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21/12/18

Tempo de brincar


António Pinho Vargas - Dinky toys - album "A Luz e a Escuridão" (1996)


A infância, tempo de brincar. Para a criança, brincar é aprender. Não só no Natal mas sempre. Tempo de legos e de playmobil que já foi de meccano e dinky toys. Mudam os brinquedos mas não muda a luz que lhe vemos no olhar.

31/07/18

Brincar, brinquedos e felicidade


Brincar é fundamental para o desenvolvimento da criança nas diversas áreas da personalidade.
Noutra ocasião, dissemos que brincar, jogar, era uma actividade relacional, factor essencial ao desenvolvimento da personalidade.
Também dissemos que "jogo é o caminho para a conquista da autonomia da criança; "jogo é o écran do quotidiano, ou como entendia Anna Freud, jogo é o contributo para a realização de frustrações, de complexos, de insuficiências, de dificuldades de aprendizagem, de dificuldades relacionais, de reacções regressivas, de tendências agressivas e anti-sociais"

Quando era criança, os brinquedos eram escassos, e tinham que ser fabricados por nós próprios, pelos companheiros, pelos pais e havia brinquedos que todos podíamos ter: bola, bilharda, berlinde, pião... O Bonanza marcava pontos na TV e, na escola, jogávamos à bola ou aos cowboys... Os companheiros de jogo eram quase sempre os que viviam na mesma rua ou nas ruas próximas. A TV, a do café, da Casa do Povo ou do salão da paróquia...
Daqui
Quando, um dia me ofereceram um Borgward Isabella, lembro-me de ter ficado muito feliz…

Hoje não há semelhança com a diversidade de brinquedos, comprados, a imensa variedade de bonecos, de colecções, de jogos electrónicos, de DVD ou com as histórias fantásticas das séries da Netflix, embora, à mistura, haja muita treta de pedagogia duvidosa... e podemos não conhecer os companheiros de jogo.
Brincar, nem antigamente é que era bom pela escassez que aguçava o engenho, nem o é actualmente pela abundância em que pode tornar-se menos activo. Tanto num caso como no outro qualquer brinquedo pode estimular a criatividade, o desenvolvimento psicomotor, a imaginação, os sentidos, o pensamento, a inteligência, as emoções.
Na minha infância, brincar deixava-nos felizes, tal como vemos acontecer com as crianças deste tempo, o mesmo sentimento de felicidade.

Mas, na realidade o que fazia e faz mesmo felizes as crianças? Brincar é relação com o outro mas com os pais, em primeiro lugar.
Fico apreensivo quando, num inquérito de 2016, se fica a saber que os pais inventam desculpas para não brincarem com os filhos, devido ao trabalho. O estudo conclui que 74% dos pais portugueses acham difícil dizer aos filhos que não têm tempo para brincar com eles. (1)
Daqui

Noutro estudo, (Katya Delimbeuf, texto, Carlos Esteves, infografia) as respostas parecem apontar para aquilo que, de tão óbvio, se tende a esquecer: é no tempo passado com a família e nos momentos de brincadeira que as crianças encontram a felicidade.
No estudo, mais de metade dos pais (51,89%) acredita que a origem da felicidade dos filhos está no tempo passado com os pais e familiares, e 34,56% no tempo de brincadeira.
"O afecto ocupa um lugar-chave na felicidade dos mais novos: 33% defendem que é quando os filhos se sentem "ouvidos e queridos" que são mais felizes. Na mesma linha, 14% defendem que é fundamental reforçar a autoestima das crianças "elogiando-as e incentivando-as quando fazem algo bem."

Em 2013, um relatório da UNICEF  que servia para medir a felicidade e o bem-estar em 29 países, incluindo Portugal, concluía que as crianças mais felizes eram as holandesas. Porquê? "Primeiro, os bebés holandeses dormem mais horas; as crianças trazem poucos ou nenhuns trabalhos de casa na escola primária; a liberdade é incentivada desde cedo, podendo os miúdos ir sozinhos de bicicleta para a escola, ou brincar na rua sem supervisão; fazem refeições em família regularmente; passam mais tempo com os pais que nos outros países europeus; não têm uma cultura materialista — brincam com objetos em segunda mão; e, numa nota curiosa, comem cereais de chocolate ao pequeno-almoço."(2)
Neste estudo, Portugal encontrava-se a meio da tabela, no 15º lugar entre 29. Mas nem todas as razões das crianças holandesas parecem adequadas às nossas crianças, felizmente, como, p. ex., ir sozinho de bicicleta para a escola...

Enfim, o melhor presente que os pais podem oferecer aos filhos é estarem presentes, como aqui já dissemos, e brincar com eles é igualmente crucial. Como refere Mário Cordeiro "Os pais são, ainda, o brinquedo favorito do bebé" (O grande livro do bebé - O primeiro ano de vida, pg. 302. (3)

Nas férias não pode haver a desculpa do trabalho. Se houver essa tentação, desligue-se (4) do trabalho e brinque com os seus filhos que, pelos vistos, é a melhor maneira de eles serem felizes.
________________
1. O inquérito foi promovido pela marca de sumos TriNa para assinalar o Dia da Família. Foram inquiridos 410 pais de norte a sul do país, com filhos entre os seis e os 12 anos.
2. Estudo de uma marca de brinquedos (Imaginarium), que entrevistou 1131 pais portugueses de crianças dos 0 aos 8 anos.
3. Ver o Cap. 10 sobre "Brincar".
4. O direito a desligar-se. A discussão já chegou ao parlamento mas, enquanto não se decide, decida você.

02/04/18

Brazelton, um ponto de referência

Thomas Berry Brazelton, pediatra norte-americano, faleceu no passado dia 13 de Março de 2018. Brazelton, autor de dezenas de livros sobre o desenvolvimento infantil, professor de pediatria na Harvard Medical School, foi um dos defensores mais influentes da criança com o seu contributo na área do desenvolvimento infantil.
A sua prática pediátrica em Cambridge, Massachusetts, em que ajudou vários milhares de pacientes, foi a base a partir da qual emergiu a sua compreensão do desenvolvimento comportamental e emocional da criança e da necessidade de ajudar os pais a enfrentar as crises de desenvolvimento.
Brazelton foi o criador do modelo Touchpoints (“pontos de referência”) seguido e implementado em Portugal pelo pediatra Gomes-Pedro. Este modelo releva a importância do conhecimento que os pais têm dos seus bebés, das suas competências para educarem os filhos e também a importância do aconselhamento e apoio dado pelos especialistas aos pais. 
Desta forma, este modelo leva a abandonar o “modelo patológico”, para passar a um modelo “relacional”. Por ouro lado, leva a substituir um modelo psicoeducativo de “Educação” Parental, pelo de “Suporte” Parental, em que se promovem as competências das famílias.

Em entrevista a Isabel Stilwell, (“Berry Brazelton - eternamente uma delas”, Notícias Magazine, 4-12-2005), explica assim o que são “pontos de referência”:
“Há momentos na vida de uma criança (e na dos adultos também, mas essa é outra conversa), em que se dão «saltos de desenvolvimento». Etapas que obrigam a criança a uma prévia «desorganização» interior, a um armazenar de energia, para depois terem a capacidade necessária para arriscar o salto e para conseguirem uma nova reorganização. Estes momentos colocam uma pressão extra nos pais e, se não tiverem quem os apoie nesses momentos podem ser experiências dolorosas e assustadoras. Mas se, pelo contrário, forem acompanhadas e entendidas, podem ser maravilhosas oportunidades de crescimento, tanto para os pais como para os filhos. Foi por isso que lhes chamámos touchpoints porque se soubermos colocar o «dedo no ponto certo» podemos interagir com o sistema, com ganhos imensos para a família. Quando digo nós, incluo também os técnicos, porque é importante que quem acompanha os pais, nomeadamente o pediatra, conheça estes momentos e saiba prepará-los em conjunto com a família

Identificamos treze touchpoints nos primeiros anos de vida,* que foram aqueles que estudamos mais intensamente. São momentos ligados a tempos de aprendizagem, como por exemplo os touchpoints do aprender a dormir, da alimentação, etc. Um dos mais importantes é logo após o nascimento, em que a vinculação dos pais com o bebé é fundamental (e vice-versa). É um momento em que o recém-nascido tem de se adaptar, mas os pais também, deixando para trás a imagem do bebé idealizado, para a substituir por aquele bebé concreto, que pertence àquele sexo e não a outro, tem aquele peso, aquele tamanho… e aquele temperamento específico. “ (p.23-24)

Fizemos aqui, várias vezes, referência aos ensinamentos de Brazelton, de grande utilidade para quem interage com crianças como são os técnicos ou os pais, particularmente em alguns aspectos críticos do desenvolvimento, como, por ex., na autonomia e independência, disciplina, birras… (12,  3,  4)
Com Brazelton, a psicologia da infância melhorou a nossa compreensão do que é a criança, o desenvolvimento e comportamento infantil, as crises normais do desenvolvimento. E, por outro lado, houve um reconhecimento da importância das competências parentais na educação dos filhos.
Por isso, podemos perceber melhor o que são crises de aprendizagem da autonomia e da disciplina e não atribuir às crianças com comportamentos difíceis a terminologia de ditadores e ou tiranos, como parece ser moda e aparece de vez em quando na comunicação social.
Apreciei, particularmente, o livro de Brazelton Os primeiros passos dos bebés - Uma declaração de independência, sobre o processo da aprendizagem da independência e autonomia e a regulação de comportamentos de disciplina.
Não tenho a pretensão de aconselhar todos os pais a lerem Brazelton, porque os pais sabem o que devem fazer, mas se sentirem dificuldades na interacção com os seus bebés têm um bom recurso nos conhecimentos que Brazelton nos deixou.
Também não precisamos de ser especialistas em Touchpoints para podermos usar a informação que Brazelton e colaboradores nos transmitiram. Para mim, tiveram particular importância livros como Dar atenção à criança - Para compreender os problemas normais do crescimento; A relação mais precoce – Os pais, os bebés e a interacção precoce; Os primeiros passos dos bebés - Uma declaração de independência; A Criança e a disciplina – O método Brazelton.
Brazelton, criador dos “pontos de referência” é, também ele, um ponto de referência no campo da psicologia do desenvolvimento infantil.
_________________
* Um resumo dos Touchpoints. Neste texto o 13º ponto de referência, refere-se, certamente, aos 3 anos e não 18 meses.


18/05/17

Atavismos culturais de esquerda


No último fim de semana, em especial no dia 13 de Maio, vários acontecimentos, como a visita do papa a Fátima, a vitória de Salvador Sobral no festival da Eurovisão, o tetracampeonato do Benfica, trouxeram à nossa vida colectiva algum colorido emocional e social, vivido genuinamente pelas pessoas em manifestações diversas, mas também aproveitado pelos políticos, principalmente candidatos a próximas eleições.
Embora os públicos destes eventos não sejam os mesmos, ainda que haja sobreposição em algumas situações, como acontece com portistas e sportinguistas que não tiveram um grande dia de felicidade, podemos dizer que a autoestima melhorou.
A coincidência destes sucessos nestas actividades relembram que há determinadas áreas da nossa vida colectiva que alguns insistem em ver como negativas.
Sou do tempo em que para criticar o regime político se cantava: “Paradas e procissões/Fátima, fados e bola/São as estas as distracções/De um povo que pede esmola” .
O jargão dos três “f”, “Fátima, fado e futebol”, tem hoje menos acrimónia e uma valoração diferente (o fado foi considerado património imaterial da humanidade). Já se percebeu que este país é muito mais do que estas “distracções” e também se percebeu, que não são as características nem as capacidade genuínas de um povo responsáveis pela sua sobrevivência com esmolas, ou resgates financeiros, mas a falta de capacidade para se auto-organizar, auto-governar e o desprezo pelos valores morais e espirituais. Basta olhar para o mundo para se perceber o que faz e quem faz a miséria das nações. Por isso, era tempo de nos livramos de atavismos culturais de esquerda e de todos os atavismos.
O importante era que as vitórias fossem uma aprendizagem para relevar o que são características positivas de um povo: a espiritualidade, a música, o desporto...
Talvez tenha sido na área da música que surgiu o mais inesperado: Uma música que resultou da criatividade de Luísa Sobral, arranjos de um músico vindo do jazz, Luís Figueiredo, e de uma interpretação limpa e simples onde o que releva é mesmo a música.
Não basta que haja uma melhoria da autoestima. Na realidade, as consequências desta vitória poderiam ser importantes se houvesse uma aposta na música de forma mais sedimentada, um projecto nacional que tornasse a música obrigatória em todos os anos de escolaridade do ensino básico e uma maior possibilidade de escolha no secundário.
Sabemos que a música tem grande importância no desenvolvimento do ser humano, em especial no desenvolvimento infantil. Temos informações suficientes para não podermos ignorar que:
- estudar música melhora as funções executivas do cérebro, responsáveis por capacidades como memória, controle da atenção, organização e planeamento do futuro. (Pesquisa da Universidadede Vermont, Estados Unidos)
- o contacto com a música, ainda que apenas como ouvinte, tem um grande impacto no desenvolvimento humano e prepara o cérebro para executar diferentes tipos de funções. (Elvira Souza Lima)
Por tudo isto, viva Fátima, viva o futebol, viva o fado e a música! Quando nos libertarmos dos atavimos de direita e de esquerda restará a cultura e todos os sucessos que conseguirmos obter serão vividos com felicidade, como fio condutor da nossa vida.

01/04/17

Hoje apetece-me ouvir: Sergei Rachmaninoff.

Sergei Rachmaninoff - 1/4/1873 - 28/3/1943
Concerto para piano nº 2 
Com Anna Fedorova

Frank Sinatra - All by myself
(Música de Rachmaninoff)

01/03/17

"Outro dia de sol"

"Another day of sun" -  Justin Hurwitz/Benj Pasek and Justin Paul

Um dos musicais de sempre é, sem dúvida, Sound of Music (1965). A tradução por "Música no Coração" parece-me feliz porque é disso mesmo que se trata: a música está sempre no coração.
A lista de musicais é grande e dela fazem parte filmes que também foram importantes enquanto espectador. Reminiscências de Joselito e Marisol ...
“Outro dia de sol” é um dos temas de La La Land, musical de 2016, que já obteve vários prémios. O musical foi notícia pelos prémios e também por ter originado uma excepcional gafe nessa feira das vaidades chamada "noite dos óscares" onde a passadeira vermelha a mostra, a vaidade, em todo o seu esplendor e mostra ainda como a vanglória e a vã glória andam muito aproximadas.
Apesar disso, mais uma vez a música esteve em destaque e isso é relevante porque, sem dúvida, a música acompanha a nossa vida.
Podemos não ter a sorte de José Cid que “nasceu prà música” mas certamente todos temos esse grande privilégio de viajarmos nesta vida acompanhados pela música. Desde as canções de embalar que acalmam e induzem o sono, até às mais estridentes que no-lo tiram.
A música esteve e está em momentos determinantes da nossa vida, na educação, no namoro, nas crises positivas e negativas da vida, nas situações convencionais  e informais. Acompanhou todos esses momentos de fortes emoções.

A música é ainda uma terapia eficaz em muitas ocasiões. Não há dúvida de que a música tem uma influência positiva na saúde em geral.
A importância da música na saúde vem desde sempre. Os filósofos gregos como Platão e Aristóteles referiram-se a ela. Platão dizia que “a música é o grande remédio da alma” e Aristóteles que “as pessoas que sofrem emoções descontroladas, depois de ouvirem melodias que elevam a alma ao êxtase, regressam ao seu estado normal, como se tivessem experimentado um tratamento médico.”
Mas foi nos últimos 50 anos que os cientistas se dedicaram ao estudo sobre os efeitos da música na saúde.
Daniel Levitin refere-se aos "mecanismos neuroquímicos da música com efeitos em quatro áreas da vida humana: temperamento, stresse, imunidade e interacções sociais."
Para Armando Sena, "as alterações decorrentes da música são sobretudo a nível hormonal e de marcadores inflamatórios que se relacionam com o stresse, que alteram o sistema nervoso simpático e parassimpático. Estudos têm demonstrado que a música pode diminuir esses marcadores, já que favorece a resistência ao stresse."
A música reduz o stresse e a ansiedade (Equipa de cirurgia cardiotoráxica do Hospital Universitário de Orebo, na Suécia e outra equipa de investigadores), pode ajudar a prevenir a depressão, tem a capacidade de controlar os batimentos cardíacos e diminui a pressão arterial. (Uma Gupt)
A música pode ainda ajudar a controlar e a reduzir os níveis de dor. (Equipa de investigadores de Almeria, Granada e da Andaluzia  e também de Taiwan)
Tem efeitos benéficos no cérebro: Nos estudos realizados, a música e o canto melhoravam a memória e consequentemente tinham impacto positivo na aprendizagem. (Karen Ludke, Fernanda Ferreira e Katie Overy)
A música ajuda o cérebro a libertar a dopamina, um neurotransmissor estimulante do sistema nervoso, e dessa forma pode prevenir doenças como Parkinson.
Durante o envelhecimento ajuda a manter a saúde física e mental: melhora a disposição, a memória, o sentido de orientação e a coordenação motora geral.
Tem efeitos no sistema imunitário uma vez que a música tem potencial para aumentar a resistência e resposta do sistema imunitário face a diversas doenças. *
Mas o que todos já sabíamos é que mesmo no dia mais nublado, com música, é sempre “outro dia de sol".
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*A segunda parte do texto foi baseada no artigo “A música faz (mesmo ) bem à saúde?”, Lusíadas, nº 6, Inverno, 2016.

22/09/16

Hoje apetece-me ouvir: Sima Bina



Uma canção de embalar de que não é necessário entender rigorosamente nada para se perceber que um bebé se sentirá feliz quando sua mãe ou alguém por ela interage desta forma com ele.
As canções de embalar contribuem para o desenvolvimento das suas capacidades, reforçam a vinculação afectiva e dão a segurança de que o bebé precisa para um sono tranquilo.
Enquanto é proibida de cantar no seu país, Sima Bina continua a cantar por todo o mundo.

19/12/12

Os sentidos do Natal


O Natal é uma época extraordinária para os sentidos. A luz, o madeiro, os doces, as filhós, o tronco de natal, os cânticos, os sabores, os cheiros, as tradições, o calor da lareira, o frio da rua…
É um dos acontecimentos sociais mais importantes do ano porque se junta a nossa família dos afectos. Na ceia de Natal estamos com aqueles que amamos. Mesmo quando ausentes estão presentes com as saudades que deles sentimos
Na festa de Natal a alimentação é, principalmente, hedónica e simbólica. Comer é muito mais do que comer. Isto é, comer é muito mais do que a parte energética. É muito mais o prazer do convívio e dos símbolos presentes.
As escolhas alimentares estão directamente ligadas a regras sociais, culturais e à nossa personalidade.
São experiências passadas, inconscientes, que fizeram parte do nosso desenvolvimento e foram experiências agradáveis ou desagradáveis.
Somos muito determinados nos nossos gostos: gostamos ou não gostamos de determinado alimento. 
E é assim desde a infância. Matty Chiva (“Le gout et l' autre: sensation, émotion et communication dans la prime enfance”, 1980), concluiu que o gosto começa por ser um reflexo gusto-facial (se colocamos um alimento amargo na boca da criança muito pequena ela fará uma careta) e à medida que vamos saboreando vários alimentos o comportamento vai-se transformando em comunicação com o outro tornando-se cada vez mais uma interacção cultural, com a socialização e aprendizagem, que se realiza na mesa familiar.
É uma festa para os sentidos porque a variedade de alimentos, de cores, de sabores, de cheiros diferentes constituem uma oportunidade extradordinária para a criança efectuar e treinar a aprendizagem do paladar, de sabores novos e diferentes. Geralmente o aumento da aceitação de um novo alimento está sujeito a várias apresentações desse alimento. Os pais nem sempre são persistentes para que a criança possa fazer essa aprendizagem.
A alimentação da criança é muitas vezes um processo complicado e é necessário saber que a criança é muito selectiva em relação aos sabores. Porque está a fazer aprendizagens em relação aos seus gostos. É por isso que gostos se discutem e começam a discutir-se desde muito cedo. 
O Natal é uma festa para os sentidos porque é uma festa da relação. É uma festa que se faz com o outro. 
Para construirmos um mundo com sentido, precisamos de um mundo que seja coerente.
Natal continua a ser a festa da família e das recordações. Mesmo na ausência da família. A família real muitas vezes já não existe ou está ausente mas a recordação está bem presente. E pode existir numa recordação encobridora sugerida por um harmonioso quadro familiar de Natal. Como uma memória reparadora da falha, da ausência, do vazio.
A vida faz sentido quando temos afecto, uma identidade, pertencemos a alguém e a algum sítio, vivemos em paz e temos um espaço afectivo seguro. 
Neste Natal, é apenas isto que estão a pedir as nossas crianças.
O Natal é uma festa para os sentidos porque é o retorno à infância e à degustação. É bom não perdermos o sabor dos alimentos simples e diferentes, o olfacto das coisas naturais e o brilho colorido das luzes da infância .

12/12/12

Quebrar barreiras

Daqui: Sensory Software International Ltd


O nosso mundo torna-se compreensível através dos sentidos. É por isso que para haver desenvolvimento temos de ter acesso ao mundo exterior através dos órgãos dos sentidos. Muitas vezes não o conseguimos devido às barreiras que existem entre nós e o mundo. Por causa de nós, por causa do mundo ou dos dois.
Quando as barreiras se tornam permanentes e não podemos efectuar essas experiências na infância o nosso desenvolvimento fica comprometido e dificilmente nos tornamos pessoas completamente integradas.
Ma, além disso, cada um de nós tem uma maneira própria de sentir o mundo. Os gostos, os cheiros, são muito especiais para cada um de nós. Podemos dizer que ouvimos e gostamos de uma sinfonia de Beethoven. Mas mesmo aí há várias sensibilidades nessa maneira de gostar. É que o nosso cérebro tem uma maneira personalizada de sentir .
Ora acontece que estas diferenças personalizadas se passam em todas as aprendizagens.
Quando estabelecemos metas gerais de aprendizagem, para poderem ser atingidas, tem que haver caminhos ou métodos diferentes.
Todos aceitamos que prédios para habitação e equipamentos colectivos não devem ter barreiras arquitectónicas para que todas as pessoas possam ter acesso aos equipamentos sociais.
O mesmo se passa na escola com as aprendizagens. Se formos capazes de eliminar as barreiras curriculares seremos capazes de fazer com que todos os alunos aprendam. E acredito que a maioria delas podem ser eliminadas e os alunos têm a possibilidade de atingir as metas comuns.
Sabemos melhor como o cérebro trabalha e também vivemos, ou começamos a viver, num mundo digital. São dois mundos extraordinários e com muito para explorar .
Os meios digitais dão-nos a possibilidade de aprender e comunicar o que sentimos dado que são extensão ou alternativa dos nossos órgãos dos sentidos.
Por outro lado, "os indivíduos aprendem de maneira tão exclusiva como seu ADN". E por isso, a educação tem que ser personalizada.
As novas tecnologias têm versatilidade e capacidade de transformação, que não existem num quadro, livro ou caderno.
Veja-se o que podemos fazer com um texto digital: a utilização de tags ou marcadores, as redes e os hiperlinks, para todos os tipos de aprendizagem, dicionários, tradutores, dão-nos uma visão do que podemos ter no futuro. ..
Dispomos também de novas tecnologias a de comunicação aumentativa e alternativa, como a comunicação com símbolos e as possibilidades que pode trazer software tipo boardmaker, ou hardware como um ipad, ou todo o tipo de switches que nos dão acesso à comunicação.
Este método designa-se como desenho universal de aprendizagem e destina-se a aumentar o acesso às aprendizagens, eliminando ou pelo menos reduzindo barreiras físicas, cognitivas e organizacionais para a aprendizagem.
Este método não exclui outros como o ensino multissensorial e a pedagogia diferenciada...
O nosso cérebro funciona em rede sendo uma delas o reconhecimento sensorial. As tecnologias de informação e comunicação permitem a eliminação de barreiras nas aprendizagens e possibilitam que a informação chegue ao nosso cérebro.
Se, como sabemos, a legislação obriga a que os edifícios não tenham barreiras arquitectónicas, era bom que nos mentalizássemos de que também podemos quebrar barreiras na educação.

05/12/12

Da experiência de ouvir à aprendizagem de escutar





A educação sensorial é o ponto de partida para que o desenvolvimento atinja os seus objectivos.
Também para Piaget, a experiência é um dos factores de desenvolvimento. Sem ela todo desenvolvimento fica comprometido. Para se chegar à experiência lógico–matemática temos primeiro que desenvolver a experiência física que se processa a partir dos órgãos dos sentidos: a visão, a audição, o paladar, o olfacto e o tacto.
A experiência infantil ligada à natureza é uma experiência fundamental:
O bebé precisa dessa experiência física para ir construindo a sua pele psicológica de modo a que possa incorporar os dados da natureza nas suas estruturas cognitivas e por outro lado, processar igualmente os dados que vêm do seu próprio organismo.
No caso da audição, praticamente todas as tarefas a exigem, com particular relevância na linguagem. A maioria das pessoas nasce com a capacidade de ouvir. No entanto, as pessoas ouvem mas nem sempre escutam. Os dois termos, ouvir e escutar (hearing e listening) não significam a mesma coisa.
Os bebés têm capacidade para ouvir. Nascem com particular sensibilidade para determinados sons, para a música e para ritmo que lhe está associado desde muito cedo.
Mas esta capacidade inata de ouvir tem que ser desenvolvida pela experiência auditiva em todas as situações da vida, no sentido de se tornar capacidade de escuta.
Os alunos “ouvem” de maneiras diferentes e por motivos diferentes ao longo do dia de escola. Eles podem ouvir e escutar: o Director, o DT, professores, os amigos, histórias, regras do jogo, avisos, etc.
Podemos dizer que 45 por cento do dia de um aluno é gasto ouvindo e os alunos adquirem 85 por cento do conhecimento, ouvindo (Associação Internacional de escuta).
O treino da escuta é essencialmente informal, embora algumas pessoas possam treinar a escuta formalmente (segundo a mesma associação apenas 2% da população já recebeu instrução formal de escuta), deve ser feita para melhorar essa capacidade
Escutar é difícil porque envolve outras capacidades como por exemplo a capacidade de atenção, a capacidade para reconhecer os pontos importantes ou insignificantes do discurso, o contexto em que se fala, a linguagem corporal que acompanha, a entoação com que se dizem as frases.
Alguns alunos manifestam dificuldades na capacidade de atenção e por isso devem ser encaminhados para terapia. Usamos com eles programas de treino da atenção e reflexividade.
A escuta é muitas vezes inactiva, estamos presentes quando alguém fala, mas não absorvemos qualquer informação, estamos apenas fisicamente mas não mentalmente.
A comunicação entre as pessoas é difícil e, por isso, as reacções a uma entrevista, geram em cada comentador reacções diferentes, levado ao extremo quando se trata de ajuizar o que foi dito, consoante a cor politica. É normalmente uma escuta selectiva em que se ouve o que se quer ouvir e não o que está sendo dito.
Pelo menos em determinados settings, como entre pais-filhos, professores- alunos, psicólogo-cliente, médico-doente, a escuta na comunicação deve ser a escuta reflexiva que envolve escutar activamente, interpretar o que se diz e observar como está sendo dito e implica escutar o outro profundamente, interessar-se seriamente pelo que ele diz.
Escutar é uma competência poderosa mas é necessário que seja aprendida desde o berço.