24/06/26

Construir

 

Sabemos como é difícil construir: um projecto, uma casa, um hospital, fazer um curso, dar um concerto, uma pintura, escrever um livro, ganhar o mundial...

Também sabemos como em segundos um mundo caótico, mesmo quando organizado e obediente a chefes autoritários, está à nossa espera e invade a nossa vida social, familiar e pessoal, de que temos mais ou menos consciência, ou somos alertados pelas notícias que alguns chamam percepções, conflitua com a nossa educação, os nossos sentimentos, os valores da paz e os direitos humanos.

É ainda mais estranho que situações socialmente positivas, de vitória, de festa, comemoração, resultem em confronto, vandalismo,  manifestações  de desordeiros e arruaceiros que vivendo num regime democrático, usam as manifestações para ultrapassarem os limites da liberdade. Sentem-se vítimas de tudo: da sociedade, do clima, do patriarcado, sentem-se os explorados e oprimidos e desrespeitam tudo o que seja figura de autoridade, em especial a polícia.

Foi o que se verificou, recentemente,  com os Incidentes nas celebrações da vitória do PSG que fizeram um morto e 780 detenções ou com os desacatos que se verificaram no final de uma manifestação sindical


Podemos especular que foi o desenvolvimento com poucos limites, sem latência e pouco superego (Freud), a justificação de  tamanha desorientação. 

O trabalho educativo, possivelmente, foi descurado pela família e pela escola e, em geral, a socialização foi guiada pela anomia em vez do controle das emoções negativas, a par da desadaptação proveniente da relação excessiva com as tecnologias.

Face à modernidade como reagir? Como refere Alain de Botton precisamos de uma cabana dentro da nossa mente para onde nos retirarmos  quando estamos a ser invadidos por valores hostis ao nosso sentimento de equilíbrio e amor-próprio”... “Só nos podemos culpar até certo ponto pelo nosso sofrimento mental. O  problema não é que sejamos pessoas frágeis, mas sim que estamos a viver numa época de alta tecnologia que sistematicamente desfaz em pedaços os seus elementos mais sensíveis, na sua obediência ao que um dia irá ser conhecido como etos grosseiramente primitivo e falho em imaginação.” (Uma viagem terapêutica, p. 86,)

“Devemos, por conseguinte, lidar com as emoções destrutivas não apenas por observação mas em termos de transformação interior. À medida que as emoções negativas se introduzem continuamente no espírito, transformam-se em estados de espírito (quadro seguinte) e, eventualmente, em traços de temperamento. Portanto, precisamos de começar a trabalhar com as próprias emoções. (Daniel Goleman, Emoções destrutivas e como dominá-las, p. 100 e 116 )


Estados de espírito destrutivos 

Estados de espírito construtivos 

Baixa auto-estima 

Excesso de confiança 

Abrigar emoções negativas 

Ciúme e inveja 

Falta de compaixão 

Incapacidade de ter relações interpessoais próximas 

 

Amor-próprio 

Auto-estima (se merecida) 

Sentimentos de integridade 

Compaixão 

Benevolência 

Generosidade 

Ver o verdadeiro, o bom, o correto 

Amor  

Amizade

 

Se saber perder exige saber lidar com emoções negativas, saber ganhar não dá direitos ou vantagens especiais, antes nos mostra a necessidade de a pessoa saber controlar  o excesso de confiança e o sentimento de superioridade.


A oportuna encíclica de Leão XIV Magnifica Humanidade propõe duas possibilidades para a humanidade construir o seu futuro: a edificação da Torre de Babel ou o caminho de reconstrução das muralhas de Jerusalém.

Na era da inteligência artificial (IA) é preciso o consenso das nações para dar uma oportunidade à construção do bem. E isso significa construir uma cidade orientada para o bem comum, aceitar os limites da fragilidade humana, construir um mundo onde todos possam “florescer”, usando linguagem evangélica. ( § 7 a 15) 

“A grandeza do homem está em construir-se a si mesmo." (Michel Quoist, Construir)





 

06/06/26

A gratidão na velhice


 A gratidão na velhice


A gratidão na velhice — obrigado antes que eu parta, 
Pela saúde, pelo sol do meio-dia, pelo ar impalpável, pela vida, a 
                simples vida, 
Pelas preciosas recordações nunca esquecidas ( de ti minha querida 
                mãe, de ti, pai, de vós, irmãos, irmãs, amigos),
Por todos os meus dias — não só os de paz — também os dias de 
                guerra, 
Pelas palavras afáveis, carinhos, dádivas dos países estrangeiros, 
Pelo abrigo, vinho e carne, pelo doce reconhecimento 
(Vós, distantes e obscuros desconhecidos — ou jovens ou velhos — 
                inúmeros e não especificados queridos leitores, 
Nunca nos encontrámos e nunca nos iremos encontrar — e, no 
                entanto, as nossas almas estreitam-se num longo, longo 
                abraço);
Pelos seres, grupos, amor, actos, palavras, livros, pelas cores e 
                formas, 
Por todos os homens valentes e vigorosos — homens dedicados e 
                audaciosos — que se lançaram em frente na defesa da 
                liberdade, em todos os tempos, em todos os países, 
Pelos homens mais valentes, mais vigorosos e mais dedicados (uma 
               honra especial, antes que eu parta, para os eleitos da guerra 
               na vida, 
Os artilheiros da poesia e do pensamento, os grandes artilheiros,
               os guias da vanguarda, os capitães da alma);
Como um soldado regressado da guerra que acabou, como um 
               viajante entre muitos na longa procissão voltada para o 
               passado, 
Obrigado — rejubilantes agradecimentos! — os agradecimentos de 
               um soldado, de um viajante.

Walt Whitman, Folhas de erva