06/06/26

A gratidão na velhice


 A gratidão na velhice


A gratidão na velhice — obrigado antes que eu parta, 
Pela saúde, pelo sol do meio-dia, pelo ar impalpável, pela vida, a 
                simples vida, 
Pelas preciosas recordações nunca esquecidas ( de ti minha querida 
                mãe, de ti, pai, de vós, irmãos, irmãs, amigos),
Por todos os meus dias — não só os de paz — também os dias de 
                guerra, 
Pelas palavras afáveis, carinhos, dádivas dos países estrangeiros, 
Pelo abrigo, vinho e carne, pelo doce reconhecimento 
(Vós, distantes e obscuros desconhecidos — ou jovens ou velhos — 
                inúmeros e não especificados queridos leitores, 
Nunca nos encontrámos e nunca nos iremos encontrar — e, no 
                entanto, as nossas almas estreitam-se num longo, longo 
                abraço);
Pelos seres, grupos, amor, actos, palavras, livros, pelas cores e 
                formas, 
Por todos os homens valentes e vigorosos — homens dedicados e 
                audaciosos — que se lançaram em frente na defesa da 
                liberdade, em todos os tempos, em todos os países, 
Pelos homens mais valentes, mais vigorosos e mais dedicados (uma 
               honra especial, antes que eu parta, para os eleitos da guerra 
               na vida, 
Os artilheiros da poesia e do pensamento, os grandes artilheiros,
               os guias da vanguarda, os capitães da alma);
Como um soldado regressado da guerra que acabou, como um 
               viajante entre muitos na longa procissão voltada para o 
               passado, 
Obrigado — rejubilantes agradecimentos! — os agradecimentos de 
               um soldado, de um viajante.

Walt Whitman, Folhas de erva