quando chegamos a velhos.

Sabemos que 70% dos mais de 200 mil portugueses que carecem de cuidados paliativos continuam sem acesso (I. Galriça Neto, "O apoio à família nas situações de doença crónica e avançada", in Identidade e Família, p. 174) 
Entretanto, há intervenções que merecem ser elogiadas. Em 2025, foram sinalizados pela GNR mais de 43.000 idosos que vivem sozinhos ou em situação de vulnerabilidade. No distrito de Castelo Branco foram detectados 2.316 idosos que vivem sozinhos.
A GNR está a fazer contacto direto com estas pessoas para as alertar para a necessidade de adotarem comportamentos de segurança, minimizando o risco de se tornarem vítimas de crimes. (Lusa, 18-11-2025Que por incrível que possa parecer, existem com alguma frequência.  (APAV)
Era desejável criar Serviços e Equipas de Apoio Social e Comunitário a partir das autarquias (2)  de forma a que todas as pessoas pudessem sentir menos a solidão e, assim, haver futuro para os idosos.


Até para a semana.

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(1) Como escreve João Távora no "corta-fitas", "tempos de turbulênicia".

Mas seria importante trabalhar em rede envolvendo Serviços do Município, da Segurança Social, da Saúde, da Segurança, etc. para, assim, melhorar o futuro dos idosos ou a vida das pessoas em situação vulnerável.


Rádio Castelo Branco



13/11/25

O amor não é frágil... mas pode ser mágico



Expensive Soul - O amor é mágico


Como costumamos dizer, passamos a vida toda a aprender e, obviamente, a aprender a amar também. Mesmo quando chegamos aos cinquenta anos de casados? Talvez ainda com mais premência depois de passadas tantas experiências em contextos diferentes, simpáticos ou adversos, é, no entanto, sempre  nesta capacidade de nos ligarmos ao outro que se baseia toda a nossa vida afectiva e relacional da qual depende  a nossa saúde mental.

Acontece também que "as relações modernas têm inscritas no seu cerne, um paradoxo  da melancolia: sabemos que o crescimento afetivo requer amor, mas no terreno, encontramos cada vez menos relacionamentos felizes. “ (Alain de Botton . Uma viagem terapêutica, p. 133)


Num relacionamento, o fracasso ou sucesso resume-se  na essência à presença ou ausência de vários factores, cinco âncoras, como lhes chama Alain de Botton.

Estas cinco âncoras permitem manter a embarcação da vida relacional em equilíbrio. São as seguintes: não defensividade, vulnerabilidade, ternura, atitude terapêutica e  entusiasmo.


A nossa postura defensiva é compreensiva e até necessária (defesas do ego)  mas também pode ser parte do fracasso das nossas relações.

Por experiência ou não, a frase " “ama-me por quem eu sou” é o inevitável grito de guerra de todos os amantes que se encaminham para o desastre". Seria injusto "exigirmos ser amados tal como somos, com a nossa panóplia de falhas, obsessões, neuroses e imaturidades... só devemos esperar ser amados por quem desejamos ser, por quem somos nos nossos melhores momentos..." (p.134-135)

"O amor não é frágil, "pode haver ruturas - e reparações. O amor verdadeiro é resistente. Não será destruído por um pormenor... A defensividade pode ser ultrapassada. Podemos aprender a medir no nosso coração a difrerença entre uma queixa e uma rejeição existencial” (p.137)

Os parceiros devem ter a capacidade de ultrapassar a defensividade, podemos chegar a entender o que podemos reconhecer e superar os pequenos defeitos que todos temos, como por exemplo, na forma como deixamos a casa de banho, podemos comentar que temos mau hálito ou que estamos mal vestidos...(p. 138)


Ser vulnerável é descobrir "um lado em nós que remonta à infância..." (p. 140) e podemos e somos capazes de pedir ajuda.


A ternura está, por exemplo, no comportamento de um pai quando vê uma birra do seu filho que empurra  o prato do jantar para o chão e mesmo assim não o castiga nem o considera “mau” 


Ter uma atitude terapêutica depende essencialmente da capacidade de ambos os parceiros adoptarem em momentos críticos uma atitude terapêutica em relação às compulsões, falhas, fúrias e e excentricidades um do outro...


Finalmente, o entusiasmo. Claro que no principio da relação é fácil viver com entusiasmo. Porém a pouco e pouco "deixamos de nos maravilhar porque nos enredamos inconscientemente em várias formas de irritação não assimilada (p. 148): porque nunca pede desculpa; porque decidiu sem nos consultar; porque... porque...

 

Devemos deixar um tempo para falar daquilo que não correu bem,  não para fazer queixas, não para voltar ao “histórico” que sempre é relevado quando nos irritamos  e vamos buscar pormenores da relação de muitos anos atrás...

Mas em vez disso devemos verbalizar os nossas irritações com regularidade. Tentando compreender o que esteve na atitude do outro.

 

Até para a semana. 

 

 


 

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