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06/06/26

A gratidão na velhice


 A gratidão na velhice


A gratidão na velhice — obrigado antes que eu parta, 
Pela saúde, pelo sol do meio-dia, pelo ar impalpável, pela vida, a 
                simples vida, 
Pelas preciosas recordações nunca esquecidas ( de ti minha querida 
                mãe, de ti, pai, de vós, irmãos, irmãs, amigos),
Por todos os meus dias — não só os de paz — também os dias de 
                guerra, 
Pelas palavras afáveis, carinhos, dádivas dos países estrangeiros, 
Pelo abrigo, vinho e carne, pelo doce reconhecimento 
(Vós, distantes e obscuros desconhecidos — ou jovens ou velhos — 
                inúmeros e não especificados queridos leitores, 
Nunca nos encontrámos e nunca nos iremos encontrar — e, no 
                entanto, as nossas almas estreitam-se num longo, longo 
                abraço);
Pelos seres, grupos, amor, actos, palavras, livros, pelas cores e 
                formas, 
Por todos os homens valentes e vigorosos — homens dedicados e 
                audaciosos — que se lançaram em frente na defesa da 
                liberdade, em todos os tempos, em todos os países, 
Pelos homens mais valentes, mais vigorosos e mais dedicados (uma 
               honra especial, antes que eu parta, para os eleitos da guerra 
               na vida, 
Os artilheiros da poesia e do pensamento, os grandes artilheiros,
               os guias da vanguarda, os capitães da alma);
Como um soldado regressado da guerra que acabou, como um 
               viajante entre muitos na longa procissão voltada para o 
               passado, 
Obrigado — rejubilantes agradecimentos! — os agradecimentos de 
               um soldado, de um viajante.

Walt Whitman, Folhas de erva




20/11/25

Os idosos e o futuro

 

No meio da confusão geral em que vai o mundo (1) é necessário continuar a procurar o equilíbrio pessoal e familiar. É difícil, no meio dos vendavais naturais e sociais, continuar a manter esse equilíbrio e com isso podermos ter alguma esperança no futuro. 
Somos confrontados na nossa família com a vida diária em situações de doença ou de velhice. Por isso servir e cuidar dos mais frágeis devem ser os grandes objectivos da família, das instituições sociais, de saúde e policiais...

Para a minha geração o cenário não é agradável. Podemos rever-nos e rever a nossa vida nos mais velhos, com todas as suas fragilidades, e pensar o que significa envelhecer bem... Será que vou ter alguém que cuide de mim ? Não devo preocupar-me com isso? Não quero ir para um lar, ok, mas se for, será que, ao menos, consigo uma vaga num lar? E que humanização vou encontrar ? 

Tudo questões de difícil resposta principalmente quando sabemos que a dependência dos idosos se deve sobretudo à demência.
Sabemos as estatísticas da demência: Há 55 milhões de pessoas com demência no mundo. (Margarida Cordo, "Os mais velhos na família e no mundo", in Identidade e Família, p.166)
Quando na nossa família há idosos em idades avançadas, começamos a aperceber-nos dos sintomas, dos défices, em varias áreas:
A perda de memória é talvez o mais conhecido: Esquecer compromissos, dificuldade em reter memórias recentes ou repetir o mesmo assunto. 
Dificuldades de raciocínio: Problemas com números, com as finanças ou tratar de assuntos com o banco.
Desorientação: Perder-se em locais familiares, não saber onde é o quarto ou a cozinha ou ter dificuldade em entender onde se está.
Dificuldade com tarefas diárias: Esquecer-se de como realizar ações habituais, como cozinhar ou vestir-se ou tomar a medicação...
Começamos a aperceber-nos destas dificuldades, que por vezes já acontecem connosco, e por aí podemos ver o filme da nossa vida num futuro não muito distante.
Não existe cura para a demência, mas é possível combatê-la com uma combinação de tratamento médico, hábitos de vida saudáveis e intervenções comportamentais: manter-se fisicamente activo, procurar estímulos cognitivos, participar nas atividades sociais e manter rotinas diárias. 
É aqui que a família desempenha um papel decisivo. A família tem muitos papéis a desempenhar relativamente aos idosos. Espera-se dela apoio na doença mesmo em fases avançadas e irreversíveis.
É também necessário tomar medidas que possam melhorar a vida quando chegamos a velhos.

Sabemos que 70% dos mais de 200 mil portugueses que carecem de cuidados paliativos continuam sem acesso (I. Galriça Neto, "O apoio à família nas situações de doença crónica e avançada", in Identidade e Família, p. 174) 
Entretanto, há intervenções que merecem ser elogiadas. Em 2025, foram sinalizados pela GNR mais de 43.000 idosos que vivem sozinhos ou em situação de vulnerabilidade. No distrito de Castelo Branco foram detectados 2.316 idosos que vivem sozinhos.
A GNR está a fazer contacto direto com estas pessoas para as alertar para a necessidade de adotarem comportamentos de segurança, minimizando o risco de se tornarem vítimas de crimes. (Lusa, 18-11-2025Que por incrível que possa parecer, existem com alguma frequência.  (APAV)
Era desejável criar Serviços e Equipas de Apoio Social e Comunitário a partir das autarquias (2)  de forma a que todas as pessoas pudessem sentir menos a solidão e, assim, haver futuro para os idosos.


Até para a semana.

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(1) Como escreve João Távora no "corta-fitas", "tempos de turbulênicia".

Mas seria importante trabalhar em rede envolvendo Serviços do Município, da Segurança Social, da Saúde, da Segurança, etc. para, assim, melhorar o futuro dos idosos ou a vida das pessoas em situação vulnerável.


Rádio Castelo Branco



16/05/25

A cultura do cuidado

 

É a prática  que mais falta faz na nossa sociedade. É verdade que o simples facto de se falar no assunto mostra preocupação de mudança. Mas há épocas  em que parece que estamos pior. As guerras vão-se somando e todos os dias nos apercebemos desse mundo sofrido que não vê solução nos políticos, quer democraticamente nossos representantes, quer ditadores, para haver melhoras.

Vivemos num mundo  de direitos, os direitos humanos, os direitos das crianças. Mas de que direitos se trata quando há milhões de crianças que não têm garantido sequer o direito à vida?

Em vez de os líderes deste mundo adoptarem a  cultura do cuidado como um imperativo, o que temos são guerras entre vizinhos, as guerras mais destrutivas, com os meios sofisticadamente selváticos, as mais violentas.

 É por isso que a cultura do cuidado é a base de toda a convivência. Sem ela não teríamos evoluído das cavernas para o respeito dos direitos humanos e da infância.


Dizia o Dr. Armando Leandro: “Não há desenvolvimento ético, cultural, social e económico de qualidade sem qualidade humana e esta é subsidiária em alto grau da qualidade da infância.

O desenvolvimento dessa cultura da infância, ao nível da prevenção e da intervenção reparadora e superadora do perigo, compete a todos.” 

Como estava certo: Pelo tratamento dado aos mais frágeis podemos avaliar a sociedade.

Os maus tratos às crianças são apenas o sintoma de um sociedade que não está bem e que acaba por se magoar a si própria.


Leão XIV, na alocução inicial do seu pontificado, falou da necessidade de uma paz que seja  desarmada e  desarmante, construída através do diálogo e da criação de  pontes.

Um coro universal das vítimas da  insensibilidade, devia todos os dias soar aos ouvidos dos líderes mundiais, reclamando justiça e paz.  Até que entendessem que os resultados das guerras são sempre o sofrimento de todos, dos perdedores mas também dos vencedores.

Uma cultura do cuidado, como o do samaritano que ajudou o estranho que encontrou doente no caminho é o sentimento que faz falta.


A cultura do cuidado é fundamental para vivermos como pessoas como seres humanos que existem  com os outros e em que os narcisismos não são determinantes. 

Uma cultura do cuidado é uma cultura da interdependência onde ninguém é descartável.

“...  quando chegamos a este planeta, somos desde o início da vida rodeados de cuidados diversos que se prolongam no tempo;  chega depois a altura em que devemos cuidar de outras pessoas e passaremos por momentos em que teremos de permitir que outros cuidem de nós, inclusive quando ainda esteja longe o fim da nossa vida. 

Estaremos preparados para assumir a interdependência que exige a nossa própria vulnerabilidade? Teremos consciência de que devemos cuidar de nós próprios, dos nossos entes queridos, do conjunto da sociedade e do mundo em que vivemos? 

Uma sociedade em que o bem-estar individual e o bem-estar coletivo andam de mãos dadas é mais humana, mais forte e muito mais comprometida.” (Isabel Sánchez, Cultura do cuidado )

 

 

Até para a semana.

 



 Rádio Castelo Branco


 




02/04/25

Histórico e ressentimento


Tudo o que fazemos, dizemos ou sentimos fica guardado na memória. E logo que isso acontece começa a haver história. 
Porém, sabemos que não há memória sem esquecimento como também sabemos que a memória nos engana e aquilo que pensamos ser um facto vivenciado por nós em determinadas circunstâncias objectivas, pode não ser bem assim. 

Seja como for, há um conjunto de memórias onde ficam guardados acontecimentos da nossa vida que constituem o "histórico" dessa mesma vida, a memória autobiográfica.
Esse histórico é fundamental para nos situarmos no mundo e faz parte da experiência que temos do comportamento de ir juntando acontecimentos, factos, pequenas e grandes coisas que vão ganhando ou perdendo importância e quando vistas no contexto podem ser amplificadas ou simplificadas... até nos dar jeito. 

O histórico tem um lado positivo quando ele nos serve para vermos a realidade tal como ela é, os factos e como aconteceram, e tem um lado negativo quando nos serve para justificarmos o nosso ressentimento. *
O que vem depois é o efeito gota de água que faz transbordar o copo. E infelizmente, há sempre uma gota de água que vem a calhar, quando nos dá jeito, para podermos justificar o nosso comportamento. 
Quando achamos uma oportunidade lá vamos nós buscar o histórico, o nosso ressentimento: no dia tantos fizeste-me isto, fizeste aquilo...
E sai todo um relatório de “deve e haver” em relação à nossa vida e à relação com quem naquele momento é fonte da nossa frustração e objecto da nossa raiva.

Esta interligação está muitas vezes na origem do ressentimento que existe entre pessoas, num casal, na família, no trabalho, nas instituições sociais e políticas.
Hoje o ressentimento está presente em muitas situações e visões da sociedade.
Há cada vez mais indivíduos ressentidas: vitimizados, ofendidos, magoados, ressabiados e melindrados...

Nós não somos computadores e não podemos apagar o nosso  histórico como fazemos ao nosso hardware. A nossa memória apaga alguns acontecimentos mas outros ficam presentes, ou são alterados fazendo com que demos interpretações dos factos que não correspondem à realidade.
Podemos passar por esses eventos e nunca mais pensar neles. Mas podemos também desenvolver o ressentimento. 

“O ressentimento pode fazer mal às nossas relações e ocasionar um conjunto de emoções negativas.” (Louise Leboyer, "Ces comportements cultivent votre ressentiment envers les autres au quotidien", Psychologies, 24 março 2025 )
“As pessoas guardam muito os seus ressentimentos porque se baseiam no profundo sentimento de terem sido injustiçadas.
Além do impacto nos nossos relacionamentos, o ressentimento causa mais danos à pessoa que o sente do que à pessoa a quem é dirigido. 
É por isso que é melhor tentar evitar cair neste ciclo negativo.“
Podemos evitar (Susanne Wolf) alguns comportamentos envolvidos na comunicação que podem ser fonte de ressentimento.
Por isso, uma comunicação saudável é uma boa prevenção: Estabelecer limites claros; evitar a manipulação ou relações interesseiras; ser coerente entre palavras e actos, valores e crenças; saber escutar... 



Até para a semana. 



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* "O ressentimento descreve uma reação emocional negativa quando se é maltratado. Não existe uma causa única para o ressentimento, mas a maioria dos casos envolve uma sensação subjacente de ser maltratado ou injustiçado por outra pessoa. Experimentar frustração e decepção é uma parte normal da vida. Quando os sentimentos se tornam muito opressores, podem levar ao ressentimento. Quando isso acontece, a confiança e o amor nos relacionamentos são quebrados e às vezes nunca reparados."  (Signs of Resentment - Web MD)




Rádio Castelo Branco










22/09/23

"A ilusão da eutanásia"


Faço uma longa citação do artigo do Dr. A. Lourenço Marques "Ilusão da eutanásia - Sobre as más condições em que geralmente se morre em Portugal, há um panorama trágico que urge ultrapassar", que de preferência deve ser lido na íntegra em Reconquista, 21-9-2023.

"...Deixar a morte natural acontecer - estando presentes, solidariamente, em tudo o que isto tem de significado, e cuidando - já pode ter outro sentido. Esta última opção é uma via que tem as marcas da ciência e do humanismo. Verdadeiramente, nestas situações, a aplicação da Medicina, no estado atual da Arte, com o mesmo vigor e empenho com que se aplica quando se pretende o resultado da cura que é viável, pode ter uma resposta positiva do ponto de vista humano. Porque a Medicina é ampla. Com uma história muito antiga, está em permanente progresso, e chegou, hoje, a importantes conquistas que contribuem substancialmente para a melhoria da vida das pessoas que adoecem, e em qualquer fase da doença: curando, quando é possível; aliviando, que é um imperativo; e sempre confortando. A medicina vai até ao fim. A especialidade dos Cuidados Paliativos, os cuidados específicos no sofrimento das pessoas com doenças que determinam a morte natural, assumiu a envergadura de qualquer outra especialidade médica. Só que, na nossa organização, em Portugal, predominantemente arquitetada para a doença aguda, o cuidado apropriado do tempo do fim da vida com doença crónica (período variável) tem penetrado com muita dificuldade. A avaliação disponível que temos, é que num universo de cerca de 90 mil pessoas, necessitadas de Cuidados Paliativos, que morrem, anualmente, entre nós, menos de 30 mil têm acesso aos cuidados indicados pela Arte. Pensemos, por exemplo, que de todos os doentes com indicação para cuidados intensivos, em Portugal, só 30% teriam acesso! Seria um sonoro escândalo! 
Em meados do século passado, os Cuidados Paliativos começaram no Reino Unido. No mesmo país, cerca de 20 anos depois, em 1987, ganharam o estatuto de especialidade médica. 
Portugal está atrasado. A primeira iniciativa concretizada com internamento para doentes terminais com cancro, data de 1992, no Hospital do Fundão. Portanto, 25 anos depois do pioneiro Reino Unido. O percurso, cá, cheio de embaraços. E só em 2014, a Ordem dos Médicos concluiu o primeiro passo do reconhecimento profissional, que foi a atribuição do grau de competência médica à Medicina Paliativa. Ora, sabendo que a Lei da Eutanásia é feita para um país em que esta condição básica, que é a universalidade do acesso aos Cuidados Paliativos, não está cumprida, tenho o direito de julgar que essa Lei é inoportuna. E mais. Acho mesmo que cria a ilusão de que estamos no caminho certo da solução do sofrimento dos doentes, com doenças incuráveis, que se aproximam da morte, quando, na realidade, de tudo o resto (que está universalmente consensualizado) para responder a esta questão, estão arredados, grosso modo, dois terços dos potenciais candidatos. Do meu ponto de vista, o meio político dominante tem dado ares de não ter convicções sobre o que verdadeiramente está em causa. Lamento!"






15/05/23

Aprender a envelhecer.



Envelhecer é algo natural e inevitável, o destino de todos nós. Mas para o geneticista David Sinclair não é bem assim. Defende que é possível retardar o envelhecimento com alguns hábitos simples para que tenhamos vidas cada vez mais longas e saudáveis.
Seja como for, a gente envelhece quer queira quer não. E como não estamos preparados para isso, se calhar, o melhor é apender a envelhecer. (1)
Diz-se que as crianças não nascem com livro de instruções. É também o caso da velhice que não chega com livro de instruções. Tenho aprendido com a própria experiência e já estabeleci algumas regras para meu uso pessoal.

1. Reduzir a velocidade em tudo: andar mais devagar, comer mais devagar, preferir tudo o que se faça devagar.
Não é nada fácil mudar o hábito de muitos anos a fazer as coisas à pressa para começar a fazê-las devagar.
Alguns provérbios fazem agora mais sentido: “depressa e bem não há ninguém” e “devagar se vai ao longe”, ou “um dia de cada vez”...

2. Não ser rezingão, não dizer mal de tudo, não ser queixinhas acerca de tudo o que acontece no mundo à minha volta. 

3. Não ser um peso para ninguém. Não deixar que façam nada por mim, excepto quando de todo não conseguir. 

4. Manter a actividade física e mental. Um hobby pode ajudar. 

5. Não querer ser um velho arrogante e presunçoso mas humilde. Não querer falar em último lugar e não querer ter razão e tirar as conclusões, nem pedir mais 30 segundos para concluir, porque isso não releva nada, não interessa nada e a conversa ou o debate não ganha nada com isso.

6. Ter cuidado com a ideia que anda por aí de que uma pessoa idosa já pode dizer tudo o que lhe vem à cabeça porque normalmente isso é visto como falta de responsabilidade.

7. Não dizer no meu tempo é que era bom, ou “os bons velhos tempos”. É uma frase enganadora uma vez que estes ainda são os meus tempos.

8. Saber retirar-se a tempo de responsabilidades que ficam mais bem entregues a pessoas com mais capacidades e deixar de querer ser, de uma vez por todas, um workaholic

9. Saber vestir-se: se calhar não "vestir à velho" mas também não querer ser o que não se é: um jovem de 20 anos.

10. Não dar saída aos mitos relacionados com a velhice, como por exemplo: Solidão e depressão são normais na velhice; os velhos não aprendem coisas novas...

11. Na velhice, como ao longo da vida, em relação às pessoas com quem vivemos, não dizer “tu nunca...” ou de outra forma não dizer “tu sempre...” , porque isso torna a comunicação difícil. 

12. Ter presente que a memória vai falhando com o envelhecimento. Vamos tendo experiência do que é perder lentamente a memória. Nada de anormal. começamos a esquecer-nos dos nomes de algumas pessoas, depois de muitas pessoas, a seguir, de acontecimentos temporais...

13. Finalmente, ser fanático apenas por uma coisa: a família afectiva.


Até para a semana.


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(1) Este é também o sentido do livro de Manuel Pinto Coelho, Chegar novo a velho.


Rádio Castelo Branco


24/03/23

Respeitar os idosos


O psicólogo Erik Erikson definiu oito estádios de desenvolvimento psico-social sendo o oitavo correspondente à velhice
A resolução das crises características desta idade passa pelo equilíbrio entre a integridade e o desespero. Quer dizer, reconhecer sucessos e fracassos vividos como parte de um todo que constitui a nossa vida, como um sentimento de realização ou de desespero de uma vida insatisfatória e que já não se pode alterar.

O envelhecimento da população vem questionar-nos sobre as respostas que a sociedade cria, desenvolve e regula para que estas pessoas possam viver sem grande ansiedade o resto da suas vidas.
Segundo os dados dos censos de 2021, a percentagem de população idosa (65 e mais anos) representava 23,4%, da população. 
Por outro lado, o que também está a aumentar é a violência contra idosos.
Segundo os dados da APAV, em 2021, 1594 pessoas idosas foram vítimas de crimes.
Embora sujeitos a episódios de violência extremamente graves, apenas 35% dos idosos denunciaram o crime e apresentaram queixa contra os agressores.

Sofrem também a violência institucional. Nas últimas semanas tivemos notícias sobre alguns lares de idosos a funcionarem em condições verdadeiramente infra-humanas. 
Tudo isto faz (re)pensar no respeito que devemos aos idosos e nas estruturas para apoio de que necessitam. 
Estas notícias certamente não nos deixam indiferentes: E se fosse comigo? Sim, se fosse eu que estivesse num destes lares o que faria?

Muitos idosos - nem velhos nem trapos ou mesmo que velhos nunca são trapos - de facto, hoje, são activos e, apesar da idade, continuam a ter autonomia suficiente para não dependerem de ninguém e até contribuírem para o desenvolvimento da sociedade e das comunidades em que estão inseridos.
Mas outros são velhos com alguma forma de necessidade (dependência) física, psicológica, social, espiritual. 
Ao depararmos com estas notícias sobre lares a funcionarem em condições desumanas o que poderemos pensar ?
Será que é a resposta adequada ou apenas uma solução a que se recorre porque não há alternativa?
Se houvesse alternativa alguém escolheria passar os seus últimos dias num lar?
A vontade dos idosos é tida em conta quando se trata de tomar a decisão de ser colocado num lar?
Como é possível o que acontece em alguns destes equipamentos sem condições para as pessoas internadas?

Como fazer o balanço de que Erikson fala quando o idoso vive em condições socio-culturais bem diferentes daquelas que alguma vez pensou e tudo é favorável ao desespero ? Como resolver o dilema entre a integridade e o desespero, quando se é posto perante condições infra-humanas: fome, falta de cuidados elementares, falta de carinho, longe da família, longe de tudo e de todos ? Onde ficam os laços de toda uma vida ? Qual o lugar dos afectos ?
Também aqui “o silêncio tem voz”. É preciso respeitar os idosos e os direitos dos idosos e se a educação de cada um não chega para o fazer, a sociedade tem que ter mecanismos que os façam respeitar.


Até para a semana.

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05/04/22

As crianças da Ucrânia

Menino ucraniano ferido pergunta pelo pai


As crianças da Ucrânia já não vão ao jardim de infância
nem encontram a sua escola, desaparecida sob as bombas
e no lugar do parque infantil há apenas devastação.
A alegria arrasada, as brincadeiras destroçadas.
As crianças da Ucrânia, à tarde, já não regressam a casa
pela mão do pai ou ao colo da mãe.

As crianças da Ucrânia já nem sequer precisam da escola
porque estão no hospital e vivem no bunker
nem dos pais porque, sozinhas, vagueiam pela rua,
ou fogem com a mãe, levadas por estranhos
para lugares desconhecidos.

Dima é uma criança da Ucrânia, menino de 8 anos,
que, num hospital de Zaporizhzhia, chora de dor.
Dima não sabe que seu pai,
como ele, também foi ferido, em Mariupol.
Dima não sabe dos cinco mil civis mortos em Mariupol.
Nem das duzentas e dez crianças mortas em Mariupol.
Dima chora e implora: "Onde está o meu pai ?"
"Quando chega o meu pai?"
“Ele vai chegar, como ele disse à mãe”, diz a enfermeira.
Uma criança num hospital de Mariupol chama pelo pai.
O desespero em cada hora, minuto, segundo,
e o pai não chega, a protecção não chega...
no rosto de Dima as lágrimas porque o pai não chega.

Dima grita, como outro Filho, há dois mil anos:
"Pai, por que me abandonaste ?"
Eu sei que Jesus gritou: "meu Deus,
meu Deus por que me abandonaste?"
Talvez Deus, o Pai, escute Dima.

Dima não sabe por que o pai não vem
porque Dima também não sabe 
que 
em vinte e quatro de Fevereiro de dois mil e vinte e dois,
as crianças da Ucrânia encontraram o seu Herodes.

Há pessoas no mundo que não gostam de crianças
Nem sequer parecem pessoas.
Que mal fazem as crianças que apenas querem ir à escola
e brincar com os amigos?
Que mal têm as crianças quando esperam pelos seus pais?

Na Ucrânia, a alegria das crianças
deu lugar ao som das bombas,
às noites e aos dias acordados, há tantos dias.
E, nos próximos anos, virão outros dias
sem conseguir dormir.
Aquilo que os olhos viram e não deviam ter visto
aquilo que os ouvidos ouviram e não deviam ter ouvido
vai ficar delas para sempre.
As marcas que lhes fizeram vão ser delas para sempre.
As falhas, os traumas vão ficar abertos por muitos anos.
Nesse lugar onde devia estar o colo da mãe,
a segurança do pai, o carinho dos avós...
vão encontrar apenas o vazio, a injustiça, a miséria,
de um tempo que devia ser de bondade, de felicidade, 
duma infância que não tiveram
porque a roubaram os sem vergonha.

Aprenderam, no sofrimento, que há canalhas
que fazem sofrer os outros 
Que o mundo não é uma escola
onde ensinam a respeitar os outros:
as crianças, os mais velhos, os mais frágeis.
Onde ensinam a pedir desculpa 
pelo mal que fazemos,
pelos erros que cometemos.
Ficaram a saber, da pior maneira,
que há pessoas que 
as forçaram a fugir 
da sua escola, da sua casa e da sua terra.
E lhes roubaram o sorriso.








07/12/21

Ser conservador (2)



Falámos, a semana passada, na difícil opção de ser conservador, em particular no caso português, devido ao enviesamento  resultante da passagem  de um regime autoritário para uma situação de liberdade e de vivência democrática, em que  tudo o que tivesse a ver com esse  passado era  identificado com conservadorismo, mesmo quando nada tivesse a ver com o regime deposto. 


No entanto, esta dificuldade acontece também em outros países mesmo naqueles que tradicionalmente têm uma forte mentalidade dos valores  conservadores...

Já tínhamos percebido, entre nós, acerca desta desvantagem em particular nos meios universitários. Como refere Roger Scruton, em Como ser  um conservador * “não é invulgar ser um conservador mas é invulgar ser um intelectual conservador. Tanto na Grã-Bretanha como na América, cerca de 70% dos académicos identificam-se a si mesmos como “de esquerda”, enquanto a cultura circundante é cada vez mais hostil aos valores tradicionais ou a qualquer possível reivindicação das nobres conquistas da civilização ocidental.” (pag. 15)

Foi isto que aconteceu também entre nós, principalmente entre os universitários que, como referi, se resumiam a ser de esquerda com prejuízo de todos aqueles que pensassem de outra forma.

 

Mas o que é então o conservadorismo? Segundo Roger Scruton, herdamos colectivamente coisas virtuosas que devemos empenhar-nos em manter... Porém, essas  coisas virtuosas estão todas sob ameaça.

"O conservadorismo tem origem no sentimento que todo o indivíduo com maturidade pode partilhar sem demora: o sentimento de que as coisas virtuosas são facilmente destruídas, mas não facilmente criadas. Isto é especialmente verdadeiro para as coisas virtuosas que nos chegam como bens colectivos: paz, liberdade, lei, civilidade, espírito público, a segurança da propriedade e da vida em família, tudo aquilo em que dependemos da cooperação dos outros, não tendo meios de obter sozinhos. A respeito de tais coisas, o trabalho da destruição é  rápido,  fácil e entusiasmante; o trabalho da criação, lento, laborioso e monótono. É  uma das lições século XX. É  também uma razão pela qual os conservadores sofrem de tamanha desvantagem junto da opinião pública. A sua posição é verdadeira mas enfadonha; a dos de seus opositores excitante mas falsa.” (pag.11)

 

Roger Scruton faz uma avaliação da verdade, ou da falta dela, das várias correntes sociopolíticas: nacionalismo, socialismo, capitalismo, liberalismo, multiculturalismo, ambientalismo, internacionalismo e do próprio conservadorismo.

Muitas coisas estão a acontecer agora. Algumas, sob a capa de um aparente humanismo, de bondade para as pessoas, como é o caso do multiculturalismo, internacionalismo e do ambientalismo... Mas assim não é, de facto, e são estas zonas de conflito que estão a trazer ameaças entre muitos países do mundo, em particular da Europa, como no caso Polónia-Bielorrússia, que são fonte de grande controvérsia entre os cidadãos, e deve, por isso, ser pensada numa perspectiva mais profunda e mais justa do que se passa nos vários movimentos sociais que estão a acontecer.

 

Para Roger Scruton “o conservadorismo é a resposta racional e não-reaccionária a essa ameaça. Talvez seja uma resposta que exige mais compreensão do que aquela que a pessoa comum está preparada para dedicar.” (Contracapa)

 

 

Até para a semana.


____________________

* Roger Scruton, Como ser um conservador, Guerra e Paz, 2021 (orig. 2014).






 




25/06/21

Recuperação, resiliência e respostas sociais





Obviamente que não é possível meter assunto tão vasto no tempo disponível para esta crónica. No entanto, queria fazer uma ligeira reflexão sobre alguns aspectos sociais do plano de recuperação e resiliência. 

Apesar de tudo o que já se disse que vai da foleira designação de “bazuca” ou “já posso ir ao banco ?”, até à constatação séria da necessidade de ajuda externa para ultrapassar a crise em que vivemos, ou às criticas que possamos fazer, o plano aí está como  um facto consumado.

 

O Plano contém projectos interessantes, como, por exemplo, os projectos sobre as respostas inovadoras para idosos ou sobre acessibilidades ... 

Vão ser gastos 583 milhoes de euros * em reformas e investimentos em respostas sociais.

É verdade que “Portugal, à semelhança de outros países europeus, tem vindo a confrontar-se com desafios exigentes ao nível demográfico, socioeconómico e ambiental. Alguns destes desafios foram reforçados e ampliados pela situação de pandemia vivida no último ano. “

Porém, o que se passa em Portugal parece bastante mais gravoso do que na maioria dos países europeus por nos situarmos abaixo da média nos vários parâmetros que possamos analisar.

É, por isso, uma necessidade, como diz o Plano,“reforçar, adaptar, requalificar e inovar as respostas sociais drigidas às crianças, pessoas idosas, pessoas com deficiência ou incapacidade  e famílias”.

 

Mas não nos podemos esquecer de que, se não houvesse a crise sanitária covid19, estas reformas e investimentos seriam igualmente necessários...

Há projectos que nos parecem familiares e que é necessário pôr a funcionar eficazmente e dar continuidade. Sem dúvida, é necessário haver Reformas  nos  Equipamentos e Respostas Sociais, como por exemplo, nos cuidados prestados nas Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas (ERPI), no licenciamento ou regularização das estruturas que estão a operar fora do sistema, como ficou bem evidente com a pandemia... 

Mas, não sabemos muito bem o que sejam “respostas sociais inovadoras como são as respostas de Habitação Colaborativa, ou um modelo de apoio domiciliário inovador, ou um projecto designado Radar social, mas, pelo menos no campo  das intenções, serão certamente melhores respostas do que as actualmente existentes.

Fazem falta creches  mas também é muito importante “adaptar as respostas às necessidades das famílias e das realidades laborais que têm horários e contextos novos que importa acompanhar”.

É necessário reforçar as respostas destinadas a pessoas com deficiência ou incapacidade.

Além destas reformas, vão ser feitos Investimentos numa Nova Geração de Equipamentos e Respostas Sociais (417 M€) tendo em vista respostas sociais de proximidade e que promovam o máximo de autonomia das pessoas.... 

Ou em Acessibilidades 360º (45 M€) nos edifícios públicos, espaços públicos e habitações (cerca de 10,7% da população (dos 15 aos 64 anos) manifesta ter muita dificuldade ou não conseguir realizar pelo menos uma das seis atividades básicas de vida).


Sem dúvida, está aqui todo um programa de governo para uma década. Vale a pena acreditar que estes mais de 500 milhoes de euros* vão ser bem empregues. De uma vez por todas era bom que fosse verdade. 

Era bom que houvesse reformas estruturais. 

As pessoas mais vulneráveis merecem que não as desiludam mais uma vez.



__________________________________

* Na versão de 22-4-2021 foi alterada para 833 milhões de euros. 















01/03/21

Ostinato ou ser Português

Duarte Lobo (1565 – 1646) *
Audivi vocem de cælo, dicentem mihi:

Por: Ensemble Formosa; Dir: Daniel Tate.


" O "ostinatismo" que se verifica na música erudita portuguesa, e que, parece, veio influenciar a música europeia da época, é um dos aspectos do temperamento português, que se pode notar em outras manifestações artísticas. O manuelino é esse mesmo "ostinatismo" tão português como marítimo, feito de ondas e espuma e de vago apelo da distância. Onde há movimento mais imóvel que o das ondas a rolar os seixos das praias? 
É possível que o fundo histórico da imobilidade e do "ostinatismo"da música erudita portuguesa sejam os intervalos paralelos e isométricos das canções corais alentejana e minhotas, que na sua essência representam também a ideia do ostinato, mas a usa verdadeira origem deve estar na alma contemplativa e obstinada dos Portugueses. Foi a própria obstinação que tornou possível a realização dum sonho que parecia superior às forças daqueles que o realizaram. O manuelino, afinal, é a expressão arquitectónica desses sonho materializado; é como disse Reinaldo dos Santos, a "arte dos Descobrimentos".
O "ostinatismo" tem, como a saudade, mais que uma face. Se por trás dele existe uma ideia grande, pode ser fértil em resultados, pela sua enorme capacidade de penetração, de movimento em profundidade. Mas, sem esse amparo, tem o perigo de conduzir à imobilidade mental, ou ao movimento aparente e sem sentido, porque lhe falta a força da coesão social, que leva o Português a ultrapassar o seu individualismo e a colaborar. De facto, o Português tem um forte sentimento de individualismo, que se não deve confundir com o de personalidade. " (Jorge Dias, O essencial sobre os elementos fundamentais da cultura portuguesa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, p. 45-47)

Os Portugueses só podem sentir orgulho na sua cultura que criou um património material e imaterial tão belo como os Jerónimos ou esta música.

O Presidente Marcelo tem todo o mérito na compreensão que faz dos Portugueses:  "Somos os melhores dos melhores". Mesmo que tenhamos defeitos como todos os outros.

Na espuma destes dias de auto-flagelação e comiseração, de razia e rasura, não deve ser possível que a "obsessão mudancista" (Mário S. Cortella) leve a esquecer, deturpar e destruir o passado quer seja extraordinário quer seja mais obscuro mas mesmo assim com muito mais humanidade do que aconteceu noutros povos. Elogiar e criticar a nossa História sempre foi timbre do povo português, mais culto ou menos culto, das elites, dos escritores portugueses - Gil Vicente, Camilo, Eça... - mas no fundo fica sempre o "amor a Portugal".
De facto, "outra constante da cultura portuguesa é o profundo sentimento humano, que assenta no temperamento afectivo, amoroso e bondoso. Para o Português o coração é a medida de todas as coisas." (p. 34)

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Compositor português da época do Renascimento tardio e Barroco inicial. Foi o mais famoso compositor português da sua época. Em conjunto com Filipe de Magalhães, Manuel Cardoso e o Rei D. João IV, é considerado um dos músicos da "época dourada" da polifonia portuguesa. (Wikipédia)



06/12/20

Inominável

 Expresso, Outlook, 29-8-2009



Peço emprestado a PTP este poema que me impressionou quando o li e, sempre que acontece uma  tragédia como esta que enlutou a família Carreira (Sara Carreira tinha 21 anos) me traz de volta a mesma emoção. Só podemos ser solidários com quem passa por tão grande sofrimento.




28/10/20

Amizade social e psicologia


No mesmo mês em que o papa Francisco apela à amizade social e fraternidade ("Fratelli tutti"), ficamos chocados com acontecimentos terríveis que vão em sentido contrário, como o assassinato de um professor em França, Samuel Paty, e a vandalização e incêndio de duas igrejas no Chile.
Porquê este ódio, porquê estes comportamentos violentos?

Na semana passada analisámos o primeiro capítulo da encíclica do Papa Francisco "Fratelli tutti" onde são referidas algumas variáveis que contribuem para o falhanço de um mundo fechado.

A psicologia social esclarece-nos sobre a importância das relaçoes de pertença para a inclusão de cada um de nós numa família e numa comunidade. Muitas pessoas e em particular os jovens são o alvo de controle através da “cultura” da tábua rasa, como já escrevia Gilles Lipovetsky no livro " A era do vazio”. (*)

A desconstrução histórica e cultural (13), deixa de lado uma história humana com os erros e os acertos que foram cometidos, e faz a (re)construção da história com os critérios da actualidade e da forma que dá jeito interpretar.
Fala-nos também das formas de destruir a personalidade das pessoas que passa pela destruição da auto-estima (51)
Critica o slogan liberdade igualdade e fraternidade (103) porque a liberdade e a igualdade sem fraternidade é ilusória, é mero egoísmo, a liberdade de fazer o que me apetece, a igualdade de “sócios” que cria um mundo fechado.
Explica quem é o outro (56 e seg.) e quem é o próximo (80): não é apenas o que me é próximo ou familiar mas aquele que é diferente de mim e pode ter limitações na sua eficiência.

Voltamos à questão: o inferno são os outros ou o inferno somos nós ? Há, então, que compreender por que continuamos num mundo fechado, de emoções destrutivas.
Na psicologia encontramos alguma explicação possível para este esses tipos de personalidade.
Para “Freud a figura do irmão é sempre a de um rival, um intruso no drama edípico, com quem é necessário compartilhar o amor dos pais (Freud, 1917/1988). O sentimento de fraternidade, assim, só pode emergir como efeito secundário, a partir de uma rivalidade originária entre irmãos." (**)

A violência contra os outros e contra si próprio, como o suicídio, como se explica ? O eu está em conflito permanente consigo próprio. As diversas estruturas do eu, conscientes e inconscientes, ou (na 2ª tópica) o id, ego, superego conflituam entre si.
Por outro lado, o psicanalista Wilfred Bion destacou três vínculos fundamentais no ser humano: Amor, Ódio e Conhecimento. São inseparáveis e interagem entre si – de modo que, conforme a predominância da qualidade dos vínculos – se sadia ou patológica – são determinados o nosso comportamento e a nossa qualidade de vida. (***)

O mundo aberto (87 e seg.) é o mundo da criação de vínculos saudáveis, de emoções construtivas: o amor, a bondade e o perdão, a solidariedade, o acolhimento do outro, o prazer de reconhecer o outro, a amabilidade, a superação, a ternura...
O que fazer para caminharmos para um mundo cada vez mais aberto ? 
Francisco fala-nos do caminho, do método para conseguirmos este objectivo: o diálogo, a cultura, a verdade, o perdão e a memória, a proactividade, a negociação, o conhecimento mútuo...



Até para a semana.

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(*) Gilles Lipovetsky, Era do Vazio, A: Ensaios Sobre o Individualismo Contemporâneo (1988)

14/10/20

Amizade social


A
nova encíclica do papa Francisco, Fratelli Tutti» trata de “uma fraternidade aberta, que permite reconhecer, valorizar e amar todas as pessoas, independentemente da sua proximidade física, do ponto da terra onde cada uma nasceu ou habita.”
Inspirado pelos ensinamentos de S. Francisco dedica “esta nova encíclica à fraternidade e à amizade social.”

O papa refere “esta encíclica como humilde contribuição para a reflexão, sobre as várias formas atuais de eliminar ou ignorar os outros, e por outro lado sobre um novo sonho de fraternidade e amizade social que não se limite a palavras."

Francisco passa em revista algumas das várias formas de eliminar ou ignorar os outros.  Nesta análise, Francisco faz notar a contradição entre as palavras que se apregoam e a realidade 
Vou referir, resumidamente, alguns dos pontos dessa análise.

- Num tempo de abertura ao mundo o que acontece é que voltam com toda a força “As sombras dum mundo fechado“.
“ A história dá sinais de regressão. Reacendem-se conflitos anacrónicos que se consideravam superados, ressurgem nacionalismos fechados, exacerbados, ressentidos e agressivos. “
Queremos a economia e as finanças abertas ao mundo. Porém, este “globalismo favorece normalmente a identidade dos mais fortes em desfavor dos mais frágeis e pobres...

- Assistimos a “uma perda do sentido da história que desagrega ainda mais. Nota-se a penetração cultural duma espécie de «desconstrucionismo», em que a liberdade humana pretende construir tudo a partir do zero. De pé, deixa apenas a necessidade de consumir sem limites e a acentuação de muitas formas de individualismo sem conteúdo." 
Proíbem-se livros, vandalizam-se monumentos, reescreve-se a história... É preciso fazer tábua rasa do passado. A manipulação dos espíritos necessita de jovens “vazios”... 

- O descarte mundial. «As pessoas já não são vistas como um valor primário a respeitar e tutelar, especialmente se são pobres ou deficientes, se “ainda não servem” (como os nascituros) ou “já não servem” (como os idosos).“
Formas de descarte são também o desemprego, o racismo, a escravatura...

- Vivemos com o conflito e o medo. As situações de violência – guerras, atentados, perseguições - vão-se «multiplicando cruelmente em muitas regiões do mundo, a ponto de assumir os contornos daquela que se poderia chamar uma “terceira guerra mundial aos pedaços”».

- Em relação à pandemia, diz Francisco: “rapidamente esquecemos as lições da história, «mestra da vida». Passada a crise sanitária, a pior reação seria cair ainda mais num consumismo febril e em novas formas de autoproteção egoísta.” O que já está a acontecer...

- Por fim, talvez o mais paradoxal de todos os motivos desta falta de amizade social seja a “ilusão da comunicação “.
Diz Francisco: “Nos media, tudo se torna uma espécie de espetáculo que pode ser espiado, observado, e a vida acaba exposta a um controle constante. Na comunicação digital, quer-se mostrar tudo, e cada indivíduo torna-se objeto de olhares que esquadrinham, desnudam e divulgam, muitas vezes anonimamente. Dilui-se o respeito pelo outro e, assim, ao mesmo tempo que o apago, ignoro e mantenho afastado, posso despudoradamente invadir até ao mais recôndito da sua vida. “


Até para a semana.






 


01/05/20

Para ouvir... em tempos de covid-19

Jacques Brel - Lers vieux
Os velhos

Os velhos já não falam ou então somente por vezes pelo canto dos olhos
Mesmo ricos eles são pobres, já não têm ilusões e não têm senão um coração por dois
Com eles cheira a tomilho, a limpeza, a lavanda e ao verbo do passado
Mesmo vivendo em Paris, todos vivemos na província quando vivemos muito tempo
É de ter rido muito que a sua voz se quebra quando falam sobre ontem
E de ter chorado muito que as lágrimas ainda escorrem nas suas pálpebras
E se eles tremem um pouco é de ver envelhecer o pêndulo de prata
Que ronrona na sala, que diz sim que diz não, que diz: Eu espero-vos

Os velhos ja não sonham, os seus livros estão adormecendo, os seus pianos estão fechados
O gatinho está morto, o moscatel de domingo já não os faz cantar
Os velhos já não mexem os seus gestos têm muitas rugas, o seu mundo é muito pequeno
Da cama para a janela, depois da cama para o sofá e depois da cama para a cama
E se eles ainda saem de braços dados, todos vestidos de forma rígida
É para seguir ao sol o enterro de um mais velho, o enterro de uma mais horrível
E o tempo de um soluço, esqueçer por uma hora o pêndulo de prata
Que ronrona na sala, que diz sim, que diz não e depois que os espera

Os velhos não morrem, adormecem um dia e dormem muito tempo
Eles dão as mãos, têm medo de se perder e, no entanto, perdem-se
E o outro fica lá, o melhor ou o pior, o gentil ou o severo
Não importa, aquele que dos dois fica, reencontram-se no inferno
Pode vê-lo talvez, vê-lo-eis, às vezes à chuva e com tristeza
Atravessar o presente enquanto já pede desculpas por não estar mais longe
E fugir diante de ti uma última vez o pêndulo de prata
Que ronrona na sala, que diz sim que diz não, que lhes diz: estou à tua espera
Que ronrona na sala, que diz sim, que diz não e depois que nos espera

(Tradução: CT)