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15/03/18

Dores há muitas ... Competências clínicas de comunicação

A comunicação, fundamental para o ser humano, é um dos problemas em qualquer serviço onde haja pessoas que necessariamente têm que comunicar. É ainda mais sensível quando ela se faz  entre o doente e o seu médico ou  psicólogo, ou a equipa que atende o doente por exemplo num serviço de urgência hospitalar, o médico, enfermeiros e outros profissionais dessa equipa.

Na posição de cliente ou doente que tem de recorrer, ultimamente com mais frequência, aos serviços de saúde particulares ou estatais, temos a perspectiva da parte mais fragilizada da interacção, de um dos lados dessa comunicação mas, obviamente, com toda a nossa experiência  e vivência nesse campo.
Com o recurso às tecnologias  é possível melhorar a comunicação entre os vários profissionais, sabendo uns o que outros estão a fazer, procurando com isso reduzir  em tempo oportuno, sofrimento físico e sofrimento psicológico.  
Sem dúvida, tem sido feito um esforço pelos serviços… Mas, p.ex., em visita recente do ministro da saúde à ULS - Hospital Amato Lusitano,  o seu director disse directamente ao sr. ministro que havia falta de 40 profissionais nos serviços do hospital, sendo metade enfermeiros. Obviamente, podemos prever os constrangimentos que esta redução de pessoal tem provocado...
Também, na relação humana, na comunicação com os doentes, há  muito que melhorar. É na relação médico-doente que essa comunicação é fundamental. Também isto quer dizer que apesar do défice de condições materiais para que o acto clínico possa decorrer nas melhores condições, o que salva muitas vezes o funcionamento de um serviço e, mais importante, o doente, é exactamente esse acto clínico, a competência e dedicação dos seus profissionais, para além das condições.  

As competências clínicas de comunicação são fundamentais para quem exerce esta relação e esta relação clínica.
Como dizíamos a semana passada é este doente concreto que pede ajuda  “e não a parte de si suposta perturbada e muito menos a sua doença. Pede ajuda para a defesa e manutenção de tudo aquilo que a doença lhe está  a  ameaçar, a saber:
Integridade física, psicológica e social; Segurança, porventura a mais angustiante das necessidades; Controlo sobre a situação e o stress;  Informação e Decisão que preservem  a autodeterminação; Dignidade; Autonomia sinal primário de saúde. Às vezes, necessidade de Expressão e de Orientação no tempo e no espaço”
A resposta a todas estas necessidades pressupõe Comunicação. E não há necessidade mais básica do ser humano do que Exprimir-se."(p. 6)
Uma dor intensa como numa litíase renal poderá ser atenuada se for explicado ao doente o  que se passa. No meu caso, foi muito mais intensa porque só quando o episódio estava ultrapassado compreendi a origem do meu mal.
A comunicação clínica tem melhorado muito desde essa altura. No entanto,  ainda se deve  e se pode melhorar muito neste aspecto.
Dispomos de imensa informação sobre saúde  e doença,  a todos os níveis, que também ela contribui para as pessoas estarem mais informadas, compreenderem melhor as opções e estilos de vida saudáveis que querem adoptar ou ignorar.
Para além da comunicação social massificada, tanto nos canais abertos como no cabo, ou na internet, hospitais e farmácias têm editado publicações, em papel e em formato digital, que ajudam a esclarecer, prevenir, reduzir a ansiedade ou alertar para as questões de saúde que de alguma forma podem vir a comprometer o nosso bem-estar. É de elogiar esse esforço.  
Toda a informação, no entanto, não dispensa a qualidade da  relação  e comunicação de que aqui falamos e as competências clínicas nela envolvidas.

01/02/18

Educação parental

As famílias, qualquer que seja a sua estrutura, têm dificuldade nas interacções entre os seus diversos elementos, sendo particularmente evidente, a dificuldade que sentem na educação dos filhos.
O problema da educação dos filhos sempre levantou interrogações. As crianças sempre foram mais vítimas dos comportamentos dos adultos e das vicissitudes históricas em que nem sequer eram reconhecidas as necessidades próprias da infância.
A "educação" das crianças passou por vários modos (L. Demause) ao longo do tempo,  desde o modo infanticida,  ao modo abandonante …  até à actualidade, em que o modo é o de ajudar a criança, ou seja, o fim absoluto da humilhação para controlar a criança e ajudar os pais a ajudar a criança a atingir os seus objectivos mais do que socializá-la ao gosto do adulto.

O quadro legal em que vivemos* é muito diferente de outros momentos históricos. Felizmente, hoje, podemos falar dos direitos da criança. As crianças obtiveram direitos à medida que a sociedade também evoluiu no sentido do reconhecimento dos direitos humanos. Porém, o quadro actual dos direitos da criança inscritos na “Declaração dos direitos da criança” e na “Convenção sobre os direitos da criança”, está longe de ser respeitado. Pelo contrário, os abusos estão por todos os lados e atingem muitas famílias, sendo, aliás, dentro das famílias  que verificamos muitos dos abusos em que as crianças são as principais vítimas. O que quer dizer que nem sempre os pais são  a melhor protecção para as crianças nem para decidirem em seu nome.

A visão de que as crianças são uns pequenos ditadores deixa muito por explicar mas pode levar a que muitas pessoas achem que “de pequenino é que se torce o pepino”,  adágio que não deixa de estar certo, excepto quando signifique que é com castigos corporais que se educam as crianças.
Não podemos confundir punições com castigos corporais (maus-tratos físicos)  e humilhação (maus- tratos psicológicos). Não podemos pensar que  um programa de contingências de reforço é o único método  de modificação do comportamento. Ou que é aplicável de forma rápida e simples. Além disso, deve haver sempre referência aos estádios de desenvolvimento da criança.  Ou seja, não generalizar comportamentos registados e seleccionados nos programas televisivos aos comportamentos de algumas crianças como se  correspondessem  a uma tipologia comportamental. Há algumas crianças que têm comportamentos daquele tipo mas na maioria das vezes têm significados diferentes  e elas são as vítimas.

É fácil constatar que os pais de crianças com problemas comportamentais não têm ajudas, não sabem como resolver esses problemas, fazem o que pensam que é melhor para a educação dos filhos, mesmo que isso implique a sua exposição pública num programa de televisão, num reality show. Mas este é outro problema que deve ter resposta da escola, das artes, da saúde, do desporto, dos tempos livres...
Os pais devem esperar dos filhos, em determinadas idades, comportamentos desajustados que, no entanto, fazem parte do desenvolvimento e que não são mais do que crises normais do desenvolvimento. E, vistas bem as coisas, que drama há em ter dificuldades com uma criança às refeições ou ao deitar, comparadas com o mundo dos adultos - conflitos mesquinhos, todo o tipo de violência, corrupção ao mais alto nível... – que é bem mais medonho do que este mundo da infância que está a aprender a regular-se e a ser sociável, a aprender seguir alguns modelos adultos e a recusar, necessariamente, outros.

A Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) elaborou um Parecer  sobre “o Impacto  da Exposição das Crianças e Jovens em Programas com Formato de Reality Show”,  isto é, sobre as consequências negativas a nível da criança e a nível da audiência e do público em geral,  que podem advir da exposição mediática das crianças em virtude da sua participação neste tipo de programas.
A nível da criança, as consequências têm a ver com  a falta de consentimento informado, a violação da privacidade, a exploração de uma imagem negativa da criança, o sofrimento psicológico e a interferência na relação com os outros.
As repercussões negativas na audiência e no público em geral são, por exemplo, a imitação dos comportamentos disruptivos;  a ideia, falsa, de que os problemas apresentados são resolvidos com soluções imediatas, rápidas e simples; a exposição da vida das famílias pode degradar a sua imagem…

Os riscos deste tipo de programas são mais do que suficientes para que não se tenha a veleidade de pensar que supernanny é um programa de informação e ou educação sem contra-indicações. 

____________________________
* Convenção sobre os direitos da criança (Adoptada pela Assembleia Geral nas Nações Unidas em 20 de Novembro de 1989 e ratificada por Portugal em 21 de Setembro de 1990; Lei 147/99, de 1 de Setembro (Lei de protecção de crianças e jovens em perigo)

13/12/17

"Fora do lugar"

Pelo sonho é que vamos, escrevia Sebastião da Gama. Quando olhamos para o mundo rural e para a desertificação humana que o caracteriza vale a pena continuar a sonhar. Há indícios de que a mudança se vai fazendo à medida que se pretende ter qualidade de vida, um estilo de vida que passa pelo mundo rural no que tem de mais identitário e original e pelo mundo urbano no que tem de excelência na criatividade e modernidade.
Uma grande permeabilidade entre o meio urbano e o mundo rural atenua diferenças e é uma inevitabilidade a globalização da informação e comunicação: o vizinho mais próxima encontra-se no teclado de um computador, temos a actualidade a ser debitada a todo o momento na internet, acedemos aos serviços em segundos e com frequência estamos fisicamente num mundo ou no outro. É um inconveniente mas também uma vantagem em relação ao passado.
Um dos factores que contrariam esta ideia é a tendência para seguir modas. Ao fazerem isso, as pessoas que estoicamente continuam a querer viver em espaços mais descentralizados como os espaços rurais, correm o risco de perderem a sua identidade.

O problema, então, é quando todos vão realizando projectos semelhantes e as mesmas actividades. Foram as rotundas, as piscinas, os polidesportivos, os parques infantis, as universidades da 3ª idade ... agora temos as feiras medievais, as festas das TVs, os festivais de verão...
Quando afinal o que distingue é a identidade inscrita no património construído e na cultura, nas tradições populares, na música, no artesanato, na relações de vizinhança e entreajuda.

A estratégia da câmara municipal de Idanha-a-Nova foi a aposta na música, fazendo parte da rede de cidades criativas da UNESCO - organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura.
Em Idanha destacou-se a música e a ligação profunda a instrumentos tradicionais como o adufe e a manifestações musicais populares e religiosas.
Neste contexto, decorreu, no concelho de Idanha a 6ª edição do programa - "Fora do Lugar - Festival internacional de músicas antigas". A identidade aberta à música intemporal com intérpretes de todo o mundo.

Tive a oportunidade de estar em dois momentos "fora do lugar":
O primeiro, “conversa mesmo ao pé”, com o professor Jorge Paiva, biólogo e botânico da Universidade de Coimbra, com 84 anos de idade. Falou da biodiversidade de uma forma encantadora e simples. E só quem sabe muito consegue falar de forma simples de assuntos verdadeiramente complexos.
Sem facciosismos, considera que todas os políticos de todas as cores têm responsabilidade naquilo que estão a fazer ao mundo, em que os negócios e a devastação das florestas por causas humanas, e a comunicação social que desenfreadamente noticia durante imenso tempo os incêndios florestais.
Diz-nos que não são só as fábricas apenas que estão a destruir o ambiente. Mais importante é a devastação das florestas e da biodiversidade. Fala da necessidade da biodiversidade e das plantas que podem conter a resposta para muitas doenças da humanidade.
Jorge Paiva tem esperança em dias melhores e por isso manda anualmente as boas festas aos políticos com a fotografia de uma árvore de Natal especial.

O segundo momento foi o "concerto mesmo ao pé"- Musick's Recreation, com Milena Cord-to-Krax, flauta, (Alemanha), Alex Nicholls, violoncelo, (Austrália) e César Queruz, tiorba, (Colômbia), apresentado num local “fora do lugar”, o Centro de Dia de S. Miguel d’Acha, sem dúvida uma ideia óptima que leva música de excelência a quem é capaz de apreciar, a pessoas idosas que merecem o melhor.

Não faz parte do festival “fora do lugar”, mas podia, a exposição de pintura na casa da cultura de S. Miguel d'Acha dedicada ao tema "migração", com obras da colecção de Paulo Lopo: Gracinda Candeias, Júlio Pomar, Mário Cesariny, Lourdes Castro, José de Guimarães, Joaquim Martins Correia, M. Helena Vieira da Silva, Manuel Cargaleiro, Nadir Afonso. Todos têm em comum o facto de terem estado em algum momento das suas vidas noutro país.
Tem ainda em exposição uma obra de Carlos Farinha uma tela, de 2013, justamente intitulada “Migração” que pelas suas dimensões (220X700 cm) ficou exposta na igreja de S. Miguel.
Podemos dizer, parafraseando Sebastião da Gama,  que “pela cultura é que vamos”...
 

10/08/17

Confiança básica

 ...
"Olha-me. Nunca me irei embora; mesmo quando já cá não estiver, basta-te abrir pernas e braços, pôr o peito para cima e fechar os olhos, dessa vez fecha os olhos, para me veres onde estou: aí dentro. Quando essa cabeça quiser pensar em nada, que serei eu dentro de ti, fecha os olhos. Nós os dois aqui, um ao lado do outro, a boiar no mar calmo de olhos postos no céu imenso.

A extraordinária relação pai-filho que nasce nas pequenas coisas da vida, da aprendizagem do quotidiano, da confiança básica (E. Erikson), do amor profundo entre dois seres. Muito gratificante. 
Obrigado AAA. 
Partilhei no facebook.

12/01/17

Da era do vazio à era da pós-verdade


Na tentativa de compreender o que se passa connosco e na sociedade, na família e na escola, no trabalho e no desemprego, no consumo e na informação, os investigadores das ciências sociais têm tentado criar conceitos e teorias sobre estas realidades.

A era do vazio (G. Lipovetsky,1983) trouxe-nos a ideia de vivermos numa época caracterizada pelo individualismo. “O direito de o individuo ser absolutamente ele próprio, de fruir ao máximo a vida é inseparável de uma sociedade que erigiu o indivíduo livre em valor principal e não passa de uma última manifestação da ideologia individualista; mas foi a transformação dos estilos de vida associados à revolução do consumo que permitiu este desenvolvimento dos direitos e desejos do individuo, esta mutação na ordem dos valores individualistas".(pág. 9)

A modernidade líquida (Zygmunt Bauman) é “a época actual em que vivemos... É uma época de liquidez, de fluidez, de volatilidade, de incerteza e insegurança. É nesta época que toda a fixidez e todos os referenciais morais da época anterior, denominada pelo autor como modernidade sólida, são retiradas de palco para dar espaço à lógica do agora, do consumo, do gozo e da artificialidade...  em que os referenciais que possibilitavam o desenraizamento e reenraizamento do velho no novo são liquefeitos e, assim, perdidos." Quando já não há tais referenciais, "a vida passa a ser entendida como projecto individual". Referências como "a classe, a religião, a família, a nacionalidade, a ideologia política, são transformadas por uma crescente tendência ao consumo, à transformação das relações sociais em mercadoria, portanto, da própria identidade em mercadoria. Isso pode ser visto principalmente no “processo de desregulamentação política, social e econômica que se manifesta na expansão livre dos mercados mundiais, no desengajamento coletivo e esvaziamento do espaço público”. *

A internet (era digital) é o veículo privilegiado da circulação da informação a nível mundial. Mas também o é para esse processo de desregulação. A utilização anónima por toda a espécie de criminosos e vigaristas: do terrorismo à pedofilia, da violência doméstica ao bullying digitais e às falsas informações de governos.  “…É assim a Internet: o maior espaço sem lei do Mundo.”

O conceito de pós-verdade** foi alimentado “ pela ascensão das redes sociais como fonte de informação e a crescente desconfiança face aos factos apresentados pelo poder estabelecido". ***
A pós-verdade “parte de um processo inédito provocado essencialmente pela avalanche de informações gerada pelas novas tecnologias de informação." Então “os especialistas em informação enviesada ou distorcida (spin doctors), aproveitaram-se das incertezas e inseguranças provocadas pela quebra dos paradigmas dicotómicos para criar a pós-verdade, ou seja, uma pseudo-verdade apoiada em indícios e convicções, já que os factos tornaram-se demasiado complexos”. 
A pós-verdade, ou seja a mentira, terá sempre a perna curta mas, enquanto circula, faz os seus estragos.
O que “vemos, ouvimos e lemos” já não é bem aquilo que “vemos, ouvimos e lemos”. Por isso, cada um de nós deve usar a liberdade por ser responsável e para discernir quando podemos estar a ser enganados... e "não podemos ignorar".

Bom ano de 2017.
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V. Siqueira, Zygmunt Bauman, a biografia de uma lenda viva; Modernidade Líquida, O Que É? T. O. Fragoso, Modernidade líquida e liberdade consumidora: o pensamento crítico de Zygmunt Bauman
** Depois de a revista “The Economist” a ter utilizado na sua capa de 10 de setembro, e de o “Oxford Dictionary” a considerar palavra do ano de 2016, ‘pós-verdade’ entrou na moda para caracterizar os tempos atuais. Porém, a expressão é antiga. Em 1992, foi utilizada por Steve Tesich, um dramaturgo, num ensaio e, em 2004, Ralph Keyes, um cientista político, escreveu um livro intitulado “A Era da Pós-Verdade”. Se Tesich referia o Watergate, Keyes apontava a segunda guerra do Iraque, motivada pela existência de armas de destruição maciça que nunca existiram. (Henrique Monteiro, Expresso)
*** Já temos palavra do ano: 'Pós-verdade'A era da pós-verdade...

09/11/16

Humanização e empatia *


A semana passada descrevemos alguns estudos psicológicos sobre  comportamentos anti-sociais e cruéis.
Não podemos deixar de referir os trabalhos de Hanna e António Damásio sobre este assunto.

Nos casos de adolescentes  estudados por Hanna  Damásio  em que houve lesões cerebrais na infância, “ao contrário do que acontece com os doentes em que a lesão aparece na idade adulta, estes doentes  têm frequentemente, problemas com as autoridades, são presos por roubos e por outros casos de delinquência. O perfil neuropsicológico é basicamente idêntico ao dos doentes em que a lesão começa na idade adulta (os testes psicológicos são normais) mas  as emoções são anormais"... A diferença aparece nos testes que medem o comportamento social, (juízo moral ), "o que se passa com os indivíduos que tiveram uma lesão durante a infância nunca ultrapassa o nível pré-convencional (compreendem apenas a punição e obediência, interesses, nível de crianças com menos de 9 anos) e são portanto claramente anormais."(p.28)
Para Hanna Damásio “uma lesão cerebral, colocada em certos sectores, leva em adultos até então normais, à ruptura do comportamento social normal. Essas mesmas lesões, mas adquiridas na infância, impedem o desenvolvimento de comportamentos sociais normais, nunca existem. Tanto nos adultos, como nas crianças, o problema parece dever-se a um defeito de processos emocionais.” (p.28)
Por exemplo, “…os sistemas podem funcionar mal devido a defeitos de desenvolvimento… de causa genética, ou serem devidos a um ambiente afectivo deficitário. O ambiente afectivo deficitário, pode tomar várias formas, desde o abandono da criança, à violência física ou cultural, e a deficiências nutritivas.”(p 28)
Para António Damásio, as emoções são vistas num quadro complexo de regulação da vida, com muitos níveis, que começa com a regulação de  nível metabólico com reflexos básicos e respostas imunitárias . A vida , de um modo geral, é regulada primeiro por formas inteiramente automáticas mas que são de facto transmitidas pelo genoma e depois por formas que podem ser deliberadas.
Outros níveis são:  Comportamentos de dor e prazer,  Pulsões e motivações,  Emoções.
No topo das emoções estão as emoções sociais.
"Para além das emoções básicas tais como o medo ou a zanga, a tristeza ou alegria existem emoções sociais p. ex. a simpatia e a compaixão", Damásio fala de “estimulo emocionalmente competente” (EEC)  para desencadear essas emoções.  "No caso da simpatia e compaixão o EEC é  o sofrimento do outro individuo. O sentimento que se lhe segue  é o que tem como consequência o conforto e o re-equilíbrio do outro ou do grupo. (p. 34)
Para António Damásio aquilo que chamamos comportamento ético e aquilo que  é, de facto, o foco do debate de hoje, em relação ao Bem e ao Mal, é não só o resultado da riqueza que o genoma nos dá mas sim, também, o resultado da enorme capacidade  de termos sentimentos em relação às emoções.” (p. 36)
“É esta descoberta (que é a de que  de que outro individuo pode também sofrer)  que nos leva à verdadeira empatia aquilo que nos leva a pensar não só no nosso sofrimento e na nossa própria alegria mas também no sofrimento e na alegria do outro e dos outros e, gradualmente, alargar esse reconhecimento não só ao nosso grupo estrito, o próprio e o grupo familiar mas também a um grupo muito mais alargado que no seu ideal, atinge a humanidade inteira.” (p. 37)

Então os dados da investigação chamam a atenção para a forma como encaramos alguns comportamentos anti-sociais e cruéis mas também para a melhor forma de compreendermos as nossas emoções e expressarmos sentimentos resultantes. Ou seja sobre a melhor forma de nos comportarmos e educarmos as crianças.
____________________
* O Suplemento Especial do Boletim OA (Ordem dos Advogados), nº 29, é dedicado à conferência  "O cérebro entre o bem e o mal" (28-10-2003). Dos artigos destaco as comunicações de Hanna Damásio: “O cérebro e as alterações do comportamento social” e António Damásio: “A neurobiologia da Ética: sob o signo de Espinosa”.

04/11/16

Humanização e empatia *


Deolinda - "Sem noção" ("Dois selos e um carimbo") 
Música e letra - Pedro Silva Martins; Voz - Ana Bacalhau

"Tu não tens a noção de mim
e perdeste a noção de ti"

Podemos dizer que temos duas maneiras de explicar os comportamentos humanos, e o mesmo acontece para a crueldade  humana: uma que se baseia na biologia e outra que relaciona esses comportamentos com a situação em que a pessoa esteve e está envolvida.
Então, se o comportamento for determinado por factores biológicos ou sociais, as pessoas cruéis  não são responsáveis pelos seus actos?
Têm sido feitos estudos e experiências psicológicas que podem ajudar nessa resposta compreensiva.
É bem conhecida a experiência de Stanley Milgram (1963)1, feita com voluntários. Na situação experimental, um voluntário desempenha o papel de professor que ensinava  determinadas respostas e outro voluntário o papel de  estudante (na verdade um ator disfarçado) que as devia aprender. O professor devia punir os erros com pequenos choques eléctricos, que deveriam aumentar a cada erro. Os resultados mostraram que  65% das pessoas chegaram a aplicar o nível máximo de choque, mesmo ouvindo as dores do aluno/actor.
Jerry Burger (2008) replicou o estudo e obteve  os mesmos resultados. 
Philip Zimbardo (1971)2 simulou as condições de uma prisão com voluntários (sem nenhum indicativo de empatia baixa) dividindo-os aleatoriamente entre guardas e presos. Os guardas eram livres para fazer o que fosse necessário para manter a ordem. O estudo, programado para durar 2 semanas, terminou depois de 6 dias, com prisioneiros com depressão e descontrole emocional após serem vítimas do sadismo dos guardas... 
Podia concluir-se que cada um de nós (e não apenas os que têm problema de empatia baixa) pode ser levado a cometer atrocidades. O ambiente pode levar as pessoas a serem cruéis.  "Não é então  uma questão de ser bom ou mau,  a situação é que exerce a maior influência nos casos de crueldade”,
Simon Baron-Cohen 3 fez a revisão de mais de 300 estudos sobre o assunto (Science of Evil). O que está por trás de um acto de crueldade é um mau funcionamento das partes do cérebro ligadas à empatia **.
As pessoas, então, cometeram actos cruéis não porque escolheram, mas porque têm empatia baixa, que pode ser resultado da biologia da pessoa ou da sua experiência de vida quando era criança, factores pelos quais ela não pode ser responsabilizada.
Isto é,  fazer o mal pode não ser uma questão de livre-arbítrio. As pessoas cometeram actos de crueldade não porque escolheram, mas porque apresentaram uma deficiência no cérebro”.
Bhismadev Chakrabarti descobriu que há genes relacionados com a empatia e achou uma área cerebral, o giro frontal inferior, sempre mais ativa em pessoas com alto Quociente Emocional.   Para ele, "o nível de empatia,  não é determinado no momento do nascimento. Há uma interação de fatores sociais com causas genéticas que ainda estão a ser  investigadas”. Mas pelo facto de ter estas característica biológicas e genéticas  "não significa automaticamente que a pessoa será empática.” 
Susan Fiske (desde 2006) 4 realizou estudos com  scanners cerebrais e mostra como o ambiente modifica a forma como as pessoas percebem as outras. “As pessoas naturalmente inibem a violência contra outros que categorizam como seres humanos. Então, é preciso que a outra pessoa seja ‘desumanizada’ dentro da cabeça para que isso ocorra”, explica Fiske.
"Quando os voluntários viram fotografias de indivíduos de baixo status social, como mendigos, viciados em drogas ou até imigrantes, ativaram padrões cerebrais relacionados à visão de objetos e não com aqueles padrões ativados quando vemos seres humanos. Ou seja, nesse caso, a empatia não funcionaria para prevenir uma agressão."
"... isso explica o que acontece dentro da cabeça de pessoas que agridem mendigos ou que se deixam levar por um preconceito estimulado pelo Estado para praticar torturas e genocídios. Os discursos e a opinião do grupo dominante podem ser influências importantes nesse caso."

Pode concluir-se que não se retira a culpa dos praticantes de atrocidades mas apenas se mostra que não é uma simples questão de ser mau.
E voltamos ao princípio:  “Os atos de crueldade são muito complexos. Há fatores biológicos, ambientais, genéticos, sociais e políticos. A nova teoria em meu livro sugere que um mau funcionamento das partes do cérebro ligadas à empatia, por razões biológicas ou sociais, é o que está por trás de um ato de crueldade." (B-C)
Portanto, o homem terá que aprender a ser humano. Não exclui a responsabilidade dos seus actos mas aprender é coisa de educação, de ajuda e de terapia.
___________________________________
* Nota: Este texto é baseado em "De onde vem o mal?", de Tiago Mali e Guilherme Rosa, Galileu.
**Empatia (Carl Rogers) significa a capacidade psicológica para sentir o que sentiria uma outra pessoa caso estivesse na mesma situação vivenciada por ela. Consiste em tentar compreender sentimentos e emoções, procurando experimentar de forma objetiva e racional o que sente outro indivíduo.
1 Experiência de Stanley Milgram - "The Milgram Experiment, Saul McLeod (2007)
2 Experiência de Ph Zimbardo - "Stanford Prison Experiment", Saul McLeod (2008, actualizado em 2016)
3 Conferência de Simon Baron-Cohen sobre empatia.
4 From Dehumanization and Objectification, to Rehumanization: Neuroimaging Studies on the Building Blocks of Empathy