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24/01/18

Crenças e aprendizagens


As neurociências têm sido fundamentais para compreendermos o processo de ensino-aprendizagem. O interesse de educadores e psicólogos pelas neurociências vem do facto de funções como a atenção, senso-percepção, memória, orientação, consciência, pensamento, linguagem, inteligência, comportamento, etc., serem fundamentais nesse processo.
No entanto, embora até possam parecer “teorias” simpáticas, o lado negativo vem das crenças erróneas (1)  que  surgem com alguma facilidade nas neurociências,  se propagam à educação e  se perpetuam no tempo, quando não há provas que as fundamentem.
Em cada aluno que aprende, há um cérebro que aprende. Um cérebro, dada a sua complexidade, como cada corpo ou cada personalidade, é diferente de todos os outros pelo que seria de espantar a uniformidade destes processos.
Se se criam, facilmente, ideias erróneas sobre determinadas características do cérebro e da sua influência na nossa vida, também as ciências do cérebro desafiam o senso comum (ideias contra-intuitivas) a propósito do ensino e da aprendizagem:
- “O cérebro pode trabalhar nas suas costas”, isto é, “pode adquirir informações mesmo quando não lhes está a prestar atenção e não se apercebe disso”.
- O cérebro envelhecido pode aprender. Pensava-se até há pouco tempo que a partir de determinada idade o cérebro “estava equipado com todas as células que sempre teria e a idade adulta representava uma espiral descendente de perda de células e de deterioração da aprendizagem, da memória e do desempenho geral. No entanto, os trabalhos de investigação mais recentes começam a mostrar que esta visão do cérebro é exageradamente pessimista: o cérebro adulto é flexível, permite o crescimento de células novas e o aparecimento de novas conexões pelo menos em algumas regiões como o hipocampo. Embora a aquisição de novos conhecimentos se torne menos eficiente com a idade, não há nenhum limite de idade para apender” (O cérebro que aprende, p. 21)
 - Pode-se sempre melhorar o cérebro. A ideia de comparar um educador/professor a um jardineiro é ajustada na medida em que significa que o educador pode sempre melhorar o que já está no aluno.
Hoje não é possível ignorar, a escola e os educadores não podem ignorar, a investigação realizada pelas neurociências em problemas de desenvolvimento como o autismo, a dislexia e a perturbação de hiperactividade com défice de atenção (PHDA). (p 18)

Sobre os mitos e crenças erróneas (2) das neurociências, “um estudo americano recente veio mostrar que as crenças e os mitos sobre o cérebro continuam largamente difundidos… mesmo entre os indivíduos que têm estudos em neurociências” ( le cercle psy, nº27, p.10) (3)
Talvez a crença mais divulgada seja a de que só utilizamos 10%  do cérebro.  É uma crença completamente falsa.
Isto não significa que não possamos melhorar muito o que fazemos na sala de aula com o  potencial dos alunos ainda desconhecido.
Uma coisa é a possibilidade de melhoria das aprendizagens e dos comportamentos outra a de haver uma percentagem de cérebro que é utilizada.
Outra crença  muito divulgada é a de que  o  hemisfério esquerdo é lógico e analítico e o  hemisfério direito criativo
Esta crença daria origem a dois tipos de personalidade distintos: pessoas que pensam que são mais racionais e objectivas e outras mais intuitivas e criativas.
Outra crença refere que os alunos têm formas de aprender visuais, auditivas o cinestéticas. Assim seriam melhores alunos se  fossem ensinados conforme o seu estilo. O que acontece é que a aprendizagem é mais forte quando resulta da utilização de vários sentidos.

Em educação, é necessário que se utilize a informação de forma crítica. Os dados fundamentados das neurociências não podem ser ignorados  mas a discussão sobre a educação  é necessária, contra as crenças ou os formatos supostamente educativos  das televisões.
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(1) "Neuromito" (Alan Crockard) 
(2) Nueve falsos mitos sobre el cerebro 
(3) Kelly Macdonald et al., "Dispelling the Myth: Training in Education or Neuroscience Decreases but Does Not Eliminate Beliefs in Neuromyths"

24/11/17

Tudo tem um fim

Seria mais um jantar... não fora  dar-se o caso de o sr. primeiro ministro resolver reagir estranha e excessivamente ao repasto da web summit, isto é, da cimeira tecnológica, “a maior conferência tecnológica do mundo”.
É realmente uma reunião de negócios importante*, em forma de show off. Por isso, estiveram lá "todos": 1º ministro, presidente da câmara municipal de Lisboa e até Marcelo.
Terminou (11/11/17) com "um jantar exclusivo com convidados da Web Summit na nave central do Panteão Nacional, em que participaram presidentes executivos, fundadores de empresas e ‘startups’, investidores de alto nível, entre outras personalidades. O jantar em questão chama-se ‘Founders Summit’…" (Observador)
Provavelmente a indignação do sr. primeiro ministro  terá nascido da intuição de que havia ali matéria para responsabilizar o governo anterior por tamanha falta de respeito aos nossos maiores.
Vai daí, reagiu assim: “A utilização do Panteão Nacional para eventos festivos é absolutamente indigna do respeito devido à memória dos que aí honramos”, referiu o gabinete do primeiro-ministro, em comunicado. Acrescentou que a situação estava contemplada num “despacho proferido pelo anterior Governo” e informou que vai alterar o regime “para que situações semelhantes não voltem a repetir-se, violando a história, a memória coletiva e os símbolos nacionais”. (TSF)
O Panteão Nacional pode não ser local apropriado para fazer jantares de negócios, para alguns até pode ser, como foi, mas o mesmo não se diga relativamente a outros eventos culturais de qualquer das áreas, por exemplo, onde brilharam e continuam a brilhar alguns dos heróis nacionais cujos restos mortais repousam naquele edifício.
Para além disso, o que há aqui que mereça perder mais tempo com este ”caso”?
1. Mais uma vez este governo nega a responsabilidade que lhe compete em acontecimentos negativos ou controversos...
Ora vai-se a ver este parece ter sido o 10º jantar ocorrido no local, o Panteão Nacional. Além disso, quando o primeiro ministro era presidente da câmara de Lisboa, também decorreu aí um jantar similar...

2. O sítio, Panteão Nacional, podia ser o local certo para mostrar a vida efémera do ser humano e, logo, da  web summit, se esse fosse o objectivo deste jantar.  E é aqui que pode residir o engano ou a claridade.
Em  entrevista a Clara Ferreira Alves (Expresso,     ), a propósito do seu último livro, A estranha ordem das coisas, António Damásio procura consciencializar para que "tudo tem um fim", alertar para o que se passa em Silicon Valey onde tudo parece ser possível no futuro, criar tudo, até eventualmente dar vida a robots. "Silicon Valey terá um despertar doloroso" porque aquilo que não estão a perceber é que "tudo tem um fim".  Podem até criar robots mais inteligentes que o ser humano, porém nunca lhe poderão dar sentimentos como acontece com os humanos.
Damásio refere no seu livro que  " Parte das sociedades que celebram a ciência e a tecnologia modernas, e que mais lucram com elas, parece estar numa situação de bancarrota “espiritual”, tanto no sentido secular como religioso do termo. A julgar pela aceitação despreocupada das crises financeiras problemáticas – a bolha da Internet de 2000, os abusos hipotecários de 2007 e o colapso bancário de 2008 – parecem igualmente estar numa situação de bancarrota moral. Curiosamente, ou talvez não tanto, o nível de felicidade nas sociedades que mais beneficiaram com os espantosos progressos do nosso tempo mantém-se estável ou em declínio, caso possamos confiar nas respectivas avaliações.(p.290-291)

3.O fait divers ou o erro de uma decisão, se o foi, foi da responsabilidade dos serviços tutelados por A Costa, veio por a nu a questão essencial com que se depara a humanidade, a sua finitude, e de como aqueles que pensam que tudo é possível, até a imortalidade, faz com que os panteões de hoje sejam os pandemónios de amanhã.

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* "Em certos setores da sociedade portuguesa, há ainda algum ceticismo relativamente à importância da Web Summit. As críticas incidem em questões que vão desde o deslumbramento tecnológico ao retorno económico do evento, passando pela descrença na viabilidade, competitividade e valor das startups. Existe também quem se limite a valorizar o evento pelas receitas turísticas que produz e pela promoção internacional do país, o que é manifestamente redutor.
A questão mais importante é certamente a do retorno económico da Web Summit, na qual o Estado português investe 1,3 milhões de euros por ano. Ora, sobre o impacto imediato já há dados concretos: em 2016, o retorno direto do evento foi de 200 milhões de euros e, nesta edição, prevê-se que seja de 300 milhões, subida que se justifica pelo aumento do número de participantes. Já o retorno indireto, que é de facto o que interessa ao país, é mais difícil de contabilizar, não só por se tratar de um impacto a médio/longo prazo, mas também por gerar um valor muitas vezes intangível."Vale a pena continuar a acolher a Web Summit?"  Adelino Costa Matos, Presidente da ANJE 14 Nov 2017.

25/10/17

Marcelo: o alfabeto do coração

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1. A dor de Marcelo. A dor de cada um de nós. "A nossa dor neste momento não tem medida". Marcelo decidiu dar importância às pessoas, lá onde elas têm as suas circunstâncias e o seu sofrimento. E sabemos como é difícil ao poder reconhecer e dar importância às pessoas que sofrem, para além dos lindos discursos de solidariedade.
Não é de agora mas o comportamento de Marcelo ainda nos surpreende pelo espontâneo e genuíno sentimento de compaixão, que contrasta com o calculismo de alguns políticos. São centenas de abraços que, parece, nunca o cansam. É importante a abreacção. É importante que a dor de cada pessoa tenha uma expressão: de choro, desabafo e sentimento.
Não é necessário concordar com tudo o que Marcelo fez ou faz. No essencial é com grande inveja que tenho visto a capacidade de um homem expressar um comportamento genuíno, de ser pessoa aqui e agora, de ser gente com gente na frente, de se meter no fato e nos factos do outro.
Excesso de exposição ou a mais profunda solidariedade? Marcelo não tinha necessidade de estar em grande parte das coisas em que tem estado... Mas ainda bem que o tem feito. O contacto, o toque das emoções com os mais frágeis, idosos, crianças, sem abrigo, e agora com as vítimas dos incêndios tem sido apaziguador do conflito interior de quem ficou com nada do trabalho de uma vida inteira. É ainda uma tomada de consciência da incapacidade que foi manifestada pelo executivo de ao menos pedir desculpa e tomar medidas expeditas para minimizar ocorrências semelhantes.

2. Marcelo diz que devemos ter uma "visão panorâmica": "cada um na sua casa pensa que tem melhor visão do que os outros", referia Marcelo no cimo de uma colina, num destes dias de calamidade.
É esta visão que um político deveria ter sempre para poder ser político. Nesta discussão sobre os incêndios ouvimos todas as opiniões e as suas contrárias. São os eucaliptos, a desertificação, a falta de limpeza das matas, o desordenamento, a falta de meios, de comunicações, de vigilância… Por isso uma metodologia panorâmica parece ser a melhor para encontrar soluções mais do que a solução.

3. Marcelo tem o seu estilo próprio. Poderá haver pessoas que exprimem sentimentos de compaixão de outra forma. No entanto, este estilo é de enaltecer vinda do PR ao lidar com uma tragédia como esta. Podia ou deveria servir de modelo para os políticos que com distância e frieza trataram o assunto e que não deixa de evidenciar um contraste chocante com a realidade das pessoas.
Marcelo mostrou solidariedade e compaixão com a compreensão que fez do estado emocional das outras pessoas. A compaixão usa a delicadeza para com aqueles que sofrem e alivia o sofrimento de outro ser humano.
James Doty criou o “alfabeto do coração” para ser usado como um exercício de meditação. O alfabeto do coração inclui: Compaixão, Dignidade, Equanimidade, Perdão, Gratidão, Humildade, Integridade, Justiça, Bondade e Amor.
Marcelo diz que gosta de tratar as pessoas assim porque gostou da compaixão dos outros quando em sofrimento. Não é mais do que “tratar os outros como gostávamos de ser tratados por eles”.
O alfabeto do coração também inclui:
A dignidade que todo o ser humano deve ter.
Equanimidade, a serenidade encontrada entre os altos e baixos dos acontecimentos.
Saber perdoar aqueles que falharam .
Gratidão por tudo o que conseguimos obter.
Humildade porque não é melhor nem pior do que outros.
Ter integridade, ou seja, orientar as suas acções pela honestidade.
Ter justiça para com aqueles que são mais vulneráveis.
Bondade pelo reconhecimento da humanidade do outro.
E, finalmente, o Amor que contém e liga tudo.

18/05/17

Atavismos culturais de esquerda


No último fim de semana, em especial no dia 13 de Maio, vários acontecimentos, como a visita do papa a Fátima, a vitória de Salvador Sobral no festival da Eurovisão, o tetracampeonato do Benfica, trouxeram à nossa vida colectiva algum colorido emocional e social, vivido genuinamente pelas pessoas em manifestações diversas, mas também aproveitado pelos políticos, principalmente candidatos a próximas eleições.
Embora os públicos destes eventos não sejam os mesmos, ainda que haja sobreposição em algumas situações, como acontece com portistas e sportinguistas que não tiveram um grande dia de felicidade, podemos dizer que a autoestima melhorou.
A coincidência destes sucessos nestas actividades relembram que há determinadas áreas da nossa vida colectiva que alguns insistem em ver como negativas.
Sou do tempo em que para criticar o regime político se cantava: “Paradas e procissões/Fátima, fados e bola/São as estas as distracções/De um povo que pede esmola” .
O jargão dos três “f”, “Fátima, fado e futebol”, tem hoje menos acrimónia e uma valoração diferente (o fado foi considerado património imaterial da humanidade). Já se percebeu que este país é muito mais do que estas “distracções” e também se percebeu, que não são as características nem as capacidade genuínas de um povo responsáveis pela sua sobrevivência com esmolas, ou resgates financeiros, mas a falta de capacidade para se auto-organizar, auto-governar e o desprezo pelos valores morais e espirituais. Basta olhar para o mundo para se perceber o que faz e quem faz a miséria das nações. Por isso, era tempo de nos livramos de atavismos culturais de esquerda e de todos os atavismos.
O importante era que as vitórias fossem uma aprendizagem para relevar o que são características positivas de um povo: a espiritualidade, a música, o desporto...
Talvez tenha sido na área da música que surgiu o mais inesperado: Uma música que resultou da criatividade de Luísa Sobral, arranjos de um músico vindo do jazz, Luís Figueiredo, e de uma interpretação limpa e simples onde o que releva é mesmo a música.
Não basta que haja uma melhoria da autoestima. Na realidade, as consequências desta vitória poderiam ser importantes se houvesse uma aposta na música de forma mais sedimentada, um projecto nacional que tornasse a música obrigatória em todos os anos de escolaridade do ensino básico e uma maior possibilidade de escolha no secundário.
Sabemos que a música tem grande importância no desenvolvimento do ser humano, em especial no desenvolvimento infantil. Temos informações suficientes para não podermos ignorar que:
- estudar música melhora as funções executivas do cérebro, responsáveis por capacidades como memória, controle da atenção, organização e planeamento do futuro. (Pesquisa da Universidadede Vermont, Estados Unidos)
- o contacto com a música, ainda que apenas como ouvinte, tem um grande impacto no desenvolvimento humano e prepara o cérebro para executar diferentes tipos de funções. (Elvira Souza Lima)
Por tudo isto, viva Fátima, viva o futebol, viva o fado e a música! Quando nos libertarmos dos atavimos de direita e de esquerda restará a cultura e todos os sucessos que conseguirmos obter serão vividos com felicidade, como fio condutor da nossa vida.

26/04/17

Cérebro e jogo

Daqui  - Origem do Tetris

Discute-se muito se os videojogos e a Internet tem influência positiva ou negativa na  saúde mental dos utilizadores, ou dito de outra forma, se poderá ter efeitos benéficos sobre o cérebro, quando usada dentro de limites adequados, conjugando esta actividade com todos os outros aspectos da vida.

Na área dos videojogos, quase todos os dias surgem novidades, mas mesmo assim, os estudos existentes podem dar-nos indicações sobre a normalidade do comportamento ou sobre o seu disfuncionamento quando jogamos.
Do ponto de vista industrial e comercial, é um dos sectores em grande desenvolvimento. “A indústria dos videojogos vale mais do que a do cinema e música juntas e, só em Portugal, já existem quase cem empresas nesta área,”(Lisboa Games Week, (FIL), Lusa, 06/11/2015)
Por outro lado, "os avanços em campos como a nuvem, o streaming e a redução de hardware, que agora é capaz de oferecer potência dentro do tamanho de um telemóvel ou um tablet, são aspectos fundamentais que determinarão a evolução das consolas.”… “O software para consolas vai deixar de sê-lo nos próximos dois a três anos ( Michael Pachter, referido por Luís Alves)
cursos superiores de jogos digitais e multimédia, tanto no ensino privado como estatal.

Do ponto de vista da saúde mental, sempre houve pessoas viciadas em jogo. Nos casinos ou fora deles, os jogos de fortuna e azar, como bingo, máquinas caça-níqueis, jogos de cartas, lotaria, raspadinha e até bolsa de valores, podem causar compulsão. (Calcula-se em até 2% da população brasileira; entre 0,16 e 0,20 por cento da população potencialmente dependente, dados de há 10 anos). Todas essas formas de jogo continuam a existir e também os problemas daí resultantes.
Mas as tecnologias digitais, a que qualquer criança ou adolescente tem acesso, trouxeram outras formas de jogo e novos desafios. De facto, os jogos tradicionais foram em grande parte substituídos por estas novas formas de jogar e, como em geral acontece, os videojogos têm efeitos positivos e negativos no cérebro.
“Os videojogos têm sido associados ao comportamento violento e a perda de concentração nas crianças No entanto, estudos recentes mostram agora que têm efeitos neurológicos benéficos: potenciam a atenção e desenvolvem a coordenação “. (O cérebro e os videojogos, Lusíadas)
O problema está na sua utilização ser feita ou não na justa medida. E, certamente que a justa medida, será aquela em que sou eu que comando a máquina e não a máquina que tem domínio sobre mim.
Podemos resumir alguns dos efeitos positivos verificados em vários estudos (O cérebro e os videojogos, Lusíadas): Na ambliopia (Tetris, p.ex.); Melhores resultados na escola, entre os 6 e os 11 anos; Estimula a criatividade (estudo com alunos de 12 anos); Reforça a confiança; Estão também a ser desenvolvidos jogos terapêuticos para aumentar a atenção e minimizar a distracção.
Os efeitos negativos podem ser verificados a partir de casos individuais: A exposição abusiva a jogos violentos pode aumentar a possibilidade de aparecimento de pensamentos, sentimentos e comportamentos agressivos a curto e longo prazo; Os utilizadores de jogos violentos têm propensão para a ansiedade; Uma semana de videojogos violentos pode levar a uma diminuição da actividade no lobo frontal interior esquerdo do jogador em processos emocionais e, também, no córtex cingulado anterior, na execução de tarefas matemáticas; O excesso de horas de jogo conduz a diminuição da actividade do lobo pré-frontal o que pode causar mudanças de humor e comportamentos agressivos prevalecentes mesmo depois de desligar o jogo.  
Os pais devem, por isso, limitar o tempo que a criança ou adolescente dedica aos videojogos e terem todos os cuidados quando se trata de jogos violentos.
Jogar videojogos, sim, mas com conta, peso e medida.


16/11/16

"O sonho do século"


Há mais de cem anos, Sigmund Freud  fez importantes descobertas sobre o psiquismo. A história da psicanálise começa em Abril de 1886 quando Freud se instala em Viena como especialista de doenças “nervosas” depois de ter trabalhado em Paris com Charcot.
Perante a ineficácia dos tratamentos (electroterapia, hidroterapia, hipnotismo) aplicados a muitos doentes que não sofriam de lesões orgânicas, descobriu  a psicanálise como método de estudo do comportamento humano, teoria do comportamento e método de tratamento.
Muitos comportamentos  e doenças psicológicas passaram a ser compreendidas e vistas de outra maneira. Um dos casos que se tornou célebre foi o de Anna O. que sofria de diversas perturbações (vómitos, incapacidade de beber água, esquecimento da língua materna, paralisias).
Entretanto, verificou-se grande evolução no tratamento das doenças nervosas mas os problemas psicológicos do ser humano continuam a ser actuais, como acontece nas neuroses, casos borderline e psicoses.
Giorgio Abraham, em O sonho do século, fez um retrato do que foi e é  a psicanálise e das evoluções que entretanto se verificaram.
A profunda reflexão sobre o inconsciente, feita por Freud, veio dar-nos a real dimensão do que é a nossa vida psicológica. Provavelmente, o inconsciente não é  o dono tirânico e despótico da nossa vida psicológica mas é “uma parte submersa do ser interior que contém as nossas forças mais genuínas e poderosas” (p 21)
Freud viveu em Viena até 1938 quando, após o Anschluss (anexação da Áustria pela Alemanha)  e em razão de sua etnia judaica se  refugiou em Inglaterra.
Freud sofreu os  momentos angustiantes vividos antes da 2ª guerra mundial mas, falecido em Londres em  23 de Setembro de 1939, a guerra tinha começado em 1 de Setembro do mesmo ano,  não viria a saber da violência de que seres humanos seriam capazes, nos anos seguintes e, posteriormente, com o disseminar das guerras, durante a guerra fria ou com o terrorismo bárbaro, sem regras e sem humanidade, em que não se respeitam convenções nem tratados internacionais e os assassinos podem exibir os seus crimes nos media.
Esperávamos outro futuro. Seria preocupação suficiente para a nossa vida, conviver com o sofrimento insuportável da morte, da doença física e psíquica. Podíamos ter dado uma oportunidade à paz. Podíamos pensar que provavelmente a tarefa principal do ser humano fosse procurar por todos os meios o bem-estar (Seligman). Mas, pelo contrário,  “... a violência não faz poupança." (pag.107). 
Os conflitos internos explicam os conflitos externos. As forças destrutivas podem ser controladas pelos mecanismos de defesa. “Talvez a raíz profunda da violência seja uma forma de pressa excessiva, um sinal da nossa incapacidade de espera, uma inquietação perante o futuro, a expressão plena do medo da morte.” (p.108) Não evoluímos nesse sentido, pelo contrário as novas possibilidades tecnológicas deram oportunidades de agir a crueldade em limites a que antes não tinha chegado.
“O sonho do século”, as descobertas de Freud,  as novas descobertas, como as das neurociências, as novas terapêuticas, a compreensão dos conflitos internos, da angústia, e do tratamento das doenças psicológicas, mostram que  o horizonte, apesar de tudo, está aberto. As bases lançadas por Freud para a compreensão do psiquismo continuam a dar-nos esperança de que o ser humano há-de, alguma vez, viver "um século de sonho". 

07/07/16

XX - XY

155.º aniversário do nascimento de Nettie Stevens
Nettie Maria Stevens (7/7/1861- 4/5/1912) foi uma bióloga norte-americana de destaque no século XIX. Ela e Edmund Beecher Wilson foram os primeiros a descrever a base cromossómica de definição sexual nos organismos. (Wikipédia)

11/06/15

"Sinto-me grato..."


A gratidão é uma das vinte e quatro forças de assinatura de que fala Seligman. A partir de Felicidade autêntica,  venho utilizando este modelo que me ajudava a ajudar os meus alunos e a mim próprio: todos os dias tento avaliar as situações, atitudes e comportamentos dos outros em relação aos quais me sinto grato. 
É uma tarefa que não é fácil de praticar quando o tempo se vai reduzindo... Como no poema de David Mourão-Ferreira: "Há-de vir um Natal e será o primeiro/em que não viva já ninguém meu conhecido."

Aos 81 anos, Sacks tem vindo a assistir ao desaparecimento da sua geração. A cada morte, uma pequena parte dele também desaparece. “Não irá existir ninguém como nós quando desaparecermos”, escreveu para o jornal norte-americano. “Quando as pessoas morrem, não podem ser substituídas”. São como “buracos que não podem ser preenchidos”, acredita. Mas esse é o destino de todos os homens, e Sacks tem consciência disso.
Admite ter medo, mas acima de tudo diz-se grato. “Amei e fui amado. Recebi muito e dei alguma coisa. Li, viajei, pensei e escrevi”.

Leio Musicofilia. Fascinado e grato.
"A espécie humana tem tanto de musical como de verbal. E essa predisposição para a música pode assumir muitas e diferentes formas. Todos nós, (com raras excepções) somos capazes de apreender a música, de apreender os sons, timbres, distância entre tons, contornos melódicos, harmonias e, (talvez de forma elementar) ritmos. Integramos todos esses elementos e «construímos» mentalmente a música, usando para isso diferentes partes do cérebro. E a esta capacidade estrutural – em grande parte inconsciente -  para apreciar a música acrescenta-se amiúde uma profunda e intensa reacção emocional à música." (pag.13)

22/04/14

Surpreendente cérebro


No ano do cérebro na Europa, independentemente de participar ou não no curso "Um cérebro para todas as idades", esta é uma interessante e importante entrevista de A. Castro Caldas sobre o envelhecer: memória, reforma, demência, a cidade agressiva para os idosos, a crise, a violência contra os idosos...
É claro que não concordo com algumas opiniões políticas, por ex., a austeridade, o governo, o público-privado.


13/12/13

Segundo código no ADN

Cientistas dizem que descobriram um segundo código no ADN...

Somos ainda mais diferentes do que pensávamos. É por isso que a cidadania passa pela inclusão das pessoas que são diferentes. Que somos nós todos.





08/12/13

As emoções influenciam a tomada de decisões




Nos EUA, o professor catedrático António Damásio foi distinguido com o Prémio Grawemeyer 2014 na área da Psicologia. O português foi condecorado pela hipótese que apresentou sobre os marcadores somáticos, que mostra a forma como as emoções influenciam a tomada de decisões.

Os prémios Grawemeyer:

2013
Irving Gottesman
"O conceito endofenótipo na esquizofrenia" (“The Endophenotype Concept in Schizophrenia”).
2012
Leslie Ungerleider e Mortimer Mishkin
"Dois sistemas visuais corticais" ("Two Cortical Visual Systems”).
2011
Walter Mischel
"Desmistificando força de vontade: Demora de gratificação e força de vontade" ("Demystifying Willpower: Delay of Gratification and Willpower”).
2010
Ronald Melzack
"Teoria da comporta da dor" (“Gate Control Theory of Pain”).
2009Anne Treisman
"Teoria da função de integração" (“Feature Integration Theory”).
2008
Albert Bandura
"Auto-eficácia" ("Self-Efficacy").
2007
Giacomo Rizzolatti, Vittorio Gallese e Leonardo Fogassi
"Sistemas de neurónios-espelho" (“Mirror Neuron Systems”).
2006
John M. O'Keefe e Lynn Nadel
"Teoria do Mapa Cognitivo da função do hipocampo" (“Cognitive Map Theory of Hippocampal Function”).
2005
Elizabeth F. Loftus
"A natureza maleável de memória" (“The Malleable Nature of Memory”).
2004
Aaron Beck
"Abordagens cognitivas à violência etno política" (“Cognitive Approaches to Ethno Political Violence”).
2003
Daniel Kahneman e Amos Tversky
"Estratégias de julgamento e Heurística" (“Judgmental Strategies and Heuristics”).
2002
James McClelland e David Rummelhart
"Processamento paralelo distribuído" ("Parallel Distributed Processing”).
2001
Michael I. Posner, Marcus E. Raichle e Steven E. Peterson
"A imagem da mente humana" ("Imaging the Human Mind”).