05/06/22

"Procuro a liberdade e a paz !", "Я ищу свободы и покоя!"

Saio sozinho para a estrada/Выхожу один я на дорогу

Saio sozinho para a estrada
Entre o nevoeiro brilha o caminho de pedra
A noite está calada, o deserto ouve a Deus
Estrela com estrela conversam

O céu está solene e maravilhoso
A terra dorme no esplendor do azul
Por que me dói tanto e me é tão árduo?
O que será que espero eu? De que lamento?

Não, da vida não espero nada.
E nem um pouco me lamenta o passado
Procuro a liberdade e a paz! /Я ищу свободы и покоя!
Gostaria de me esquecer de mim e adormecer

Mas não pelo frio sono do sepulcro
Gostaria de dormir assim para sempre
Para que no peito repousassem as forças da vida
Para que, ao respirar, se erguesse o peito em silêncio

Para que por toda a noite e o dia, acariciando o ouvido
Cantasse para mim uma voz doce sobre o amor
Para que sobre mim, eternamente em flor
Um carvalho escuro se debruçasse e sussurrasse.

Lermontov, 1841



Publicado pela primeira vez na revista Domestic Notes/Otechestvennye Zapiski (1843, No. 4). O poema foi musicado, em 1861, por Elizaveta Shashina. 
Leio neste poema a sensibilidade da vida - "as forças de vida" - em confronto com a inutilidade de todas as guerras mesmo as interiores. A harmonia maravilhosa entre a Natureza, Deus e o Homem, descrita com tanta tranquilidade, não devia ser quebrada. É isso que justifica que quando saímos para a estrada, para a vida, só a liberdade permite a escolha da felicidade... para ouvirmos "uma voz doce sobre o amor"... Tudo tão perto da humanidade e da compaixão e tão distante do ódio e da crueldade.




02/06/22

Saúde mental na escola - o lugar da compaixão

O sofrimento, e o sofrimento psicológico, faz parte da vida, mas muito do sofrimento é evitável ou pode ser minimizado. Para isso devemos investir no bem-estar como o modo normal de viver em sociedade *. 

É desolador que tenha acontecido mais um massacre numa escola primária dos EEUU em que um jovem de 18 anos assassinou 19 crianças, entre sete e dez anos, e 2 professoras.
Durante um tempo, voltamos à discussão sobre a questão das armas nos EEUU  e sobre a compreensão deste fenómeno como sintoma de mal-estar na sociedade. Depois cai no esquecimento e somos despertados para o problema quando outro terrível massacre acontecer.

Já sabemos que há um padrão de actuação nestas situações (Viviane Cubas). Assim sendo, podemos prever os factores de risco e perigo.
- A maioria dos casos violentos que resultam em mortes ocorreram durante períodos de transição como o início ou final das aulas ou durante o período de intervalo; ou início e fim do semestre;
- quase 50% dos agressores homicidas deram algum sinal de perigo antes do evento, através de bilhetes ou ameaças;
- Entre as crianças e os jovens que foram agressores, 20% haviam sido vítimas de bullying e 12% tinham expressado ideias ou comportamentos suicidas;
- A facilidade com que os jovens adquiriam as armas usadas nos massacres;
- A cultura norte americana: intensa competição nas relações interpessoais, onde prevalece a valorização da cultura do forte e ridicularização do fraco parece ser também um traço marcante em muitas escolas;
- Não se pode refutar a possibilidade de envolvimento de pessoas com perturbações mentais; 
- O processo de socialização, os padrões de comportamento, valores e crenças... 

Apesar de já se saber isto, mais uma vez se repetiu o padrão: A compra de armas, a informação nas redes sociais, uma vítima de bullying...
Se já se conhece o modus operandi, porque não temos capacidade social para travar o acting out de um jovem que o leve a desistir do seu comportamento, da sua compulsão de levar por diante um massacre?
Neste caso parece que tudo falhou. Não será apenas a velha questão da venda de armas de guerra a qualquer pessoa, coisa, aliás, que para nós na Europa seria impensável. Em qualquer sociedade, é necessário agir na prevenção, na qualidade de vida, no bem-estar, numa vida familiar efectiva, seja qual for a sua estrutrura... 

Em suma, é necessário desenvolver a compaixão das pessoas para podermos criar uma sociedade que se diga civilizada.
“... quanto mais cultivarmos a bondade, tanto menos teremos de lidar com a ira e o ódio. É como termos um sistema imunitário forte...”
É muito importante o trabalho feito nas escolas sobre bullying e ciberbullying... mas também devíamos estar a aprender a compaixão, que é “diametralmente oposta à crueldade”, sermos felizes com a felicidade dos outros, sermos capazes de nos colocarmos no lugar dos outros.
Desta forma, este poderá ser o acompanhamento de que um jovem necessita para poder inibir o acting out e passar a “já posso imaginar que faço”.

Até para a semana.

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* Tento compreender os comportamentos e, para isso, volto a: Crescer vazioInteriores, Preciso de ti  (Pedro Strecht), A bondade e o perdão (Amaral Dias)Eu já posso imaginar que faço (Amaral Dias/J. Sousa Monteiro) e Emoções destrutivas e como dominá-las - Um diálogo científico com o Dalai Lama (Daniel Goleman).




01/06/22

Saúde mental na escola


Quero relevar alguns aspectos que me parecem interessantes no estudo sobre a "Saúde Psicológica e Bem-estar". * feito na sequência da pandemia de covid-19, para perceber o efeito na comunidade escolar.

Os resultados em relação aos alunos:
- um em cada três alunos considerou que a vida na escola piorou, um quinto achou que a vida com os amigos também ficou pior e 28,4% referiu que a vida consigo mesmo também se agravou. Já a vida em família manteve-se inalterada para a maioria (56,7%);
- Cerca de um terço dos alunos das escolas portuguesas tem sinais de sofrimento psicológico e défice de competências socioemocionais;
- Os problemas de saúde mental agravam-se à medida que os alunos crescem, até chegarem ao 12.º ano, altura em que são relatados mais problemas;
- Cerca de um quarto das crianças são irrequietas (23,2%) e distraem-se com facilidade (24,9%);
- Entre os alunos mais velhos, mais de um quarto disse sentir tristeza (25,8%), irritação ou mau humor (31,8%) e nervosismo (37,4%) várias vezes por semana ou quase todos os dias;
- Embora a maioria refira que raramente ou nunca, sente uma tristeza tão grande que pareça não aguentar (67,1%), quase um terço admitiu sentir essa tristeza pelo menos mensalmente (32,9%).

Em relação aos professores, os investigadores concluíram: 
- Que o ambiente da escola e a qualidade da gestão dos agrupamentos escolares parecem estar associados ao sofrimento psicológico dos docentes, uma situação também agravada pela idade e tempo de serviço;
- São muitos os que se sentem nervosos, irritados ou de mau humor, havendo mesmo quem admita ter dificuldade em adormecer (48,5%);
- Um em cada cinco professores (20%) disse sentir-se “tão triste que parece não aguentar”;
- Os docentes com mais idade e mais tempo de serviço relatam menor qualidade de vida, mais sintomas de depressão e ansiedade, menor perceção de apoio por parte da direção do agrupamento e um ambiente escolar menos favorável;
- Mais de metade dos docentes disse ter-se sentido nervoso (55,3%), triste (53,4%), irritado ou de mau humor (51,3%), com frequência semanal ou superior, nos últimos tempos.

Estes dados são suficientes para nos indicarem a necessidade de concretizar nas escolas projectos preventivos que desenvolvam competências emocionais nos alunos, projectos que desenvolvam as virtudes e as forças dos alunos... **
Para isso, são necessários recursos humanos, principalmente psicólogos, nas escolas e nos cuidados de saúde primários para que possam atender crianças e jovens em sofrimento psicológico.
Era interessante que no sector de educação fossem concretizadas as propostas, feitas em 2020, pelo actual ministro da economia Costa Silva, na Visão estratégica para o Plano de Recuperação Económica de Portugal 2020-2030. ***


Até para a semana



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* Estudo nacional realizado pela primeira vez e pedido pelo Ministério da Educação sobre a saúde psicológica e bem-estar da comunidade escolar. Participaram no estudo 8.067 crianças e adolescentes que frequentam escolas portuguesas, desde o pré-escolar até ao 12.º ano e 1.457 professores, na sua maioria mulheres (81,8%); É um trabalho de parceria entre a Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência, Direção-Geral da Educação, Programa Nacional de Promoção do Sucesso Escolar, Equipa Aventura Social/ ISAMB, Universidade de Lisboa, Ordem dos Psicólogos Portugueses e Fundação Calouste Gulbenkian, que teve a coordenação científica de Margarida Gaspar de Matos (Equipa Aventura Social/ ISAMB, Universidade de Lisboa).

** Por ex.: iniciativa muito interessante: ManifestaMente.

*** Por ex.: "Programa de rejuvenescimento do corpo docente e de formação de professores."
"Investir num programa de reformas antecipadas negociadas com os professores mais idosos e alargar o recrutamento de novos professores jovens. O programa deveria ser de adesão voluntária e os modos de acesso à carreira pelos novos docentes deveriam ser revistos. Reformar e financiar o sistema de formação de professores em todos os domínios: na formação de base, na formação em exercício e na formação contínua. O programa deveria ser desenvolvido em negociação com as instituições do ensino superior implicadas na formação de professores, num tempo curto, para poder ter efeitos no processo de rejuvenescimento do corpo docente, assegurando que esse rejuvenescimento seria também um momento de requalificação da profissão."







28/05/22

Dos meus livros de cabeceira



 


O SIGNIFICADO DAS "F. de E."

Não para excluir ou isolar, ou separar os maus da sua massa 
            formidável (até para os expor), 
Mas para acrescentar, reunir, completar, prolongar - e celebrar o 
            imortal e o bem.

Altivo este canto, as suas palavras e o seu alcance, 
Para abranger vastos reinos do espaço e do tempo, 
A evolução - o que se acumula - o crescimento e as gerações.
Iniciado na minha juventude já amadurecida e sempre continuado,
Vagueando, indagando, ocupando-me de tudo - atento à guerra,
            à paz, ao dia e à noite,
Nunca, nem mesmo por uma breve hora abandonei a minha tarefa, 
Termino-a aqui na doença, na pobreza e na velhice.

Canto a vida, mas presto muita atenção à morte:
Hoje a sombria Morte segue os meus passos, o meu corpo sentado,
            há muitos anos,
Por vezes aproxima-se muito, e olhamo-nos um ao outro.

Walt Whitman


22/05/22

Dias de gospel

Elvis Presley - Put Your Hand in the Hand 



Put your hand in the hand of the man Who stilled the water
Põe tua mão na mão do homemque acalma a água
Put your hand in the hand of the man Who calmed the sea
Põe tua mão na mão do homem que acalma o mar
Take a look at yourself and you can look at others differently
Olha para ti e podes ver os outros de forma diferente
Put your hand in the hand of the man from Galilee 
Põe tua mão na mão do homem da Galileia.

My momma taught me how to pray 
Minha mãe ensinou-me a rezar 
Before I reached the age of seven
Antes de eu chegar aos sete anos
When I'm down on my knees 
Quando estou de joelhos 
That's when I'm closest to heaven
É quando estou mais perto do céu
Daddy lived his life, two kids and a wife 
O pai viveu sua vida, dois filhos e uma esposa
Well you do what you must do
Bem, tu fazes o que deves fazer
But he showed me enough of what it takes 
Mas ele mostrou-me o suficiente do que é preciso 
To get me through, oh yeh!
Para me fazer passar, oh yeh!



Vivemos dias de grande sofrimento. São, sem dúvida, dias em que é necessário  acalmar a dor  como as ondas do mar. Talvez seja possível acalmar o sofrimento  neste mundo louco em que vivemos.

O mundo da música gospel teve em Elvis Presley um dos maiores divulgadores.
Com muitas versões, como a do P. J. L. Borga, "Put Your Hand in the Hand" é uma canção gospel composta por Gene MacLellan e gravada pela primeira vez pela cantora canadiana Anne Murray (álbum Honey, Wheat and Laughter)






 

19/05/22

Populismo


              
         

O populismo é hoje um dos maiores desafios para a democracia. O Papa Francisco na carta encíclica Fratelli Tutti, refere: “nos últimos anos os termos “populismo” e “populista” invadiram os meios de comunicação e a linguagem em geral, perdendo assim o valor que poderiam conter para compor uma das polaridades da sociedade dividida."
Tampouco o populismo ajuda a compreender que a sociedade é mais do que a mera soma de indivíduos. “A verdade é que há fenómenos sociais que estruturam as maiorias, existem megatendências e aspirações comunitárias; além disso, pode pensar-se em objetivos comuns, independentemente das diferenças, para implementar juntos um projeto compartilhado; enfim, é muito difícil projetar algo de grande a longo prazo se não se consegue torná-lo um sonho coletivo. Tudo isto está expresso no substantivo “povo” e no adjetivo “popular”. 
“Povo não é uma categoria lógica nem uma categoria mística no sentido de que tudo o que faz o povo é bom ou no sentido de que o povo seja uma entidade angelical. É uma categoria mítica”... “Pertencer a um povo é fazer parte de uma identidade comum, formada por vínculos sociais e culturais. E isto não é algo de automático; muito pelo contrário: é um processo lento e difícil... rumo a um projeto comum.” (pag. 95-99)

Há líderes que têm capacidade para interpretarem o sentir do povo, mas outros que degeneram este sentimento. Falam em nome do povo mas desprezam as pessoas e os indivíduos concretos.
Os regimes populistas, um pouco por todo o mundo, têm-se instalado no poder, tanto à esquerda como á direita. Partilham esta dicotomia de se considerarem povo, falarem e agirem em nome do povo, fazendo a clivagem com os outros: o antipovo (Gloria Alvarez), passando a dirigir ditaduras que não respeitam os adversários políticos, liquidam os opositores e prendem manifestantes...

Nos nossos dias, o populismo está nas mais diversas manifestações sociais e políticas mesmo nas mais improváveis e, aparentemente, inocentes.
“Hannah Arendt, citada por Bernard Crick (pag. 86-91), distinguiu “povo” de “multidão”. O povo pretende ser uma representação politicamente eficaz enquanto a multidão odeia a sociedade da qual foi excluída.
O Big Brother, por ex., é um jogo controverso e estupidificante pelo seguinte: 
- cria a ilusão de naturalismo. Reconhecemo-nos em pessoas que fazem aquilo que nós costumamos fazer ...
- dá ao espectador um poder de sentenciar: a ilusão de participação democrática e do poder popular...
- atrai uma vasta multidão para ver ao vivo as expulsões daqueles em que votaram 
- finalmente, e ao contrário do Big Brother de Orwell não era principalmente para o entretenimento mas para vigiar as pessoas.
O programa Big Brother pretendia ser a voz do povo ou da multidão vazia. As pessoas não podem fazer aquilo que querem? E, portanto, não são necessários conhecimento, discussões racionais, recurso a autoridades nem experiência... *
Na sociedade totalitária de Orwell  “O GRANDE IRMÃO ESTÁ A VIGIAR-TE” e a polícia do pensamento interessa-se por controlar a nossa mente e a nossa vida. Como o populismo.



Até para a semana.

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* Isso é para as elites. Na definição de populismo encontramos esta dicotomia. "Populismo é um conjunto de práticas políticas que se justificam num apelo ao "povo", geralmente contrapondo este grupo a uma "elite". Não existe uma única definição do termo, que surgiu no século XIX e tem obtido diferentes significados desde então". ( Wikipédia )







14/05/22

Tempo de esperança

Sambinha para Gorbatchov. Os Afonsinhos do Condado

1985-1991. Um tempo de mudança e de esperança para o mundo. 







13/05/22

Revoluções, guerras e pessoas



A visão de Gorbatchov para a transformação da sociedade soviética trouxe grandes expectativas. Perestroika e glasnost (reestruturação e transparência) foram a forma que ele encontrou para mudar aquela sociedade. De alguma maneira, de forma civilizada, as pessoas que sofreram a ditadura comunista tinham a possibilidade de optar por uma vida de liberdade e democracia.


Como sempre acontece, a vida das pessoas é  muito mais complexa do que Gorbatchov podia prever. Porquê tantas dificuldades? Diz-nos Svetlana Aleksievitch, O fim do homem soviético, prémio nobel da literatura de 2015: "O comunismo tinha um plano louco - transformar o Homem "antigo", o vetusto Adão. E isso foi conseguido... foi talvez a única coisa que se conseguiu. Em pouco mais de setenta anos, no laboratório do marxismo-leninismo criou-se um tipo humano especial - o Homo sovieticus."


A manipulação social a  que toda a  sociedade ficou sujeita durante várias décadas tinha dado resultados. Para mudar esta sociedade, ou outra, era necessário libertá-la do condicionamento. O que estava em causa não era apenas a mudança  de uma  economia  socialista para o capitalismo, mas a mudança da cultura,  da vida de família, das interacções entre as pessoas, da educação das crianças, em suma, mudar o próprio indivíduo condicionado a um regime de violência e de medo.

Fazer o luto de uma perda, a perda do modo de vida do homem soviético, era fazer o luto da perda de uma perspectiva de desenvolvimento pessoal, baseada em ideologias, fantasias e emoções, baseada nas pequenas coisas do dia a dia que mesmo que fossem poucas e de fraca qualidade eram dadas como adquiridas.

Era um modo de vida que morria e para o qual era necessário tempo suficiente para que houvesse mudança. Porém, a euforia do consumismo, o poder do dinheiro, económico e social, aliado ao poder político substituiu a nomenklatura pelos oligarcas que passaram a gestores das grandes empresas principalmente do sector energético...


A perestroika trouxe o desencanto. A  adaptação à nova situação continua a fazer-se com muita dificuldade.

Para além das análises geoestratégicas que se possam fazer é interessante analisar o processo que se desenvolveu e a  situação complexa vivida após a perestroika.

A perestroika foi a oportunidade perdida para fazer um caminho de democratização e liberdade com repercussão a nível das pessoas e dos seus comportamentos.

Algumas pessoas aproveitaram este tempo de liberdade para perceberem as vantagens dessa liberdade mas outras tiveram uma  atitude vingativa, e outras a da divisão do que restava do império.


A confusão entre uma sociedade de bem-estar e sociedade consumista está bem patente  nos  testemunhos de pessoas concretas relatados em O fim do homem soviético - um tempo de desencanto.

A frustração da vida sob o regime soviético, a miséria, a falta de liberdade, as denúncias dos vizinhos e familiares, as condenações injustificadas, tudo o que contribuiu para esta frustração quando esperavam melhorar a vida não teve melhor resultado com a perestroika ...

E então surgiu o salvador... Porém, nenhuma das teorias geo-estratégicas,  interessantes ou não, pode servir de  justificação ou pretexto para invadir países e destruí-los. Mas foi o que aconteceu. Os cenários viraram realidade trágica a 24 de Fevereiro e o sofrimento das pessoas voltou.

 


 

Até para a semana.





 

 

  

 

 

 

04/05/22

"Porquê a guerra ?"

 Image illustrative de l’article Pourquoi la guerre ?



É a pergunta que qualquer ser humano poderá fazer perante a tragédia da guerra a que estamos a assistir. É a pergunta que fazem, em primeiro lugar, as principais vítimas,  os ucranianos, os que sofrem, choram, perderam tudo, família, filhos, pais, casa, foram violados, feridos...
O que leva um ser humano a cometer todo o tipo de violência contra as pessoas, crimes contra a humanidade?

Foi a interrogação de Konrad Adenauer, após a 2ª guerra mundial, ao perguntar: como foi possível ter acontecido?
Adenauer, escrevia nas suas memórias: "A democracia não termina num regime parlamentar; tem que estar apoiada, sobretudo, na consciência do indivíduo...
Democracia é um conceito universal que tem as raízes na dignidade, no valor e nos irrevogáveis direitos do indivíduo. Quem, de verdade, pensa democraticamente, deve sentir respeito pelo outro, pelos seus elementares desejos e aspirações."

Foi também a pergunta que Einstein fez a Freud. Porquê a guerra? Existe alguma forma de livrar a humanidade da ameaça de guerra?
A explicação poderá ser de ordem psicológica? Podemos explicar a guerra pela personalidade dos líderes que surgem, periodicamente, nos diversos países?
Obviamente que não surgem por geração espontânea. Por isso, temos que nos interrogar se estamos perante indivíduos com perturbações psicopatológicas como a perturbação anti-social de personalidade ou a perturbação narcísica de personalidade, o que significa que temos de nos interrogar sobre o seu desenvolvimento psicológico e as aprendizagens feitas ao longo da sua vida. 
Em 1932, Einstein, propôs a Freud a troca de correspondência, pública, sobre o problema da paz.
Quais são os factores psicológicos de peso que paralisam tais esforços a favor da paz?
Freud recusa que a psicanálise possa caucionar as considerações sobre o bem e o mal inscritos no inconsciente. Há um dualismo pulsional: pulsão de vida e pulsão de morte mas seria desajustado conotar moralmente estas pulsões. Uma é tão indispensável quanto a outra e os fenómenos da vida têm acções conjugadas das duas.
Freud acha que não faz sentido querer suprimir as tendências agressivas dos homens.
Mas pode-se lutar contra a agressividade humana pelo reforço de Eros; tudo o que leva às ligações entre os homens não pode ser senão contra a guerra.
Tudo o que desenvolva estes importantes traços comuns convoca sentimentos partilhados, isto é, identificações. A psicanálise recomenda o reforço das ligações pulsionais pelo amor e pelas identificações.
Para Freud, a guerra é uma regressão, um regresso à violência das origens e uma destruição da aptidão profunda do homem pela civilização.
A cultura é certamente destruída pela guerra mas ela é também o baluarte que promove o desenvolvimento do ser humano e que trabalha contra a guerra.

Todos sabíamos o que podia acontecer: o que não sabíamos é que no sec XXI fosse possível regredir tanto às antigas fórmulas desumanas e contra as regras internacionais.
Há violência entre as nações porque há violência dentro de nós. Porquê a guerra? Porque não somos capazes de sermos civilizados e de nos tornarmos pessoas cultas. 


Até para a semana.