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07/03/19

A condição masculina


1. A nível governamental, a preocupação com a situação das mulheres iniciou-se, de forma embrionária, em 1970. Com o 25 de Abril de 1974, Maria de Lourdes Pintasilgo, quando Ministra dos Assuntos Sociais, criou a Comissão da Condição Feminina (CCF),
Em 1990, passou a designar-se CIDM (Comissão para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres) e em 2007, passou a CIG – Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género.(1)
Desde a sua criação, muitos anos passaram, muitos estudos, projectos e decisões importantes para as mulheres foram tomadas, que também o foram para os homens, porém, faz falta ter em conta, principalmente nos dias de hoje, uma visão diferente da condição masculina, o que seria importante também para as mulheres.
Há sem dúvida um conjunto de especificidades que atrapalham a vida dos homens e que os tornam nas primeiras vítimas dos seus comportamentos, da sua cultura, da sua vida social.

2. Isto não pode justificar qualquer insensibilidade à discriminação e desvantagem das mulheres em relação aos homens, principalmente no que toca à violência. Doméstica ou não. (2) .

3. No entanto, se queremos mudar alguma coisa é também necessário reflectir sobre alguns factos que mostram desvantagens dos homens, expressas nas várias áreas da sociedade.
Resultado de vicissitudes biológicas, culturais e sociais manifestam-se em comportamentos evidenciados pelas estatísticas no que se pode designar como "masculinidade tóxica”:
"Nos Estados Unidos das 45.000 pessoas que se suicidam, 77% são homens . A OMS refere que mais de metade das mortes violentas nos homens corresponde a suicídios. Num estudo da ONG Promundo “numa amostragem com 1500 jovens concluiu-se que quase um em cada cinco tinha já considerado o suicídio para os seus problemas. E os mais sujeitos a este tipo de pensamento eram aqueles para os quais ser homem significa mostrar-se forte, não falar sobre os seus problemas, não exprimir as suas emoções.” (3)

4. Entre nós, por exemplo, devido à sua biologia, psicologia ou cultura, podemos elencar alguns dados preocupantes em que os homens são as principais vítimas dos seus comportamentos: (4)
- O número de presos corresponde a 93% de homens
- No consumo de álcool “os homens permanecem sendo os maiores consumidores".
- O género masculino tende a ser o mais afectado pelo consumo de drogas.
- O número de casos atendidos nas Comissões de Protecção de Crianças e Jovens (CPCJ) é superior no sexo masculino.
- Mais de metade (62%) dos alunos com NEE são rapazes.
- De 60 a 80% dos diagnósticos de dislexia são do sexo masculino.
- O diagnóstico de perturbação de hiperactividade com défice de atenção (PHDA) é mais frequente no sexo masculino, com uma relação de 2:1.
- O abandono escolar precoce é superior nos rapazes 14, 7 % em relação a 8,7 nas raparigas.
- O número de homens matriculados no acesso ao ensino superior, em 2018, é de menos 28283.
- O número de diplomados pelo ensino superior, em 2017, é 32422 rapazes contra 44.612 raparigas.
- Os rapazes manifestam mais agressividade do que as raparigas. Daniel Goleman (Inteligência Emocional) refere que a tendência para o crime manifesta-se cedo nestas crianças (pág. 258); "a impulsividade em garotos de 10 anos constitui um previsor da futura delinquência três vezes mais certeiro do que o QI." (pag 259)

5. Também o psicanalista franco-canadiano Guy Corneau, em “Filhos do silêncio” explica estes comportamentos do seguinte modo: "o pai está sujeito a uma regra de silêncio". Mostra a dificuldade das conversações íntimas entre os homens de diferentes gerações…
Os pais têm dificuldade e resistem a dar reconhecimento e aprovação aos filhos.
A intervenção do pai junto dos filhos parece assim ser um ponto fulcral de desvantagem para os homens a quem se nega a oportunidade de expressar os seus afectos pelos filhos ao mesmo tempo que estes se vêem privados dele. (O Livro da Psicologia, Marcador)

6. É tempo de mudar de paradigma. Podemos começar por esta sugestão de Jordan Peterson
_______________________
(1) Nos últimos anos, esta área da governação não tem sido pacífica quer a nível  das nomeações dos dirigentes para a Secretaria de Estado da Cidadania e Igualdade quer de algumas  intervenções que esta Comissão tem feito sobre a igualdade de género que passou a ser vista como ideologia de género.
Dar luta à ideologia de género é tarefa de qualquer democrata. 
O caminho parece ser o que é expresso pela presidente da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género, Teresa Fragoso, quando reconhece que “ainda há um longo caminho a percorrer para que as mulheres tenham as mesmas oportunidades que os homens” mas que “os homens também são altamente prejudicados pela forma como a sociedade está organizada”. (Negócios)

(2) Das 9.176 vítimas registadas pela APAV em 2017, mais de 80% eram do sexo feminino.

(3) Mário Freire, "Pais em tempos de crises - Masculinidade tóxica", Reconquista, 14/02/2019, dados baseados na revista digital Slate, OMS, ONG Promundo e do seu fundador Gary Baker.
 
(4) - Em 2017, havia 13440 presos, 12584 homens, 856 mulheres, o que corresponde a 93% de homens. (Pordata)
- No consumo de álcool “os homens permanecem sendo os maiores consumidores. Impulsividade e comportamento de risco para a saúde têm estreita relação, havendo na população masculina maior prevalência de comportamentos considerados impulsivo-agressivos.”
- “O género masculino tende a ser o mais afectado pelo consumo de drogas, embora o género feminino, depois da iniciação, tenha um percurso mais rápido e degradante.”
- O número de casos atendidos nas Comissões de Protecção das Crianças e Jovens (CPCJ), em 2017, é superior no sexo masculino.54,5% (38155) são do sexo masculino e 45,5% (31812) do sexo feminino.
- O número de alunos com NEE segundo a DGEEC ,” mais de metade dos alunos com NEE são rapazes: das cerca de 79 mil crianças registadas, 49 mil são do sexo masculino.
- Quanto ao problema da dislexia, de 60 a 80% dos diagnósticos são do sexo masculino, porém isso acontece porque os casos entre o sexo masculino costumam ser mais graves e associados a um maior número de comorbidades que entre o sexo feminino. Em estudos onde todos alunos de uma instituição de ensino são avaliados, a diferença de géneros é significativamente menor.
- O diagnóstico de perturbação de hiperacvidade com défice de atenção (PHDA) é mais frequente no sexo masculino, com uma relação de 2:1, ou seja, por cada rapariga que é diagnosticada com PHDA, são diagnosticados dois rapazes. No período da adolescência esta discrepância é atenuada.
- O abandono escolar precoce é superior nos rapazes, em 2018, 14,7 % em relação a 8,7 % nas raparigas, total 11,8 %. (Pordata)
- O número de homens matriculados no acesso ao ensino superior, em 2018, total 372753, 172.235 homens contra 200518 mulheres. (Pordata)
- O número de diplomados pelo ensino superior, em 2017, total 77034, 32422 homens, contra 44612 mulheres. (Pordata)

09/04/16

A construção da memória da família

As férias, os aniversários e outras datas relevantes, são a oportunidade para reunir a família numa maior proximidade, em que estão presentes boas e más recordações. É nessas alturas que revivemos memórias familiares, especialmente as mais profundas que vêm da infância e da adolescência e os esquecimentos que de alguma forma se podem tornar conscientes pela interacção da comunicação intrafamiliar.
É fácil verificarmos como nos esquecemos de acontecimentos e de vivências familiares. Muitas histórias passadas há anos são agora apenas uma lembrança desfocada daquilo que na realidade aconteceu, uma lembrança optimista ou pessimista do que se passou. O tempo desfez os pormenores mais dolorosos os mais difíceis de suportar, ou não, tornando-os em ressentimentos sem fim ou tornando-os em memórias felizes e de grande euforia. A interpretação desses episódios é ainda mais interessante: muitas vezes não há coincidência entre a interpretação dada pelos pais e pelos filhos.
Por outro lado, temos a lembrança encobridora (Freud): recordamo-nos de algo aparentemente irrelevante mas que nos permite compreender outras experiências mais profundas.
A forma como os pais educaram é muitas vezes vista pelos filhos como não sendo assim, na sua realidade, dado que as emoções que estiveram associadas às acções praticadas não foram valorizadas da mesma forma, nem podiam ser, uma vez que os estatutos e papéis de pais e filhos na relação educativa são diferentes e, assim, desvalorizamos uns factos e relevamos outros.
A memória da família é constituída pelas memórias de cada pessoa que a integra no contexto conhecido e partilhado por todos mas ficamos surpreendidos quando sobre a mesma história não há coincidência. A memória da família é o conjunto dessas memórias, a cultura da família, o conjunto de narrativas, verdadeiras e falsas, felizes ou dolorosas.
Podemos perguntar, por exemplo, como é que educou os seus filhos: com agressividade, violência, ou foi estilo laissez-faire e passivo ? Acha que os seus filhos concordam com a sua perspectiva ? Teria educado de outra forma ? Onde, afinal, errou ? 
Pensa que foi um bom educador e isso corresponde à imagem que os seus filhos têm de si e às várias circunstâncias (estádios de desenvolvimento) da educação? Até que ponto os obrigou a escolher um curso académico ou uma profissão? Como influenciou as escolhas dos namorados/as? Como reagiu ao seu primeiro emprego, ou à suas dificuldades em encontrar emprego ?
Obviamente, a influência dos pais é fundamental na educação dos filhos. Há pais que, de facto, não sabem o que fazer e acham que devia ser a escola a educá-los a serem cidadãos. É descartar o grande poder que os pais têm na modelagem (Bandura) ou na aprendizagem por condicionamento de ordem superior, como dizem os behavioristas.
As memórias da família são construídas na infância e adolescência. Mas elas também influenciam o futuro. A construção de boas memórias é responsabilidade dos pais e, mais do que qualquer outra influência positiva, a educação emocional (Erika Brodnock) é a mais importante: como saber lidar com as emoções, alimentar a auto-estima, saber como funciona o nosso cérebro, estimular a criatividade…

25/03/15

A falsa igualdade e o falso progresso


"Outro ponto marcante da sua intervenção foi “a garantia da igualdade no ensino” – um ponto em que fez duras críticas ao atual Governo. “Recusaremos liminarmente a ideia de antecipar para o Básico as diferenciações vocacionais, porque, sobretudo numa idade precoce, representa prolongar na sociedade de forma duradoura fraturas sociais. Custa-me que 40 anos depois do 25 de Abril de 1974 se tente voltar ao período anterior à reforma de 1973. Esse é um retrocesso que não podemos aceitar e que temos de fazer uma muralha, uma linha vermelha sobre a qual não é possível transigir”, frisou o secretário-geral do PS."

Observador, 24-3-2015

03/02/14

Satisfação profissional e pessoal


A orientação escolar e profissional tem em conta o ajustamento do perfil profissional ao perfil de personalidade da pessoa. 
Desde Frank Parsons (Choosing a vocation), a orientação consiste, assim, em compreender a natureza do trabalho, as condições do emprego e do trabalho, a formação necessária, a evolução na carreira, as remunerações e a perspectiva de futuro dessa profissão.
Falar de vocação 1 parece ser ainda mais complexo porque isso depende de muitos outros factores que se conseguem avaliar quando já estamos metidos numa actividade. Ou seja, a satisfação profissional e pessoal implica que se tenha uma profissão em que o peso dos factores externos é importante mas ainda mais o peso dos factores intrínsecos.
Nos países mais desenvolvidos há muita coisa que mudou e continua a mudar, uma delas o valor do dinheiro. O trabalho significativo é tão importante como o salário e a segurança.
Para Seligman “a nossa economia está a mudar rapidamente da economia financeira para a economia da satisfação.” (Felicidade autêntica, pag. 209)
De facto, procuramos cada vez mais a satisfação profissional e pessoal  e sabemos responder às perguntas: Para que é que eu trabalho ? Qual o significado que tem o meu trabalho ?

A investigação sobre este assunto tem proposto várias orientações para a visão do trabalho: como uma profissão, como uma carreira e como uma vocação.
Amy Wrzesniewski (2003) descreve estas três orientações diferentes de trabalho que afectam a disposição para encontrar significado no trabalho.
O trabalho enquanto fonte de benefícios materiais que permitem fazer outras coisas na vida. A maior satisfação vem de hobbies e relacionamentos fora do trabalho. O significado do trabalho é principalmente o que pode contribuir para as actividades fora da vida do trabalho.
Visto como carreira, o trabalho é fonte de progresso, prestígio e status. As pessoas com uma carreira são capazes muitas vezes de fazer sacrifícios para o avanço do trabalho que os outros não fariam.
A vocação (chamamento) permite ver o trabalho como crença de que ele contribui para um bem maior. Mesmo os trabalhos mais simples e rotineiros podem ser vistos como tendo um significado importante. As pessoas com esta orientação tendem a experimentar mais significado do trabalho.

Algumas pessoas orientam-se mais para a primeira etapa e trabalham para ganhar dinheiro que lhes pode, por ex.,  proporcionar umas boas férias. Distinguimos até trabalho de emprego sendo que algumas pessoas "não lhes apetece trabalhar por motivos profissionais", como aqui.
Quanto à carreira, ela é importante para a satisfação profissional mas tem vindo a acontecer, como na função pública, que as carreiras são mais fictícias do que reais. São carreiras onde dificilmente se consegue mudar de categoria e onde é quase impossível chegar ao topo da carreira devido aos congelamentos e à avaliação de desempenho individual e que na realidade não avalia nada. 2
Finalmente, alguns conseguem atingir o nível do trabalho como vocação. É de facto um sentimento extraordinário. Trabalhar porque sentimos que estamos a contribuir para o bem estar da sociedade, as horas não contam porque não damos por que elas passem, sentimos prazer em trabalhar com os colegas e que trabalhamos para os outros. Desta forma o trabalho faz-nos melhores pessoas e sentimo-nos mais saudáveis.3
“Reestruturar o emprego para poder empregar as forças e virtudes todos os dias não só torna o trabalho mais agradável, como também metamorfoseia um trabalho rotineiro ou uma carreira estagnada numa vocação. Uma vocação é a forma mais satisfatória de trabalho pelas gratificações que lhe são inerentes e não pelos benefícios materiais que traz.” (pag.210) 4

_________________________
1 "Diz-se que há vocação quando uma pessoa manifesta tendência a exercer certa forma de atividade - em particular, de caráter profissional - e suficientemente forte, para que pareça responder a uma espécie de apelo (ou chamado interior), de acordo com as aptidões requeridas nessa actividade." (Dicionário de Psicologia, Henri Piéron, Editora Globo, 1977).

2 Excepto, talvez, para enquadrar o salário dos assessores políticos que começam a sua vida profissional pelo topo da carreira ou quase, sendo remunerados acima dos assessores profissionais, com mais de 40 anos de serviço.

3 Nesta etapa da vocação  podemos trabalhar como se não houvesse  governo ou oposição, ministério da educação ou fenprof, actuais ou de sempre.

4 Estamos no campo da motivação intrínseca, realização profissional, fluxo.

07/10/13

+ artes - violência


Dia das expressões (2006) - Foto de Maria João 


As diversas expressões artísticas têm um papel fundamental no desenvolvimento das pessoas. Nas escolas, as sucessivas reformas curriculares têm vindo a desvalorizar as disciplinas de artes. A criatividade é desvalorizada, as outras formas de aprender não importam, as disciplinas estratégicas para um desenvolvimento harmonioso, como a actividade/motricidade/desporto, o vasto mundo das artes visuais, a música, são interessantes apenas para as evidências das actividades extra-curriculares.
Como todos sabemos e como costumo dizer aos professores e pais: quanto mais actividade menos hiperactividade.
Temos vindo a defender a importância das artes no currículo. Uma estratégia inteligente passa por dar relevo às diversas expressões artísticas e desportivas e não o contrário, como tem acontecido nas últimas reformas curriculares.
A redução da instabilidade tem tudo a ver  com a integração destas disciplinas no currículo, com mais horário e não com menos.
É errado substituir estas disciplinas por coisas do tipo área-escola ou áreas curriculares não disciplinares: área de projecto, formação cívica, estudo acompanhado, e agora oferta complementar  e apoio ao estudo...
Claro que há experiências positivas, claro que há experiências onde muitos desses tempos "tirados" às artes não vão para as disciplinas do costume... mas o contrário também é verdade.
Através do Profblog, esta é mais uma evidência (escola Orchard Gardens) da responsabilidade das artes na melhoria do comportamento dos alunos.

31/01/13

Os nossos heróis



Uma das melhores formas de aprendizagem é a aprendizagem por observação de um modelo. Esta forma de aprendizagem é também designada como: modelação, imitação, identificação, aprendizagem vicariante, aprendizagem por observação ou desempenho de papel.
Permite aprender rapidamente comportamentos complexos, que seriam adquiridos de forma mais lenta por outros processos.
É fácil verificar-se em exemplos do quotidiano: expressões brasileiras que entram no vocabulário devido ao fenómeno das telenovelas, os nomes dos filhos relacionados com vedetas do futebol, do cinema, das telenovelas, etc...
A repetição de frases que ouvimos, de comportamentos que vemos nos filmes, a que as crianças são particularmente sensíveis desde muito cedo …
Podemos ver este tipo de aprendizagem na cultura de um povo: os heróis, os mitos, as lendas
E sempre assim parece ter sido. Para os gregos, o paradigma era o modelo a ser seguido, eram os heróis que deviam ser imitados. 
O mesmo se passa com a Igreja que tem os santos como modelos a imitar.
A ênfase é posta na aprendizagem por observação dos comportamentos dos outros e das respectivas consequências (aprendizagem vicariante) que vai, posteriormente, originar uma modelação pelo próprio indivíduo.
O meio influencia o comportamento, mas além disso, o ambiente, o meio social é em parte fruto da acção do sujeito que pode modificar o seu meio social e as circunstâncias.
A investigação psicológica veio relevar o conhecimento de que as práticas de modelação pelos pais influenciam o desenvolvimento das crianças, levam à aquisição e ao desenvolvimento dos processos de linguagem e pensamento e que os princípios do auto-reforço podem ser usados para tratar vários problemas psicológicos (Bandura).
Esta aprendizagem tem em conta a motivação e a capacidade de antecipação. O individuo, como resultado de experiências prévias, desenvolve expectativas contingentes ao seu comportamento sendo este em grande medida regulado por consequências antecipadas.
Através de representações simbólicas de consequências reais, as situações futuras podem ser transformadas em motivadores que influenciam o comportamento actual. 
Como diz o povo “nas costas dos outros …vemos as nossas” e agimos de acordo com isso.
Mas quais são os nossos modelos actuais? Quem são os heróis que nós próprios e os jovens têm para imitar?
Temos heróis com pés de barro: o doping no ciclismo e no atletismo (Lance Armstrong ou Marion Jones), a conflitualidade no desporto, os políticos ditadores e corruptos, as fofocas da vida do espectáculo…
Há modelos reais e míticos. Há modelos positivos e negativos. A dificuldade está em sabermos seleccionar estes modelos e o que é estranho é que ainda há jovens, e não só, a quererem imitar modelos negativos. A cultura de massas facilita a divulgação destes protótipos negativos. Há sites na internet, jogos de computador, que divulgam este tipo de idiotas e alguns seguem estes modelos negativos. 
Não deixa de ser sugestivo que quando perguntamos aos adolescentes do 9º ano “Quem seria o seu modelo na vida futura ou quem admira ?”, em 50 respostas, a grande maioria refere os pais ou os avós ou outro familiar.
Em metade das respostas, aparecem também outros modelos, do desporto à música, mas apenas alguns conseguem mais do que uma escolha: Cristiano Ronaldo, com 4 preferências, Nelson Mandela com 3, Barack Obama com 3 e Rondo, do Celtics, com 2 escolhas.
É por isso que devemos ser optimistas em relação às gerações mais novas. Pais e avós são os seus heróis e podem ficar orgulhosos destas preferências. Mas também ficam com mais responsabilidade em serem modelos positivos dos filhos e netos.

27/09/12

Equidade na educação e regulação das aprendizagens

 
A equidade na educação tem duas dimensões: A primeira é a igualdade de oportunidades (justiça), que implica assegurar que circunstâncias pessoais e sociais – por exemplo, sexo, status socioeconómico ou origem étnica – não devem ser um obstáculo à realização do potencial educativo. A segunda é a inclusão, o que implica assegurar um padrão mínimo básico de educação para todos - por exemplo, que todo mundo deve ser capaz de ler, escrever e fazer aritmética simples. As duas dimensões estão intimamente entrelaçadas: combater o insucesso escolar ajuda a superar os efeitos da privação social que muitas vezes faz o insucesso escolar.   (Relatório da OCDE)
 
A OCDE fez dez recomendações (Ten Steps to Equity in Education), para reduzir o insucesso e o abandono: 

Design
1. Limit early tracking and streaming and postpone academic selection.
2. Manage school choice so as to contain the risks to equity.
3. In upper secondary education, provide attractive alternatives, remove dead ends and prevent dropout.
4. Offer second chances to gain from education.
Practices
5. Identify and provide systematic help to those who fall behind at school and reduce year repetition.
6. Strengthen the links between school and home to help disadvantaged parents help their children to learn.
7. Respond to diversity and provide for the successful inclusion of migrants and minorities within mainstream education.
Resourcing
8. Provide strong education for all, giving priority to early childhood provision and basic schooling.
9. Direct resources to the students with the greatest needs.
10. Set concrete targets for more equity, particularly related to low school attainment and dropouts. *
Era bom que fosse assim ! Aqui encontra uma crítica. Outras se seguirão.
* Pode ver a tradução de Teresa Gaspar (Noesis nº 72) - " Lá fora - Acabar com o insucesso escolar : Dez medidas para a Equidade em Educação ". 

22/04/12

Os sonhos dos jovens

Têm vindo a ser efectuadas investigações que dão relevo a comportamentos e atitudes maioritárias dos jovens.
M. Gabriela S. e Silva , "Os Sonhos dos Adolescentes", indicam que os jovens “têm ideias muito sérias sobre a vida, que se preocupam com os pais e os avós de idade avançada, que querem ter uma família organizada e constituída e um emprego estável", que “os adolescentes portugueses têm valores, preocupam-se com o bem-estar da família e sonham ter estabilidade emocional e profissional”.
E que os seus sonhos "têm uma ordem bem definida: alcançar a felicidade, obter estabilidade económica e profissional, conhecer o mundo, estabelecer laços familiares, ter saúde, possuir habilitações académicas, ter casa própria, sentir apoio familiar e ajudar a família e os amigos.” 

Estas respostas não são diferentes dos sonhos dos outros jovens dos outros países. Os jovens brasileiros quando questionados sobre o seu maior sonho individual, 55% dos jovens brasileiros responderam que era a formação profissional e emprego; 15% casa própria; 9%  dinheiro (ficar rico ou ter estabilidade financeira); 6% a família; 3% a compra de outros bens materiais (carro/moto/eletrodomésticos).

A reforma curricular vem dar ênfase à aprendizagem dos conhecimentos essenciais. Sem dúvida que esta focalização é essencial mas não é suficiente para preparar o jovem para o futuro.
Os alunos trazem para a escola outros mundos e vivências “Dentro das mochilas muitas vezes, não vão só livros. Vão sonhos desfeitos e dramas familiares.” (M. Gabriela S. e Silva).
“Eles querem acreditar, mas sentem desde logo as dificuldades nas suas casas – pais desempregados, com problemas para pagarem os empréstimos da habitação, do carro, etc. Começam a prever a vida através das dos próprios pais”.
Os jovens passam o dia na escola. Mesmo quando não têm aulas ou quando faltam às aulas, preferem ficar na escola com os amigos, do que voltar a casa ou andar por aí.
Para além da família, a escola é praticamente a única instituição social que pode ajudar a fazer a moratória psicossocial dos jovens.

Por isso era necessário atribuir essa força à escola e aos professores e entender que um professor não é apenas transmissão cognitiva de conhecimentos. Tem uma dimensão pedagógica afectiva relacional.
E tem que ajudar a olhar para os sinais do futuro.
Os sonhos dos jovens provavelmente têm que ser esboçados pelos adultos. O que prevemos para o ano 2020 ?
Isto é, os alunos que actualmente estão no 9º ano, em 2020, estarão a terminar as licenciaturas ou os mestrados. Quais são as profissões que vão ser necessárias em 2020 ?
A escola não está preocupada com isso. E os jovens não têm esta perspectiva de futuro. Têm muita dificuldade em se imaginarem a exercer uma profissão daqui a 20 anos.
Mas, há alguns sinais que começam a mostrar essa preocupação com o futuro.
Na exposição Futurália (21-03-2012), num total de 371 boletins de voto, cerca de 26% dos jovens considera que "criar" é a sua prioridade para o futuro, "viajar" 18%, "trabalhar" (15%), e "aprender" (14%).
James Canton (“Sabe o que vem aí?”) fala da previsão para 2015 e 2020, de uma era completamente nova, com profissões muito diferentes: técnicos de neuromedicina; técnicos de segurança pessoal; clonadores de órgãos; terapeutas do biofuturo; cientistas quânticos; terapeutas promotores de saúde; viabilizadores do cancro…. conselheiros para a gestão do conhecimento; empresários de nanobiologia; artistas, escritores, poetas; caçadores globais de talento.

O nosso sucesso será ajudar os jovens a alcançar os seus sonhos. É esta a realização de um educador: atingimos os nossos  objectivos quando os alunos que educamos atingem os deles.

01/03/11

Que fazer com um pós-doutoramento ?



O sintoma aflora, ciclicamente, na sociedade, com mais ou menos humor, com mais ou menos educação. Lembrem-se do "não pagamos" do tempo da M. Ferreira Leite, uma má educação inconsequente: agora pagam mais e estão calados, aliás, o grupo do não pagamos estará de volta logo que os socialistas sejam apeados.
E alguns chamaram-lhe a "geração rasca", terminologia, nessa altura, recuperada para "geração à rasca".
Mas o sintoma merece uma análise profunda do que se passa. Creio que há jovens que estão genuinamente neste movimento e esses devem merecer o nosso respeito e, já agora, o respeito do poder.
O problema "geração casa dos pais", da falta de autonomia, de um percurso académico interminável, de uma quase completa dependência económica, leva a coleccionar formações. Mas continuam sem uma identidade profissional que dá razão aos que falam da "juventude à rasca". 
A análise dos factores de contexto deveriam permitir maior equilíbrio de forma a poder compensar um com outro sempre que se vão acumulando pressões suficientes para não esconder mais o mal-estar. 
Em vez disso, vamo-nos comprazendo com estas ilusões de uma dupla visão (ou duplicidade) acerca da adolescência.
Jovens porreiros e vítimas (geração simpática e generosa que tem direito a casa, automóvel e emprego) vs jovens passivos e mal educados (o que eles querem é que tudo lhes caia do céu, isto é, do estado social, sem arriscarem nada, emprego seguro, sem iniciativa) ...
Um estudioso da adolescência, M. Debesse, já nos alertava para duas ilusões a evitar: a primeira vê a adolescência como um valor absoluto. Cada adolescente tem o seu ritmo de desenvolvimento e as suas manifestações, tem grandes variações segundo o sexo, segundo o meio, segundo as constituições e os temperamentos. Por isso há várias histórias de desenvolvimento e vários tipos de desenvolvimento. Daí que levados ao absurdo do absoluto não haveria adolescência mas adolescentes.
O segundo erro seria pensar que a juventude muda conforme as épocas: a juventude de 1900, dos anos 20, do pós-guerra, do Maio 68...
Mas acreditar que ela se identifica com esses sucessivos vestuários de empréstimo que cada geração tem a sua juventude profundamente diversa da da geração precedente é uma ilusão de moralista amador e apressado. (Pag 20)
O que se passa hoje poderá ter alguns aspectos particulares. Mas há nesta roupagem nova, uma juventude que é as duas coisas. Bronfenbrenner explica melhor esta situação da juventude com a ideia de contexto primário e secundário. Na nossa sociedade, o contexto secundário tem sido desvalorizado com prejuízo para o desenvolvimento de cada um.
O contexto primordial de desenvolvimento é aquele em que a pessoa pode observar e comprometer-se em actividades conjuntas gradativamente mais complexas, com a orientação directa de pessoa, ou pessoas, que já possuem habilidades e conhecimentos que ela ainda não possui, e com quem ela tenha uma relação afectiva positiva.
O contexto secundário de desenvolvimento é aquele em que são dados encorajamento, condições e  oportunidades, para a pessoa fazer, sem a orientação directa de outras pessoas, aquilo que ela desenvolveu no contexto primordial.
O que estamos a fazer para que o contexto secundário promova as oportunidades que os jovens precisam para adquirirem a sua identidade ?

23/02/11

A transição dos alunos com NEE para o ensino secundário




A Lei n.º 85/2009, de 27 de Agosto, estabelece o regime da escolaridade obrigatória para as crianças e jovens desde os 5 anos de idade até aos 18 anos.
A escolaridade obrigatória de 12 anos aplica-se também aos alunos com NEE (nº2)
As estatísticas divulgadas na altura indicavam cerca de 35 mil jovens que abandonavam a escola antes dos 18 anos.
Trata-se de abandono. Porém, sabemos que o nível de insucesso no 10º ano é elevadíssimo, rondando os 50%. O problema não está apenas nos alunos que abandonam no 3º ciclo e não entram no secundário.  Está também no número dos que não completam o secundário.
Temos dos piores resultados no que refere ao abandono escolar, com taxas de 36,3 % , em 2007 (Relatório de 2008 sobre os sistemas de educação da União Europeia sobre os objectivos para a Educação até 2010, definidos na Estratégia de Lisboa, Portugal).
Por outro lado, em Portugal só 53,4 por cento da população portuguesa entre os 20 e os 24 anos completou o secundário (Relatório referido).
A desqualificação do ensino técnico e profissional e o ensino cada vez mais livresco (veja-se a desqualificação das áreas de expressões e tecnológicas) faz com que uma “falha” dificilmente reparável tenha conduzido à falta de qualificações em termos de quadros médios, intermédios e de profissões técnicas diferenciadas.
Mas, para o poder parece que temos todas as condições para integrar esses alunos. O poder achaque num universo de cerca de 1,2 milhões de alunos, 35 mil jovens não parece ser problema. ”Temos todas as condições para isso, quer em meios humanos, quer em meios físicos".
Estamos a cair no mesmo erro de considerar que temos as condições físicas, escolas secundárias,
e apoio financeiro às famílias com a atribuição de bolsas de estudo, no secundário,   sendo que os alunos do primeiro e segundo escalão vão ter uma bolsa cujo valor será igual a duas vezes o abono de família.
Mas porque será que há pessoas que colocam em causa coisas tão boas como 12 anos de estudo, escolas novas, auto-estradas, alta velocidade…. Não são os inimigos do progresso ?
Quer o poder queira quer não, é legítimo levantar dúvidas sobre a validade do objectivo do Governo de fixar a escolaridade obrigatória nos 12 anos.
No estado actual do país temos dúvidas em relação a esta promessa de apoio financeiro à família. Esperemos que não seja como a promessa do subsídio pelo nascimento de cada filho…
Temos dúvidas como, António Nóvoa que apelou aos membros do Governo para que "actuem" sobre "o essencial", os primeiros seis anos de escolaridade, medida que defendeu ser mais importante do que fixar objectivos nos 12 anos de escolaridade.
Além disso, “alguns países europeus sem uma escolaridade obrigatória tão longa apresentam melhores resultados do que Portugal”.
E, finalmente, uma questão fundamental a que é necessário responder: como vai ser a integração dos alunos mais problemáticos. O que vai acontecer aos alunos com NEE ?
Vão frequentar as escolas secundárias ou vão para os centros de formação.
Quais centros de formação? Com que apoios ? Com que recursos humanos ?
Estamos a falar de crianças com dificuldades cognitivas, motoras, sensoriais, multideficientes que vão de níveis mais ligeiros até muito graves…
Como vai ser a integração de alunos com outras culturas relativamente à escola quando sabemos que a taxa de abandono é praticamente total na transição para o secundário ?
Como se vai fazer cumprir a escolaridade obrigatória para todos os alunos?
De facto, quem  está no terreno não faz ideia. E quem não está ainda menos ideia faz...

16/02/11

“Reconstruir os nossos olhares”

Era uma vez uma menina que nunca estava quieta e não aprendia praticamente nada na escola. Se esta menina vivesse nos dias de hoje seria provavelmente diagnosticada como hiperactiva.
Gillian Lynne tinha fraco desempenho na escola, então a sua mãe levou-a ao médico e explicou a sua instabilidade e a falta de interesse.
Depois de ouvir tudo o que disse a mãe, o médico disse a Lynne que precisava falar com a mãe em particular, por um momento.
Ele ligou o rádio e saiu. O que aconteceu em seguida foi extraordinário: Lynne estava a dançar ao som do rádio.
O médico constatou que ela era uma dançarina, e incentivou a mãe de Lynne para que frequentasse as actividades de dança.
Lynne, afinal, tinha um dom para a dança.
Gillian Lynne, nascida em 20 de Fevereiro de 1926, foi bailarina, actriz, directora teatral, directora de televisão e coreógrafa. É conhecida pela sua coreografia de teatro popular associado a musicais como Cats e O Fantasma da Ópera.

Era uma vez um menino, Alan Rabinowitz, que cresceu em Nova Iorque. Na escola as coisas também não corriam bem . Foi colocado numa classe especial por causa de ter gaguez.
Hoje sabe-se que as dificuldades de linguagem dependem de problemas genéticos e não são apenas problemas psicológicos o que não acontecia há alguns anos.
A sua gaguez era tão grave que o seu corpo se contorcia e tinha espasmos quando ele tentava falar.
Não era possível comunicar com seus colegas e professores. Rabinowitz desistiu de tentar conversar com outras pessoas.
Em vez disso, quando voltava da escola e regressava a casa, cada dia, escondia-se no armário e conversava com os seus animais de estimação: tartaruga, camaleão, que, também ele percebeu, não podiam falar.
Quando visitava o parque zoológico com o pai, ficava sozinho com o jaguar e falava com ele …
O menino falava com o jaguar porque tinha dificuldade em falar com as pessoas porque tinha gaguez.
Foi então que nesta fase da sua vida, Rabinowitz fez uma promessa: havia de usar a sua voz em defesa dos animais que não tinham voz como era o caso do jaguar.
Hoje, Rabinowitz é porta-voz da Fundação para a gaguez. Além disso, dedica a sua vida à Sociedade para conservação da vida selvagem (Wildlife Conservation Society). Dirige a Associação Panthera, dedicada à protecção da vida selvagem.

A escola muitas vezes não tem a resposta. Mas a resposta pode estar nos pequenos sinais que a criança nos dá e na sensibilidade dos professores e técnicos não só na aprendizagem do currículo formal mas nas reais capacidades da criança.
É por isso, que há mais educação para além da escola…
Quem trabalha com crianças com dificuldades tem que aprender que as crianças demonstram capacidades  em que vale a pena apostar.
Os rótulos de preguiçosos, disléxicos, hiperactivos, etc. devem merecer a precisão de um diagnóstico correcto mas também a constatação de que as crianças com dificuldades podem atingir níveis de excelência em áreas das ciências e das artes que não fazem parte do currículo escolar mas que se encontram na comunidade educativa.