28/08/26

O vírus da irracionalidade


 

Quem nunca disse "Não tenho sorte nenhuma" após um dia difícil ou exclamou "Tu nunca ajudas!" numa discussão? Olhamos para estas frases como reacções normais ao stress, mas a psicologia cognitiva diz-nos que são sintomas de um vírus silencioso que com mais ou menos peso todos carregamos: as crenças irracionais (1)

A Terapia Racional Emotiva Comportamental (TREC), desenvolvida pelo psicólogo Albert Ellis ajuda-nos a compreender como estas crenças moldam a nossa vida. O princípio fundamental da TREC refere que não são os acontecimentos da vida que nos perturbam, mas sim a forma como os interpretamos. Ellis organizou esta dinâmica através do Modelo ABC. Imagine que o evento activador (A) é uma negativa num exame. A maioria de nós acredita que a consequência emocional (C), como a raiva ou o desespero, nasce directamente desse azar. No entanto, este modelo demonstra que existe um intermediário crucial: a nossa crença (B). É o filtro mental que aplicamos ao facto que determina se vamos reagir com uma tristeza saudável ou com uma depressão paralisante.


As crenças irracionais são ideias rígidas, absolutas e irreais que distorcem a realidade. Fazem parte da tirania dos deveres" (Karen Horney) - a tendência neurótica de exigir que o mundo, os outros ou nós próprios sejamos perfeitos. Quando dizemos "Eu devia ter conseguido aquela promoção" ou "As pessoas têm de me aceitar", criamos uma armadilha dogmática. Se a realidade não corresponde ao nosso "deveria", caímos na "catastrofização", transformando um contratempo banal num cenário apocalíptico. (2)

A afirmação "Não tenho sorte nenhuma" é o exemplo desta sabotagem. Sob a perspectiva da TREC, esta frase revela erros lógicos:  a generalização, que transforma um evento negativo isolado numa lei universal; o filtro mental, que força o cérebro a focar-se apenas nos azares, ignorando as centenas de vezes em que tudo correu bem; e o “locus” de controlo externo, onde nos demitimos da responsabilidade da nossa vida e nos assumimos como vítimas desamparadas do destino.

A cura para a irracionalidade passa ainda por duas fases do modelo: a Disputa (D) onde confrontamos os nossos pensamentos de forma científica e empírica. Quando a mente ditar um absolutismo, devemos questionar: Que provas reais tenho de que nunca tenho sorte? Pensar assim ajuda-me a resolver o problema ou apenas me paralisa? (3)


O objetivo final da TREC é atingir o Efeito (E) de uma nova filosofia de vida assente na aceitação de que o azar e os imprevistos são apenas probabilidades da experiência humana, não uma conspiração do mundo contra nós e contra tudo o que fazemos. Não podemos controlar o vento e as tempestades, mas controlamos as velas e podemos abrigar-nos melhor. Substituir a rigidez mental por um pensamento flexível — "Isto correu mal e é frustrante, mas eu consigo lidar com isso" — é a única forma de recuperar o nosso controle mental e equilíbrio emocional.

 

Seria interessante se nas grandes e nas pequenas opções políticas fosse utilizada a  metodologia da TREC ajudando a identificar e questionar crenças irracionais que alimentam a polarização, o fanatismo e a angústia gerada pelo debate partidário. Esta abordagem mostraria que não são os acontecimentos políticos que causam raiva ou desespero, mas sim a interpretação rígida que fazemos deles e, portanto, a necessidade de mudar de paradigma.

 

 

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 (1) “O mapa não é o território“ (Xavier Guix, Ni me explico, ni me entiendes - Los laberintos de la comunicación, p. 28-29)


(2) Podemos encontrar na internet listas de crenças para todos os gostos mas o importante é reconhecer que muitas crenças limitam ou fortalecem os nossos comportamentos, causam sofrimento e ou limitam as suas possibilidades. (por exemplo: Katie Sullivan Porter- 55 crenças limitantes que impedem os lideres de alcançar sucesso e realização;  As 4 principais crencas que causam sofrimento segundo Albert Ellis; tipos de crenças mais comuns moldam maneira-ser/ 

 

(3) Formulário de auto-ajuda TREC