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10/08/23

Redes sociais - que fazer ?


"O perfil do utilizador com dependência online severa tem entre os 16 e os 21 anos, é homem, com frequência do secundário, começou no mundo online aos oito anos, não pratica exercício físico, tem um rendimento escolar mais baixo, não namora, está mais de seis horas diárias na internet, envia e recebe dados íntimos (sexting), joga online e é vítima ou agressor (cyberbullying)." (Estudo coordenado por Ivone Patrão)

Para enfrentar esta realidade e para fazer respeitar os direitos das crianças é necessário criar instrumentos que ajudem as famílias a utilizar os meios digitais.
O ambiente digital, as redes sociais, têm vindo a ganhar maior influência junto de crianças e adolescentes. As mensagens de ódio, o ciberbullying, os comportamentos de risco que estão envolvidos na utilização das redes sociais exigem que se tomem medidas de prevenção e educação nas famílias para que se possa utilizar os meios digitais de forma saudável. Esta plataforma é um desses instrumentos.


"Da iniciativa de investigadores com pesquisa sobre a área dos meios digitais e de comunicadores de ciência, a plataforma Crianças e Adolescentes Online (CriA.On) visa incentivar o diálogo com famílias e com profissionais de educação, de saúde e bem-estar, juristas e todos os que acompanham crianças e famílias nas suas áreas de atuação."

Este parece ser o caminho certo para, responsavelmente, cada indivíduo, cada família, possa saber como autodirigir-se em relação aos meios digitais. A censura, a polícia da linguagem e do pensamento, a falsa comunicação inclusiva, a monitorização dos discursos de ódioa nova censura, são falsas soluções, tão perigosas para a liberdade e a democracia como aquilo que se quer evitar.


 

21/06/23

Avaliar alunos e avaliar escolas

 

Se bem me lembro, foi em 2001, portanto, há 22 anos, que o governo do primeiro-ministro António Guterres e ministro da educação Júlio Pedrosa, decidiu publicar os dados dos exames nacionais, conhecidos como ranking dos exames.
Honra lhes seja feita que decidiram desocultar estes resultados porque não havia qualquer justificação para serem confidenciais ou apenas conhecidos de alguns, e, pelo contrário, deviam ser amplamente divulgados. Desde então todos os anos são publicados os dados dos exames nacionais.

Este ano, mais uma vez, com a publicação dos resultados dos exames, veio a análise e crítica a esses dados, o que é louvável, mas também a contestação à publicação dos rankings.
O actual ministro da educação, João Costa, explicou que a condição sócio-económica das escolas influencia os resultados. Para ele, os rankings são uma “operação comercial”. A mesma desvalorização vem dos sindicatos: para a FNE os resultados são “mais do mesmo” e a Fenprof considera o “ranking” uma fraude.
Neste resumo está tudo o que governo e sindicatos pensam da escola, ou seja,  na escola tudo se justifica com o estatuto socio-económico das famílias e o meio de implantação das escolas: os resultados dos alunos, os comportamentos desajustados dos alunos, a violência e o bullying, os consumos aditivos ...

Todos conhecemos a importância que a realidade socio-económica, a origem e a vida dos alunos têm nos resultados escolares e na sua vida futura... 
E então? O ranking dos exames também reflete essa realidade. Não é por isso que deixa de haver escolas com melhores resultados nos exames mesmo quando o meio é semelhante.
Mas isso importa para as famílias? Claro. Significa que se os pais puderem colocar os seus filhos noutra escola o farão sem dúvida nenhuma.

E isso deve ser importante para o ministério da educação? Claro que é, embora isso não interesse ao sr. ministro da educação.
Esta informação pode contribuir para mudar a motivação dos professores, alterar os recursos materiais e humanos, promover actividades de valorização e enriquecimento, intervir a nível das famílias juntamente com as instituições de acção social e segurança social, formar a nível das mudanças parentais e valorizar a escola, fomentar as artes, o desporto, criar pedagogias diferenciadas, férias na escola, tudo isso são projectos possíveis que podem transformar uma escola talvez com relevo no ranking dos exames.

Lamentavelmente, esta informação preciosa – os dados dos exames - parece ser desprezada pelo sr. ministro e desvalorizada pelos sindicatos.

Mas há escolas que vêem estes resultados, entre muitos outros dados, como um contributo para a avaliação da qualidade do ensino na escola - e essa foi a minha experiência em dezenas de conselhos pedagógicos em que participei - levando a alterações no currículo e na escola necessárias à introdução de planos de melhoria. 
Não, não é uma “operação comercial”. É muito mais do que isso. É também a cultura assimilada pelos alunos, a cultura de avaliação, a valorização da escola, a aprendizagem dos valores, o respeito dos professores, a devolução às famílias dos resultados do trabalho feito e o respeito pelos contribuintes.


Até para a semana.


Rádio Castelo Branco





01/06/23

Educação e Paz




Como acontece desde 1950, hoje, dia 1 de Junho, comemora-se mais um Dia Mundial da Criança. É o reconhecimento de que todas as crianças têm direito a afecto, amor e compreensão, alimentação adequada, cuidados médicos, educação, proteção contra todas as formas de exploração e a crescer num clima de Paz.

Nas últimas décadas, tem havido uma crescente valorização e protecção da infância por organizações internacionais e nacionais.
No entanto, nada disto acontece em muitos locais do planeta. Parece mesmo que, globalmente, recuamos na questão destes direitos e, pelo contrário, assistimos à violência contra as crianças a que ninguém parece ligar: já não nos indigna a fome, não nos indigna a guerra, não nos indigna os maus tratos e abusos, não nos indigna que haja crianças desaparecidas e traficadas...

Criança e guerra são incompatíveis. Como já aqui escrevi, bastavam as crianças mortas na Ucrânia para fazer parar a guerra. Bastava que fossem respeitados os lugares sagrados da educação. Mas, ao contrário, parece mesmo que há intencionalidade na destruição selectiva de escolas, maternidades e hospitais.

Entre as duas guerras mundiais, nos anos 30, Maria Montessori discursava nos fora internacionais sobre a Educação e a Paz. E dizia: “É singular que não exista uma ciência da paz.”
"A história da humanidade ensina-nos que a chamada “paz” é a adaptação forçada dos vencidos a um domínio tornado estável, a perda de tudo o que amaram, o fim dos frutos do seu trabalho e das suas conquistas. O povo vencido é obrigado a dar, como se fosse ele o único culpado e o merecedor de castigo, só porque foi vencido, enquanto o vencedor arvora direitos sobre o povo que foi vítima do desastre. A tal situação, apesar de significar o fim da guerra com as armas, não pode chamar-se paz. Pelo contrário o verdadeiro flagelo moral nasce desta acomodação." (p. 14)
A paz dos mortos, a paz das ruínas e da devastação não é paz... 

Assistimos hoje a guerras em que as tecnologias mais avançadas que o homem inventou estão ao serviço dos contendores ao mesmo tempo que os objectivos são os mais violentos de que alguma vez o homem foi capaz. Nada se poupa, nada se protege. Pelo contrário, é necessário causar o maior número de danos para instaurar o medo ... 
Diz-nos Montessori: “O homem domina a natureza... mas não conseguiu dominar as suas próprias energias interiores...”

Na base de tudo está a educação que deve preparar os homens para a paz.
Montessori propõe-nos um método para educar: As crianças devem ser livres de se desenvolverem e aprenderem ao seu próprio ritmo, num ambiente estimulante e de compreensão, organizado, apropriado ao seu desenvolvimento.
Que podemos esperar do ambiente em que estão a ser educadas as crianças do futuro ? Fogem da escola para o abrigo, enquanto as bombas caem não se sabe bem onde, apesar de quem faz a guerra dizer que são de elevada precisão.
“O homem psiquicamente saudável é hoje um ser raro...”


Até para a semana.



Rádio Castelo Branco


14/10/22

Respeitar os professores...


Ouvimos dizer que a escola já não é como era. Antes havia disciplina e os professores eram respeitados.(1) De facto, parece haver um “sentimento geral” de que se perdeu o respeito pela autoridade que havia em relação a várias instituições políticas, sociais, religiosas. Parece que este fenómeno é particularmente notado nas escolas e em relação aos professores.

Cada um de nós tem conhecimento de agressões a professores, feitas por alunos e pais, que são notícia nos meios de comunicação social, o que significa que são suficientemente graves para merecerem essa referência. 


Era interessante saber: qual a dimensão destas atitudes e comportamentos  para com os professores? Quem desrespeita quem: são os alunos, os pais, a comunidade? 

Em 2020, "os números mostram que todas as semanas alguém foi agredido ou ameaçado de morte. Mas tanto professores como polícia garantem que existem muitos mais casos que ficam dentro dos muros das escolas, sem nunca serem esquecidos pelas vítimas. "Muitos preferem remeter-se ao silêncio para não colocar a imagem da escola em causa". 

Se virmos o que dizem alguns sindicatos de professores, parece que quem desrespeita mais os professores é o ministério da educação. Ou seja a autoridade dos professores é posta em causa pelo poder quando não cria as condições para que a função docente seja exercida nas condições que evitem a falta de respeito aos  professores e a outros funcionários da escola.

 

Mas o desrespeito pelo poder e pela autoridade vem também dos alunos como aconteceu com o slogan “não pagamos“ e a “geração rasca”. Ou era apenas irreverência da juventude?


De facto, podemos dizer que a escola e os professores têm vindo a perder status *. Interessa, por isso, saber a que se poderá dever esta situação. Onde começou esta mudança profunda de desrespeito da autoridade dos professores na escola e na sociedade.

 

A degradação da autoridade tem vindo a acontecer a partir de uma das  perversidades saídas do Maio 68, em França. Um dos slogans, “Proibido proibir”, foi o mote que levou a questionar toda a autoridade e não só o poder. 

Vargas Llosa, em  A Civilização do Espectáculo, refere: “Pelo menos no campo do ensino, a partir de 1968 a autoridade castradora dos instintos libertários dos jovens voara em pedaços.” Mas, por outro lado, o Maio 68 vem dar “legitimidade e glamour à ideia de que toda autoridade é suspeita, perniciosa e desdenhável e que o ideal libertário mais nobre é desconhecê-la, negá-la e destruí-la” (p. 79)

 

E escreve Vargas Lhosa: “Em nenhum campo isto foi tão catastrófico para a cultura como na educação. O professor, despojado de credibilidade e autoridade, convertido em muitos casos, na perspetiva progressista, em representante do poder repressivo, isto é, no inimigo a quem para alcançar a liberdade e dignidade humana era preciso resistir e até abater não só perdeu a confiança e respeito sem os quais era impossível cumprir eficazmente a sua função de educador - de transmissor tanto de valores como de conhecimentos -  perante os seus alunos,   como também os dos próprios pais de família e de filósofos revolucionários..." (p. 80) 

Porém, o poder não se viu afectado minimamente. Pelo contrário. (3)

 


_________________________

 

(1) Podemos questionar o que quer dizer "respeito". O  respeito é um sentimento positivo em relação a outra pessoa ou em relação a si próprio. Respeito é mais do que tolerância. Respeito é  concordar, incentivar, respeito implica inclusão, empatia, honestidade, cumprir as promessas que se fazem, escutar com atenção, colocar-se no lugar do outro, cumprir as leis do país em que se vive...

Isto aplica-se a todos os adultos em relação às crianças, os pais em relação aos filhos, os superiores hierárquicos em relação aos subordinados e vice-versa...

Segundo Alain de Botton "As consequências de um status elevado são aprazíveis. Incluem recursos, liberdade, espaço, conforto, tempo e porventura mais importante o facto de sentirmos que somos objeto de afecto e estima por parte dos outros através de convites lisonjas, risos mesmo quando as piadas não são boas deferência e atenção o status elevado é considerado por muitos como um dos mais preciosos bens terrenos.

Por outro lado, "Angústia de Status" é "A preocupação perniciosa a ponto arruinar boa parte das nossas vidas, com o risco de não conseguirmos conformar-nos aos ideais de sucesso instituídos pela sociedade envolvente e de podermos, por conseguinte, ser despojados da nossa dignidade e respeito. A preocupação pelo facto de nos acharmos num patamar demasiado modesto ou de estarmos prestes a cair para um degrau mais abaixo." (Alain de Botton, Status ansiedade, Publicações D. Quixote, 2005)

(2) Índice Global de Status de Professores da Fundação Varkey (2018). "Os dados do estudo "sugerem que há uma correlação entre o status concedido aos professores e os resultados dos alunos do seu país. Em outras palavras, um alto status de professor não é apenas “bom de se ter” – aumentar o status de professor pode melhorar diretamente o desempenho dos alunos de um país. Os governos devem levar a sério o status de professor e fazer esforços para melhorá-lo." (p.11)

"O estudo conclui que a classificação média de respeito para um professor nos 35 países foi a 7ª de 14 profissões, indicativa de uma classificação de respeito intermédia para a profissão." (p 13)

(3) "Basta recordar que nas primeiras eleições realizadas em França depois do Maio 68, a direita gaulista obteve uma vitória categórica." (p.80)




27/05/21

O ranking das escolas à espera do Super-homem




Na semana passada, foi publicada pelo Ministéro da Educação, a lista de classificação das escolas, ou ranking das escolas, baseada nos resultados dos exames dos alunos do ensino secundário.
Esta classificação tem um valor relativo mas não deixa de ser o retrato, mesmo que imperfeito, do que se passa na educação. Serve ou devia servir como bússola e como aviso para se pensar o rumo da educação nas escolas e no país.
É fundamental para o diagnóstico mas também para o prognóstico educativo. É um instrumento de trabalho importante para o planeamento educativo, para a elaboração de planos de melhoria, para procurar soluções, para aprender com os melhores.
Em vez disso, tem gerado a contestação dos que não gostam de avaliações, e preferem desconhecer a realidade, os "negacionistas" do ranking das escolas.
Como os resultados colocam as escolas privadas nas primeiras posições da lista, de forma consistente ao longo de vinte anos, justificam esta situação pela baixa origem sócio-económica dos alunos que frequentam as escolas estatais e origem elevada os alunos das escolas privadas.
Mas estes resultados não são a mera constatação daquilo que todos já sabem e que não querem ver: a indisciplina, violência, que reina em muitas escolas estatais?

O documentário Waiting for Superman (à espera do Super-Homem), do realizador Davis Guggenheim (que a tvi passou há alguns dias), é um bom ponto de partida para ajudar a compreensão do ranking dos exames do ensino secundário.
O documentário trata da luta dos alunos e das suas famílias por uma boa escola para os filhos, das dificuldades que é entrar numa dessas escolas e da esperança que a lotaria das vagas pode trazer quando se é sorteado para entrar numa charter school, escola com contrato com o estado. 
Os números do ranking tal como os números do documentário significam pessoas com nomes e com famílias. As famílias do Anthony, Francisco, Bianca, Daisy e Emily.
São pessoas concretas, crianças e pais, trabalhadores, às vezes com problemas de emprego, que têm dificuldade em dar aos seus filhos a educação que desejam, ou seja, colocá-los numa escola um pouco melhor. São pais que valorizam a educação e que sentem que a educação dos filhos é mais importante do que tudo o resto das suas vidas.
Por isso, o importante é tirá-los de escolas que são fábricas de desistentes, como em Pittsburg, onde os alunos, empurradas pelo sistema, andam na escola mas sem qualquer interesse na vida
Como se diz no documentário, bairros fracassados dependem do fracasso na escola e o fracasso na escola leva ao insucesso na vida. 

O futuro dos cidadãos e dos países joga-se na sala de aula. Como não se investe na educação, teremos no futuro os custos sociais e económicos de muitas famílias, problemas sociais, problemas com a policia e justiça, problemas dentro das próprias famílias. *
É sintomático deste insucesso que o governo actual tenha fechado 24 colégios num ano e a quase eliminação dos contratos de associação. 
Não, o super-homem não nos vem salvar.


Até para a semana.

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* Como se constatou com o programa Head Start.







05/05/21

Manifestações violentas



As manifestações do 1º de Maio em Bruxelas, Paris e um pouco por todo o lado,  apesar do controle dos respectivos aparelhos político-sindicais dos partidos, acabam quase sempre na maior das confusões entre várias facções  e destas com as forças da ordem ...

Estas manifestações, em regimes democráticos, deviam ter um clima reivindicativo um clima de alegria, paz, confraternização entre todos os trabalhadores ... ao contrário são marcadas pela violência entre manifestantes, contra a propriedade privada mas também a pública, violência contra a polícia ...


Movimentos e grupos sociais velhos ou novos, radicais, mas com ideias feitas, dos velhos anarquistas aos novos grupos de “acção directa”, facciosos das novas formas de violência climática, populistas, patrulheiros da linguagem e dos costumes, dos hábitos alimentares, envolvem-se nesta intervenção violenta. 

Claro que há no meio desta gente pessoas bem intencionadas que se vêem envolvidas nesta gelatina  de ideias feitas, indisciplinada, sem regras, onde vale tudo, que se sente abrangida pela impunidade já que o poder, mesmo democrático, tem receio  de enfrentar estas ideias “taxativas”, como se dizia em Maio de 68: “é proibido proibir”.


José Ortega e Gasset, em 1930, há mais de 90 anos, fez a compreensão deste fenómeno e deu a resposta à questão. Escreve:

 .”.. creio que as inovações políticas dos mais recentes anos não significam outra coisa senão o império político das massas. A velha democracia vivia temperada por uma dose abundante de liberalismo e de entusiasmo pela lei. 

 ... Democracia e Lei, convivência legal, eram sinónimos. Hoje assistimos ao triunfo de uma hiperdemocracia em que a massa actua diretamente sem lei, por meio de pressões materiais, impondo suas aspirações e seus gostos. “

O cap. VIII  da Rebelião das massas * tem justamente o título: "Por que as massas intervêm em tudo, e por que só intervêm violentamente".

É assim porque o “homem médio” tem "ideias" taxativas sobre quanto acontece e deve acontecer no universo. Por isso perdeu o uso da audição. Só se ouve a si próprio e é cego e surdo para a opinião dos outros.

Estas “ideias" taxativas não significam exactamente cultura. Refere Gasset: “O que digo é que não há cultura onde não há normas a que se possa  recorrer. Não há cultura onde não há princípios de legalidade civil a que apelar. “...

“Quando faltam todas essas coisas, não há cultura; há, no sentido mais estrito da palavra, barbárie. E isto é, não tenhamos ilusões, o que começa a haver na Europa sob a progressiva rebelião das massas." (p.136-137)


Donde vem tudo isto?

Gasset refere: “aqueles grupos sindicalistas e realistas franceses por volta de 1900, inventores da maneira e da palavra "ação directa". (p. 139)

Estes grupos de "acção directa", de facto, estão em tudo, são violentes e não se pode questionar as “ideias” do homem-massa seja sobre o que for:  o clima, a história, o racismo, o colonialismo, a escravatura, as políticas, os comportamentos... 


Até para a semana.

 

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 * Há uma edição brasileira em formato digital - A rebelião das massas.










28/10/20

Amizade social e psicologia


No mesmo mês em que o papa Francisco apela à amizade social e fraternidade ("Fratelli tutti"), ficamos chocados com acontecimentos terríveis que vão em sentido contrário, como o assassinato de um professor em França, Samuel Paty, e a vandalização e incêndio de duas igrejas no Chile.
Porquê este ódio, porquê estes comportamentos violentos?

Na semana passada analisámos o primeiro capítulo da encíclica do Papa Francisco "Fratelli tutti" onde são referidas algumas variáveis que contribuem para o falhanço de um mundo fechado.

A psicologia social esclarece-nos sobre a importância das relaçoes de pertença para a inclusão de cada um de nós numa família e numa comunidade. Muitas pessoas e em particular os jovens são o alvo de controle através da “cultura” da tábua rasa, como já escrevia Gilles Lipovetsky no livro " A era do vazio”. (*)

A desconstrução histórica e cultural (13), deixa de lado uma história humana com os erros e os acertos que foram cometidos, e faz a (re)construção da história com os critérios da actualidade e da forma que dá jeito interpretar.
Fala-nos também das formas de destruir a personalidade das pessoas que passa pela destruição da auto-estima (51)
Critica o slogan liberdade igualdade e fraternidade (103) porque a liberdade e a igualdade sem fraternidade é ilusória, é mero egoísmo, a liberdade de fazer o que me apetece, a igualdade de “sócios” que cria um mundo fechado.
Explica quem é o outro (56 e seg.) e quem é o próximo (80): não é apenas o que me é próximo ou familiar mas aquele que é diferente de mim e pode ter limitações na sua eficiência.

Voltamos à questão: o inferno são os outros ou o inferno somos nós ? Há, então, que compreender por que continuamos num mundo fechado, de emoções destrutivas.
Na psicologia encontramos alguma explicação possível para este esses tipos de personalidade.
Para “Freud a figura do irmão é sempre a de um rival, um intruso no drama edípico, com quem é necessário compartilhar o amor dos pais (Freud, 1917/1988). O sentimento de fraternidade, assim, só pode emergir como efeito secundário, a partir de uma rivalidade originária entre irmãos." (**)

A violência contra os outros e contra si próprio, como o suicídio, como se explica ? O eu está em conflito permanente consigo próprio. As diversas estruturas do eu, conscientes e inconscientes, ou (na 2ª tópica) o id, ego, superego conflituam entre si.
Por outro lado, o psicanalista Wilfred Bion destacou três vínculos fundamentais no ser humano: Amor, Ódio e Conhecimento. São inseparáveis e interagem entre si – de modo que, conforme a predominância da qualidade dos vínculos – se sadia ou patológica – são determinados o nosso comportamento e a nossa qualidade de vida. (***)

O mundo aberto (87 e seg.) é o mundo da criação de vínculos saudáveis, de emoções construtivas: o amor, a bondade e o perdão, a solidariedade, o acolhimento do outro, o prazer de reconhecer o outro, a amabilidade, a superação, a ternura...
O que fazer para caminharmos para um mundo cada vez mais aberto ? 
Francisco fala-nos do caminho, do método para conseguirmos este objectivo: o diálogo, a cultura, a verdade, o perdão e a memória, a proactividade, a negociação, o conhecimento mútuo...



Até para a semana.

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(*) Gilles Lipovetsky, Era do Vazio, A: Ensaios Sobre o Individualismo Contemporâneo (1988)

26/12/19

A colaboração Família-Escola


Têm vindo a ser assinaladas divergências  entre pais e professores sobre a escola. O tempo de permanência dos alunos na escola é uma delas (estudo da Universidade Católica)
Por outro lado, devido aos casos  de indisciplina e violência que têm acontecido nas escolas com mais frequência* do que o habitual, talvez devido a maior visibilidade ou à preocupação dos educadores, que dá relevo a este tipo de situações, transmite-se muitas vezes a ideia de que  a família educa e a escola ensina ou instrui.
Não me parece que faça sentido esta separação sobretudo na prática quotidiana da escola e da família.
Educar é função fundamental da escola e não apenas da família. Além disso, para educar, escola e família não são demais. Como diz o provérbio africano: “é necessário toda a aldeia para educar uma criança”.
É certo que a família perdeu o monopólio da educação e formação. Mas a família continua a fazer parte imprescindível da educação das crianças juntamente com a escola.
Também há professores que têm a expectativa de  que os filhos sejam educados e venham educados de  casa, que saibam portar-se na sala de aula, que saibam portar-se na à mesa,  que sejam capazes de interagir com os colegas sem encontrões, gritaria, correrias…

Partindo do princípio que a família deve ter um papel insubstituível  a desempenhar na educação dos filhos, temos que nos interrogar sobre que família estamos a falar. A realidade mostra-nos uma família diferente do passado. Actualmente, na família, parece que já ninguém encontra o seu lugar.
Há muitas crianças que não vivem em família mas em instituições. Há crianças que vivem em famílias maltratantes e violentas e a exposição à violência física e psicológica faz parte do seu quotidiano e da sua aprendizagem.
Há crianças que são abusadas sexualmente e sabemos que esse abuso é maioritariamente dentro da família.
Há crianças que vivem em famílias disfuncionais em que os pais não se entendem em relação ao essencial necessário aos filhos: o afecto.
Há crianças que  vivem com os avós ou outros parentes como recurso às dificuldades dos pais devido ao trabalho, à emigração…
Há crianças que vivem divididas entre a casa do pai e a casa da mãe e não são bem aceites num lado e no outro e muitas vezes são instrumentalizadas para favorecer e tomarem o partido de um ou outro.
Há crianças que são filhas de pai incógnito (aqui e aqui), que era uma coisa impensável depois do 25 de Abril.
Há crianças com dificuldades de toda a ordem…
Então quando dizemos que a criança vem educada de casa de que estamos a falar? O professor não foi contratado para educar mas para ensinar e instruir?
O que fazemos quando há crianças que têm à sua disposição apenas as suas competências para fazerem frente à vida hostil ou de dificuldades em que vivem e para as quais é muitas vezes na escola que encontram algum afecto e compreensão para as suas necessidades?
As instituições educativas intervêm desde muito cedo na escola. Muitas crianças passam grande parte da sua a vida desde pequenas na creche e depois jardim de infância
Passam muito mais tempo na escola do que em  família, ou seja, muitas aprendizagens são realizadas na escola: autonomia pessoal como vestir-se, alimentar-se, fazer a higiene, controlar esfíncteres, aprender a coordenação motora global e finaaprender a falar e comunicar, etc.
A aprendizagem da afectividade e da sexualidade, da interacção com os outros, da moralidade, da participação na sociedade não são apenas da família nem apenas da escola mas de toda a comunidade educativa.
Alem disso há que contar com  as aprendizagens dos pares e dos media que hoje têm à disposição como a internet.
 
Diez * descreve algumas formas de colaboração entre a família e a escola e dos aspectos mais específicos da escola ou da família.  Já aqui escrevi sobre o assunto. Há uma educação específica dos pais e a escola deve desempenhar também uma educação específica nos diversos programas do currículo, mas há também aspectos comuns, e é sempre  difícil estabelecer limites para a actuação de cada uma delas, como é o caso da 
- Educação corporal,
- Educação intelectual,
- Educação da afectividade,
- Educação da expressão,
- Educação para a liberdade,
- Educação para a vida comunitária.
Mesmo que alguma destas áreas não faça parte do currículo formal não podem ser excluídas do currículo escolar, informal, ou oculto.
Escola e família, cada uma delas tem áreas específicas de actuação mas ambas educam e ambas ensinam. O sucesso educativo, a não violência e a disciplina, dependem desta colaboração.
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* Diez, J.J., Familia – escola, uma relação vital, Porto editora, Porto, 1989.



https://www.mixcloud.com/RACAB/cr%C3%B3nica-de-opini%C3%A3o-de-carlos-teixeira-26-12-2019/



02/12/19

Psicologia da internet - o efeito de desinibição online

"Julgar que o computador serve para tudo é correr ao encontro de decepções e de catástrofes sem precedentes. Julgar que o computador não serve para nada, é renunciar a um arsenal de serviços a que nenhum observador de boa fé contestará o valor. O maior perigo para o homem será ceder ao seu temor pela máquina e começar a fugir, ao mesmo tempo, dos benefícios da tecnologia.”
“O desordenador é perigoso: tende a sobrevalorizar as estatísticas, as médias, as massas em detrimento do indivíduo e dos seus sentimentos. A felicidade não é codificável.”
“Em caso algum um computador poderia ser ridículo. Pelo contrário, em todos os casos, o homem torna-se ridículo quando destina uma máquina a fins ridículos.”
"O desencanto cresce mais depressa que o progresso. Após as delícias do possível, as brutalidades do real."
Continuam a  ser assim, as delícias e as brutalidades.

O computador trouxe enormes vantagens para a sociedade mas a evolução da comunicação digital é de tal modo avassaladora em todas as áreas da vida que, como seria de esperar, a mudança dos comportamentos das pessoas faz-se com dificuldades, desfasamentos e estão à vista os desequilíbrios de personalidade.
A internet cria uma "dinamização" da personalidade que leva as pessoas a inclinarem-se  para atitudes de maior risco e descontrolo calculado. O "efeito de desinibição online" define estas alterações  comportamentais. (C. Nabuco)
Passámos, assim, a ter uma vida offline e uma vida online. Vidas que coincidem ou que são completamente diferentes.
Alvin Toffler falava do homem modular. Conhecemos a pessoa apenas em alguns aspectos, alguns módulos, da sua vida. Conhecemos, p.ex., a pessoa no trabalho mas nada sabemos da sua vida familiar, das suas origens, das suas amizades e  intimidades...
Agora podemos acrescentar que nada conhecemos da sua vida online mesmo quando se trata dos nossos filhos ou pais, nossos familiares, amigos ou colegas de trabalho.

Então qual é a nossa realidade? A vida online será mais real do que a vida offline? Os perfis falsos, os sites e blogues com identidades falsas serão afinal mais verdadeiros relativamente à nossa personalidade? Acontece que  na vida online   a pessoa apresenta dimensões da sua personalidade que não suspeitávamos que existissem. É muitas vezes na vida online que nos surpreendemos com os gostos, os ódios, as ideias de uma pessoa   que manifestam o módulo mais profundo da sua realidade pessoal e de relação com os outros.

Como compreender então os perfis falsos criados para esconder uma identidade falsa ou até usurpação de identidade ?
"Até setembro deste ano (2019), o Facebook fechou mais de 5,4 mil milhões de contas falsas criadas na rede social, um aumento de mais de 2 mil milhões de utilizadores face aos números do ano passado. De janeiro a dezembro de 2018 a empresa removeu da sua plataforma principal 3,3 mil milhões de utilizadores falsos, o que representa um aumento de 157%." (Record)
É que na nossa vida online (C. Nabuco)  temos a “falsa percepção de que somos anónimos e não há limites ou regras associadas ao comportamento online.
É um processo de "desindividualização", ou seja, “um estado de dissipação da identidade real e que favorece o aparecimento de maior grau de insubordinação, agressividade e sexualidade exacerbada, se comparado ao que ocorre na vida concreta.” Portanto, o "efeito de desinibição online" desconstrói os ambientes formais e mais rígidos da realidade concreta… tornando as pessoas mais condescendentes e altamente plásticas em relação às transgressões”, passando a ter uma "personalidade eletrónica" (e-personality). (C. Nabuco)
A internet é um instrumento de informação e liberdade mas também de manipulação e  marketing, de propaganda e de ódio, que influencia a nossa vida  e inferniza a de muitas pessoas. A internet veio revelar varáveis da nossas personalidade. Veio mostrar a força da Sombra, de Jung,  arquétipo que revela o lado escuro da nosso psiquismo, ou a força do nosso inconsciente, como dizia Freud. São estas forças que mostram o que na realidade somos e que  determinam muitos dos nossos comportamentos.




https://www.record.pt/fora-de-campo/detalhe/facebook-fechou-54-mil-milhoes-de-contas-falsas-ate-setembro