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17/03/25

O bom da partida é o regresso


Cipriano de Rore - Ancor che col partire


Ancor che col partire

Io mi sento morire
Partir vorrei ogn' hor, ogni momento:
Tant' il piacer ch'io sento
De la vita ch'acquisto nel ritorno:
Et cosi mill' e mille volt' il giorno
Partir da voi vorrei:
Tanto son dolci gli ritorni miei







29/08/24

De regresso à selva

 



A luta pelo estímulo (Desmond Morris, O Zoo Humano) é fundamental para a sobrevivência do ser humano. Porém, quando os estímulos são em excesso podemos ficar doentes. 
Sempre que pensamos em férias temos em mente os benefícios do descanso e relaxamento, do ar livre, do mar e do sol, para o corpo e para a mente, que são comprovados pelos estudos sobre férias e saúde.  (1)

Acontece que deixamos o trabalho mas o trabalho não nos deixa. Levamos  connosco muita bagagem desnecessária: preocupações, arrelias, frustrações, desilusões, trabalho e equipamentos: portátil, telemóvel, ipad ...  E acima de tudo a mesma atitude mental: competição expressa ou inconsciente nos mais pequenos pormenores que compromete aqueles benefícios.

Umas férias pensadas e sonhadas para combater o stress levam a aumentar ainda mais o stress com as bichas de automóveis para a praia, para o supermercado, para o barco, dificuldade para estacionar... Afinal já chegava a bicha para marcar consulta no Centro de Saúde, tratar de um documento  na Loja do cidadão, para não falar na AIMA que só de ver na TV me cansa... 

  

O ser humano percebeu que era necessário haver regras para poder funcionar em seu próprio proveito. Mesmo que alguns teimem em não as entender na utilização  do condomínio, do trânsito... e da praia. (2)

Por que há-de haver regras num tempo e espaço em que queremos gozar a nossa liberdade? E por que não hei-de ter as minhas regras ?

Não é de estranhar o resultado de um recente inquérito: “os jovens dizem que as proibições nas praias lhes tiram a diversão.” (3)


Uma das últimas guerras de que estaríamos à espera seria a luta pelo domínio de uma espreguiçadeira junto à praia ou à piscina. Uma espreguiçadeira pode ser o meu território. Tenho espreguiçadeira, logo existo. Mas a conquista daquele minúsculo espaço territorial, a necessidade de ficar à frente, ter o melhor lugar junto à praia, exige ter que levantar cedo, correr para a conquista, impondo a minha regra, o espaço marcado pela minha toalha. E esta vitória tem custos: deixam-me completamente stressado.


Por mais que tenha evoluído e tenha abraçado o progresso, trazido pelo turismo de massas, o ser humano está sempre a voltar para os estádios primitivos dessa evolução. Como acontece com todas as guerras em que  o homo sapiens manifesta a sua incapacidade para ultrapassar a eliminação física do outro ou os pequenos conflitos interpessoais, inesperados, que ameaçam o velho cérebro que dita o meu domínio territorial: "Os hotéis dizem que sem o controlo das espreguiçadeiras "seria uma selva", uma vez que os turistas competem por lugares privilegiados nos hotéis ao longo da costa espanhola." (4)


O comportamento humano não pára de nos surpreender, preocupar e... divertir. Em vez de tranquilas férias aumentamos o stress, a terapia vira pesadelo, um feliz casamento pode voltar de férias desfeito ou uma boa amizade encontrará o seu ocaso. (5)

O ser humano ainda não se adaptou a estas novas regras. Volta sempre à selva de onde afinal parece nunca ter saído: um lugar ao sol tem uma importância fundamental para um primata em vias de socialização.


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09/04/21

Uma viagem espacial




O melhor disto tudo é que, se quisermos,  podemos  viajar pelo espaço e pelo tempo. Faça chuva, faça sol, haja pandemia ou doenças, a vida é sonhar e imaginar um mundo onde a realidade é igual à fantasia. 
Assim, podemos fazer muitas coisas maravilhosas, ao mesmo tempo, como estar na terra, viajar no passado e no regresso ao futuro  e ao mesmo tempo viajar pelos mais divertidos  sítios do espaço.  
Qualquer tempo é bom para viajarmos sem tempo. No Natal ou no Verão podemos viajar por onde quisermos, sem frio e sem calor, no espaço e tempo em que só podemos ser felizes. Seja tempo antes da covid ou depois da covid, podemos viajar  pelas alegrias e tristezas que são tempo em que nos lembramos dos tempos antes de nós e fazemos o tempo de agora.

- Avô, brincas comigo ?
A nave espacial já estava preparada e pronta para descolar a qualquer momento.
A minha primeira dificuldade é entrar na nave porque as dobradiças dos joelhos já não funcionam com aquela elasticidade de outros tempos mas com jeito consegue-se um lugar  desde que sentado com as pernas "à chinês".

Para descolar, o comandante liga os botões e começa a contagem, que neste caso, não é decrescente. A nossa nave descola aos 10. Então vamos descolar: um dois três ... nove, dez.  Vrooooooomm!
E lá vai a caminho do espaço. Silêncio. Silêncio apenas interrompido pela turbulência que se faz sentir na nave, por vezes grande, tum, tum, toc, toc... e os asteróides são um perigo para a nevegação... 
- Vamos cair, vamos cair... 
No painel de bordo acendem  os botões vermelhos de perigo... 
- Cuidado! Cuidado!
- Já passou.
O comandante tem hoje um destino. Deixa cá ver a carta espacial. Indica Parque Jurássico e... Caraíbas...
No Parque podemos ver o raptor, o pterodathil, brontosaurus, tyrannosaurus...

E continuamos pelo espaço. De um dos lados da nave podemos ver pelas escotilhas a terra azul e do outro lado a lua cheia e branca.
A navegação corre bem apesar de alguns solavancos que a fazem tremer e, às vezes, parece que vai desfazer-se... Mas o perigo acaba por passar.
Porém, o problema maior é aterrar. O comandante da nave quer continuar no espaço e não há maneira de decidir que já é tempo de voltar à terra.







01/12/20

Parque do Barrocal - o fascínio do tempo




Parque do Barrocal



1. Castelo Branco, conta com mais um equipamento social e cultural, aberto ao público em  7/11/2020, o  Parque do Barrocal. 1

As várias paisagens conseguidas dos vários mirantes que foram criados dão-nos uma perspectiva diferente da cidade  e da paisagem envolvente que se estende até Espanha  e a concelhos limítrofes. 

O silêncio que se pode usufruir num espaço situado dentro da cidade é tão inesperado como, de repente, sentir-se envolvido pelo tempo que esculpiu, em muitos milhões de anos, figuras geológicas que espantam e nos mostram a nossa pequenez quando nos inscrevemos no friso cronológico do planeta ou na grandiosidade das estruturas naturais ali existentes, em contraste com a modernidade do projecto de arquitectura.


O Barrocal oferece, segundo o prospecto divulgado aos visitantes as seguintes actividades: Visitas com guias especializados, Visitas escolares, Passeios pedestres, Parque infantil, Cursos e workshops, Eventos de Arte na Natureza, Eventos de Desporto na Natureza e os Serviços: Cafetaria, Loja, Eventos privados,  Filmagens/ Fotografia.

São enormes as potencialidades do Parque que na minha perspectiva deverão ser, fundamentalmente,  nas vertentes natural, cultural, educativa e espiritual. Este espaço pode ainda ser usado numa perspectiva terapêutica não tanto de "banho de floresta" mas como  “Terapia da Natureza“ ou seja como “uma prática que promete melhorar nossa saúde física e mental que resulta do nosso contacto com a natureza. 2

 

2. No entanto, em 16 de Novembro escrevi no Facebook: "Não é compreensível que numa obra acabada de abrir ao público (Barrocal) tenham esquecido as acessibilidades, a eliminação de barreiras arquitectónicas. A legislação não é cumprida, os objectivos de uma Sociedade Amiga das Pessoas não interessam, a metodologia Universal Design for Learning (UDL) é uma miragem."

Na minha opinião, foi pena que as infra-estruturas ali colocadas, e sei que houve a intenção de mexer o menos possível na natureza, o  que necessariamente sempre havia de acontecer, podia, pelo menos, ser em benefício das acessibilidades e segurança.

Nestes aspectos, acessibilidades e segurança, há ainda muito por fazer, e é pena que não tenha sido tomada em conta a legislação sobre o assunto e, mesmo que tecnicamente fosse de difícil execução e encarecesse o projecto, não devia ser esquecida a eliminação de  barreiras arquitectónicas e outras que permitiria a todas as pessoas usufruirem deste espaço natural de excelência.

No que diz respeito à segurança  e vigilância, certamente estarão  asseguradas de forma a prevenir ou a resolver rapidamente qualquer acidente que aconteça. 

O parque infantil ali implantado ainda está fechado e ainda bem porque, mesmo não sendo especialista de segurança e não sabendo o risco envolvido, mesmo assim parece-me bastante "radical" ou seja, comportando um factor de risco importante para que aconteça qualquer acidente. Mas admito que possa ter sido testado e não haja qualquer problema de segurança. Em todo o caso, provavelmente, estaria mais bem situado noutro contexto ambiental.

 

3. Coloca-se ainda o problema da vigilância... O Parque, como qualquer equipamento social,  é de todos os que o visitam e é importante preservar a natureza de todo o tipo de contaminações e vandalizações a que os equipamentos sociais, paradoxalmente, estão sujeitos. O Parque será tanto mais  aprazível quanto mais estimado for pelos visitantes.

Para já ficaram alguns "graffitis" da treta e asneira  que deviam ser retirados para devolver a dignidade ao local sem aquele tipo de poluição visual. 

 

4. Quanto a algumas das minhas dúvidas, devo dizer que fiquei mais descansado mas também expectante em relação ao futuro do Parque. Fui informado por uma atenciosa funcionária da recepção em relação ao desenvolvimento que se seguirá. Apenas uma pequena parte do Parque foi intervencionada. Outras se seguirão que virão melhorar  e enriquecer aquele espaço. *

 

5. Mais do que opinar sobre este equipamento, o melhor será visitá-lo e desfrutá-lo. Digo-lhe que não se vai arrepender. Foi o que fiz e gostei do que senti. 

__________________________

1 O projeto, desenvolvido pelo Topiaris, foi um dos oito finalistas do prémio mundial World Architecture News Awards, na categoria Urban Landscape e que venceu. 
O Parque do Barrocal teve como arquitectos: Teresa Barão, Luis Ribeiro, Catarina Viana, Elsa Calhau, André Godinho, Rita Salgado e Ana Lemos. Envolveu ainda outros especialistas: Olavo Dias, Sérgio Sousa & Gonçalo Santos, Bartolomeu Perestrello, Pedro Delgado e Ana Tiago & Pedro Silva e Sousa.

2. A terapia da floresta (“Forest Therapy“ ou  “shinrin-yoku” -“banho na floresta“) criada no Japão nos anos 80,  como é chamada em seu país de origem, consiste em oferecer aos interessados algumas horas de contacto directo com a natureza em prol de benefícios para a  saúde. O homem precisa da natureza, das árvores para observar, tocar,  plantar... A ligação entre a psicologia e a natureza faz parte do processo evolutivo.

 

* Para saber mais sobre o Parque do Barrocal e questões afins:






https://www.mixcloud.com/RACAB/crónica-de-opinião-de-carlos-teixeira-03-12-2020/




26/02/20

Estrada Nacional 2

A desertificação, o despovoamento e o abandono do chamado “interior” tem vindo a ser concretizado desde há muito tempo pelos diferentes governos que nos têm desgovernado.
Mas “agora sim , damos a volta a isto”*, como diz a canção dos Deolinda. 
Temos o maior governo da democracia que soma cerca de 70 ministros e secretários de estado  para todos os gostos mas principalmente para combaterem a desertificação e o abandono:
Ministra da coesão territorial, Secretário de Estado da Conservação da Natureza, das Florestas e do Ordenamento do Território, Secretário de Estado Adjunto e do Desenvolvimento Regional, Secretária de Estado da Valorização do Interior, Secretário de Estado da Agricultura e do Desenvolvimento Rural. 

John Steinbeck em “Vinhas da ira”, dá-nos um retrato do sonho americano desfeito  e sem esperança.  Conta a história  de uma família (Joad), que parte do Oklahoma em direcção à Califórnia em busca desse sonho, que como muitas outras famílias, após a Grande Depressão de 1929, as fracas condições económicas, as intempéries,  a incapacidade  de pagar os empréstimos aos bancos... tem que deixar as suas cidades,  as suas quintas em busca de algo melhor.
Fogem pela mítica Route 66 **, até à Califórnia em busca de trabalho e de melhores salários onde, afinal, o afluxo de muitos trabalhadores  não lhes vai permitir melhorar a situação.

Manhattan Transfer - ROUTE 66

Esta mesma estrada é um dos assuntos centrais do filme Cars, da Pixar (2006) , que é muito mais do que um filme para crianças, e da cidade fictícia de Radiator Springs simbolizando vários lugares reais da histórica Route 66
Uma excelente imagem da desertificação após a construção da Interstate 40 porque Radiator Springs deixou de ser passagem obrigatória para todos os que utilizavam a Route 66 e  levou a cidade, onde Faísca McQueen foi “cair”, ao abandono e ao marasmo.



Por cá temos a EN2  com 738,5 quilómetros *** que o escritor Afonso Reis Cabral (Ler, p. 116-127) percorreu a pé. Sendo a estrada nacional com mais longo percurso, torna-se fascinante percorrê-la, visitando o Portugal profundo: 11 distritos, 8 províncias, 4 serras, 11 rios e 32 concelhos.

Talvez inspirado por esta “aventura”, o sr. primeiro ministro não quis deixar de fazer campanha eleitoral à conta da EN 2.  
"Estamos brevemente a iniciar uma nova etapa na caminhada que iniciámos há quatro anos. E sempre que se inicia uma nova etapa é bom voltar ao quilómetro zero para ganhar inspiração para o que há a fazer nos quilómetros a seguir", afirmou António Costa, que hoje dedicou o dia à EN2, que atravessa o país entre Chaves e Faro, recusando-se a falar sobre outros assuntos da atualidade nacional.
... O também primeiro-ministro elogiou o projeto da Rota da N2, lançado em 2014, e disse que é "preciso relembrar que há mais país para além do país" que se vê "nas áreas de serviço"...

Como nas Vinhas da ira, como em Cars, o progresso conseguido não é definitivo. As autoestradas têm este reverso da medalha, a desertificação dos locais por onde passava a antiga estrada com curvas e contracurvas mas com tempo para apreciar a beleza da paisagem, e a falta de contrapartidas para as populações locais.
Por outro lado, o desenvolvimento passa pela coesão territorial, pelo equilíbrio inter-regional e local, passa pela manutenção das infraestruturas no seu conjunto nacional em todos os sectores, em todas as cidades, vilas e aldeias. De contrário, não há Eldorado que nos valha.

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António Costa arranca com iniciativa "Governo mais próximo" em Bragança
**Route 66 é uma rodovia histórica que foi construída na década de 1920 e atravessava sete estados dos EUA (Illinois, Missouri, Kansas, Oklahoma, Texas, Novo México, Arizona e Califórnia) com um percurso de 3.940 km.  Em 1985  foi substituída pela Interstate 40.
*** É a terceira mais extensa estrada nacional de todo o Mundo, apenas superada pela Route 66 (3.939 quilómetros), nos Estados Unidos, e a Ruta Nacional 40 (5.194 quilómetros), na Argentina.

  

https://www.mixcloud.com/RACAB/crónica-de-opinião-de-carlos-teixeira-27-02-2020/


22/05/19

Fim de semana em família

Lisboa, vista do Jamie's Italian, no Príncipe Real




Passou mais um 15 da Maio - Dia internacional da família. Para além deste, todos os outros dias são dias da família.
Fim de semana em família, quer dizer estar a tempo inteiro com os filhos e os netos, que são aquilo que define a família.
Procurar espaços onde se possa estar em família requer alguma procura. É necessário, por exemplo,    saber se o restaurante é kids friendly, se tem o equipamento essencial, cadeiras para bebés, menu para os mais pequenos... e sobretudo, o que não pode faltar, atitudes do pessoal e ambiente acolhedor e simpático para eles. Não deviam ser todos assim ?
Aqui deixo dois bons exemplos.

Procurar uma filosofia de vida, a procura do bem-estar, a de Epicuro, o prazer do sábio, a saúde do corpo e a tranquilidade do espírito, o domínio das próprias emoções... Eros vence Thanatos. Só podemos ser felizes quando os outros também o são.


21/12/18

Tempo de brincar


António Pinho Vargas - Dinky toys - album "A Luz e a Escuridão" (1996)


A infância, tempo de brincar. Para a criança, brincar é aprender. Não só no Natal mas sempre. Tempo de legos e de playmobil que já foi de meccano e dinky toys. Mudam os brinquedos mas não muda a luz que lhe vemos no olhar.

01/06/18

Jogo e desenvolvimento psicológico

Atividades para crianças: férias criativa e divertida 


jogo finalidade em si (Janet)
jogo energia vital que ultrapassa as necessidades imediatas e estimula o crescimento (Huizinga)
jogo realização do ego do indivíduo (Claperède e M. Mead)
jogo contágio e incubação de valores sócio-culturais
jogo secreção da actividade psicomotora
jogo "loisir" recriação como meio de libertação das preocupações e cansaço
jogo"momento de cultura"onde a criança se encontra com todas as possibilidades de expressão
         corporal, estética, coreográfica, literária, teatral, desportiva, científica
jogo expressão de uma vitalidade mental e concretização de um dom psicomotor
jogo"écran" onde se projecta o que ocupa, ou que invade o espírito e sensibilidade da criança
jogo recapitulação na ontogénese da filogénese (Stanley Hall)
jogo expressão psicomotora e sociomotora
jogo factor de libertação e formação
jogo realização psicomotora que não tende para nenhuma finalidade senão ela própria
jogo obstáculo à solidão, eclosão extra-espacial
jogo relação com os outros, factor essencial ao desenvolvimento da personalidade
jogo caminho para a conquista da autonomia da criança
jogo "écran"do quotidiano
jogo contributo para a realização de frustrações, de complexos, de insuficiências, de dificuldades de
       aprendizagem, de dificuldades relacionais, de reacções regressivas, de tendências agressivas e
       anti-sociais (Anna Freud)
jogo meio terapêutico no âmbito das perturbações psicomotores como também na esfera de
        prevenção de dificuldades escolares
jogo meio de expressão e libertação de forças não utilizadas (Schiller-Spencer)
jogo exercício de preparação para a vida séria (Gross)
jogo agente de crescimento dos órgãos dado que estimula a acção do sistema nervoso (Carr)
jogo exercício de tendências geralmente não utilizadas (Konrad-Langue)
jogo é tudo isto
        mas não é só isto...

***
Todas as crianças do mundo deviam ter direito a brincar, hoje, dia da criança, e todos os dias, em vez de estarem a lutar pela sobrevivência.

Artigo 31
1. Os Estados Partes reconhecem à criança o direito ao repouso e aos tempos livres, o direito de participar em jogos e actividades recreativas próprias da sua idade e de participar livremente na vida
cultural e artística.
2. Os Estados Partes respeitam e promovem o direito da criança de participar plenamente na vida cultural e artística e encorajam a organização, em seu benefício, de formas adequadas de tempos livres e de actividades recreativas, artísticas e culturais, em condições de igualdade.

(Convenção sobre os Direitos da Criança - Adoptada pela Assembleia Geral nas Nações Unidas, em 20 de Novembro de 1989 e ratificada por Portugal em 21 de Setembro de 1990).



10/08/17

Confiança básica

 ...
"Olha-me. Nunca me irei embora; mesmo quando já cá não estiver, basta-te abrir pernas e braços, pôr o peito para cima e fechar os olhos, dessa vez fecha os olhos, para me veres onde estou: aí dentro. Quando essa cabeça quiser pensar em nada, que serei eu dentro de ti, fecha os olhos. Nós os dois aqui, um ao lado do outro, a boiar no mar calmo de olhos postos no céu imenso.

A extraordinária relação pai-filho que nasce nas pequenas coisas da vida, da aprendizagem do quotidiano, da confiança básica (E. Erikson), do amor profundo entre dois seres. Muito gratificante. 
Obrigado AAA. 
Partilhei no facebook.

09/08/17

Vinho, mulheres e canções


Valsa "vinho, mulheres e canções"
Orquestra Sinfónica da Rádio de Hamburgo - Dir. de Gudolff Rendel

Talvez aqui.
 


O título da valsa de Johan Strauss só por si, e para os dias que vão correndo, é um tratado do politicamente incorrecto, talvez, até um insulto, para os fracturantes de pacotilha.
É muito mais do que versar sobre a vida desregrada, a que Jeroen Dijsselbloem se referia, como o caminho a evitar, é o encantamento da vida - o principio do prazer.
Embora Dijsselbloem seja do norte disse o que se pode aplicar a todos os povos de todas as geografias, como a ele próprio.  O azar dele foi tê-lo feito de forma focada nos europeus do sul quando isso também é coisa dos europeus do norte, como aqui se vê.
Também já não era o tempo próprio para isso. Quer dizer, foi aqui que nos trouxe o retrocesso em que estamos.

Por estes dias de embandeirar em arco, aliás o nosso querido presidente Marcelo já começou a travar (Acabou a lua-de-mel entre Marcelo e Costa) tanta exuberância, principalmente depois das desgraças dos incêndios e de  Tancos, o país que todos procuram pelo sol, pela comida, pela simpatia das pessoas, afinal também tem defeitos. Nada que surpreenda o que refere, no Labirinto da saudade, Eduardo Lourenço: "somos um povo de pobres com mentalidade de ricos". Como as críticas são "de casa", podem dizer o que pensam e o que entendem sobre  a choldra ignóbil, apropriada ao "estado a que chegámos".
Mas não fomos sempre assim ? Podemos voltar ao passado, por altura dos descobrimentos, quando se criticava aqueles que comiam pão-de-ló com sardinha  assada. Mas isso eram outros tempos?

Resta-nos a verdadeira paixão pela música, autêntica evolução no campo da igualdade de direitos. 
Como referia E. Cintra Torres a propósito de "Duetos imprevistos".  "A arte aprende-se. Os compositores, diz-nos Duetos, não são apenas homens do seu tempo: têm as paixões do momento e de sempre. Tal como eles, os dois apresentadores estão sempre à mesa comendo e bebendo (como Bruckner), falando das apaixonadas e do seu papel na música (Liszt, o Strauss das valsas), e procurando também assim recriar o seu amor pela música, religiosa, popular ou o que seja. No écrã, recriam-se pulsões dos compositores: vinho, mulheres e canções (Wein, Weib und Gesang: é o título de uma valsa de Strauss)."

05/05/17

Internet e dependência



A semana passada falámos das implicações dos videojogos no cérebro, falámos sobretudo dos efeitos benéficos. Terminámos a nossa conversa dizendo que os pais deviam controlar essas situações de jogo. Ora sabemos que não é fácil exercer esse controlo quando a Internet e os videojogos estão por todo o lado e o problema, mais genérico, refere-se a todo o mundo virtual.
Não podemos ignorar que videojogos e Internet podem criar dependência e emoções destrutivas, desadaptativas ou desorganizativas da personalidade.
O assunto tem vindo a ganhar relevo e “a indústria dos videojogos tem sido fortemente criticada pelos seus conteúdos mais violentos desde o massacre em Newtown (EUA)" e com a recente controvérsia gerada pelo jogo Baleia azul.
Entre nós, a controvérsia gerada com a comparação que Quintino Aires estabeleceu entre a dependência dos videojogos e a dependência da droga, vai certamente continuar.
Por seu lado Eduardo Sá, considera que “… a adição, como qualquer outra doença relacionada com os videojogos, poderá levar a comportamentos mais violentos e agressivos. Mas “os videojogos não conseguem, no entanto, mudar uma criança saudável a nível psicológico através dos seus conteúdos.” (Programa Falar Global).

Samuel Silva, ("Mais de 70% dos jovens portugueses com sinais de dependência da Internet", Público, 03/11/2014) refere alguns estudos realizados em Portugal. Em 2014, num estudo do ISPA, conduzido por Ivone Patrão, com jovens e adolescentes dos 14 aos 25 anos, envolvendo quase 900 inquiridos, verificou-se que “73.3% dos jovens portugueses mostra sinais de dependência do mundo digital; mostra também que 13% dos casos são graves, que se manifestam através dos comportamentos mais extremos ( isolamento e comportamentos violentos.
Os próprios jovens parecem ter noção disto, uma vez que mais de metade (52,1%) dos inquiridos se percepciona como “dependentes da Internet”.
As características destes jovens são as seguintes:
- grau elevado de importância conferido ao computador ou aos dispositivos móveis;
- sintomas de tolerância face ao uso;
- sintomas de abstinência face ao não uso (como irritabilidade, dores cabeça, agitação e por vezes agressividade) e, em casos mais extremos, recaída face às tentativas sucessivas para parar.
- quase um quarto dos jovens (22,1%) apresenta elevados níveis de isolamento social.
Na primeira fase do estudo tinha-se verificado que os jovens dependentes são sobretudo do sexo masculino, não têm relacionamento amoroso e frequentam o ensino secundário.

Outros estudos recentes (Faculdade de Ciência Sociais da Universidade Nova de Lisboa, Cristina Ponte, que liderou os projectos EU Kids Online e, mais recentemente, Net Children Go Mobile) confirmam os sinais de uma geração cada vez mais dependente da tecnologia;
 6% dos jovens admitem ter ficado “sem comer ou sem dormir por causa da Internet”, por exemplo;
 "Há uma pressão para estarem sempre ligados”.

Marisa Pinto ( "Dependência dos Jovens em Internet e Jogos Electrónicos", 13-9-2012) refere
Kimberly Young que aponta como típicos os seguintes comportamentos nestas pessoas com dependência da Internet:
- Preocupação excessiva com a Internet;
- Necessidade de aumentar o tempo online para ter satisfação
- Exibir esforços repetidos para diminuir o tempo de uso da Internet;
- Presença de irritabilidade e/ou depressão;
- Quando o uso da Internet é restringido, apresenta labilidade emocional (Internet serve como forma de regulação emocional);
- Permanecer mais online que o programado;
- Trabalho e relações sociais em risco pelo uso excessivo;
- Mentir aos outros a respeito da quantidade de horas online.
Refere também que Brown (1993) sugere como características centrais do uso excessivo dos jogos electrónicos:
- O jogo torna-se na coisa mais importante da vida do sujeito;
- Sensação de prazer e alívio quando está a jogar;
- Necessidade de jogar por períodos mais longos de tempo;
- O sujeito sente desconforto quando não pode jogar;
- Existência de conflito com outras pessoas, em actividades sociais e com ele próprio…
- Tendência para voltar a jogar excessivamente após uma interrupção.
A dependência destas tecnologias traz consigo consequências, como por exemplo:
- Má alimentação;
- Desregulamento dos sonos;
- Falta de convívio social;
- Não sair de casa;
- Troca da vida real pela vida “virtual”;
- Baixa auto-estima;
- Falta da prática de desporto.

Por isso, é importante estar atento aos sinais e trabalhar na prevenção.