Quem nunca disse "Não tenho sorte nenhuma" após um dia difícil ou exclamou "Tu nunca ajudas!" numa discussão? Olhamos para estas frases como reacções normais ao stress, mas a psicologia cognitiva diz-nos que são sintomas de um vírus silencioso que com mais ou menos peso todos carregamos: as crenças irracionais (1)
A Terapia Racional Emotiva Comportamental (TREC), desenvolvida pelo psicólogo Albert Ellis ajuda-nos a compreender como estas crenças moldam a nossa vida. O princípio fundamental da TREC refere que não são os acontecimentos da vida que nos perturbam, mas sim a forma como os interpretamos. Ellis organizou esta dinâmica através do Modelo ABC. Imagine que o evento activador (A) é uma negativa num exame. A maioria de nós acredita que a consequência emocional (C), como a raiva ou o desespero, nasce directamente desse azar. No entanto, este modelo demonstra que existe um intermediário crucial: a nossa crença (B). É o filtro mental que aplicamos ao facto que determina se vamos reagir com uma tristeza saudável ou com uma depressão paralisante.
As crenças irracionais são ideias rígidas, absolutas e irreais que distorcem a realidade. Fazem parte da " tirania dos deveres" (Karen Horney) - a tendência neurótica de exigir que o mundo, os outros ou nós próprios sejamos perfeitos. Quando dizemos "Eu devia ter conseguido aquela promoção" ou "As pessoas têm de me aceitar", criamos uma armadilha dogmática. Se a realidade não corresponde ao nosso "deveria", caímos na "catastrofização", transformando um contratempo banal num cenário apocalíptico. (2)
A afirmação "Não tenho sorte nenhuma" é o exemplo desta sabotagem. Sob a perspectiva da TREC, esta frase revela erros lógicos: a generalização, que transforma um evento negativo isolado numa lei universal; o filtro mental, que força o cérebro a focar-se apenas nos azares, ignorando as centenas de vezes em que tudo correu bem; e o “locus” de controlo externo, onde nos demitimos da responsabilidade da nossa vida e nos assumimos como vítimas desamparadas do destino.
A cura para a irracionalidade passa ainda por duas fases do modelo: a Disputa (D) onde confrontamos os nossos pensamentos de forma científica e empírica. Quando a mente ditar um absolutismo, devemos questionar: Que provas reais tenho de que nunca tenho sorte? Pensar assim ajuda-me a resolver o problema ou apenas me paralisa? (3)
O objetivo final da TREC é atingir o Efeito (E) de uma nova filosofia de vida assente na aceitação de que o azar e os imprevistos são apenas probabilidades da experiência humana, não uma conspiração do mundo contra nós e contra tudo o que fazemos. Não podemos controlar o vento e as tempestades, mas controlamos as velas e podemos abrigar-nos melhor. Substituir a rigidez mental por um pensamento flexível — "Isto correu mal e é frustrante, mas eu consigo lidar com isso" — é a única forma de recuperar o nosso controle mental e equilíbrio emocional.
Seria interessante se nas grandes e nas pequenas opções políticas fosse utilizada a metodologia da TREC ajudando a identificar e questionar crenças irracionais que alimentam a polarização, o fanatismo e a angústia gerada pelo debate partidário. Esta abordagem mostraria que não são os acontecimentos políticos que causam raiva ou desespero, mas sim a interpretação rígida que fazemos deles e, portanto, a necessidade de mudar de paradigma.
(1) “O mapa não é o território“ (Xavier Guix, Ni me explico, ni me entiendes - Los laberintos de la comunicación, p. 28-29)
(2) Podemos encontrar na internet listas de crenças para todos os gostos mas o importante é reconhecer que muitas crenças limitam ou fortalecem os nossos comportamentos, causam sofrimento e ou limitam as suas possibilidades. (por exemplo: Katie Sullivan Porter- 55 crenças limitantes que impedem os lideres de alcançar sucesso e realização; As 4 principais crencas que causam sofrimento segundo Albert Ellis; tipos de crenças mais comuns moldam maneira-ser/
(3) Formulário de auto-ajuda TREC