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02/04/18

Brazelton, um ponto de referência

Thomas Berry Brazelton, pediatra norte-americano, faleceu no passado dia 13 de Março de 2018. Brazelton, autor de dezenas de livros sobre o desenvolvimento infantil, professor de pediatria na Harvard Medical School, foi um dos defensores mais influentes da criança com o seu contributo na área do desenvolvimento infantil.
A sua prática pediátrica em Cambridge, Massachusetts, em que ajudou vários milhares de pacientes, foi a base a partir da qual emergiu a sua compreensão do desenvolvimento comportamental e emocional da criança e da necessidade de ajudar os pais a enfrentar as crises de desenvolvimento.
Brazelton foi o criador do modelo Touchpoints (“pontos de referência”) seguido e implementado em Portugal pelo pediatra Gomes-Pedro. Este modelo releva a importância do conhecimento que os pais têm dos seus bebés, das suas competências para educarem os filhos e também a importância do aconselhamento e apoio dado pelos especialistas aos pais. 
Desta forma, este modelo leva a abandonar o “modelo patológico”, para passar a um modelo “relacional”. Por ouro lado, leva a substituir um modelo psicoeducativo de “Educação” Parental, pelo de “Suporte” Parental, em que se promovem as competências das famílias.

Em entrevista a Isabel Stilwell, (“Berry Brazelton - eternamente uma delas”, Notícias Magazine, 4-12-2005), explica assim o que são “pontos de referência”:
“Há momentos na vida de uma criança (e na dos adultos também, mas essa é outra conversa), em que se dão «saltos de desenvolvimento». Etapas que obrigam a criança a uma prévia «desorganização» interior, a um armazenar de energia, para depois terem a capacidade necessária para arriscar o salto e para conseguirem uma nova reorganização. Estes momentos colocam uma pressão extra nos pais e, se não tiverem quem os apoie nesses momentos podem ser experiências dolorosas e assustadoras. Mas se, pelo contrário, forem acompanhadas e entendidas, podem ser maravilhosas oportunidades de crescimento, tanto para os pais como para os filhos. Foi por isso que lhes chamámos touchpoints porque se soubermos colocar o «dedo no ponto certo» podemos interagir com o sistema, com ganhos imensos para a família. Quando digo nós, incluo também os técnicos, porque é importante que quem acompanha os pais, nomeadamente o pediatra, conheça estes momentos e saiba prepará-los em conjunto com a família

Identificamos treze touchpoints nos primeiros anos de vida,* que foram aqueles que estudamos mais intensamente. São momentos ligados a tempos de aprendizagem, como por exemplo os touchpoints do aprender a dormir, da alimentação, etc. Um dos mais importantes é logo após o nascimento, em que a vinculação dos pais com o bebé é fundamental (e vice-versa). É um momento em que o recém-nascido tem de se adaptar, mas os pais também, deixando para trás a imagem do bebé idealizado, para a substituir por aquele bebé concreto, que pertence àquele sexo e não a outro, tem aquele peso, aquele tamanho… e aquele temperamento específico. “ (p.23-24)

Fizemos aqui, várias vezes, referência aos ensinamentos de Brazelton, de grande utilidade para quem interage com crianças como são os técnicos ou os pais, particularmente em alguns aspectos críticos do desenvolvimento, como, por ex., na autonomia e independência, disciplina, birras… (12,  3,  4)
Com Brazelton, a psicologia da infância melhorou a nossa compreensão do que é a criança, o desenvolvimento e comportamento infantil, as crises normais do desenvolvimento. E, por outro lado, houve um reconhecimento da importância das competências parentais na educação dos filhos.
Por isso, podemos perceber melhor o que são crises de aprendizagem da autonomia e da disciplina e não atribuir às crianças com comportamentos difíceis a terminologia de ditadores e ou tiranos, como parece ser moda e aparece de vez em quando na comunicação social.
Apreciei, particularmente, o livro de Brazelton Os primeiros passos dos bebés - Uma declaração de independência, sobre o processo da aprendizagem da independência e autonomia e a regulação de comportamentos de disciplina.
Não tenho a pretensão de aconselhar todos os pais a lerem Brazelton, porque os pais sabem o que devem fazer, mas se sentirem dificuldades na interacção com os seus bebés têm um bom recurso nos conhecimentos que Brazelton nos deixou.
Também não precisamos de ser especialistas em Touchpoints para podermos usar a informação que Brazelton e colaboradores nos transmitiram. Para mim, tiveram particular importância livros como Dar atenção à criança - Para compreender os problemas normais do crescimento; A relação mais precoce – Os pais, os bebés e a interacção precoce; Os primeiros passos dos bebés - Uma declaração de independência; A Criança e a disciplina – O método Brazelton.
Brazelton, criador dos “pontos de referência” é, também ele, um ponto de referência no campo da psicologia do desenvolvimento infantil.
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* Um resumo dos Touchpoints. Neste texto o 13º ponto de referência, refere-se, certamente, aos 3 anos e não 18 meses.


14/02/18

Pais com autoridade


As famílias ao longo das várias gerações confrontam-se sempre com o problema da  educação dos filhos 1, procurando conseguir uma  vida psicologicamente equilibrada num contexto de  bem-estar.
A questão é particularmente importante quando as crianças são desobedientes e  indisciplinadas e, ao contrário de pensar que a autoridade é um dom da natureza, um talento particular, e que não há nada a fazer, o  pedagogo ucraniano Anton Makarenko 2  defende que  a autoridade pode ser organizada em cada família. 3 O problema é que os pais organizam esta autoridade em bases erradas.
Podemos resumir alguns desses tipos errados de  autoridade:
A autoridade opressiva, é a espécie de autoridade mais terrível . O pai manifesta toda a sua cólera por qualquer coisa, mesmo sem importância, anula o papel da mãe, leva as crianças a afastarem-se, fomenta a mentira infantil, a cobardia e a crueldade.
 A autoridade distante  mantém as criança à distância e interage o menos possível, as ordens são transmitidas pela mãe que funciona como intermediária.
A autoridade vaidosa ou arrogante, os pais consideram-se as pessoas mais importantes da sociedade  e transmitem aos filhos esta ideia arrogante.
autoridade pedante.  Uma ordem transforma-se em lei.  As crianças não podem perceber que o papá se enganou e que não tem firmeza. Mesmo que esteja errado mantém o que disse….
autoridade racional. Neste caso os pais enchem a vida da criança de sermões, de conversas edificantes e discursos enjoativos…
autoridade afectuosa é uma forma de autoridade muito difundida  mas  errada e perigosa. As palavras de ternura, os beijos, as carícias, os testemunhos de afecto chovem literalmente sobre a criança. Esta autoridade  pode fazer egoístas, hipócritas e mentirosos. E muitas vezes as primeiras vítimas deste egoísmo são os pais.
A autoridade afável. Neste caso a obediência depende das  concessões, doçura, bondade dos pais. O pai e a mãe são o anjo bom. Uns pais de ouro. Temem toda a espécie de conflito, preferem a paz do lar, prontos a qualquer sacrifício desde que tudo vá bem. Nesta família as crianças começam muito cedo a mandar nos pais.
A autoridade amigável. Para os pais os filhos são os seus  amigos. Claro que os pais são amigos dos filhos  mas devem continuar a manter  a autoridade educativa. Se esta amizade for  levada ao extremo, são as crianças que  começam a educar os pais.
A autoridade corrupta é a forma mais imoral de autoridade, aquela onde a obediência se compra pura e simplesmente com prendas e promessas...
Esta atitude não se pode confundir com as formas de encorajamento, prémios por realizarem uma actividade realmente difícil, para recompensar bons estudos mas não quando se trata de cumprirem o seu dever como no trabalho escolar, p.ex.
Em geral, a educação será errada quando os pais não se preocupam em adquirir qualquer espécie de autoridade... Um dia punem o filho por um aspecto sem importância, no dia seguinte fazem-lhe uma declaração amorosa, a seguir punem de novo...
Também é errado o pai optar por um tipo de autoridade e a mãe por outro. Os filhos neste caso aprendem a ser diplomatas e a andar com rodeios entre o pai e a mãe.
Também acontece que há  pais que não têm qualquer atenção aos filhos e apenas pensam na sua tranquilidade.
Para Makarenko a verdadeira autoridade dos pais numa família deve basear-se, em primeiro lugar, na sua condição de cidadania, de pai e de ajuda e, em segundo lugar, na responsabilidade porque respondem pelos filhos face à sociedade e, por outro lado, essa responsabilidade é também exigida aos filhos.
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1 Pais com autoridade. Baumrind definiu vários estilos parentais.
2 Anton Makarenko, Oeuvres en trois volumes, Le livre des parents - Articles sur l'éducation - III, Ed. du Progrès, Moscou (“O livro dos pais - Artigos sobre a educação”). No artigo "Sobre autoridade dos pais" (p. 369-378) descreve vários tipos de autoridade parental e coloca a questão sobre a verdadeira autoridade dos pais e como se organiza.
3 Após a chamada revolução de Outubro, na Rússia, Makarenko refere "família soviética". O que é interessante é que a educação dos filhos e o bem-estar da família é idêntico em qualquer parte do mundo e tem extraordinária actualidade.

01/02/18

Educação parental

As famílias, qualquer que seja a sua estrutura, têm dificuldade nas interacções entre os seus diversos elementos, sendo particularmente evidente, a dificuldade que sentem na educação dos filhos.
O problema da educação dos filhos sempre levantou interrogações. As crianças sempre foram mais vítimas dos comportamentos dos adultos e das vicissitudes históricas em que nem sequer eram reconhecidas as necessidades próprias da infância.
A "educação" das crianças passou por vários modos (L. Demause) ao longo do tempo,  desde o modo infanticida,  ao modo abandonante …  até à actualidade, em que o modo é o de ajudar a criança, ou seja, o fim absoluto da humilhação para controlar a criança e ajudar os pais a ajudar a criança a atingir os seus objectivos mais do que socializá-la ao gosto do adulto.

O quadro legal em que vivemos* é muito diferente de outros momentos históricos. Felizmente, hoje, podemos falar dos direitos da criança. As crianças obtiveram direitos à medida que a sociedade também evoluiu no sentido do reconhecimento dos direitos humanos. Porém, o quadro actual dos direitos da criança inscritos na “Declaração dos direitos da criança” e na “Convenção sobre os direitos da criança”, está longe de ser respeitado. Pelo contrário, os abusos estão por todos os lados e atingem muitas famílias, sendo, aliás, dentro das famílias  que verificamos muitos dos abusos em que as crianças são as principais vítimas. O que quer dizer que nem sempre os pais são  a melhor protecção para as crianças nem para decidirem em seu nome.

A visão de que as crianças são uns pequenos ditadores deixa muito por explicar mas pode levar a que muitas pessoas achem que “de pequenino é que se torce o pepino”,  adágio que não deixa de estar certo, excepto quando signifique que é com castigos corporais que se educam as crianças.
Não podemos confundir punições com castigos corporais (maus-tratos físicos)  e humilhação (maus- tratos psicológicos). Não podemos pensar que  um programa de contingências de reforço é o único método  de modificação do comportamento. Ou que é aplicável de forma rápida e simples. Além disso, deve haver sempre referência aos estádios de desenvolvimento da criança.  Ou seja, não generalizar comportamentos registados e seleccionados nos programas televisivos aos comportamentos de algumas crianças como se  correspondessem  a uma tipologia comportamental. Há algumas crianças que têm comportamentos daquele tipo mas na maioria das vezes têm significados diferentes  e elas são as vítimas.

É fácil constatar que os pais de crianças com problemas comportamentais não têm ajudas, não sabem como resolver esses problemas, fazem o que pensam que é melhor para a educação dos filhos, mesmo que isso implique a sua exposição pública num programa de televisão, num reality show. Mas este é outro problema que deve ter resposta da escola, das artes, da saúde, do desporto, dos tempos livres...
Os pais devem esperar dos filhos, em determinadas idades, comportamentos desajustados que, no entanto, fazem parte do desenvolvimento e que não são mais do que crises normais do desenvolvimento. E, vistas bem as coisas, que drama há em ter dificuldades com uma criança às refeições ou ao deitar, comparadas com o mundo dos adultos - conflitos mesquinhos, todo o tipo de violência, corrupção ao mais alto nível... – que é bem mais medonho do que este mundo da infância que está a aprender a regular-se e a ser sociável, a aprender seguir alguns modelos adultos e a recusar, necessariamente, outros.

A Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) elaborou um Parecer  sobre “o Impacto  da Exposição das Crianças e Jovens em Programas com Formato de Reality Show”,  isto é, sobre as consequências negativas a nível da criança e a nível da audiência e do público em geral,  que podem advir da exposição mediática das crianças em virtude da sua participação neste tipo de programas.
A nível da criança, as consequências têm a ver com  a falta de consentimento informado, a violação da privacidade, a exploração de uma imagem negativa da criança, o sofrimento psicológico e a interferência na relação com os outros.
As repercussões negativas na audiência e no público em geral são, por exemplo, a imitação dos comportamentos disruptivos;  a ideia, falsa, de que os problemas apresentados são resolvidos com soluções imediatas, rápidas e simples; a exposição da vida das famílias pode degradar a sua imagem…

Os riscos deste tipo de programas são mais do que suficientes para que não se tenha a veleidade de pensar que supernanny é um programa de informação e ou educação sem contra-indicações. 

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* Convenção sobre os direitos da criança (Adoptada pela Assembleia Geral nas Nações Unidas em 20 de Novembro de 1989 e ratificada por Portugal em 21 de Setembro de 1990; Lei 147/99, de 1 de Setembro (Lei de protecção de crianças e jovens em perigo)

20/04/17

Férias ou pesadelo


As notícias foram mais ou menos assim: milhares de jovens foram expulsos de Espanha por mau comportamento ou comportamento indisciplinado em unidades hoteleiras onde passavam as férias da Páscoa.
Não quero culpar nem desculpar ninguém a começar pelos alunos envolvidos, pais e encarregados de educação, escolas, agências de viagens e organizadores, hotéis, forças de segurança, ongs, sistema de educação do país…
Todos têm os seus interesses neste assunto e, provavelmente, todos são responsáveis.
Para Françoise Dolto, "os jovens não são ajudados na nossa sociedade porque os ritos de passagem desapareceram. Ficaram reduzidos a eles próprios já não são conduzidos em conjunto e solidariamente duma margem a outra; é necessário que eles se deem a eles próprios este direito de passagem. Isto exige deles uma conduta de risco"(La cause des adolescents, Sinopse)
A adolescência é um período de fortes transformações numa sociedade, ela própria, em transformação, guerras, fugas , suicídios, droga, insucesso escolar…
Quando as estruturas que disponibilizamos para os jovens são as primeiras a criarem um ambiente pouco saudável do ponto de vista emocional, o risco transforma-se facilmente em perigo.
Há, na sociedade, de facto um conjunto de eventos dirigidos aos jovens que revelam alguns desses riscos. Alguns já bem antigos e desde sempre aberrantes, como a praxe, e outros mais actuais como este tipo de férias, igualmente perturbadores.
Estas viagens (spring break), ditas de finalistas mas onde outros podem participar, mesmo aqueles que se tornam repetentes da experiência, alguns também repetentes do secundário, durante vários anos, são férias descritas pelos promotores como “as melhores ferias da tua vida” que, como sabemos, nalguns casos, se têm transformado nos maiores pesadelos da tua vida.
Não conhecemos a dimensão do fenómeno. Sabemos que são vários milhares de jovens mas que não se pode falar das ocorrências destes eventos como fazendo parte de um padrão do comportamento dos jovens. Não são, de todo, características comportamentais dos jovens mas há alguns jovens que têm estes comportamentos.
Ao propor-se um "programa" do tipo laissez-faire faz-se sobressair, facilmente, os elementos patológicos pessoais e grupais.
Durante vários anos, fui presidente da associação de pais de uma escola secundária. Em determinada altura, colocou-se a questão  das férias da Páscoa, em Espanha. Não acreditava, como hoje não acredito, que os riscos sejam calculados e que este tipo de eventos tivesse algum interesse cultural ou turístico mas apenas como uma vivência de grupo em que são testados alguns limites, facilitada pela ausência dos constrangimentos parentais directos, dos constrangimentos comunitários, pois se encontram numa  comunidade desconhecida, e dos constrangimentos escolares.
São actividades em que as escolas não estão envolvidas e não se pronunciam, mas de que os pais não se podiam nem podem demitir, como é óbvio, porque os pais nunca fazem férias de pais, ao contrário do que acontece com a escola.
Em reunião com pais e organizadores, até foi apresentado um programa onde as actividades de interesse cultural, de estudo ou devidamente estruturadas praticamente não existiam mas o "tempo livre" era o ponto forte do programa. Ou seja, a desestruturação de um programa só podia acrescentar mais risco onde ele já existia.
"O universo dos 10-16 anos (diria o 2º/3º ciclos e o ensino secundário), é talvez a última oportunidade para dar a palavra aos jovens que a não têm e introduzir no sistema de educação, em falência, uma educação para o amor e para o respeito do outro e de si próprio." (idem)


06/11/14

Ousar falar


Le cercle psy, nº 3 , hors-série,  dá voz às pessoas que sofrem de alguma difculdade a nível da sua personalidade. Sobre o assédio moral, um extracto do livro De la rage dans mom cartable, remete-nos para o testemunho de Noémya.


Noémya foi vítima de assédio moral durante toda a sua escolaridade. Viveu quatro longos anos de sofrimento, onde intimidação, insultos, agressões e rejeição foram o seu quotidiano, na indiferença geral do pessoal docente, acrescentando a cada dia um pouco mais de raiva na sua mochila ... Isto foi seguido por dez longos anos de depressão e fracassos profissionais, as consequências directas do fenómeno do assédio. Com espírito de luta, Noémya escapou graças à escrita, conseguindo colocar em palavras os seus problemas .... 
Durante três anos, ela fez da luta contra o assédio moral a sua luta pessoal. 

"Diz-se que há palavras que matam. Palavras que destroem do interior. A diferença com as agressões é que as palavras ficam...

...Para as vítimas de assédio escolar não há geralmente paragem. Todos os locais se tornam ansiogénicos. As salas de aula. O pátio do recreio. A cantina. O autocarro. A perseguição é permanente."


Para os que sofrem com esta situação,  mais importante  do que "guardar na mochila" todas estas agressões é ousar falar.

30/10/14

Violências familiares


Temos sido confrontados, ultimamente, com notícias que nos deixam angustiados devido a casos de extrema violência doméstica. Periodicamente, parece haver um aumento de situações letais deste tipo de violência. 
Também as páginas negras das revistas cor de rosa mostram que o glamour nem sempre é o que parece.
Na realidade, conheço melhor a violência familiar do ponto de vista das crianças que chegam à consultas de psicologia ou porque já estão a ser acompanhadas pelos tribunais e comissões de protecção ou porque as famílias estão a viver essas situações.
São crianças expostas a modelos de violência com frequência e que às vezes são igualmente vitimas quando tentam defender o progenitor agredido.
Outras vezes o sofrimento é mais invisível: Sofrem porque os pais não se entendem, se agridem verbal ou fisicamente de forma sistemática.
Há algumas falsas ideias que é importante termos em conta.
Há a falsa ideia de que se pode ser um bom pai mesmo sendo um marido violento. “Só me bate a mim, não toca com um dedo nos filhos…”
Outra ideia errada é pensar, quando as crianças são pequenas, que ainda não entendem o que se passa.
Acontece que estas violências começam desde muito cedo. Em 40% dos casos a violência inicia-se logo na gravidez ou logo a seguir ao nascimento.
Observam-se reacções de agressividade ou de medo em crianças desde os 8 ou 9 meses que é uma altura em que áreas especializadas do cérebro são mais sensíveis a indicadores de ameaça psicológica.
Alem disso a violência psicológica é igualmente importante se desqualificam a vítima ou se a vítima é ameaçada de maus tratos corporais graves. A criança pode assumir como real essa ameaça.(Entrevista de Jean-François Marmion a Karen Sadlier, Le cercle Psy)

A violência doméstica envolve os vários elementos da família mas ela é principalmente uma violência de género. Em 2013, em 82% dos casos de violência doméstica, o autor do crime era do sexo masculino.(APAV)

Nas violências familiares não é fácil de entender porque as vitimas tem tanta dificuldade a denunciar e ou deixar o cônjuge violento.
Em parte, talvez porque as vítimas sempre esperam que o agressor possa mudar por elas ou pelos filhos.
Apesar das convenções internacionais e da legislação existentes, o atavismo cultural e o fanatismo religioso continua a ter grande importância em muitos países. Em alguma culturas, as mulheres continuam a ser propriedade dos maridos, os filhos propriedades dos pais...
Mas entre nós há quem ainda não compreenda que as pessoas não são propriedade de outras pessoas. Nem o casamento as torna proprietários de alguém.
Um dos aspectos de maior conflito tem sido a subtracção de menores (Artigo 249.º do CC). Muita violência tem a ver com a desregulação do poder parental porque consideramos que somos proprietários dos nossos filhos.

 Kalil Gibran, nascido no Líbano, já dizia

Vossos filhos não são vossos filhos.           
São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.           
Vêm através de vós, mas não de vós.           
E embora vivam convosco, não vos pertencem.           
Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos,           
Porque eles têm seus próprios pensamentos.           
Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;           
Pois suas almas moram na mansão do amanhã,           
Que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.           
Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós,           
Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados.           
Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas.           
O arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a sua força          
Para que suas flechas se projectem, rápidas e para longe.           
Que vosso encurvamento na mão do arqueiro seja vossa alegria:           
Pois assim como ele ama a flecha que voa,           
Ama também o arco que permanece estável. 


31/08/14

Num mundo melhor




Acabou de passar num dos canais AXN. "Num mundo melhor", mostra a linha que separa a justiça da vingança, e que o ser humano é capaz de não responder à agressão e à violência, que é o instrumento dos parvalhões. Transmitir, pelo exemplo, às crianças que assim é, significa que se está num nível moral mais elevado, acima do "olho por olho, dente por dente", e quem é o verdadeiro vencedor. É o caminho para uma sociedade da não-violência.

20/03/14

A nuvem por Juno



Novamente, a comunicação social traz notícias sobre estudos recentes, importantes e sugestivos, sobre a indisciplina na escola.
Um estudo da Associação Empresários pela inclusão social (EPIS) sobre bullying e ciberbullying, vem revelar que 62% das crianças responderam afirmativamente à pergunta ‘há bullying na tua escola?’.
É verdade que é “uma percentagem preocupante”. Mas uma coisa é ter conhecimento de que há bullying outra é ser vítima de bullying.
Além disso, como se diz no estudo, o ciberbulying é um fenómeno social e familiar e não apenas escolar. Diria mesmo que se passa em grande parte fora da escola.
Metade destes alunos não se recordam de ver ou ouvir nas escolas campanhas de prevenção. 
Mas também é verdade que há escolas onde esse fenómeno virou prevenção da moda,  as campanhas de prevenção nem sempre dão os resultados esperados. Pelo contrário. Veja-se o que se passa com o consumo de tabaco ou de bebidas alcoólicas em meio escolar.

O comentário de C. Fiolhais ao estudo de  M. Filomena Mónica, com o título de “O colapso da escola” (19/03/2014), conclui que nas “nas salas de aula é hoje, por vezes, muito difícil senão mesmo impossível ensinar e aprender.”
Na realidade, há uma degradação das condições educativas nas escolas. Mas há salas de aulas e escolas muito diferentes.
Sabemos que todos os dias, na escola, há conflitos, violências e agressões. Há gritos, choros, e desesperos. Há alunos perturbados, hiperactivos, agressivos, desmotivados … 
Muitas destas situações ficam dentro dos muros da escola. Porque a escola é capaz de resolver por si esses problemas. Grave é tentar ocultar estas situações.
Quando passam para fora da escola e há alarme social, metendo policia e ministério público trata-se de outro problema, não de indisciplina mas de violência e agressão. Em termos quantitativos podem ser poucos casos mas são sintoma suficiente para se perceber até que ponto a escola e os contextos que lhe dão origem podem estar doentes.
Muitos problemas da escola resultam dos encarregados de educação que são agressivos verbalmente e fisicamente para os professores. São pais que muitas vezes conflituam entre si, inclusive na presença dos filhos e dos professores.
Muitas outras perturbações passam-se fora da escola, mesmo que à porta da escola. Principalmente no secundário.
Mas os bons exemplos são a grande maioria dos casos. A minha experiência com turmas do 9º ano, de 30 alunos ou 20 alunos, garante que mais de 90 %  são alunos extraordinários. São gente com gente na frente que se respeita mutuamente.
É muito importante que se estude o interior da sala de aula porque "por dentro das coisas é que as coisas são".
A escola deve ser estudada, deve ser transparente, deve merecer as críticas e os aplausos dos cidadãos.
Mas há escolas e escolas. Há salas de aula e salas de aula, tanto nas escolas do estado como nas particulares. Por isso, é necessário uma mensagem de tranquilidade para os pais: na grande maioria das escolas e das salas de aula trabalha-se e estuda-se. Não se pode confundir a nuvem com Juno.

18/12/13

Violências familiares


A exposição a modelos de aprendizagem perigosos para o desenvolvimento das crianças tem vindo a merecer o interesse dos educadores.
O número de crianças que sofrem maus tratos deste tipo, isto é, estão sujeitas a modelos de comportamento que podem comprometer a saúde, segurança, desenvolvimento e bem-estar e que são sinalizadas às comissões de protecção de crianças e jovens, tem vindo a aumentar.
Os maus tratos no sistema familiar nem sempre são visíveis e as suas possíveis facetas nunca são avaliadas simultaneamente nem a longo prazo. (J.F. Marmion). Os números muitas vezes não dão a dimensão do fenómeno dado que as violências familiares, exactamente porque são familiares, são menos visíveis. É, por isso, necessário ver para além dos números.
São também menos visíveis quando os comportamentos violentos se tornam banalizados através da sociedade da informação em que vivemos: no cinema, na televisão, nos jogos electrónicos e na internet.
Ou ainda porque se considera que a violência familiar é assunto interno da família e por isso para alguns pais faz todo o sentido que os filhos sejam punidos física ou psicologicamente através da humilhação, da desvalorização, da destruição da autoestima, do insulto, da falta de cuidados de alimentação, higiene, de afecto, o excesso de exigência nos estudos, e nas actividades das crianças...
Ou que assistam a comportamentos de violência doméstica de um dos progenitores em relação a outro ou dos dois, com discussões quotidianas que assustam as crianças e as enchem de medos. Medo de perder os progenitores, medo de estar em casa ou de voltar para casa.

Além disso, a investigação tem demonstrado que muitos comportamentos são adquiridos através da observação e imitação. A aprendizagem pode ocorrer por modelação, isto é, por observação de um modelo. Permite aprender rapidamente comportamentos complexos, que seriam adquiridos de forma mais lenta por outros processos.
A investigação de Bandura veio relevar que as práticas de modelação pelos pais influenciam o desenvolvimento das crianças, como se adquirem e desenvolvem os processos de linguagem e pensamento mas também como os princípios do auto-reforço podem ser usados para tratar vários problemas psicológicos.

Em entrevista, Karen Sadlier diz que "a violência conjugal é um mau-trato para a criança...
... diferencia-se violência conjugal e mau trato da criança, com a ideia de que se pode ser um bom pai mesmo sendo um cônjuge violento. No entanto, estudos norteamericanos mostram que as crianças testemunhas de violências conjugais estão em sofrimento. Pode ser psicológico mas também físico porque metade das crianças cuja mãe sofre violências são igualmente vítimas de castigo físico pelo pai ou companheiro da mãe.
Estas crianças  falam disso tanto menos quanto, em toda a violência familiar, se impõe a lei do silêncio"...

Por outro lado, parece que têm sido pouco eficazes as penalizações legais que são aplicadas também neste caso, dado o crescente número de situações, a sua invisibilidade e o facto de serem "familiares".
É por isso que a grande esperança na mudança passa sempre pela educação através de programas dirigidos à criança e aos pais. 

Decorreu no IPJ de Castelo Branco um colóquio sobre as realidades invisíveis, isto é, sobre a violência doméstica e as suas consequências.
Foi apresentada uma peça de teatro “ Não chove de baixo para cimaem que é retratada a vida de uma mulher que vive obcecada pelos traumas vividos na infância causados por uma mãe esquizofrénica. 
A peça mostra até que ponto esta mãe doente pode influenciar os comportamentos da filha.
Mas também de como é possível recuperar a saúde mental através do trabalho psicológico e dos contextos de vida que é possível encontrar quando estamos disponíveis para os procurarmos.
Felizmente, nem sempre estes modelos geram comportamentos irreversíveis e também nem sempre uma criança vítima se torna agressor.

Um país vale o que vale a qualidade de vida das suas crianças e jovens (Armando Leandro).
Para se construir um país com qualidade, com valores éticos, morais e harmoniosos é necessário que os modelos comportamentais parentais sejam transmissores desses valores e não da violência conjugal, suficientemente grave em si, mas que acrescenta  mais violência porque não se trata apenas de um problema do casal mas de um problema que envolve toda a família.

14/03/13

Independência e autodomínio

                                
Ser pessoa implica passarmos pelo processo de nos tornarmos independentes e ao mesmo tempo termos capacidade de autodomínio.
Acontece que há um período da nossa vida em que se joga esta questão fundamental: aprendermos a ser independentes mas ao mesmo tempo sermos capazes de ter autodomínio.
Esta luta interna e com os nossos educadores acontece mais ou menos entre 1 ano e 3 anos de idade.
Muitos problemas que surgem nessa altura, ou no futuro, nascem nos acontecimentos críticos normais do desenvolvimento destes anos. 
Muitos problemas de comportamento que identificamos então ou mais tarde, na escolaridade, e que têm vindo a ser estudados são problemas em que as crianças não aprenderam a lidar com a sua independência e autodominio.
Estes problemas são de tal modo graves que as crianças são descritas como crianças tirânicas ou como pequenos ditadores...
Efectivamente algumas dessas crianças apresentam comportamentos tirânicos, isto é, comportamentos de opressão, crueldade e abuso de poder em relação aos outros, em especial aos pais e aos educadores, no jardim de infância e na escola.
Já presenciámos ou ouvimos descrições de comportamentos deste tipo em crianças destas idades: Vai para a cama quando quer, come o que quer e quando quer, quer que lhe comprem tudo, sabe dramatizar o quotidiano, sabe utilizar a raiva, os outros são mais objectos do que sujeitos, quer ficar em casa, quer sair à rua...
Elas dominam completamente o ambiente familiar desde manhã, quando se levantam, até ao deitar  e seguem todos os rituais de manipulação de que se lembram.


O que aconteceu entre um ano e três anos para se chegar aqui ? Com alguma frequência pais e mães chegam à consulta desesperados e não sabem o que hão-de fazer com os filhos, já tentaram de tudo e não conseguem lidar mais com eles. E estão dispostos a abdicar da educação deles, às vezes ainda muito pequenos: " vou mandá-lo para um colégio", seja lá o que isso signifique na cabeça dos pais... 
O dia a dia da família torna-se insuportável quando vivemos com crianças assim. 
Há, de facto, crianças que têm dificuldade em lidar com a sua independência e dificuldade em adquirir independência sem perda da autoestima e com controle das frustrações.
Mas há alguma coisa que se possa fazer ?
Há sempre formas mais adequadas de educar e formas erradas. As formas erradas são a permissividade excessiva e o autoritarismo. Uma não é alternativa ao outro porque são as duas erradas. 
A forma mais adequada é a que tem em conta as etapas de desenvolvimento da criança. As birras, p.ex.,  fazem parte do processo de desenvolvimento, assim como  a aprendizagem da frustração, a compreensão de que há situações que não pode fazer para sua segurança, há medos que não existem de verdade, a  locomoção é cada vez mais segura  e fonte e segurança...
Muitas dos comportamentos desta idade fazem parte destas aprendizagens e não que isso acontece por serem boazinhas ou mazinhas.Têm capacidade de imitação extraordinária. Cada criança pode imitar sequências inteiras de um determinado comportamento do pai ou da mãe.
E é assim que vai ganhando autonomia e aprendendo os comportamentos ajustados.  A criança está a  aprender a ser independente,  a aprender a importância dos  limites, aprender a brincar, aprender com os desejos e a fantasia, aprender a identificação com os pais. (Brazelton)
"Como é compensador quando os filhos têm condições para gostarem dos pais como de pessoas separadas - não como uma extensão de si próprios!" (Brazelton)


13/06/12

A educação de Churchill

Em tempo de revisão do estatuto do aluno, há quem defenda o regresso à força para disciplinar os alunos na escola.
É interessante verificarmos que de vez em quando este assunto vem à baila sempre que aparece um caso mais grave ou com maior destaque na comunicação social. Também, normalmente, envolve a educação em Inglaterra. Já Montessori falava nisso.
Ao ler a biografia de Winston Churchill * notamos que a sua educação foi um falhanço como aluno e tinha sentimentos terríveis sobre a sua meninice e adolescência.
Relata os anos penosos e de infelicidade das escolas agressivas, repressivas e penalizadoras por onde passou. Os anos de escola são uma “mancha cinzenta e turva” na sua vida, dizia.
Churchill foi um péssimo aluno, chumbou vários anos e hoje seria considerado um aluno problemático e, talvez, com perturbação do comportamento.
Churchill resistiu à subjugação a que as escolas sujeitavam os alunos naquela altura, resistiu à violência do sistema disciplinar das escolas inglesas.
Com sete anos, ingressou no primeiro internato, a escola preparatória, e com 13 anos no segundo, a public school. Ambas as escolas eram verdadeiros infernos de sovas e paraísos de camaradagem; e, em ambos os casos, o objetivo principal consistia em quebrar os pupilos e em os reconstruir de uma forma diferente. Quando os graduados destas famosas escolas inglesas saiam com 18 ou 19 anos para Oxford ou Cambridge, possuíam uma segunda personalidade: normalizada, não sem atrativos, mas artificial e semelhante às árvores podadas dos jardins barrocos franceses.

E Churchill prossegue nas suas memórias: A referência do diretor de turma a castigos verificar-se-ia demasiadas vezes. Sovas com uma vara de vidoeiro, à moda de Eton, estavam na ordem do dia na St James School. Mas estou convencido de que nenhum aluno de Eton, e certamente nenhum aluno de Harrow, recebeu alguma vez sovas tão grandes como as que o nosso diretor mandava dar aos rapazes que estavam à sua guarda. A severidade do tratamento superou tudo o que seria tolerado em casas de correção do Estado. As leituras de anos posteriores permitiram-me obter explicações sobre as possíveis causas de tamanha crueldade.»
O pequeno Churchill tinha então sete anos de idade. Ficou dois anos na St. James School. Não aprendia nada, pelo que levava repetidamente sovas terríveis. E continuava a não aprender. Esmagou o chapéu de palha do diretor com os pés (e podemos imaginar quais terão sido as consequências deste ato).
Sibilava e começou a gaguejar; os pais não se davam conta de nada quando vinha passar as férias a casa e mandavam-no novamente para o seu inferno -ao longo de dois anos. Por fim, adoeceu, ainda não tinha chegado aos nove anos de idade, e os pais, assustados, mandaram-no para uma escola diferente: em Brighton, por causa dos ares do mar.
A escola em Brighton era um pouco menos distinta e um pouco mais branda, mas do mesmo estilo. Fosse como fosse, o estrago estava feito. O jovem Churchill também não aprendeu nada em Brighton, nem mais tarde em Harrow, onde nem devia ter entrado, pois entregou nos exames de admissão folhas em branco para as disciplinas de Latim e Matemática. Porém, o diretor achou que não se podia recusar a admissão ao filho do célebre Lorde Randolph Churchill. Winston Churchill seria em Harrow um eterno repetente. Apenas se destacou em Inglês, a sua mente fIcaria «toldada» em relação a tudo o resto. Mesmo no desporto escolar era um falhado obstinado: detestava criquete e futebol da mesma forma que odiava o Latim e a Matemática. E também não faria aí quaisquer amigos. Ficou evidente que o coração de Winston Churchill se tinha endurecido em relação à escola, o ensino obrigatório e o seu estilo de educação. Tinha entrado numa greve interior, à qual se manteve apaticamente fiIel durante 12 anos ao todo. A escola dispendiosa foi mal empregue nele. Saiu da escola sem ter sido domado ou marcado por ela, sem qualquer educação ou formação... 
(pags 18-25)
Com este resultado na educação, todos os prognósticos de insucesso sobre Churchill iam sair errados. O falhanço na escola não significou o falhanço de uma vida.
A relação e a admiração com o seu pai viriam transformá-lo no grande estadista que conhecemos. Foi afinal um vencedor.

*  Haffner, S.(2011), Churchill, Expresso

28/02/12

Multitarefa e distracção


A maior parte dos alunos manifesta problemas de atenção e quase a totalidade dos que apresentam dificuldades de aprendizagem têm associada falta de atenção.
A falta de atenção é o sintoma referido com mais frequência pelos professores.
Sabemos que a atenção depende de factores internos que têm a ver com a maturação do sistema nervoso central. As áreas do cérebro de que depende a atenção são as que têm maturação mais tardia através do processo de mielinização das fibras nervosas.
Por isso muitas vezes exigimos aos alunos aquilo que eles não podem fazer por falta de maturação biológica, isto é, que estejam atentos quando não têm desenvolvimento suficiente para manifestarem esse comportamento.
Outro conjunto de factores tem a ver com o ambiente da escola e da sala de aula onde existem inúmeros factores distractores, para além do próprio e dos pares.
Hoje é necessário contar com distractores que não existiam no passado como, designadamente, esse objecto fascinante que dá pelo nome de telemóvel.
O telemóvel está na origem de grande parte dos problemas que existem na sala de aula: instabilidade, falta de atenção, problemas de comportamento, roubos, mentira e bullying.
Mas a pressão do consumo de outros gadgets a que as crianças e jovens estão sujeitos transformou a família e escola em espaços de merchandising: lápis e afias com todos os complementos, os estojos incríveis, as referências publicitárias de toda a espécie, os teck deck que são dos mais recentes distractores...
Mas podemos perguntar se não temos capacidade para utrapassar a falta de atenção porque também realizamos muitas actividades simultaneamente: ver televisão, conversar, comer, navegar na Net, falar ao telefone, usar meios de comunicação social, ler e estudar...
As crianças e jovens utilizam, particularmente, a capacidade multitarefa. Um estudo com crianças dos 7 aos 15 anos de idade comprovou as suas capacidades para executar mais de uma actividade ao mesmo tempo.
As meninas são mais multitarefa do que os meninos: 79% contra 70%.
É verdade que os gadgets podem contribuir para o desenvolvimento de certas capacidades como a psicomotricidade fina, a coordenação psicomotora e a criatividade mas não podemos esquecer que são perturbadores da atenção na sala de aula.
O trabalho dos pais e encarregados de educação deve incidir também nestas matérias: saber o que os filhos levam para a escola, e moderar esse comportamento se for caso disso.
A capacidade multitarefa não significa capacidade de estar atento na sala de aula e além disso pode até contribuir para um conhecimento superficial dos conteúdos.
O controlo da atenção na sala de aula começa no controlo daquilo que os alunos transportam para a sala de aula: não só as emoções equilibradas mas os objectos que não favorecem a distracção.