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02/04/26

Entre o parque jurássico e a guerra das estrelas



(1)
Uma casa onde habitam crianças não é bem um espelho de desarrumação mas tem momentos em que parece. Nada de especial. Casa onde há crianças é assim. Tudo o que encontram ou conseguem apanhar com potencial para a descoberta, interesse ou nova experiência serve para brincar mesmo que sejam objectos frágeis, valiosos ou perigosos, são mais atractivos do que alguns brinquedos acabados de comprar e, o nosso trabalho é dizer vezes sem conta: "Isso não é brinquedo", "isso é perigoso", "põe no sítio onde estava", "tem cuidado"...
A casa vira Arca de Noé, invadida por todo o tipo de animais, fofinhos ou ferozes, muito rápidos ou muito lentos, bichos medonhos e nojentos, perigosos e assustadores, aranhas, osgas, cobras... Mais ferozes para mim que para eles. 
Há dinossauros por todo o lado misturados com starwars, naves espaciais, transformers, legos, bonequinhos do Kinder surpresa, Minecraft e Creeper, Superthings e Kazoom Blast, Piratix, Stich e Lilo, Sonic... 
Toda esta confusão e desarrumo ou, quem sabe, organização, faz-me sentir entre o parque jurássico e a guerra das estrelas. 

A situação pode ainda complicar-se. Quando são duas ou mais crianças no mesmo estádio de desenvolvimento ou em estádios contíguos, pré-operatório e operações concretas, por ex., podem surgir mais conflitos porque o que um quer o outro também quer, o mais novo a sombra do mais velho, os dois querem sempre ganhar e a brincadeira às vezes termina com choro ou agressão... E nós, sempre temos a desculpa de que são irmãos, não é? Quem tem irmãos sabe que é assim...

Mais difícil ainda quando estão com pais, avós, primos. Em família alargada com autoridade mais diluída a obediência também fica mais fluida: "Tu não mandas em  mim", "tu não és meu pai", "o pai ainda não disse", "oh mãe,  a avó disse...", "deixa-me em paz", "pára, pára"...

Mas, na realidade, o mais difícil é gerir a tralha electrónica: tv e o respectivo comandotelemóvel, tablet ou iPad. Séries infindáveis como Os Mistérios dos bichos, Spidy, Barbapapa, Rubble e companhia... no canal panda, disney junior, nickjr, etc... É deveras difícil mas tem que ser levado em conta para não passarem manhãs e tardes inteiras de passividade motora. Há que esperar o protesto dos mais novos que sempre querem mais e as regras ainda não importam...

Os adultos são responsáveis por gerir a situação relacional e educativa. Um adulto deve conseguir resolver estas crises com segurança, controlo emocional, compreensão de que se fossemos nós teríamos as mesmas atitudes e comportamentos. São de facto crianças muito pequenas para perceberem a necessidade de mudança de actividade  e de passar para as tarefas das rotinas diárias: almoçar, jantar, sair...

Os adultos têm também que perceber quando se trata de desorganização ou de acumulação pura e simples de objectos sem função lúdica. Neste caso o problema é querer sempre mais tralha o que leva à dispersão e à dificuldade em se concentrar ou focar numa determinada actividade dificultando a conclusão de qualquer trabalho.

Por estes longos dias de férias podemos ver como a liberdade de escolher  actividades, brinquedos, brincadeiras, nos revela as muitas capacidades que as crianças têm para interagir, para desenvolver a criatividade, para inventar jogos, actividades, às vezes a partir de qualquer coisa aparentemente insignificante que lhes desperte a atenção.

Sair de casa é sempre uma boa alternativa. Principalmente quando começam a ficar cansados e quezilentos.  

É uma boa estratégia aproveitar a oferta de actividades de ocupação de tempos livres que as comunidades mais atentas através das autarquias locais ou associações de solidariedade social, responsavelmente, oferecem, algumas bem interessantes, criativas e pedagógicas.

E, mesmo sem a inventividade do "task master", pode fazer-se tanta coisa... 

- Podemos passear na quinta e ter a sensação da terra acabada de lavrar. Que bom que é caminhar na terra como se se estivesse na lua! Afinal podemos ir à lua e andar suavemente quase sem sentir o chão debaixo dos pés.

E fazer corridas até ao fim da leira como se fosse uma pista de atletismo. É mais suave do que na praia ... Pouco importa se, no fim, é pó por todo o lado, da cabeça até aos pés.

- Podemos construir uma casa. Não importa se para isso é preciso desfazer as camas, mudar de sítio as almofadas, lençóis...

- À noite podem surgir ideias interessantes como fazer uma representação, um espectáculo de bateria com tachos e panelas, mesmo que o público seja  apenas os dois avós mas é como se estivesse a sala cheia.

- Podemos organizar a "A feira das pipocas" com um stand para venda com os respectivos preços.

- Podemos jogar um jogo de cartas com as regras de conveniência do momento onde há cooperação mas também competição.

- Podemos participar no Atelier "Verão por um fio", organizado pelo Museu Cargaleiro/Câmara Municipal ou praticar natação na piscina dos "Redentoristas".
Uma questão que sempre se coloca diz respeito à protecção ou superprotecção vs "deixem-me arriscar" (2) ou seja, sobre a salutar actividade da criança no seu contexto ecológico.
O que é risco e perigo na educação? Até onde podemos correr riscos numa actividade educativa ou numa situação que configura perigo ? (3)
É preciso compreender que a criança é activa e, para o seu pleno desenvolvimento, necessita de actividade físico-motora regular. Desde cedo é crucial para o desenvolvimento físico, mental, emocional, motor e neurológico da criança. 
Por outro lado, a actividade diminui o risco de doenças como obesidade, diabetes e problemas cardiovasculares. Tem também a vantagem de reduzir a atracção do telemóvel e dos écrans... (3)

Finalmente as férias chegam ao fim. Com o passar dos dias, devagarinho, vêm-nos à memória os momentos agradáveis das férias e começam as saudades dos mais pequenos episódios, das mais pequenas coisas e vem-nos à memória aquele bordão descontraído e irreverente: " 'I believe I can fly', as cuecas do teu pai..."

Moral da história: A actividade, brincar, é fundamental para o desenvolvimento harmonioso das crianças. A prevenção, necessariamente, deve ter em conta os riscos decorrentes dessa actividade. Ou seja, a actividade da criança tem inúmeras vantagens para o seu desenvolvimento mesmo face a alguns riscos calculados que dela possam advir. No caminho para a autonomia tudo envolve algum nível de risco. É por isso que a supervisão do adulto deve ser permanente. Isso também significa que podem ser feitas actividades que envolvem algum risco. Por isso a prevenção é a melhor protecção. (4)

 

 

________________

(1) Ilustrações de M. 9:4,  Atelier "Verão por um fio", Museu Cargaleiro.


(2) Joana Silva, Deixem-me arriscar - Correr, lutar, trepar, cair. - A importância de deixar as crianças correrem riscos saudáveis na brincadeira.


(3) Finalmente, o governo "arriscou" regular a utilização de telemóveis no espaço escolar para o 1º e 2º ciclos (DL n.º 95/2025, de 14 de agosto)Como combater dependência do telemóvel, CUF.


(4) Temos de  ter a consciência de que os acidentes domésticos são a principal causa de morte em crianças e jovens.  Maria Luisa Faleiro "Acidentes domésticos aprenda a preveni-los", CUF;  "A seguranca na água",  APSI.







20/11/25

Os idosos e o futuro

 

No meio da confusão geral em que vai o mundo (1) é necessário continuar a procurar o equilíbrio pessoal e familiar. É difícil, no meio dos vendavais naturais e sociais, continuar a manter esse equilíbrio e com isso podermos ter alguma esperança no futuro. 
Somos confrontados na nossa família com a vida diária em situações de doença ou de velhice. Por isso servir e cuidar dos mais frágeis devem ser os grandes objectivos da família, das instituições sociais, de saúde e policiais...

Para a minha geração o cenário não é agradável. Podemos rever-nos e rever a nossa vida nos mais velhos, com todas as suas fragilidades, e pensar o que significa envelhecer bem... Será que vou ter alguém que cuide de mim ? Não devo preocupar-me com isso? Não quero ir para um lar, ok, mas se for, será que, ao menos, consigo uma vaga num lar? E que humanização vou encontrar ? 

Tudo questões de difícil resposta principalmente quando sabemos que a dependência dos idosos se deve sobretudo à demência.
Sabemos as estatísticas da demência: Há 55 milhões de pessoas com demência no mundo. (Margarida Cordo, "Os mais velhos na família e no mundo", in Identidade e Família, p.166)
Quando na nossa família há idosos em idades avançadas, começamos a aperceber-nos dos sintomas, dos défices, em varias áreas:
A perda de memória é talvez o mais conhecido: Esquecer compromissos, dificuldade em reter memórias recentes ou repetir o mesmo assunto. 
Dificuldades de raciocínio: Problemas com números, com as finanças ou tratar de assuntos com o banco.
Desorientação: Perder-se em locais familiares, não saber onde é o quarto ou a cozinha ou ter dificuldade em entender onde se está.
Dificuldade com tarefas diárias: Esquecer-se de como realizar ações habituais, como cozinhar ou vestir-se ou tomar a medicação...
Começamos a aperceber-nos destas dificuldades, que por vezes já acontecem connosco, e por aí podemos ver o filme da nossa vida num futuro não muito distante.
Não existe cura para a demência, mas é possível combatê-la com uma combinação de tratamento médico, hábitos de vida saudáveis e intervenções comportamentais: manter-se fisicamente activo, procurar estímulos cognitivos, participar nas atividades sociais e manter rotinas diárias. 
É aqui que a família desempenha um papel decisivo. A família tem muitos papéis a desempenhar relativamente aos idosos. Espera-se dela apoio na doença mesmo em fases avançadas e irreversíveis.
É também necessário tomar medidas que possam melhorar a vida quando chegamos a velhos.

Sabemos que 70% dos mais de 200 mil portugueses que carecem de cuidados paliativos continuam sem acesso (I. Galriça Neto, "O apoio à família nas situações de doença crónica e avançada", in Identidade e Família, p. 174) 
Entretanto, há intervenções que merecem ser elogiadas. Em 2025, foram sinalizados pela GNR mais de 43.000 idosos que vivem sozinhos ou em situação de vulnerabilidade. No distrito de Castelo Branco foram detectados 2.316 idosos que vivem sozinhos.
A GNR está a fazer contacto direto com estas pessoas para as alertar para a necessidade de adotarem comportamentos de segurança, minimizando o risco de se tornarem vítimas de crimes. (Lusa, 18-11-2025Que por incrível que possa parecer, existem com alguma frequência.  (APAV)
Era desejável criar Serviços e Equipas de Apoio Social e Comunitário a partir das autarquias (2)  de forma a que todas as pessoas pudessem sentir menos a solidão e, assim, haver futuro para os idosos.


Até para a semana.

___________________________
(1) Como escreve João Távora no "corta-fitas", "tempos de turbulênicia".

Mas seria importante trabalhar em rede envolvendo Serviços do Município, da Segurança Social, da Saúde, da Segurança, etc. para, assim, melhorar o futuro dos idosos ou a vida das pessoas em situação vulnerável.


Rádio Castelo Branco



30/06/24

Construir



Manuel Cargaleiro (Mata dos Loureiros – Castelo Branco)

“Quando um artista encontra o seu caminho, é a grande felicidade” - Cargaleiro (Entrevista à RTP)

1927-2024

07/03/24

Eu queria falar de amor

 

 

"E se, de repente, um desconhecido lhe oferecer flores, isso é...".
Foi na véspera do dia de namorados, passeávamos no "Passeio verde", continuo a chamar-lhe assim, quando um jovem surgindo do nada, atrás de nós, teve esse gesto simpático e inusitado: ofereceu-nos uma rosa. 
- Mas porquê? - Perguntámos.
- Porque amanhã é dia de... ?
- Namorados. - Respondemos.
- Então é por isso...


De facto, o dia de namorados é, entre nós, no dia de S. Valentim, 14 de Fevereiro, e amanhã, 8 de Março,  é o dia da mulher. 
São dias em que devíamos falar de amor, de paixão, de afecto profundo, entre seres humanos que se escolheram para uma experiência de vida em comum, e talvez menos  das nossas emoções negativas.

Mesmo que para cada um de nós namorar signifique coisas diferentes, podemos tentar uma definição consensual sobre apaixonar-se e namorar: namorar significa a relação afetiva mantida entre duas pessoas que se unem pelo desejo de estarem juntas e partilharem novas experiências. (Wikipedia)

Mas, contrariamente ao que seria de esperar, em que namorar serviria para celebrar o amor, acontece que este relacionamento amoroso é marcado, em muitos mais casos do que seria  expectável, pela violência física, sexual e psicológica. 

Segundo dados da PSP, nos últimos cinco anos foram registadas 9.923 denúncias de violência no namoro, das quais 1.363 em 2023, quer de relações de namoro em curso (916), quer de situações de violência entre ex-namorados (447).
As vítimas são “na maioria do sexo feminino e na faixa etária dos 25 aos 45 anos.”
"Injuriar, ameaçar, ofender, agredir, humilhar, perseguir ou devassar a intimidade são formas dessa violência. 
Verificam-se ainda alguns comportamentos, principalmente entre casais mais jovens, que também se traduzem em situações de violência". “Não nos parece muito natural que queiram controlar o parceiro, o que veste, com quem está… violência psicológica e física, mas a psicológica é a mais comum e é transversal a todas as idades.”, diz a PSP.

Sobre a violência doméstica o RASI (Relatório anual de segurança interna), em relação a 2022, indica-nos que houve 30488 participações de violência doméstica

Um aumento de 3968 casos ou seja 15%.

No distrito de Castelo Branco, o aumento foi de 520 para 645 o que significa um aumento de 24%, portanto, superior à média nacional.

Também sabemos que a grande maioria das vítimas são mulheres, 72,4%.

 

É, por isso, importante, nestes dias comemorativos, continuar a denunciar esta violência e, ao mesmo tempo, continuar a apostar nas medidas de prevenção. 

A começar pelo namoro porque é aí que também se tem a oportunidade de compreender mais profundamente a personalidade de  cada um, de forma a saber o que queremos para a nossa vida e começar a compreender que há coisas que não são naturais nem aceitáveis: principalmente tudo o que tem a ver com o controle do parceiro e dos comportamentos do parceiro, o controle do telemóvel, do que se veste, do que se escolhe, dos amigos... mas é uma forma de manipulação comportamental do outro que não significa amor.

 

 

 

Até para a semana.



Rádio Castelo Branco

 

 

 

05/03/23

António Salvado (1936-2023)


SE QUISERES LEMBRAR...

Se quiseres lembrar o que perdido
está        aviva o sangue flutuante
que no entanto ainda jaz nas veias.

Não servirá - tu saberás - de alívio
o perseguir aquelas marcas vãs
porque o que foi       não ganha novo enleio.

Indecisões? Um prémio passageiro?
Um sol brilhante que escondeu enganos?


António Salvado, Repor a luz


07/12/21

Para além da crise e dos especuladores...




... Este ano, as cegonhas chegaram a 26 de Novembro, segundo o amigo José Lagiosa. Porém, aqui, na chaminé em frente, chegaram um pouco mais tarde. A que ocupou este ninho chegou a 7 de Dezembro.

13/09/21

As pessoas que moram dentro dos políticos




Talvez as pessoas que têm partido sejam mais felizes do que eu ou pelo menos tenham o seu processo de decisão mais facilitado porque sabem sempre em quem votam e, como sabemos, votam sempre nos mesmos, aconteça o que acontecer, mude o que mudar no mundo e arredores...
Não tenho essa vantagem, esse conforto, e isso dá-me muito mais trabalho a encontrar a racionalidade do voto, em cada eleição que se apresenta aos cidadãos.
Nas actuais eleições autárquicas, precisava de dispor de pelo menos quatro votos para ficar satisfeito com a minha opção eleitoral em quatro pessoas.

O primeiro voto seria para João Belém a quem devo a minha transferência para o Ministério da Educação para exercer funções de psicólogo no CAE de Castelo Branco e pelos anos em que tive o privilégio de trabalhar na equipa por ele dirigida. E este é um ponto fundamental: a sua capacidade para dirigir equipas de trabalho, o seu humanismo nas relações interpessoais, a capacidade de resolver problemas.

O segundo seria para Leopoldo Rodrigues de quem tenho as melhores recordações do tempo em que na Escola Afonso de Paiva nos empenhámos na educação de todos os alunos em especial daqueles que tinham mais dificuldades de e na aprendizagem. Integrei o conselho de turma de um CEF de que era director de turma, durante vários anos, onde fui docente de Psicologia do desenvolvimento. Foi uma experiência extremamente enriquecedora que me permitiu constatar a sua capacidade de liderança, o seu humanismo, a sua compaixão pelos alunos mais frágeis.

O terceiro voto seria para Rui Amaro Alves que revela capacidade de liderança, capacidade técnica e de planeamento, tem feito as propostas mais inovadoras e de mudança tão necessárias à autarquia após tanto tempo de gestão, e refiro-me a vários mandatos, cheia de vícios, e que por isso necessita de outra forma de ser e estar ao serviço dos cidadãos albicastrenses.

Finalmente, preciso de um quarto voto para resgatar Carlos Semedo à actual gestão autárquica pelo reconhecimento do que tem feito na gestão da área da cultura.

Sinceramente, ainda precisava de mais alguns votos para pessoas que têm mérito e  me agradam como Ernesto Candeias, José Pires, Maria do Carmo Andrade...

Não sendo possível, espero que, após as eleições, os eleitos tenham a grandeza de espírito de, na prática, darem oportunidade ao consenso e continuidade às melhores propostas que se encontram nos programas que estas pessoas propõem ou defendem para Castelo Branco.
Creio que, como eu, todos amam Castelo Branco e, por isso, o esforço tem que ser feito para melhorar a vida dos albicastrenses  e tornar o espaço dos nosso afectos mais agradável para viver.



13/12/20

Terapia da natureza

                   


As terapias que oferecem alívio do sofrimento e prometem a cura da doença são inúmeras.
Porém, muitas delas não obedecem a critérios rigorosos e a métodos científicos para podermos confiar nelas. E, por isso, facilmente nos colocamos numa posição céptica em relação às terapias. Neste caso muitas questões se colocam: Há mesmo uma terapia da natureza? Há provas de que a natureza melhora a nossa saude e cura algumas das nossas doenças? É mais uma panaceia para que alguns espertos ganhem dinheiro ludibriando os crédulos? É mais uma moda porque tudo o que é verde está na moda ?...

Já aqui falámos na terapia de ar livre e da natureza e da hortiterapia e, depois de ter visitado o Parque do Barrocal, e de pensar nas potencialidades terapêuticas que possui, tenho procurado saber mais sobre as terapias da natureza, como em  A natureza cura, de Florence Williams, e shinrin yoku, de Y. Miyazaki, para saber mais sobre as terapias da natureza. 

A ligação da natureza ao ser humano tem uma história tão longa como a da sua existência. Necessitamos de espaços alargados, naturais, onde possamos explorar os nossos sentidos e a nossa paz interior.
"O Homo sapiens tornou-se oficialmente uma espécie urbana por volta de 2008. Foi nesse ano que a OMS informou que pela primeira vez havia mais pessoas em todo o mundo a viverem em áreas urbanas do que em áreas rurais." (F. Williams, p. 22)
Até que ponto esta mudança está a modificar o nosso modo de vida e a nossa biologia ?
A experiência do confinamento devido à pandemia veio pôr em evidênca a necessidade dessa interacção para a nossa personalidade. Na ausência desta interacção com a natureza, aumenta o recurso a medicamentos. São os antidepressivos para os adultos ou os medicamentos para a hiperactividade das crianças...

O controverso biólogo Edward O. Wilson a quem se deve o termo biodiversidade, desenvolveu a ideia de "biofilia" situando-a no mundo natural e identificando "a natural ligação emocional dos seres humanos aos outros organismos vivos" como uma adaptação evolutiva que nos ajudou não só a sobreviver mas também a alargar os limites da realização humana. Apesar de não se terem encontrado quaisquer genes relacionados com a biofilia sabemos que o nosso cérebro responde de modo inato aos estímulos naturais como acontece com o medo. (biofobia ) Como, por exemplo o medo de serpentes... (p. 32) *

Os resultados das experiências de Miyazaki mostram que os benefícios da terapia da floresta se traduz em vários benefícios para a saúde, tais como:  A recuperação do sistema imunitário deficiente, maior relaxamento do corpo, redução do stress ... (Miyazaki, p. 34)

Felizmente, as pessoas têm vindo a tomar consciência da importância da natureza, das árvores, e dos espaços verdes para a sua saúde.
Há protestos e manifestações de cidadãos quando entidades governamentais centrais ou locais decidem cortar árvores, danificar a natureza para construírem equipamentos, como barragens, aeroportos, zonas habitacionais, em zonas sensíveis, cujo impacto ambiental não é levado em conta.

É esta interacção com a natureza que leva todos os verões milhares de pessoas para o litoral para apanharem banhos de sol e banhos de mar. Temos este comportamento porque pensamos que é bom para a nossa saúde, vamos carregar baterias...
Porém, esquecemo-nos de que temos aqui junto de nós, por enquanto, a possibilidade de banhos de natureza tão benéficos para a nossa saúde...

___________________________

 

* "A hipótese da biofilia postula que os elementos pacíficos ou acolhedores da natureza nos ajudaram a recuperar a serenidade de espirito, a clareza cognitiva, a empatia e a esperança. Quando o amor, o riso e a música  não estavam por perto, havia sempre um pôr do Sol. Os seres humanos mais sintonizados com os estímulos da natureza eram aqueles que sobreviviam  e transmitiam estes traços à geração seguinte." (p. 32)

 




https://www.mixcloud.com/RACAB/crónica-de-opinião-de-carlos-teixeira-03-12-2020/









01/12/20

Parque do Barrocal - o fascínio do tempo




Parque do Barrocal



1. Castelo Branco, conta com mais um equipamento social e cultural, aberto ao público em  7/11/2020, o  Parque do Barrocal. 1

As várias paisagens conseguidas dos vários mirantes que foram criados dão-nos uma perspectiva diferente da cidade  e da paisagem envolvente que se estende até Espanha  e a concelhos limítrofes. 

O silêncio que se pode usufruir num espaço situado dentro da cidade é tão inesperado como, de repente, sentir-se envolvido pelo tempo que esculpiu, em muitos milhões de anos, figuras geológicas que espantam e nos mostram a nossa pequenez quando nos inscrevemos no friso cronológico do planeta ou na grandiosidade das estruturas naturais ali existentes, em contraste com a modernidade do projecto de arquitectura.


O Barrocal oferece, segundo o prospecto divulgado aos visitantes as seguintes actividades: Visitas com guias especializados, Visitas escolares, Passeios pedestres, Parque infantil, Cursos e workshops, Eventos de Arte na Natureza, Eventos de Desporto na Natureza e os Serviços: Cafetaria, Loja, Eventos privados,  Filmagens/ Fotografia.

São enormes as potencialidades do Parque que na minha perspectiva deverão ser, fundamentalmente,  nas vertentes natural, cultural, educativa e espiritual. Este espaço pode ainda ser usado numa perspectiva terapêutica não tanto de "banho de floresta" mas como  “Terapia da Natureza“ ou seja como “uma prática que promete melhorar nossa saúde física e mental que resulta do nosso contacto com a natureza. 2

 

2. No entanto, em 16 de Novembro escrevi no Facebook: "Não é compreensível que numa obra acabada de abrir ao público (Barrocal) tenham esquecido as acessibilidades, a eliminação de barreiras arquitectónicas. A legislação não é cumprida, os objectivos de uma Sociedade Amiga das Pessoas não interessam, a metodologia Universal Design for Learning (UDL) é uma miragem."

Na minha opinião, foi pena que as infra-estruturas ali colocadas, e sei que houve a intenção de mexer o menos possível na natureza, o  que necessariamente sempre havia de acontecer, podia, pelo menos, ser em benefício das acessibilidades e segurança.

Nestes aspectos, acessibilidades e segurança, há ainda muito por fazer, e é pena que não tenha sido tomada em conta a legislação sobre o assunto e, mesmo que tecnicamente fosse de difícil execução e encarecesse o projecto, não devia ser esquecida a eliminação de  barreiras arquitectónicas e outras que permitiria a todas as pessoas usufruirem deste espaço natural de excelência.

No que diz respeito à segurança  e vigilância, certamente estarão  asseguradas de forma a prevenir ou a resolver rapidamente qualquer acidente que aconteça. 

O parque infantil ali implantado ainda está fechado e ainda bem porque, mesmo não sendo especialista de segurança e não sabendo o risco envolvido, mesmo assim parece-me bastante "radical" ou seja, comportando um factor de risco importante para que aconteça qualquer acidente. Mas admito que possa ter sido testado e não haja qualquer problema de segurança. Em todo o caso, provavelmente, estaria mais bem situado noutro contexto ambiental.

 

3. Coloca-se ainda o problema da vigilância... O Parque, como qualquer equipamento social,  é de todos os que o visitam e é importante preservar a natureza de todo o tipo de contaminações e vandalizações a que os equipamentos sociais, paradoxalmente, estão sujeitos. O Parque será tanto mais  aprazível quanto mais estimado for pelos visitantes.

Para já ficaram alguns "graffitis" da treta e asneira  que deviam ser retirados para devolver a dignidade ao local sem aquele tipo de poluição visual. 

 

4. Quanto a algumas das minhas dúvidas, devo dizer que fiquei mais descansado mas também expectante em relação ao futuro do Parque. Fui informado por uma atenciosa funcionária da recepção em relação ao desenvolvimento que se seguirá. Apenas uma pequena parte do Parque foi intervencionada. Outras se seguirão que virão melhorar  e enriquecer aquele espaço. *

 

5. Mais do que opinar sobre este equipamento, o melhor será visitá-lo e desfrutá-lo. Digo-lhe que não se vai arrepender. Foi o que fiz e gostei do que senti. 

__________________________

1 O projeto, desenvolvido pelo Topiaris, foi um dos oito finalistas do prémio mundial World Architecture News Awards, na categoria Urban Landscape e que venceu. 
O Parque do Barrocal teve como arquitectos: Teresa Barão, Luis Ribeiro, Catarina Viana, Elsa Calhau, André Godinho, Rita Salgado e Ana Lemos. Envolveu ainda outros especialistas: Olavo Dias, Sérgio Sousa & Gonçalo Santos, Bartolomeu Perestrello, Pedro Delgado e Ana Tiago & Pedro Silva e Sousa.

2. A terapia da floresta (“Forest Therapy“ ou  “shinrin-yoku” -“banho na floresta“) criada no Japão nos anos 80,  como é chamada em seu país de origem, consiste em oferecer aos interessados algumas horas de contacto directo com a natureza em prol de benefícios para a  saúde. O homem precisa da natureza, das árvores para observar, tocar,  plantar... A ligação entre a psicologia e a natureza faz parte do processo evolutivo.

 

* Para saber mais sobre o Parque do Barrocal e questões afins:






https://www.mixcloud.com/RACAB/crónica-de-opinião-de-carlos-teixeira-03-12-2020/




18/03/20

"Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso."

O 3 de Maio de 1808 em Madri, Francisco de Goya
"Os fuzilamentos de três de Maio", de Francisco de Goya, 1814, Museu do Prado, Madrid.

História das Artes


“Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso."
É assim que começa o poema de Jorge de Sena. Um espantoso poema sobre a crueldade de alguns homens  e também sobre a humanidade de outros.
É um poema sobre Goya e a sua pintura onde mostrou compaixão por aqueles  que, em Espanha,  foram fuzilados pelo exército de Napoleão quando das invasões francesas e da guerra peninsular.
A revolução francesa trouxe à sociedade  os princípios  de "liberté, égalité, fraternité"...  mas será difícil encontrar um tempo que negasse de forma tão eloquente este slogan. Este tempo produziu  Napoleão, que primeiro se mostrou a favor do rei mas depois a favor do jacobinismo e da revolução. Um tempo que trouxe logo a seguir a opressão de outros povos para além do próprio povo, como se pode concluir da aventureira invasão da Rússia em que dos 600 000 soldados que a fizeram, regressaram apenas 30 000.
A  guerra peninsular com todas as atrocidades cometidas em Espanha e em Portugal, como aconteceu, por exemplo, em Castelo Branco e na Beira Baixa*,  produziu esta crueldade de que "fala" a pintura de Francisco de Goya ou a poesia de Jorge de Sena mas ao mesmo tempo, a compaixão para com os inocentes e os que não aceitam o invasor.
Os exércitos de Napoleão ocuparam a Espanha, mas no dia 2 de maio de 1808 os cidadãos de Madrid levantaram-se contra os franceses. 
Este levantamento levou o  exército francês a executar uma terrível vingança, matando os que se revoltaram e aqueles que nada tinham feito.
Foi este acontecimento que Goya, em 1814, homenageou no quadro "Os fuzilamentos de 3 de Maio", uma forma de denunciar os comportamentos desumanos, impiedosos, injustos e terríveis praticados pelos franceses.

De vez em quando surge na história um ditador que acha que pode construir impérios à custa da ocupação de outros países e da crueldade para com as pessoas.
Todos os  impérios têm pés de barro e acabam por desaparecer mas parece  que nada aprendemos  com as lições da história. 
Nos nossos dias, como em tantos outros momentos da história, podemos dizer "Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso".
A imprevidência dos governos, a imprudência e o desleixo das pessoas, já é quadro suficientemente assustador, como o que vivemos actualmente a nível da saúde mundial, para perturbar a nossa felicidade.
Isto bastava para terminar  com devaneios imperiais, domínios geográficos e territoriais, as guerras, a imensidão de refugiados, o tráfico de homens, mulheres e crianças, o tráfico de armas, o tráfico de drogas... 
Pelo contrário: Nem liberdade, nem igualdade e muito menos fraternidade.

Mas, apesar destes horrores, talvez haja  esperança como Jorge de Sena nos dá a entender:
“E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.”





CARTA A MEUS FILHOS
Sobre os fuzilamentos de Goya

Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente â secular justiça,
para que os liquidasse «com suma piedade e sem efusão de sangue.»
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de urna classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de té-la.
É isto o que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém
está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga -
não hão-de ser em vão. Confesso que
muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã».
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.

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