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06/06/26

A gratidão na velhice


 A gratidão na velhice


A gratidão na velhice — obrigado antes que eu parta, 
Pela saúde, pelo sol do meio-dia, pelo ar impalpável, pela vida, a 
                simples vida, 
Pelas preciosas recordações nunca esquecidas ( de ti minha querida 
                mãe, de ti, pai, de vós, irmãos, irmãs, amigos),
Por todos os meus dias — não só os de paz — também os dias de 
                guerra, 
Pelas palavras afáveis, carinhos, dádivas dos países estrangeiros, 
Pelo abrigo, vinho e carne, pelo doce reconhecimento 
(Vós, distantes e obscuros desconhecidos — ou jovens ou velhos — 
                inúmeros e não especificados queridos leitores, 
Nunca nos encontrámos e nunca nos iremos encontrar — e, no 
                entanto, as nossas almas estreitam-se num longo, longo 
                abraço);
Pelos seres, grupos, amor, actos, palavras, livros, pelas cores e 
                formas, 
Por todos os homens valentes e vigorosos — homens dedicados e 
                audaciosos — que se lançaram em frente na defesa da 
                liberdade, em todos os tempos, em todos os países, 
Pelos homens mais valentes, mais vigorosos e mais dedicados (uma 
               honra especial, antes que eu parta, para os eleitos da guerra 
               na vida, 
Os artilheiros da poesia e do pensamento, os grandes artilheiros,
               os guias da vanguarda, os capitães da alma);
Como um soldado regressado da guerra que acabou, como um 
               viajante entre muitos na longa procissão voltada para o 
               passado, 
Obrigado — rejubilantes agradecimentos! — os agradecimentos de 
               um soldado, de um viajante.

Walt Whitman, Folhas de erva




20/05/26

Os burgueses

 






Climáximo rouba no supermercado e distribui bens no Oriente (ZAP, 15 Maio, 2026).


Desta vez, os actuais ou futuros burgueses foram roubar um supermercado para redistribuirem... 
Talvez a canção de Jacques Brel ajude a explicar-lhes alguma coisa.

02/04/26

Entre o parque jurássico e a guerra das estrelas



(1)
Uma casa onde habitam crianças não é bem um espelho de desarrumação mas tem momentos em que parece. Nada de especial. Casa onde há crianças é assim. Tudo o que encontram ou conseguem apanhar com potencial para a descoberta, interesse ou nova experiência serve para brincar mesmo que sejam objectos frágeis, valiosos ou perigosos, são mais atractivos do que alguns brinquedos acabados de comprar e, o nosso trabalho é dizer vezes sem conta: "Isso não é brinquedo", "isso é perigoso", "põe no sítio onde estava", "tem cuidado"...
A casa vira Arca de Noé, invadida por todo o tipo de animais, fofinhos ou ferozes, muito rápidos ou muito lentos, bichos medonhos e nojentos, perigosos e assustadores, aranhas, osgas, cobras... Mais ferozes para mim que para eles. 
Há dinossauros por todo o lado misturados com starwars, naves espaciais, transformers, legos, bonequinhos do Kinder surpresa, Minecraft e Creeper, Superthings e Kazoom Blast, Piratix, Stich e Lilo, Sonic... 
Toda esta confusão e desarrumo ou, quem sabe, organização, faz-me sentir entre o parque jurássico e a guerra das estrelas. 

A situação pode ainda complicar-se. Quando são duas ou mais crianças no mesmo estádio de desenvolvimento ou em estádios contíguos, pré-operatório e operações concretas, por ex., podem surgir mais conflitos porque o que um quer o outro também quer, o mais novo a sombra do mais velho, os dois querem sempre ganhar e a brincadeira às vezes termina com choro ou agressão... E nós, sempre temos a desculpa de que são irmãos, não é? Quem tem irmãos sabe que é assim...

Mais difícil ainda quando estão com pais, avós, primos. Em família alargada com autoridade mais diluída a obediência também fica mais fluida: "Tu não mandas em  mim", "tu não és meu pai", "o pai ainda não disse", "oh mãe,  a avó disse...", "deixa-me em paz", "pára, pára"...

Mas, na realidade, o mais difícil é gerir a tralha electrónica: tv e o respectivo comandotelemóvel, tablet ou iPad. Séries infindáveis como Os Mistérios dos bichos, Spidy, Barbapapa, Rubble e companhia... no canal panda, disney junior, nickjr, etc... É deveras difícil mas tem que ser levado em conta para não passarem manhãs e tardes inteiras de passividade motora. Há que esperar o protesto dos mais novos que sempre querem mais e as regras ainda não importam...

Os adultos são responsáveis por gerir a situação relacional e educativa. Um adulto deve conseguir resolver estas crises com segurança, controlo emocional, compreensão de que se fossemos nós teríamos as mesmas atitudes e comportamentos. São de facto crianças muito pequenas para perceberem a necessidade de mudança de actividade  e de passar para as tarefas das rotinas diárias: almoçar, jantar, sair...

Os adultos têm também que perceber quando se trata de desorganização ou de acumulação pura e simples de objectos sem função lúdica. Neste caso o problema é querer sempre mais tralha o que leva à dispersão e à dificuldade em se concentrar ou focar numa determinada actividade dificultando a conclusão de qualquer trabalho.

Por estes longos dias de férias podemos ver como a liberdade de escolher  actividades, brinquedos, brincadeiras, nos revela as muitas capacidades que as crianças têm para interagir, para desenvolver a criatividade, para inventar jogos, actividades, às vezes a partir de qualquer coisa aparentemente insignificante que lhes desperte a atenção.

Sair de casa é sempre uma boa alternativa. Principalmente quando começam a ficar cansados e quezilentos.  

É uma boa estratégia aproveitar a oferta de actividades de ocupação de tempos livres que as comunidades mais atentas através das autarquias locais ou associações de solidariedade social, responsavelmente, oferecem, algumas bem interessantes, criativas e pedagógicas.

E, mesmo sem a inventividade do "task master", pode fazer-se tanta coisa... 

- Podemos passear na quinta e ter a sensação da terra acabada de lavrar. Que bom que é caminhar na terra como se se estivesse na lua! Afinal podemos ir à lua e andar suavemente quase sem sentir o chão debaixo dos pés.

E fazer corridas até ao fim da leira como se fosse uma pista de atletismo. É mais suave do que na praia ... Pouco importa se, no fim, é pó por todo o lado, da cabeça até aos pés.

- Podemos construir uma casa. Não importa se para isso é preciso desfazer as camas, mudar de sítio as almofadas, lençóis...

- À noite podem surgir ideias interessantes como fazer uma representação, um espectáculo de bateria com tachos e panelas, mesmo que o público seja  apenas os dois avós mas é como se estivesse a sala cheia.

- Podemos organizar a "A feira das pipocas" com um stand para venda com os respectivos preços.

- Podemos jogar um jogo de cartas com as regras de conveniência do momento onde há cooperação mas também competição.

- Podemos participar no Atelier "Verão por um fio", organizado pelo Museu Cargaleiro/Câmara Municipal ou praticar natação na piscina dos "Redentoristas".
Uma questão que sempre se coloca diz respeito à protecção ou superprotecção vs "deixem-me arriscar" (2) ou seja, sobre a salutar actividade da criança no seu contexto ecológico.
O que é risco e perigo na educação? Até onde podemos correr riscos numa actividade educativa ou numa situação que configura perigo ? (3)
É preciso compreender que a criança é activa e, para o seu pleno desenvolvimento, necessita de actividade físico-motora regular. Desde cedo é crucial para o desenvolvimento físico, mental, emocional, motor e neurológico da criança. 
Por outro lado, a actividade diminui o risco de doenças como obesidade, diabetes e problemas cardiovasculares. Tem também a vantagem de reduzir a atracção do telemóvel e dos écrans... (3)

Finalmente as férias chegam ao fim. Com o passar dos dias, devagarinho, vêm-nos à memória os momentos agradáveis das férias e começam as saudades dos mais pequenos episódios, das mais pequenas coisas e vem-nos à memória aquele bordão descontraído e irreverente: " 'I believe I can fly', as cuecas do teu pai..."

Moral da história: A actividade, brincar, é fundamental para o desenvolvimento harmonioso das crianças. A prevenção, necessariamente, deve ter em conta os riscos decorrentes dessa actividade. Ou seja, a actividade da criança tem inúmeras vantagens para o seu desenvolvimento mesmo face a alguns riscos calculados que dela possam advir. No caminho para a autonomia tudo envolve algum nível de risco. É por isso que a supervisão do adulto deve ser permanente. Isso também significa que podem ser feitas actividades que envolvem algum risco. Por isso a prevenção é a melhor protecção. (4)

 

 

________________

(1) Ilustrações de M. 9:4,  Atelier "Verão por um fio", Museu Cargaleiro.


(2) Joana Silva, Deixem-me arriscar - Correr, lutar, trepar, cair. - A importância de deixar as crianças correrem riscos saudáveis na brincadeira.


(3) Finalmente, o governo "arriscou" regular a utilização de telemóveis no espaço escolar para o 1º e 2º ciclos (DL n.º 95/2025, de 14 de agosto)Como combater dependência do telemóvel, CUF.


(4) Temos de  ter a consciência de que os acidentes domésticos são a principal causa de morte em crianças e jovens.  Maria Luisa Faleiro "Acidentes domésticos aprenda a preveni-los", CUF;  "A seguranca na água",  APSI.







13/02/26

Serenidade e esperança: A música como terapia




"Nisi Dominus - Cum Dederit", de Antonio Vivaldi. 
Andreas Scholl


A música desperta as mais diversas emoções em cada um de nós. Por experiência própria, sabemos que a música muda o nosso estado emocional. Momentos de alegria e de tristeza têm a sua música apropriada. Momentos que vamos vivendo ou recordando ao longo da vida estão muitas vezes associados a determinadas músicas. 

A música é  fonte das emoções e sentimentos mais positivos como a alegria, gratidão, serenidade, esperança, amor... Ou, pelo contrário, desperta as mais terríveis emoções como n' A Sonata Kreutzer , de L. Tolstói, onde no capítulo 23, explica o "efeito sublime na alma" provocado pela música no despertar do ciúme.

Helena C. Peralta, em "A música (também) faz bem à saúde", Lusíadas, faz  referência a Daniel Levitin que "demonstrou que estamos mais musicalmente equipados do que pensamos, pois os nossos cérebros estão naturalmente dotados para a música e esta é, talvez, tão fundamental para a espécie humana como a própria linguagem."

Mesmo quando acontece a perda de capacidades é através da música que ainda se manifestam os sentimentos.  Oliver Sacks, em Musicofilia, conta-nos a história de Harry, e de como uma hemorragia cerebral o deixou seriamente afectado... "Tudo isto, contudo, mudava subitamente quando Harry cantava. Tinha uma bela voz de tenor e gostava muito de canções irlandesas. Quando cantava mostrava todas as emoções apropriadas à música - alegria, o humor, o sentimento trágico, o sublime..." (p. 306)

Sacks mostra a importância da música para  o nosso cérebro e de como ela pode ser uma das últimas formas de nos relacionarmos emocionalmente com os outros, com o mundo. 
"A percepção da música e das emoções que pode suscitar não depende apenas da memória e não é necessário que a música seja familiar para exercer o seu poder emocional. Vi doentes que sofriam de demência profunda chorarem ou tremerem enquanto ouviam uma música que nunca tinham ouvido antes, e penso que podem experimentar toda a gama de sentimentos que nós próprios experimentamos com a música e também que a demência, pelo menos nessas ocasiões, não diminui a profundidade da experiência emocional. Quem tenha observado estas respostas sabe que continua a existir um si-próprio que pode ser interpelado, ainda que seja a música, e só a música, a poder falar-lhe." (p. 348-349)

Quando se junta a letra do salmo 127 - Nisi Dominus/Cum dederit -  com a música de Vivaldi  encontramos um momento extraordinário de serenidade e esperança que se torna meditação em que a atenção focada em frases repetitivas nos desliga de tudo o que possa distrair do essencial.

Se não for o Senhor o construtor da casa,
será inútil trabalhar na construção.
Se não é o Senhor que vigia a cidade,
será inútil a sentinela montar guarda.
 
Será inútil levantar cedo e dormir tarde,
trabalhando arduamente por alimento.
O Senhor concede o sono
àqueles a quem ele ama.
 
Os filhos são herança do Senhor,
uma recompensa que ele dá.
Como flechas nas mãos do guerreiro
são os filhos nascidos na juventude.
 
Como é feliz o homem
que tem a sua aljava cheia deles!
Não será humilhado quando enfrentar
seus inimigos no tribunal. *

"O uso do ritmo siciliano** cria uma atmosfera de repouso quase transcendental, especialmente quando o trecho central, “Cum dederit dilectos suis somnum” ("Quando Ele concede sono aos seus amados"), é repetido de forma meditativa. Essa repetição reforça a ideia de que o verdadeiro descanso é um presente divino, resultado da graça e do cuidado de Deus, e não do esforço humano."

"A obra foi composta por Vivaldi para o Ospedale della Pietà, um orfanato e conservatório em Veneza, o que acrescenta um significado especial. Destinada a jovens em situação de vulnerabilidade, a música traz conforto ao destacar a proteção e a herança divina, como nos versos “Ecce haereditas Domini, filii / Merces, fructus ventris” ("Eis a herança do Senhor, os filhos / Recompensa, fruto do ventre"). A repetição de “fructus ventris” (fruto do ventre) enfatiza a bênção da vida e a esperança para o futuro." (Letras - Nisi dominus, cum denderit)

PS: Uma boa parte do país ficou debaixo de água. Serenidade e esperança: foi assim a reacção deste extraordinário povo quando a água tudo levou ou tudo destruiu.

____________________

* Na Vulgata corresponde ao Salmo 126.

** Forma musical barroca de carácter lento, bucólico e melancólico, frequentemente em modo menor.





29/01/26

A paixão pelo poder absoluto


Claudio Monteverdi - L’Incoronazione di Poppea (A Coroação de Popeia) - Pur ti miro. 


A paixão pelo poder absoluto é uma força destrutiva de controle e domínio quer na vida social e política quer nas relações pessoais. Para o comprovar basta assistir às notícias do quotidiano: Os actuais imperadores só se ouvem a eles e às suas paixões. Como sempre aconteceu.

Séneca, professor e conselheiro de Nero tenta aconselhá-lo a ser virtuoso e a cuidar do Estado, opondo-se aos desejos de Nero por Popeia em detrimento da imperatriz Otávia.
A racionalidade de Séneca não se fez valer. E vai ser fatalmente castigado por não dizer o que Nero quer ouvir. Popeia Sabina quer ser imperatriz, não importa como, nem por quê, nem para quê, mesmo que isso tenha o preço das intrigas, vinganças e assassinatos que vão atingir a própria Popeia.
O momento é de paixão e nada mais existe para além dela e do poder. Nero e a sua recém coroada imperatriz, Popeia, são dos mais perversos e corruptos personagens da história de Roma que se contemplam um ao outro como a si mesmo.

O dueto Pur ti miro, pur ti godo, mesmo que não tenha sido escrito por Monteverdi, é um dos mais belos e emocionantes momentos da história da ópera.



Pur ti miro

Pur ti miro, pur ti godo / Mas eu te contemplo, mas eu te desfruto
Pur ti stringo, pur t'annodo; / Mas eu te abraço, mas eu te prendo;
Più non peno, più non moro / Não sofro mais, não morro mais
O mia vita, o mio tesoro! / Ó minha vida, ó meu tesouro!
Io son tua, tuo son io / Sou teu, sou teu
Speme mia, dillo, di': /Minha esperança, diga, diga:"
Tu sei pur l'idolo mio" / "Tu és meu ídolo"
Sì, mio ben, sì mio cor / Sim, meu amor, sim, meu coração
Mia vita, sì! / Minha vida, sim!


28/01/26

Chuva ... Chuva... e um regresso nostálgico à infância


Regenlied - Brams

Que alterações climáticas? Vai chover menos, vai aquecer mais. De certeza? A Clintel que interessa?  Enquanto os espertos vão recolhendo os subsídios e a taxa de carbono e se preparam para o anunciado fracasso de futuras COP, o frio, a chuva vieram este ano como há alguns anos já não soía. 

Esta noite, entre as 5 e as 6 horas locais, a força da natureza (a depressão Kristin) manifestou-se aqui furiosa e um pouco por todo o país, como se quisesse dizer quem manda e o que acontece àquilo que lhe faz frente quando não se cumprem as suas regras.

Como em 2018, ou em 2025, a chuva não sai da nossa vida. Até ficarmos atolados e cansados... 

A parte boa é que, desde sempre, inspira poetas e compositores. 


Regenlied (Canção da chuva)


Flui, chuva, flui, 
Desperta meus sonhos de novo, 
Aqueles que sonhei na infância, 
Quando a água espumava na areia! 

Quando o calor abafado do verão 
Casualmente se misturava com o frescor, 
E as folhas nuas descongelavam 
E as sementes adquiriam um azul mais escuro, 

Que felicidade, na água corrente, 
Ficar descalço! Roçar a grama 
E segurar a espuma com as mãos, 
Ou apanhar gotas frias com as bochechas quentes, 

E abrir meu coração infantil aos aromas recém-despertados! 
Como os cálices que caíram, 
Minha alma se abriu, respirando, 
Como as flores, embriagadas de fragrância, 

Mergulhadas no orvalho do céu. 
Cada gota esfriava com um tremor 
Bem fundo no pulsar do coração, 
E a sagrada trama da criação 
Impulsionada para a vida oculta. 

Flua, chuva, flua, 
Desperta minhas antigas canções, 
Que cantávamos na porta, 
Quando as gotas lá fora soavam! 

Anseio por ouvi-las novamente, 
Seu doce e húmido murmúrio, 
Suavemente humedece minha alma 
Com o temor piedoso da infância.


Klaus Groth (1819 - 1899)



27/01/26

Um hino para o tempo presente







Podemos tocar os sinos que ainda podem tocar. Não há soluções perfeitas mas há sempre uma falha por onde entra a luz, a esperança  e a mudança.

Que outra coisa temos visto que não seja uma grande desilusão? A pomba da paz é capturada novamente, um pouco por todo mundo. Os conflitos que matam crianças inocentes recrudescem sempre de novo. Não há sequer um pequeno intervalo de compaixão. Não há lugar para a pomba sagrada da paz. O tempo presente é feito de maldade e sem esperança num lugar longe, muito longe, da felicidade.

Mas este tempo também há-de ter uma falha onde vamos aprender com o passado e o presente desastroso das guerras. 
fragilidade da paz há-de romper nas pedras duras das dificuldades e desesperança. Em vez do silvo mortal dos mísseis, o canto dos pássaros, ao romper do dia, será a música do coração dos homens.  

Há sempre uma falha por onde entra a luz...



Hino / Anthem

Os pássaros cantam / The birds they sang
No romper do dia /At the break of day
Comece de novo / Start again
Eu ouço eles dizendo / I heard them say
Não se apoie naquilo / Don't dwell on what
Que passou / Has passed away
Ou naquilo que está para vir / Or what is yet to be

Ah, as guerras / Ah the wars they will
Elas serão lutadas de novo / Be fought again
A pomba sagrada / The holy dove
Ela será apanhada novamente / She will be caught again
Comprada e vendida / Bought and sold
E comprada de novo / And bought again
A pomba nunca está livre / The dove is never free

Toque os sinos que ainda podem tocar / Ring the bells that still can ring
Esqueça sua oferenda perfeita / Forget your perfect offering
Há uma falha em tudo / There is a crack in everything
É assim que a luz entra / That's how the light gets in

Nós pedimos sinais / We asked for signs
Os sinais foram enviados / The signs were sent
O nascimento traído / The birth betrayed
O casamento gasto / The marriage spent
Sim, a viuvez / Yeah the widowhood
De todo governo / Of every government --
Sinais para todos verem / Signs for all to see

Eu não posso mais correr / I can't run no more
Com essa multidão descontrolada / With that lawless crowd
Enquanto os assassinos em lugares altos / While the killers in high places
Fazem suas orações em voz alta / Say their prayers out loud
Mas eles invocaram, eles invocaram / But they've summoned, they've summoned up
Uma tempestade / A thundercloud
E eles vão ouvir de mim / And they're going to hear from me

Toque os sinos que ainda pode tocar / Ring the bells that still can ring

Você pode acrescentar as partes / You can add up the parts
Mas você não vai encontrar a soma / But you won't have the sum
Você pode iniciar a marcha / You can strike up the march
Não há nenhum tambor / There is no drum
Todo coração, todo coração /Every heart, every heart
Virá para amar / To love will come
Mas como um refugiado / But like a refugee

Toque os sinos que ainda pode tocar / Ring the bells that still can ring
Esqueça sua perfeita oferenda / Forget your perfect offering
Há uma falha, uma falha em tudo / There is a crack, a crack in everything
É assim que a luz entra / That's how the light gets in


Produzido por Rebecca De Mornay & Leonard Cohen.  Escrito por Leonard Cohen  e lançado  em 24 de Novembro de 1992.




28/10/25

É sempre assim, não é ?


Le jardin du Luxembourg - Joe Dassin


Là où cet enfant passe, je suis passé 
Il suit un peu la trace que j'ai laissée 
Mes bateaux jouent encore sur le bassin 
Si les années sont mortes 
Les souvenirs se portent bien.







15/10/25

As percepções importam

 

A percepção é um “processo psicológico complexo através do qual o indivíduo tem consciência das suas impressões sensoriais e adquire conhecimento da realidade. É um mecanismo de aquisição da informação através da integração estruturada de dados que procedem dos sentidos; em virtude dessa integração, o indivíduo capta os objectos.”... (Enciclopédia da Psicologia, 4, Oceano,  p.149)

De acordo com Maslow, o ser humano para sobreviver precisa que as suas necessidades básicas estejam asseguradas. A necessidade de segurança (segurança física, estabilidade emocional e proteção contra ameaças), faz também parte dessas necessidades essenciais.

As percepções de segurança ou insegurança dependem das experiências pessoais passadas, de variáveis contextuais diversas e das próprias estatísticas... E, assim, podem dar relevo à forma como reagimos às diversas situações da nossa vida.


De certeza que todos queremos viver numa sociedade segura, numa cidade segura. Ninguém quer ver a sua vida em risco ou perigo, ninguém quer ser ferido, ninguém quer ser roubado. Queremos ir para o trabalho, voltar para casa, queremos que os nossos filhos estejam seguros na escola e fora dela, queremos passear, simplesmente, sem que ninguém nos aborreça ou usarmos a internet de forma segura.

Mas também "vemos ouvimos e lemos, não podemos ignorar",  Basta haver um caso, passado na nossa rua, ou mesmo longe da nossa  casa, ou que veio no jornal, na televisão, para sentirmos medo e ansiedade cada vez que saímos à rua.

Como diz Daniel Pennac, (Mágoas da Escola, p.11), "estatisticamente tudo se explica, pessoalmente tudo se complica".

 

O ex-ministro Pedro Duarte viu o seu carro assaltado. Essa experiência é determinante para a sua visão da realidade. Diz “não acreditar nas estatísticas oficiais de criminalidade no país, uma vez que o episódio que viveu, tal como "muitos outros" semelhantes ficam por reportar: As pessoas hoje em dia, em determinadas zonas da cidade, não se dão sequer ao trabalho de chamar a polícia, porque sabem que nada vai acontecer. Conheço dezenas de casos, o que torna os relatórios oficiais completamente enganadores. Portanto, quando dizem que as estatísticas mostram que o Porto não tem um problema de segurança, naturalmente que eu não posso levar a sério.” (CNN, 8-9-2025 )


As percepções são fundamentais na interpretação de todo o contexto ambiental e, nessa medida, são fundamentais na compreensão de sistemas e subsistemas em que estamos envolvidos, sejam cognitivos, emocionais ou sociais. *

Mesmo sabendo que as percepções são alteradas pelo  medo  e a ansiedade, pelas motivações  e expectativas...

Mesmo sabendo que as  emoções, a  paixão e o amor alteram as nossas percepções. Como na canção de Miguel Araújo “Será amor?" "Que será que me deu?",  "...até o cheiro a gasolina emana um aroma de rosas no ar."

 

Mas nada seríamos sem as percepões. Estaríamos permanentemente em risco e perigo, não saberíamos que fazer, nem como fazer.

A estatística é necessária para  interpretar a realidade mas não é a realidade. 

Os negacionistas da importância da percepção de segurança mudam de opinião no hora em que  são confrontados com a insegurança. 

E devíamos estar gratos a quem arrisca a vida para podermos ter sossego.

Por isso, as percepções sobre a segurança importam.

 

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*Perceção de criminalidade e insegurança, Barómetro APAV.




Rádio Castelo Branco





26/09/25

Inclusão inclusiva


A inclusão é um processo que as sociedades livres e democráticas devem prosseguir e que a todos diz respeito em algum momento da vida.
A Declaração de Salamanca (1994) e o Warnock Report (1978) foram fundamentais para que a integração e inclusão mudassem decididamente as práticas nos vários sectores da sociedade.
No nosso país, após o 25 de Abril, um grande movimento no sector cooperativo e nas instituições privadas de solidariedade social (IPSS), levado a cabo pelos pais foi fundamental para que os seus filhos com dificuldades pudessem ter acesso à educação.

A metodologia UDL (Desenho universal de aprendizagem) de David Rose trouxe uma perspectiva global da inclusão nos diversos níveis de intervenção da sociedade: na educação, nos transportes, na arquitectura, nas empresas... (1)


Obviamente, a inclusão nunca está concluída. Apesar dos sucessos que foram conseguidos muito continua por fazer em muitos sectores. Basta ver o que se passa na questão das acessibilidades nos transportes e nos equipamentos colectivos... deparamos com barreias arquitectónicas mesmo em edifícios recentes, ruas recentes, equipamentos acabados de construir... 


Mas o pior foi a deriva relativamente a este tema. Passou-se daquilo que era a inclusão para todos, sem preferências por ninguém, para a exclusão brutal de outros considerados privilegiados.

A inclusão passou a instrumento de ideologias totalitárias como a chamada  linguagem  neutra,  inclusiva e não binária. 

De forma dissimulada, quase sem darmos por isso, começamos a achar que quando alguém escreve  palavras com @  está tudo bem, até é engraçado. Claro que nem sequer  conseguimos ler mas isso que importa?  (2)

Porém, de forma mais acintosa, em instituições como universidades, passou a haver maneiras politicamente correctas de estar e falar. 

Foram criados manuais, normas e leis absurdas. 

E a seguir vieram as ameaças e as perseguições àqueles que não fossem por aí.

Os "ofendidinhos" despontaram por todo o lado. Tudo passou a ser  inclusivo: arte inclusiva, cultura inclusiva, linguagem inclusiva... Ou  seja, a negação da arte e da cultura e da própria linguagem que se torna incompreensiva. (3)

A consequência deste totalitarismo foi, para quem não aceitou esta visão, passar a ser excluído e até perseguido.



O prémio nobel da literatura, Vargas LIosa, refere a aberrante linguagem inclusiva.

O psicólogo J. Peterson fala sobre a natureza corrupta de sigla DEI (Diversidade, Equidade, Inclusão) e dá testemunho de como não só  professores universitários mas os seus alunos são prejudicados nas suas carreiras e empregos por pensarem de forma diferente das politicamente correctas e wokistas. (4)


Mas...

Apesar dos maus tratos que a inclusão tem sofrido, é absolutamente necessário voltar à inclusão em que todos os cidadãos devem ser tratados sem preferências ou vitimizações. 

É necessário voltar à inclusão sem as amarras da DEI, e sem a absurda linguagem dita inclusiva, neutra ou não binária, para que todos se sintam integrados na escola e na sociedade.

E mais, lutar contra a   inclusão que exclui é uma tarefa de qualquer cidadão livre e democrata. (5)

 

Até para a semana.


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1. Já aqui escrevi sobre a evolução da inclusão e a necessidade de reforço da inclusão. Foi um privilégio viver este tempo de evolução e de realizações na integração e inclusão: a Declaração de Salamanca (1994) e do Warnock Report (1978); O nascimento de cooperativas e IPSS (APP); O ano internacional do deficiente (1981); Participação em grupo de trabalho sobre o atendimento ao deficiente mental profundo e elaboração de legislação que tornou possível a criação dos CAO (Centro de Apoio Ocupacional)...

(2) Não se respeitam sequer as crianças com dificuldades de aprendizagem da leitura e escrita como todas as pessoas com défices sensoriais.


(4) A natureza corrupta da DEI: La ideología igualitária marcha actualmente sob a bandeira de «diversidade, equidade e inclusão». Jordan Peterson refere-se a DEI como «a grande mentira ideológica», e inverte deliberadamente o acrónimo DEI para DIE para sublinhar o resultado inevitável da aplicação da diversidade. 
Comentando as políticas de diversidade no ensino superior do Canadá, Peterson escreveu:
"Todos os meus colegas cobardes devem elaborar declarações DIE para obter uma bolsa de investigação. Todos mentem (salvo a minoria de verdadeiros crentes) e ensinam seus alunos a fazer o mesmo. E fazem-no constantemente, com diversas racionalizações e justificaçoes, corrompendo ainda mais o que já é uma empresa assombrosamente corrompida. Alguns de meus colegas até permitem receber uma suposta formação anti-preconceito, transmitida por pessoal de Recursos Humanos muito pouco qualificado, que dá lições absurdas, alegremente e de forma acusatória sobre atitudes racistas, sexistas e heterossexistas teoricamente omnipresentes." "Jordan Peterson: Por que já não sou professor titular na Universidade de Toronto - A ideologia terrível de diversidade, inclusão e equidade está destruindo a educação e os negócios",  Special to National Post, Jan-19-2022

(5) Tanto mais que como refere Manuel M. Carrilho, no seu recente livro, A Nova Peste - Da ideologia de género ao fanatismo woke: "A adopção do dogma DEI - diversidade, equidade, inclusão - pelas empresas GAFAM (Google, Apple, Facebook, Amazon e Microsoft) e muitas outras, que quase todas assumem explicitamente nos seus sites, é pois altamente inquietante, sendo inequívoco como diz Mounk, que "o viés político actual da inteligência artificial tende visivelmente para o lado woke", o que torna decisivo o debate sobre esta questão, no sentido de se saber "se a inteligência artificial respeitará ou deformará a realidade, se ela dará a todos os instrumentos necessários para nos exprimirmos livremente ou se, pelo contrário, confiará a alguns autoproclamados preceptores o direito de nos darem lições de como pensarmos e agirmos" (Mounk, Y., 2024)." (p. 93)


Rádio Castelo Branco




01/06/25

Os anjos vão dormir...



Os anjos vão dormir...


Os anjos vão dormir: a noite cai
mas libertam os astros para desvendarem
o que apaixona os homens sobre a terra,
que gritos soltam estes, como fazem guerras
e criam desencontros de hora a hora
e se atropelam sem real razão.

Pena que a escuridão seja tão longa,
que o reinado de estrelas não dissipe
o negro tenebroso da maldade:
o breu a consumir cabal alívio
ou confiança no florescimento.

Como saber se os anjos   quand' aurora
virão, calmos de sono, despertar-nos ?

António Salvado, Repor a luz

 

Mais um dia 1 de Junho em que se comemora o Dia Mundial da Criança. Assinalado, pela primeira vez, em 1950, por iniciativa das Nações Unidas, com o objetivo de chamar a atenção para os problemas das crianças, mantém-se mais necessário do que nunca quando vivemos, principalmente as crianças, com "o negro tenebroso da maldade: o breu a consumir cabal alívio ou confiança no florescimento".