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26/06/25

Olá, solidão!





À medida que vou envelhecendo tenho mais necessidade de estar acompanhado, compreendo melhor a necessidade de estar com os outros e fico ansioso quando sinto que estou só, mesmo que isso signifique apenas isolamento social e não solidão não desejada.
De facto, estar rodeado de gente não resolve os sentimentos de solidão. Como o contrário, viver sozinho não é sempre sinónimo de sentir solidão. 
Refiro-me à solidão que faz mal à saúde.

Segundo V. Murthy, referido por Isabel Sánchez, a solidão “alastra como uma epidemia”, uma "epidemia oculta”, como foi referido no Reino Unido que criou o Ministério da solidão. (1)
Isabel Sánchez em A Cultura do Cuidado refere que “A solidão é um problema de saúde pública. E não é por acaso que foi integrada pelos governos de alguns países nas respectivas agendas de trabalho (2); a solidão está na origem e é um agente promotor das grandes epidemias do mundo atual, desde o alcoolismo e a dependência de drogas até à violência, à depressão e à ansiedade”.
“Mas a solidão não afeta apenas a saúde; afeta igualmente, o comportamento das crianças na escola, o nosso rendimento no trabalho, bem como o sentimento de divisão e polarização que domina sociedade.” (p. 134)
“... O que está presente no fundo da nossa solidão é o desejo inato de nos relacionarmos com os outros, porque o ser humano é uma criatura social...” (p.135)

Sabemos bem a importância da relação social para o desenvolvimento da criança; conhecemos as experiências de carência de contacto, carência de afeto e vinculação em que certas crianças ficaram e quanto isso perturbou o seu desenvolvimento.
Sabemos da importância que a necessidade do outro tem no grupo de adolescentes; enquanto adultos a importância do outro no trabalho ou, quando na velhice, precisamos de alguém que nos ajude em tarefas essenciais das actividades da vida diária que nós já não somos capazes de fazer.

A solidão “é um dos males do nosso tempo, uma pandemia do presente, que provoca mais mortos que a poluição ambiental, a obesidade e o alcoolismo... o isolamento afeta a qualidade do sono e faz aumentar os sintomas depressivos e os níveis matinais de cortisol que é a hormona do stress”... (Facundo Manes, referido por I. Sánchez, p.135)

Também em Portugal vivemos esta realidade. Um estudo com mais de 1200 pessoas entre os 50 e os 101 anos, concluiu que: 
- as mulheres (20,4%) sofrem mais de solidão do que os homens (7,3%).
- as pessoas com menor escolaridade apresentam mais solidão (25,8%).
- o sentimento de solidão aumenta com a idade: 9,9% dos 50-64 anos; 26,8% com 85 anos ou mais.
- é mais frequente nas pessoas viúvas (30,6%) e nas pessoas solteiras (15,8%) do que em pessoas casadas (9,2%).

As férias que estão a chegar são uma excelente oportunidade para novos contactos sociais ou para renovar contactos sociais que, eventualmente, estavam perdidos, desde logo dentro da nossa família, com os nossos filhos ou com amigos que não víamos há muito tempo. É um tempo em que podemos refazer relações sociais que nos devolvam a alegria de viver. 


Desejo a todos umas boas férias.



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(1) Marta Rebelo, "Precisamos de um Ministério da Solidão?" Visão, 10.03.2021 ;  "Há países que já têm um Ministério da Solidão. E Portugal?" Agência Lusa , CM.

(2) No nosso país foi aprovado o Plano Nacional de envelhecimento activo (Resolução do Conselho de Ministros nº 14/2024, de 12-1 )




Rádio Castelo Branco






20/06/25

“Mal-estar na civilização”


Ouvimos dizer que o mundo está polarizado. Mais do que isso: o mundo está em guerra e assistimos a atrocidades inimagináveis.
Este século começou mal, com um ataque violento aos Estados Unidos em que foram derrubadas as torres gémeas com cerca de 3000 pessoas mortas (2.977, além dos 19 sequestradores dos aviões). O 11 de Setembro é considerado o ataque com o maior número de mortos da história. Além disso, foi uma tragédia que mudou, em vários aspectos, os rumos do mundo.
Depois veio a pandemia cujos resultados, como estamos agora a constatar, não deixaram tudo bem, antes pelo contrário.
Vivemos, pelas paredes-meias da comunicação social, com a guerra da Ucrânia-Rússia, Israel-Gaza-Irão.

Vivemos “o mesmo mal-estar de que Freud nos falava no início do século XX, no texto O mal-estar na civilização, “em que apresenta uma visão pessimista da relação entre o eu e o outro. É uma visão decorrente de uma leitura que centra a reflexão em torno do conceito de narcisismo; ou seja, tomando como ponto de partida os apelos e desejos narcísicos do eu, o outro aparecerá como um obstáculo. (1) 

O ambiente está, de facto, polarizado e irrespirável. A saúde mental foi afectada de forma particularmente sensível.
Claro que as pessoas são afectadas de forma diferente. Há pessoas que são mais afectados do que outras. Ou seja, em que as vulnerabilidades pessoais são mais relevantes do que as potencialidades.

Deste desequilíbrio surge, então, a doença mental.
"Se definirmos a doença mental como uma perda de controle sobre a mente poucos de nós podem garantir estar livres de algum tipo de mal-estar."
“Quando ficamos doentes perdemos o controle sobre os nossos melhores pensamentos e sentimentos. Uma mente que não está bem não consegue aplicar um filtro à informação que chega à consciência; já não consegue ordenar e sequenciar o seu conteúdo. E a partir daqui, sucede-se uma panóplia de cenários dolorosos:
- A nossa consciência é continuamente invadida por ideias despropositadas, como vozes inclementes que ecoam sem parar...
- Somos incapazes de nos reconciliarmos com quem somos.Todas as coisas más que alguma vez dissemos ou fizemos reverberam e ferem nossa auto-estima...
- Não conseguimos moderar a nossa tristeza. Não conseguimos ultrapassar a ideia de que não fomos realmente amados, que fizemos da nossa vida adulta uma bagunça que desapontamos todas as pessoas que alguma vez tenham tido um pingo de esperança em nós...
- Todos os compartimentos da nossa mente estão escancarados. Os pensamentos mais estranhos, mais extremos, correm descontrolados pela nossa consciência. Começamos a temer que possamos gritar obscenidades em público...
- Nos casos mais graves perdemos o poder para distinguir a realidade exterior do nosso mundo interior...
- Á noite... ficamos indefesos perante as nossas piores preocupações... (2)

Mas a vida é assim. A verdadeira saúde mental, diz-nos Alain de Botton, envolve uma aceitação honesta de que, mesmo nas vidas mais competentes e significativas, haverá sempre algum grau de sofrimento e dificuldades...


Até para a semana.


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(2) Alain de Botton, Uma viagem terapêutica, D. Quixote, p. 16-19.




Rádio Castelo Branco




30/01/25

Pais heróis


Da capa de A criança e a família, de Françoise Dolto, Pergaminho
 

Nos tempos actuais decidir ter filhos (1) é também escolher um percurso de vida difícil. Mas o que é interessante nessa escolha é que mesmo sabendo que esse caminho tem momentos difíceis, há gente que arrisca ser pai e ser mãe. 

Estes pais sabem como vão ser os seus dias, todos os dias. Mesmo sem livro de instruções, muitos pais sabem que o desenvolvimento passa por fases mais calmas ou mais agitadas mas sempre complexas.

Não há dias de trabalho  e dias de descanso, que os filhos não querem saber se é uma coisa ou outra. Também não há fins de semana com escapadinhas românticas mas  carregados de actividades desportivas e artísticas...

Todos os dias começam muito cedo e por isso é necessário acordar muito cedo e obrigam a impressionante azáfama de toda a família para cumprir todas as tarefas matinais.

 

As tarefas para hoje começaram ontem ou até na semana passada.  Ontem à noite já foi preciso dar o banho, fazer os TPC, quando há, e há muitas vezes, preparar a mochila com os materiais necessários . 

De manhã, fazer a higiene, pequeno almoço, preparar o lanche, verificar a pasta, vestir ,"correr" para apanhar o autocarro, ou esperar pela carrinha do colégio,  esperar... sempre esperar...  

Um beijo e um adeus  e de imediato começam as preocupações: será que vai tudo correr bem na escola ?

À tarde, depois do trabalho, o dia ainda está para durar. Explicações, actividades: futebol, natação, música, ...

Quando chegam ao fim do dia, o corpo já só pede um pouco de descanso mas sabem que o não vão ter, pelo contrário, pode começar aí a parte mais difícil do dia: a noite...

 

Depois de nascer um filho, nada fica igual. O planeamento da vida e da vida profissional é feito em função dos filhos, da escola e ou do colégio que frequentam, os horários são feitos a partir do horário escolar, as férias são marcadas em função das férias escolares, tudo tem que  se fazer em função do calendário e horário escolar.   

Com um filho, já é difícil, Com mais filhos mais difícil se torna. A dificuldade é sempre crescente porque vão ter turmas diferentes e por vezes escolas diferentes.

Pede-se aos pais toda a disponibilidade, todo o tempo, compreensão, calma e  bom senso... 

 

O actual ME tem vindo a manifestar preocupação em harmonizar a vida das famílias com a vida escolar. Nesse sentido foi definido um calendário escolar plurianual até  2027-28. (2)

Também permite que os estabelecimentos de ensino funcionem por semestres (3) em vez dos tradicionais períodos ou trimestres. E já há escolas a funcionar neste regime.

É de saudar qualquer medida para tentar melhorar a vida das famílias. 

No entanto, quando os pais têm filhos nos dois regimes, por trimestres e por semestres,  pode resultar uma dificuldade acrescida  na gestão da vida familiar...

Em meu entender, no caso do calendário escolar, a generalização e  uniformização do funcionamento por semestres,  tornava mais fácil a vida dos pais.

 

 

Até para a semana.

 


Rádio Castelo Branco



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(1) A Fundação F. Manuel dos Santos que tem vindo a analisar a natalidade em Portugal refere alguns dados preocupantes:

- “Em seis décadas, o número de nascimentos em Portugal caiu para menos de metade. 

- No início dos anos de sessenta, havia mais de 200 mil nascimentos por ano no país. Atualmente, esse número é inferior a 86 mil...

- Em 1982, o número médio de filhos por mulher caiu abaixo de 2,1, considerado o limite da substituição de gerações. Na década seguinte, em 1994, esse indicador ficou, pela primeira vez, abaixo de 1,5 filhos por mulher, valor que é considerado crítico para a sustentabilidade de qualquer população, inviabilizando uma recuperação das gerações no futuro se tal nível se mantiver durante um longo período.

- mães e pais têm filhos cada vez mais tarde. as mulheres têm, em média, o primeiro filho aos 31 anos”

 

As motivações para não ter filhos devem-se a:

- Os custos financeiros associados às crianças são a causa mais importante, apontada por cerca de 67% das pessoas. 

- a dificuldade em conseguir um emprego. Esta causa é mais relevante para os homens (59%) do que para as mulheres (48%).

- não querer ter a responsabilidade de ter filhos e o facto de sobrar menos tempo para outras coisas importantes na vida. 

- dificuldade de conciliar a vida familiar com a vida profissional (mais referida no caso de pessoas que já têm filhos, e por isso já experienciaram essas dificuldades, e não pretendem ter mais) e aos problemas e complicações associados à educação das crianças.
- No caso específico de quem já é pai ou mãe, o facto de considerarem ter já o número de filhos que pretendem, aparece como o segundo motivo referido para não se alargar a família, logo após os custos financeiros. É isso mesmo que respondem três quartos dos inquiridos.

(2)  Despacho 8368/2024, de 6 de Julho, do  MECI Fernando Alexandre. 

(3) Uma medida que, há várias décadas, já era proposta pelo Prof. Manuel Viegas de Abreu. 




30/06/24

Construir



Manuel Cargaleiro (Mata dos Loureiros – Castelo Branco)

“Quando um artista encontra o seu caminho, é a grande felicidade” - Cargaleiro (Entrevista à RTP)

1927-2024

23/06/24

“Acredito porque é absurdo”

Tudo não passaria de uma questão fútil e sem sentido, que não me levaria a escrever uma linha sobre o assunto, não fosse o quererem envolver as pessoas numa aceitação tácita de todos os disparates que querem promover. “O que é que isso te incomoda? Cada um faz o que quer, cada um é como quer"; "A ideologia de género é de tal modo absurda que não vale a pena gastar um segundo a falar do assunto"... É verdade que essa é a atitude de muita gente tolerante e tudo isso pode estar bem assim... 

O problema é quando fazem propaganda nas escolas impondo, de forma obrigatória, esta ideologia, contra os direitos das crianças e contra a vontade dos pais. De facto, há milhares de assinaturas de pais de alunos que não querem ver aprovada esta legislação. Falam de “Abuso e perigo”: pais não querem alunos a escolher nome, género e WC.

Como já vimos, a ideologia de género usa uma linguagem de frases feitas e é feita de irracionalidade. Por isso, interessa-lhes retirar a família, os pais, muitos professores, do assunto, e levar a “mensagem” à escola. Chegar à escola é o objectivo de qualquer propaganda. E as escolas têm vindo a ser inundadas de propaganda quer interesse ou não aos alunos, ou seja, semear o seu pensamento absurdo nas mentes infantis, ainda não suficientemente desenvolvidas, ainda sem capacidade crítica para contestarem essas falsidades.

Mas se é o próprio que deve saber e decidir quem é, não precisa da ajuda dos pais ou dos professores para isso, porque será que precisa destes “formadores” e de sessões de esclarecimento nas escolas? É que, como toda a gente sabe, assim asseguram que não há outras interferências dos pais ou dos professores, e até podem denunciar quem se oponha... Sabem bem que o caminho é envolver-se cada vez mais nos meandros da burocracia do estado, levando a incluir nos currículos esta matéria sem sentido. No meio da igualdade de género, lá vem a ideologia de género. Ora a primeira é para defender e a segunda para contestar.

António Damásio veio reiterar, em “O erro de Descartes”, que nós somos uma unidade corpo-mente e que um não existe sem a outra.
Pois não senhor, agora temos que aceitar que afinal o corpo pode ser separado da mente. Sendo homem, pode-se ser mulher, se se quiser, e vice-versa. Para quem nega a biologia, é interessante ter que aceitar a biologia para o conseguir, através dos bloqueadores da puberdade e de tratamentos hormonais.

Felizmente, cada dia que passa temos mais provas sobre um dos maiores absurdos do nosso tempo: a ideologia de género. Como refere J.-F. Braunstein (A Religião Woke), estes fanáticos não acreditam apesar de ser absurdo, acreditam porque é absurdo. (p. 21) E quem defende posições contrárias à ideologia de género está sujeito a ser censurado, desprestigiado, prejudicado...*

Quero, finalmente, dizer que este assunto devia ser assumido por todos os partidos. E todos os partidos deviam lutar pelos direitos das crianças, inclusive que as deixem viver em paz a sua infância. 
E, se fosse assim, nunca a legislação que foi aprovada no Parlamento, poderia ter lugar numa democracia, livre e racional.

Desejo umas boas férias a todos os pais que me ouvem. E, juntamente com os filhos, aproveitem viver este tempo de maior presença afectiva, depois de um ano de intenso trabalho.
Boas férias!


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* Alguma literatura que tem vindo a ser publicada. Embora não haja tradução em português, pode-se conhecer do que tratam através das sinopses, vídeos, artigos, que estão disponíveis na internet :
- Dora Moutot e Marguerite Stern, Transmania - Enquête sur les dérives de l' idéologie transgenre, (2024); 
- Abigail Shrier, Irreversible Damage - Teenage Girls and the Transgender Craze, (2021);
- Miriam Grossman, Lost in Trans Nation - A Child psiquiatrist's Guide Out of the Madness, (2023);
- Miriam Grossman, You are teaching my Child What? - A Phisician expose the Lies About Sex Education and How They Harm Your Child, (2009);
- Caroline Eliacheff e Celine Masson, La Fabrique de L' Enfant transgenre - Comment protégé les miners d'un scandal sanitaire, (2022);
- Maria Keffler, Detrans, & Detox - Getting Your Child Out of the Gender Cult, (2021)
- Mary Margaret Olohan, True Stories of Escaping the Gender Ideology Cult, (2024)




Rádio Castelo Branco



09/02/24

Educação – o maior tesouro


Pais e educadores, às vezes, sentimo-nos perdidos com tanta informação sobre a educação das crianças e sobre a melhor educação tendo em vista o seu futuro.
Choque do Futuro, um livro de Alvin Toffler, já com mais de 50 anos alertava para o desconforto que poderíamos sentir em virtude da evolução tecnológica e social que estava a acontecer e que se acentuava cada vez mais e também dos desafios daí resultantes que se verificavam em todos os campos da actividade humana. 
Na verdade, nem tudo o que se diz "progresso" é positivo, e, na verdade nem tudo é possível ser previsto havendo sempre a possibilidade de aparecerem cisnes negros na nossa vida. (N. Nicholas Taleb)
Alvin Toffler alertava: “O analfabeto do século XXI não será aquele que não consegue ler e escrever, mas aquele que não consegue aprender, desaprender e reaprender.” (1)
No meio de tanta informação, a tarefa de educar na sala de aula e na escola parece que não evoluiu assim tanto. 

O processo de aprendizagem nalguns casos continua baseado na coerção, no medo, na obrigação fazendo com que formemos jovens que possuem desconfiança e desprazer com o ato de estudar. E aqui e ali surgem alguns (maus) exemplos...

Jacques Delors, recentemente falecido (27-12-2023), foi Presidente da Comissão Europeia entre 1985 e 1995.
Quero recordá-lo aqui, pelo mérito de ter presidido à Comissão que produziu o relatório sob a forma de livro: Educação - Um tesouro a descobrir. (2)
O título do Relatório é uma referência à fábula de Esopo (ou La Fontaine): O Lavrador e seus filhos, que nos mostra que o trabalho de preparar o terreno, semear e plantar é o verdadeiro tesouro que mais tarde vamos descobrir.
A educação para Jacques Delors baseia-se em em quatro pilares: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser (Capítulo 4).
• Aprender a conhecer, combinando cultura geral, ampla, com a possibilidade de estudar, em profundidade, alguns assuntos.
• Aprender a fazer, adquirir uma qualificação profissional, sendo apto a enfrentar numerosas situações e a trabalhar em equipe. 
• Aprender a conviver, desenvolvendo a compreensão do outro e a percep­ção das interdependências – projetos comuns, gerir conflitos – no respeito pelos valores do pluralismo, da compreensão mútua e da paz.
• Aprender a ser, para desenvolver, o melhor possível, a personalidade e estar em condições de agir com uma capacidade cada vez maior de auto­nomia, discernimento e responsabilidade pessoal. Com essa finalidade,a educação deve levar em consideração todas as potencialidades de cada indivíduo: memória, raciocínio, sentido estético, capacidades físicas, aptidão para comunicar­.

O conceito de educação ao longo da vida é a chave que abre as portas do século XXI (Capítulo 5);  ele elimina a distinção tradicional entre educação formal inicial e educação permanente. Além disso, converge em direção a outro conceito, proposto com frequência: o da “sociedade educativa” ("The Learning Society") na qual tudo pode ser uma oportunidade para aprender e desenvolver os talentos. (3)
Nesta perspectiva, a educação permanente é concebida como atualização, reciclagem e conversão, além da promoção profissional, dos adultos.  
Deve  abrir as possibilidades da educação a todos, com vários objetivos: oferecer uma segunda ou terceira oportunidade; dar resposta à sede de conhe­cimento, de beleza ou de superação de si mesmo; ou, ainda, aprimorar e ampliar as formações estritamente associadas às exigências da vida profissional, incluindo as formações práticas.

Em suma, para Jacques Delors, a educação ao longo da vida, é aprender a aprender, é tirar proveito de todas as oportunidades oferecidas por essa “sociedade educativa”.


Até para a semana


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(1)  A frase é de Herbert Gerjuoy. Reflexão para ler e criticar sobre o que é aprender, desaprender e reaprender
(2) A Conferência Geral da UNESCO, em novembro de 1991, convidou o Diretor Geral “a convocar uma Comissão Internacional para refletir sobre a educação e a aprendizagem no século XXI”. Assim, Federico Mayor solicitou a Jacques Delors para assumir a presidência dessa Comissão, que reuniu outras 14 personalidades de todas as regiões do mundo, oriundas de diversos horizontes culturais e profissionais. A Comissão Internacional sobre a Educação para o Século XXI foi criada oficialmente no início de 1993.
(3) "A formação ao longo da vida, como categoria enquadradora de uma nova forma de conceber as relações entre a educação, a escola e a sociedade, (sublinhado meu) se, por um lado, radica em necessidades pragmáticas das sociedades a que urge responder mais adequadamente, por outro implica a reconceptualização do papel da instituição escolar e, consequentemente, o reexame das grandes metas de educação escolar no mundo atual."  Maria do Céu Roldão, "A educação básica numa perspetiva de formação ao longo da vida",  Inovação - Educação e Formação ao longo da vida, Vol. 9, nº 3, 1996, p. 211.






Rádio Castelo Branco



01/02/24

De Watson à Assembleia da República


1. Na sequência da lei n.º 38/2018, de 7 de Agosto, sobre o "Direito à autodeterminação da identidade de género e expressão de género e à proteção das características sexuais de cada pessoa", foi aprovado (1) pela Assembleia da República, o decreto que estabelece medidas a adotar pelas escolas para garantir esse direito.
Segundo esta lei, as escolas devem definir “canais de comunicação e deteção”, identificando um responsável ou responsáveis “a quem pode ser comunicada a situação de crianças e jovens que manifestem uma identidade ou expressão de género que não corresponde ao sexo atribuído à nascença”.
Após ter conhecimento desta situação... a escola deve promover a avaliação da situação, reunir toda a informação relevante para assegurar o apoio e acompanhamento e identificar necessidades organizativas e formas possíveis de atuação, a fim de garantir o bem-estar e o desenvolvimento saudável da criança ou jovem”.  Como a garantia do acesso às casas de banho e balneários...

Podemos questionar: Sexo atribuído à nascença? Definir canais de comunicação e deteção? Identificar um responsável? Garantir tendo presente a sua vontade expressa? 
De que jovens se trata? Em que idades? Qual o papel dos pais/encarregados de educação?
Por quê nas escolas? Por que não em todas as instituições da sociedade?

2. O texto desta lei é uma barbaridade. Mas tudo está dentro da lógica vinda de John Watson e de John Money. (Jean-François Braunstein, A Religião woke, cap. II - Uma religião contra a realidade - A teoria de género, p.71-106, Guerra e Paz),
Sabemos o que pensava Watson da modificação do comportamento quando em 1927, proclamou a sua famosa frase: “Dêem-me um bebé e eu farei dele o que quiser, um ladrão ou um juíz, um pistoleiro ou um médico…”
Esta conhecida afirmação resulta da teoria behaviorista, segundo a qual o meio em que ocorre a aprendizagem é fulcral para o desenvolvimento. Neste sentido, todo o bebé que seja estimulado a fim de ser algo, sê-lo-á, independentemente da sua carga genética. 
É, por isso, que este decreto ser de aplicação apenas na escola, portanto, a crianças pequenas, não deixa de ser perverso... (2)

3. Mas, ainda assim, também sabemos que as pessoas não são ratos e que pensam... 
Foi o que fez o Sr. Presidente da República,  Marcelo Rebelo de Sousa. Vetou o decreto que estabelecia estas medidas a aplicar pelas escolas
Segundo disse: "A aplicação nas escolas das medidas preconizadas no diploma tem necessariamente de ser ajustada às várias situações e, em particular, à idade de crianças e adolescentes"...  " o decreto peca por uma quase total ausência dos pais e encarregados de educação na implementação das medidas previstas."

4. As escolas, juntamente com os pais, sabem lidar com as diferenças, desde há muito tempo... e não precisam destas leis vindas da AR, ou do Ministério da Educação, nem de supostos formadores que as vão ensinar, educar e formatar no sentido que pretendem... que é a desconstrução da estrutura social existente, sujeitando a maioria dos alunos a normas absurdas e que não fazem sentido para ninguém nem para as minorias nem para as maiorias que, pelos vistos, também têm direitos. 

Até para a semana.


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(1) O texto final foi apresentado por PS, BE e PAN, foi aprovado por estas forças políticas juntamente com o Livre, e contou com votos contra do PSD, Chega e IL e a abstenção do PCP.
(2) Sobre a fatídica experiência de John Money ver, por ex., o que tem dito e escrito Miriam Grossman.



Rádio Castelo Branco





12/10/23

Para um pouco de paz...



Voltamos a fazer a pergunta: "Porquê a guerra?", que qualquer ser humano poderá fazer perante a tragédia das guerras que estamos a viver, mesmo de longe, e que nos vão deixando mais frágeis na nossa saúde psicológica e bem-estar.

Segundo a Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP)*: A guerra afecta-nos a todos directa ou indirectamente. O horror da violência, do desrespeito pela dignidade e pelos direitos humanos, tem um impacto destruidor em muitas vidas e comunidades, gera sofrimento nas pessoas e nas famílias...
Todos reagimos de forma diferente a estes acontecimentos perturbadores e cada um de nós tem capacidades e formas diferentes de lidar com emoções e sentimentos desagradáveis. 
Algumas pessoas conseguirão mais rapidamente sentir maior controlo das suas emoções, outras demorarão mais tempo. Algumas pessoas conseguirão fazê-lo sozinhas, outras precisarão de ajuda. 

Ambas as reacções são respostas comuns à situação de crise que vivemos:
- É natural que nos sintamos “em choque”, que tenhamos uma sensação de “descrença” face ao que está a acontecer. Podemos ficar apáticos e “emocionalmente entorpecidos” com esta situação. 
- É natural que nos sintamos preocupados, ansiosos, stressados, assustados, angustiados, tristes, com medo. E também irritados, zangados, impotentes. Também podemos sentir dificuldade em concentrarmo-nos, em tomar decisões ou em dormir. 
- É natural que tenhamos receios e dúvidas acerca do futuro (Quanto tempo vai durar a Guerra? O que vai acontecer? Que consequências terá?). 

Apesar destas reacções e dificuldades que podemos sentir, 
- Também podemos adaptar-nos, podemos contribuir com aquilo que está ao nosso alcance: 
- Podemos aceitar as nossas emoções e sentimentos. É totalmente natural sentirmos muitas emoções e sentimentos diferentes. É perfeitamente razoável chorar, se sentirmos vontade de o fazer 
- Podemos utilizar estratégias de gestão da ansiedade e do stresse. 
- Limitar a nossa exposição a notícias. Não passar o dia a ver e ouvir as notícias e os telejornais...
- Consultar fontes credíveis de informação e combater a desinformação. Demasiada informação não é sinónimo de informação útil ou até, por vezes, factual e verdadeira. É importante consultar apenas fontes de informação credíveis e actualizadas e não ler apenas títulos ou rodapés...
- Evitar estereótipos. Ser ofensivo ou emitir juízos de valor sobre pessoas, comunidades são uma forma de aumentar a violência e favorecer a discriminação e a exclusão social. 
- Evitar pensamentos “catastróficos”. É preferível viver no presente, um dia de cada vez. Procurarmos ser flexíveis e criativos, adaptando-nos, às mudanças e desafios que esta situação de incerteza nos coloca. 
- Falar com familiares e amigos e reforçar as nossas relações. 
- Continuar a desenvolver a nossa vida como habitualmente.
- Desenvolver a nossa resiliência. 
- Manter as rotinas.
- Realizar actividades de lazer. 
- Investir no autocuidado. 
- Alimentar a esperança. 
- Apoiar e contribuir para ajudar quem está a sofrer mais com esta situação.
- Procurar ajuda médica ou psicológica, se necessário.

E, finalmente, podemos ter algum cuidado com as crianças explicando o que está a acontecer de forma que entendam a desgraça da guerra mas sem criar situações de ansiedade.


Até para a semana, com muita paz.

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Rádio Castelo Branco





20/09/23

Erros que os professores não cometem com os seus filhos


Deixem-me fazer uma breve nota sobre a minha participação neste programa de “Opinão” da Rádio Castelo Branco (RACAB). Em 2007, iniciei esta rubrica de colaboração. Há, portanto, 16 anos. Vamos continuar a falar de psicologia, de pedagogia ou simplesmente de assuntos do quotidiano vistos numa perspectiva psicológica ou educativa ...

No mês de Setembro é o regresso à escola. É nesta altura que muitas questões se colocam sobre os papéis da família, dos professores e dos alunos e sobre o relacionamento entre família e escola. 
“Os pais e os professores lutam pelo mesmo sonho: tornar seus filhos e alunos felizes, saudáveis e sábios. Mas jamais estiveram tão perdidos na árdua tarefa de educar.” (Augusto Cury, Pais brilhantes, Professores fascinantes)
O pais e os professores... Provavelmente, porque também se preocupam cada vez mais com a educação dos filhos e alunos e também porque a colaboração entre a escola e a família se afigura cada vez mais como uma necessidade para melhorar os resultados do desenvolvimento e aprendizagens dos alunos. *

Foram perguntar a alguns professores que também têm filhos alunos que erros não cometeriam com os próprios filhos depois de terem trabalhado como professores.** Se em casa de ferreiro espeto de pau, como diz o ditado, será que podemos ver a sua opinião como uma referência para melhorar esse relacionamento? Estou em crer que sim.

1. A superprotecção e desresponsabilização da criança
Não ser um pai ou uma mãe helicóptero pairando sobre os filhos à espera de intervir sempre que sentirem necessidade. “É claro que, quando as crianças são pequenas, precisam de mais envolvimento dos pais, mas o objetivo é que os pais – e os professores – atribuam cada vez mais responsabilidades aos alunos à medida que vão crescendo”.

2. Opor-se sistematicamente ao professor
Trata-se aqui de um problema de modelagem. Podemos ter uma opinião desfavorável de um professor ou até estarmos zangados com um professor, mas o seu filho nunca deveria saber exatamente como a mãe ou o pai se sente nem envolver o filho na questão. 
Se desrespeitar um professor, é provável que seu filho o imite. 
Infelizmente sabemos como este comportamento é frequente nas nossas escolas.

3. Não se envolver e não apoiar os filhos
Ao contrário do que fazem os pais helicóptero, é importante responsabilizar as crianças, fazê-las ganhar autonomia e confiar nos professores. No entanto, continua a ser essencial o forte apoio dos pais, ou seja, não perder o interesse, não relaxar, se surgirem dificuldades nas aprendizagens tentar entender como fazê-las melhorar.

4. Fazer promessas vazias e falsas
Conhecemos a alegria e o entusiasmo de alguns dos alunos ao falar sobre um evento especial prometido por seus pais mas também sabemos da decepção quando não cumprem as promessas. Este comportamento repetido leva à desconfiança dos pais e ao descrédito nas suas promessas.

5. Outro erro é os filhos não acompanharem a família quando os pais têm alguns dias de férias, a menos que de todo seja impossível. Estes dias de faltas à escola são recuperáveis... e a experiência e o tempo com a família são muito mais importantes.

Até para a semana. 


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E é ainda por isso que não faz sentido continuar a haver quem ache que a família educa e a escola ensina. Como tenho escrito, há muitas áreas do currículo em que deve haver colaboração, ou seja, em que há aspectos específicos da responsabilidade dos pais ou dos professores mas também aspectos comuns: o que se pode fazer em casa é completar o que faz a escola e, noutros casos, a escola complementa o que se faz na família.


 
 
Rádio Castelo Branco


 

08/06/23

O pequeno milagre do final do ano lectivo



Mais um ano lectivo está a chegar ao fim. É hora de balanço. E o balanço deste ano não é muito bonito.
Com um contexto internacional de crise acentuada em relação aquilo que pensávamos adquirido, após a pandemia que obrigou a fechar escolas e os alunos a ficarem em casa com aulas online, não se esperava que fosse um ano tranquilo. Além disso, o sistema educativo, neste contexto desestruturado, é ainda vítima das questões internas que se arrastam há anos e de que não há maneira de serem ultrapassadas através de uma negociação franca, justa e competente. (1)

Foi um ano de mudanças de ministro para pior. Da nulidade à esperteza, há sempre agendas ocultas mais desestabilizadoras.
Ano de greves de professores, de reivindicações, de que não se vê acordo. Pode haver reformas que sejam consensuais, mas se não o são, devem igualmente ser feitas. E há compromissos que devem ser respeitados.
Nesta aspecto, os sindicatos de professores também têm a sua responsabilidade pelo que se está a passar. As greves, dizem, prejudicam sempre alguém. Pois se assim for, é preciso serem bem avaliadas e os sindicatos não podem ser indiferentes às consequências dessas greves: a segurança dos alunos, as refeições dos alunos, as condições dos pais que não podem deixar de ir trabalhar para ficarem com os filhos em casa... 
E faltava ainda, no final deste ano, as provas aferidas digitais, um fiasco enorme para algo que não serve para nada, as avaliações em dias feriados e as greves aos exames...

O tempo de serviço dos professores - 6 anos, 6 meses e 23 dias - não pode ser sonegado. Pode não haver financiamento sustentável mas, por isso mesmo, não pode deixar de ser negociável. A carreira docente tem que ser revista, os concursos têm que ser alterados. É insustentável continuar nesta espiral desconstrucionista (2) que parece ser aquilo que pretendem uns e outros.

No meio deste vendaval deseducativo, um pequeno milagre acontece todos os anos, por esta altura, com cada criança que entrou este ano na escola. Foi graças a cada criança, a cada família, a cada professor que cada uma delas transformou a sua vida de forma definitiva e que vai marcá-la para sempre – aprendeu a ler escrever e contar.
Este pequeno milagre deve-se em grande parte à escola. Por isso, era bom que a escola percebesse, definitivamente, que está a lidar com transformações fundamentais na vida das pessoas e, por isso, são da máxima responsabilidade quaisquer decisões que se tomem em relação a este processo ou que tenha implicações neste processo.
É importante ultrapassar a querela da culpabilização da escola e dos responsáveis do seu disfuncionamento. É, talvez, importante um "pacto educativo para o futuro" (3) mas, desta vez, com os pés no chão. Porque a escola é fundamental na nossa vida e é natural que haja pais preocupados e insatisfeitos, professores cansados e frustrados, alunos desiludidos... mas é muito mais importante que todos os anos se renove esse pequeno milagre da alfabetização, esse importante papel que a escola tem na formação dos homens. 

Pergunto se já deram os parabéns aos filhos pelas aquisições que fizeram este ano, pelas transformações adaptativas, tão difíceis, que conseguiram na sua vida. Eles foram o melhor desta história toda, adaptando-se, com afinco, a esta nova forma de ser responsável na sociedade a que pertencem 
O final do ano lectivo é, por isso, um tempo de ser grato àqueles que fizeram esta transformação.


Até para a semana.

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(1) Reformar e investir em educação.

(2) Refiro-me a uma sociedade  cada vez mais influenciada pela necessidade de negação das tradições e pela desconstrução dos valores morais e religiosos que o suposto progressismo e verdismo leva a efeito na sociedade a começar pelas escolas sendo que por isso interessa a falência da escola como factor de transmissão da cultura que consideram ultrapassada e não "inclusiva"...

(2) Talvez começar por concretizar o que está previsto para a educação na "Visão Estratégica para o Plano de Recuperação Económica de Portugal, 2020-2030, de A. Costa Silva, pags. 80-81, em especial o "Programa de rejuvenescimento do corpo docente e de formação de professores".


Rádio Castelo Branco



05/05/23

Ramiro Marques (1955-2023)

 


"Quando os valores da escola coincidem com os valores das famílias, quando não há rupturas culturais, a aprendizagem ocorre com mais facilidade."

"Podemos considerar quatro tipos de obstáculos (à criação de bons programas de envolvimento dos pais): a tradição de separação entre escola e as famílias, a tradição de culpar os pais pelas dificuldades dos filhos, as condições demográficas e os constrangimentos estruturais." Ramiro Marques 

Continua a ser necessária a mudança em relação a estas circunstâncias das escolas, sem a qual - esta mudança - nada de novo a acontecerá.



Página de Ramiro Marques

A escola cultural


29/09/22

A primeira vez: a entrada na escola (2)



  

A entrada na escola bem sucedida depende essencialmente de dois factores: os pais e os professores. Comecei por falar do impacto que a entrada dos filhos na escola tem para as famílias. Não se pode deixar de reconhecer o outro lado fundamental deste processo inicial: os professores.
Obviamente, as diversas estruturas da escola e o sistema educativo têm impacto na vivência desta crise de forma adaptativa ou não.

A escola é um mundo real onde convivem pessoas concretas, adultos e crianças, professores e alunos, cada uma com a sua visão, diferente da escola real, cada uma com a sua escola imaginária. A nossa escola ideal é, também, um processo inconsciente, faz parte dos desejos e das expectativas, das esperanças e dos sonhos dos pais, das crianças e dos professores.
Umas vezes a escola responde de forma adaptativa a este processo outras vezes nem por isso (1) e esbarra com a realidade concreta de cada criança e a realidade concreta de cada professor.
De facto, a escola forma para os valores humanos como é expresso no projecto educativo de qualquer escola ou agrupamento de escolas. Mas também pode ser ou é um lugar de aprendizagens outras que não conduzem ao caminho previsto pela sociedade para o processo educativo e ou ser origem de problemas e de stress para a criança e sua família.
O futuro educativo ou simplesmente o futuro de uma criança depende muito da forma como este momento crítico é assumido pelos professores. 

Da minha experiência no Serviço de Psicologia e Orientação (SPO), em inúmeras reuniões com professores ou de Conselho de Turma, concluí que a turma (1º ciclo) e o conselho de turma constitui o core de todo o sistema educativo e, portanto, o papel exercido pelos professores é decisivo no processo educativo de cada aluno.
É, por isso, que a gestão da turma é um trabalho árduo, personalizado, principalmente em momentos críticos como a análise da primeira abordagem dos alunos da turma ou em momentos de avaliação qualitativa (compreensiva).
O trabalho da maioria dos professores é sem dúvida intenso e de grande responsabilidade, exige competência técnica, empenho, motivação, capacidade de liderança, cooperação, inteligência emocional, honestidade (2) ... (Claro que, como em todas as organizações, há professores desmotivados e em burnout).

No início do ano lectivo, a inclusão de cada aluno na escola exige estar atento às diferenças que uma vez identificadas e valorizadas permitam a prática de metodologias e estratégias como a necessidade de educação especial, definição das capacidades e fragilidades, da maturidade e precocidade excepcional. 
Desta forma serão ultrapassadas as dificuldades e adquiridas competências comuns a todos os alunos, ou específicas, desenvolvendo-as até onde for possível quando adaptativas.
Para crianças diferentes poderão ser necessários métodos e estratégias diferentes e aqui ganha relevo a metodologia UDL (Desenho Universal para a Aprendizagem). (3)
Como já aqui escrevi “a educação é o professor. É a mudança que falta fazer."
Volto hoje a dizer: investir nos professores é o melhor seguro para o futuro de uma criança, o mesmo é dizer de um país.


Até para a semana.


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(1) Pennac, Daniel, (2009), Mágoas da Escola, Porto Editora

(2) McCourt, Frank, (2005), O Professor, Ed. Presença

(3) Rose, David e Meyer, Anne, (2002), Teaching Every Student in the Digital Age, Universal Design for Learning, ASCD