A gratidão na velhice
Walt Whitman, Folhas de erva
A gratidão na velhice
Walt Whitman, Folhas de erva
Vivemos num mundo de direitos, os direitos humanos, os direitos das crianças. Mas de que direitos se trata quando há milhões de crianças que não têm garantido sequer o direito à vida?
Em vez de os líderes deste mundo adoptarem a cultura do cuidado como um imperativo, o que temos são guerras entre vizinhos, as guerras mais destrutivas, com os meios sofisticadamente selváticos, as mais violentas.
Dizia o Dr. Armando Leandro: “Não há desenvolvimento ético, cultural, social e económico de qualidade sem qualidade humana e esta é subsidiária em alto grau da qualidade da infância.
O desenvolvimento dessa cultura da infância, ao nível da prevenção e da intervenção reparadora e superadora do perigo, compete a todos.”
Como estava certo: Pelo tratamento dado aos mais frágeis podemos avaliar a sociedade.
Os maus tratos às crianças são apenas o sintoma de um sociedade que não está bem e que acaba por se magoar a si própria.
Leão XIV, na alocução inicial do seu pontificado, falou da necessidade de uma paz que seja desarmada e desarmante, construída através do diálogo e da criação de pontes.
Um coro universal das vítimas da insensibilidade, devia todos os dias soar aos ouvidos dos líderes mundiais, reclamando justiça e paz. Até que entendessem que os resultados das guerras são sempre o sofrimento de todos, dos perdedores mas também dos vencedores.
Uma cultura do cuidado, como o do samaritano que ajudou o estranho que encontrou doente no caminho é o sentimento que faz falta.
A cultura do cuidado é fundamental para vivermos como pessoas como seres humanos que existem com os outros e em que os narcisismos não são determinantes.
Uma cultura do cuidado é uma cultura da interdependência onde ninguém é descartável.
“... quando chegamos a este planeta, somos desde o início da vida rodeados de cuidados diversos que se prolongam no tempo; chega depois a altura em que devemos cuidar de outras pessoas e passaremos por momentos em que teremos de permitir que outros cuidem de nós, inclusive quando ainda esteja longe o fim da nossa vida.
Estaremos preparados para assumir a interdependência que exige a nossa própria vulnerabilidade? Teremos consciência de que devemos cuidar de nós próprios, dos nossos entes queridos, do conjunto da sociedade e do mundo em que vivemos?
Uma sociedade em que o bem-estar individual e o bem-estar coletivo andam de mãos dadas é mais humana, mais forte e muito mais comprometida.” (Isabel Sánchez, Cultura do cuidado )
Até para a semana.
Menino ucraniano ferido pergunta pelo pai
Falámos, a semana passada, na difícil opção de ser conservador, em particular no caso português, devido ao enviesamento resultante da passagem de um regime autoritário para uma situação de liberdade e de vivência democrática, em que tudo o que tivesse a ver com esse passado era identificado com conservadorismo, mesmo quando nada tivesse a ver com o regime deposto.
No entanto, esta dificuldade acontece também em outros países mesmo naqueles que tradicionalmente têm uma forte mentalidade dos valores conservadores...
Já tínhamos percebido, entre nós, acerca desta desvantagem em particular nos meios universitários. Como refere Roger Scruton, em Como ser um conservador * “não é invulgar ser um conservador mas é invulgar ser um intelectual conservador. Tanto na Grã-Bretanha como na América, cerca de 70% dos académicos identificam-se a si mesmos como “de esquerda”, enquanto a cultura circundante é cada vez mais hostil aos valores tradicionais ou a qualquer possível reivindicação das nobres conquistas da civilização ocidental.” (pag. 15)
Foi isto que aconteceu também entre nós, principalmente entre os universitários que, como referi, se resumiam a ser de esquerda com prejuízo de todos aqueles que pensassem de outra forma.
Mas o que é então o conservadorismo? Segundo Roger Scruton, herdamos colectivamente coisas virtuosas que devemos empenhar-nos em manter... Porém, essas coisas virtuosas estão todas sob ameaça.
"O conservadorismo tem origem no sentimento que todo o indivíduo com maturidade pode partilhar sem demora: o sentimento de que as coisas virtuosas são facilmente destruídas, mas não facilmente criadas. Isto é especialmente verdadeiro para as coisas virtuosas que nos chegam como bens colectivos: paz, liberdade, lei, civilidade, espírito público, a segurança da propriedade e da vida em família, tudo aquilo em que dependemos da cooperação dos outros, não tendo meios de obter sozinhos. A respeito de tais coisas, o trabalho da destruição é rápido, fácil e entusiasmante; o trabalho da criação, lento, laborioso e monótono. É uma das lições século XX. É também uma razão pela qual os conservadores sofrem de tamanha desvantagem junto da opinião pública. A sua posição é verdadeira mas enfadonha; a dos de seus opositores excitante mas falsa.” (pag.11)
Roger Scruton faz uma avaliação da verdade, ou da falta dela, das várias correntes sociopolíticas: nacionalismo, socialismo, capitalismo, liberalismo, multiculturalismo, ambientalismo, internacionalismo e do próprio conservadorismo.
Muitas coisas estão a acontecer agora. Algumas, sob a capa de um aparente humanismo, de bondade para as pessoas, como é o caso do multiculturalismo, internacionalismo e do ambientalismo... Mas assim não é, de facto, e são estas zonas de conflito que estão a trazer ameaças entre muitos países do mundo, em particular da Europa, como no caso Polónia-Bielorrússia, que são fonte de grande controvérsia entre os cidadãos, e deve, por isso, ser pensada numa perspectiva mais profunda e mais justa do que se passa nos vários movimentos sociais que estão a acontecer.
Para Roger Scruton “o conservadorismo é a resposta racional e não-reaccionária a essa ameaça. Talvez seja uma resposta que exige mais compreensão do que aquela que a pessoa comum está preparada para dedicar.” (Contracapa)
Até para a semana.
____________________
* Roger Scruton, Como ser um conservador, Guerra e Paz, 2021 (orig. 2014).
Obviamente que não é possível meter assunto tão vasto no tempo disponível para esta crónica. No entanto, queria fazer uma ligeira reflexão sobre alguns aspectos sociais do plano de recuperação e resiliência.
Apesar de tudo o que já se disse que vai da foleira designação de “bazuca” ou “já posso ir ao banco ?”, até à constatação séria da necessidade de ajuda externa para ultrapassar a crise em que vivemos, ou às criticas que possamos fazer, o plano aí está como um facto consumado.
O Plano contém projectos interessantes, como, por exemplo, os projectos sobre as respostas inovadoras para idosos ou sobre acessibilidades ...
Vão ser gastos 583 milhoes de euros * em reformas e investimentos em respostas sociais.
É verdade que “Portugal, à semelhança de outros países europeus, tem vindo a confrontar-se com desafios exigentes ao nível demográfico, socioeconómico e ambiental. Alguns destes desafios foram reforçados e ampliados pela situação de pandemia vivida no último ano. “
Porém, o que se passa em Portugal parece bastante mais gravoso do que na maioria dos países europeus por nos situarmos abaixo da média nos vários parâmetros que possamos analisar.
É, por isso, uma necessidade, como diz o Plano,“reforçar, adaptar, requalificar e inovar as respostas sociais drigidas às crianças, pessoas idosas, pessoas com deficiência ou incapacidade e famílias”.
Mas não nos podemos esquecer de que, se não houvesse a crise sanitária covid19, estas reformas e investimentos seriam igualmente necessários...
Há projectos que nos parecem familiares e que é necessário pôr a funcionar eficazmente e dar continuidade. Sem dúvida, é necessário haver Reformas nos Equipamentos e Respostas Sociais, como por exemplo, nos cuidados prestados nas Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas (ERPI), no licenciamento ou regularização das estruturas que estão a operar fora do sistema, como ficou bem evidente com a pandemia...
Mas, não sabemos muito bem o que sejam “respostas sociais inovadoras como são as respostas de Habitação Colaborativa, ou um modelo de apoio domiciliário inovador, ou um projecto designado Radar social, mas, pelo menos no campo das intenções, serão certamente melhores respostas do que as actualmente existentes.
Fazem falta creches mas também é muito importante “adaptar as respostas às necessidades das famílias e das realidades laborais que têm horários e contextos novos que importa acompanhar”.
É necessário reforçar as respostas destinadas a pessoas com deficiência ou incapacidade.
Além destas reformas, vão ser feitos Investimentos numa Nova Geração de Equipamentos e Respostas Sociais (417 M€) tendo em vista respostas sociais de proximidade e que promovam o máximo de autonomia das pessoas....
Sem dúvida, está aqui todo um programa de governo para uma década. Vale a pena acreditar que estes mais de 500 milhoes de euros* vão ser bem empregues. De uma vez por todas era bom que fosse verdade.
Era bom que houvesse reformas estruturais.
As pessoas mais vulneráveis merecem que não as desiludam mais uma vez.
__________________________________
* Na versão de 22-4-2021 foi alterada para 833 milhões de euros.
Por: Ensemble Formosa; Dir: Daniel Tate.
Os Portugueses só podem sentir orgulho na sua cultura que criou um património material e imaterial tão belo como os Jerónimos ou esta música.
O Presidente Marcelo tem todo o mérito na compreensão que faz dos Portugueses: "Somos os melhores dos melhores". Mesmo que tenhamos defeitos como todos os outros.
* Compositor português da época do Renascimento tardio e Barroco inicial. Foi o mais famoso compositor português da sua época. Em conjunto com Filipe de Magalhães, Manuel Cardoso e o Rei D. João IV, é considerado um dos músicos da "época dourada" da polifonia portuguesa. (Wikipédia)