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16/03/25

Camilo - 200 anos do nascimento


"Fermentou na mente dos principais lavradores e párocos das freguesias do círculo eleitoral a ideia de levar ao parlamento o morgado da Agra de Freimas."
...
"A autoridade, assim que soube da resolução do morgado da Agra, preveniu o governo de inutilidade da luta. Não obstante, o ministro do Reino redobrou instâncias e promessas, no intuito de vingar a candidatura de um poeta de Lisboa, mancebo de muitas promessas ao futuro, que tinha escrito revistas de espetáculos, e recitava versos dele ao piano, cuja falta ou demasia de sílabas a bulha dos sonoros martelos disfarçava."
...
"Por derradeiro, o governador civil fez saber ao ministério que os povos de Vimioso, Alcanissas e Miranda se haviam levantado com selvagem independência e tinham fugido com a urna para os desfiladeiros das suas serras.
Pelo conseguinte, não pode ser proposto o poeta, que beliscado na sua vaidade assanhou-se contra o governo, escrevendo umas feras objurgatórias, as quais, se tivessem gramática a proporção do fel, o governo havia de pôr as mãos na cabeça e demitir-se.
À excepção de uma lista, o morgado da Agra de Freimas teve-as todas. "
...
"Chegou o tempo de partir para a capital. 
O deputado mandou adiante por almocreve duas cargas de livros, nenhum dos quais  tinha menos de cento e cinquenta anos.
Seguia-se, na conduta dos machos portadores, uma carga de presunto e orelheira, substância quotidiana da alimentação de Calisto Elói. 
Depois outra carga de vinho velho, e na entrecarga uma garrafeira com duas dúzias de garrafas de vinho, que competia antiguidade com a fundação da companhia."
...
"De propósito, saltamos por cima dos pormenores da partida para não descrever o quadro lastimoso do apartamento de Calisto e Teodora.
O apartamento de Teodora e Calisto era título para dois capítulos de lágrimas." *


Onde é que eu já vi isto ?

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* Camilo Castelo Branco, A Queda dum Anjo, Círculo de Leitores (III - O demónio parlamentar descobre o anjo, p. 25-28). A imagem da capa é da edição do Expresso. Pode também ler em A Queda D' Um Anjo.





30/01/25

Pais heróis


Da capa de A criança e a família, de Françoise Dolto, Pergaminho
 

Nos tempos actuais decidir ter filhos (1) é também escolher um percurso de vida difícil. Mas o que é interessante nessa escolha é que mesmo sabendo que esse caminho tem momentos difíceis, há gente que arrisca ser pai e ser mãe. 

Estes pais sabem como vão ser os seus dias, todos os dias. Mesmo sem livro de instruções, muitos pais sabem que o desenvolvimento passa por fases mais calmas ou mais agitadas mas sempre complexas.

Não há dias de trabalho  e dias de descanso, que os filhos não querem saber se é uma coisa ou outra. Também não há fins de semana com escapadinhas românticas mas  carregados de actividades desportivas e artísticas...

Todos os dias começam muito cedo e por isso é necessário acordar muito cedo e obrigam a impressionante azáfama de toda a família para cumprir todas as tarefas matinais.

 

As tarefas para hoje começaram ontem ou até na semana passada.  Ontem à noite já foi preciso dar o banho, fazer os TPC, quando há, e há muitas vezes, preparar a mochila com os materiais necessários . 

De manhã, fazer a higiene, pequeno almoço, preparar o lanche, verificar a pasta, vestir ,"correr" para apanhar o autocarro, ou esperar pela carrinha do colégio,  esperar... sempre esperar...  

Um beijo e um adeus  e de imediato começam as preocupações: será que vai tudo correr bem na escola ?

À tarde, depois do trabalho, o dia ainda está para durar. Explicações, actividades: futebol, natação, música, ...

Quando chegam ao fim do dia, o corpo já só pede um pouco de descanso mas sabem que o não vão ter, pelo contrário, pode começar aí a parte mais difícil do dia: a noite...

 

Depois de nascer um filho, nada fica igual. O planeamento da vida e da vida profissional é feito em função dos filhos, da escola e ou do colégio que frequentam, os horários são feitos a partir do horário escolar, as férias são marcadas em função das férias escolares, tudo tem que  se fazer em função do calendário e horário escolar.   

Com um filho, já é difícil, Com mais filhos mais difícil se torna. A dificuldade é sempre crescente porque vão ter turmas diferentes e por vezes escolas diferentes.

Pede-se aos pais toda a disponibilidade, todo o tempo, compreensão, calma e  bom senso... 

 

O actual ME tem vindo a manifestar preocupação em harmonizar a vida das famílias com a vida escolar. Nesse sentido foi definido um calendário escolar plurianual até  2027-28. (2)

Também permite que os estabelecimentos de ensino funcionem por semestres (3) em vez dos tradicionais períodos ou trimestres. E já há escolas a funcionar neste regime.

É de saudar qualquer medida para tentar melhorar a vida das famílias. 

No entanto, quando os pais têm filhos nos dois regimes, por trimestres e por semestres,  pode resultar uma dificuldade acrescida  na gestão da vida familiar...

Em meu entender, no caso do calendário escolar, a generalização e  uniformização do funcionamento por semestres,  tornava mais fácil a vida dos pais.

 

 

Até para a semana.

 


Rádio Castelo Branco



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(1) A Fundação F. Manuel dos Santos que tem vindo a analisar a natalidade em Portugal refere alguns dados preocupantes:

- “Em seis décadas, o número de nascimentos em Portugal caiu para menos de metade. 

- No início dos anos de sessenta, havia mais de 200 mil nascimentos por ano no país. Atualmente, esse número é inferior a 86 mil...

- Em 1982, o número médio de filhos por mulher caiu abaixo de 2,1, considerado o limite da substituição de gerações. Na década seguinte, em 1994, esse indicador ficou, pela primeira vez, abaixo de 1,5 filhos por mulher, valor que é considerado crítico para a sustentabilidade de qualquer população, inviabilizando uma recuperação das gerações no futuro se tal nível se mantiver durante um longo período.

- mães e pais têm filhos cada vez mais tarde. as mulheres têm, em média, o primeiro filho aos 31 anos”

 

As motivações para não ter filhos devem-se a:

- Os custos financeiros associados às crianças são a causa mais importante, apontada por cerca de 67% das pessoas. 

- a dificuldade em conseguir um emprego. Esta causa é mais relevante para os homens (59%) do que para as mulheres (48%).

- não querer ter a responsabilidade de ter filhos e o facto de sobrar menos tempo para outras coisas importantes na vida. 

- dificuldade de conciliar a vida familiar com a vida profissional (mais referida no caso de pessoas que já têm filhos, e por isso já experienciaram essas dificuldades, e não pretendem ter mais) e aos problemas e complicações associados à educação das crianças.
- No caso específico de quem já é pai ou mãe, o facto de considerarem ter já o número de filhos que pretendem, aparece como o segundo motivo referido para não se alargar a família, logo após os custos financeiros. É isso mesmo que respondem três quartos dos inquiridos.

(2)  Despacho 8368/2024, de 6 de Julho, do  MECI Fernando Alexandre. 

(3) Uma medida que, há várias décadas, já era proposta pelo Prof. Manuel Viegas de Abreu. 




21/06/23

Avaliar alunos e avaliar escolas

 

Se bem me lembro, foi em 2001, portanto, há 22 anos, que o governo do primeiro-ministro António Guterres e ministro da educação Júlio Pedrosa, decidiu publicar os dados dos exames nacionais, conhecidos como ranking dos exames.
Honra lhes seja feita que decidiram desocultar estes resultados porque não havia qualquer justificação para serem confidenciais ou apenas conhecidos de alguns, e, pelo contrário, deviam ser amplamente divulgados. Desde então todos os anos são publicados os dados dos exames nacionais.

Este ano, mais uma vez, com a publicação dos resultados dos exames, veio a análise e crítica a esses dados, o que é louvável, mas também a contestação à publicação dos rankings.
O actual ministro da educação, João Costa, explicou que a condição sócio-económica das escolas influencia os resultados. Para ele, os rankings são uma “operação comercial”. A mesma desvalorização vem dos sindicatos: para a FNE os resultados são “mais do mesmo” e a Fenprof considera o “ranking” uma fraude.
Neste resumo está tudo o que governo e sindicatos pensam da escola, ou seja,  na escola tudo se justifica com o estatuto socio-económico das famílias e o meio de implantação das escolas: os resultados dos alunos, os comportamentos desajustados dos alunos, a violência e o bullying, os consumos aditivos ...

Todos conhecemos a importância que a realidade socio-económica, a origem e a vida dos alunos têm nos resultados escolares e na sua vida futura... 
E então? O ranking dos exames também reflete essa realidade. Não é por isso que deixa de haver escolas com melhores resultados nos exames mesmo quando o meio é semelhante.
Mas isso importa para as famílias? Claro. Significa que se os pais puderem colocar os seus filhos noutra escola o farão sem dúvida nenhuma.

E isso deve ser importante para o ministério da educação? Claro que é, embora isso não interesse ao sr. ministro da educação.
Esta informação pode contribuir para mudar a motivação dos professores, alterar os recursos materiais e humanos, promover actividades de valorização e enriquecimento, intervir a nível das famílias juntamente com as instituições de acção social e segurança social, formar a nível das mudanças parentais e valorizar a escola, fomentar as artes, o desporto, criar pedagogias diferenciadas, férias na escola, tudo isso são projectos possíveis que podem transformar uma escola talvez com relevo no ranking dos exames.

Lamentavelmente, esta informação preciosa – os dados dos exames - parece ser desprezada pelo sr. ministro e desvalorizada pelos sindicatos.

Mas há escolas que vêem estes resultados, entre muitos outros dados, como um contributo para a avaliação da qualidade do ensino na escola - e essa foi a minha experiência em dezenas de conselhos pedagógicos em que participei - levando a alterações no currículo e na escola necessárias à introdução de planos de melhoria. 
Não, não é uma “operação comercial”. É muito mais do que isso. É também a cultura assimilada pelos alunos, a cultura de avaliação, a valorização da escola, a aprendizagem dos valores, o respeito dos professores, a devolução às famílias dos resultados do trabalho feito e o respeito pelos contribuintes.


Até para a semana.


Rádio Castelo Branco





17/06/19

"Sociedade de preservação de Green Village"

 
The Village Green Preservation Society - The Kinks

 
 Na versão de Kate Rusby



Para os que usam as palavras mágicas da política actual, "alterações climáticas", a "sociedade de preservação"  é o mais verde que pode haver. A oferta política de "verdes" é o que está a dar e vai da esquerda à direita. Há verdes por todo o lado.
Entretanto, o interior, o ar puro, a vida tranquila das aldeias, tem cada vez mais adeptos de pacotilha. Não pára de crescer a desertificação humana.
Neste desvario, é bom ouvir a ironia e sarcasmo dos Kinks. Também interessante a versão de Kate Rusby e do vídeo.




18/04/19

As avós

         As avós 

   Uma avó é uma mulher que não tem filhos: por isso gosta dos filhos dos outros.
    As avós não têm nada que fazer, é só estarem ali.
    Quando nos levam a passear, andam devagar e não pisam as folhas bonitas, nem as lagartas.
    Nunca dizem: despacha-te. Normalmente são gordas, mas mesmo assim conseguem atar-nos os sapatos.
    Sabem sempre que a gente quer mais uma fatia de bolo ou uma fatia maior.
    Uma avó de verdade nunca bate numa criança: zanga-se, mas a rir.
    As avós usam óculos e, às vezes, até conseguem tirar os dentes.
    Quando nos lêem histórias nunca saltam bocados e não se importam de contar a mesma história várias vezes. As avós são as únicas pessoas grandes que têm sempre tempo.
    Não são tão fracas como elas dizem, apesar de morrerem mais vezes do que nós.
    Toda a gente deve fazer o possível por ter uma avó, sobretudo se não tiver televisão.


In «Enfants de Partout», referido por Maria Alberta Menéres, Imaginação, pag.109.

08/06/16

20/04/16

"O meu melhor amigo é um cão" ?


Na infância praticamente todos temos um melhor amigo e essa amizade pode durar anos, às vezes toda a vida. Às vezes o melhor amigo pode ser um cão.
Winston Churchill tinha os seus cachorros Rufus. Freud era acompanhado nas consultas pela sua cadela Jofie, da raça chow-chow. Freud dizia “Eu prefiro a companhia dos animais à companhia humana. (Porquê?) Porque são tão mais simples! Não sofrem de uma personalidade dividida, da desintegração do ego, que resulta da tentativa do homem de se adaptar a padrões de civilização demasiado elevados para o seu mecanismo intelectual e psíquico. O selvagem, como o animal, é cruel, mas não tem a maldade do homem civilizado. A maldade é a vingança do homem contra a sociedade, pelas restrições que ela impõe. As mais desagradáveis características do homem são geradas por esse ajustamento precário a uma civilização complicada. É o resultado do conflito entre nossos instintos e nossa cultura. Muito mais agradáveis são as emoções simples e diretas de um cão, ao balançar a cauda, ou ao latir expressando seu desprazer…" (Entrevista a George Sylvester Viereck).

Grouxo Marx em “Memórias de um pinga-amor” também escreve "o meu melhor amigo é um cão". E escreve isto por causa das más línguas que inventam histórias sobre ele. “E agora inventaram que não gosto de cães. Pois quê, se tenho um amigo no mundo, é a minha cadela "Grand Danois” Zsa-Zsa. Há anos que somos absolutamente inseparáveis. Nos oito anos que temos estado juntos, Zsa-Zsa e eu nunca brigámos. É certo que de quando em vez ela me morde mas quando isso acontece eu mordo-a logo a seguir. Hei-de ensinar-lhe quem manda.
“Não gasto mais com o guarda roupa da Zsa-Zsa do que alguma vez gastei com qualquer garota e nem uma só vez ela me pediu uma coleira nova só porque o cão do outro lado da rua apareceu com uma coleira nova..." 
É de facto muito vantajoso ter um cão como melhor amigo. Ou pelo menos era assim até há pouco tempo. Parece que as coisas mudaram. Nos dias que correm os melhores amigos são ainda as pessoas, como é o caso dos políticos em que os melhores amigos são empresários. Isto é muito mais vantajoso do que um cão. O cão não tem interesses financeiros como os amigos humanos.
Os casos Panama Papers, Marquês, Lava Jato, assessorias especiais e muitos outros, revelam-nos que os melhores amigos estão dispostos a dar a camisola e também a terem uma conta bancária em nosso nome, muitas empresas em nosso nome e não ganham nada com isso. O nosso melhor amigo empresário ou político está para tudo e por tudo.  Os melhores amigos sabem tudo da nossa vida, têm procurações nossas, levam e trazem dinheiro vivo nosso ou deles, tanto faz. É a pessoa em quem nós mais confiamos, mais do que na própria família. O nosso melhor amigo sabe os nossos segredos mais íntimos e que segredo mais íntimo pode haver do que aquele que tem a ver com o "nosso" dinheiro?
Que saudades do tempo em que a moral andava pelos "amigos, amigos, negócios à parte!"




18/05/15

Rivalidades: Bandas e bandos...

É um dos episódios mais pitorescos da rivalidade, no campo da música, descrito por F. Lopes-Graça (Disto e Daquilo, Ed Cosmos, Lisboa,1973, cap. "Recodações em dó maior").
Termina com a tradicional rivalidade clubística benfiquista-sportinguista que, nos dias de hoje, é mais portista-benfiquista... De resto, não mudou nada.

"Quanto aos restantes dois organismos musicais tomarenses, esses não dividiam os espíritos: rachavam as cabeças dos seus respectivos prosélitos.
Eram eles a Banda Republicana Marcial Nabantina, com sede no bairro de Aquém-da-Ponte; e a Sociedade Filarmónica Gualdim Pais, que se agremiava no bairro de Além-da-Ponte, também chamado «Espanha». À rivalidade politico-económica existente entre os dois bairros da cidade correspondia, naturalmente, a rivalidade artística das suas respectivas filarmónicas. Esta rivalidade traduzia-se magnìficamente nas apelações populares de cada uma das filarmónicas, apelações derivadas de certa particularidade dos seus uniformes, e que vale a pena registar, apesar do seu picaresco algo despejado.
Os filarmónicos da Gualdim Pais encimavam os seus bonés por uma pluma enristada; ao passo que os barretes dos da Nabantina se distinguiam por um estranho orifício praticado logo acima da pala. Daí advinha o chamarem à Gualdim Pais a «Música do pau teso» e à Nabantina a «Música do cu aberto». Está-se a ver que com tão frescas e irreverentes alcunhas aquilo devia ser mesmo um sarilho... E era. Sempre que as duas bandas se enfrentavam, tínhamos a música desafinada. Festa ou romaria abrilhantada por ambas elas desandava ordinàriamente em heróica e homérica refrega, da qual saíam os trombones amachucados, as flautas rachadas, os bombos estoirados, à força de serem utilizados como armas agressivas ou pararem os golpes do adversário. E é bem de ver que nem só os pobres dos instrumentos pagavam as custas da rivalidade entre as duas bandas, transforrnadas em dois autênticos bandos, com os seus competentes partidários, que, em geral, são os mais assanhados nestas contendas clubistas. Aquilo era mesmo como as actuais e por vezes sangrentas lutas entre «benfiquistas» e «sportinguistas»..."