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25/10/17

Marcelo: o alfabeto do coração

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1. A dor de Marcelo. A dor de cada um de nós. "A nossa dor neste momento não tem medida". Marcelo decidiu dar importância às pessoas, lá onde elas têm as suas circunstâncias e o seu sofrimento. E sabemos como é difícil ao poder reconhecer e dar importância às pessoas que sofrem, para além dos lindos discursos de solidariedade.
Não é de agora mas o comportamento de Marcelo ainda nos surpreende pelo espontâneo e genuíno sentimento de compaixão, que contrasta com o calculismo de alguns políticos. São centenas de abraços que, parece, nunca o cansam. É importante a abreacção. É importante que a dor de cada pessoa tenha uma expressão: de choro, desabafo e sentimento.
Não é necessário concordar com tudo o que Marcelo fez ou faz. No essencial é com grande inveja que tenho visto a capacidade de um homem expressar um comportamento genuíno, de ser pessoa aqui e agora, de ser gente com gente na frente, de se meter no fato e nos factos do outro.
Excesso de exposição ou a mais profunda solidariedade? Marcelo não tinha necessidade de estar em grande parte das coisas em que tem estado... Mas ainda bem que o tem feito. O contacto, o toque das emoções com os mais frágeis, idosos, crianças, sem abrigo, e agora com as vítimas dos incêndios tem sido apaziguador do conflito interior de quem ficou com nada do trabalho de uma vida inteira. É ainda uma tomada de consciência da incapacidade que foi manifestada pelo executivo de ao menos pedir desculpa e tomar medidas expeditas para minimizar ocorrências semelhantes.

2. Marcelo diz que devemos ter uma "visão panorâmica": "cada um na sua casa pensa que tem melhor visão do que os outros", referia Marcelo no cimo de uma colina, num destes dias de calamidade.
É esta visão que um político deveria ter sempre para poder ser político. Nesta discussão sobre os incêndios ouvimos todas as opiniões e as suas contrárias. São os eucaliptos, a desertificação, a falta de limpeza das matas, o desordenamento, a falta de meios, de comunicações, de vigilância… Por isso uma metodologia panorâmica parece ser a melhor para encontrar soluções mais do que a solução.

3. Marcelo tem o seu estilo próprio. Poderá haver pessoas que exprimem sentimentos de compaixão de outra forma. No entanto, este estilo é de enaltecer vinda do PR ao lidar com uma tragédia como esta. Podia ou deveria servir de modelo para os políticos que com distância e frieza trataram o assunto e que não deixa de evidenciar um contraste chocante com a realidade das pessoas.
Marcelo mostrou solidariedade e compaixão com a compreensão que fez do estado emocional das outras pessoas. A compaixão usa a delicadeza para com aqueles que sofrem e alivia o sofrimento de outro ser humano.
James Doty criou o “alfabeto do coração” para ser usado como um exercício de meditação. O alfabeto do coração inclui: Compaixão, Dignidade, Equanimidade, Perdão, Gratidão, Humildade, Integridade, Justiça, Bondade e Amor.
Marcelo diz que gosta de tratar as pessoas assim porque gostou da compaixão dos outros quando em sofrimento. Não é mais do que “tratar os outros como gostávamos de ser tratados por eles”.
O alfabeto do coração também inclui:
A dignidade que todo o ser humano deve ter.
Equanimidade, a serenidade encontrada entre os altos e baixos dos acontecimentos.
Saber perdoar aqueles que falharam .
Gratidão por tudo o que conseguimos obter.
Humildade porque não é melhor nem pior do que outros.
Ter integridade, ou seja, orientar as suas acções pela honestidade.
Ter justiça para com aqueles que são mais vulneráveis.
Bondade pelo reconhecimento da humanidade do outro.
E, finalmente, o Amor que contém e liga tudo.

08/10/17

Mãe e filhos


1. É importante falar, escrever e fazer a divulgação da relevância  para o desenvolvimento da relação da mãe com os filhos. Esta interacção privilegiada, a vinculação 1, coloca em relevo o importante papel que a mãe assume nesse desenvolvimento.  É um comportamento inato dos primatas e em particular dos humanos.
"Embora o conhecimento esteja longe de ser definitivo 2, a investigação permitiu já concluir que os laços que se estabelecem entre mãe e filho constituem o primeiro modelo de relacionamento humano do bebé, potenciando uma sensação  de segurança e de autoestima positiva. Além de que a resposta dos pais aos sinais do bebé também pode influenciar o desenvolvimento social e cognitivo do bebé. Não há, contudo, uma fórmula mágica: é uma experiência pessoal e complexa que não pode ser forçada." (p. 16)
Este processo de vinculação começa muito antes do parto e continua depois do nascimento. De facto, "quando o parto acontece, já se pode dizer que os dois se conhecem, sendo reconhecido que a ligação afetiva que se estabelece durante a gestação é um dos processos mais importantes desses nove meses. É verdade que essa intimidade é sensível a um conjunto de variáveis, nomeadamente a idade da mãe, o apoio familiar e social recebido, o contexto da própria gravidez. Mas também é verdade que, após o nascimento é fundamental consolidar os laços que se começaram a gerar durante a gestação." (p.15)

Há situações, em que por diversas circunstâncias (falecimento, separação forçada pela guerra, acidentes, doença...) a mãe não está presente, e a vinculação é feita a pessoas de referência da criança... Mas esta é uma situação inultrapassável e não há outra resposta mais adequada para o desenvolvimento adequado e seguro da criança.
A adopção surge também como uma dessas possibilidades em que o superior interesse da criança passa por este tipo de resposta, sendo preferível  à institucionalização, p ex..


A partir dos anos 50 do século passado, a psicologia passou a dispor de um conjunto de dados resultante da investigação animal e humana que fundamentaram com segurança este processo de interacção.
Há alguns anos, R. Zazzo recolheu em livro a opinião de vários especialistas sobre  a vinculação. A mudança conceptual que vinha trazer em relação à necessidade primária que a vinculação representava, mostrava uma perspectiva diferente da  relação mãe-filho.  Ficava em questão quer o conceito da psicanálise enquanto defensora de que essa vinculação era secundária em relação à necessidade primária de alimentação, como o do behaviourismo que seria secundária em relação ao reforço.


Para Bowlby (O vínculo mai-filho e a saúde mental, Galiza editora) "a vinculação não é exclusiva da nossa espécie já que existe igualmente tal como o demonstraram outros autores (como Harlow, Hinde e Lorenz) na primeira infância de muitos mamíferos e algumas aves." (p.13)
A teoria da vinculação (apego) é um modo de conceptualizar a tendência dos seres humanos a estabelecerem fortes vínculos afectivos com outros seres particulares e de explicar as múltiplas formas de aflição emocional e transtorno da personalidade que compreendem a ansiedade, a ira a depressão e o desapego emocional a que dão lugar a separação e a perda não desejadas" (p. 27)
O DSM caracteriza a Perturbação reactiva de vinculação da primeira infância e início da segunda infância. (No Brasil, "Transtorno de apego").

2. A gestação de substituição, aprovada em conselho de ministros, (Decreto Regulamentar n.º 6/2017- DR n.º 146/2017, Série I, de 2017-07-31) 3 certamente tem muito a ver com o que se disse antes  e os senhores deputados devem ter ponderado o assunto, seriamente. De facto, a mãe é indispensável para o desenvolvimento da criança. Por isso, para este efeito há necessidade
"d) De uma declaração de psiquiatra ou psicólogo favorável à celebração do contrato de gestação de substituição".
 Apesar do risco, parece compreensivo que haja situações excepcionais em que a gestação de substituição tenha  lugar.

Por outro lado, há cláusulas que não se sabe como vão ser resolvidas, na prática, e como vai ser feito o seu controlo, como:
"k) A gratuitidade do negócio jurídico e a ausência de qualquer tipo de imposição, pagamento ou doação por parte do casal beneficiário a favor da gestante de substituição por causa da gestação da criança, para além do valor correspondente às despesas decorrentes do acompanhamento de saúde efetivamente prestado, incluindo em transportes".

3. Seja como for, o DR estipula as condições da gestação de substituição. Fora destas situações e fora dos limites impostos, trata-se de um negócio que nunca deixará de ser outra coisa senão a compra e venda de crianças.

4. O caso Cristiano Ronaldo, como escreve H. Raposo ou Isabel Stilwell, tendo em conta os direitos da criança a ter uma família não cabe nesta situação porque a legislação portuguesa não o permitiria. Mas a moral também não.  
Podemos ser fãs de Ronaldo, apreciar as suas atitudes e comportamentos nas diversas  situações desportivas, reconhecer a sua caridade ou filantropia para com os outros, nomeadamente as atitudes relativamente a crianças com dificuldades de saúde ou outra ordem, acompanhá-lo até ao fim do mundo, porém, o nosso caminho tem, necessariamente, que acabar aqui. Como Saramago, "até aqui cheguei", mas não daqui em diante.4

5. Do ponto de vista psicológico, qualquer situação deste tipo, configura uma situação de risco de vinculação. Ou seja, uma situação de risco em relação aos direitos da criança.

___________________
1. Maria Rita Silva, «Mãe e filhos: uma relação única», PH, nº 15, Maio-Junho 2017.

2. Discute-se a questão da vinculação e critica-se que "La relation mère-enfant devient le seul objet de l’évaluation, elle est donc réalisée indépendamment de la relation paternelle (ici les absents n’ont pas toujours tort), de l’environnement familial élargi et du contexte culturel, économique et social dans lequel l’enfant a évolué." Le cercle psy
" Surtout diverses enquêtes, dont celles qui ont servi de base à la notion de résilience, montrent que bon nombre d’individus mal partis déjouent tous les pronostics. Inversement, d’autres tournent mal alors qu’ils ont bénéficié d’un soutien parental sans faille. L’attachement sécure est un atout, pas une baguette magique. Ni sans doute un ingrédient indispensable." J.- F. Marmion, Le cercle psy

3. A designação  "barrigas de aluguer" mostra bem que a natureza deste negócio não se coaduna com a letra ou o espírito do normativo  (Decreto Regulamentar n.º 6/2017DR).

4. Mesmo com a militância política de Saramago é necessário reconhecer-lhe a grandeza moral de condenar o regime cubano. De facto, quando "O governo cubano executou na sexta-feira passada três homens sumariamente condenados por assaltar uma balsa com o propósito de fugir para os EUA" , Saramago escreveu: "Até aqui cheguei. De agora em diante, Cuba seguirá seu caminho, e eu fico onde estou. Discordar é um direito que se encontra e se encontrará inscrito com tinta invisível em todas as declarações de direitos humanos passadas, presentes e futuras. Discordar é um ato irrenunciável de consciência." 16 de Abril de 2003, Folha de S. Paulo.

10/08/17

Confiança básica

 ...
"Olha-me. Nunca me irei embora; mesmo quando já cá não estiver, basta-te abrir pernas e braços, pôr o peito para cima e fechar os olhos, dessa vez fecha os olhos, para me veres onde estou: aí dentro. Quando essa cabeça quiser pensar em nada, que serei eu dentro de ti, fecha os olhos. Nós os dois aqui, um ao lado do outro, a boiar no mar calmo de olhos postos no céu imenso.

A extraordinária relação pai-filho que nasce nas pequenas coisas da vida, da aprendizagem do quotidiano, da confiança básica (E. Erikson), do amor profundo entre dois seres. Muito gratificante. 
Obrigado AAA. 
Partilhei no facebook.

04/07/17

06/04/17

Saúde e doença

O inestimável contributo de Freud e dos vários estudiosos do comportamento para compreender a vida psicológica do ser humano ajudou-nos a compreender a saúde e a doença em termos até então inéditos.
Conhecemos hoje melhor o funcionamento mental, os comportamentos das pessoas e, portanto, conhecemos melhor a sua saúde e doença.
Com António Damásio (“O Erro de Descartes”), percebemos como corpo e mente estão de tal modo relacionados que um não existe sem a outra deixando de fazer sentido a separação corpo e mente.
A unidade da psicologia não pode prescindir de nenhum factor. Na realidade o sofrimento psicológico e o sofrimento físico têm sempre subjacente factores biológicos e psicológicos.
Vivemos tempos em que esta realidade está bem patente na vida das pessoas. A saúde psicológica é cada vez mais relevante e levada a sério desde a infância até à velhice.
Com mais enfoque no biológico ou no social, desde há muitos anos tem vindo a ser promovida a "higiene
mental" (João dos Santos) e com o desenvolvimento da psicologia ganhou relevo a psicologia escolar.
Vinda dos anos 90 do século passado, a psicologia positiva destaca como mais importante "promover a felicidade e o desenvolvimento de cada um" . No entanto, o conceito de felicidade não é unívoco em todas as culturas e dentro da mesma cultura. O “hedonismo” "refere-se às emoções positivas e à noção de prazer", o “eudemonismo” "é o objectivo daqueles que aspiram a uma felicidade mais profunda que leva à realização de si e à procura de sentido." (le cercle psy, nº23, p. 32)
A psicologia positiva veio dar relevo à saúde mental e não apenas à doença mental. Para a OMS “a saúde mental positiva é um estado de bem-estar no qual a pessoa se pode realizar, ultrapassar as tensões normais da vida, ter um trabalho produtivo e frutuoso e contribuir para a vida da sua comunidade.” (p. 26)
Seligman, criador da psicologia positiva, definiu 5 pilares da felicidade e do bem estar: emoções positivas, envolvimento, significado, relações positivas e realização pessoal. (A vida que floresce)
Muitos psicólogos trabalham nesta perspectiva, como no casos dos psicólogos do desenvolvimento e escolares, estudam os comportamentos normais da criança e propõem intervenções terapêuticas de forma a atingir esses padrões comportamentais.
Mas, definitivamente, a psicologia positiva veio dar o enfoque na perspectiva da saúde.

Portuguese Healthy Eating Plate

O mesmo se passa na medicina. Cada vez mais se trabalha na perspectiva de saúde de forma a que se possa viver sem doença. Hoje a preocupação é "trate da saúde antes da doença " como forma para "Chegar novo a velho." ( M. Pinto Coelho)
Somos inundados com todos os processos e métodos terapêuticos para mantermos a saúde e evitarmos a doença.
O nutricionismo e a alimentação ganharam grande importância e o retorno a conhecimentos ancestrais têm hoje relevo fundamental nas nossas vidas. como acontece com o chamado regime paleolítico.
A par da cozinha fast food, há um retorno a uma nutrição de qualidade relevando as características saudáveis dos alimentos.
Há também um regresso à filosofia, que felizmente se mantém como obrigatória nos currículos do secundário, ou a correntes filosóficas como o epicurismo e o estoicismo que ajudam a adoptar uma filosofia de vida e a dar sentido à vida.  Esta visão global do ser humano parece-me também ela saudável.
Desde Freud que o estudo do sofrimento humano era feito com base na compreensão do passado das pessoas.*  E isso continua a ser fundamental no conhecimento da pessoa e a dizer-nos muito do que a pessoa é e porque é.
Mas, como refere V Frankl, a terapia está em perspectivar o futuro, na medida em que é o futuro que dá sentido à vida. Assim, passado e futuro fazem de nós seres humanos saudáveis, vivendo de forma plena a vida do nosso tempo.
_________________________
* P - "Ao contrário dos clássicos, está mais virado para o futuro?" R - "Aos alunos dizia que a psicanálise antiga era como o condutor que estava sempre a olhar pelo espelho retrovisor. Ora, eu quando vou na estrada tenho de olhar para a frente." Entrevista a António Coimbra de Matos: “Não é fácil amar, mas é bom. E se não se amar não se vive" (Expresso)

18/03/17

Hoje apetece-me ouvir: Rodrigo Leão

Carpe Diem !

Nullum infortunium venit sollum 
O me infelicem! Me perditum! 
Tempus fugit! Carpe diem! 
Vita brevis! Carpe diem! 

Omnia vincit amor! Vincit amor! 
Omnia vincit fortuna! Vincit fortuna! 

Nullum amore venit sollum! 
O me infelicem! Me perditum! 
Furor aeternum! Carpe diem! 
Meae deliciae! Carpe diem! 

Omnia vincit amor! Vincit amor! 
Omnia vincit fortuna! Vincit fortuna! 
Omnia vincit amor! Vincit amor! 
Omnia vincit amor! Vincit amor!

08/02/17

Incerteza, ansiedade e o sentido da vida

A incerteza está sempre presenta na nossa vida. Por falta ou por excesso de informação, como nos dias de hoje, os acontecimentos políticos e sociais exercem maior influência na nossa vida psicológica 
As perturbações de ansiedade podem desenvolver-se a partir de um conjunto de factores de risco biológico, de personalidade e também da incerteza que envolve os acontecimentos da vida (life events). A dificuldade em tolerar a incerteza favorece o aparecimento da ansiedade.
É, por isso, que se recorre a defesas como a racionalização e a negação da incerteza que leva as pessoas a quererem saber o seu futuro: o que vai acontecer à sua relação, ao seu dinheiro, o que vai acontecer aos filhos… Têm necessidade de saber o que dizem as cartas ou procuram outras formas de adivinhar o futuro, pensando reduzir a incerteza na sua vida.
No entanto, continuamos sem poder de controlo nestas situações. E, desde logo, a ansiedade e o sofrimento podem ser reduzidos se deixarmos de querer saber e de controlar o futuro.
Há muitos anos, Epicteto, filósofo grego, que foi levado para Roma, ainda jovem, como escravo, fazia a distinção entre aquilo que é da nossa responsabilidade e o que não é. O problema é que queremos controlar aquilo que não tem a ver connosco e não está na nossa mão poder resolver.
Dizia Epicteto: “Das coisas existentes, algumas são encargos nossos; outras não. São encargos nossos o juízo , o impulso , o desejo , a repulsa – em suma: tudo quanto seja acção nossa. Não são encargos nossos o corpo, as posses, a reputação, os cargos públicos – em suma: tudo quanto não seja acção nossa. 
Por natureza, as coisas que são encargos nossos são livres, desobstruídas, sem entraves. As que não são encargos nossos são débeis, escravas, obstruídas, de outrem.” (O Encheirídion de Epicteto)
Todos passamos por crises existenciais em que questionamos o sentido da vida. 
São crises provocadas por eventos importantes da vida, como casamento, divórcio, perdas pela morte de familiares, acidentes, relações familiares difíceis, crises da idade: adolescência, meia idade, velhice.
Viktor Frankl, médico psiquiatra, diz-nos, pela sua experiência, que “nos campos de concentração os mais aptos a sobreviver eram os que tinham uma tarefa a cumprir após a sua libertação.” “Apenas o sentimento
de ter uma missão, uma “vocação” a realizar dá sentido à vida, mesmo nos momentos de maior desespero”.
("Les psys face à la question existentielle")
“Há três caminhos principais através dos quais se pode chegar ao sentido na vida. O primeiro consiste em criar um trabalho ou fazer uma acção. O segundo está em experimentar algo ou encontrar alguém; em outras palavras, o sentido pode ser encontrado não só no trabalho, mas também no amor”
“O mais importante, no entanto, é o terceiro caminho para o sentido na vida: mesmo uma vítima sem recursos, numa situação sem esperança, enfrentando um destino que não pode mudar, pode erguer-se acima de si mesma, crescer para além de si mesma e, assim, mudar-se a si mesma. Pode transformar a tragédia pessoal em triunfo. “(Viktor E. Frankl, Em busca de sentido - Um psicólogo no campo de concentração)
Ter um sentido na vida é fundamental para ultrapassar o sofrimento que resulta da incerteza e da ansiedade.

26/01/17

Expectativas

Na semana passada, falamos das expectativas presentes na nossa vida. Há quem defenda que é melhor não termos expectativas para não virmos a ficar frustrados quando elas não se concretizam ou aceitar, passivamente, aquilo que vai acontecendo seja a nível pessoal familiar e laboral.
Na realidade, as expectativas são uma componente da motivação que se tornou uma grande preocupação fundamental das organizações, em especial na área da motivação no trabalho.
Psicólogos e investigadores das organizações têm vindo a propor várias teorias sobre a relação das expectativas com a motivação
Pode-se partir do pressuposto de que existe sempre "uma maneira melhor" (“the best way”) de motivar as pessoas. Porém, “ a evidência tem demonstrado que as pessoas reagem de diferentes maneiras conforme a situação em que estejam colocadas.” (I. Chiavenato, Administração de recursos humanos, vol.1, p. 92)
A desmotivação atinge muitas pessoas nas mais diversas profissões e situações profissionais. 
A profissão docente, por exemplo, tem vindo a ser objecto de alguns estudos em que fica patente uma grande desmotivação.
A carreira docente a que, actualmente, é difícil aceder é constituída por uma série de factores que a transformam numa das mais stressantes:
“A intensificação do trabalho docente, a indisciplina dos alunos, a avaliação dos professores, a desresponsabilização das famílias no apoio aos seus filhos, o não reconhecimento do trabalho dos professores pelos pais e encarregados de educação, o número elevado de alunos por turma, o cumprimento de diretrizes burocráticas, o excesso de burocracia, o excesso de reuniões, a instabilidade de vínculo profissional, a crescente descredibilização da importância do papel do professor na sociedade, a desvalorização da carreira, a dificuldade de relacionamento com os pais e o aspeto remuneratório, constituem alguns indicadores iniludíveis da desmotivação docente." (M.Rosário Miranda, O impacto da desmotivação no desempenho dos professores, 2012)
Num estudo recente  (As motivações e preocupações dos Professores, Fundação Manuel Leão, 2016) “cerca de um terço dos professores gostaria de deixar de lecionar e mais de metade, 57%, aponta a falta de reconhecimento profissional como a causa de maior insatisfação no trabalho, sendo que 85% considera que o Ministério da Educação não valoriza o trabalho da classe docente e 48.4% considera que o seu trabalho não é valorizado pelos alunos.” (resumo de Sandra Maximiano,"Estar motivado para motivar", Expresso, 9-9-2016)
Sendo assim, que motivação podemos esperar de um professor? Uma das teorias da motivação (Victor Vroom) considera que a motivação individual em produzir em dado momento depende de objectivos particulares e da percepção da utilidade relativa do desempenho como um meio gradativo de atingir determinados objectivos. Ora isso depende de três forças básicas que actuam no individuo, isto é, a motivação depende então de expectativas, recompensas e relações entre expectativas e recompensas.
A motivação de produzir é função de:
expectativas: a força do desejo de alcançar objectivos individuais;
recompensas: a relação percebida entre produtividade e alcance de objectivos individuais;
relações entre expectativas e recompensas: a capacidade percebida de influenciar o seu próprio nível de produtividade. (Chiavenato, p. 92-93) 
A teoria da expectativa pode então ser um bom ponto de partida para avaliar o esforço investido pela pessoa na sua profissão. Se o esforço investido pela pessoa não a leva a alcançar determinados objectivos, no fundo, a atingir as suas expectativas, então compreende-se bem a desmotivação dos profissionais da educação.
E o que faz o Ministério da Educação para responder às expectativas dos professores?



  

19/01/17

Expectativas


O primeiro-ministro A. Costa tinha a expectativa de que os partidos de oposição (designadamente o PSD) aprovariam o aumento do salário mínimo nacional em troca do abaixamento da TSU.  
Na política do actual governo tem sido assim: dar com uma mão o que tira com a outra. Mais uma vez, para o primeiro-ministro, esta medida não tinha custos. Quem não percebe de economia sabe,  pelo menos, que a segurança social paga a despesa. Entretanto, o ministro da segurança social veio dizer que no ano passado a despesa correspondeu a 11 milhões de euros.
Na política internacional vive-se mais ou menos de expectativas. Trump, que amanhã será presidente dos Estados Unidos, tem a expectativa de que vai ter uma boa relação com Putin…
Na vida pessoal vivemos de expectativas. Eu tenho a expectativa de que um dia hei-de ganhar o euromilhões pois há vinte anos anos jogo todas as semanas sempre com a mesma chave.
E assim é feita a nossa vida de expectativa em expectativa. 
Também é fácil constatar que expectativas elevadas levam muito provavelmente ao fracasso. Pelo contrario expectativas baixas dão-nos a possibilidade de termos agradáveis surpresas.
O que acontece nos concursos das televisões got talent, voice de Portugal… mostra que se formulamos expectativas baixas, normalmente somos surpreendidos. Claro que só é surpresa porque criámos expectativas baixas, a partir da roupa, da cara, do corpo da idade, da postura, de preconceitos… que afinal pouco têm de essencial para o que é avaliado.
No trabalho psicológico com crianças ou adolescentes com dificuldades sociais e de de aprendizagem era frequente manifestarem grandes expectativas. Esperavam ter um futuro muito bom em que teriam uma grande vivenda, um grande automóvel… Mas também havia outros alunos que não queriam ouvir falar de futuro e não tinham qualquer expectativa. O que naquele momento a família e a escola pediam e queriam era que estudassem e tivessem bom comportamento. No entanto, estes alunos preferiam viver a sonhar com o futuro ou num presente vazio. 
Gerir as expectativas é uma das nossas grandes dificuldades. Podemos viver como se tudo nos fosse correr mal e então esperar pelo dia da morte ou viver como se fôssemos imortais como faz a gerontocracia que se mantém no poder até cair da tripeça.
Para algumas "teorias", "as expectativas não nos permitem viver em liberdade, aceitando o curso das coisas, já que acreditamos que pelo fato de desejarmos algo de verdade, seja aprovação, perfeição ou comodidade, isso tem que obrigatoriamente ocorrer. A realidade é que o que tiver que acontecer irá acontecer, estejamos ou não de acordo." (Viver sem expectativas)
É por isso que é muito importante ter pensamento positivo mas não é suficiente Como é importante ter auto-estima mas não como se fosse algo de mágico. Temos dentro de nós um pequeno ditador (eu devo ser, eu devo fazer…) que nos impõe expectativas muitas vezes excessivamente elevadas e, então, não podemos falhar sob pena de considerarmos que somos um fracasso.
Saramago dizia que (cito de cor) "aquilo que tiver que ser meu à mão me virá ter". Mais do que esperar o destino melhor será viver a vida como ela é.
E como este assunto tem pano para mangas, tenho a expectativa de voltar a ele na próxima semana.


15/12/16

Natal positivo


Para António Damásio, “as emoções são conjuntos complicados de respostas químicas e neurais que formam um padrão…são processos biologicamente determinados, dependentes de dispositivos cerebrais estabelecidos de forma inata e sedimentados por uma longa história evolucionária…” (O sentimento de si, p 72)
Podemos falar da existência de emoções primárias, básicas ou universais, de carácter inato, e de emoções secundárias ou sociais, resultantes de aprendizagem, sendo que cada emoção contribui para a adaptação do indivíduo ao ambiente em que vive.
Para Paul Ekman existem seis emoções básicas que todos os seres humanos são capazes de expressar na sua cara, bem como todos nós somos capazes de entender o que significam: tristeza, medo, surpresa, repulsa, raiva, alegria e emoções sociais ou secundárias (vergonha, inveja, ciúme, empatia, embaraço, orgulho e culpa).
Daniel Goleman refere as emoções destrutivas descritas pelo budismo, ou seja, as “seis angústias mentais principais”: o apego ou desejo, a ira (que inclui a hostilidade e o ódio), a soberba, a ignorância e a ilusão, a dúvida angustiante e as opiniões angustiantes. (Emoções destrutivas e como dominá-las, p. 139) 
As emoções são de cada pessoa. Podemos pensar que elas podem ser desencadeadas por causas externas mas as emoções estão dentro de nós, isto é, somos nós, o nosso pensamento e a nossa imaginação que as torna mais ou menos importantes para nossa vida.
O poder das emoções na nossa vida é imenso, para não dizer que são elas que comandam a nossa vida e nos fazem tomar decisões. Sermos felizes ou não depende delas. As emoções podem dar qualidade de vida ou tirá-la.
O medo, por exemplo, é importante porque ajuda na nossa sobrevivência. Por outro lado, pode deixar-nos pouca qualidade de vida quando nos invade a ponto de deixarmos de ser capazes de fazer a nossa vida social. O medo faz-nos sofrer por antecipação e vivenciar situações desagradáveis que nunca vão acontecer. 

O Natal é tempo de emoções fortes porque está mais presente a força dos laços familiares. A solidão e a tristeza são mais fortes. A recordação de momentos felizes e de momentos infelizes (lembrança encobridora) é mais profunda. Os símbolos de Natal estão por todo o lado e a mesa de Natal concentra todas as emoções deste tempo. Como no poema de David Mourão-Ferreira, "Ladainha dos póstumos Natais"(Cancioneiro de Natal): 
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido
… 
O Natal é uma óptima oportunidade para mudar alguma coisa na nossa vida. É um bom momento para deixarmos de expressar as emoções negativas e destrutivas, em nós próprios, no nosso corpo e com os que nos são próximos, os filhos, os amigos, os colegas de trabalho... 
Mudar, dando relevo às emoções positivas e em especial à alegria e à gratidão. 
A alegria é uma emoção positiva que provoca bem-estar, satisfação e sentimentos positivos. A alegria vem da satisfação das necessidades do ser humano (Maslow) desde as necessidades mais básicas até à auto-realização. 
A gratidão, é uma força de carácter (Seligman), é uma sensação de agradecimento, relacionada com a alegria, em resposta ao recebimento de um presente tangível ou a um momento de bem-estar e de paz que estamos a viver. 

Desejo a todos um bom Natal. 

21/11/16

Portugal +

http://sicnoticias.sapo.pt/mundo/2016-11-20-Portuguesa-distinguida-em-Israel-por-investigacao-sobre-doencas-cardiacas
"Renata Gomes acaba de passar um ano na universidade de Jerusalém, onde foi premiada pelo seu trabalho na investigação das doenças do coração. Trabalhou com judeus e com árabes, e os seus colegas pensam que a cientista pode vir a ser o próximo Prémio Nobel."

04/11/16

Humanização e empatia *


Deolinda - "Sem noção" ("Dois selos e um carimbo") 
Música e letra - Pedro Silva Martins; Voz - Ana Bacalhau

"Tu não tens a noção de mim
e perdeste a noção de ti"

Podemos dizer que temos duas maneiras de explicar os comportamentos humanos, e o mesmo acontece para a crueldade  humana: uma que se baseia na biologia e outra que relaciona esses comportamentos com a situação em que a pessoa esteve e está envolvida.
Então, se o comportamento for determinado por factores biológicos ou sociais, as pessoas cruéis  não são responsáveis pelos seus actos?
Têm sido feitos estudos e experiências psicológicas que podem ajudar nessa resposta compreensiva.
É bem conhecida a experiência de Stanley Milgram (1963)1, feita com voluntários. Na situação experimental, um voluntário desempenha o papel de professor que ensinava  determinadas respostas e outro voluntário o papel de  estudante (na verdade um ator disfarçado) que as devia aprender. O professor devia punir os erros com pequenos choques eléctricos, que deveriam aumentar a cada erro. Os resultados mostraram que  65% das pessoas chegaram a aplicar o nível máximo de choque, mesmo ouvindo as dores do aluno/actor.
Jerry Burger (2008) replicou o estudo e obteve  os mesmos resultados. 
Philip Zimbardo (1971)2 simulou as condições de uma prisão com voluntários (sem nenhum indicativo de empatia baixa) dividindo-os aleatoriamente entre guardas e presos. Os guardas eram livres para fazer o que fosse necessário para manter a ordem. O estudo, programado para durar 2 semanas, terminou depois de 6 dias, com prisioneiros com depressão e descontrole emocional após serem vítimas do sadismo dos guardas... 
Podia concluir-se que cada um de nós (e não apenas os que têm problema de empatia baixa) pode ser levado a cometer atrocidades. O ambiente pode levar as pessoas a serem cruéis.  "Não é então  uma questão de ser bom ou mau,  a situação é que exerce a maior influência nos casos de crueldade”,
Simon Baron-Cohen 3 fez a revisão de mais de 300 estudos sobre o assunto (Science of Evil). O que está por trás de um acto de crueldade é um mau funcionamento das partes do cérebro ligadas à empatia **.
As pessoas, então, cometeram actos cruéis não porque escolheram, mas porque têm empatia baixa, que pode ser resultado da biologia da pessoa ou da sua experiência de vida quando era criança, factores pelos quais ela não pode ser responsabilizada.
Isto é,  fazer o mal pode não ser uma questão de livre-arbítrio. As pessoas cometeram actos de crueldade não porque escolheram, mas porque apresentaram uma deficiência no cérebro”.
Bhismadev Chakrabarti descobriu que há genes relacionados com a empatia e achou uma área cerebral, o giro frontal inferior, sempre mais ativa em pessoas com alto Quociente Emocional.   Para ele, "o nível de empatia,  não é determinado no momento do nascimento. Há uma interação de fatores sociais com causas genéticas que ainda estão a ser  investigadas”. Mas pelo facto de ter estas característica biológicas e genéticas  "não significa automaticamente que a pessoa será empática.” 
Susan Fiske (desde 2006) 4 realizou estudos com  scanners cerebrais e mostra como o ambiente modifica a forma como as pessoas percebem as outras. “As pessoas naturalmente inibem a violência contra outros que categorizam como seres humanos. Então, é preciso que a outra pessoa seja ‘desumanizada’ dentro da cabeça para que isso ocorra”, explica Fiske.
"Quando os voluntários viram fotografias de indivíduos de baixo status social, como mendigos, viciados em drogas ou até imigrantes, ativaram padrões cerebrais relacionados à visão de objetos e não com aqueles padrões ativados quando vemos seres humanos. Ou seja, nesse caso, a empatia não funcionaria para prevenir uma agressão."
"... isso explica o que acontece dentro da cabeça de pessoas que agridem mendigos ou que se deixam levar por um preconceito estimulado pelo Estado para praticar torturas e genocídios. Os discursos e a opinião do grupo dominante podem ser influências importantes nesse caso."

Pode concluir-se que não se retira a culpa dos praticantes de atrocidades mas apenas se mostra que não é uma simples questão de ser mau.
E voltamos ao princípio:  “Os atos de crueldade são muito complexos. Há fatores biológicos, ambientais, genéticos, sociais e políticos. A nova teoria em meu livro sugere que um mau funcionamento das partes do cérebro ligadas à empatia, por razões biológicas ou sociais, é o que está por trás de um ato de crueldade." (B-C)
Portanto, o homem terá que aprender a ser humano. Não exclui a responsabilidade dos seus actos mas aprender é coisa de educação, de ajuda e de terapia.
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* Nota: Este texto é baseado em "De onde vem o mal?", de Tiago Mali e Guilherme Rosa, Galileu.
**Empatia (Carl Rogers) significa a capacidade psicológica para sentir o que sentiria uma outra pessoa caso estivesse na mesma situação vivenciada por ela. Consiste em tentar compreender sentimentos e emoções, procurando experimentar de forma objetiva e racional o que sente outro indivíduo.
1 Experiência de Stanley Milgram - "The Milgram Experiment, Saul McLeod (2007)
2 Experiência de Ph Zimbardo - "Stanford Prison Experiment", Saul McLeod (2008, actualizado em 2016)
3 Conferência de Simon Baron-Cohen sobre empatia.
4 From Dehumanization and Objectification, to Rehumanization: Neuroimaging Studies on the Building Blocks of Empathy

26/10/16

Construir emoções positivas


The Effect Of Positive Emotions On Our Health 

O nascimento de um filho muda a nossa vida. Termina ou muda rotinas do quotidiano e inicia outras a partir dessa altura, testa as nossas capacidades de atenção, de previsão, de sono, as nossas emoções e os seus limites. Ser mãe ou ser pai significa mudar a perspectiva de vida, os objectivos, as preocupações.
Todos conhecemos a importância dos primeiros anos para o desenvolvimento da criança e para a adaptação que pais e crianças estão a fazer. A criança nos 3 primeiros anos de vida vai adquirir competências fundamentais no campo cognitivo, motor, da linguagem, emocional e social. Este desenvolvimento/aprendizagem vai sendo realizado através da interacção da criança com os pais.a família é o centro onde se desenvolvem as emoções positivas.
O grande objectivo de todas estas aquisições é a diminuição da dependência nestas diversas áreas do desenvolvimento até atingir a autonomia.
Dispomos de informação que no tempo em que fomos pais não existia. Mas é na prática da relação que podemos verificar que esta informação é necessária mas não suficiente. As dificuldades da educação das crianças surgem principalmente no campo das emoções, onde nem tudo é natural/instintivo ou intuitivo.

Para M. Seligman (Felicidade autêntica), os princípios da paternidade que emergem da psicologia positiva são os seguintes:
- "A emoção positiva alarga e constrói os recursos intelectuais, sociais e físicos de que o seu filho vai precisar mais tarde na vida;
- Aumentar as emoções positivas no seu filho pode dar início a uma espiral ascendente de emoção positiva *;
- As características positivas que o seu filho revela são tão reais e autênticas como as suas características negativas."
Então devemos "construir características e emoções positivas nos nossos filhos em vez de, simplesmente, aliviar as emoções negativas e extinguir as características negativas." (p.266)
Como podemos educar emocionalmente as crianças? Seligman fala-nos de algumas técnicas para construir as emoções positivas: dormir com o bebé, jogos de sincronia, o não e o sim, louvor e castigo, a rivalidade entre irmãos, os miminhos ao deitar, fazer um acordo com o bebé, resoluções na família.
aqui falámos sobre a questão do dormir com o bebé, as vantagens e os inconvenientes. Vamos falar de jogos de sincronia.
Jogos de sincronia são jogos interactivos em que o bebé aprende que as acções são importantes, que se pode ter controlo sobre os resultados e há a contingência de poder controlar a situação.
Estes jogos são fáceis e as oportunidades de jogar imensas. Este exemplo de Seligman ilustra bem este tipo de jogos. Quando a criança bate na mesa nós batemos também, se bate três vezes batemos também 3 vezes e assim sucessivamente. (p. 269)
Os brinquedos nesta idade devem ser escolhidos pelo principio do jogo e da sincronia. Isto é escolher brinquedos que reagem ao que o bebé faz: a roca e brinquedos interactivos que reagem ao pressionar, bater, puxar ou gritar, como por exemplo, blocos empilháveis, livros e revistas que o bebé pode rasgar…
Comprei um livro muito bonito “Os animais da quinta” que ao abrir-se mostrava figuras a três dimensões. O que aconteceu, como seria de esperar, foi que a minha neta, com cerca de dois anos de idade, além de saber e dizer os nomes dos animais e como faz cada um deles, achou que a actividade de rasgar as figuras era ainda mais interessante. Como resultado, praticamente, todo o livro ficou reduzido a duas dimensões e, vá lá, ainda escapou uma ou outra figura.
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14/09/16

Compaixão



Duas brochuras de propaganda (Serviço de informações alemão, Lisboa, 1944). O "terror aéreo" põe em evidência a vitimização das testemunhas causada pelo terror provocado pela arma aérea anglo-americana. Para a propaganda, eles apenas são obrigados a reagir: "A grã-bretanha provocou o contra-ataque alemão e perdeu o direito de condenar perante o Mundo os efeitos de destruição da nova arma utilizada contra ela."
O calendário da guerra aérea refere os vários bombardeamentos a cidades...
"O dia chegará" uma (espécie de) promessa vingativa face à destruição provocada pelos forças anti-alemãs... Os vários testemunhos são anónimos.
Porém, ainda estava para acontecer Dresden, entre 13 e 15 de Fevereiro de 1945.
Embora continue a haver controvérsia sobre a estratégia, sobre o número de mortos, sobre os crimes de guerra, a propaganda continua dos vários lados dos interesses. Como em 1944.
Uma coisa é certa: o que ali se passou foi crueldade e falta de compaixão. É o que falta aprender: a compaixão.
Foi criado o prémio Dresden, em 2010, como um prémio de paz internacional, concedido anualmente em 13 de Fevereiro, aniversário do bombardeamento de Dresden. Talvez o caminho certo: encorajar a compaixão para chegar à paz.

24/04/16

Spitz na actualidade


A fotógrafa norte-americana Dayna Mager partilhou esta história: "Quando entrou numa enfermaria com mais de 100 berços, ficou chocado com o silêncio e perguntou a quem o acompanhava como era possível que um espaço com tantos bebés estivesse tão silencioso. "Depois de estarem cá há uma semana e de chorarem durante horas incontáveis, acabam por parar de chorar quando percebem que ninguém vem".
Há outros países onde a infância está em idênticas condições. Basta pesquisar "crianças orfãs" ou "orfanatos"...
Em 1951, René Spitz, publicou The Psychogenic Diseases in Infancy - An Attempt at their Etiologic Classification. Psychoanalytic Study of the Child.
Em 1952, registou a sua pesquisa em filme.


Spitz usa o termo "depressão anaclítica" para se referir a privação emocional parcial (a perda do objecto amado). Quando a criança volta a essa relação dentro de um período de três a cinco meses, a recuperação é rápida. 
Quando a criança é privada mais de cinco meses, os sintomas de deterioração são cada vez mais graves. Ele chamou isso de privação total de "hospitalismo ."
Neste estudo sobre "carência afectiva total", Spitz verificou que a separação traz sempre consequências funestas quaisquer que tenham sido as relações anteriores entre a mãe e a criança.
O estudo foi realizado com 91 crianças internadas num orfanato desde os 3 meses de idade,
- entregues aos cuidados de enfermeiras que tinham a seu cargo 10 ou mais crianças,
- do ponto de vista físico os cuidados dispensados às crianças eram perfeitos: habitação, higiene corporal e alimentos iguais ou melhores do que em outras instituições onde Spitz fazia outras observações,
- mas Spitz considera que cada uma delas recebia apenas a décima parte das “provisões afectivas maternas” que para Spitz significava uma carência afectiva total.
- O “sindroma do hospitalismo” seguia os mesmos estádios dos casos de “privação afectiva parcial”, agravando-se a partir do 4º, 5º mês após a separação. As crianças apresentavam as seguintes características:
-Letargia e descoordenação motora acentuam-se progressivamente,
- aparecem, em alguns casos, deficiências de coorenação ocular e posturas similares à catatonia,
- 37% das 91 crianças atinge o estado de apatia total ou de marasmo,
- Este estado conduziu à morte de 27 crianças no decurso do 1º ano de vida,
- Mais 7 no decurso do 2º ano.
A continuação do estudo manifestou o seguinte: 
- 4 crianças - não foi possível continuar a recolher informações,
- 32 foram colocadas em famílias adoptivas e instituições,
- 21 continuaram a viver ou sobreviver no orfanato;  continuaram a ser observadas por Spitz até aos 4 anos de idade.
Nível de desenvolvimento global, avaliado por diversos testes manifestou:
- atraso generalizado, em alguns casos nível de idiotia.
- Indicadores de desenvolvimento global com perturbações:
. desenvolvimento corporal,
. actividade de manipulação ou coordenação de movimentos,
. adaptação ao meio (domínio dos esfíncteres e correlativa aquisição de hábitos de limpeza),
. domínio da linguagem.
- Grupo de controlo
. Spitz observou crianças de outra instituição de natureza mais familiar e em que as crianças eram educadas pelas próprias mães
. Durante 4 anos, em 220 crianças não se registou nenhum caso de mortalidade.
Conclusão
a) A carência afectiva completa conduz à deterioração progressiva do desenvolvimento e que esta é directamente proporcional à duração da carência.
b) “A carência do afecto provoca uma paragem no desenvolvimento de todos os sectores de personalidade”.
c) “Tanto o sindroma do hospitalismo como a depressão anaclítica constituem prova irrefutável do papel fundamental que as relações objectais desempenham no desenvolvimento psicológico global”.

Graças, também, ao trabalho de Spitz foi possível registar grandes mudanças no acolhimento dado às crianças em todo o mundo mas 65 anos depois ainda há muito por fazer...


Minha doce criança (Sweet child o' mine)

Ela tem um sorriso que me parece
Trazer recordações da infância
Onde tudo era
Fresco como o límpido céu azul

Às vezes quando olho seu rosto
Ela leva-me para aquele lugar especial
E se eu fixasse meu olhar por muito tempo
Provavelmente perderia o controle e começaria a chorar

Oh, oh, oh
Minha doce criança
Oh, oh, oh, oh
Meu doce amor

Ela tem os olhos como os céus mais azuis
Como se eles pensassem em chuva
Detesto olhar para dentro daqueles olhos
E enxergar o mínimo que seja de dor

Seu cabelo me lembra um lugar quente e seguro
Onde, quando criança, eu me esconderia
E rezaria para que o trovão e a chuva
Passassem quietos por mim

Para onde vamos
Para onde vamos agora