Sabemos como é difícil construir: um projecto, uma casa, um hospital, fazer um curso, dar um concerto, uma pintura, escrever um livro, ganhar o mundial...
Também sabemos como em segundos um mundo caótico, mesmo quando organizado e obediente a chefes autoritários, está à nossa espera e invade a nossa vida social, familiar e pessoal, de que temos mais ou menos consciência, ou somos alertados pelas notícias que alguns chamam percepções, conflitua com a nossa educação, os nossos sentimentos, os valores da paz e os direitos humanos.
É ainda mais estranho que situações socialmente positivas, de vitória, de festa, comemoração, resultem em confronto, vandalismo, manifestações de desordeiros e arruaceiros que vivendo num regime democrático, usam as manifestações para ultrapassarem os limites da liberdade.
Foi o que se verificou, recentemente, com os Incidentes nas celebrações da vitória do PSG que fizeram um morto e 780 detenções ou com os desacatos que se verificaram no final de uma manifestação sindical.
Podemos especular que foi o desenvolvimento com poucos limites, sem latência e pouco superego (Freud), a justificação de tamanha desorientação.
O trabalho educativo, possivelmente, foi descurado pela família e pela escola e, em geral, a socialização foi guiada pela anomia em vez do controle das emoções negativas, a par da desadaptação proveniente da relação excessiva com as tecnologias.
Face à modernidade como reagir? Como refere Alain de Botton precisamos de uma cabana dentro da nossa mente para onde nos retirarmos quando estamos a ser invadidos por valores hostis ao nosso sentimento de equilíbrio e amor-próprio”... “Só nos podemos culpar até certo ponto pelo nosso sofrimento mental. O problema não é que sejamos pessoas frágeis, mas sim que estamos a viver numa época de alta tecnologia que sistematicamente desfaz em pedaços os seus elementos mais sensíveis, na sua obediência ao que um dia irá ser conhecido como etos grosseiramente primitivo e falho em imaginação.” (Uma viagem terapêutica, p. 86,)
“Devemos, por conseguinte, lidar com as emoções destrutivas não apenas por observação mas em termos de transformação interior. À medida que as emoções negativas se introduzem continuamente no espírito, transformam-se em estados de espírito (quadro seguinte) e, eventualmente, em traços de temperamento. Portanto, precisamos de começar a trabalhar com as próprias emoções. (Daniel Goleman, Emoções destrutivas e como dominá-las, p. 100 e 116 )
Estados de espírito destrutivos
Estados de espírito construtivos
Baixa auto-estima
Excesso de confiança
Abrigar emoções negativas
Ciúme e inveja
Falta de compaixão
Incapacidade de ter relações interpessoais próximas
Amor-próprio
Auto-estima (se merecida)
Sentimentos de integridade
Compaixão
Benevolência
Generosidade
Ver o verdadeiro, o bom, o correto
Amor
Amizade
Se saber perder exige saber lidar com emoções negativas, saber ganhar não dá direitos ou vantagens especiais, antes nos mostra a necessidade de a pessoa saber controlar o excesso de confiança e o sentimento de superioridade.
A oportuna encíclica de Leão XIV Magnifica Humanidade propõe duas possibilidades para a humanidade construir o seu futuro: a edificação da Torre de Babel ou o caminho de reconstrução das muralhas de Jerusalém.
Na era da inteligência artificial (IA) é preciso o consenso das nações para dar uma oportunidade à construção do bem. E isso significa construir uma cidade orientada para o bem comum, aceitar os limites da fragilidade humana, construir um mundo onde todos possam “florescer”, usando linguagem evangélica. ( § 7 a 15)
“A grandeza do homem está em construir-se a si mesmo." (Michel Quoist, Construir)
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